Escolha, utilização e novas possibilidades

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE LETRAS ESTRANGEIRAS MODERNAS CURSO DE LETRAS - LICENCIATURA EM LÍNGUA INGLESA MÁRCIA MARIA DE SOUZA O RESSOAR DA MÚSICA NAS AULAS DE INGLÊS: Escolha, utilização e novas possibilidades JOÃO PESSOA - PB MARÇO DE 2014

2 MÁRCIA MARIA DE SOUZA O RESSOAR DA MÚSICA NAS AULAS DE INGLÊS: Escolha, utilização e novas possibilidades Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Licenciatura de Letras em Língua Inglesa, da Universidade Federal da Paraíba, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciada em Letras - Língua Inglesa, sob a orientação da Profª Drª Poliana Dayse Vasconcelos Leitão. JOÃO PESSOA- PB MARÇO DE 2014

3 S729r Souza, Márcia Maria de. O ressoar da música nas aulas de inglês: escolha, utilização e novas possibilidades / Márcia Maria de Souza.-- João Pessoa, f. Orientadora: Poliana Dayse Vasconcelos Leitão Trabalho de Conclusão de Curso - TCC (Graduação) UFPB/CCHL 1. Língua inglesa e música. 2. Música - motivação - aprendizagem - língua inglesa. 3. Música na sala de aula. UFPB/BC CDU: 802.0:78(043.2)

4 O RESSOAR DA MÚSICA NAS AULAS DE INGLÊS: escolha, utilização e novas possibilidades Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Letras em Língua Inglesa da UFPB, como requisito parcial à obtenção do grau de licenciatura em Letras Inglês. Aprovada em: 18 de março de Banca Examinadora: Profª Drª Poliana Dayse Vasconcelos Leitão (Orientadora) Profª Drª Carla Lynn Reichmann (Examinadora) Profª Ms Mariana Perez Gonçalves da Silva (Examinadora)

5 Dedico este trabalho à minha mãe, meu irmão e meus amigos.

6 Como o amor, o apelo da música é universal. E seus ritmos expressam todas as estações da alma. O homem não sabe o que diz o pássaro ou o córrego ou as ondas ou a chuva. Mas seu coração percebe misteriosamente o sentido de todas essas vozes, que ora o alegram, ora o entristecem. (Khalil Gibran, A Música)

7 AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, a Deus, por ter me dado a vida e por ter permitido que eu cursasse o curso de Letras. Agradeço imensamente à minha mãe e ao meu irmão por todo apoio, ajuda e companhia. Agradeço muito a todos os meus amigos, em especial à Bianca, minha grande amiga ao longo de todo o curso, à Paloma, por toda ajuda logo no começo dos meus estudos na universidade, à Avena que me indicou para minha primeira experiência como docente, à Taís, por me ajudar na coleta de dados, à Iara, pela companhia. Enfim, a todos os meus amigos presentes ou distantes, mas sempre em minha memória. Agradeço também à professora Poliana por me orientar tão bem neste trabalho, à professora Célia que tanto me incentivou a fazer parte desta profissão incrível, a todos os professores dos quais eu tive o privilégio de ser aluna desde os mais tenros anos de vida. Aos professores e escolas que abriram mão de seu tempo para participarem desta pesquisa, sem vocês este trabalho ficaria incompleto. Agradeço a todos que direta ou indiretamente me ajudaram ao longo desses anos dentro e fora da universidade, pois acredito que todos nós somos interligados e que de alguma forma nossas ações interferem na vida de cada ser existente na Terra. A todos, agradeço de coração e peço que sejam recompensados da mesma maneira. A todos, os meus eternos agradecimentos.

8 RESUMO A música, por ser um gênero textual que circula em vários ambientes, muitas vezes é uma grande motivadora para a aprendizagem de língua estrangeira, isto porque desperta a atenção e provoca curiosidade em conhecer o significado da letra da música. A música possui ainda a vantagem de ser um material que tem certa autenticidade, pois não sofre muitas alterações para tornar-se mais compreensível para os alunos. Muito se discute sobre a importância da música nas aulas de língua inglesa, porém pouco se sabe em relação a como ela é selecionada e trabalhada pelos professores, a forma como os alunos reagem a este uso e acerca das dificuldades envolvidas neste trabalho. Sendo assim, este trabalho tem como principal objetivo investigar como a música é usada na sala de aula, buscando identificar os objetivos e critérios estabelecidos pelos professores ao escolherem as canções, assim como as maneiras como o professor utiliza a música, os resultados e as dificuldades advindos do uso da música em sala de aula e também sugerir uma atividade que busca utilizar a música considerando não apenas a letra mas também a melodia. Para tanto realizamos uma pesquisa de campo, de caráter exploratório, na qual foi aplicado um questionário e em seguida foi realizada uma entrevista com os participantes. O mesmo questionário ficou disponível online, sendo respondido por professores que não foram entrevistados devido sua participação à distância. Com a análise dos dados, foi possível constatar que a música, nas aulas de inglês, ainda é considerada como um passatempo, como defende Gobbi (2001), e também como um pretexto para ensinar gramática, vocabulário ou listening, se distanciando da proposta de Costa (2005), que sugere um trabalho mais abrangente com a música. PALAVRAS - CHAVE: Música. Gênero textual. Língua inglesa.

9 ABSTRACT Music, due to the fact that it is a textual genre which circulates in various places, many times is a great motivator to learn foreign language, this because evokes attention and causes curiosity to know the meaning of the lyrics. Music also has the advantage of being a material which has a certain authenticity, because it does not suffer many modifications to become more comprehensible to students. Much has been discussed about the importance of music in English classes, nevertheless, little is known in relation to how it is selected and used by teachers, how students react to its use in the classroom and about the difficulties involved in this. This way, this paper aims to investigate how music is used in the classroom, by identifying the objectives and criteria established by teachers when they choose songs, as well as the ways how the teacher uses music, the results and difficulties of the use of music in the classroom and also suggest an activity which aims use music considering not only the lyrics but also the melody. To achieve this, we carried out a field research, with an exploratory approach, in which a questionnaire was applied and after this an interview was made with the participants. The same questionnaire was available online, being answered by teachers who were not interviewed because of their distance participation. With the data analysis, was possible to verify that music, in English classes, is still considered as a pastime, as defends Gobbi (2001), and also as a pretext to teach grammar, vocabulary or listening, drifting away from the proposal of Costa (2005), who suggests a more comprehensive use of music. KEYWORDS: Music. Textual Genre. English Language.

10 LISTA DE GRÁFICOS E TABELA Tabela 1:Quadro resumo do perfil dos professores...38 Gráfico 1: Uso da música em sala de aula...41 Gráfico 2: Razões para o uso da música em sala de aula...42 Gráfico 3: Recursos utilizados...43 Gráfico 4: Frequência de uso da música em sala...46 Gráfico 5: Estilos de música...49 Gráfico 6: Objetivos dos professores ao utilizarem músicas...51 Gráfico 7: Critérios estabelecidos pelos professores para escolha de canções...52 Gráfico 8: Atividades realizadas com música...53 Gráfico 9: Dificuldades no trabalho com música...57

11 SUMÁRIO INTRODUÇÃO NÃO EXISTE O EU SEM O OUTRO: A IMPORTÂNCIA DAS LÍNGUAS ESTRANGEIRAS Por que inglês? O predomínio do ensino da língua inglesa em relação às outras línguas Entre teoria e prática: as principais concepções de ensino e aprendizagem de língua estrangeira MÚSICA: DA COMPOSIÇÃO À APRESENTAÇÃO Por que usar música? Tirando a música do silêncio: como trabalhar a música em sala de aula A música nas aulas de inglês: um gênero que se transforma ANÁLISE DOS DADOS: ENTRE RUÍDOS E HARMONIAS UMA NOTA RESSOA MUDANÇA Professores como co-compositores do conhecimento: o perfil dos participantes Sintonizando-se com o gênero: o uso da música Do som para as letras: objetivos e critérios Preenchendo as lacunas do ensino de LI: atividades com a música Notas destoantes: as principais dificuldades ao trabalhar com música Fazendo dos ruídos uma possibilidade para uma nova canção: sugestão de atividade CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS ANEXOS APÊNDICES... 73

12 11 INTRODUÇÃO Com a globalização, o mundo está cada vez mais interligado. É impossível negar a convivência que temos com uma língua estrangeira, principalmente a língua inglesa, que está em nomes de estabelecimentos comerciais, como a palavra shopping, por exemplo. Termos de informática, como mouse, internet, também são palavras do inglês que foram incorporadas à língua portuguesa. Há centenas de produtos advindos do exterior e escritos nesse idioma; vocábulos relacionados à alimentação, por exemplo, hot dog, milkshake, cookies, cupcake, entre outros, podem ser vistos se vamos ao supermercado. Resumindo, existem inúmeros exemplos que podem comprovar que a língua estrangeira está bem presente em nosso dia a dia. Também é visível o fato que saber vários idiomas contribui para a obtenção de um melhor cargo e de melhores remunerações, assim como auxilia em viagens, leitura de artigos para pesquisa, e tantas outras vantagens. Porém, a importância do ensino de língua estrangeira não pode ser restrita ao fato de possibilitar uma utilidade prática. O ensino de língua estrangeira contribui muito mais ampla e significativamente para o desenvolvimento do indivíduo, pois é um instrumento importante para a formação de cidadãos, dando-lhes independência para saber usar a língua em qualquer situação e ensinando-lhes a respeitar a cultura do outro assim como a valorizar a sua própria. Além de produtos estrangeiros e de palavras em outro idioma, músicas estrangeiras também estão muito presentes no nosso cotidiano. Elas circulam nos meios de comunicação, nas ruas, nas lojas, ou em vários outros ambientes. Sendo assim, dependendo da canção, é possível que o contato com ela ocorra várias vezes, o que facilita uma maior exposição ao idioma. Mesmo que o ouvinte não entenda o que está sendo dito, pode se interessar pela música e cantá-la. Além disso, a melodia de uma música 1 pode despertar a atenção, os sentimentos, acalmar, relaxar, inspirar, contagiar e, muitas vezes, interligar o idioma e o aprendiz, que, na tentativa de entender o que fala a letra da canção, começa a se interessar em aprender a língua estrangeira. 1 Neste trabalho, adota-se a concepção de música como sendo um gênero textual constituído de letra e melodia e defende-se que esses dois aspectos sejam trabalhados em conjunto na sala de aula.

13 12 Em meio a várias barreiras que afastam o aprendiz da língua estrangeira, podese imaginar que o aluno está em uma margem do processo de ensino-aprendizagem e a língua estrangeira em outra e que, para interligá-los, existe a música estrangeira que faz a ponte, conduzindo, como um maestro, o aprendiz ao conhecimento de uma nova língua. Logo, é impossível não considerar a música como uma ponte capaz de guiar o aprendiz rumo a outro idioma. Este fato fundamenta a justificativa para este trabalho, pois a música é uma excelente ferramenta para o ensino da língua inglesa assim como de outras línguas estrangeiras, pois uma entre tantas outras vantagens, é que a música é lúdica e possibilita aulas mais dinâmicas. E muito se defende que o ensino de qualquer saber fica mais interessante para o aluno quando feito de forma dinâmica, utilizando a realidade deste como base para se construir conhecimentos, e a música, entre outras atividades, é uma maneira de tornar a aula mais atrativa e motivar os alunos. Assim, quanto mais se conhecer sobre esta ferramenta, melhor seu proveito em sala de aula. Em geral, em sala de aula, ainda é muito presente o estilo tradicional no ensino de língua inglesa, com aulas expositivas, cópias de conteúdo no quadro, repetições de regras gramaticais ou de frases prontas. E isso se reflete até mesmo quando se tenta modificar o estilo da aula: é como se ainda ficassem resquícios do expositivo. A música, por exemplo, pode ser trabalhada das mais variadas formas, porém, na maioria das vezes, é usada apenas como pretexto para explicar algum conteúdo gramatical, para passar o tempo, preencher lacunas, traduzir. Ou seja, o tradicional ainda permanece mesmo quando se poderia fugir dele. Pode-se justificar este posicionamento pelo fato de muitos docentes não terem um conhecimento musical muito ampliado e isso limita um trabalho mais eficiente com música. Muito se tem discutido sobre a importância da música em sala de aula de língua estrangeira e de outras disciplinas. Pereira (2007) aborda as crenças dos docentes ao trabalhar com música; Vicentini e Basso (2008) falam da possibilidade de se ensinar inglês através de canções e da eficácia do uso desse material didático; Gomes (2012) investiga o ensino crítico através das músicas; Santos e Pauluk (2008) também abordam a formação crítica e aquisição da língua por meio das canções; Lima (2010) discute o aspecto cultural das músicas; Francisco (2007) estuda como a música facilita o aprendizado da língua inglesa; Gomes e Chaves (2009), assim como Woyciechowski

14 13 (2005), através de relatos de experiências, contam como a música pode ser um material didático para motivar os alunos. Porém, pouco se sabe sobre como o professor escolhe as músicas e como trabalha com elas. Sendo assim, nossas questões de pesquisa buscam descobrir como as músicas são trabalhadas, que fatores interferem nesse trabalho, assim como na escolha das canções, além das barreiras encontradas e quais os benefícios ao se utilizar este material nas aulas de língua inglesa. Portanto, este trabalho tem como objetivo geral: investigar como a música é abordada no processo de ensino e de aprendizagem da língua inglesa. E como objetivos específicos: identificar quais são os objetivos e os critérios que o docente estabelece ao escolher uma música; enumerar as formas utilizadas pelo professor para abordar canções em salas de aula; identificar as dificuldades mais recorrentes e os principais resultados ao se trabalhar com música; sugerir uma atividade que trabalhe a música abordando letra e melodia. Para tanto, foi realizada uma pesquisa de campo, interpretativista, qualiquantitativa e de caráter exploratório. Os professores participantes ministravam aulas em escolas das seguintes esferas: públicas, particulares e de idiomas. Salienta- se que os professores participaram da pesquisa de forma presencial ou à distância. Os dados foram coletados através de questionários e entrevistas. Como o foco deste trabalho está em conhecer como a música é abordada nas aulas de língua inglesa, faz-se necessário trazer um breve panorama falando primeiramente da importância das línguas estrangeiras em geral e posteriormente da língua inglesa, em seguida elenca-se as principais concepções de ensino das línguas estrangeiras. Ambos assuntos serão discutidos no primeiro capítulo. No capítulo seguinte, aborda-se a música como gênero textual, sua importância na sala de aula, como ela deve ser utilizada e como ela é, de fato, utilizada nas aulas de língua inglesa. No terceiro capítulo, realiza-se a análise dos dados e sugere-se uma atividade com

15 música que busca fugir das atividades convencionais. Logo após, apresenta-se as considerações finais. 14

16 1. NÃO EXISTE O EU SEM O OUTRO: A IMPORTÂNCIA DAS LÍNGUAS ESTRANGEIRAS A língua estrangeira traz vários benefícios para o aprendiz: contribui para a memória, pois à medida que aprende algo novo o cérebro é estimulado (KATZ; RUBIN, 2000, p. 31); aumenta as chances de um melhor emprego e de melhores remunerações; amplia nosso conhecimento de mundo, já que através dela se pode conhecer novos países e consequentemente novas culturas, auxilia nos estudos, entre tantas outras vantagens. Porém, muitos consideram que aprender outro idioma é sinal de que não se valoriza a sua própria língua, entretanto, ocorre justamente o inverso. Como afirmam os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN): O distanciamento proporcionado pelo envolvimento do aluno no uso de uma língua diferente o ajuda a aumentar sua autopercepção como ser humano e cidadão. Ao entender o outro e sua alteridade, pela aprendizagem de uma língua estrangeira, ele aprende mais sobre si mesmo e sobre um mundo plural, marcado por valores culturais diferentes e maneiras diversas de organização política e social (BRASIL, 1998, p. 19). Um papel importante da língua estrangeira é fazer com que ao aprender sobre outras culturas, o aprendiz perceba-se como cidadão. Ou seja, além de aprender sobre outras culturas, o aluno aprende sobre a própria cultura. E, tendo noção da sua cultura, o aluno é capaz de se perceber como cidadão. Ao conhecer outras culturas, os alunos podem perceber que não existem comportamentos, costumes ou culturas melhores ou piores, como afirma Alvarez (2012): Ao conhecermos outros modos de categorizar a realidade, poderemos saber que a forma de categorização própria da nossa cultura não é universalmente válida, que ela é apenas a forma de fazê-lo na cultura em que estamos inseridos, pois há outras igualmente legítimas e operativas. (p ) Isto é, conhecendo outras culturas o aluno percebe que se o outro é estranho para ele, ele também é um estranho para o outro. Dessa forma, diminuem as chances de preconceito e de exclusão. E, através da língua estrangeira, é possível discutir os mais variados temas, inclusive sobre os diversos tipos de preconceito, como o cultural. Saber um outro idioma pode diminuir a exclusão do indivíduo da sociedade, que, cada vez mais, está globalizada. Sendo assim, aquele que não possui o conhecimento de uma ou 15

17 mais línguas acaba tornando-se excluído, não apenas do mercado de trabalho, mas da oportunidade de ampliar seu conhecimento como um todo. O conhecimento de um outro idioma é uma das grandes formas de se tentar diminuir as diferenças entre os povos e de fazer com que todos tenham consciência de que estão em uma nação maior chamada mundo. Questões políticas e econômicas provavelmente sempre irão exercer uma forte influência na escolha de uma língua estrangeira no currículo das escolas, porém, acima disso tudo, deve-se compreender que aprender uma língua torna os indivíduos ainda mais incluídos no mundo, pois eles não fazem parte apenas da nação em que vivem, mas, antes de tudo, eles fazem parte do mundo. Assim, de uma forma geral, toda língua estrangeira deve ser valorizada, superando-se ideias, como, por exemplo, de que existem idiomas mais fáceis do que outros ou a de que quem aprende outra língua está negando sua cultura. As línguas estrangeiras devem ser vistas justamente pelo contrário, pois muitas vezes é através delas, que se tem a possibilidade de perceber que todas as culturas têm algo que as tornam únicas, mas também algo que é partilhado por todas elas e que é nas diferenças que cada um existe e se complementa, pois não existe o eu sem o outro. 1.1 Por que inglês? O predomínio do ensino da língua inglesa em relação às outras línguas Dentre as várias línguas estrangeiras, a que mais se destaca no momento é a língua inglesa. Anteriormente, poucos países falavam inglês, como a Inglaterra e os Estados Unidos. Uma justificativa para esse predomínio é devido ao grande poder político e econômico desses países. Atualmente vários países falam a língua inglesa, seja como idioma oficial ou não, dessa forma existem cada vez mais novos falantes não nativos e de diversas regiões que estão falando inglês. Rajagopalan (1997, p. 226) apud Siqueira (2012, p. 338) declara não existir falante nativo do inglês e que esta ideia só é mantida devido ao grande comércio de ensino de inglês. Como a língua inglesa se insere neste contexto, ela é tida como sinônimo de requinte: marcas de roupas, nomes de lojas ou produtos, são, na maioria das vezes, em língua inglesa, justamente para dar a ideia de que é algo de qualidade. Este pensamento vem muitas vezes da crença de que tudo que é de fora é melhor do que o que é produzido no país de origem. 16

18 17 De acordo com os PCN (1998, p. 23), a relevância de um idioma é, em grande parte, influenciado, por questões hegemônicas, e o inglês inclue-se nesta posição devido ao poder e à influência da economia dos Estados Unidos. Este fato força várias pessoas a aprender a língua inglesa ou porque a escola só oferta este idioma, ou porque, para conseguir uma remuneração melhor, é necessário falar inglês, o que limita a aprendizagem do aluno em relação a outras línguas e, consequentemente, em relação a outras culturas. Mas nem sempre foi assim, em se tratando do Brasil, como cita Leffa (1999, p.3-16), no período dos jesuítas, o foco estava no grego e no latim; na Primeira República, após a Reforma de Fernando Lobo, o grego desapareceu e o inglês e alemão foram as opções ofertadas; antes do inglês, a língua estrangeira que predominava era a francesa, porém após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos como a potência econômica da época, fez com que a língua inglesa se sobressaísse (PINTO, 2002, p. 8). Ainda segundo Leffa (1999) em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) estabelece o ensino de língua estrangeira como obrigatório, mas não estabelece qual língua será ministrada, ficando a critério da comunidade escolar escolher qual será obrigatória e qual será optativa. E em 2005, a lei estabeleceu o espanhol como disciplina a ser ofertada obrigatoriamente pelas escolas de ensino médio com matrícula facultativa pelo aluno, sendo facultada também a implementação no ensino fundamental de 5ª a 8ª série. O inglês era uma língua pouco valorizada, mas, com o colonialismo, passou a se espalhar pelo mundo, pois para colonizar era necessário antes que os habitantes da colônia soubessem o idioma do colonizador, de outra forma o colonizador não poderia se estabelecer no local sem ser entendido e sem entender o outro. Atualmente o inglês é considerada uma língua franca e passa por uma fase em que ele não pode mais ser considerado como um idioma apenas da Inglaterra ou dos Estados Unidos, pois ele é falado em muitos lugares: a África do Sul, Austrália, Canadá, Irlanda, Jamaica, e tantos outros. Sendo assim, o inglês deve ser ensinado como um instrumento capaz de unir os diferentes povos, e não para priorizar certos povos como o padrão a ser seguido. Dessa forma, como afirma Siqueira (2012, p. 333), o inglês é uma língua do mundo, e como tal, todos os seus falantes devem ser considerados usuários legítimos. Ainda de acordo com o autor, também não é preciso se preocupar se o inglês é britânico, americano,

19 canadense, pois o falante que não pertence a um país anglofalante deve ter o seu falar valorizado tanto quanto o de um falante nativo. Entretanto uma língua que, por ser franca seria capaz de unificar e favorecer a inclusão de mais pessoas à sociedade em todas as suas dimensões, seja de trabalho, educação, lazer, acaba provocando efeitos contrários quando seu ensino é pouco valorizado nas escolas. O aprendizado de idiomas é tão limitado, que as escolas, em sua maioria, não conseguem fazer com que os alunos saibam pelo menos o básico da língua inglesa em relação às quatro habilidades, que são: a escrita, leitura, fala e compreensão auditiva. De acordo com Leffa (2009, p.123), a disciplina que tem mais possibilidade de excluir o aluno é a língua estrangeira, pois, além da falta de condições que possibilitem um ensino mais eficaz para todos, convive com falsas ideias de falta de patriotismo, ameaça à cultura e à língua materna, causando no aluno a autoexclusão. Ou seja, gera no aprendiz, consciente ou inconscientemente, a falta de motivação para o aprendizado da disciplina. Este fato é muito visível no discurso do aluno que pergunta o porquê de estudar inglês. Neste mesmo discurso, percebe-se que ele questiona a relevância de um segundo idioma para seu desenvolvimento como pessoa. Ou seja, além de ser excluído pelos problemas escolares, o próprio aluno se exclui, às vezes por não sentir utilidade em aprender inglês, outras por não se sentir capaz de aprender a língua estrangeira. Ainda segundo Leffa, a falta de conhecimento de um segundo idioma na atualidade é só mais uma forma de garantir a exclusão e preservar os bens que a sociedade reserva para seus poucos eleitos. Considerando o inglês como um conhecimento importante, torna-se ainda mais necessário o ensino deste idioma de uma forma que todos tenham acesso e em condições que possibilitem seu ensino em todas as escolas, sejam elas públicas, particulares ou de idiomas. Desta forma, o aluno não estará reproduzindo um discurso de exclusão e poderá ter mais autonomia para mudar sua realidade. 1.2 Entre teoria e prática: as principais concepções de ensino e aprendizagem de língua estrangeira O ensino-aprendizagem de língua estrangeira no Brasil ainda tem muitos resquícios da teoria behaviorista. De acordo com os PCN (1998, p. 57), a visão 18

20 19 behaviorista acredita que o melhor caminho para se ensinar qualquer língua é através da automatização dos hábitos linguísticos do novo idioma. As principais características dessa visão são a relação entre estímulo, resposta e reforço. Isto é, o professor expõe o conteúdo, em seguida, ele recebe a resposta do aluno e, por fim, o docente realiza a correção. Além dos exercícios de repetição e substituição, o erro é totalmente temido nesta concepção, devendo ser corrigido imediatamente para não interferir de modo prejudicial o aluno e nem a turma como um todo. Nessa concepção o aluno é tido como uma tábula rasa, ou seja, alguém desprovido de qualquer conhecimento prévio sobre a língua. Sendo assim, o foco é posto apenas no professor. Dentro desta categoria, se encaixam os seguintes métodos: Método da Gramática e Tradução, Método da Leitura, o Método Audiolingual e o Método Estrutural-Situacional. Outra concepção de ensino-aprendizagem é a cognitivista. Nesta concepção, divergindo do behaviorismo, o erro é tido como um elemento que indica que o aluno está elaborando hipóteses sobre a nova língua e indica que ele está aprendendo de acordo com seu nível de conhecimento. Isto porque o cognitivismo foca no aluno e nas estratégias utilizadas por este para aprender a língua estrangeira. Segundo os PCN (1998, p. 57), é muito comum o aluno criar estratégias como: supergeneralização, que ocorre quando ele aplica uma regra a uma situação em que não é possível; generalização, quando o aluno acredita que as regras servem para todos os contextos; e a hipercorreção, que acontece quando o aluno por medo de errar acaba corrigindo o que não era necessário. Entendendo estes processos de inferência, o cognitivismo considera o aluno não como uma tábula rasa, mas como alguém que já possui conhecimento anterior, seja apenas sobre sua língua ou sobre outras línguas as quais possa ter tido acesso. Pode-se enumerar como métodos que fazem parte da concepção do cognitivismo o Método Comunitário de Curran e o Método do Silêncio. Uma outra concepção de ensino-aprendizagem é o sociointeracionismo que, diferentemente das duas concepções anteriormente citadas, não considera a aprendizagem como resultado apenas da ação do professor ou do aluno, mas como resultado da interação entre professor e aluno e entre os alunos (PCN, 1998,p. 57). Ainda segundo os PCN (1998, p. 58), a aprendizagem é um processo que se dá pela negociação e controle dos participantes, até que o conhecimento seja adquirido. Assim, a aprendizagem acontece através da coparticipação social, em que um aluno interage

21 20 com um participante que mostra mais conhecimento para tal tarefa, tendo como papel mediador a linguagem. Atualmente a visão sociointeracionista é vista como a concepção que mais adequadamente explica como ocorre o processo de desenvolvimento humano e o fato desse processo ter a linguagem como seu principal mediador. Pode-se incluir nesta concepção o Método Funcional-Nocional, o Ensino Instrumental e a Abordagem Comunicativa. Existe certa distância entre teoria e prática, pois no dia a dia escolar nem toda teoria é aplicável. A realidade do ensino de língua estrangeira é muito conhecida. Sabese que é necessário implementar diversas melhorias, pois o cotidiano do professor é repleto de situações que podem interferir em sua prática, mesmo que ele tenha uma concepção de ensino que vise à plena aprendizagem do aluno. Alguns fatos que mais interferem na qualidade do ensino-aprendizagem são: docentes não fluentes no idioma que se propõe a ensinar; a falta de material didático; pouca carga horária; número excessivo de alunos por sala; falta de estrutura adequada, e entre tantos outros. Entretanto, o fator que pode interferir mais significativamente no processo de ensino-aprendizagem, é a visão do próprio professor sobre o que é língua, sobre como ela é aprendida e sobre como ela deve ser ensinada. Em meio a essas três concepções, o professor pode optar pela que vai ao encontro de sua concepção do que é língua e, mesmo diante de tantos empecilhos como os acima citados, pode tornar o ensino de língua estrangeira mais significativo e colaborar para a real aprendizagem do idioma pelos alunos. Atualmente, é recomendado que os docentes não restrinjam suas práticas apenas a um tipo de método. Brown (2001) apud Pereira (2006, p.31-32) defende a Abordagem Eclética, segundo a qual o professor deve fazer uso de tudo que for mais relevante de cada método e abordagem que conhecer e fazer uma adaptação de acordo com a turma. O mesmo deve ocorrer em relação aos gêneros textuais, pois os alunos devem ser expostos aos mais variados gêneros, para que, possam estar inseridos efetivamente nas práticas sociais de utilização da língua estrangeira, no nosso caso, a língua inglesa. No capítulo seguinte se discutirá sobre música, como ocorre sua utilização nas aulas e de que formas ela pode ser utilizada.

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