José António Pinto Ribeiro Ministro da Cultura. Caldas, cidade cultural. Berlengas Navegando para a Sustentabilidade NOVEMBRO 2008.

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1 9 NOVEMBRO 2008 entrevista José António Pinto Ribeiro Ministro da Cultura reportagem Caldas, cidade cultural destaque Berlengas Navegando para a Sustentabilidade

2 P r o p r i e d a d e CCDR LVT Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo Rua Artilharia 1, nº Lisboa Tel.: Fax: lvt.pt D i r e c t o r António Fonseca Ferreira D i r e c t o r e x e c u t i v o Carla Gomes Fo t o g ra f i a s : G u t o Fe r r e i ra [capa e con t ra c a p a ] P r o j e c t o e d i t o r i a l, d e s i g n e p r o d u ç ã o DDLX [www.ddlx.pt] José Teófilo Duarte [Direcção] Eva Monteiro Tânia Reis [Design] Rui Cardoso [Contacto] C o l a b o r a d o r e s Ana Sousa Dias Carla Amaro Carla Maia de Almeida David Lopes Ramos Eduardo Oliveira Fernandes Fernanda Câncio Pedro Almeida Vieira F o t o g r a f i a Guto Ferreira Câmara Ardente, produções fotográficas I m p r e s s ã o e A c a b a m e n t o Euro-Scanner T i r a g e m 2500 exemplares I S S N D e p ó s t i o L e g a l /05 L V T # 9 N o v e m b r o Q u a d r i m e s t r a l

3 índice Editorial Setúbal As novas oportunidades de desenvolvimento... 2 António Fonseca Ferreira Notícias Breves...4 Opinião O mérito da discussão...8 Fernanda Câncio Entrevista José António Pinto Ribeiro Ana Sousa Dias Reportagem Caldas, cidade cultural...22 Carla Amaro Territórios Defender e projectar definitivamente o nosso património edificado é determinante...32 Carla Maia de Almeida Destaque A Energia no ordenamento do território...38 Eduardo Oliveira Fernandes Património Jardim Botânico Seja um amigo também...40 Carla Maia de Almeida Destaque Berlengas Navegando para a sustentabilidade Pedro Almeida Vieira Roteiro Os Petiscos do fado...52 David Lopes Ramos Agenda Cultural...56

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5 Editorial António Fonseca Ferreira Setúbal As novas oportunidades de desenvolvimento Foi com muita satisfação que assisti, ao fim de tantos anos, a uma conjunção de esforços sem precedentes para reflectir sobre o futuro da Península de Setúbal, que se estendeu inclusivamente ao litoral alentejano. Refiro-me à Conferência «Oportunidades de Desenvolvimento», na qual participaram perto de três centenas de pessoas, entre presidentes e representantes de municípios, empresas, instituições de solidariedade social e organismos da administração central. Reuniram-se em torno de uma mesma ideia a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT), o Governo Civil de Setúbal, a Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS), a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDRA-A), a Associação de Municípios do Litoral Alentejano (AMLA), a Associação Empresarial da Região de Setúbal (AERSET), a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS) e a Associação das Empresas de Construção e Obras Públicas (AECOPS). A acrescentar a estes factos, temos as novas infra-estruturas de internacionalização decididas pelo Governo e de que Mário Lino detalhadamente deu conta na sua intervenção na Conferência desde a maior plataforma logística do país no Poceirão (impulso indispensável para o desenvolvimento portuário) ao novo aeroporto internacional e à travessia do Tejo, com ligação à rede ibérica e europeia de alta velocidade ferroviária. A região de Setúbal tem vivido tempos difíceis. Com o desmantelamento das tradicionais indústrias pesadas construção e reparação naval e siderurgia - deixando sequelas ambientais e económicas, e as cíclicas crises sociais. Instalou-se o cepticismo e um espírito negativo que têm de ser afastados de forma consequente. Os tempos que aí vêm auguram excelentes oportunidades de desenvolvimento. Mas estas só perdurarão, de forma sustentável, se os agentes regionais se unirem e cooperarem, no quadro de uma concertação estratégica de base territorial, transformando oportunidades em projectos, obras, riqueza e coesão social. A elevada representação do Governo, com o ministro das Obras Públicas a fechar os trabalhos e o secretário de Estado do Ordenamento do Território a encerrá-los, é prova de que o próprio executivo está confiante no renascimento da margem Sul do Tejo. Diversos sinais têm evidenciado isso, aliás, nos últimos tempos. O lançamento do projecto Arco Ribeirinho Sul, de que tanto se falava há mais de uma década, ganhou agora um impulso decisivo para revitalizar as áreas industriais degradadas à beira Tejo, em Almada, Seixal e Barreiro. Por toda esta região surge um novo ciclo de investimentos no turismo no novo «turismo residencial», com preocupações inéditas de sustentabilidade assim como na indústria, com o reforço dos investimentos de empresas como a Autoeuropa e a Portucel. A Região de Setúbal terá, nos próximos dez anos, o maior volume de investimentos do país, considerando territórios equivalentes. O eixo Sines/Porto de Setúbal/Plataforma Logística do Poceirão/ Estação de Alta Velocidade/Novo Aeroporto com a lógica ligação ferroviária convencional à Linha do Norte na zona Cartaxo/ Santarém transformar-se-á num «aglomerado» virtuoso de actividades e internacionalização. Apostámos numa visão de futuro, ao lançar este desafio aos actores da Região de Setúbal, um desafio que agora começa a concretizar-se. É com muita satisfação que acolhemos o seu entusiasmo e reunião cooperante. A CCDR-LVT apoiará todas as iniciativas e medidas que tenham por desígnio transformar os recursos deste território em progresso económico e social. Os portos, em particular os de Setúbal e de Sines, revelam uma vitalidade interessante, e têm investimentos significativos em curso e programados para os próximos anos.

6 NOTÍCIAS BREVES Grande Conferência em Setúbal Novo ciclo de oportunidades Perto de três centenas de pessoas assistiram à conferência «Oportunidades de Desenvolvimento», que decorreu em Setúbal a 19 de Setembro e contou com a participação de empresas públicas e privadas, organismos da administração central, universidades e autarquias. A sessão de abertura foi presidida pelo secretário de Estado do Ordenamento do Território e Cidades, João Ferrão. Mário Lino, ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, aproveitou a sessão de encerramento para fazer um ponto de situação sobre os investimentos que vão ter lugar nos próximos anos naquele distrito, como a rede de alta velocidade, o novo aeroporto e nova travessia do Tejo, e exortou os agentes da região a mobilizarem-se para tirarem o máximo partido das «generosas oportunidades» que aí vêm. A iniciativa, lançada pela CCDR-LVT, pretendeu construir uma visão partilhada sobre o desenvolvimento sustentável deste território, congregando as principais entidades representativas da península de Setúbal e litoral alentejano. O objectivo foi também discutir o futuro de Setúbal Pedro Lemos Vieira numa perspectiva optimista, abrindo caminho a um novo ciclo, numa região que tem sido ciclicamente marcada por crises económicas e sociais. São promotores deste evento o Governo Civil de Setúbal, Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS), Associação de Municípios do Litoral Alentejano (AMLA), Associação Empresarial da Região de Setúbal (AERSET), Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS) e Associação das Empresas de Construção e Obras Públicas (AECOPS). A organização esteve a cargo do Sem Mais Jornal/Sado O programa prolongou-se por todo o dia, na Estalagem do Sado, tendo focado as áreas do Turismo, Economia do Mar e Zonas Ribeirinhas, Indústria e Grandes Infra- Estruturas. O evento contou com a participação de entidades como o instituto Turismo de Portugal e a Estrutura de Missão para os Assuntos do Mar, para além da participação de empresas como.a Portucel, a Autoeuropa e a LOGZ que tem a seu cargo a Plafatorma Logística do Poceirão. Pode consultar as comunicações da conferência em: Arco Ribeirinho Sul vai ser requalificado António Fonseca Ferreira, presidente da CCDR-LVT, foi nomeado para coordenar o grupo de trabalho do Projecto Arco Ribeirinho Sul, que visa a requalificação urbanística de importantes áreas da margem sul do estuário do Tejo e contribuir para a valorização e competitividade da Área Metropolitana de Lisboa. A resolução do Conselho de Ministros que aprova o plano foi publicada a 12 de Setembro. O grupo de trabalho terá por missão elaborar, no prazo de 90 dias, uma proposta de Plano Estratégico, em estreita articulação com as autarquias envolvidas e com as empresas dos terrenos. Com este projecto pretende-se desenvolver de forma integrada um vasto território, designadamente cerca de 55 hectares na Margueira, concelho de Almada, cerca de 536 hectares na Siderurgia Nacional, concelho do Seixal, e cerca de 290 hectares nos terrenos da Quimiparque, no concelho do Barreiro.

7 Open Days 2008 Lisboa lidera regiões marítimas inovadoras A Região de Lisboa e Vale do Tejo liderou pela segunda vez este ano um consórcio de regiões no âmbito dos OPEN DAYS Semana Europeia das Regiões e dos Municípios, que decorreram de 6 a 9 de Outubro em Bruxelas. O tema escolhido pelo conglomerado liderado pela CCDR-LVT Water-based Competitiveness Network (WBCnet) enquadra-se na temática «Regiões inovadoras: Promoção da investigação, desenvolvimento tecnológico e inovação», tendo um maior enfoque em torno da Economia Marítima. Regiões, o evento contou este ano com o apoio da Presidência francesa da UE e do Parlamento Europeu, assim como com a presença de diversas personalidades, entre elas o Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, e o Primeiro-Ministro francês, François Fillon. A CCDR-LVT organizou dois seminários em Bruxelas. O primeiro, intitulado «Trends in Maritime Transport Innovation: How can the Regions take advantage?», teve lugar a 7 de Outubro, na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER). O segundo seminário, «Innovative Maritime Regions: Which bets for tomorrow?» realizou-se também na REPER, no dia 9 de Outubro. A CCDR-LVT também esteve presente no Café dos Investidores - plataforma de contacto entre cidades e regiões, empresas, sector financeiro, grupos de interesse e instituições comunitárias, integrada na Aldeia Temática «Inovação e Investigação» - onde recebeu a visita da Comissária Europeia para a Política Regional, Danuta Hübner (na foto). Por fim, e ainda no âmbito dos Open Days, a CCDR-LVT organizará um evento local dedicado aos media, subordinado ao tema «A Região de Lisboa e Vale do Tejo e o Mar: Projectos de desenvolvimento regional e oportunidades de negócio». O conglomerado liderado por Lisboa e Vale do Tejo deste ano conta com a participação, para além de Lisboa e Vale do Tejo, de oito regiões costeiras europeias e portuárias: Andaluzia (Espanha), Sicília (Itália), Canárias (Espanha), Zelândia (Holanda), Açores (Portugal), Macedónia Oriental e Trácia (Grécia), Ática (Grécia) e Heraklion (Grécia). O mote deste ano para os Open Days foi «Regions and Cities in a Challenging World». Organizados pela Comissão Europeia (DG REGIO) e pelo Comité das Participaram 216 regiões e 32 países, um número recorde. No âmbito deste mega- evento, realizaram-se cerca de 120 sessões em Bruxelas (workshops, seminários e debates), contando o Café dos Investidores com cerca de 120 expositores. Os eventos locais serão cerca de duas centenas. Mais informações em: regional_policy/conferences/od2008/index.cfm

8 Conferências internacionais O Futuro do Turismo e o Fim do Petróleo James Howard Kunstler, que se tornou mundialmente conhecido com o livro «The Geography of Nowhere: The Rise and Decline of America s Man-made Landscape» (1993), autor do recentemente editado em Portugal «Fim do Petróleo» («Long Emergency») esteve em Lisboa no dia 16 de Outubro para uma conferência no âmbito do ciclo «Desenvolvimento Regional em Contexto de Globalização», organizado pela CCDR-LVT e pela Ordem dos Economistas. Para Kunstler, o fim da energia petrolífera barata, a base do modelo das sociedades urbanas industrializadas em que vivemos, irá obrigar a mudanças de carácter político, social, industrial, comercial e económico. Teremos de nos adaptar a novos tempos, onde a energia já não será acessível como hoje. A inevitabilidade do fim das sociedades industrializadas, sustentadas pela energia barata do petróleo, obrigará as pessoas a deixar as cidades para viverem em pequenas comunidades agrárias localizadas? Kunstler acredita que sim. «Energia e Urbanismo» é o tema da conferência em que o autor norte-americano reflecte sobre as consequências da ruptura que se avizinha e sobre a forma como deveremos adaptar-nos às novas circunstâncias. A sua escrita novelística e as suas capacidades enquanto comunicador ajudaram a ganhar o destaque público que actualmente tem, tendo dado palestras no Google, nas universidades de Yale e Harvard e no MIT, entre outros. O próprio descreve as suas palestras como «stand-up comedy com alguns momentos negros». O ciclo internacional de conferências culmina com um tema estratégico para a região e para o país: o Turismo. A convidada é Muriel Muirden, consultora internacionalmente reconhecida e managing director da ERA - Economics Research Associates para a Europa, África e Médio Oriente, que estará no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian no dia 4 de Novembro, pelas 9h30. Luís Patrão, presidente do instituto Turismo de Portugal, será o moderador desta conferência. Muriel Muirden especializou-se no planeamento estratégico de resorts e virá a Lisboa para falar do papel que o turismo residencial terá no desenvolvimento regional e da economia nacional, assim como das novas tendências deste tipo de turismo a nível internacional. A ERA é líder mundial na consultoria de lazer e entretenimento na Europa, trabalhando para organizações públicas e empresas privadas, como a Marks and Spencer e a Aga Khan Development Network. Muriel Muirden estará na Gulbenkian a 4 de Novembro O ciclo conta com o patrocínio da ANA, REN, BES, Galp Energia, Turismo de Portugal e Grupo Pluripar, para além do apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Companhia das Lezírias, Fundação Luso- Americana, Associação Industrial Portuguesa, Bom Sucesso, Associação de Turismo de Lisboa, Hotel Sheraton e Quintas de Óbidos. A conferência de James Kunstler conta também com o apoio da Fundação Vox Populi. Poderá encontrar mais informações, comunicações e imagens em. Serviços da CCDR-LVT pagos pelo Multibanco Já é possível fazer o pagamento de qualquer serviço da CCDR-LVT através do Multibanco. Lisboa e Vale do Tejo é a primeira CCDR a avançar com este sistema, uma alternativa aos pagamentos presenciais ou por cheque. O novo sistema de pagamentos, previsto no QUAR (Quadro de Avaliação e Responsabilização dos Serviços), está disponível desde 25 de Agosto. Com as guias de depósito é emitida uma referência que permite o pagamento do serviço em qualquer caixa Multibanco do país. Pode ser efectuado desta forma o pagamento de pareceres ou de licenças emitidas pela CCDR-LVT, de acordo com as competências previstas na legislação. O novo sistema de pagamento abrange todos os serviços, quer sejam prestados pelos serviços centrais em Lisboa ou pelas delegações sub-regionais. Esta medida visa melhorar a relação com o cidadão/cliente sejam empresas, particulares, câmaras municipais ou outros organismos e insere-se no projecto de modernização dos serviços da CCDR-LVT. O objectivo, consagrado no QUAR da CCDR LVT para este ano, foi mesmo.superado, face aos prazos inicialmente previstos.

9 Gentilmente cedida pela Câmara de Lisboa CCDR-LVT e Câmara de Lisboa acordam medidas para qualidade do ar A CCDR-LVT e a Câmara de Lisboa celebraram a 16 de Setembro um protocolo que visa a adopção de medidas de melhoria da qualidade do ar no município, em particular nas principais artérias da cidade. Este é o primeiro protocolo a ser celebrado com uma autarquia, na sequência da aprovação do Plano de Melhoria da Qualidade do Ar na Região de Lisboa e Vale do Tejo, em Agosto. O protocolo prevê, entre outras medidas, a redução do tráfego automóvel de atravessamento da cidade, assim como o estacionamento, para além da redução e renovação da frota automóvel municipal e a promoção do uso dos transportes públicos. O tráfego automóvel é a principal fonte de emissão de diversos poluentes com impactos no ambiente e na saúde pública, entre eles as partículas inaláveis (PM10), onde se têm verificado as maiores ultrapassagens face aos valores limite previstos pela legislação nacional e comunitária. No caso da Avenida da Liberdade, considerada uma das mais poluídas da Europa, só em 2007 houve 149 excedências ao valor-limite diário para as partículas, quando o máximo pemitido é de 35 ao longo de um ano. Vice-presidente da CCDR-LVT há três anos Fernanda do Carmo na frente ribeirinha mais 30 contratos assinados No âmbito do Programa Operacional Regional de Lisboa / QREN foram assinados no passado dia 30 de Setembro contratos de financiamento relativos a quatro concursos. A cerimónia decorreu na Fundação Cidade de Lisboa, com a presença do ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional, Francisco Nunes Correia. Estiveram ainda presentes o secretário de Estado do Ordenamento do Território e Cidades, João Ferrão, o secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Rui Nuno Baleiras, o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, e o secretário de Estado da Protecção Civil, José Miguel Medeiros, além do presidente da CCDR-LVT, António Fonseca Ferreira, e do presidente da Junta Metropolitana de Lisboa, Carlos Humberto Carvalho. Foram assinados com as entidades beneficiárias, na sua maior parte municípios, 30 contratos nas tipologias de: Requalificação da Rede Escolar do 1º. Ciclo do Ensino Básico e da Educação Pré-Escolar (14 Contratos); Parcerias para a Regeneração Urbana Frentes Ribeirinhas e Marítimas (6 Contratos); Prevenção e Gestão de Riscos Naturais e Tecnológicos Acções Imateriais (7 Contratos) e Mobilidade Territorial (3 Contratos). Fernanda do Carmo cessou funções como vice-presidente da CCDR-LVT, tendo assumido na passada semana o cargo de vogal de administração da Sociedade de Reabilitação Urbana Frente Tejo, SA. Na CCDR-LVT, Fernanda do Carmo era vice-presidente para as áreas do Ambiente e Ordenamento do Território desde Setembro de Ao longo do seu percurso profissional passou pelos Ministérios da Presidência (2005, adjunta do ministro) e da Administração Interna (integrada no Gabinete do Comandante-Geral da Guarda Nacional Republicana, ). Foi igualmente directora de Serviços Internos do Centro para o Planeamento e Coordenação do Instituto Geográfico Português ( ), assessora do secretário de Estado do Ordenamento do Território ( ) e técnica superior da CCDR-LVT e da Direcção Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano. O Programa Operacional Regional de Lisboa conta já com 30 concursos abertos e 23 com decisão, que correspondem a 185 candidaturas aprovadas. Dos 307 milhões de euros programados até 2013, 111 milhões já foram submetidos a concurso, estando mais de 60 milhões atribuídos. Como sublinhou o Ministro do Ambiente, a região de Lisboa encontra-se nos 20 por cento de execução do seu programa operacional, acima da média nacional de 16 por cento.

10 O mérito da discussão A denominação tem mudado. O estereótipo não. Aquilo a que se dá agora o nome de «bairros críticos», antes «problemáticos» (como quem diz «perigosos») ou «degradados» (como quem diz pobres) situa-se no pensar colectivo como uma espécie de nódoa na paisagem, uma fronteira intransponível na cidade, lá onde situamos isso a que chamamos «subúrbios», não por definição geográfica mas por deliberação de distância. Ocorrências recentes trouxeram esses lugares de fora para dentro do olhar do público para dentro dos muros da cidade. Para o meio de nós. Opinião Fernanda Câncio Fotografia CA, produções fotográficas

11 Estávamos em Julho quando as imagens de meia dúzia de homens aos tiros numa rua de um bairro social catapultava de novo o tema dos bairros «críticos» para a actualidade política e jornalística. Descobriu se então, de novo como sempre se descobrem as coisas quando se volta a falar delas, uma realidade feita de milhares de pessoas alguém saberá dizer quantas? a viver em bairros de realojamento, milhares de rendas em atraso e de fogos a precisar de obras, milhares de beneficiários do rendimento social de inserção que se suspeita viverem de expedientes e «não quererem trabalhar». Descobriu-se até que isso da pobreza e da destituição económica únicos motivos pelos quais o senso comum admite a concessão de uma habitação social pode compaginar-se com playstations e plasmas e casas que por dentro são, mais coisa menos coisa, como as de toda a gente «remediada», e com uma atitude reivindicativa e até altiva que no imaginário colectivo não condiz com a ideia de pobrezinhos. Depois, em Agosto, veio a «onda de criminalidade». E vieram também as grandes operações policiais nos bairros. Imagens nocturnas de pessoas desgrenhadas e crianças ensonadas à mistura com fardas negras, cães e armas, rusgas gigantes para mostrar ao país que a polícia não dorme nem deixa dormir «os maus», «os outros». Nestas coisas da criminalidade, é fundamental haver «outros»: pessoas e territórios, lugares exteriores onde se vai como ao estrangeiro, como a território inimigo, em incursões punitivas e/ou preventivas que mesmo que não surtam qualquer efeito na criminalidade visam reconfortar-nos a nós, que não somos «eles». No meio de tudo isto, discutiu-se, em jornais, talk-shows e colunas inflamadas, o critério, o motivo e o sentido dos programas de apoio social, das prestações e dos realojamentos. Enquanto uns retomavam, em diferentes declinações, a fórmula do Paulo Portas de 2002 («os ciganos do rendimento mínimo») e defendiam qualquer coisa como «abandonar os malandros à sua sorte», outros, como o historiador Rui Ramos, falavam das experiências feitas pelos cientistas sociais «de esquerda» e seu braço armado, o Estado, com «os pobres». Outros, claro, como o também historiador Rui Tavares, lembravam que isso de deixar os pobres à sua sorte já fora tentado e não dera grande resultado. Quando a discussão estava a ficar interessante, porém, parou. Porque apareceu outra coisa mais excitante para discutir. Ou porque era chegada a altura de, mais ou menos assente o que estava mal, era preciso discutir como fazer melhor. É pena. A discussão devia continuar. E devia trazer à colação um pouco menos de impressões e um pouco mais de realidade vertida em dados mensuráveis. Devia, por exemplo, comparar as conquistas na luta contra a pobreza nos diversos Estados membros da UE e concluir que nos países onde o nível de pobreza está abaixo da média europeia (que é de 16%) isso sucede devido a prestações sociais eficazes. Que esses países que, como a Irlanda, são apresentados sistematicamente como exemplos económicos, investem largamente na melhoria de vida das camadas menos abonadas da população e aplicam há décadas uma política de habitação social e até de rendas controladas, política essa que lhes permite evidenciar um nível de pobreza superior ao de Portugal antes das prestações e inferior após as prestações ou seja, as prestações

12 fazem toda a diferença. Que o problema estará não na existência de «ajudas» mas provavelmente na sua formulação, gestão e fiscalização. Que a erradicação das favelas é obrigatória em todos os países que querem merecer o epíteto de civilizados, e que nessa matéria, como de resto no que à pobreza diz respeito, Portugal fez progressos espantosos nos últimos vinte anos. A discussão devia prosseguir até à tentativa de perceber o que corre mal nos realojamentos. Até perceber se era possível correr realmente bem. Se a ideia de caridade, mesmo a caridade disseminada e sem rosto de um país inteiro, de institutos e autarquias, não transporta sempre consigo o gérmen de um ressentimento qualquer, por mais contraditório e até chocante que tal pareça. E que decerto continuar a estereotipar os bairros sociais e a sua população não é exactamente nem inteligente nem meritório e muito menos eficaz se a ideia é integrar e pacificar. O problema da descontrução de um estereótipo é que o resultado final tende a ser, justamente, o reforço desse mesmo estereótipo. Ou seja, como questionar e interrogar a ideia de bairros críticos sem a reificar? Impossível: qualquer discurso sobre o tema caminha neste paradoxo. Até porque, para ter esta conversa, é preciso admitir que há um problema. Que nestes lugares, de resto tão diversos entre si em tantos aspectos, há algo de comum. E que esse algo necessita de reflexão, de esforço, de soluções. Nenhuma forma pois de fugir a isto: esse nome que queremos desconstruir, esse estereótipo que queremos interrogar e perspectivar correspondem a algo de real. A qualquer coisa de crítico. Nenhuma forma também de evitar que esse gesto, essa atitude, a de isolar estes bairros como um problema a necessitar de solução, os afaste de nós no preciso momento em que deles nos aproximamos. Fazer de algo um objecto tem essa consequência: encontrar estranheza mesmo no que nos é comum. O que será pois um bairro crítico? E porque é que tendemos a identificar os bairros críticos com os subúrbios, e vice-versa? No livro de reportagem que escrevi sobre a noção (e a realidade) de subúrbio (Cidades sem nome/crónicas da vida suburbana CCDR-LVT 2005, Tinta da China 2008), constatei que ninguém ou quase ninguém está pronto a assumir que vive num subúrbio. «Subúrbios são os sítios onde não vivo», era uma espécie de mote do livro. Ninguém quer viver em sítios maus. O lugar onde se vive é o lugar que se escolheu, mal ou bem. Dizer mal é assumir um falhanço, um erro que num país em que a mobilidade habitacional é excepcionalmente reduzida corresponderia a assumir um falhanço sem remédio e portanto um desespero irredimível. Parece pois claro que a ideia de subúrbio, classicamente a querer dizer um lugar fora das muralhas (orbs) da cidade, portanto periférico e de certo modo inferior na sua distância ao centro, não é hoje intrinsecamente má ou boa, mesmo se mantém a ideia de uma ausência de qualificação (qualificada seria a cidade, em teoria). No livro citado escolhi de resto quatro exemplos o mais distintos possível de subúrbios o subúrbio clássico da Brandoa, uma zona rural que nos anos 60 foi loteada e sujeita a construção 10

13 clandestina em altura, o núcleo urbano consolidado suburbanizado pela proximidade de uma grande cidade (Vila Franca de Xira), o condomínio de propagandeado luxo a meia hora da capital (Belas Clube de Campo) e o subúrbio mental, social e económico do Bairro da Bela Vista (Setúbal). Mas as únicas pessoas que encontrei, no âmbito desta e de outras investigações, a assumir viverem em «sítios maus» foram os habitantes dos chamados bairros de realojamento esses bairros que, mesmo se colocados no centro de uma cidade (é aliás o caso do Bairro da Bela Vista), são sempre encarados como «subúrbios» sociais e mentais onde e em relação aos quais se constrói uma distância fantasmática. É como se os habitantes desses sítios se dessem licença para rejeitar o lugar onde vivem e portanto a sua vida, num processo de auto-condenação e de resignação que se dá a ver por exemplo na destruição de equipamentos, no desmazelo das casas que se vão degradando sem que haja por parte dos residentes, de um modo geral (há muitas excepções, claro), um gesto para o evitar. Há uma hipótese de motivo mais ou menos evidente para isso: os bairros de realojamento são sítios para onde se foi transportado por uma lógica exterior, a mando de, por ordem de. As pessoas podiam naturalmente recusar mas isso implicaria perderem a «barraca» sem nada em troca, recusarem uma casa barata/«dada» pela qual haviam esperado muitas vezes anos a fio como pelo paraíso. E que o desgosto que muitas delas viriam a sentir fosse prévio: na maioria dos casos as pessoas receberam a casa nova como uma coisa boa, uma nova oportunidade. Uma vida nova precisamente o que era suposto ser. Que foi, pois, que sucedeu para sobrevir o desgosto e a revolta? A pergunta tem uma resposta ainda mais difícil por ser óbvio que, apesar do que os seus habitantes sustentam, os bairros de realojamento não são, nem do ponto de vista urbanístico nem dos equipamentos, piores que tantos outros «empreendimentos» erguidos nas últimas três/quatro décadas nos arredores de Lisboa e Porto, de arquitecturas quase sempre insalubres e «equipamentos» quase sempre reduzidos ou inexistentes. E sem aquilo a que a socióloga Maria João Freitas, da administração do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, chama a «cosedura territorial com o existente» a tal conexão com o território urbano consolidado, qualificado, prestigiado. Porque será então que quando se fala em «degradação urbana» se pensa nos chamados bairros de realojamento ou de «habitação social»? Se, como parece óbvio e Freitas faz questão de frisar, não existe no País, devido à proverbial deficiência de ordenamento e planeamento urbanístico, «grande diferença entre o desenho e a localização dos bairros sociais e os dos outros», porque será que a essa má imagem, exterior e interior, se colou só aos bairros ditos sociais, num processo de estigmatização que, frisa a socióloga, «lhes reforça a marginalização»? Autora de uma tese de doutoramento sobre as questões do realojamento e da integração, elaborada na perspectiva «de que era preciso aprender com o que se passara com as políticas francesas dos anos 60 e 70, para tentar não repetir os mesmos erros», Freitas, como as também sociólogas Isabel Guerra (do Centro de Estudos Territoriais do Instituto Superior de Ciências de Trabalho e Empresas) e Dulce Moura (hoje adjunta do secretário de Estado do Ordenamento), constatou que nos anos 90, com o PER (Programa Especial de Realojamento), Portugal copiou fórmulas 11

14 que se haviam já revelado penosamente erradas. A saber, «uma aposta na densificação e na homogeneidade», essa ideia que Isabel Guerra tão bem combateu na frase «as pessoas não são coisas que se metam em gavetas» quando descreve o acto de agarrar na população de um bairro de barracas e transferi-la para um bairro de prédios. Resultado: a «promoção social» almejada não se verifica, o estigma que pesava sobre o primeiro bairro transfere-se para o segundo. Um estigma que, como o antropólogo José Cavaleiro Rodrigues escreve em As lógicas sociais dos processos de realojamento (revista Comunidades e Territórios, 2003), passa muito pela avaliação dos próprios. Sentindo-se «roubados» da nova identidade social sonhada, desenvolvem um «processo acusatório» em relação aos vizinhos. A «sociabilidade e a solidariedade iniciais do bairro de barracas» são substituídas pela «generalização de formas de interacção negativas». É o «gosto pela casa e o desgosto pelo bairro» (mais uma síntese feliz de Guerra), que se dá a ver na destruição, pelos mais jovens, de tudo o que possa ser destruído nesse lugar maldito, das caixas de correio aos candeeiros e aos parques infantis. Uma auto-mutilação que reforça o estigma, num paradoxo que Maria João Freitas lê como uma forma de comunicar «abandono e desagrado». Como quem diz, olhem para o nojo de bairro em que vivemos. Olhem para o nojo que nos deram. Como é que podemos querer viver aqui? Como poderemos ser aqui felizes? «Diz-se que destroem aquilo que é seu», conclui Freitas. «Mas se calhar não sentem aquilo como seu». A casa nova, de que se reclamou incessantemente o direito adquirido, não é afinal a «sua» casa, mas aquela que uma sociedade sem rosto entrega como penhor de uma qualquer «culpa». Uma esmola que ao invés de colmatar a exclusão a confirma e se transforma numa desculpa, em mais um factor adverso, mais um motivo para desistir. O problema da descontrução de um estereótipo é que o resultado final tende a ser, justamente, o reforço desse mesmo estereótipo. Ou seja, como questionar e interrogar a ideia de bairros críticos sem a reificar? Impossível: qualquer discurso sobre o tema caminha neste paradoxo. Até porque, para ter esta conversa, é preciso admitir que há um problema. Que nestes lugares, de resto tão diversos entre si em tantos aspectos, há algo de comum. E que esse algo necessita de reflexão, de esforço, de soluções. Trata-se, afinal, de um processo muito simples e compreensível: chama-se desilusão. Uma desilusão que reforça os sentimentos pelo bairro abandonado, o sítio de onde se foi expulso. Tem de haver sempre um paraíso e se enquanto estavam no bairro antigo os habitantes dos bairros sociais sonhavam com a casa nova, na casa nova (agora menos nova) sonham com o bairro que construíram com as suas mãos, onde não tinham luz nem água corrente nem banheira nem esgotos mas onde se lembram de ter sido felizes. É significativo que nos 10 documentários que, com Abílio Leitão, fiz para a RTP2 (A vida normalmente, exibidos em Setembro/ Outubro de 2008) e que, precisamente, tinham como objectivo programático um olhar interior e desejavelmente desconstrutor de estereótipos dos bairros ditos críticos; o único bairro em que os habitantes afirmaram um apego visceral é o da Cova da Moura, um bairro auto-construído que tem objectivamente, tanto do ponto de vista da tipologia das casas como dos arruamentos, muitos menos condições que a generalidade dos bairros sociais. Estranho, isto. Amargo, até. O bem que se quis fazer porque foi por bem que se destruíram os ditos bairros de barracas e se investiu em novos alojamentos, a estrear resultou assim. Talvez, afinal, as pessoas tenham necessidade de sentir que o que têm se deve a mérito seu, a trabalho seu, a escolha sua. Talvez não se possa decidir-lhes a vida imperialmente, por melhores que sejam as intenções. Talvez tenhamos de pensar isto tudo melhor. Mais e melhor. Todos, incluindo os que se comprazem nas desculpas e os que apostam no abandono. Porque não há problemas que se resolvam colocando-os fora da vista não há sequer isso, fora da vista. Estamos todos na mesma cidade. 12

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