A Indústria Automóvel em Portugal

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1 A Indústria Automóvel em Portugal Autores André Vale Gustavo Monteiro Maria Santos Diogo Costa João Pedro Ferreira Paulo Ribeiro Mestrado Integrado em Engenharia Mecânica Armando Sousa Teresa Duarte Equipa 1M5_02 Supervisor: Lucas Silva Monitor: João Ferreira i

2 FEUP 2013 Resumo O presente relatório analisa a indústria automóvel portuguesa e o seu impacto na economia nacional, tendo o intuito de caracterizar esta indústria que se subdivide essencialmente na montagem de veículos e na produção de componentes automóveis. Para esta análise recorreu-se sobretudo a relatórios de associações especializadas, a dados estatísticos, às próprias empresas do setor e a particulares associados ao ramo automóvel. Os dados estatísticos, para cada um dos subsetores acima referidos, foram tratados de forma a permitir concluir quanto à estrutura e importância económica da indústria automóvel em Portugal, que constituem o objetivo principal do presente relatório. Com este intuito, foi feita uma breve retrospetiva histórica da indústria automóvel em Portugal, uma descrição das principais empresas que operam em ambos os subsetores, uma análise da produção de veículos e de componentes, com ênfase na Autoeuropa devido à sua importância relativa, e uma análise das vendas e do contributo para o comércio externo. Concluiu-se que a indústria automóvel é hoje a terceira maior no âmbito da indústria transformadora a nível nacional, tendo um impacto económico relevante. Contudo, a produção automóvel portuguesa, essencialmente concentrada atualmente na Autoeuropa, representa apenas 1% da produção europeia. Uma parcela muito elevada da produção tem como destino a exportação. No âmbito do comércio externo, observa-se que a Balança Comercial Portuguesa do setor automóvel é, na sua globalidade, negativa, apesar de se mostrar equilibrada no subsetor dos componentes. A Indústria Automóvel em Portugal ii

3 FEUP 2013 Palavras-chave Automóvel Produção Volume de produção Volume de vendas Indústria transformadora Componentes automóveis Mercado Montagem Fabricante Autoeuropa Exportação Balança Comercial Produto Interno Bruto (PIB) A Indústria Automóvel em Portugal iii

4 FEUP 2013 Conteúdo 1. Introdução História da Indústria Automóvel em Portugal /76 Mercado protegido /88 Projeto RENAULT Desde o início dos anos 90 Projeto Autoeuropa Empresas Autoeuropa Renault CACIA PSA Peugeot Citroën Toyota Caetano Mitsubishi Fuso Truck Europe Bosch Continental Delphi Faurecia Produção Produção de veículos em Portugal Análise da Autoeuropa Produção de componentes Vendas Vendas de veículos e componentes Comércio externo Divisão por subsetores Projectos e Perspetivas Conclusões Bibliografia Anexos A Indústria Automóvel em Portugal iv

5 FEUP 2013 Lista de Figuras Figura 1: A Indústria automóvel portuguesa em retrospetiva [2] 2 Figura 2: Produção de veículos/unidades de montagem: (AIMA, 2002)... 3 Figura 3: Produção de veículos/unidades de montagem: (AIMA, 2002)... 4 Figura 4: Veículos automóveis produzidos em Portugal [7] Figura 5: Produção automóvel por fábrica em Portugal (2012) [7] Figura 6: Veículos automóveis produzidos pela Autoeuropa [11] Figura 7: Vendas da Autoeuropa [11] Figura 8: Produtividade da Autoeuropa [11] Figura 9: Balança comercial portuguesa no setor automóvel [9] Figura 10: Países de destino das exportações (automóveis e componentes) [9] Figura 11: Peso das exportações do setor automóvel nas exportações totais para o país (2010) [9] Figura 12: Exportações [9] Figura 13: Importações [9] A Indústria Automóvel em Portugal v

6 FEUP 2013 Lista de Tabelas Tabela 1 - Evolução do número de fábricas de montagem em Portugal e a sua produção [7].. 11 Tabela 2 - Distribuição das empresas produtoras de componentes automóveis por CAE [10]. 17 Tabela 3 - Principais fornecedores de Portugal no setor automóvel [9] Tabela 4 - Saldo da balança comercial por segmento em 2010 [9] Tabela 5 - Clientes da exportação de automóveis [97] Tabela 6 - Exportações de veículos (2010) [9] Tabela 7 - Exportações de componentes (2010) [9] Tabela 8 - Vendas de automóveis ligeiros de passageiros..38 A Indústria Automóvel em Portugal vi

7 FEUP 2013 Lista de Acrónimos ACAP Associação Automóvel de Portugal AFIA Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel AICEP Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal INE Instituto Nacional de Estatística CBU Completely Built Up CKD Completely Knock Down A Indústria Automóvel em Portugal vii

8 FEUP 2013 Agradecimentos Recorreu-se, ao longo deste trabalho, a várias empresas e particulares e destaca-se a elevada recetividade e apoio que foi facultado para a execução deste relatório. Agradece-se em especial à ACAP pela disponibilidade de responder a questões colocadas no âmbito do trabalho e pelo facto de ter disponibilizado a consulta de documentos de acesso restrito. Destaca-se também o apoio do monitor João Ferreira ao longo das diversas fases de execução do presente relatório. A Indústria Automóvel em Portugal viii

9 Introdução FEUP Introdução No âmbito da unidade curricular Projeto FEUP foi elaborado o presente relatório relativo à indústria automóvel em Portugal, com o intuito de criar uma síntese informativa direcionada a todos os interessados nesta área. Neste, apresentam-se as principais empresas ligadas ao ramo, tanto a nível da produção de componentes, como da montagem de veículos. Relativamente a estas empresas, analisou-se o volume de negócios dos mercados interno e externo e o seu peso na economia nacional, bem como o contributo para o emprego. De igual modo, tentou-se perspetivar a evolução futura deste tecido industrial da economia portuguesa, apresentando os projetos previstos e os incentivos económicos a nível estatal, assim como, a evolução do mercado automóvel mundial. A Indústria Automóvel em Portugal 1

10 História da Indústria Automóvel em Portugal FEUP História da Indústria Automóvel em Portugal A indústria automóvel portuguesa conta com algumas décadas de história. Ao longo destes anos tem-se vindo a assistir a uma clara evolução deste setor da indústria transformadora. Inicialmente uma indústria pouco qualificada, dispersa e pouco desenvolvida a nível tecnológico, evoluiu no sentido da modernização tecnológica e competitividade. A Figura 1 espelha as três principais fases da história da indústria automóvel portuguesa: - primeiro, caraterizada por elevadas restrições à importação (Lei da Montagem); - posteriormente, entre o final dos anos 70 e o início dos anos 90, caraterizada pela abertura ao mercado, também facilitada pela integração na atual União Europeia, em que dominava o Projeto Renault em Portugal, - finalmente, uma fase de globalização, com mercados abertos e um claro predomínio da Volkswagen Autoeuropa. Figura 1: A Indústria automóvel portuguesa em retrospetiva [2] A Indústria Automóvel em Portugal 2

11 História da Indústria Automóvel em Portugal FEUP /76 Mercado protegido Esta época caracterizou-se por um ciclo económico de restrição às importações. A Lei da Montagem impunha que os veículos montados em Portugal tivessem como destino o mercado doméstico. Esta lei restringiu também a importação de veículos CBU. A importação de veículos CKD foi algo que se manteve legalizado. Como mecanismo de incentivo ao desenvolvimento das indústrias, foi promovida a isenção de direitos aduaneiros dos veículos montados no país de acordo com o nível de incorporação nacional. Como resultado desta política, assistiu-se a uma proliferação de unidades de montagem a nível nacional quer através de operações de investimento direto estrangeiro, quer de contratos de licença (GM/Opel, Ford, Citroen, Fiat, BMC, Renault ), tendo o número de unidades de produção ascendido em 1974 a 21, que produziram cerca de veículos [1]. Estas unidades montavam uma grande diversidade de marcas e modelos e eram caracterizadas pela produção de pequenas séries, ineficiente do ponto de vista económico. A falta de investimento por parte dos construtores resultou na inexistência de uma verdadeira indústria de componentes, que ficou marcada pela presença de inúmeras empresas artesanais de peças com baixos níveis de qualidade e reduzidas competências tecnológicas, organizacionais e comerciais. De facto, as tecnologias das empresas de componentes tinham características rudimentares com ênfase em processos simples de maquinagem. [1] Figura 2: Produção de veículos/unidades de montagem: (AIMA, 2002) A Indústria Automóvel em Portugal 3

12 História da Indústria Automóvel em Portugal FEUP /88 Projeto RENAULT Ao contrário da década anterior, a partir de 1977 houve uma aproximação crescente entre Portugal e outros países europeus. No setor automóvel, o estado seguiu uma política que promovia as exportações e continuava a ser orientada pela restrição à importação de veículos CBU. Quanto aos veículos CKD, com uma percentagem mínima de incorporação nacional, introduziu-se novos limites à importação. Foi efetuado por parte do Governo o lançamento de um concurso para a instalação de construtores europeus e internacionais em Portugal, tendo a Renault e a Citroen feito parte da lista de concorrentes. Em 1980 foi fundada a unidade de motores e de caixas de velocidade de Cacia (Renault) e a linha de montagem de Setúbal (Renault). A Renault teve, assim, um importante papel no progresso da indústria portuguesa de componentes de automóveis, permitindo os primeiros contactos dos fornecedores da indústria global. Depois do encerramento de algumas unidades de montagem em Portugal no final dos anos 80, existiam 10 unidades a nível nacional, que produziam aproximadamente veículos [1]. Foi também nesta altura que se assistiu ao aparecimento e desenvolvimento de novas tecnologias de processo no setor de componentes (estampagem, injeção de plásticos, revestimentos, soldadura ) deixando de ser evidente o domínio de tecnologias rudimentares. Tudo isto permitiu uma evolução muito positiva na indústria dos componentes: na década de 80 o volume de faturação aumentou de 84 milhões de euros para 673 milhões. Figura 3: Produção de veículos/unidades de montagem: (AIMA, 2002) A Indústria Automóvel em Portugal 4

13 História da Indústria Automóvel em Portugal FEUP Desde o início dos anos 90 Projeto Autoeuropa Nesta etapa, assistiu-se a uma intensificação da abertura do mercado nacional à Europa, de forma cada vez mais significativa. O Projeto Autoeuropa foi claramente um projeto estruturante de investimento estrangeiro no setor automóvel em Portugal, tendo-se estabelecido uma rede de fornecedores de empresas de componentes de capital nacional e estrangeiro. O envolvimento com a rede Ford-Volkswagen possibilitou aos fornecedores a consolidação de competências ao nível do custo, qualidade e prazo, regras de funcionamento da indústria automóvel, desenvolvimento de conhecimentos de engenharia de processo, aumento de escala, início de processos de internacionalização e o estabelecimento de ligações com construtores europeus. Esta etapa fica também marcada por um maior domínio das tecnologias de processos de fabrico, em particular na estampagem e na injeção de plásticos. Consequentemente, a indústria de componentes nacionais registou uma evolução muito positiva, com um aumento do volume de faturação de 900 milhões de euros em 1989 para milhões de euros em As exportações aumentaram no mesmo período de cerca de 600 milhões de euros para aproximadamente milhões de euros. Desta forma, o setor de componentes passou a ser um dos setores exportadores com maior importância a nível nacional, a par do setor têxtil e do vestuário. No entanto, é de salientar que a influência da Autoeuropa foi penalizada pelo facto de a unidade se cingir aos aspetos operacionais da produção e logística, sendo a sua intervenção nas áreas de política de produto, conceção e desenvolvimento e marketing diminuta, pelo que para as empresas de componentes mais avançadas o espaço de atuação deixou de ser a esfera nacional e passou a ser a esfera global independentemente da presença da fábrica em Portugal. A Indústria Automóvel em Portugal 5

14 Empresas FEUP Empresas 3.1. Autoeuropa A Autoeuropa é uma das fábricas de produção automóvel pertencente ao Grupo Volkswagen desde Está inserida na região de Palmela e iniciou a sua produção efetiva em 1995, tornando-se a maior e mais avançada fábrica do setor automóvel existente em Portugal. A fábrica tem uma capacidade instalada de montagem de veículos por ano [11]. Representa o maior investimento estrangeiro até hoje feito em Portugal, tendo um impacto muito positivo na economia portuguesa, sobretudo ao nível das exportações, representando 1% do PIB [11], e sendo responsável por 10% das exportações nacionais [11]. Esta é a segunda maior exportadora em Portugal, atrás da Galp Energia, tendo faturado em 2012 cerca de milhões de euros [11]. A fábrica da Volkswagen tem a particularidade de produzir uma gama exclusiva de veículos e de ter uma unidade própria de estampagem, importante para o futuro da fábrica e para o seu desenvolvimento. Atualmente a Autoeuropa produz os modelos Sharan (VW), Alhambra (Seat), Eos (VW) e Sirocco (VW), direcionando a sua aposta futura para os veículos de nicho de mercado. Em 2012 a sua produção atingiu os veículos [11], dos quais foram exportados 99,4% [11] dos veículos da marca Volkswagen. Esta unidade mantém cerca de empregos diretos e indiretos Renault CACIA É uma fábrica do Grupo Renault e produz órgãos e componentes para a indústria automóvel desde A fábrica está localizada num dos mais importantes centros industriais de Portugal Aveiro. As instalações dispõem de sofisticados meios de controlo de qualidade e ensaios, usando metodologias avançadas e recomendadas pelo grupo Renault. A totalidade da sua produção destina-se a fábricas Renault e Nissan de montagem veículos e de mecânica situadas em países da Europa, América e Asia. A Indústria Automóvel em Portugal 6

15 Empresas FEUP 2013 A fábrica tem contratados colaboradores [18] e em 2012 produziu cerca de caixas de velocidades [18]; a Renault CACIA é considerada a segunda maior unidade do setor automóvel português, sendo todo o seu volume de negócio destinado à exportação [19] PSA Peugeot Citroën A unidade PSA Peugeot Citroën encontra-se instalada em Mangualde desde Atualmente esta unidade funciona como que um satélite da unidade que o grupo francês detém em Vigo, não se dedicando a montar nenhum modelo em exclusivo, mas versões de veículos produzidos em Vigo, de onde recebe os componentes [13]. A fábrica da PSA em Portugal apenas dedica-se à montagem de veículos comerciais ligeiros, Peugeot Partner e Citröen Berlingo, desde A fábrica de Mangualde tem a particularidade de ter um processo produtivo inteiramente manual que lhe permite montar quase a totalidade dos veículos do grupo, incluindo os veículos específicos. Hoje em dia, a fábrica é um pouco atípica no panorama da indústria automóvel europeia, uma vez que a produção ainda é pouco automatizada. Os cerca de funcionários do centro, produziam em 2005, cerca de 240 veículos/dia [14], enquanto a média de produção de uma linha de montagem europeia ronda os 720 veículos/dia [14]. Esta fábrica produz aproximadamente 50% de veículos Peugeot e 50% de veículos Citroën. A produção é dirigida exclusivamente ao mercado europeu. A Indústria Automóvel em Portugal 7

16 Empresas FEUP Toyota Caetano Foi fundada em 1946 e iniciou o seu percurso nas carroçarias, atividade que ainda hoje mantém, sendo a localização fábrica em Ovar. As suas áreas de atuação são: importação de automóveis ligeiros de passageiros e de comerciais Toyota; importação e comercialização de peças e máquinas Toyota; montagem de miniautocarros; montagem de veículos ligeiros Toyota Dyna e Toyota Hiace. Mais de metade da sua produção destina-se à exportação para vários mercados europeus, designadamente para países como França, Reino Unido, Espanha, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Suíça, Áustria [15] Mitsubishi Fuso Truck Europe A Mitsubishi Fuso é uma marca de veículos comerciais japonesa pertencente ao Grupo Daimler AG detendo esta uma linha de montagem de veículos comerciais de caixa aberta, estabelecida no Tramagal, desde A fábrica Mitsubishi produz o modelo Canter para mais de 30 países da Europa. Todavia, apenas uma pequena parte dos componentes são de produção nacional. Com uma produção inicialmente dedicada ao mercado nacional, a fábrica tem reforçado a partir de 1996 o seu papel exportador, exportando em 2008 cerca de 86% dos veículos montados na sua linha de montagem [17]. A unidade tem manifestado crescimentos significativos, idealizando a amplificação da capacidade de produção. A Indústria Automóvel em Portugal 8

17 Empresas FEUP Bosch A Bosch, em Portugal, é uma filial do Grupo Bosch, uma das maiores sociedades industriais privadas a nível mundial. A Bosch é representada na indústria automóvel nacional pela Bosch Car Multimedia Portugal, S.A, em Braga, que desenvolvem e fabricam uma larga gama de produtos, a maior parte dos quais exportados para os mercados internacionais. Com cerca de colaboradores (2013), a Bosch tornou-se um dos maiores empregadores industriais de Portugal e gerou, em 2012 cerca de 865 milhões de euros em vendas [20]. A unidade de Braga é a principal fábrica da divisão Car Multimedia da Bosch e a maior empresa do Grupo em Portugal, tendo iniciado a sua atividade em Com reconhecido know-how, a fábrica produz um portfólio variado de produtos eletrónicos, principalmente sistemas de navegação e aos autorrádios para a indústria automóvel Continental O grupo Continental em Portugal, que é constituído por cinco empresas, tendo em 2012 um efetivo permanente de trabalhadores e um volume de negócios de mil milhões de euros [21], mais 104 colaboradores e 49 milhões de euros, respetivamente, do que no ano anterior. O grande contribuinte para esta performance foi a Continental Mabor, produtora de pneus instalada em Lousado, Famalicão, que faturou 796 milhões de euros em 2012 [21]. A Indústria Automóvel em Portugal 9

18 Empresas FEUP Delphi A Delphi iniciou a sua atividade em Portugal em 1981, e atualmente detém quatro fábricas e um centro de engenharia de produção. Os clientes da Delphi incluem a maioria produtores automóveis na Europa, assim como em todo o mundo. Em 2012, a Delphi apresentou um volume de vendas na ordem dos 380 milhões de euros, com um ligeiro decréscimo de 1,5% relativamente ao ano anterior. A empresa emprega em Portugal aproximadamente pessoas [22]. Esta empresa produz uma vasta variedade de produtos incluindo: Antenas; Válvulas de controlo; Écrans; Fiação eletrónica; Produtos de Ignição e de navegação; Entretenimento para passageiros de automóveis; Sensores Faurecia Em Portugal, a Faurecia começou a funcionar em 1962, com uma fábrica em São João da Madeira, e até 2001 adquiriu as restantes fábricas em terreno nacional. A empresa Faurecia emprega em Portugal cerca de funcionários entre postos de trabalho diretos e indiretos. Em 2012 teve um volume de negócio de 314 milhões de euros tendo um crescimento relativamente ao ano anterior de 43% [4]. O grupo é especialista em seis grandes módulos (série de componentes combinados para formar uma unidade): Bancos; Portas; Bloco frontal; Sistemas de escapes; Painel de instrumentos; Revestimentos acústico. A Indústria Automóvel em Portugal 10

19 Produção FEUP Produção A indústria automóvel em Portugal divide-se em dois grandes ramos: a produção e montagem de veículos e a produção de componentes automóveis (baterias, vidros, pneus, estofos, rádios, travões, cablagens, caixas de velocidade...) Produção de veículos em Portugal A evolução da política industrial e o investimento estrangeiro, designadamente no que está relacionado com a instalação de unidades de montagem local, têm determinado a evolução do setor automóvel em Portugal. Até ao início da década de 90 predominou o Projeto Renault e mais recentemente a Volkswagen Autoeuropa. A instalação do Projeto Autoeuropa determinou uma forte expansão do setor que até aí tinha tido um crescimento reduzido. A produção de veículos em Portugal é atualmente realizada em cinco fábricas, depois de um processo de consolidação e reestruturação do setor que conduziu à redução do número de produtores (nomeadamente o encerramento da fábrica da Renault em Setúbal e da Ford Lusitana na Azambuja), mas também ao aumento da sua dimensão face aos anos 90. Na tabela seguinte apresenta-se a evolução da produção automóvel portuguesa: Tabela 1 - Evolução do número de fábricas de montagem em Portugal e a sua produção [7] Observa-se que o número de fábricas em Portugal diminuiu para quase metade nos últimos 18 anos. Enquanto que em 1995 havia nove fábricas, que produziam em média cerca de veículos cada uma, em 2008 já só existiam cinco em média, cada uma produzia, contudo, cerca do dobro das unidades. A Indústria Automóvel em Portugal 11

20 Produção FEUP 2013 Destaca-se que a produção média viria a atingir valores mínimos em 2009 e máximos em 2011, apesar do número de fábricas se ter mantido inalterado. A quebra da produção em 2009 coincidiu com o agravar da crise financeira mundial. Como conclusão, pode afirmar-se que as diversas pequenas empresas de montagem de automóveis existentes em Portugal até aos anos 90 tornaram-se, por fusão, falência ou decisão da empresa mãe, em apenas cinco, que dispõem de uma maior capacidade produtiva. Os cinco produtores atualmente são (ordenados pela respetiva dimensão): - Autoeuropa (Palmela); - Peugeot Citroën (Mangualde); - Mitsubishi Fuso Truck Europe (Tramagal); - V.N. Automóveis (Vendas Novas); - Toyota Caetano (Ovar). Em conjunto, estas empresas produziram em 2012 cerca de 164 mil automóveis [7], o que representa uma quebra de 14,9% face ao ano anterior. Na Figura 4 verifica-se que na última década a tendência da produção automóvel em Portugal foi negativa (-33,7% entre os anos 2000 e 2012), não obstante oscilações ocorridas em alguns anos especialmente em 2009 e anos seguintes em que na sequência de uma grande quebra sucedeu uma recuperação com significado mas ainda assim insuficiente para compensar as quedas anteriores. Figura 4: Veículos automóveis produzidos em Portugal [7] A Indústria Automóvel em Portugal 12

21 Produção FEUP 2013 A produção portuguesa de veículos em 2012, apesar de ser um setor com elevada importância na economia nacional, quer em termos de exportações, quer em termos de contributo para o Produto Interno Bruto, representa apenas cerca de 1% da produção europeia, que ascendeu em 2012 a cerca de 16 milhões de veículos [7]. A estrutura da produção de veículos automóveis em Portugal reflete uma elevada concentração na produção de ligeiros de passageiros, seguindo-se, a uma distância significativa, os veículos comerciais ligeiros, enquanto os veículos comerciais pesados têm um peso marginal [7]. De facto, em 2012, dos 164 mil veículos produzidos em Portugal, 71% correspondem a ligeiros de passageiros e 27% a veículos comerciais ligeiros (ver Anexo A veículos automóveis em Portugal). Os 2% remanescentes correspondem a comerciais pesados. O mesmo Anexo A permite concluir que foi este subsetor dos comerciais pesados que melhor se comportou durante a última década, tendo registado uma queda de cerca de 11%, enquanto que os outros subsetores caíram mais de 30%. Na figura seguinte pode observar-se a dimensão relativa de cada produtor: Figura 5: Produção automóvel por fábrica em Portugal (2012) [7] A Autoeuropa é destacadamente a maior das fábricas existentes em Portugal, pelo que tem naturalmente o maior impacto na economia nacional, e justifica uma análise individualizada. A Indústria Automóvel em Portugal 13

22 Produção FEUP Análise da Autoeuropa Esta fábrica arrancou em 1995 com a produção de somente um modelo, embora sob 2 marcas (Ford e Volkswagen). Atualmente a Autoeuropa produz os modelos Eos, Scirocco, Sharan e Alhambra [11]. De acordo com a Figura 6, os números da sua produção anual aumentaram rapidamente nos primeiros anos, atingindo o máximo de cerca de 139 mil unidades em Nos anos seguintes registou-se um acentuado decréscimo, que culminou em 2005 com a produção de apenas cerca de 80 mil unidades, tendo desde então registado uma tendência positiva: Figura 6: Veículos automóveis produzidos pela Autoeuropa [11] Para esta evolução contribuiu decisivamente a decisão da Volkswagen de atribuir à Autoeuropa a produção de mais veículos além do inicial monovolume. De facto, e segundo notícias da época, em 2005 estaria em risco o encerramento desta unidade fabril, uma vez que a procura reduzida do modelo monovolume já não justificava a existência de uma fábrica dedicada. Assim, a introdução do Eos em março de 2006 e do Scirocco em setembro de 2008 [11] tiveram um impacto positivo e fundamental para a manutenção desta fábrica em Portugal. A Indústria Automóvel em Portugal 14

23 Produção FEUP 2013 A figura seguinte demonstra a evolução do volume de vendas da Autoeuropa desde a sua fundação. Constata-se que a curva do valor de vendas (nº de unidades vendidas x preço de venda) segue um perfil semelhante ao das unidades produzidas Valor (mil milhões de euros) Figura 7: Vendas da Autoeuropa [11] Ano Verifica-se que o pico de vendas ocorreu em 2001, sendo que 2011 atingiu valores muito próximos. Um dado curioso é que em 2001 se produziram menos veículos que em 1999 ( e unidades respetivamente de acordo com Anexo B Volkswagen Autoeuropa dados), mas todavia o volume de vendas foi superior em Deste modo, ou em 2001 foram vendidas mais unidades que em 1999 (eventual variação de stocks), ou os preços médios subiram. Não foram encontrados dados relativamente a estas duas variáveis. Do total dos automóveis produzidos pela Autoeuropa, 99,4% destinaram-se à exportação. Noutra perspetiva, as exportações da Autoeuropa representam 4,2% [11] das exportações nacionais totais. Tal representa um peso relativo elevado na estrutura das exportações portuguesas. O impacto no PIB nacional foi, em 2012, de 1,3% (Anexo B Volkswagen Autoeuropa dados). Este contributo tem-se mantido aproximadamente constante desde a criação da empresa em 1995: no final da década de 90 chegou até a ser superior a 2%, tendo vindo, porém, a diminuir desde o ano de Considerando a última década, o impacto médio da produção da Autoeuropa no PIB foi de 1,1%. A Indústria Automóvel em Portugal 15

24 Produção FEUP 2013 Quanto ao número de colaboradores, a Autoeuropa apresentava no ano da sua criação, tendo desde aí este número variado muito pouco. Figura 8: Produtividade da Autoeuropa [11] Este número de trabalhadores, relativamente constante, em conjunto com a oscilação da produção teve consequências ao nível da produtividade da empresa (produtividade = nº de unidades produzidas/nº de colaboradores), a qual atingiu valores mínimos em 2005, antes da decisão de alargar a gama de modelos produzidos na Autoeuropa. Regista-se que a partir de 2005 e apesar da introdução de novos modelos, apenas em 2011 a produtividade viria a retomar os níveis anteriores do início da década de O quadro apresenta a evolução dos níveis da produtividade da empresa. Fonte: Autoeuropa. A Indústria Automóvel em Portugal 16

25 Produção FEUP Produção de componentes A indústria automóvel em Portugal não se resume à produção montagem de veículos. Um subsetor de elevada importância é a produção de componentes automóveis, como por exemplo estofos, vidros, pneus, volantes, caixas de velocidades, cablagens, etc. Ao todo, em Portugal no ano de 2011, havia cerca de 180 empresas [10] que fabricavam componentes e acessórios para automóveis. Fabricavam produtos tão diferentes que estavam divididas em 38 CAE (Classificação das Atividades Económicas por códigos), não obstante terem esta característica comum de produzirem componentes automóveis. Dada esta elevada desagregação importa perceber onde se concentra a maior parte das empresas, o que se encontra descrito na tabela seguinte: Tabela 2 - Distribuição das empresas produtoras de componentes automóveis por CAE [10] Distribuição das empresas produtoras de componentes automóveis por CAE CAE Descrição % 293 Partes e acessórios para veículos a motor 44,40% 222 Partes plásticas 12,80% 257 Cutelaria, ferramentas e "hardware" geral 10,00% 221 Produtos de borracha 5,60% 139 Outros têxteis 5,00% 259 Outros produtos fabricados a partir do metal 4,40% 245 Moldagem do metal 2,80% 255 Forjamento, prensagem e estampagem do metal 1,70% 256 Tratamento e revestimento de metais 1,70% 281 Produção de maquinaria e equipamento com propósitos gerais 1,70% 273 Cablagem 1,70% 264 Televisões, rádios e outros bens similares 1,10% 243 Outras actividades de processamento do aço 1,10% Outros Outros grupos CAE 6,10% Fonte: AFIA Este subsetor fatura anualmente cerca de milhões de euros (média 2007/2011, [10]), e emprega cerca de pessoas [10]. Em 2007 eram , mas este número tem vindo a decrescer (possivelmente devido à crise financeira e à contração de encomendas do setor automóvel). Por outro lado, representa cerca de 5% do total do emprego da indústria transformadora [10] em Portugal. Este indicador tem sido estável ao longo dos últimos anos. 17

26 Vendas FEUP Vendas 5.1. Vendas de veículos e componentes De acordo com as estatísticas de produção industrial do INE, o setor automóvel em Portugal faturou em 2011 cerca de milhões de euros. Tal correspondeu a cerca de milhões relativos a veículos automóveis, e o restante a componentes e acessórios. O peso das vendas do setor automóvel no total das indústrias transformadoras em Portugal representou em 2011 cerca de 8,5% [8]. Trata-se da terceira indústria a nível nacional, tendo o volume de vendas crescido 20,1% face a 2010 e tendo o segundo maior contributo para a variação total das vendas do conjunto da indústria transformadora. Recorda-se que 2011 foi um ano de elevado crescimento da produção automóvel, conforme evidenciado pelos dados antes apresentados, o que se torna especialmente visível na produção da Autoeuropa. Não foram encontrados dados que expliquem inequivocamente a razão subjacente ao aumento da produção automóvel em A Indústria Automóvel em Portugal 18

27 Vendas FEUP Comércio externo A indústria automóvel portuguesa encontra na exportação as maiores oportunidades. De facto, aproximadamente 98% da sua produção de veículos destina-se ao mercado externo, sendo que o total das exportações do setor automóvel representou em 2012 cerca de 11% das exportações nacionais [8] Valor (milhões de euros) Exportações Importações Ano Figura 9: Balança comercial portuguesa no setor automóvel [9] De acordo com a Figura 9, a Balança Comercial Portuguesa (Exportações - Importações) do Setor Automóvel desde 2006 revela um saldo sistematicamente negativo, ou seja, as exportações são inferiores às importações [9]. Esta aparenta ser uma característica estrutural do setor. Grande parte das exportações portuguesas do setor automóvel é direcionada para países europeus. O país não europeu para o qual Portugal mais exporta é Angola, o que é certamente justificado pelo facto de se tratar de uma ex-colónia portuguesa, com quem o país tem afinidades sociais e culturais, e um comércio externo crescente. A Indústria Automóvel em Portugal 19

28 Vendas FEUP 2013 Países de destino Exportações (componentes+automóveis) 17,1% 2,3% 29,5% 2,9% 3,9% 8,8% 15,0% 20,5% Alemanha Espanha França Reino Unido Itália Angola Bélgica Outros Figura 10: Países de destino das exportações (automóveis e componentes) [9] A figura seguinte mostra o peso relativo das exportações do setor automóvel nas exportações totais para esse país. Apesar de Espanha ser o segundo maior cliente de Portugal na indústria automóvel, as exportações deste setor representam apenas 12% das exportações totais para esse mesmo país (apenas 12% daquilo que Espanha importa a Portugal se situa no setor automóvel). Figura 11: Peso das exportações do setor automóvel nas exportações totais para o país (2010) [9] A Indústria Automóvel em Portugal 20

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