Uso de s Corporativos: Representações Sociais e Seus Impactos na Comunicação Organizacional

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1 Uso de s Corporativos: Representações Sociais e Seus Impactos na Comunicação Organizacional Autoria: Edileusa Godói-de-Sousa, Lina Eiko Nakata, Denilson Aparecida Leite Freire O estudo teve o intuito de compreender os principais usos do na esfera organizacional, propondo uma classificação quanto à sua utilidade, a fim de compreender como essa ferramenta informacional vem sendo empregada e quais os principais benefícios e desafios dessa utilização na percepção dos pesquisados. Quanto ao procedimento metodológico, utilizou-se de pesquisa quantitativa, por meio de uma survey a usuários da região Sudeste do Brasil. Agrupando-se as escalas de frequência, utilidade (tonal e modal) e importância do com o perfil demográfico obtiveram-se os clusters em três representações sociais com características distintas: os conservadores, os céticos e os pragmáticos. 1

2 1 INTRODUÇÃO Manda por é uma das frases mais ouvidas no ambiente profissional. Centenas de mensagens chegam todos os dias nas caixas de entrada dos empregados que possuem uma conta de corporativo. E outras tantas necessitam ser escritas ou respondidas. Segundo o estudo Internet 2012 em números da Royal Pingdom, o ano de 2012 terminou com 2,2 bilhões de usuários de no mundo todo e um tráfego de 144 bilhões de s diários. Quase a metade dessas mensagens se originam ou se destinam a alguma empresa. Nesse contexto, o uso do corporativo vem sendo tema de enfrentamentos entre empregados e empregadores em relação à sua utilização. De um lado, a organização espera que essa ferramenta informacional traga agilidade e transparência na comunicação interna e que ela, a empresa, tem pleno direito de filtrar e controlar o que está sendo transmitido pelos seus colaboradores (ARAÚJO, 2002). Por outro lado, o colaborador, além de receber conteúdos empresariais, depara-se com a possibilidade de uso também de caráter pessoal e acredita ser o algo particular e, por isso, inviolável. Adiciona-se a essa discussão a quantidade e frequência de informações diárias a que estão sujeitos os colaboradores bem como a real utilidade de tais informações, criando assim um cenário repleto de representações sociais e informacionais que podem afetar a eficácia da comunicação empresarial. Tais representações sociais referem-se à dimensão tonal e modal (ROMAN, 2005) no uso dos s corporativos. Tonal compreendido como a busca pela eficiência e eficácia através do controle e da organização, e o modal como espaços circunstanciais conquistados pelos colaboradores e que se traduzem na informalidade das relações, como por exemplo, o fenômeno da rádio peão, que se trata de comunicações que transitam pelos corredores das organizações. Compreender tais utilidades e suas representações pode contribuir tanto para o aprofundamento teórico das variáveis que afetam a comunicação organizacional, bem como alimentar um debate sobre as melhores práticas quanto ao uso do dentro da esfera empresarial. Para tanto, foi realizada uma survey com indivíduos que utilizam o corporativo na região sudeste do Brasil, buscando elencar os avanços e ranços dessa ferramenta no contexto corporativo e as principais representações sociais que podem ser construídas a partir dos dados da pesquisa. 2 MARCO TEÓRICO A fundamentação teórica deste trabalho baseou-se na definição e características do e- mail corporativo e na conceituação do que são representações sociais e suas relações com as dimensões tonal e modal da comunicação organizacional Corporativo: Características e Legalidade O corporativo diferencia-se do pessoal por ser um serviço eletrônico disponibilizado por uma organização ao colaborador, com o objetivo exclusivo de que este mantenha contato com os clientes internos (demais colaboradores) e externos por meio de um canal adequado. Contudo, essa diferença é meramente conceitual, já que tecnicamente tais serviços utilizam-se das mesmas plataformas de suporte, tais como Hotmail, Uol, Gmail e tantas outras (PAGANELLI, 2013). 2

3 O corporativo é de propriedade da empresa e isso está explícito simbolicamente até no endereço eletrônico onde se utiliza do e, segundo a legislação brasileira, ele pode ser monitorado sem que isso configure qualquer violação à privacidade ou intimidade (PAGANELLI, 2013). O Supremo Tribunal do Trabalho (2009) já vem compreendendo essa não violação. Nesse sentido, a empresa pode verificar o corporativo dos funcionários. O acesso da empresa ao correio eletrônico institucional do empregado não caracteriza violação de privacidade. Se o trabalhador quiser sigilo garantido, deve criar o próprio . E mesmo que o funcionário esteja trabalhando em sua residência, o uso do se torna uma das provas de que esteve em horário de trabalho. A Lei nº , de 15 de dezembro de 2011 afirma não existir diferença entre o colaborador que trabalha em casa online e aquele que está fisicamente em uma organização e cujas horas de trabalho podem ser computadas via utilização do , como reza o artigo 6º: Art. 6º Não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no domicílio do empregado e o realizado a distância, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação de emprego. Percebe-se que, como os computadores e as comunicações de dados tornaram-se onipresentes na dinâmica organizacional, torna-se passível de ocorrer alguns crimes ou conflitos envolvendo o uso de s (BROWN, 2005) e que os administradores e colaboradores devam estar atentos a como lidar com a questão do uso dessas ferramentas de comunicação de uso estritamente profissional, como é o caso do corporativo. Apesar desse entendimento, administradores e colaboradores acabam utilizando o e- mail corporativo para uso pessoal e/ou para envio de mensagens não condizente com a prática organizacional (ARAÚJO, 2002). Essa tênue linha entre particular e privado tem relação direta com o tipo de representação social de como cada agente envolvido se relaciona com o uso dessa ferramenta. 2.2 Representações Sociais: Dimensões Tonal e Modal no uso do Corporativo Segundo Moscovici (2003), as representações sociais advem dos estudos das simbologias sociais, isto é, busca compreender o significado dos símbolos sociais que ocorrem durante as relações interpessoais nos ambientes organizacionais. Para esse autor, tais representações têm como principal objetivo tornar conhecido algo desconhecido por meio da classificação, categorização e nomeação de novos conhecimentos e pensamentos. Neste trabalho foram consideradas duas representações sociais para o estudo do fenômeno do uso do corporativo: a tonal e a modal. Trata-se de duas metáforas, ou seja, duas possíveis representações da interação comunicativa. O tonal é um sistema musical que se desenvolve no ocidente a partir do renascimento que surge em contraposição ao sistema modal empregado na Idade Média. A melodia tonal oscila entre tensões e repouso. A música é dividida em partes hierarquizadas e há uma clara dependência entre elas e o todo. No ambiente empresarial equivale à representação do controle, da hierarquia, da organização e do que é formalizado e padronizado (ROMAN, 2005). Nesse sistema, o ouvinte acompanha o desenvolvimento da música, aguardando seu final, isso é, ele consegue compreender o que está se passando e para onde a música está se direcionando, o mesmo ocorre em uma organização cujos objetivos norteiam todos os processos e os colaboradores sabem exatamente onde chegar e que, quando um objetivo for 3

4 alcançado, logo um outro será definido, compondo, assim, um ritmo tonal de trabalho (ROMAN, 2005). O sistema modal consistia em música repetitiva, monótona, cujo desenvolvimento é circular (e não linear como no tonal) em torno de um eixo harmônico fixo. O modal se caracterizava por um conjunto de vozes em diferentes ritmos que mesmos independentes criavam uma ilusão de sintonia final. O mesmo pode ser comparado com os espaços informais dentro das organizações, onde diferentes vozes ganham sentido nas rodas de café, nas consideradas conversas de corredores ou rádio peão. O modal permite a brincadeira, o proibido e o não dito em contraposição ao tonal que privilegia o trabalho, a eficiência e as regras (ROMAN, 2005). Na utilização do corporativo, essas duas representações se fazem presentes. Espera-se uma utilização tonal dessa ferramenta informacional, ou seja, que ela seja usada para concretizar os objetivos organizacionais por meio de mensagens claras e profissionais. Contudo, o que se percebe é uma gama de colaboradores que utilizam o corporativo como espaço para piadas, contos, mensagens motivadoras ou provocadoras (ROMAN, 2005). Segundo Roman (2005), é importante conhecer o tanto que tais representações impactam na organização por que um sistema tonal direciona os esforços para o futuro, já que é focado em objetivos e metas estratégicas, já a dimensão modal é conservadora e preconceituosa, uma vez que foca em comportamentos que visam manter o status quo dos colaboradores, por isso, nos s considerados inúteis vê-se uma gama de mensagens de inibição, crítica e julgamentos pessoais. E é nesse ponto que virtual e real se encontram, ou seja, nos espaços virtuais é que os indivíduos representam sua própria realidade (ZAGORKY, 2004). Virtual e real não são conceitos antônimos, mas dicotômicos e se relacionam dialeticamente, ou seja, o real se refere às coisas persistentes e resistentes, isto é, o real subexiste, ele traz em si potencialidades que podem se realizar no virtual; o virtual existe, não se trata de falsificação ou uma construção imaginária desligada do real. É através do virtual que se compartilha uma realidade (LEVY, 1998). Nessa direção, este estudo buscou compreender os principais usos do corporativo, como essa ferramenta vem sendo empregada e quais os principais benefícios e desafios dessa utilização na percepção dos pesquisados, por meio do emprego da metodologia descrita na sequência. 3 METODOLOGIA A explicação do método foi dividida em duas partes: primeiro foi apresentada a forma de como se procedeu a definição de amostra e a coleta de dados e, em segundo lugar, como os dados foram tratados e tabulados. 3.1 Coleta de Dados A investigação foi de caráter quantitativo, por meio de uma survey como principal estratégia de pesquisa. A pesquisa do tipo survey tem como objetivo a obtenção de dados e informações sobre as ações, características ou opiniões de um determinado grupo de estudo, por meio de um instrumento de coleta de dados, normalmente, o questionário (PINSONNEAULT; KRAEMER, 1993). Dentre os tipos de survey, optou-se pelo método descritivo que busca identificar opiniões, eventos, atitudes ou intenções do público-alvo. Nesse sentido, a relação entre as 4

5 variáveis pesquisadas não é causal, mas busca estabelecer uma relação entre elas (PINSONNEAULT; KRAEMER, 1993). No intuito de formar o cadastro para coleta dos dados com colaboradores que utilizassem de s corporativos, foi estruturado um mailing composto pela rede de relações dos pesquisadores, composta por empresas parceiras em projetos de pesquisas, professores e consultores de universidades parceiras em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, focando na região sudeste do Brasil. A escolha da região Sudeste justifica-se, ainda, por nessa região concentrar não apenas o maior número de empresas do país, mas também mais de 50% das unidades locais dessas empresas, do pessoal ocupado e da massa salarial paga no Brasil. As informações são do Cadastro Central de Empresas 2011 (CEMPRE), divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em Diante da dificuldade da aplicação do método probabilístico de amostragem face à impossibilidade de se compilar todos os elementos da população e de se realizar uma amostragem aleatória simples, por exemplo, utilizou-se, nessa pesquisa, o tipo de amostra não probabilística por conveniência (MARTINS; THEÓPHILO, 2009). Nesse tipo de amostragem as pessoas participam por estarem disponíveis no momento da aplicação da pesquisa. Como os indivíduos não passaram por um processo de seleção, os dados apurados na pesquisa não puderam ser generalizados para todo o universo (PINSONNEAULT; KRAEMER, 1993). Com isso, para definição do tamanho da amostra foi utilizado um artifício estatístico empregado que afirma que para que se possa ter um nível aceitável de resultados na análise estatística dos dados, a amostra deve ser calculada multiplicando-se o número de afirmativas do questionário pelo número de respondentes. Nesse artifício, o número de respondentes deve ser de, no mínimo cinco para cada parâmetro (afirmativa) do modelo de pesquisa e a amostra final deve ficar entre 100 e 150 casos (HAIR JR. et al., 1998). O questionário utilizado neste artigo foi constituído por 19 afirmativas, indicando que a amostra mínima deveria ser em torno de 95 casos. Os dados foram coletados por meio eletrônico, obtendo-se 130 retornos e, destes, 107 respostas válidas. Além do questionário, todos os respondentes foram convidados a assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, autorizando tanto a pesquisa, quanto a divulgação dos dados da empresa, desde que, mantido o seu anonimato. 3.2 Forma de Tratamento dos Dados Para tabulação dos dados o questionário foi dividido em quatro blocos: um bloco para verificar a quantidade e a frequência do número de s corporativos diariamente, um segundo bloco que investigou a percepção de utilidade desses s pelos colaboradores, em seguida foi analisada a questão da percepção da importância dos s recebidos em relação a outros meios de comunicação, e finalmente um quarto bloco que procurou obter dados demográficos da amostra pesquisada, como mostra o Quadro 1. 5

6 Quadro 1 Blocos Investigativos no Uso do Corporativo Bloco Variáveis Medição 1 Quantidade e frequência de s diários 2 Utilidade dos s recebidos 3 Importância dos s recebidos a outros meios de comunicação Número de s recebidos diariamente em relação a: Dia normal de trabalho Dia de muito trabalho Dia de pouco trabalho Percentual de resposta em relação aos s que: Devem ser respondidos (cliente interno e externo) São informativos (colaborador apenas em cópia) São avisos corporativos ou da área São de caráter pessoal São considerados inúteis Outros a especificar a) Prefiro usar o a outros meios de comunicação porque posso usá-lo como documento legal para qualquer tipo de comprovação b) Prefiro não usar o a outros meios de comunicação porque podem usá-lo contra mim c) Acredito que o seja a forma mais eficiente e prática de comunicação d) Prefiro usar o ao telefone porque é grátis e) Acredito que o deixará de existir num futuro próximo porque será substituído por outras tecnologias f) Confio muito nos s quanto à segurança g) Acredito que a empresa tem o direito de vigiar as atividades nos s h) Acredito que a empresa tem o direito de filtrar as mensagens e excluir os s considerados inapropriados que chegam em seu servidor i) Gosto de confirmar o recebimento de por telefone j) Uso a função de confirmação de recebimento de 4 Perfil demográfico Gênero: ( ) Mulher ( ) Homem Em que ano você nasceu? Há quantos anos trabalha? anos Em quantas organizações já trabalhou? Formação universitária: Cargo: Fonte: elaborado pelos autores baseando-se em Roman (2005). Os dados foram tabulados por meio do programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão Foram realizadas análise fatorial exploratória, apuradas as estatísticas descritivas, e análise de cluster para classificação das representações sociais considerando as dimensões tonal e modal do uso do corporativo. Foi realizado, ainda, um pré-teste com 10 indivíduos que possuem s corporativos no intuito de verificar a clareza e objetividade das questões formuladas. O questionário foi aplicado individualmente e, após a aplicação, foi idealizado um grupo focal com o intuito de melhorar a compreensão do instrumento. 6

7 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS 4.1 Perfil da Amostra Em relação ao gênero, 45 respondentes, ou seja, 42,73% da amostra são homens e 62 são mulheres (57,27%), totalizando 107 respostas válidas. Há uma maior proporção de mulheres na amostra. Analisando-se o nível de escolaridade, apurou-se que 73,15% dos pesquisados possuíam especialização lato ou stricto sensu, como demonstrado na Tabela 1, revelando que os respondentes mostram-se bem qualificados, e infere-se que tenha um maior poder crítico em relação ao uso do corporativo. Tabela 1 Nível de Escolaridade Escolaridade Máxima Quantidade % Até Graduação 29 26,85 Especialização Lato Sensu 38 36,11 Especialização Stricto Sensu 40 37,04 Total ,00 Fonte: dados da pesquisa. Talvez em função da alta escolaridade encontrada na amostra, 46,73% dos entrevistados possuem de 31 a 40 anos, como revela a Tabela 2, prevalecendo uma população mais adulta e, portanto, infere-se um grupo com maior experiência e maturidade, o que contribui para a análise crítica do uso do corporativo nas organizações. Tabela 2 Faixa Etária Faixa Etária Quantidade % Até 30 anos 25 23,36 De 31 a 40 anos 50 46,73 De 41 a 50 anos 24 22,43 Acima de 51 anos 8 7,48 Total ,00 Fonte: dados da pesquisa. Em relação ao tempo de trabalho, 52,34% dos respondentes tem experiência empresarial há mais de 13 anos nas organizações (Tabela 3), podendo-se inferir que possuem maturidade profissional e experiência suficientes para analisarem criticamente as afirmativas do questionário. Tabela 3 Tempo de Trabalho em Empresas Tempo de trabalho Quantidade % Até 8 anos 27 25,23 De 9 a 12 anos 24 22,43 De 13 a 19 anos 22 20,56 20 anos ou mais 34 31,78 Total ,00 Fonte: dados da pesquisa. 7

8 Grande parte da amostra (84,87%) já trabalhou em mais de três empresas, talvez em função da maturidade dos envolvidos na pesquisa. Em relação aos cargos, obteve-se que 34,56% dos respondentes ocupavam cargos estratégicos de gestão (diretores, gerentes, presidentes, supervisores e coordenadores), 24,30% cargos acadêmicos (professores), 13,08% cargos técnicos (analista e técnicos), 13,08% cargos de consultoria ou apoio externo (consultores e externos), e 14,95% cargos operacionais ou de aprendiz (assistente, auxiliar, estagiário e aprendiz), como demonstrado na Tabela 4. Esses dados mais uma vez confirmam o caráter de maturidade, experiência e complexidade da amostra. Tabela 4 Cargos Cargos Quantidade % Analista 11 10,28 Assistente ou auxiliar 12 11,21 Consultor 13 12,15 Diretor 3 2,80 Estagiário ou aprendiz 2 1,87 Gerente 10 9,35 Presidente ou proprietários 8 7,48 Professores 26 24,30 Supervisores e coordenadores 16 14,95 Técnicos 5 4,67 Terceiros 1 0,93 Total Fonte: dados da pesquisa. 4.2 Consistência dos Dados: Análise Fatorial Exploratória Inicialmente, realizou-se uma análise fatorial exploratória visando a constatação da consistência das escalas utilizadas. Foram aplicados os seguintes testes estatísticos para cada fator que compôs tais instrumentos de medição. Análise do Kaiser Meyer Olkin (KMO) e do Teste de Esfericidade de Bartletts: A primeira análise é a do KMO, que permite fazer uma análise geral da matriz de correlações. Quanto mais próximo de 1, maior a correlação entre as variáveis envolvidas. Deve-se também observar se o p-valor (significância) está abaixo de 0,05, rejeitando-se, assim, a hipótese de que não haveria forte correlação entre as variáveis (LEVIN, 1987). Análise da matriz anti-imagem e da measure of fampling adequacy (MSA): Consiste em analisar o teste de KMO individual para cada uma das variáveis. Para cada variável, o KMO deve estar acima de 0,50. As variáveis abaixo desse índice são candidatas a serem eliminadas da análise (LEVIN, 1987). Contudo, para uma maior certeza deve-se esperar o teste das comunalidades. Comunalidades: Esta análise indica que valores abaixo de 0,50 demonstram que a variável não está bem ajustada ao modelo. Geralmente é aplicada nos casos de valores de KMO inferiores a 0,50 (LEVIN, 1987). 8

9 Alpha de Cronbach: Tem como finalidade analisar o grau de consistência e confiabilidade das questões. Seu valor deve ser superior a 0,60 para ser considerado confiável (LEVIN, 1987). A análise do KMO dos três blocos de investigação que compõem o questionário - frequência, utilidade e importância - revelaram índices superiores a 0,6 para p<0,05, demonstrando a confiabilidade do modelo de pesquisa. O alpha de Cronbach também confirmou o grau de consistência dos dados, obtendo-se valores acima de 0,6 como mostra a Tabela 5. Tabela 5 KMO e Alpha de Cronbach das Escalas KMO Alpha de Crombach Frequência (Uso do ) 0,582 0,888 Utilidade do Tipo Tonal 0,501 0,759 Utilidade do Tipo Modal 0,794 0,991 Importância do 0,863 0,941 Fonte: dados da pesquisa. Os resultados do cálculo da matriz anti-imagem e das comunalidades das afirmativas que compunham as dimensões das escalas também foram satisfatórios, com resultados superiores a 0,50, como mostra a Tabela 6. Frequência: Tabela 6 Análise da Matriz Anti-imagem e das Comunalidades Fatores Matriz Anti-Imagem Comunalidade Número de s em dias normais de trabalho 0,937 0,548 Número de em dias de muito trabalho 0,757 0,609 Número de s em dias de pouco trabalho 0,758 0,608 Utilidade Tonal: Devem ser respondidos 0,516 0,573 São informativos 0,522 0,917 São avisos corporativos ou da área 0,524 0,703 Utilidade Modal: São de caráter pessoal 0,824 0,982 São considerados inúteis 0,772 0,986 Outros (dados não empresariais) 0,789 0,884 Importância do Por que o é um documento legal 0,764 0,939 Não uso o porque pode ser usado contra mim 0,794 0,975 Uso o porque é mais eficiente que outros meios 0,761 0,902 Uso o porque é gratuito 0,893 0,884 O deixará de existir, será substituído 0,916 0,842 Porque confio no pela sua segurança 0,879 0,84 A empresa tem o direito de vigiar o 0,935 0,829 A empresa pode filtrar s inúteis 0,877 0,878 Gosto de confirmar o recebimento de 0,803 0,948 Uso a função de confirmar 0,959 0,895 Fonte: dados da pesquisa. 9

10 4.3 Frequência de Recebimento e Uso de A investigação da frequência do uso do e-mal em dias normais, de muito e de pouco trabalho revelou que, em dias normais de trabalho, os usuários recebem de 10 a 20 mensagens diariamente (40,8% dos pesquisados), passando para mais de 40 s diários em dias de muito trabalho (40% dos pesquisados) e para menos de 10 recebimentos em dias de pouco trabalho (43,1% dos pesquisados), como mostra a Tabela 7. Tabela 7 Frequência do uso de s corporativos Número de e- Dias normais Dias de muito trabalho Dias de pouco trabalho mails Quant. % Quant. % Quant. % 0 a ,0 10 7, ,0 11 a , , ,5 21 a , ,6 11 8,5 31 a ,4 12 9,2 5 3,8 Acima de , ,0 1 9,2 Total Fonte: dados da pesquisa. Cruzando-se os dados da frequência de recebimento e uso de s com dados demográficos verificou-se que: a) Em dia normal de trabalho: 51,6% das mulheres recebem até 20 s diários, enquanto que 41,3% dos homens afirmaram receber até 30 s. 44,4% dos indivíduos que ocupam cargos de professores afirmaram receber até 10 s, enquanto que aqueles que ocupam cargos de gestão indicaram receber mais de 40 s diários, como no caso dos diretores (66,6%) e dos gerentes (50%). Consultores, coordenadores e assistentes afirmaram receber até 20 s diários. b) Em dia de muito trabalho: não houve diferenciação quanto ao gênero, já que 41,9% das mulheres e 51,5% dos homens indicaram receber mais de 40 s diários. Em relação aos cargos, a maioria também indicou receber mais de 40 s diários, com exceção para os cargos de professores (até 20 s diários) e estagiários (até 30 e- mails diários). Chama a atenção o resultado para o cargo de professores, indicando não haver diferenciação de s em relação ao trabalho, ou seja, tanto em dias de muito ou pouco trabalho, parece haver uma constância nos recebimentos e uso do . c) Em dia de pouco trabalho: também não houve diferenciação em relação ao gênero, indicando que mais de 50% dos pesquisados afirmaram receber até 10 s diários. Em relação aos cargos, também todos indicaram essa faixa de recebimento de s, com exceção para os cargos de diretores que indicaram que mesmo em dias de pouco trabalho, a média diária de recebimento é superior a 40 s, condizente com a complexidade e responsabilidade desse cargo nas organizações. 4.4 Utilidade e Importância do Corporativo: Análise de Cluster Apurou-se que 66% do uso do é considerado tonal, contra 34% modal na percepção dos usuários. Esse dado torna-se preocupante já que mais de um terço da informação que os colaboradores recebem é considerada inútil ou de caráter pessoal dentro da esfera corporativa. Como ressaltado no referencial teórico, o corporativo é propriedade da organização e seu uso deve ser exclusivamente para fins organizacionais, e o seu mau uso 10

11 pode acarretar questões jurídicas e trabalhistas caso seja constatado o mau uso dessa ferramenta informacional (ROMAN, 2005). Efetuando o cruzamento das dimensões tonal e modal com os dados demográficos (idade, cargo, gênero) observou-se que essa proporção percentual se mantinha, com algumas pequenas alterações de resultados. Foi decidido, então, aplicar a técnica de cluster. Tal ferramenta estatística pretende agrupar os dados de forma a constituir grupos nos quais os seus elementos sejam os mais parecidos entre si, e os grupos, os mais diferentes entre si (ROMESBURG, 1984). A análise de cluster permite criar um centro de referência para cada grupo por meio da caracterização do elemento médio de cada um deles, e caracterizar, ainda, os elementos típicos de um grupo, assim como suas diferenças típicas, podendo criar representações sociais, metáforas ou simbologias que caracterizem tais grupos (ROMESBURG, 1984). Agrupando-se as escalas de frequência, utilidade (tonal e modal) e importância do e- mail com o perfil demográfico, obteve-se três clusters com características distintas (Quadro 2): os conservadores, os céticos e os pragmáticos. Quadro 2 Características Específicas dos Clusters Cluster 1 Cluster 2 Cluster 3 Gênero Sem distinção Predominância de homens Predominância de mulheres Frequência diária Recebimento moderado de s tanto em dias de muito ou pouco Recebimento de s de acordo com a intensidade de trabalho. Recebimento intensivo de s tanto em dias de pouco ou muito trabalho. trabalho. Faixa Etária Indivíduos maduros Indivíduos jovens Indivíduos mais velhos Cargos Consultores, gerentes e professores Analistas, supervisores e coordenadores Assistentes, diretores, presidentes Escolaridade Pós-graduação stricto sensu Pós-graduação lato sensu Graduação Utilidade do Tonal Sem distinção Modal Importância do em relação a outras ferramentas informacionais. Não percebem o como uma ameaça, apesar de utilizarem o e- mail por acreditarem que essa ferramenta seja mais segura que outros meios. Concordam que o seja uma ferramenta mais eficiente que outros meios, mas não costumam confirmar o recebimento por telefone ou outro meio. Discordam que o é mais eficiente que outros meios e, por isso, acreditam que essa ferramenta será substituída em um futuro próximo. Acreditam que o não ofereça segurança e tem o hábito de confirmar o recebimento por telefone, ou pela ferramenta do próprio sistema. Veem o como documento legal, que pode ser utilizado contra os respondentes, e por isso devem ser monitorados pela empresa. Consideram o e- mail mais eficiente que outros meios, além de ser gratuito. Representação social Os conservadores Os céticos Os pragmáticos Fonte: elaborado pelos autores baseando-se nos dados da pesquisa. Observando o Quadro 2, pode-se resumir os clusters em três perfis ou representações sociais: Os conservadores: caracterizados por indivíduos maduros, com alta escolaridade, ocupantes de cargos de consultoria, acadêmicos ou de gestão. Percebem a dimensão tonal no uso do , ou seja, utilizando-o apenas para fins organizacionais, como uma ferramenta segura e mais eficiente que outros meios de comunicação. Afirmaram 11

12 ter uma constância na quantidade de s recebidos diariamente independente da carga de trabalho, e possuem a tendência de confirmar o recebimento desses s. Os céticos: grupo formado por jovens indivíduos do sexo masculino e que ocupam cargos de analistas, supervisores e coordenadores, com escolaridade de pós-graduação lato sensu em sua maioria. Não fazem distinção em relação à utilidade do , isto é, para eles o pode ser tonal ou modal dependendo do uso de cada indivíduo. Afirmaram que a quantidade diária de s varia de acordo com a quantidade de carga de trabalho, recebendo um menor volume de mensagens em dias de pouco trabalho, e alta quantidade em dias de muito trabalho. Acreditam que o não seja mais eficiente que outros meios de comunicação, e que poderá ser substituído por outra ferramenta em um futuro próximo. Essa crença pode ser advinda do caráter jovem desse grupo e da alta exposição a outras tecnologias tais como Facebook, Skype, aplicativos de comunicação instantânea por celular, dentre outras apuradas na pesquisa. Os pragmáticos ou controladores: composto por indivíduos mais velhos, com predominância para o sexo feminino, com graduação. Afirmaram ter um uso intensivo de s, recebendo uma grande quantidade de s independente da carga de trabalho, mesmo em dias de pouco trabalho. Apesar de perceberem o como um documento legal e que, por isso, deve ser monitorado pela organização, esse grupo também foi o que mais informou receber correspondências de caráter pessoal ou inúteis. Infere-se que isso ocorra talvez em função da predominância de presidentes, proprietários e diretores nesse grupo, onde a questão pessoal muitas vezes se confunde com a profissional, dado o caráter autocrático e de poder nas relações organizacionais. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Por meio dos resultados deste estudo pretendeu-se responder ao objetivo proposto para esta pesquisa, o qual foi investigar como o corporativo vem sendo empregado e quais os principais benefícios e desafios dessa utilização na percepção dos pesquisados. Os resultados apontaram três perfis ou representações sociais de usuários de corporativo na região sudeste do Brasil: os conservadores (73% da amostra), que percebem a dimensão tonal no uso do , ou seja, utilizam-no apenas para fins organizacionais; os céticos (7% da amostra), para os quais o poderá ser substituído por outra ferramenta em um futuro próximo, não fazem distinção à utilidade do , o tonal ou modal vai depender do uso de cada indivíduo; e, os pragmáticos (20% da amostra) que usam de forma intensiva o corporativo, percebendo-o como um documento legal. Em virtude desse resultado, conclui-se que saber separar o que é relevante como um todo seja um desafio para os gestores de informações, de negócios, de administração, de finanças, de marketing, de operações, de gestão de pessoas, enfim, de todas as áreas da organização. É importante reconhecer a necessidade de valorizar a enormidade de informações que circulam nas organizações, principalmente aquelas que navegam a todo instante por s. Com efeito, não apenas a privacidade da empresa deve ser protegida, mas também o sigilo de suas correspondências eletrônicas, uma vez que a indevida utilização dos s corporativos pode violar os direitos de personalidade da empresa, denegrindo sua imagem perante o mercado e a sociedade, por intermédio da divulgação de correspondências preconceituosas, racistas, de conteúdos religiosos, políticos, ou até mesmo pela divulgação de dados sigilosos da empresa. 12

13 Cumpre observar que os s corporativos são correspondências pertencentes à organização, e não ao colaborador. É um bem intangível da empresa, colocado à disposição desse empregado para a realização de sua função. Este é titular desse correio eletrônico apenas enquanto empregado da organização, como sua representante. Caso esse colaborador faça o uso indevido dessa ferramenta tecnológica, pode gerar prejuízos morais e econômicos à empresa e até mesmo a ele próprio e a demais membros da comunidade. Assim, no ambiente organizacional, o uso modal deve se sobressair ao uso tonal do e- mail corporativo, o que configura em um grande desafio para as organizações. Em virtude disso, a validade do monitoramento dos s corporativos pelas empresas é um questionamento que tem surgido com certa frequência no meio jurídico, em virtude da ausência de previsão legislativa. As respostas a tal questionamento não são simples, tendo em vista os diversos princípios norteadores do ordenamento jurídico brasileiro, que para uns justificam o monitoramento, e para outros, não. Tal abordagem torna-se relevante para futuros estudos. Alguns fatores devem ser analisados como limitações desta pesquisa, como o fato de ser um estudo contemplando uma amostra não probabilística, que envolveu somente profissionais atuantes na região Sudeste; é determinante para o pensamento de que é necessário mais pesquisas afins, para que os resultados deste trabalho sejam projetados em outras esferas organizacionais, como outros estados brasileiros, e inclusive em outros países. Considerando as referências teóricas deste trabalho, houve uma dificuldade de encontrar autores em estudos organizacionais que tivessem um enfoque na temática tratada, já que essa abordagem geralmente é bastante superficial em gestão organizacional. No caso, foi necessário abranger as pesquisas bibliográficas para a área de conhecimento da Comunicação Social. Como pesquisas futuras, pode ser sugerido: replicar este estudo em outras localidades do país, estender esta pesquisa para outros países, realizar estudos longitudinais, e comparar os resultados por setor de atuação das empresas. Este trabalho, portanto, contribui no sentido de avançar as reflexões sobre as representações sociais e seus impactos na comunicação organizacional, bem como alimentar um debate sobre as práticas quanto ao uso do na esfera empresarial, a fim de serem encontrados novos caminhos em direção a formas inovadoras de ações e soluções, redesenhando as abordagens viáveis e as possíveis alternativas para o enfrentamento das incertezas que permeiam o mundo corporativo. REFERÊNCIAS ARAÚJO, L. A. D. A Correspondência Eletrônica do Empregado ( ) e o Poder Diretivo do Empregador. Revista de Direito Constitucional e Internacional. Revista dos Tribunais, v. 10, n. 40, jul./set BRASIL. Lei n dez Altera o art. 6º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1o de maio de 1943, para equiparar os efeitos jurídicos da subordinação exercida por meios telemáticos e informatizados à exercida por meios pessoais e diretos. Brasília, BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho 2ª Região. Decisão Proferida pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) em 11 mar Boletim Informativo, n. 3-B,

14 BROWN, C. Computer Evidence: Collection & Preservation. Newton Center, MA: Charles River Media, HAIR JR., J. F. et al. Multivariate data analysis with readings. 4. ed. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <http://www.ibge. gov.br/estadosat/>. Acesso em: 1 de fevereiro de LEVIN, J. Estatística Aplicada às Ciências Humanas. 2. ed. São Paulo: Harbra, LEVY, P. O que é virtual? Tradução de Paulo Neves. São Paulo: 34, MARTINS, G. A.; THEÓPHILO, C. R. Metodologia da Investigação Científica para Ciências Sociais Aplicadas. 2 ed. São Paulo: Editora Atlas, MOSCOVICI, S. Representações sociais: investigações em psicologia social. Rio de Janeiro: Vozes, PAGANELLI, C. J. M. corporativo e responsabilidade do empregador e trabalhador. Revista Âmbito Jurídico, v. 117, n. 16, Disponível em: <http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=11513>. Acesso em: 25 de janeiro de PINSONNEAULT, A.; KRAEMER, K.L. Survey Research in Management Information Systens: An Assessement. Journal of Management Information System, v. 10, n. 2, p , ROYAL PINGDOM. Internet 2012 in numbers. Disponível em: <http://royal.pingdom.com/2013/01/16/internet-2012-in-numbers/>. Acesso em 1 de fevereiro de ROMAN, A. O nas organizações: reconstrução as sociabilidade perdida. Organicom, v. 2, n. 3, p , ROMESBURG, C. H. Cluster Analysis for Researchers. Belmont, CA: Lifetime Learning Publications, ZAGORKY, J. L. , computer usage and college students: a case study. Education, University of South Carolina, v. 118, n. 1, p ,

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