Linhas Gerais sobre a História da Universidade Conimbricense. Das suas origens à Reforma Universitária Pombalina de 1772.

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1 Linhas Gerais sobre a História da Universidade Conimbricense. Das suas origens à Reforma Universitária Pombalina de Parte 6 A Reforma pombalina dos Estudos. Visita do Marquês a Coimbra Introdução Antes de mais, convém sublinhar que, quando D. João V faleceu em 1750, Portugal encontrava-se em grave situação económica apesar da imensa riqueza em ouro, diamantes e pedras preciosas que nos chegava do Brasil. Entre os problemas de vária ordem que exigiam solução urgente sobressaía o da modernização do nosso aparelho administrativo do qual muitos outros dependiam. O país continuava a governar-se apoiado em estruturas ultrapassadas, desde há muito, e que agora se mostravam quase totalmente caducas, para responderem às exigências de toda a actividade comercial e ultramarina, e que nos últimos dois séculos tinham garantido notável incremento. Nos últimos anos de vida de D. João V já era bem visível a necessidade premente de levar a cabo profundas alterações na máquina estatal, porém a prolongada doença do rei, durante os últimos dez anos do seu reinado terão agravado ainda mais a situação do país. O sucessor, seu filho, D. José, ao subir ao trono tomou, de imediato, a decisão de constituir um Gabinete ministerial com homens que lhe parecessem, capazes de dar a volta às estruturas da governação anterior, ineficiente por hábitos de rotina, que tomasse as providências capazes de implantar as novas estruturas administrativas que o tempo, desde há muito, exigia, mesmo que tais providências viessem a ferir muitos interesses solidamente implantados, como era o caso dos nobres e da Companhia de Jesus. Carlos Jaca 1

2 Assim, D. José, certamente também aconselhado, constituiu um Gabinete formado por três Secretários de Estado: Negócios do Reino, Negócios do Ultramar e Marinha, e Negócios Estrangeiros e da Guerra. Esta última pasta foi sobraçada por um homem já amadurecido, com 51 anos, apadrinhado por certas personalidades influentes, e recomendado como personalidade austera, tenaz e decidida. Tratava-se de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, e que tinha desempenhado, anteriormente, funções diplomáticas em Londres e Viena de Áustria. Apesar de muitos juízos serenos, objectivos e bem fundamentados, Carvalho e Melo é ainda hoje uma figura muito discutida, e tudo parece indicar que jamais deixará de o ser, porquanto a sua vida presta-se a várias perspectivas de análise, desde a puramente biográfica, tipológica e, sobretudo, como governante do despotismo iluminado ou, ainda, ao debate sobre a sua orientação política, económica, social, diplomática e cultural. A estada diplomática de Sebastião José de Carvalho e Melo em Londres e Viena de Áustria poderá ter sensibilizado o futuro Marquês de Pombal a tomar em consideração as ideias reformadoras pregadas por homens reconhecidamente prestigiados nos centros da elite cultural europeia refirome a Luís António Verney, Jacob de Castro Sarmento e António Nunes Ribeiro Sanches. E a prova é que, com ligeiras modificações de técnica dispositiva, são as preciosas directrizes dos referidos e ilustres estrangeirados que orientam os elaboradores do Compendio Histórico e dos novos Estatutos Universitários. A reforma universitária pombalina de 1772, factor marcante na História da Cultura Portuguesa, é talvez a obra de mais incontestável mérito do Marquês de Pombal. Sob este aspecto, releve-se a honestidade e isenção exemplares demonstradas pela denominada corrente antipombalista homens que, considerando Carvalho e Melo persona non grata, reconheceram o Carlos Jaca 2

3 mérito ao obreiro da inovadora, embora já tardia, reforma que pretendeu modernizar a mais antiga Universidade portuguesa. Quer se queira quer não, o polémico estadista activou o movimento cultural de carácter iluminista, dando lugar a um espírito científico em moldes metodológicos diferentes e de acordo com o espírito racionalista da época. Com efeito, no seu projecto de reforma do ensino, e particularmente no projecto reformador universitário, «as coordenadas foram-lhe ditadas pelo pensamento iluminista que soube assimilar nas suas estadas pelo estrangeiro, mas fundamentalmente pelas influências de muitos portugueses que na Europa e no País presenciavam, participavam e desejavam uma ruptura cultural com um passado dogmático e estático Ao apresentar nos Estatutos de 1772 a reforma da Universidade, Pombal, por influência de vários iluminados, introduz no ensino uma mudança que apesar de tudo tentou ser, e em parte foi, a substituição da Universidade «medieval», obscura e dogmática, pela Universidade racionalista, experimental e jusnaturalista». (1) Certo que a reforma pela Universidade da vida mental portuguesa é tardia em relação aos vinte e dois anos que Pombal já levava de governo, facto que parece perfeitamente aceitável se se quiser levar em conta que outras preocupações o assoberbavam. Para além da pesada herança (leve em ouro brasileiro), legada pelo reinado anterior, Carvalho e Melo tinha sido abalado pelo terramoto de 1755 e consequentes cuidados de reedificação da cidade; eram os conflitos internos e externos que careciam de rápida e eficaz solução; eram os assuntos de natureza comercial, como a fundação das grandes Companhias monopolistas; a reforma e criação de organismos do Estado; a intensa actividade diplomática desenvolvida pelo antigo Conde de Oeiras acerca da Companhia de Jesus, problema, note-se, com repercussões a nível internacional, acrescentando ainda que o novo ministro tinha entre mãos uma complicada legislação que não podia padecer demora. Efectivamente, só depois de liberto de todas estas situações Pombal poderia lançar as bases da grande reforma, começando pela organização, ou reorganização, dos Estudos Menores. Urgia vencer muitas dificuldades. Carlos Jaca 3

4 Expulsão dos jesuítas e reforma dos Estudos Menores. Prioritária e melindrosa questão era anular a influência jesuítica, incluindo mesmo a sua expulsão, golpe que iria alterar todo o sistema da instrução pública. Quando D. José subiu ao trono, a maior parte do ensino que hoje chamaríamos secundário estava confiado à Companhia de Jesus. Havia, ainda, alguns colégios dirigidos pela Congregação do Oratório, sobretudo desde o reinado de D. João V, e cuja pedagogia tendia deliberadamente a rebater e superar a influência dominante da Companhia. Refira-se, também, que em algumas cidades ou terras de maior importância, onde não havia jesuítas ou oratorianos, existiam algumas escolas geralmente pequenas e quase rudimentares, leccionando especialmente o Latim, base de todo o ensino da época. Acrescente-se, ainda, a existência de alguns professores, denominados particulares, «que ministravam o ensino individual ou a poucos discípulos, especialmente filhos de grandes senhores, que não frequentavam as escolas públicas, ou mesmo a outros rapazes, a quem davam lições, em geral nas próprias casas. Mas todos estes alunos constituíam uma pequena minoria, comparados com os que frequentavam as aulas da Companhia de Jesus. Também havia algumas escolas dos institutos religiosos, mas geralmente reservadas aos seus membros». (2) Foi, de facto, pelo ensino secundário que Pombal iniciou as suas reformas da instrução. E nada há de estranho nisso, porquanto a reforma dos Estudos Menores era a base do Ensino Superior e o remate lógico da guerra de extermínio contra os jesuítas. A Companhia era poderosa e influente. E, se já não predominava tão completamente no ensino como na política, conservava ainda uma situação privilegiada em ambos os sectores quando Carvalho e Melo tomou as rédeas do Poder. Parece, dizem, que os jesuítas tinham sabido sempre tão bem coordenar as suas funções de ensino e de governo, que eles ensinavam para Carlos Jaca 4

5 governar e governavam para poderem estender mais longe o seu ensino e, portanto, a sua influência. Porém, tudo se conjugava para Sebastião José, mediante os trunfos de que dispunha, dar luta e levar de vencida os «filhos de Santo Inácio». Empolava-se, ou considerava-se relevante, que os jesuítas se haviam rebelado contra a soberania portuguesa no Sul do Brasil por via de uma questão de delimitações contra as vizinhas colónias espanholas; o processo como tinham interferido e explorado o terramoto, considerando tal calamidade como um castigo de Deus por causa da dominação pombalina; a responsabilidade que Pombal lhes atribuía na tentativa de regicídio. E mais: os jesuítas haviam-se erguido contra as reformas pombalinas de carácter económico a propósito da Companhia do Alto Douro, chegando o padre Balester a afirmar do alto do púlpito que «quem tivesse relações com semelhante Companhia não podia fazer parte da Companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo». Essa luta contra a Ordem é testemunhada por violento requisitório onde Carvalho e Melo, em colaboração com Seabra da Silva, no dizer de alguns historiadores, revela uma espantosa sagacidade, espírito de sequência e aptidão jurídica: sob o aspecto interno, Pombal trata o problema como se tratasse de uma questão de ordem pública com a rapidez e a energia de que já havia dado provas por ocasião do terramoto; sob o ponto de vista internacional, a questão foi tratada directamente com Roma e com os governos de Espanha e França, de tal maneira que, em 1759, pela Lei de 3 de Setembro, foram os regulares da Companhia de Jesus desnaturalizados, proscritos e exterminados do Reino de Portugal, sendo os seus bens confiscados para a Coroa». Para chegar a tal desiderato, Carvalho lançou mão de todos os meios. De alguma coisa havia de servir a prática e a astúcia diplomática adquiridas em Viena de Áustria, para além de não desconhecer, certamente, que Luís António Verney, em 1746, imprimira uma proposta radical de remodelação pedagógica e de mentalidades, onde a Companhia de Jesus era a instituição mais visada e indirectamente responsabilizada por toda a orientação ou estagnação do ensino. Considere-se, no entanto, que já antes da Lei de 3 de Setembro, a Junta Carlos Jaca 5

6 de Inconfidência por alvará de 28 de Junho privara os jesuítas de exercerem o ensino, sendo extintas as suas classes e lançadas as bases ou Instruções para os novos Estudos de Gramática Latina, Grega, Hebraica e de Retórica; no preâmbulo desse alvará, fazia-se uma rápida crítica da decadência em que se achavam os estudos secundários sob a disciplina dos jesuítas. Obviamente, não bastava expulsar os jesuítas das escolas. Era preciso fundar um ensino médio, que não existia fora da Companhia, e criar receita para pagar as despesas de um ensino que deixava de ser gratuito no que dizia respeito aos mestres. É neste ponto que se iniciariam os esforços para a reforma pedagógica que se impunha de um modo inadiável. Assim, fechadas as escolas, era um rude golpe que Pombal vibrava na Companhia, mas também era uma grave obrigação que contraía para com o progresso científico do seu país e para com a civilização do seu tempo. Sebastião de Carvalho viu bem a importância da questão, porquanto não podia, nem devia, mandar fechar os colégios dos jesuítas sem que, imediatamente, providenciasse para que outros fossem abertos, de modo a não criar um vazio quase total no campo das actividades pedagógicas. Foi esse, de facto, o objectivo do célebre Alvará de 28 de Junho de A este propósito, deve levar-se em conta que o facto de Carvalho e Melo ter retirado o ensino da tutela da Companhia de Jesus não impediu qua a Igreja continuasse a dominar superiormente o ensino, porquanto as autoridades pedagógicas, ao mais alto nível, eram, em grande parte eclesiásticas, como o Director-Geral dos Estudos, a chefia e os deputados da Real Mesa Censória, o novo Reitor da Universidade, D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra e membro da Junta de Providência Literária, bem como outros membros dela, caso de Frei Manuel do Cenáculo. Muitos professores de Latim da nova ordem eram sacerdotes, e as várias ordens religiosas como a dos Oratorianos colaboraram com os seus mestres nas reformas do ensino. Só que, muito provavelmente, alguns, indo contra as suas próprias ideias, ou parte delas, viam-se obrigados a ler pela cartilha do omnipotente ministro, caso contrário eram considerados cartas fora do baralho e, não raramente, sofrendo penas bem gravosas. Significativo: inicialmente, o futuro Marquês de Pombal privilegiou a Congregação do Oratório, cujos compêndios foram em Carlos Jaca 6

7 grande parte aprovados para os novos estudos. Porém, mais tarde, em 1768, 1769, «também os oratorianos foram proibidos de ensinar, sob pretexto de inconfidência (crime de lesa majestade) e de ensinarem doutrinas perniciosas à mocidade e de adesão ao Bispo de Coimbra, D. Frei Miguel da Anunciação. Tudo se resumia, de facto, a não aceitarem as doutrinas jansenistas, regalistas e antipapais que o Marquês queria impor». (3) A reforma pombalina dos Estudos Menores apontava para uma área bem alargada, tinha uma amplitude nacional. Era seu objectivo nomear professores de primeiras letras para todas as cidades e vilas, além de mestres de Gramática Latina e de Grego, assim como de Retórica e de Filosofia, nos principais centros urbanos. A base da reforma consistia na secularização da instrução nacional dirigida pelo governo do rei, na pessoa de um seu delegado imediato, o qual teria a função de averiguar com exactidão o processo dos Estudos, apresentando ao Monarca, no termo de cada ano, uma relação fiel do estado dos referidos Estudos, a fim de erradicar os abusos que se fossem instalando, ao mesmo tempo que lhe propunha as soluções tidas como mais indicadas para a inovação e progresso das Escolas. Para além da inspecção e escolha do corpo docente por meio de concurso, competia-lhe também evitar controvérsias entre os professores, provenientes da contrariedade de opinião, e manter uma perfeita paz e uniformidade de doutrina, de modo que todos contribuam para o progresso da sua profissão e aproveitamento dos seus direitos. A instauração do ensino oficial, dirigido exclusivamente pelo Governo, pretendia ainda impor «um tipo de pedagogia normativo, inflexível, que se julgava superior ao dos jesuítas e conforme às correntes em vigor nas escolas da Europa, esperando-se, por meio dele, obter a formação intelectual e moral da juventude da Nação». (4) O mesmo alvará que privava os jesuítas do exercício do magistério, criava a Directoria Geral dos Estudos e, por Carta Régia de 6 de Junho de 1759, era nomeado D. Tomás de Almeida director-geral, pelo período de três anos, para pôr em execução as disposições da reforma ordenada pelo já citado diploma de 28 de Junho. É inegável o alcance progressista das referidas determinações, porém, Carlos Jaca 7

8 só o eram em teoria, porquanto na prática toda a actividade nacional estava exclusivamente na dependência do ministro de D. José. Conclusão: ao Director dos Estudos competia apenas zelar e impedir que alguém minimamente se desviasse das normas impostas pela autoridade do ministro. Apesar de confrontado com algumas dificuldades o plano pombalino lá se vai efectivando, e quando da sua regulamentação em 1772, pode dizer-se que o que se fez em matéria de Estudos Menores, ainda que insuficiente, é bem superior ao que se fazia sob o regime tradicional. Num despacho de 3 de Novembro de 1759, do ministro português em Viena, e que se guarda no Arquivo da Embaixada, acha-se o seguinte e lisonjeiro testemunho da reputação que se espalhara de Pombal e das suas reformas nos domínios da instrução pública: «The new method for the Latin and Greek classes established in Portugal has been approved ofhere; and the President of the Aulic Council has expressed his desire to see the same method applied in the empire». (5) Entretanto o primeiro-ministro não era indiferente, nem fazia ouvidos de mercador, à voz experiente de Ribeiro Sanches, Verney, D. Frei Manuel do Cenáculo e do próprio D. Francisco de Lemos, que haviam sugerido ou propunham com insistência a necessidade de reformar os estudos portugueses na Universidade de Coimbra, não se cansando de clamar para a necessidade de dar ao país uma fisionomia diferente perante o atraso cientifico e cultural em que se encontrava. Com efeito, lançadas as bases e criadas as condições e as estruturas para uma renovação dos Estudos Menores, impunha-se a reforma do Ensino Superior. A Reforma Pombalina da Universidade data de 1772, porém, o poderoso ministro trazia-a em mente há muitos anos. Refira-se que, já na altura da fundação do Colégio dos Nobres, o então Conde de Oeiras, se preocupava com a reforma da Universidade. Essa preocupação e intenção ressaltam numa passagem de carta datada de 12 de Março de 1761, dirigida a Iacopo Facciolati, professor da Universidade de Pádua, em que Carvalho e Melo pede que lhe envie, além de uma História da Universidade de Pádua de que ele, Facciolati, foi autor, os Estatutos dessa mesma Universidade, pois tem intenção, diz reformar a de Carlos Jaca 8

9 Coimbra. Declara também receber com muito agrado qualquer sugestão de Facciolati a respeito da futura reforma». A Junta de Providência Literária. O Compêndio Histórico. Com a instituição da Junta de Providência Literária por Carta Régia de 23 de Dezembro de 1770, iniciava-se o processo que iria levar, a curto prazo, os estudos universitários à reforma pombalina de Sob a inspecção de Pombal e do Cardeal da Cunha, a Junta integrava como conselheiros D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, Bispo de Beja. José Ricalde Pereira de Castro, José de Seabra da Silva, Francisco António Marques Geraldes, Francisco de Lemos de Faria, Reitor da Universidade e Bispo de Coimbra, Manuel Pereira da Silva e João Pereira Ramos de Azevedo Coutinho. Por determinação de D. José, competia à Junta de Providência Literária examinar as causas da profunda e deplorável decadência da Universidade «e o presente estado da sua ruína; para em tudo prover de sorte, que não só se repare um tão deplorável estrago, mas também sejam as Escolas públicas reedificadas sobre fundamentos tão sólidos, que as Artes, e Ciências possam nelas resplandecer com as luzes mais claras em comum benefício». (6) Depois de examinar com todo o rigor o «status quo» universitário, devia a Junta ponderar sobre soluções a adoptar, cursos e métodos a estabelecer, apresentando ao Rei um plano sistemático de reforma. Passados que foram alguns meses da sua instituição, a Junta dava à luz no Sítio de Nossa Senhora da Ajuda a 28 de Agosto de 1771, em parto prematuro, o «Compêndio Histórico do estado da universidade de Coimbra no tempo da invasão dos denominados Jesuítas e dos estragos feitos nas ciências e nos professores e directores que a regiam pelas maquinações e publicação dos novos Estatutos por eles fabricados». É este o título oficial do célebre Compêndio Histórico, em que a Junta de Providência Literária fundamenta por provas históricas a decadência da Universidade de Coimbra desde o ano de 1555, e propõem os novos métodos pedagógicos que deverão ser determinados pelos Estatutos. Não cabe aqui a intenção de pretender fazer um balanço exaustivo à reforma universitária pombalina, nem tão pouco ajuizar sobre o Compêndio Carlos Jaca 9

10 Histórico mas... o título revela, só por si, um verdadeiro libelo antijesuítico (mas não anticatólico) que não pode, nem deve ser escamoteado. No entanto, parece inegável a idoneidade dos elementos que integravam a Junta de Providência Literária; eram todos filhos da Universidade, conhecendo, por conseguinte, os defeitos e virtudes de sua mãe e, «por mais pombalistas que fossem, não deixavam de ser pessoas de ampla competência e isenção». (7) Esta mesma opinião já não é adoptada por catedráticos como Lopes de Almeida e Mário Brandão, os quais consideram que a Junta não agiu com sinceridade e independência de espírito, uma vez que os seus elementos «obedeceram à voz inspiradora da campanha contra a Companhia, de que Pombal dera o tom empolado e por vezes ridículo na Dedução Chronologica». E mais: que «alguns executores da vontade tenaz do Marquês de Pombal confessaram a violência e procuraram moderá-la, porém na comissão de reforma parecia que trabalhavam de acordo, ao menos no que dizia respeito à sua finalidade». (8) De facto, à partida, é evidente o empenho da Junta de Providência Literária em demonstrar e acumular provas contra a Companhia de Jesus, responsabilizando-a pelo monopólio ou orientação do ensino e pela sua influência nos estatutos vigentes. Saliente-se, e com toda a legitimidade, a abalizada opinião do Prof. Hernâni Cidade que, no Compêndio Histórico, para além de «um sectarismo violento refervendo na linguagem e turbando o juízo crítico», consegue ver-se que o livro não tem apenas carácter destrutivo. Assim, «ao lado da doutrina que considera «venenosa», expõe a que inculca verdadeira e, ao lado do método ou autor repelido, o método ou autor que é preciso seguir». (9) De facto, é com toda uma copiosa documentação, clara e frequente visão crítica e uma completa informação de todos os progressos da ciência do tempo, que a Junta fundamenta o seu libelo contra o ensino imobilizado e imobilizante atribuído à «invasão dos denominados jesuítas». Carlos Jaca 10

11 Decadência das universidades no séc. XVIII. Não era só a nossa Universidade que se encontrava na mais lastimável decadência, o mesmo sucedia às Universidades de países mais civilizados como a França e a Inglaterra. Quanto às espanholas «nem é bom falar, por tal forma a decadência dos estudos e o obscurantismo dos professores desafiavam as censuras dos críticos como Saavedra Fajardo, na República Literária e a veia cómica dos autores de sainetes». (10) O mesmo acontecia às Universidades Italianas, como afirma Ribeiro Sanches. De facto, convém dizer que, no séc. XVIII, as Universidades europeias clássicas estavam em nítido processo de decadência, acontecendo que, em quase todas, o ensino superior processa-se ainda segundo o modelo e a tradição medieval e sem qualquer abertura ao avanço da ciência. As Universidades continuavam e continuaram sem grande renovação. Efectivamente, fora das Universidades, a ciência seguia um processo de renovação, abandonando os trilhos do metafisicismo e deixando cada vez mais de ser verbal para se tornar progressivamente experimental; as ciências biológicas passam da sua fase descrita para um estado analítico que virá, mais tarde, condicionar as grandes sínteses de Darwin e Lamarck. Tais avanços não tinham reflexos dentro das Universidades, porquanto, estas continuavam fechadas ciosamente a essas inovações, verificando-se um divórcio completo entre o estado da ciência cada vez mais progressiva e liberta de todos os preconceitos, e a situação do ensino rotineiro, obsoleto, imobilizado no escolaticismo e tão submisso ao dogmatismo religioso como ao autoritarismo docente. Acerca do estado interno das Universidades francesas, sob o antigo regime, atente-se na magistral descrição de Luiz Liard, na História do Ensino Superior em França de 1789 a 1889: «raras têm bibliotecas; mais raras são ainda as colecções científicas. A Universidade de Medicina de Montpellier não tem gabinete de anatomia; não tem biblioteca; os seus estudantes estavam reduzidos a alugar aos bedeis os livros necessários para o seu estudo. Custa a crer que o exemplar do «Corpus Júris Civilis», comprado em 1789 pelo professor de Bordéus, formava toda a livraria...» No seu documentadíssimo estudo, Liard, conclui: «o antigo regime não teve uma verdadeira noção do Carlos Jaca 11

12 ensino superior; nestas Universidades de dois andares, em nenhuma delas existia um alto ensino das letras, das ciências, do direito e da medicina; a Faculdade de Artes não dava mais do que uma instituição preparatória, e as Faculdades superiores, sobretudo o Direito e a Medicina, obedeciam a vistas estritamente pessoais». A situação das Universidades inglesas no séc. XVIII continuava ainda o espírito do dogmatismo medieval. Referindo-se a este regime pedagógico, escreve Renan: «Não se pode dizer que em Inglaterra um tal regime produzisse resultados de primeira ordem. Oxford e Cambridge tiveram nos séculos XVII e XVIII homens eminentes, mas não foram o teatro de nenhum grande movimento. Estas velhas instituições acabaram por se adormecerem em uma rotina, em uma ignorância, em um grande esquecimento dos grandes interesses do espírito, que se julgariam incuráveis se a Inglaterra não possuísse nas suas liberdades, no acordar e na actividade dos indivíduos o remédio para todos os males». (11) O quadro universitário espanhol era representado por Saavedra Fajardo, na República Literária, nos traços comuns em que se satirizava as Universidades europeias: «Era mais a presunção do que a ciência; era mais o que se duvidava do que o que se aprendia; o tempo, e não o saber, dava os graus de bacharéis, licenciados e doutores, e às vezes unicamente o dinheiro, concedendo em pergaminhos magníficos, com pendentes de fios, faculdade à ignorância para poder explicar os livros e ensinar as ciências e achar-se em um destes graus». Não deixa de ser bem caracterizada esta esterilidade do ensino, que cimentava o pedantismo doutoral, embaraçando o desenvolvimento das ciências experimentais independentes das demonstrações silogísticas. Apenas as Universidades alemãs, nomeadamente Jena e Gottingen, parece terem escapado a esta fase de decadência e imobilismo o que se poderá explicar pela liberdade de exposição e de crítica concedida aos professores, e que eram, sem dúvida, reflexos da liberdade religiosa, não esquecendo que a existência de professores livres os «privat docenten» - em muito contribuiu para o alto nível no ensino superior alemão. Carlos Jaca 12

13 A Universidade portuguesa. Se bem que houvessem sido diversas as reformas por que passou a nossa Universidade através dos séculos XVI, XVII e nos três primeiros quartéis do séc. XVIII, o que é certo é que com elas nada ganhou o ensino. Como diz D. Francisco de Lemos na Relação Geral do Estado da Universidade de Coimbra, «todas as reformas que a este tempo se fizeram limitaram-se à interpretação, declaração, revogação e extensão de alguns Estatutos antigos, e poucas foram as providências que de novo se acrescentaram a benefício das Letras». Os últimos Estatutos (1654) estavam totalmente desajustados em relação às actuais circunstâncias e ao progresso verificado nos diversos ramos do saber. Efectivamente, a Universidade era uma instituição muito mais teocrática que pedagógica, e muito mais destinada à defesa da intangibilidade dos dogmas que a cuidar dos progressos do ensino. O espírito crítico e investigador e, por conseguinte, os métodos do experimentalismo estavam excluídos por definição, sendo toda a vida intelectual, no que toca ao mundo físico, reduzida a comentários: «Comentar livros da Antiguidade, sensibilizar, recomentar, era um sonho de subtilezas formais, um jogo verbal de ilusões aéreas». (12) A crise em que a Universidade mergulhara havia bastante tempo não podia deixar de pôr em confronto o poder civil e o poder eclesiástico, O choque era inevitável, uma vez que o domínio do ensino estava entregue, na sua quase totalidade, a instituições religiosas nomeadamente aos jesuítas, que se inspiravam numa prática pedagógica tradicionalista e retrógrada. Em jeito de parêntesis, refira-se que o Padre Francisco Rodrigues no tomo III do vol. I da sua História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, afirma que «A Companhia de Jesus em Portugal encheu todo o século XVII». De facto, a afirmação não deixa de ser correcta, porquanto, sem dúvida, a Companhia conseguiu assumir papel de tal modo relevante na vida nacional, ensino, política e missionação (aquém e além mar), que é lícita a afirmação citada, de ter enchido o nosso século XVII. Porém, não pode contestar-se que os padres da Companhia de Jesus, Carlos Jaca 13

14 sistematicamente estacionários ou, se se quiser, nas coisas das ciências tiveram larga parte na decadência dos estudos. Mas... não deve ser-lhes imputada toda a culpa. Não será, de certo modo, muito justo afirmar-se que «desde o ano de mil quinhentos e noventa e oito até agora que governaram a dita Universidade, não há cousa alguma, que se possa aproveitar para objecto da reforma. Muito pelo contrário se contém neles (Sextos e Sétimos Estatutos) um doloso sistema de ignorância artificial, e de impossibilidade para se aprenderem as mesmas Ciências que se fingiu, quererem-se ensinar». E também parece algo exagerado considerar o labor da Companhia como uma oficina perniciosa, cujas máquinas ficaram desde então sinistramente laborando para obstruírem todas as luzes naturais dos felizes engenhos portugueses». (13) Não deixa de ser legítima a análise do Prof. J. Veríssimo Serrão, ao afirmar que a responsabilidade dos inacianos no campo de ensino tinha os limites próprios da sua actuação, não sendo tão profunda nem intensa, «pois dela partilhavam todos os sectores da Universidade, afectando por igual os ensinos não confiados à Companhia de Jesus, como a Jurisprudência e a Medicina. Se não se desenvolvera o ensino da ciência experimental, isso não se fizera por malícia, para impedir o aproveitamento dos alunos, mas apenas porque a reforma da Universidade devia ter-se obrado no tempo próprio, ou seja, no início do Séc. XVIII». (14) Que os jesuítas tiveram as suas culpas na decadência dos estudos, é um dado adquirido. Cabe-lhes entre outras coisas a mais completa responsabilidade «pela obstinada relutância com que mantiveram nos Cursos de Artes os Comentários do Colégio Conimbricense, excluindo do ensino as recentes descobertas, que engrandeciam as ciências de observação e a Filosofia Racional. Acoimá-los, porém, de prejudiciais no ensino das ciências universitárias, que não ensinaram, atribuir-lhes influência nociva na coordenação dos estatutos velhos, que são pouco mais do que a recopiação de leis, praxes e costumes estabelecidos no decurso de um século, é injustiça manifesta, que o juízo imparcial da História como tal reconhece». (15) Obviamente que, os redactores do Compêndio Histórico, como pessoas de absoluta dedicação a Pombal, lisonjear-lhe-iam, naturalmente, a sua jesuitofobia, atribuindo toda a decadência das ciências e mesmo da Carlos Jaca 14

15 Medicina à Companhia de Jesus, exagerando e prejudicando a seriedade do seu exame, porquanto, bastava notar que noutras universidades, onde os jesuítas nunca dominaram, a decadência pedagógica era igualmente profunda e apresentava as mesmas características. Na verdade, outros elementos terão concorrido para que, entre os séculos XVII e XVIII, o ensino universitário estivesse totalmente desajustado em relação às actuais circunstâncias e ao progresso verificado nos diversos ramos do saber. Creio não dever ser omitido o terror, a intolerância e a desumana perseguição do Tribunal do Santo Ofício; o reinado de monarcas como D. João III (desde que se deixou avassalar pelas sugestões do fanatismo), D. Sebastião e o Cardeal-Rei; a perda da nacionalidade e o domínio filipino durante seis décadas. E, ainda, os cuidados e esforços para sustentar a independência recuperada em 1640, que absorviam toda a vitalidade da Nação. Ora, tudo isto foi parte para que os estudos caíssem no lastimoso abatimento a que chegaram. Se se considerar serenamente diz o Professor Hernâni Cidade parece não dever aceitar-se que os jesuítas houvessem «cavilosamente arruinado» a ciência e, menos ainda, tentado tornar irreligiosa a Nação eles que foram expoentes máximos na obra de cristianização do Ultramar e que «só pelo receio da heterodoxia punham entraves ao processo científico. Mas temos o direito de afirmar que se não fora a reacção que os venceu, continuaríamos, e não se sabe até quando, merecendo, pelo anacronismo da nossa cultura, o rótulo de Índios da Europa». (16) Para Teófilo Braga a causa de uma tão longa apatia não pode ser atribuída exclusivamente a factores externos: «incorporação de Portugal na monarquia espanhola, a absorção dos jesuítas quer pelas imposições pedagógicas ou pelas usurpações económicas, nem ainda pela constante intervenção reaccionária do governo absoluto; na essência do próprio estabelecimento, o espírito conservantista pode manter uma severa disciplina escolar e sustentar as ciências e os seus métodos na altura em que foram divulgados, mas evitará sempre as inovações doutrinárias como atentatórias da autoridade académica. Tal é a razão por que as universidades se atrasam e Carlos Jaca 15

16 ficam alheias à corrente intelectual; deu-se isto com a de Paris, com a de Salamanca, e em geral com as dos países meridionais». (17) A cegueira e o ódio visceral de Carvalho e Melo em relação aos jesuítas estariam na base das perseguições aos inacianos, porquanto, em qualquer tempo, uma apreciação serena dos factos tornam despropositadas e carregadas de exagero as invectivas antijesuíticas, atribuindo-lhes a total responsabilidade no que dizia respeito ao estado em que se encontrava o ensino. E mais, tal campanha, parece, igualmente, ter pretendido esquecer ou diminuir o labor da Companhia no Colégio das Artes e de Jesus, bem como uma acção incomparável de heróis, mártires e santos, levada a cabo em territórios desconhecidos, e nas mais difíceis condições, tais como o Brasil, a África e o Oriente. Hoje, julgo, já ninguém de boa fé, ou espírito isento, considerará a Companhia de Jesus como a única causa, ou também a principal causa, da decadência do ensino em Portugal quando Sebastião José de Carvalho e Melo tomou conta do Poder absoluto. Os Estrangeirados. Não obstante alguns esforços de D. João V no sentido de iniciar a batalha para nos fazer reentrar na Europa culta, o meio cultural pouco melhorou, não se tendo conseguido emancipar do ambiente tradicional, ainda que algumas ressonâncias das correntes de além-pirenéus se fizessem sentir vagamente em Portugal. As críticas ao retardamento português eram provenientes de observadores estrangeiros ou de portugueses residentes, há muito, noutros países e que, por essa razão, estavam bem posicionados em termos de uma perspectiva crítica da realidade nacional. Alguns desses observadores eram diplomatas, outros cristãos-novos expatriados por via da repressão inquisitorial. As perseguições da Santa Inquisição espantavam de cá o melhor da intelligentzia portuguesa, e esses emigrados foram, assim, constituindo, Carlos Jaca 16

17 pouco a pouco, a plêiade que muito contribuiu para, como diz António Sérgio, «iluminar, na 2ª metade do Séc. XVIII, a nossa noite intelectual». Embora só através do crivo de uma bem organizada vigilância chegassem a Portugal breves notícias do que se passava pela Europa, muitos portugueses cultos eram receptivos e aspiravam a um novo estilo de vida: eram os «estrangeirados». A divulgação e influência das suas ideias circunscrevia-se a uma área muito limitada, a uma elite, visto que o seu reformismo era geralmente exposto em epistolários que, pelo menos há poucos anos, permaneciam ainda parcialmente inéditos (D. Luís da Cunha, José da Cunha Brochado, etc.). As sementes de reforma e renovação, já visíveis nos finais do reinado de D. João V, mas sufocadas pelo tradicionalismo das escolas jesuítas e bloqueadas pela «asa protectora» do Santo Ofício, viriam, porém, a sofrer o impacto do iluminismo europeu e a influência mais directa e activa dos estrangeirados : «essas componentes, agindo em simultâneo, viriam a produzir um notável efeito desbloqueador, mas só quando se deparassem novos condicionalismos políticos, porque antes... Se alguns apareciam a defender publicamente as novas ideias como Verney ou Ribeiro Sanches «quando desceram à arena da luta vinham quase sempre com uma preocupação de imunidade, garantida por um pseudónimo cauteloso ou assegurada por uma distância de muitos quilómetros. A grande massa do País manteve-se, porém, alheia a polémica em que nem sequer podia participar, pois era analfabeta. Nem poderia ter sido de outro modo: nos países peninsulares, mais do que em qualquer outra nação da Europa Ocidental, quase não houve limites para o domínio da Contra- Reforma que, exercendo-se com uma acção "depuradora" nos veículos da Cultura, e dominando totalmente ou quase a orgânica do ensino público, fizera estagnar e até retroceder o movimento de progresso que se pressentira prestes a surgir na primeira metade do Séc. XVI». (18) De qualquer modo, pode dizer-se que toda a política governativa de Carvalho e Melo na área do ensino veio, de forma determinante, a inserir-se nas «Novas ideias» que esses intelectuais «estrangeirados» como Verney, Carlos Jaca 17

18 Luís da Cunha, Ribeiro Sanches e outros tinham empreendido durante meio século, não se cansando de propalar a urgente necessidade de transmitir ao País uma fisionomia diferente, libertando-o da decadência científica e cultural em que se encontrava. Depois da reforma levada a cabo por D. João III, em 1537, iria verificarse, 250 anos depois, uma remodelação total na velha escola de Coimbra, já que o espírito renascentista que inspirara a orgânica universitária do séc. XVI não se tinha ajustado aos ideais que o progresso científico e filosófico criara. Como diz o Prof. Borges de Macedo, os portugueses não eram totalmente ignorantes nas ciências exactas, «mas o que se sabia estava sobretudo circunscrito a curiosidades individuais ou a necessidades imediatas. Não havia a esse respeito qualquer instituição, seja de ensino seja de registo ou debate (uma Academia por exemplo), onde se realizasse e pudesse empreender uma actividade sistemática. Sabia-se ser urgente a reforma da Universidade de Coimbra para que esta pudesse dispor dos meios de cultivar as ciências exactas e da Natureza e abordar as novas questões da Filosofia. O Marquês de Pombal estimulou uma reforma universitária, e fê-la no sentido de transformar os estudos segundo as correntes de pensamento jurídico e os novos métodos ligados ao Direito Natural e ao Direito Público e das Gentes. A mudança era profunda quanto aos princípios orientadores e teve influência decisiva na mentalidade dos quadros de que o País passou a dispor». (19) O espírito da reforma universitária era já uma realidade, sentindo-se que se tomava urgente reformular totalmente todo o processo de ensino, pondo em prática novos métodos, adoptar livros actualizados e imbuídos de uma mentalidade renovadora Reforma universitária A traços largos, já que no caso presente apenas se trata de colocar as quatro Faculdades tradicionais ao nível das suas congéneres europeias em todos os aspectos, vejamos o que foi essa profunda e eficaz reforma. Acrescente-se, também que as ciências humanas e experimentais foram devidamente tidas em conta, baseando-se os Estatutos em autores célebres, como Pufendorf, Boerhaave e outros. Carlos Jaca 18

19 Mantinha-se a Faculdade de Teologia, como convinha num país eminentemente católico, e cujo programa, definindo um novo espírito, fora elaborado por D. Frei Manuel do Cenáculo e pelo Padre Pereira de Figueiredo. Anteriormente às reformas pombalinas, e segundo D. Francisco de Lemos, o estado do ensino da Teologia era o seguinte: «Basta dizer-se que do século passado para cá até ao princípio do reinado do Senhor Rei D. José... a Teologia que se ensinou nas Escolas Conimbricenses foi a Teologia Escolástica: Teologia que, tendo sido aliada no século XII com a venenosa filosofia de Aristóteles, alterada pelas Explicações e Comentários dos Árabes, se foi pouco a pouco corrompendo até formar um Corpo de Questões, que nunca se tinham ouvido na Igreja, e totalmente inúteis para os fins do Ministério Sagrado». (20) Os métodos aplicados eram obsoletos, sem qualquer inovação e criatividade, sobrepondo-se a autoridade dos autores e dos mestres ao papel da crítica e da análise objectiva do texto. A remodelação dos estudos teológicos apontava agora para um ensino de carácter menos especulativo e escolástico e mais baseado nos conhecimentos da História Sagrada e Eclesiástica, na crítica e na interpretação dos textos gregos e latinos, procurando fazer-se a análise exegética do texto bíblico «visto directamente» à luz conjugada da História e da Filologia. Só assim, dizia, D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra e Reitor da Universidade, se poderiam formar bons teólogos. As Faculdades Jurídicas constituíam dois cursos: de Direito Civil e de Direito Canónico. O ensino de Direito Canónico limitava-se à estéril lição das Decretais, do Decreto e das Clementinas. Não se ensinava a História Sagrada, a História Eclesiástica, o Direito Público Eclesiástico, o Natural e o das Gentes. Conservava-se a Faculdade de Cânones com o fim de regular e estudar fundamentalmente as normas jurídicas, apresentadas ou aprovadas pelas autoridades eclesiásticas, delimitando e definindo a competência da Igreja. Quanto à Faculdade de Leis, passavam-se cinco anos na «ruminação estupefaciente» do Digesto, das Institutas e do Código. Sobre o que se passava a nível da jurisprudência conimbricense vale a pena transcrever parte de um elucidativo relato de D. Francisco de Lemos: «Todo o exercício literário se reduzia aos Actos, para os quais não era Carlos Jaca 19

20 necessário ter estudado, mas sim que corressem os anos do Curso e chegasse a medida do tempo nele marcado, porque os Pontos e os Argumentos eram já sabidos e muito vulgares; e além disso o estudante na mesma ocasião dos Actos era instruído na matéria deles por um Doutor, o qual acabava de consumar a obra da negligência, inspirando-lhe em casa e na mesma Sala dos Actos, o que ele havia de responder e dizer». A grande inovação introduzida consistiu numa maior atenção às fontes jurídicas verdadeiramente portuguesas, onde, além das várias Ordenações, havia também as leis extravagantes dos últimos reis de Aviz, os comentários às Ordenações, outros diplomas avulsos, processos julgados, etc. O Direito Civil, conforme diziam os estatutos (Tit. Cap. 3), seria «ou o Romano ou o Pátrio, contido nas leis do reino. Dos dois direitos, este é o superior quanto a poder de autoridade; vale como lei; obriga, à falta de disposição específica e em todos os casos onde encontre lance. Quanto ao Romano, esse, é tão só, subsidiário; tem apenas validade como suplemento do Direito Pátrio; somente alcança força legislativa e autoridade aí onde as leis nacionais não cheguem e não chegue outrossim aquele natural jus fundado sobre a boa razão que lhe serve de única base». (21) As Faculdades de Cânones e Leis acabaram por se fundir conforme decreto de Passos Manuel, datado de Notável é a reforma da Faculdade de Medicina, devida em grande parte à colaboração do médico Sacchetti Barbosa e à influência de Ribeiro Sanches. O ensino aqui era puramente livresco, seguia-se Galeno e outros autores que por essa Europa fora já não contavam, e os mestres preocupavam-se mais na utilidade particular de curar do que na pública de ensinar. Ordenavam os Estatutos que se ensinasse a anatomia e se fizessem demonstrações, e se aprendesse a prática da Medicina no hospital, porém «todas estas disposições se iludiam de um modo perfunctório (supérfluo) e inútil». No «Reino Cadaveroso», ou no «Reino da Estupidez» como já alguém chamou ao Portugal setecentista, a anatomia e toda a espécie de ensino prático aparecem, embora de forma caricatural, do modo seguinte: Carlos Jaca 20

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