EMPRESA BRASILEIRA DE SERVIÇOS HOSPITALARES

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1 EMPRESA BRASILEIRA DE SERVIÇOS HOSPITALARES EBSERH: um modelo neoliberal para a privatização da Saúde e para a destruição do sistema único de saúde (SUS) brasileiro PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A EBSERH Com uma diferença:aqui são formuladas as perguntas realmente esclarecedoras sobre esta questão; aqui você lê as verdades; aqui você não é enganado; aqui você aprende; aqui você conhece; aqui você rejeita esta ideia Como surgiu a ideia da EBSERH? Qual a sua verdadeira origem? Para entendermos a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), necessário conhecermos o contexto histórico da sua idealização, bem como as armadilhas dispostas na Lei de sua criação (Lei nº /11), no seu Estatuto Social (Decreto nº 7.661/11) e no seu Regimento Interno, analisando os seus aspectos jurídicos constitucionais e legais, sob a perspectiva dos Princípios Norteadores da Administração Pública e da Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/90), e sem deixar de lado fundamentos da política, da filosofia e da sociologia jurídicas. No final da década de 1970, através, principalmente, da Escola Monetarista do economista Milton Friedman, surgiu a ideologia neoliberalcomo um conjunto de ideias políticas e econômicas capitalistas que defendiam a não participação do Estado na economia, devendo haver total liberdade de comércio (livre mercado), o que garantiria o crescimento econômico e o desenvolvimento social de um país, sendo capaz de solucionar a crise econômica mundial provocada pelo aumento excessivo no preço do petróleo, a partir de Esse pensamento ideológico (ideologia do pensamento único) foi rapidamente assimilado por Ronald Reagan e Margareth Thatcher, responsáveis maiores por globalizar essa doutrina no mundo. E quais as características principais dessa ideologia neoliberal? Mínima participação estatal nos rumos da economia de um país; Pouca intervenção do governo no mercado de trabalho; Política de privatização de empresas estatais; Criação das parcerias público-privadas; Livre circulação de capitais internacionais e ênfase na globalização; Criação de condições para a hegemonia do capital financeiro; Abertura da economia para a entrada de multinacionais; Política de globalização neoliberal, impondo um mercado único de capitais à escala mundial; Supremacia do capital financeiro sobre o capital produtivo; Adoção de medidas contra o protecionismo econômico; Liberdade da indústria dos produtos financeiros, criados em profusão, sem qualquer relação com a economia real, apenas para alimentar os jogos de azar jogados nas bolsas-cassinos; Desburocratização do Estado, instituindo-se leis e regras econômicas mais simplificadas para facilitar o funcionamento das atividades econômicas; diminuição do tamanho do Estado, tornando-o mais eficiente; Posição contrária aos impostos e tributos excessivos; Aumento da produção, como objetivo básico para atingir o crescimento econômico; Contra o controle de preços dos produtos e serviços por parte do Estado; ou seja, a lei da oferta e demanda seria suficiente para regular os preços ( a mão invisível do mercado );

2 Independência dos Bancos Centrais, senhores absolutos da política monetária, posta ao serviço exclusivo da estabilidade dos preços; A base da economia deve ser formada por empresas privadas; Destruição do Estado-providência; Redução dos direitos dos trabalhadores, em nome de uma pretensa competitividade; Flexibilização e desumanização do Direito do Trabalho, transformando em Direito das Empresas ou Direito dos Empresários, negando o Princípio do Favor Laboratoris ; Defesa dos Princípios Econômicos do Capitalismo; A defesa do mercado significa a defesa da concepção neoliberalde Estado; Considerado este como pura instância política, pretensamente separada da Economia e da Sociedade Civil, pretende garantir ativamente e salvaguardar as estruturas de Poder. Ora, o que vimos acontecer nos países pobres que adotaram esse pensamento econômico a partir dessa época foi o aumento do desemprego, o congelamento de salários, o aumento das diferenças sociais, a perda de direitos sociais e a dependência do capital internacional, já que essa política neoliberal só veio a beneficiar as grandes potências e as empresas multinacionais. Todavia, já no final da década de 1990, a política neoliberal revelava a sua face mais cruel também para as nações mais ricas do planeta, provocando essas mesmas mazelas na sua gente e nas suas próprias empresas. A partir desse momento, então, o pensamento neoliberal passou a mostrar toda a sua esperteza ao colocar para o mundo o argumento de que as grandes empresas não poderiam quebrar, em razão da enorme responsabilidade social que elas tinham, de modo que, agora, o Estado deveria, sim, intervir na economia injetando dinheiro público para salvar essas empresas privadas que não deram certo no mundo competitivo, desregrado e livre do capitalismo neoliberal (um mundo que eles mesmos inventaram), comprando os seus títulos de dívida privada e transformando-os em títulos da dívida pública, aumentando, com isso, o endividamento público do país. E foi essa lógica empresarial que foi definida pelo Conselho Europeu, em 2008, de modo que o dinheiro público salvando essas empresas manteria aqueles seus mesmos dirigentes nos seus cargos ou em cargos afins, ainda que fossem responsáveis por fraudes contábeis em suas empresas. No Brasil, este pensamento ganhou mais força no Governo de Fernando Henrique Cardoso, particularmente através do chamado Plano Diretor de Reforma do Aparelho de Estado (PDRAE) elaborado e proposto pelo Ministro Bresser Pereira. Ou seja, o desenho de Reforma do Aparelho Estatal foi idealizado, no Brasil, por pessoa estranha à carreira pública de servidor público federal; portanto, por quem desconhecia a sua estrutura internamente funcionando. Ele, simplesmente, trouxe uma ideia de fora e a implantou de forma arbitrária aqui, com o argumento de que a máquina pública precisava ser modernizada. Na verdade, o que se desejava era criar condições para que o setor privado pudesse participar, de alguma forma, da Administração Pública, de modo a ganhar mais terreno para a expansão dos seus negócios. E assim foi feito... Em 1993, o Banco Mundial, entendendo que a Saúde poderia se constituir em um importante mercado a ser explorado pelo capital,apresentou um Relatório propondo a reforma do Estado e a implantação de um novo sistema de saúde no Brasil, com o argumento de que em muitos países em desenvolvimento, os sistemas sanitários administrados pelo governo são grandes demais e deveriam ser reduzidos; para tanto, seriam necessárias alterações jurídicas e administrativas facilitadoras da prestação de serviços pela iniciativa privada, que deveria receber subsídios públicos para prestarem serviços, promovendo cortes de investimentos em hospitais públicos terciários.

3 Entre outras mudanças, a reforma administrativa e na saúde deveria permitir ao Estado a focalização no atendimento das necessidades básicas sociais, reduzindo a área de atuação do Estado através de alguns mecanismos, dentre os quais: A privatização (venda de ativos de empresas públicas); A publicização (transformação de órgãos estatais em entidades públicas de direito privado); criação das Organizações Sociais (OS), Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), Fundações Públicas de Direito Privado, Agências Executivas, Agências Reguladoras... Terceirização (contratação de serviços prestados por terceiros); Subsídios públicos para as ONGs; Cortes de investimentos em hospitais públicos terciários; Criação de um Fundo para aposentadoria complementar dos servidores públicos federais (FUNPRESP). Ora, a focalização das políticas de saúde nega a universalidade do sistema (do SUS), relativizando os Princípios Norteadores do SUS previstos na Lei nº 8080/90 (artigo 7º incisos I e II). E isto é inconstitucional! Nesse contexto, surge a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) através da edição da Medida Provisória nº 520 de 2010, que, durante discussão no Congresso Nacional, não foi convertida em Lei, dada a sua clara inconstitucionalidade, tendo sido inicialmente aprovada na Câmara de Deputados Federais, mas caducado no Senado Federal. Nessa época, a ideia do Governo era criá-la na forma de Sociedade de Economia Mista EBSERH S.A. e foi dessa forma que ela foi concebida na MP 520/2010 -, o que já deixava clara a intenção de uma empresa estatal com forte atuação na ordem econômica, para exploração direta de atividade econômica pelo Estado (lato sensu). Mais tarde, surgiu o Projeto de Lei nº 1.749/11, do Poder Executivo, com o objetivo também de criar a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, agora não mais apresentada como uma S.A., cujo Parecer do Relator Senador Roberto Requião (PMDB) foi totalmente contrário à sua aprovação, exatamente por reconhecer a sua inconstitucionalidade, tendo em vista que o sentido da Lei permanecia o mesmo, ou seja, era uma empresa que visava lucro com o exercício da sua atividade fim: a prestação de serviços hospitalares; além de ferir frontalmente o Princípio Constitucional da Autonomia Universitária. Todavia, tendo maioria no Congresso Nacional, e convencendo Parlamentares (e nós sabemos como isso acontece na prática) de que isso seria a solução para a crise dos Hospitais Públicos Federais, Universitários ou não, foi aprovada a Lei nº /11, autorizando a criação da EBSERH. 2- Quais as razões da crise atual dos nossos Hospitais Públicos Federais, Universitários ou não? Ora, a crise dos Hospitais Públicos Federais, Universitários ou não, basicamente, tem duas causas principais: a falta de investimento público regular e adequado, e a falta de recursos humanos, ao longo particularmente dos últimos vinte anos, o que vem provocando uma verdadeira mistanásia nesse País: um abandono social criminoso e intencional por parte dos nossos governantes e do próprio Congresso Nacional. Isto, ao longo desses últimos anos, provocou o fechamento de leitos hospitalares, o fechamento de serviços, a deterioração de equipamentos, a falta de medicamentos e materiais básicos para o perfeito funcionamento desses hospitais, a redução e precarização da força efetiva de trabalho, a permanência de um parque tecnológico obsoleto e precário, a desmoralização desses hospitais frente a opinião pública, as péssimas condições técnicas e ambientais de trabalho, a desmotivação, a indignação e revolta de servidores públicos, estudantes e usuários, a deterioração dos seus prédios, a impossibilidade e inviabilidade de uma boa gestão...

4 Nesse contexto, com um discurso longe da verdade, o Governo Federal apresenta a EBSERH como a única solução para todos os problemas hoje enfrentados e vividos pelos Hospitais Universitários Públicos Federais do nosso País, afirmando que, após um ano da assinatura do contrato entre as Universidades e a EBSERH, todos os leitos hospitalares estarão reativados, o parque tecnológico desses Hospitais estará modernizado, a estrutura física desses Hospitais será reestruturada e todos os recursos humanos necessários ao bom funcionamento desses Hospitais estarão contratados. Isso está escrito na Lei nº /11. Então, o Governo Federal reconhece, por escrito, que a crise atual dos Hospitais Universitários está fundamentada em quatro problemas principais: falta crônica de recursos humanos em número adequado para atender às necessidades para o normal funcionamento desses Hospitais; precariedade do seu parque tecnológico; sucateamento da sua estrutura física; redução criminosa do número de leitos hospitalares ativos nesses Hospitais. Acontece que todos esses problemas vêm avançando de forma progressiva nesses Hospitais Universitários pela omissão criminosa do Governo Federal ao longo dos últimosanos, criando para os seus gestores uma situação impossível de bem administrar esse caos instalado, já que os recursos públicos para esses Hospitais foram sendo liberados sem qualquer planejamento estratégico responsável. Nesse momento, convidamos os mais velhos a fazerem um exercício mental de memória, de modo a visualizarem o funcionamento desses Hospitais Universitários, e também dos Hospitais Públicos Federais, antes do início de toda essa crise de financiamento público e da falta de recursos humanos. Certamente, irão se lembrar de que todos esses Hospitais Públicos Federais, Universitários ou não, eram muito bem estruturados e muito bem administrados, muitos deles, inclusive, sendo referências para toda a América do Sul. Basta recordar um momento da nossa história em que um Presidente da República (General João Batista de Figueiredo), ao sofrer um infarto agudo do miocárdio, foi atendido e internado para tratamento da fase aguda da sua doença no atual Hospital Federal dos Servidores Públicos. Naquele tempo, não existia a EBSERH. Acontece que naquele tempo a União cumpria com mais responsabilidade as suas obrigações com a Saúde Pública e a Educação Pública desse nosso País. 3- O que é a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares? A EBSERH constitui-se em uma empresa pública com personalidade jurídica de direito privado, de dimensão nacional, unipessoal, regida pela Lei que autorizou a sua criação (Lei nº /11), por seu Estatuto Social, por seu Regimento Interno e pela Lei nº 6.404/76 (Lei das Sociedades Anônimas), que vem intervir, definitivamente (para sempre) e com força, na vida dos trabalhadores e na missão dos atuais Hospitais Universitários Públicos Federais, trazendo consigo um pensamento e um modelo de gestão totalmente estranhos aos interesses dos seus trabalhadores, dos seus usuários, dos estudantes universitários e da própria Universidade Pública Federal, constituindo-se em um instrumento de ressonância deste Governo, e jamais um instrumento de ressonância da sociedade e da comunidade acadêmica, expressando uma vontade política vergonhosa e covarde de enxergar a Saúde Pública como um setor a ser explorado na perspectiva de um grande negócio, e não como um setor cujo investimento público (e não gasto público), regular e flexivelmente progressivo, possa contribuir, de modo permanente e estável, para o desenvolvimento humano e, consequentemente, para o desenvolvimento nacional; e que, embora denominada empresa pública, tem o seu espírito todo recheado de aspectos próprios das sociedades de economia mista.

5 4- Por que foi criada a EBSERH? Quem responde é o próprio Ministério da Educação: A EBSERH foi criada para exercer uma dupla finalidade de assistência direta à população e de apoio ao ensino e à pesquisa das Universidades; sua gestão exige um nível de agilidade, flexibilidade e dinamismo muitas vezes incompatíveis com as limitações impostas pelo regime jurídico de direito público próprio da Administração Direta e das Autarquias, especialmente no que se refere à contratação e à gestão da força de trabalho, o que tem acarretado distorções ao longo dos anos e vulnerabilidade jurídica. Bem, este é um discurso típico de um pensamento ideológico qualquer que seja a ideologia -; ou seja, é aquele discurso que procura mascarar uma realidade social, permitindo, desse jeito, legitimar a exploração e a dominação, transformando o falso em verdadeiro, o errado em certo e o injusto em justo. Como assim? Ora, o exercício de assistência direta à população já é uma finalidade dos nossos Hospitais Universitários Públicos Federais, uma vez que, até por determinação legal, estes hospitais integram o SUS (artigo 45 da Lei nº 8080/90), nos seguintes termos: Os serviços de saúde dos hospitais universitários e de ensino integram-se ao Sistema Único de Saúde, mediante convênio, preservada a sua autonomia administrativa, em relação ao patrimônio, aos recursos humanos e financeiros, ensino, pesquisa e extensão, dos limites conferidos pelas instituições a que estejam viculados. Portanto, essa primeira justificativa não tem sustentação legal. No que se refere ao apoio ao ensino e à pesquisa das Universidades, esse apoio não se espera de uma EBSERH, mas sim da própria Administração Pública Direta, por intermédio da disponibilização de recursos humanos, tecnológicos e financeiros constitucionalmente previstos, de forma regular, contínua e adequada às necessidades das Universidades, de modo a permitir que, de modo autônomo, elas possam elaborar e realizar os seus próprios projetos de pesquisa, sem a interferência de nenhuma pessoa estranha ao seu ambiente social. Então, essa justificativa do Governo Federal também se autodestrói. Quanto à questão de que a sua gestão exige um nível de agilidade, flexibilidade e dinamismo muitas vezes incompatíveis com as limitações impostas pelo regime jurídico de direito público próprio da Administração Direta e das Autarquias, especialmente no que se refere à contratação e à gestão da força de trabalho, o que tem acarretado distorções ao longo dos anos e vulnerabilidade jurídica, temos a frontalmente contestar com os seguintes argumentos: Uma gestão ágil, flexível e dinâmica é incompatível não com o regime jurídico de direito público das nossas Universidades, mas sim com a carência de recursos humanos e a falta de investimentos públicos adequados e necessários à sobrevivência digna dos nossos Hospitais Federais Universitários e dos seus servidores, situação essa fomentada, de forma cruel, covarde e criminosa, pelo próprio Poder Público, há pelo menos duas décadas; sem que isso jamais pudesse ser corretamente - e eticamente - discutido e apresentado pela imprensa à nossa sociedade. Se fosse assim, deveríamos lançar uma campanha nacional para a criação da EBSERJ Empresa Brasileira de Serviços Jurídicos -, já que a lentidão nociva do Poder Judiciário utilizando-se o mesmo raciocínio que o Governo Federal faz quanto aos problemas atuais dos nossos Hospitais Universitários deve ter como causa o regime jurídico de direito público aplicado aos nossos Tribunais de Justiça. Então, vamos criar uma carreira de magistrados contratados pelo regime trabalhista da CLT, vamos flexibilizar os seus direitos, e a Justiça se tornará célere e eficiente como todos nós desejamos... Na verdade, isso é uma manobra perversa de burlar o entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) de que os trabalhadores das Autarquias (Pessoas Jurídicas de Direito Público) têm que ser contratados,

6 obrigatoriamente, pelo regime trabalhista da Lei nº 8.112/90, ou seja, como servidores públicos estatutários. Ora, o Poder Público costuma trabalhar com argumentos mentirosos; e algumas pessoas costumam viver numa alienação social, aceitando, sem questionar (e sem estudar a questão), tudo o que lhes falam. E o Governo agradece... Portanto, essa justificativa para a criação da EBSERH igualmente não se sustenta. No que se refere à contratação e gestão da força de trabalho, o que tem acarretado distorções ao longo dos anos e vulnerabilidade jurídica, sentimo-nos no dever de clarear as mentes distraídas e algo preguiçosas, algumas vezes coniventes, de alguns poucos colegas membros da Academia (nossas Universidades Públicas) quem diria? - e que ainda manifestam apoio à ideia da EBSERH, com as seguintes observações: Os artigos 11 e 12 da Lei nº /11 (Lei que autoriza a criação da EBSERH)afirmam que, para fins de sua implantação, fica a EBSERH autorizada a contratar, mediante processo seletivo simplificado, pessoal técnico e administrativo por tempo determinado, sendo que esses contratos temporários de emprego poderão der celebrados durante os dois anos subsequentes à constituição da EBSERH, podendo ser prorrogados uma única vez, desde que a soma dos dois períodos não ultrapasse cinco anos, tudo com base nas alíneas a e b do 2ºdo artigo 443 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Nesse contexto, queremos apontar o que diz aconstituição Federal com relação à investidura em cargo ou emprego público: Artigo 37 inciso II:A investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração. Artigo 37 inciso III:O prazo de validade do concurso público será de até dois anos, prorrogável uma vez por igual período. Artigo 37 inciso IX:A lei estabelecerá os casos de contratação por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público. Desse modo, o concurso público é um procedimento administrativo, aberto a todo e qualquer interessado que preencha os requisitos estabelecidos em lei, destinado à seleção de pessoal, mediante a aferição do conhecimento, da aptidão e da experiência dos candidatos, por critérios objetivos, previamente estabelecidos no edital de abertura, de maneira a proporcionar uma classificação de todos os aprovados, consistindo em meio técnico posto à disposição da Administração Pública para obter-se a moralidade, eficiência e aperfeiçoamento do serviço público e, ao mesmo tempo, propiciar igual oportunidade a todos os interessados que atendam aos requisitos da lei. Com relação à exigência de títulos, esta deve ser pautada nos Princípios da Razoabilidade, Moralidade e da Igualdade, sob pena de ser declarada a nulidade da regra irregular prevista no edital pelo Poder Judiciário. Assim a exigência de experiência profissional somente no serviço público viola Princípio da Igualdade, conforme manifestação do STF (Supremo Tribunal Federal). Pelo concurso se afastam os ineptos e os apaniguados, que costumam abarrotar as repartições, num espetáculo degradante de protecionismo e falta de escrúpulos de políticos que se alçam e se mantêm no poder, leiloando empregos públicos.

7 Então, a exigência do concurso público para o acesso aos cargos e empregos públicos reveste-se de caráter ético e moralizador, e visa assegurar a igualdade, impessoalidade e o mérito dos candidatos. Ora,a exceção prevista no inciso IX do artigo 37 da Constituição Federal ( contratação temporária ) destinase a possibilitar contratação de pessoal para enfrentar situações extraordinárias, que não podem ser enfrentadas com o contingente normal de servidores, sob pena de prejuízo para a prestação continuada dos serviços públicos, e em caráter temporário a ser estabelecido em lei. Acontece que situações extraordinárias certamente não é o caso das nossas Universidades Públicas e nem dos nossos Hospitais Públicos Federais, pois a deficiência de recursos humanos hoje existente nessas instituições é decorrência direta da falta de planejamento administrativo dos últimos vinte anos, de modo que a Administração Pública Federal, por vontade política equivocada, vem se negando a autorizar concursos públicos com o número necessário de vagas para Professores, Médicos, Enfermeiros e outros servidores públicos técnico-administrativos, passando a adotar o pensamento do Estado mínimo também para os setores da Educação e Saúde Públicas. Com isso, já de longa data os Governos vêm autorizando a realização de concursos para o preenchimento temporário da maioria dessas vagas por contratados temporários, sem vínculo empregatício, ainda assim em número muito abaixo do necessário. Isso acabou por criar a chamada indústria dos concursos públicos para contratos temporários de trabalho, que não emprega ninguém, mas que arrecada regularmente, anualmente, muito dinheiro com o valor pago pelos candidatos nas suas inscrições, e mantém a carência crônica e crescente de recursos humanos nas Universidades Públicas e nos Hospitais Públicos Federais, Universitários ou não, destruindo o corpo clínico desses Hospitais, de modo que, atualmente, em alguns hospitais federais, quase 50% dos profissionais que hoje ali trabalham o fazem por regime de contrato temporário de trabalho. É claro que isso viola os Princípios Constitucionais da Eficiência (art. 37 caput da CRFB/88) e do Valor Social do Trabalho (art. 1º inciso IV da CRFB/88), além de violar o Princípio do Concurso Público, não sendo constitucionalmente aceito. Situações extraordinárias seriam aquelas, por exemplo, relacionadas ao estado de calamidade pública, declaração de guerra externa, terremotos, enchentes etc; mas jamais a situação de que o Governo se recusa a contratar definitivamente novos servidores públicos para o preenchimento de vagas em número suficiente para atender o interesse público. Note-se que, nesse caso, o Governo está agindo contra o interesse público, fugindo da finalidade precípua do Estado que é o bem comum. Mais do que isso: os artigos 11 e 12 da Lei /11 estabelecem que os contratos temporários de emprego poderão ser prorrogados uma única vez, desde que a soma dos dois períodos não ultrapasse 5 anos; devendo obedecer o disposto no artigo 443 da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). Acontece que os dispositivos da CLT apontados dizem que o contrato de trabalho por tempo determinado só é válido em se tratando de : a) serviço cuja natureza ou transitoriedade justifique a predeterminação do prazo; b) atividades empresariais de caráter transitório. Como interpretar a lei trabalhista nesse caso? Para este fim, trazemos os ensinamentos do Desembargador do Tribunal Regional do Trabalho 2ª Região Prof. Sérgio Pinto Martins: Bem, o serviço de natureza transitório é o que é breve, efêmero, temporário. Aqui está se falando de serviço transitório e não de atividade empresarial de caráter transitório, de modo que a transitoriedade deverá ser observadaem relação às atividades do empregador e não do

8 empregado. Seria o caso, por exemplo, de contratar um empregado temporariamente para atender a um breve aumento de produção em certo período do ano. Esse não é o caso dos Hospitais Universitários, porque a contratação de pessoal é exigida para o atendimento de uma necessidade contínua, permanente, da instituição; e não temporária. Do mesmo modo com relação aos outros Hospitais Federais. Já as atividades empresariais de caráter transitório dizem respeito à empresa e não ao empregado ou ao serviço. Seria o caso, por exemplo, de criar uma empresa que apenas funcionasse em certas épocas do ano, como a de venda de fogos nas festas juninas; a que produzisse ovos de Páscoa; a que fabricasse panettone para o Natal etc. Esse, logicamente, também não é o caso dos Hospitais Públicos Federais, Universitários ou não. Além do mais, existe a Súmula nº 195 do Supremo Tribunal Federal (STF), que assim dispõe: Contrato de trabalho para obra certa, ou de prazo determinado, transforma-se em contrato de prazo indeterminado, quando prorrogado por mais de quatro anos. Também não podemos deixar de considerar que o Supremo Tribunal Federal já afirmou que o serviço público de saúde é essencial, não podendo ser caracterizado como temporário. Portanto, é desarrazoado contratar temporariamente servidores para exercer funções a ele relacionadas. Do mesmo modo, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) já se pronunciou afirmando que empregados de empresas públicas e sociedades de economia mista, apesar de se submeterem ao concurso público, não são equiparados aos servidores públicos. Então, além de inconstitucional, essa Lei que autoriza o Poder Executivo a criar a EBSERH traz uma clara ilegalidade no seu conteúdo, pois ignora a manifestação do Supremo Tribunal Federal e contradiz o prescrito pela CLT. Com relação ao regime de pessoal permanente da EBSERH, este será o da CLT, ou seja, os trabalhadores da EBSERH serão empregados públicos, celetistas, sem estabilidade e sem direito à aposentadoria integral e paritária. A esse respeito, importante assinalar a Orientação Jurisprudencial nº 247 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que assim se coloca: A despedida de empregados de empresa pública e de sociedade de economia mista, mesmo admitidos por concurso público, independe de ato motivado para sua validade. Ou seja, o TST admite a demissão dos empregados públicos sem justa causa. Então, trabalhando nos Hospitais Federais, Universitários ou não, teremos servidores públicos (estatutários, estáveis, com direito à aposentadoria integral e paritária) e os empregados públicos; além de, por um período de tempo, também trabalhadores temporários (sem vínculo empregatício com a Administração Pública). Todos trabalhando sob regimes diversos de pessoal, com planos remuneratórios diferenciados, com vencimentos e salários também distintos, e exigidos indistintamente quanto a eficiência na prestação dos serviços públicos. Direitos trabalhistas desiguais. Isso, sim, acarreta distorções e vulnerabilidade jurídica insanáveis. Isso, sim, fere Princípios Constitucionais. Por si só, isso revela uma aberração de política administrativa, porque o que precisamos é de um regime de pessoal único (regime jurídico único) que trate igualmente os trabalhadores de uma mesma instituição, de modo a não gerar conflitos de interesses entre esses trabalhadores, o que afeta a eficiência dos serviços públicos por eles prestados.

9 Qualquer pensamento contrário a esse fere os Princípios Constitucionais da Igualdade e da Eficiência, previstos no caput dos artigos 5º e 37 da nossa Constituição Federal. Necessário esclarecer que a criação da EBSERH vem contra aquilo que foi estabelecido na 14ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 2011, e reafirmada em 2012, que reconheceu que a implantação desta Empresa nos Hospitais Universitários do Brasil trará prejuízos para os usuários, trabalhadores, estudantes, professores e para a sociedade em geral, e conclamou que a comunidade universitária e os Conselheiros das diversas Universidades rejeitem, no Conselho Universitário, a sua implantação. 5- Quais as principais finalidades da EBSERH? Para respondermos esta pergunta, importante conhecermos a definição de empresa. Empresa é definida como atividade economicamente organizada, voltada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços, com finalidade lucrativa. Esta é a interpretação correta do artigo 966 do Código Civil/2002. Ninguém cria uma empresa com finalidade de prejuízo econômico ou sem qualquer finalidade lucrativa. Isto não existe. Assim, a EBSERH é uma empresa pública estatal, com personalidade jurídica de direito privado, com dupla finalidade: prestação de serviço público e obtenção de lucro; de modo que esse lucro terá que ser obtido, necessariamente, através da prestação do serviço público a que ela se destina. Ou seja, os atuais Hospitais Universitários, com a EBSERH, deixarão de ser hospitais universitários propriamente ditos e passarão a ser hospitais prestadores de serviços hospitalares instrumentos para a obtenção do lucro líquido desta empresa. Desse modo, fica claro que o Governo, com a criação da EBSERH, está decidido a não mais investir nestes hospitais (terciários e quaternários), criando, então, condições para que estes hospitais, ao médio e longo prazo, se mantenham por si mesmos, através de recursos obtidos com a mercantilização da saúde, do ensino e da pesquisa. Além disso, está entre os objetivos do Governo, com a criação da EBSERH, possibilitar, ao longo prazo, economizar nos benefícios previdenciários e nas aposentadorias desses empregados públicos (celetistas), já que esses irão se aposentar recebendo o teto remuneratório da Previdência Social, sem direito à integralidade e sem direito à paridade dos seus proventos, e sem todos os direitos previstos no Regime Jurídico único (Lei nº 8.112/90). 6- A EBSERH faz parte de um projeto do Governo Federal de privatizar os Hospitais Universitários Federais? Com certeza, sim! Afinal de contas, trata-se de uma entidade com personalidade jurídica de direito privado. Caso contrário, o Governo Federal jamais alteraria o regime jurídico desses Hospitais, ou seja, manteria os Hospitais Públicos Federais Universitários submetidos ao regime de direito público. Mas não tem como objetivo privatizar somente os nossos Hospitais Públicos Federais Universitários. O projeto do Governo é muito mais amplo e deplorável! O objetivo é flagrantemente destruir o nosso Sistema Único de Saúde (SUS).

10 A própria Lei nº /11 deixa clara a sua perversa intenção. Vejamos o que diz o seu artigo 6º: A EBSERH...poderá prestar os serviços relacionados às suas competências mediante contratocom as instituições federais de ensino ou instituições congêneres. Bem, desse modo, todos os atuais Hospitais Públicos Federais, Universitários ou não, poderão contratualizar com aebserh. Vejamos o que diz o artigo 17 desta Lei: Os Estados poderão autorizar a criação de empresas públicas de serviços hospitalares. Ah, então, o Governo Federal sinaliza para os Estados que eles devem adotar o mesmo caminho. E, recentemente,o Município do Rio de Janeiro propôs a criação de uma Empresa Municipal de Saúde, passando todas as funções de gestão da Secretaria Municipal de Saúde para esta Empresa. Então, o projeto do Governo é, por intermédio da EBSERH, destruir o SUS como foi originalmente pensado e construído ao longo de mais de vinte anos. A EBSERH gera um efeito dominó para todos os entes federativos, de modo que a Saúde passa a ser pensada, planejada e executada sob a óptica de mercado e sob a lógica empresarial. Como assim? A EBSERH tem conteúdo não de empresa pública, mas sim de sociedade de economia mista, já que a Lei /11 autoriza a criação de filiais e subsidiárias (artigo 1º 1º e 2º) para o desenvolvimento de atividades inerentes ao seu objeto social, assim como diz que a integralização do seu capital social será realizada também pela incorporação de qualquer espécie de bens e direitos suscetíveis de avaliação em dinheiro (artigo 2º parágrafo único), além de falar na obtenção de lucro líquido (artigo 7º parágrafo único). E o que são estes institutos (filiais, subsidiárias, agências)? Filial: refere-se àquele estabelecimento que representa a direção principal; contudo, sem alçada de poder deliberativo e/ou executivo, encontrando-se em dependência mais direta da sede. A filial pratica atos que têm validade no campo jurídico e obrigam a organização como um todo, porque este estabelecimento possui poder de representação ou mandato da matriz. Por esta razão, a filial deve adotar a mesma firma ou denominação do estabelecimento principal. Sucursal: trata-se de uma forma de crescimento ou expansão de uma atividade empresarial, expansão esta que se dá em novas zonas de mercado, sem que se constitua numa entidade jurídica distinta. Trata-se de um órgão subordinado que depende economicamente de outro principal, tendo o seu mesmo objetivo e denominação social, ainda que situada numa região diferente do país ou do mundo. A abertura de uma sucursal visa um aumento de volume de negócios fora da sede da entidade principal, sendo consequência da dispersão de estabelecimentos de uma mesma empresa. As sucursais podem celebrar atos e contratos no âmbito dessa mesma empresa a qual se encontram subordinadas, pois gozam de uma certa independência administrativa para o desenvolvimento das suas atividades quotidianas. Agência:é o estabelecimento comercial localizado fora da sede, e a esta subordinada, com o fim de promover a intermediação de negócios.

11 Portanto, não resta dúvida quanto à intenção governamental de privatizar a Saúde Pública do nosso País. Mas isto é inconstitucional! Não! 7- É possível uma Empresa Pública com personalidade jurídica de direito privado prestar serviços públicos de saúde, sob o manto da nossa Constituição Federal? E fundamentamos nosso entendimento com os ensinamentos do jurista e Professor de Direito Administrativo e de Direito Tributário Prof. Marcelo Alexandrino: Para melhor compreendermos essa questão, importante conhecer o conceito de empresas estatais. Empresas Estatais: são pessoas jurídicas de direito privado pertencentes à Administração Pública Indireta, nas formas de empresas públicas ou sociedades de economia mista, criadas por autorização legislativa, para a exploração de atividades econômicas ou para a prestação de serviços públicos. Todavia, se a hipótese for de criação de uma empresa pública ou sociedade de economia mista prestadora de serviços públicos, seu objeto somente poderá ser um serviço público que tenha natureza econômica em sentido amplo, ou seja, os serviços públicos de que trata o artigo 175 da Constituição da República Federativa do Brasil, de E quais são esses serviços públicos de natureza econômica em sentido amplo? São aquelas atividades empresariais exploradas com finalidade de lucro e os serviços públicos passíveis de ser explorados com intuito de lucro, segundo os princípios da atividade empresarial. São exemplos os serviços de telefonia, de fornecimento de energia elétrica, fornecimento de gás canalizado, de radiodifusão sonora e de sons e imagens, de transportes coletivos. Importante salientar que os serviços de educação e saúde, quando prestados pela Administração Pública Direta ou Indireta, são serviços públicos em sentido estrito, diferindo dos serviços públicos referidos no artigo 175 da Constituição Federal em relevantes aspectos: não há possibilidade de serem explorados pelo Estado com intuito de lucro; e não existe delegação de seu exercício a particulares, de modo que quando tais atividades são exercidas por particulares o são como serviço privado. Então, os chamados serviços sociais de educação e de saúde só podem ser prestados pelo Poder Público sob o manto do regime jurídico público e, portanto, por entidades públicas com personalidade jurídica de direito público. Esta é a correta interpretação do nosso Texto Constitucional. Assim, a execução das atividades relacionadas ao Título VIII da nossa Carta Magna ( Da Ordem Social ), dentre os quais saúde e educação, como serviço público, por entidades da Administração Pública Indireta, é própria das autarquias e fundações públicas de direito público. Então, muito embora as empresas públicas e as sociedades de economia mista sejam categorias distintas de entidades, a verdade é que as diferenças entre elas são unicamente formais, não havendo distinção quanto ao objeto e quanto às possíveis áreas de atuação. É próprio das entidades administrativas com personalidade jurídica de direito privado o regime de pessoal conhecido como emprego público, caracterizado pela existência de um vínculo funcional de natureza contratual entre o agente público e a entidade administrativa, ou seja, a relação jurídica funcional é formalizada em um contrato de trabalho sujeito à legislação trabalhista (CLT), exigindo-se aprovação prévia em concurso público.

12 Todavia, a relação jurídica funcional entre a Administração Pública e o servidor público (estatutário) é formalizada, obrigatoriamente, sob as normas da Lei nº 8.112/90 (Regime Jurídico Único). Então, também sob este prisma a EBSERH é inconstitucional! 8- Objetivamente, o que significa ser a EBSERH uma empresa unipessoal? Significa que a sua constituição acarreta a criação de pessoa jurídica com personalidade jurídica própria no caso, de Direito Privado. Além disso, nesse caso, a União, embora participe como verdadeira empresária (responsável por 100% de integralização do seu capital social) participação esta que se dá através de seus designados e por meio dos instrumentos da tutela administrativa -, não impõe a sua vontade, já que a vontade dominante é externa ou transcendente, quer dizer, essa vontade é manifestada de fora, atuando dentro da pessoa jurídica, como seus órgãos, os administradores designados pelo Estado. Isso porque na empresa pública unipessoal inexiste Assembleia Geral ou órgão da empresa através do qual se manifeste a detentora do capital, dentro da entidade; além do que a EBSERH não está subordinada ao Ministério da Educação, mas tão-somente vinculada a ele. O Conselho de Administração é que detém funções deliberativas. 9-Mas se todo o capital social da EBSERH será integralizado por recursos oriundos exclusivamente (100%) dos cofres da União (artigo 2º da Lei nº /11), então, para que a criação da EBSERH? A resposta é uma só: iniciar um processo de privatização do setor público de saúde do nosso País, de modo a permitir uma desestatização nessa área, sendo isso iniciado a partir da desfiguração dos nossos atuais Hospitais Universitários Públicos Federais. A intenção é economizar no setor público que envolva questões sociais (no caso, área da Saúde Pública) para permitir o crescimento do setor privado empresarial. E esta economia abrange também os salários, benefícios sociais e aposentadorias dos profissionais deste setor, modificando o seu regime trabalhista. Por esta razão, recentemente, o Governo Federal editou aquela Medida Provisória (MP) nº 568/12, que reduzia em 50% os vencimentos dos médicos federais, além de manter congelado por temo indeterminado esses vencimentos. Felizmente, graças à mobilização organizada e determinada desses médicos e de suas entidades de classe, este dispositivo foi retirado desta MP. Portanto, nada justifica a sua criação. Na verdade, a EBSERH é mais um elemento do Programa Nacional de Desestatização iniciado pelo Ministro Bresser Pereira, na década de 1990, cujo objetivo fundamental é reordenar a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público, podendo submeter-se à desestatização os serviços públicos objeto de concessão, permissão ou autorização. Ora, Desestatização significa o Estado afastar-se de suas obrigações e responsabilidades na prestação de determinados serviços públicos no caso, a Saúde e a Educação Públicas. Com isso, em pouco tempo, é possível que o Governo Federal crie a EBSERED Empresa Brasileira de Serviços Educacionais -, nos mesmos moldes da EBSERH. Mas isso é inconstitucional!

13 10- Há ofensa ao Princípio Constitucional da Moralidade Pública com a criação da EBSERH? Sim, com certeza! Acontece que a Lei que autoriza a criação da EBSERH (Lei nº /11), no seu artigo 2º, diz que o seu capital social estará integralmente sob a propriedade da União, sendo realizado com recursos oriundos de dotações consignadas no orçamento da União. Então, por si só, essa lei é contraditória em si mesma. Se o seu orçamento é todo ele oriundo da União, por que a criação da EBSERH? Além do mais, temos o artigo 16 da Lei nº /11, que assim dispõe: A partir da assinatura do contrato entre a EBSERH e a instituição de ensino superior, a EBSERH disporá de prazo de até 1 (um) ano para reativação de leitos e serviços inativos por falta de pessoal. Portanto, existe, neste momento, verba disponível no Tesouro Nacional (cofres públicos) para ser aplicada na reativação e modernização imediatas dos nossos Hospitais Públicos Federais Universitários. Todavia, o Governo Federal vem chantagear toda a comunidade universitária utilizando como moeda de troca para a liberação dessa verba a celebração de contrato com a EBSERH. Ou seja, o Governo Federal confessa ter conhecimento de que os Hospitais Universitários estão dramaticamente desvitalizados, mas se mantém numa passividade criminosa há anos e agora quer impor a EBSERH para salvar esses Hospitais. Um absurdo! Ora, isso fere frontalmente o Princípio Constitucional da Moralidade Pública, previsto no caput do artigo 37 da Constituição Federal, razão pela qual temos que resistir e denunciar esse artifício ardiloso do Poder Executivo contra os interesses dos nossos Hospitais Públicos Federais Universitários e tudo aquilo que ele carrega de valor em si. Mas, afinal de contas, o que é o chamado Princípio Constitucional da Moralidade Pública? Bem, este Princípio é que torna jurídica a exigência de atuação ética dos agentes da Administração Pública, possibilitando a invalidação dos atos administrativos que sejam praticados com sua inobservância. Portanto, a Moralidade Administrativa (Pública) é um requisito de validade do ato administrativo, e não um aspecto atinente ao seu mérito, de modo que um ato contrário à Moral Administrativa não está sujeito a uma análise de oportunidade e conveniência, mas a uma análise de legitimidade; isto é, um ato contrário à Moral Administrativa é nulo, e não meramente inoportuno ou inconveniente. Então, um ato contrário à Moral Administrativa não deve ser revogado, e sim declarado nulo, podendo este controle ser efetuado tanto pela própria Administração Pública quanto pelo Poder Judiciário. Não podemos perder de vista que a Moral Administrativa liga-se à ideia de Probidade e de Boa-Fé. Nesse sentido, interessante observarmos os argumentos da AGU (Advocacia Geral da União), ao defender a criação da EBSERH,sustentando que a EBSERH foi instituída para regularizar os recursos humanos e as relações de trabalho nos hospitais públicos federais universitários, dizendo que, atualmente, os Hospitais Universitários Federais mantêm vínculos considerados irregulares pelos órgãos de controle e fiscalização, e que por meio de concursos públicos a empresa irá recompor a força de trabalho dos Hospitais, permitindo a reativação de leitos desativados em decorrência da falta de profissionais e a ampliação de serviços.

14 Ora, para a regularização das relações de trabalho hoje existentes nos nossos Hospitais Públicos Federais Universitários não é necessária a criação de nenhuma empresa pública, mas tão-somente a autorização e realização de concursos públicos federais para a contratação urgente de servidores públicos estatutários, e tudo com observância dos preceitos constitucionais hoje vigentes e do disposto na Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nº 101/2000). Ao contrário do que afirma a AGU, a Lei que autoriza a criação da EBSERH (Lei nº /11) traz nos seus artigos 11 e 12 a seguinte proposição: Fica a EBSERH, para fins de sua implantação, autorizada a contratar, mediante processo seletivo simplificado, pessoal técnico e administrativo por tempo determinado, sendo que esses contratos temporários de emprego somente poderão ser celebrados durante os dois anos subsequentes à constituição da EBSERH e, quando destinados ao cumprimento de contrato celebrado com as instituições federais de ensino ou instituições congêneres, nos primeiros 180 (cento e oitenta) dias de vigência dele, de modo que esses contratos temporários de emprego poderão ser prorrogados uma única vez, desde que a soma dos dois períodos não ultrapasse 5 anos. Além disso, a EBSERH poderá celebrar contratos temporários de emprego com fundamento nas alíneas a e b do 2º do artigo 443 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), mediante processo seletivo simplificado, observado o prazo máximo de duração estabelecido no artigo 445 da CLT ( O contrato de trabalho por prazo determinado não Poderá ser estipulado por mais de 2 anos, observada a regra do artigo 451 da CLT ).Artigo 451 da CLT: O contrato de trabalho por prazo determinado que, tácita ou expressamente, for prorrogado mais de uma vez passará a vigorar sem determinação de prazo. Ou seja, em princípio, a EBSERH não vem regularizar nada nas relações trabalhistas com a Administração Pública, mantendo e prolongando a vulnerabilidade jurídica hoje existente, por meio de contratos temporários de trabalho,contrariando o interesse público nessa questão. E isto é inconstitucional, ilegal e imoral. 11- A EBSERH estará submetida ao controle social o SUS (Sistema Único de Saúde)? Não! A EBSERH não se submete a qualquer controle social. E isso está claro no artigo 14 da Lei nº /11, nos seguintes termos: A EBSERH e suas subsidiárias estarão sujeitas à fiscalização dos órgãos de controle interno do Poder Executivo e ao controle externo exercido pelo Congresso Nacional, com o auxílio do Tribunal de Contas da União. Esta é mais uma das inconstitucionalidades e ilegalidades contidas na EBSERH e tudo o que de ruim ela representa. Como assim? Se os serviços de saúde dos hospitais universitários e de ensino integram-se ao SUS, conforme disposto no artigo 45 da Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/90), estes não podem ficar fora de um controle social. Portanto, se com a EBSERH os atuais Hospitais Públicos Federais Universitários deixam de sofrer qualquer fiscalização e controle direto da sociedade, é porque estes hospitais deixam de pertencer à estrutura física, patrimonial e administrativa das Universidades Públicas Federais e passam a ser tão-somente Unidades Hospitalares da EBSERH verdadeiros instrumentos para a realização dos seus negócios empresariais e obtenção do seu lucro líquido -; na prática, não sujeitos aos Princípios Norteadores e Inspiradores do SUS.

15 Dizer que o Conselho Consultivo da EBSERH (órgão interno da própria EBSERH) tem finalidade de controle social fere a nossa inteligência. Esta é mais uma das inúmeras hipocrisias contidas no seu Regimento Interno. Controle socialé aquele exercido diretamente pela sociedade, de fora para dentro, conforme prescrito nos artigos 1º e 2º da Lei nº 8.142/90 (Conferências e Conselho de Saúde). Não existe outro! 12- Qual a composição dos órgãos estatutários da EBSERH? AEBSERH será composta de quatro órgãos estatutários, a saber: 1- Conselho de Administração (composto por nove membros nomeados pelo Ministro da Educação; sendo três deles indicados pelo próprio Ministro da Educação, um deles indicado pelo Ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão; dois deles indicados pelo Ministro da Saúde; um representante dos empregados e respectivo suplente; e um membro indicado pela ANDIFES, sendo Reitor de Universidade Federal ou Diretor de Hospital Universitário Federal; e o Presidente da Empresa); 2- Diretoria (composta por um Presidente e até seis diretores nomeados pelo Presidente da República, por indicação do Ministro da Educação); 3- Conselho Fiscal (composto de três membros efetivos e respectivos suplentes, nomeados pelo Ministro da Educação; sendo um deles indicado pelo próprio Ministro da Educação; outro indicado pelo Ministro da Saúde; e outro ainda indicado pelo Ministro da Fazenda como representante do Tesouro Nacional). 4- Conselho Consultivo (composto por oito membros; sendo um deles o Presidente da Empresa; dois representantes do Ministério da Educação; um representante do Ministério da Saúde; um representante dos usuários dos serviços em saúde dos Hospitais Universitários Federais, indicado pelo Conselho Nacional de Saúde; um representante dos residentes em saúde dos Hospitais Universitários Federais; um Reitor ou Diretor de Hospital Universitário, indicado pela ANDIFES; um representante dos trabalhadores dos Hospitais Universitários Federais). Mas é só isso? Claro que não! Ela também tem órgão de auditoria interna, um corpo diretivo com inúmeros cargos (Presidência, Chefia de Gabinete, Coordenadoria Jurídica, Assessoria de Planejamento e Avaliação, Assessoria de Comunicação, Ouvidoria, Diretoria de Gestão de Pessoas, Diretoria de Atenção à Saúde e Gestão de Contratos, Diretoria de Logística e Infraestrutural Hospitalar, Diretoria Administrativa e Financeira, Diretoria de Gestão de Processos e Tecnologia da Informação), Estrutura de Governança composta por um Colegiado Executivo (Superintendente do Hospital, Gerente de Atenção à Saúde, Gerente Administrativo, Gerente de Ensino e Pesquisa quando se tratar de Hospitais Universitários -; sendo que os cargos de Superintendente e de Gerentes serão de livre nomeação), dentre outros tantos cargos para compor toda a estrutura gigantesca dessa Empresa, de dimensão nacional. Haja dinheiro público para bancar tudo isso! Estamos diante, pois, de um enorme cabide de empregos politicamente definido. É preciso empregar os amigos do Rei, por todo o território nacional. É muita gente estranha para definir planos, programas, metas e resultados de um Hospital Público Federal Universitário. É, sem dúvida alguma, uma intervenção federal nos Hospitais de Ensino. Para se ter uma ideia do absurdo desse projeto, consta no Regimento Interno da EBSERH que apenas o superintendente da sua Unidade Hospitalar deverá ser da Universidade; todavia, os gerentes, inclusive os de ensino e de pesquisa não precisarão ser dos quadros da Instituição.

16 Ora, é preciso dizer mais alguma coisa? A quem interessa isso? Certamente que não à comunidade acadêmica e nem à sociedade. Isso é preparar um ambiente para o domínio da iniciativa privada na seara da pesquisa nessas Unidades Hospitalares. Estão dando um ar de legalidade a tudo isso. Mas isso é inconstitucional! E isto se multiplica infinitamente se imaginarmos as filiais, escritórios, sucursais e tantas outras coisas mais por todo este nosso País, sempre incorporando novos personagens, como assessores, coordenadores, gerentes etc. Bem, o Conselho de Administração da EBSERH é o seu órgão de orientação superior, com competência para fixar as orientações gerais das atividades da EBSERH, assim como, dentre outras coisas, deliberar o regulamento de pessoal, incluindo o regime disciplinar e as normas sobre apuração de responsabilidade; deliberar o quadro de pessoal, com a indicação do total de vagas autorizadas; deliberar o plano de salários, benefícios, vantagens e quaisquer outras parcelas que componham a retribuição de seus empregados; propor a destinação de lucros ou resultados; propor sobre a dissolução, cisão, fusão e incorporação que envolva a EBSERH; deliberar sobre alteração do capital e do Estatuto Social da EBSERH; autorizar a contratação de empréstimos no interesse da EBSERH; dirimir questões em que não haja previsão estatutária, aplicando, subsidiariamente, a lei nº 6.404/76 (Lei das S.A.); dentre outras competências. Então, fica claro que, a qualquer tempo, a EBSERH pode ter o seu Estatuto Social alterado, bem como alterado o seu capital social, não havendo qualquer impedimento para que, por lei específica, seja ela transformada em uma Sociedade de Economia Mista, abrindo o seu capital para o mercado. Nesse contexto, importante assinalar o que consta no artigo 12 3º do Estatuto Social da EBSERH: O representante dos empregados não participará das discussões e deliberações sobre assuntos que envolvam relações sindicais, remuneração, benefícios e vantagens, inclusive assistenciais ou de previdência complementar, hipóteses em que fica configurado o conflito de interesses, sendo tais assuntos deliberados em reunião separada e exclusiva para tal fim. Logo, a lei deixa claro que as portas estão fechadas às reivindicações dos trabalhadores. Não há ouvidos para eles. A EBSERH decide e ponto final. 13- Com a adesão à EBSERH, os atuais Hospitais Públicos Federais Universitárioscontinuarão os mesmos? Não! Na prática, a EBSERH desvincula os Hospitais Universitários das Universidades Públicas Federais, ficando sob uma gerência totalmente estranha à Universidade, o que, como afirma o Professor Dalmo Dallari (USP), carece de lógica e razoabilidade jurídica, já que isso fere o Princípio Constitucional da Indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão. Desse modo, saem do cenário universitário os nossos Hospitais Universitários Públicos Federais e entram em cena no ambiente empresarial as Unidades Hospitalares da EBSERH. Ficando o Hospital Universitário sob a administração da EBSERH, os servidores públicos (estatutários) cedidos para ali atuarem estarão sob o comando administrativo e disciplinar da EBSERH, que determinará o modo de cumprimento das suas jornadas de trabalho (ambulatório, plantão...), férias etc. Assim, qualquer acordo anteriormente feito com a Universidade restará sem validade e sem eficácia.

17 Do mesmo modo, será a EBSERH que irá definir chefias de serviços e de enfermarias, número de consultas ambulatoriais por turno, horários de funcionamento dos ambulatórios no ambiente do Hospital Universitário, dentre tantas outras coisas. poder. Os Professores Universitários, particularmente os da Faculdade de Medicina, perderão espaço e Mais do que isso: em pouco tempo, com as aposentadorias e mortes dos atuais servidores públicos federais (estatutários), só teremos trabalhando nos atuais Hospitais Públicos Federais Universitários (mais tarde, Unidades Hospitalares da EBSERH) os chamados empregados públicos (celetistas), desfigurando e descaracterizando totalmente esta instituição. Isto porque a EBSERH não está subordinada ao Ministério da Educação, mas apenas vinculado a ele. E, como empresa estatal, os seus trabalhadores são regidos para sempre pela CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), não incidindo sobre eles a Lei 8.112/90. Assim, o empregado público não será trabalhador da Universidade, mas sim da EBSERH. O concurso público que ele vai fazer será para a EBSERH, e não para a Universidade. Então, o vínculo empregatício será com a EBSERH, e não com a Universidade Pública Federal, já que a EBSERH é pessoa jurídica distinta da Universidade e com ela não se confunde. A EBSERH é empresa pública com personalidade jurídica de direito privado e a Universidade Federal é autarquia com personalidade jurídica de direito público. Portanto, os Hospitais Universitários não serão mais os mesmos, pois perderão a sua essência de caráter universitário (de escola) e ganharão uma essência de caráter empresarial. Assim, só serão universitários no nome, mas não na sua atividade. Assim, se for celebrado o contrato com a EBSERH, na verdade, a Universidade estará abrindo mão, de modo definitivo,do seu Hospital Escola, considerando que ele não é importante para a formação acadêmica na área da Saúde. Esta é a interpretação juridicamente correta do artigo 7º da Lei nº 12550/11:... os servidores titulares de cargo efetivo em exercício na instituição federal de ensino ou instituição congênere que exerçam atividades relacionadas ao objeto da EBSERH poderão ser a ela cedidos para a realização de atividades de assistência à saúde e administrativas. Tudo isso, e muito mais, configurando lesão ao Princípio da Autonomia Universitária e também ao Princípio da Isonomia, ambos de índole constitucional. Ora, os Hospitais Públicos Federais Universitários não podem estar sujeitos a um regime de trabalho que não se submeta às regras do regime jurídico único; ou seja, não podem existir e funcionar sob as rédeas de uma entidade com personalidade jurídica de direito privado. Isto porque os nossos Hospitais Públicos Federais Universitários devem ser considerados verdadeiras cláusulas pétreas de nossas Universidades Públicas Federais e, portanto, intocáveis e indissociáveis da sua vinculação direta e absoluta à estas. E qual o verdadeiro significado dessa desvinculação? Significa que todos os concursados (engenheiros, arquitetos, advogados, sociólogos, economistas, administradores etc) das Universidades Públicas continuarão sendo servidores públicos, exceto os concursados para os atuais Hospitais Universitários Federais, que serão todos empregados públicos. Então, por exemplo, os nossos filhos e netos, ou os atuais estudantes da área da Saúdeque venham a ser médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, técnicos de enfermagem, técnicos de laboratório, terapeutas ocupacionais, técnicos de gasoterapia e tantas outras especialidades na área da saúde, se quiserem trabalhar num Hospital Público Federal Universitário, só

18 poderão fazê-lo sob o regime de trabalho celetista, sem estabilidade e sem aposentadoria integral e paritária, e com vínculo empregatício com a EBSERH, e nunca mais com as Universidades públicas Federais. Portanto, trabalharão para uma Unidade Hospitalar da EBSERH, e não para um Hospital Universitário. Assim, a partir de um determinado momento, todos os concursados das Universidades Públicas Federais, de todas as suas Unidades,continuarão com a garantia da estabilidade e da aposentadoria integral e paritária, exceto os pobres coitados dos concursados que estiverem trabalhando nos atuais Hospitais Universitários das respectivas Universidades, pois esses trabalharão sem a garantia da estabilidade e irão se aposentar recebendo não a integralidade e paridade dos seus vencimentos, mas tãosomente o teto da aposentadoria do INSS. Na verdade, não estarão trabalhando num Hospital Universitário, mas sim numa simples Unidade Hospitalar da EBSERH. Isso porque a EBSERH não está subordinada ao Ministério da Educação, mas apenas vinculado a ele. E, como empresa estatal, os seus trabalhadores são regidos para sempre pela CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), não incidindo sobre eles a Lei 8.112/90. Tudo isso, e muito mais, configurando lesão ao Princípio da Autonomia Universitária e também ao Princípio da Isonomia, ambos de índole constitucional. 14- Qual o tipo de contrato que a EBSERH propõe firmar com as Universidades Públicas Federais? Trata-se de um contrato de adesão, onde um dos pactuantes (no caso, a EBSERH) predetermina (ou seja, impõe) as cláusulas do negócio jurídico, eliminando a possibilidade de qualquer discussão da proposta, devendo a Parte que não participou da sua elaboração (no caso, a Universidade Pública Federal) aceitá-lo em bloco ou rejeitá-lo. Constitui instrumento próprio da prestação de serviços privados de utilidade pública, tais como o de telefonia móvel. Quais são as características principais desse tipo de contrato? Uniformidade: o objetivo do estipulante (EBSERH) é obter, do maior número possível de contratantes, o mesmo conteúdo contratual, para uma racionalidade de sua atividade e segurança das relações estabelecidas. Predeterminação Unilateral:a fixação das cláusulas é feita anteriormente a qualquer discussão sobre o contrato, sendo imprescindível que as cláusulas uniformes sejam impostas por somente uma das Partes (no caso, pela EBSERH). Rigidez:não é possível rediscutir as cláusulas do contrato de adesão. Posição de Vantagem (superioridade material) de uma das Partes:assim, a vontade daquele que elabora o contrato (EBSERH) prevalece (sempre) sobre a dos aderentes (Universidades Públicas Federais), ainda que mais forte economicamente. Portanto, o contrato de adesão traz em si uma característica limitadora da liberdade contratual. Desse modo, os contratos de adesão constituem uma oposição à ideia de contrato paritário, por inexistir a liberdade de convenção (acordo), visto que excluem a possibilidade de qualquer debate e transigência entre as Partes, uma vez que um dos contratantes (no caso, a Universidade Pública Federal) se limita a aceitar as cláusulas e condições previamente redigidas e impressas pelo outro (no caso, a EBSERH),

19 aderindo a uma situação contratual já definida em todos os seus termos (Artigo 54 1º ao 4º da Lei nº 8.078/90). Assim, esses contratos ficam ao arbítrio exclusivo de uma das Partes o policitante (EBSERH) -, pois o oblato (Universidade Pública Federal) não pode discutir ou modificar o teor do contrato ou as suas cláusulas. Como exemplos de contratos de adesão, temos os contratos de seguro e os contratos de telefonia fixa ou celular. Então, no contrato de adesão não há alternativa para o outro contratante (no caso, a Universidade Pública Federal): é pegar ou largar. E quem será o responsável por definir as cláusulas desse contrato? A resposta nós encontramos nos instrumentos legais que regem a própria EBSERH, nestes termos: Artigo 44 3º do Regimento Interno da EBSERH: O contrato será proposto pela Diretoria Executiva e aprovado pelo Conselho de Administração. Artigo 15 do Estatuto Social da EBSERH (Lei nº 7.661/11): A EBSERH será administrada por uma Diretoria Executiva composta pelo Presidente e até seis Diretores, todos nomeados pelo Presidente da República, por indicação do Ministro de Estado de Educação. Mas há uma armadilha nessa questão neste procedimento - (para não dizer má-fé): inicialmente, a Universidade Pública Federal formaliza, por meio de um ofício do Reitor dirigido ao Presidente da EBSERH, a decisão (e não a intenção) de aderir à empresa. Essa decisão é de caráter irrevogável; quer dizer, toma-se essa decisão sem ter conhecimento prévio dos termos e cláusulas contratual, nos seguintes termos: Artigo 44 do Regimento Interno da EBSERH: As instituições federais de ensino ou instituições congêneres (por exemplo, os Hospitais Públicos Federais não universitários) aderirão à EBSERH por meio de Termo de Adesão e Contrato. 1º: O Termo de Adesão é o instrumento pelo qual a instituição federal de ensino ou instituição congênere assume o compromisso de adesão ao projeto da EBSERH e lhe concede plenos poderes para a realização de diagnóstico situacional do hospital, que precederá o estabelecimento do contrato. Desse modo, a assinatura do Termo de Adesão é obrigatoriamente anterior ao conhecimento dos Termos do Contrato; quer dizer, assinar o Termo de Adesão significa entregar os nossos Hospitais Públicos Federais Universitários para uma empresa pública com personalidade jurídica de direito privado para ela fazer o que quiser com esses Hospitais, e sem a possibilidade de voltar atrás quanto a essa decisão. Além disso, a assinatura do Termo de Adesão concede à EBSERH plenos poderes para a realização do diagnóstico situacional do Hospital.Ou seja, o Governo Federal está colocando para as nossas Universidades Públicas Federais, e para a sociedade, que elas (as Universidades) não dispõem de pessoal qualificado para a realização desse diagnóstico e que esse diagnóstico é desconhecido delas. Portanto, assinar esse Termo de Adesão é reconhecer publicamente que aquela determinada Universidade Pública Federal é incompetente para se autoconhecer e se autogerenciar, estando absolutamente alienada em relação aos seus problemas e às soluções deles. E isso quem vai afirmar será o seu respectivo Reitor. Então, a assinatura do contrato com a EBSERH só acontecerá após vencida a fase de realização do diagnóstico situacional da instituição; todavia, a assinatura prévia do Termo de Adesão cria para a Universidade a obrigatoriedade de assinar o Contrato. Portanto, já tendo decidido pela adesão (Termo de Adesão), ainda que venha a discordar dos termos e cláusulas do contrato - só posteriormente conhecidos pela Universidade -, esta não poderá recusar-se à sua assinatura. Desse modo, como podem os Conselhos Universitários aprovar e deliberar pela adesão à EBSERH, se eles desconhecem o conteúdo do Contrato? Isso é de uma irresponsabilidade e inconsequência

20 absolutamente condenáveis sob todos os aspectos. Não podemos admitir esse tipo de conduta. Com certeza, cabe Mandado de Segurança contra essa decisão. Acontece que, dependendo do Reitor, é possível até que um ou outro Reitor esteja alheio a tudo isso; afinal de contas, existem reitores e Reitores. Mas, com certeza, se ele (o reitor) não sabe, nós os servidores públicos federais que atuamos nesses Hospitais Públicos Federais -, com certeza, sabemos o seu diagnóstico, conhecemos as suas causas e temos as soluções; e não nos furtamos ao desafio. Assim, não precisamos que ninguém de fora da Universidade venha dizer e determinar o que podemos ou não podemos fazer aqui, definir o nosso diagnóstico e impor as nossas soluções.isso fere a Autonomia Universitária. Se alguma Universidade Pública Federal é dirigida, no momento, por um reitor que desconhece os problemas do seu respectivo Hospital Universitário, cabe, com certeza, uma proposição de impeachment feita imediatamente pelo seu Conselho Universitário. Então, até por isso a autonomia universitária fica frontalmente comprometida e mitigada. Mas as armadilhas não cessam aí. Há mais. O artigo 44 2º do Regimento Interno da EBSERH assim dispõe: O contrato conterá, entre outras: I- as obrigações dos signatários; II- as metas de desempenho, indicadores e prazos de execução; III- a respectiva sistemática de acompanhamento e avaliação, contendo critérios e parâmetros a serem aplicados; IV- a previsão de que a avaliação de resultados obtidos, no cumprimento de metas de desempenho e observância de prazos pelas Unidades da EBSERH, será usada para o aprimoramento de pessoal e melhorias estratégicas na atuação perante a população e as instituições federais de ensino ou instituições congêneres, visando ao melhor aproveitamento dos recursos destinados à EBSERH; V- mecanismos de controle social. Bem, quanto ao controle social da EBSERH, este está mais do que provado e reconhecido que não existirá, por impossibilidade imposta pela própria Lei nº /11 (artigo 14). A própria EBSERH denomina os atuais Hospitais Públicos Federais Universitários de Unidades da EBSERH, uma vez feita a adesão. Não se fala em cláusulas definidoras das causas, modos e condições de rescisão contratual. Então, este é o momento de fazermos a leitura do artigo 1º da Lei nº /11: Fica o Poder Executivo autorizado a criar empresa pública unipessoal,... denominada Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), com personalidade jurídica de direito privado e patrimônio próprio, vinculada ao Ministério da Educação, com prazo de duração indeterminado. Portanto, a Lei nº /11 prevê que o contrato a ser firmado com a EBSERH é por tempo indeterminado ( o céu é o limite ), pois não existe cláusula de revisão ou rescisão contratual, de modo que esse contrato só termina se o Congresso Nacional aprovar uma Lei que promova a extinção da EBSERH. Então, de forma definitiva (para sempre), A EBSERH quebra a Autonomia Universitária, retirando das Universidades Públicas (Autarquias Públicas Federais Pessoas Jurídicas de Direito Público) os seus quarenta e seis Hospitais Universitários e transformando-os em Unidades Hospitalares de uma Empresa Pública Pessoa Jurídica de Direito Privado com sede em Brasília, com a possibilidade de criação de subsidiárias e filiais (institutos jurídicos próprios das Sociedades de Economia Mista) Subsidiária Norte, Subsidiária Sul etc -, cuja real finalidade é a obtenção de lucro líquido através da realização do seu objeto social (basicamente, a prestação de serviços hospitalares), inaugurando a dupla entrada nesses Hospitais (pacientes do SUS com Plano de Saúde e pacientes do SUS sem Plano de Saúde),passando a ter autoridade disciplinar e administrativa sobre todos os atuais funcionários (servidores públicos estatutários) desses Hospitais, que deixam (para sempre) de estar subordinados às diretrizes administrativas e disciplinares das Universidades Públicas.

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