APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE RESÍDUOS NO BRASIL E A GERAÇÃO DE CRÉDITOS DE CARBONO

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1 APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE RESÍDUOS NO BRASIL E A GERAÇÃO DE CRÉDITOS DE CARBONO ALICE DE MORAES FALLEIRO Universidade Federal de Santa Maria MARTA TOCCHETTO Universidade Federal de Santa Maria

2 APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DE RESÍDUOS NO BRASIL E A GERAÇÃO DE CRÉDITOS DE CARBONO RESUMO Entre os projetos elegíveis, no âmbito do MDL, aptos a comercializar créditos de carbono estão aqueles que utilizam a queima de resíduos com a finalidade de converter o metano (CH 4 ) em dióxido de carbono (CO 2 ) e os que utilizam a queima de resíduos para gerar energia. O metano apresenta potencial de aquecimento global 21 vezes maior do que o CO 2. Este artigo tem como objetivo identificar esses projetos, a sua localização e a quantidade de créditos de carbono. Apontar esses projetos é de suma importância, na medida em que eles podem ser uma alternativa para diminuir as emissões de GEE e, ao mesmo tempo, incentivar a destinação correta dos resíduos, uma vez que para a obtenção de registro esses projetos devem comprovar a sua contribuição para o alcance da sustentabilidade. Dentre os projetos de energia renovável aptos a operar, no âmbito do MDL, no Brasil estão os que usam biomassa para geração de energia a partir da casca de arroz e de resíduos de madeira e, também os que utilizam os resíduos dispostos em aterro sanitário, entre outros. A redução da geração de resíduos é considerada uma medida de longo prazo, em contrapartida, os projetos de MDL podem ser uma alternativa de curto prazo. Palavras-chave: Gases de Efeito Estufa, Geração de Energia, Protocolo de Quioto, Mecanismos de Desenvolvimento Limpo. ENERGY UTILIZATION OF WASTE IN BRAZIL AND THE GENERATION OF CARBON CREDITS ABSTRACT Eligible projects under the CDM are able to trade carbon credits, are Those Who use the burning of waste in order to convert methane (CH 4 ) into carbon dioxide (CO 2 ) and using the burning of waste to generate energy. Methane has a potential 21-fold higher than the CO2 global warming. This article AIMS to identify these projects, their location and the amount of carbon credits. Pointing these projects is critical, in that they can be an alternative to reduce GHG emissions and at the same team, Encourage the proper disposal of waste, since record for obtaining these projects must prove Their Contribution to the achievement of sustainability. Among the renewable energy projects suitable to operate under the CDM in Brazil are those that use biomass for energy generation from rice husk and wood waste and Also Those using the waste disposed in landfill, between others. The reduction of waste generation is considered the measure in the long run, However These CDM projects can be an alternative short term. Keywords: Greenhouses, Generation of Energy, Kyoto Protocol, Clean Development Mechanism. 1

3 1. INTRODUÇÃO A ciência indica que a mudança do clima é um fenômeno inequívoco e muitas das mudanças observadas são sem precedentes em uma escala de décadas a milênios. A causa do fenômeno é o acúmulo na atmosfera de gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, entre outros) desde o início do período industrial (1750), principalmente originados da queima de combustíveis fósseis. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), a influência humana no sistema climático é evidente. É extremamente provável que seja essa a causa dominante das mudanças observadas. Diante dessa realidade, o regime internacional para o combate à mudança do clima tem como instrumentos fundamentais a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e o Protocolo de Quioto assinado em 1997 e, em vigor desde o ano de O primeiro período do referido acordo teve seu término no ano de 2012 sendo prorrogado até O Protocolo apresenta três mecanismos de flexibilização, dentre eles, se destaca no presente contexto, o mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL). Tais mecanismos foram desenvolvidos com o intuito de viabilizar a redução dos gases de efeito estufa (GEE). Estão em andamento negociações para um novo acordo sob a Convenção, cuja previsão é serem finalizadas em 2015, para entrada em vigor a partir de A UNFCCC reconhece que as responsabilidades pelo aumento da temperatura global, decorrente do acúmulo de emissões ao longo do tempo são comuns, porém diferenciadas. Reconhece, ainda, as respectivas capacidades financeiras e tecnológicas de cada país. Isso fundamenta a diferenciação das obrigações de países desenvolvidos, listados no Anexo I (países desenvolvidos com metas obrigatórias de redução de emissão de GEE) da UNFCCC, e de países em desenvolvimento (sem metas obrigatórias). As negociações do novo acordo sob a Convenção oferecem oportunidade para inaugurar nova fase do regime internacional de mudança do clima. Mesmo na ausência de uma obrigação jurídica internacional de reduzir emissões, o Brasil assumiu, por meio da Política Nacional sobre Mudança do Clima - Lei n /2009, o compromisso voluntário de reduzir emissões de gases de efeito estufa entre 36,1% e 38,9%, em relação às emissões projetadas até Dentro desse contexto, o Brasil está entre os três países com maior número de projetos de MDL registrados na UNFCCC (United Nations Framework Conventionon Climate Change). Entre esses projetos estão aqueles que utilizam resíduos para gerar créditos de carbono. Diante deste cenário, o presente estudo identificou quarenta e sete (47) projetos desse tipo. Tais projetos são potenciais geradores de créditos de carbono em virtude do alto potencial de aquecimento global do metano, principal gás resultante da decomposição da matéria orgânica. Para realização do estudo foram utilizados dados disponíveis nos sites da UNFCCC, entidade responsável pelo registro dos projetos, além de pesquisas em teses, dissertações e artigos que tratam do referido tema. Logo, o presente artigo tem como objetivo identificar esses projetos, a sua localização e a quantidade de créditos de carbono gerada. 2. DESENVOLVIMENTO Em dezembro de 1997, no Japão, foi elaborado o Protocolo de Quioto, estabelecendo compromissos de redução das emissões antrópicas de gases de efeito estufa (GEE) para os países industrializados listados no Anexo I da Convenção. O acordo não estabelece compromissos adicionais para os países em desenvolvimento. A grande inovação do referido Protocolo consiste 2

4 na possibilidade de utilização de mecanismos de mercado para que os países do Anexo I possam atingir os objetivos de redução de gases de efeito estufa. Os mecanismos, sejam eles, a Implementação Conjunta (art. 6), o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (art.12) e o Comércio de Emissões (art. 17) pretendem possibilitar que os objetivos de redução sejam atingidos. No âmbito interno, o Decreto Presidencial de 07 de julho de 1999 criou a Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima (CIMGC) com o objetivo de formalizar instrumentos, dentro do governo, que pudessem direcionar o potencial do MDL para as prioridades de desenvolvimento nacional. A apreciação e aprovação das atividades de projeto no âmbito do MDL é atribuição da CIMGC, que é a Autoridade Nacional Designada (AND) para efeitos do MDL. O MDL é também uma oportunidade para a promoção do desenvolvimento sustentável em países como o Brasil. Estabelecido pelo Plano Plurianual (PPA) , o programa Mudanças Climáticas está sob a responsabilidade dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Além dos dois ministérios, também recebe recursos do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (Fundo Clima), que tem por finalidade financiar projetos, estudos e empreendimentos que visem a redução dos impactos da mudança do clima e a adaptação aos seus efeitos. No conjunto das ações do programa Mudanças Climáticas incluindo o apoio à Rede Clima, a operacionalização do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), a atualização do inventário nacional de emissões de gases que provocam o efeito estufa e a implantação e operacionalização do Sistema Nacional de Observações Ambientais dos Impactos das Mudanças Climáticas soma-se R$ 3,9 milhões de investimentos para o ano de Outra iniciativa relevante é a Estímulo ao Uso Sustentável de Fontes Alternativas de Energia, que pretende ampliar o uso de fontes alternativas de energia da matriz energética do país, contribuindo desta forma, para o alcance das metas voluntárias de redução das emissões dos gases de efeito estufa do setor de energia, estabelecidas pela Lei de 2009, entre 6,1% e 7,7%. Ainda a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei de 2010, reúne um conjunto de princípios, objetivos, instrumentos, diretrizes, metas e ações adotadas pelo Governo Federal, isoladamente ou em regime de cooperação com Estados, Distrito Federal, Municípios ou particulares, com vistas à gestão integrada e ao gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos. Uma das inovações trazidas pela PNRS está associada à possibilidade de recuperação energética, contemplada em seu 1º, art. 9º, na gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, deve ser observada a seguinte ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos. O referido parágrafo determina que poderão ser utilizadas tecnologias visando à recuperação energética dos resíduos sólidos urbanos, desde que tenha sido comprovada sua viabilidade técnica e ambiental e com a implantação de programa de monitoramento de emissão de gases tóxicos aprovado pelo órgão ambiental. Em outras palavras, a PNRS permite a transformação do resíduo em energia com a utilização de tecnologia aplicável ao MDL, possibilitando a obtenção de Créditos de Carbono. Ainda, no artigo 8 inciso IV consta como medidas indutoras, o apoio à elaboração de projetos no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo ou quaisquer outros mecanismos decorrentes da Convenção Quadro de Mudança do Clima das Nações Unidas. Ou seja, os projetos de MDL podem gerar ganhos financeiros a partir da venda da energia ao sistema elétrico nacional e, também pelo recebimento dos créditos de carbono decorrentes de sua contribuição para a redução das emissões de gás metano para a atmosfera. O crescente volume e complexidade dos resíduos associado ao crescimento econômico estão impondo sérios riscos aos ecossistemas e à saúde humana. Todos os anos no mundo estima-se que são coletadas cerca de 11,2 bilhões de toneladas de resíduo sólido e que a decomposição da parte 3

5 orgânica contribui para cerca de 5% das emissões de Gases de Efeito Estufa (GREEN ECONOMY, PNUMA, 2011, pg.316). Ao mesmo tempo o crescimento do mercado de resíduos, o aumento da escassez de recursos e a disponibilidade de novas tecnologias estão oferecendo oportunidades para o esverdeamento do setor de resíduos. Nesse contexto, o setor está enfrentando três conjuntos de desafios: 1) aumento do crescimento na quantidade e complexidade dos fluxos de resíduos associados ao aumento das rendas e ao crescimento econômico; 2) risco crescente de danos à saúde humana e aos ecossistemas e 3) a contribuição do setor para a mudança climática (GREEN ECONOMY, PNUMA, 2011, pg.316). O resíduo de biomassa inclui resíduos agrícolas e florestais. Estima-se que, mundialmente, 140 bilhões de toneladas de resíduos agrícolas são gerados todos os anos (NAKAMURA, 2009). Nos países em desenvolvimento, devido a uma coleta ineficiente ou inapropriada, deficiência no tratamento do lixo e na infraestrutura de descarte, recursos financeiros limitados e deficitária execução da lei, os depósitos de lixo a céu aberto, não controlados e sem segurança são os método mais comumente utilizado para gestão de resíduos. (GREEN ECONOMY, PNUMA, 2011, pg. 326). A figura 1 apresenta a hierarquia da gestão de resíduos, na qual se observa que o descarte, em termos de gestão é a alternativa de menor preferência. No entanto, em países em desenvolvimento a pirâmide se mostra invertida devido às razões apresentadas. Figura 1 - A hierarquia da gestão de resíduos Fonte: Green Economy, PNUMA (2011) De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPPC), as emissões de GEE geradas por resíduos pós-consumo foram equivalentes a aproximadamente MtCOe em 2005(BOGNER et al. 2007). No setor de resíduos, o metano dos aterros é a maior fonte das emissões de GEE, causadas pela degradação anaeróbica de matéria orgânica nos aterros e nos lixões não monitorados. As emissões provenientes dos aterros dependem das características do lixo (composição, densidade, tamanho das partículas) e das condições (umidade, nutrientes, micróbios, temperatura e ph). A composição do gás dos aterros (LFG) é de cerca de 50-60% de metano com CO 2 restante e traços de compostos orgânicos voláteis exceto metano, também compostos orgânicos halogenados e 4

6 outros. (GREEN ECONOMY, PNUMA, 2011, pg.338). Recuperar energia e outros subprodutos úteis a partir de resíduos tem sido possível devido aos consideráveis avanços tecnológicos, que levaram à implementação de projetos de WtE. Na maioria dos casos, esses projetos fornecem oportunidades para a geração e distribuição de energia de modo descentralizado onde a rede elétrica não pode ser disponibilizada. Com as tecnologias avançadas, o resíduo propriamente dito pode ser transformado em produtos energéticos úteis (GREEN ECONOMY, PNUMA, 2011, pg.338). Questões técnicas, como os altos níveis de chorume inibindo a extração de gás e outros problemas no monitoramento e verificação são grandes barreiras nos países em desenvolvimento. A abordagem de tais barreiras permitirá aos países em desenvolvimento utilizarem as receitas de MDL para o esverdear o setor de resíduos (GREEN ECONOMY, PNUMA, 2011, pg.345) 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A presente seção se refere aos procedimentos metodológicos usados para análise e investigação do fenômeno em estudo. Assim, é descrito os procedimentos utilizados que foram norteadores deste trabalho e que, portanto possibilitaram o desenvolvimento em etapas do estudo, a análise dos dados coletados bem como as considerações e conclusões. A primeira etapa constou da pesquisa sobre os temas que norteiam o estudo, na qual foram realizadas análise bibliográfica e documental, de caráter exploratório, em livros, teses, dissertações, artigos, relatórios técnicos e bases de dados nacionais e internacionais. Na segunda etapa foi realizada análise do conteúdo dos Project Document Design (PDD) de cada projeto registrado na UNFCCC que utiliza resíduos para a geração de energia, até o presente momento, ou seja, julho de A delimitação do estudo se justifica pela importância de diagnosticar projetos de MDL que utilizem resíduos para gerar energia, em virtude da alta capacidade desse tipo de atividade de gerar créditos de carbono, devido a não emissão de CH 4 e ainda da possibilidade de geração de energia dos mesmos. Assim, foram mapeados todos os 48 projetos registrados com essas características localizados no Brasil até o presente momento. Após a segunda etapa foram analisadas as características dos mesmos, bem como a quantidade de créditos de carbono estimada dos mesmos. Acredita-se que é por meio do conhecimento sobre esses projetos pode se aperfeiçoar iniciativas como essa, que além de contribuir para a diminuição das emissões de GEE ainda contribui para a sustentabilidade, uma vez que tais resíduos, caso não existisse os projetos de MDL, provavelmente seriam dispostos em aterros sanitários, tornando-se um passivo ambiental. Estudos como este se justificam pela importância de conhecer e, portanto reconhecer as características desses projetos e sua importância na busca para minimizar as emissões de GEE em âmbito não somente nacional, mas principalmente internacional, uma vez que os mesmos ajudam os países desenvolvidos signatários do Protocolo de Quioto a alcançar suas metas de emissão de GEE diante de um futuro ainda incerto para os mesmos no que diz respeito a políticas de governo e exigências de abrangência internacional que possam vir a surgir, o que já começa a ser observado atualmente. 4. ANÁLISE DOS RESULTADOS A partir dos procedimentos metodológicos adotados foram obtidos os resultados descritos no que se refere ao tipo de resíduo utilizado, a escala dos projetos, bem como o tipo de período de crédito adotado pelos mesmos. Ainda, foi possível identificar em qual período de créditos, os 5

7 projetos se encontram, ou seja, se eles renovaram seu registro após ter sido findado o primeiro período de venda de CERs (certificados de emissões reduzidas ou créditos de carbono). Isso é um forte indicador do comportamento desse mercado, uma vez esses projetos tem a possibilidade de vender seus créditos por um período de 10 anos (para períodos fixos) ou 21 anos (para períodos renováveis), mas não são obrigados a fazê-lo. A localização geográfica também foi analisada e foi possível verificar a quantidade estimada de créditos de carbono dos projetos. Também foi identificada a participação de outros países, seja como financiadores, investidores, desenvolvedores ou proponentes dos mesmos. O conhecimento da quantidade de projetos que utilizam resíduos para gerar energia limpa e renovável, bem como suas características permitem identificar a participação dos mesmos no total de projetos de MDL registrados localizados no Brasil e, portanto sua contribuição para a redução de emissões de GEE. A tabela 1 mostra a participação desses projetos. Tabela 1 - Projetos de energia renovável registrados no âmbito do MDL Primeiro período Segundo período Projetos registrados/ano Até Total Total Resíduos Porcentagem (%) Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados da UNFCCC (2014). A tabela demonstra que o Brasil obteve o registro na UNFCCC, até o presente momento, de 201 projetos de energia renovável. Desses, 48 projetos utilizam resíduos para gerar energia, ou seja, 24 %. Observa-se que até 2012, quando se encerrou o primeiro período do Protocolo de Quioto, os projetos envolvendo geração de energia a partir de resíduos representavam 25% do total de projetos. No inicio do segundo período tem-se uma queda no número de registros de projetos em geral, isso ocorreu em virtude das incertezas que pairaram sob um novo acordo climático global, o que afetou diretamente o investimento em projetos desse tipo. A expressiva quantidade de projetos envolvendo resíduos nos projetos de MDL localizados no Brasil apresenta diversificação no que diz respeito ao tipo de matéria prima utilizada. A tabela 2 apresenta os tipos de resíduo utilizados para geração de energia nesses projetos. Tabela 2 - Tipo de resíduos utilizados para geração de energia nos projetos de MDL Tipo de resíduos Quantidade de projetos Casca de arroz 3 Restos de madeira 9 Resíduo em aterro sanitário 8 Bagaço cana de açúcar 27 Total 47 Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados da UNFCCC (2014). 6

8 Observa-se que os projetos de utilizam o bagaço da cana são a maioria, seguidos dos que utilizam restos de madeira e resíduos provenientes de aterros sanitários. Os três projetos identificados que utilizam casca de arroz como fonte de energia se localizam no RS. Com relação ao tamanho, os projetos podem ser de pequena (até 15 MWh de potência instalada), larga escala ou ambos. A tabela 3 apresenta o tipo de escala dos projetos. Observa-se que a maioria dos projetos é de larga escala. Tabela 3 - Tipo de escala dos projetos Tipo de escala Quantidade de projetos Pequena 14 Larga 33 Total 47 Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados da UNFCCC (2014). Referente ao período de créditos dos projetos, eles podem ser fixos (10 anos) ou renováveis (07 anos podendo ser renovado por mais dois períodos de 07 anos, totalizando 21 anos de venda de créditos de carbono). A tabela 4 apresenta a quantidade de projetos de acordo com o tipo de período de venda de créditos. Tabela 4 - Tipo de período de venda de créditos de carbono dos projetos Período de venda de créditos de carbono Quantidade de projetos Fixo 5 Renovável 42 Total 47 Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados da UNFCCC (2014). A maioria dos projetos apresenta período de venda de crédito renovável (89%) e somente 11% apresenta período de venda de crédito fixo. No entanto, muitos projetos que já finalizaram os sete primeiros anos de venda não solicitaram renovação. A tabela 5 apresenta o período de crédito em que os projetos se encontram. Tabela 5 - Período de crédito em que se encontram os projetos Período de crédito Quantidade de projetos Primeiro 31 Segundo 11 Total 42 Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados da UNFCCC (2014). A maioria dos projetos (31) se encontra no primeiro período (até sete anos de atividade) e onze projetos estão no segundo período. A figura 2 mostra a localização dos projetos por região geográfica. 7

9 Figura 2 - Localização dos projetos por região geográfica Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados da UNFCCC (2014) Mais da metade dos projetos está localizado na região sudeste, seguida da região Sul e Nordeste. A figura 3 mostra a distribuição dos projetos por estado. Figura 3 - Localização dos projetos por Estado Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados da UNFCCC (2014) Os projetos estão localizados em 14 estados brasileiros com predominância do estado de São Paulo que detém mais de 50% dos projetos. Observa-se que no Rio Grande do Sul estão 11% dos mesmos. A maioria dos projetos conta com a participação de outros países, são eles: Japão, Suíça, Suécia, Canadá, Alemanha, Reino Unido (Grã Bretanha e Irlanda do Norte), França, Noruega, Finlândia e Holanda. O Reino Unido e a Suíça são os países que mais participam (24 projetos). Observa-se também que em 21 projetos esses países estão envolvidos de alguma forma nesse processo. 8

10 Os 48 projetos de energia renovável em conjunto que utilizam resíduos para geração de energia estimam reduzir 2.887, 581 tco 2 por ano durante o período que estão aptos a comercializar créditos de carbono. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os projetos de energia renovável no âmbito do MDL que utilizam como matéria-prima resíduos apresentam participação expressiva, considerando o número total registrado no Brasil. A afirmação considera tanto em quantidade, 25% do total quanto em redução de emissão de GEE, uma vez que evitam a emissão de metano (CH 4 ), o qual apresenta potencial de aquecimento global 21 vezes maior do que o CO 2. Conseqüência disso está no incremento da produção de energia limpa. Logo, o aproveitamento de resíduos para geração de energia e a venda de créditos de carbono propiciam benefícios econômicos, ambientais e sociais que vão desde, a economia de recursos naturais até a criação de novos empreendimentos e postos de trabalho. Este artigo constatou que a integração entre destinação final correta de resíduos e a venda de créditos de carbono, a partir do aproveitamento energético dos mesmos, apresenta-se como uma importante ferramenta para redução das emissões de GEE e, portanto para contribuir com os esforços para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Uma vez que a redução da geração de resíduos é considerada uma medida de longo prazo, em contrapartida esses projetos de MDL pode ser uma alternativa de curto prazo. Logo, a importância em desenvolver e incentivar projetos representa um desafio para encontrar soluções que reduzam os resíduos destinados para aterro sanitário. Os projetos que geram energia a partir do resíduo disposto, também são importantes, uma vez que servem de medida mitigadora para o que não foi possível reduzir, reaproveitar e ou reciclar, além disso evitam o crescimento de áreas com passivos ambientais.assim, é preciso reconhecer e identificar os projetos que usam resíduos que seriam destinados ao aterros, e, ao contrário passam a serem utilizados como fonte de energia, como: restos de madeira, casca de arroz e bagaço de cana de açúcar. Mesmo diante dos aspectos positivos apresentados, constatou-se uma queda significativa no número de registros dos projetos de MDL nos últimos anos, o que sinaliza recuo de investimentos nesse setor. Isso ocorreu, principalmente, em virtude de: Incertezas com relação a um futuro acordo climático global; Queda na participação de outros países nos projetos. Verificou-se que nos últimos anos os projetos registrados não contaram com participação de outras nações; Queda nos preços dos créditos de carbono; Falta de integração entre poder público e privado; Inexistência de legislação que envolva de maneira direta demanda interna para os créditos de carbono gerados por esses projetos; A falta de competitividade do etanol, advindo da cana de açúcar, comparado com a gasolina fizeram com que esse setor também recuasse em investimentos. Reflexo disso é que muitos projetos de MDL que utilizavam o bagaço da cana-de-açúcar para gerar energia, os quais são a maioria não renovaram seu período de crédito. O recuo de incentivos e os avanços nesse mercado são consequências das dúvidas que permeiam o mesmo e nos levam a considerar de fato, a extinção de novos projetos desse tipo. REFERÊNCIAS 9

11 BRASIL. Lei , de 29 de dezembro de Institui a Política Nacional sobre Mudança do Clima - PNMC e dá outras providências. Brasília, D.F, Disponível em < Acesso em: 30 maio BRASIL. Lei nº , de 2 de agosto de Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei n o 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato /2010/lei/l12305.htm>. Acesso em: 30 de jul BRASIL. Lei nº , de 18 de janeiro de Institui o Plano Plurianual da União para o período de 2012 a Disponível em < Acesso em: 5 ago CRUZ, S,R,F; PAULINO, S,R. Indicadores de avaliaçãoparaprojetos de Mecanismo de DesenvolvimentoLimpo (MDL) ematerrossanitários. VI Encontro Nacional da Anppas. Belém. PA. 18 a 21 de setembro de Decreto nº 7.404, de 23 de dezembro de Regulamenta a Lei no , de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, cria o Comitê Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a Implantação dos Sistemas de Logística Reversa, e dá outras providências. Disponível em Acesso em: 8 de jul Decreto nº 7.390, de 9 de dezembro de Regulamenta os arts. 6º, 11 e 12 da Lei , de 29 de dezembro de 2009, que institui a Política Nacional sobre Mudança do Clima PNMC, e da outras providências. Disponível em < ccivil_03/_ato /2010/decreto/d7390.htm>. Acesso em: 10 jul Decreto de 7 de julho de Cria a Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, com a finalidade de articular as ações de governo nessa área. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/dnn/anterior%20a%202000/dnn htm>. Acesso em 07 de ago Intergovernmental Panel on Climate Change.IPCC.The physical Science Basis Disponívelem Acessoem: 28 de Jul MICHAELOWA, A.; BUEN, J.The Clean Development Mechanism Gold Rush. In: Michaelowa, A. Carbon markets or climate finance? Low carbon and adaptation Investment choices for the developing world. Routledge, London, pp Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI). Protocolo de Quioto Disponível em: <http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/17331/protocolo_de_quioto.html>. Acesso em: 30 maio PNUMA. Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da 10

12 Pobreza Síntese para Tomadores de Decisão Disponível em < /www.pnuma.org.br/admin/publicacoes/texto/1101-greeneconomysynthesis_pt_online.pdf>. Acesso em: 05 jul UNEP. Towards a Green Economy: Pathways to Sustainable Development and Poverty Eradication.ISBN: Disponívelem<http://www.unep.org/ greeneconomy>. Acessoem: maio de United Nations FrameworkConventiononClimateChange. UNFCCC. CDM Project. Disponível em < Acesso em: 4 jul de

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