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2 F " fi BIBLlOTHECA FRANCISCO J: MARTINS Est Prat. Oaixa N. I

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9 l-iamlet DRAMA EM CINCO ACTOS

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11 WILLIAM SHAKESPEARE! DRA IA E 1 C':{NàO ACTOS TRADUCÇÃO PORTUGUEZA SEGUNDA EDI(;{O LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1880

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13 PIHWIUEDADE CEnIDA 1'011 SUA liagestade EJrltEI.\ ASSOCIAÇÃO DAS CRECHES, r Coog Ie

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15 INTERLOCUTORES CLAUDIO - Rei de Dinamarca. HAILET - Filho do defunto Rei e saltinho do Rei reinante. POLONIO - Camareiro mór. HORACIO - Amigo de Hamlet. LAERTE - Filho de Polonio. VOLTIIANDO CORBELIO ROSENCRANTl Cortezãos dinamarquezes. GUILDENSTERN OSRICO UI OUTRO CORTEZAO. UlI PADRE. REINALDO - Creado de Polon:o. IARCELLO e BERNARDO - Officiaes. FRANCISCO - Soldado. UlI EIBAIXADOR. A SOIERA DO REI HAlLET. FORTIIBRAZ - Principe de Noruega. GERTRUDES - Rainha de Dinamarca. mãe de Hamlet. OPHELIA - Filha de Polonio. Senhores, damas, omclaes, soldados, actores, padres, covplros, marinbeiros, mensageiros, creadns, etc. A scena passa se em Elsenor

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17 ACTO PRIMEIRO SCENA I EIseno1. a e xplanada do castello FRANCISCO de sentinclla, BERNARDO vem e ncontrar-se com elle BER ARDO Quem vem lá? viva quem? FRANCISCO Responde tu primeiro, faze alto, deixa-te reconhecer. BERNARDO Viva o rei. FRANCI SCO Bernardo'? BERNARDO Eu mesmo. FRANCISCO És pontual. BERNARDO Acaba de dar meia noite ; vae descansar, Francisco. rrancisco e Agt'adeço-te de m e teres vindo render ; faz um fri o glacial,. começava a s ntir-me i ncommodado.

18 BERNARDO Não houve novidade emquanto estiveste de sentinella? FRANC I SCO Nem sequer ouvi correr um rato. BERNARDO Então boas noites ; se vires Ho ra c io e Marcello, que lam bem estão d e guarda, d ize-lhes que se aviem. Chegam HORACIO e MARCELLO FRANCISCO Creio ouvil-os, façam alto, quem vem l á?, HORACIO Ami gos da pat ria. MARCELLO Sübditos do rei de Dinamarca. FRANCISCO Santas noites. MARCEI.LO Viva, meu valente soldado, quem te rendeu? " FRANCISCO Bernardo est á agora de sentinella. Boa noite. (Retira-se.) MARCELLO Olá, B ernardo? BERNARDO Não é Horacio que eu vej o? HORACIO Elle m esmo em corpo e alma. BERNARDO Bemvindo sejas, Horacio, e tu tambem, amigo Mal'cello. &IARCELLO Dize-me, já viste a apparição esta noite?

19 \} BERNARDO Ain da nada vi. MARCELLO Horacio diz que é effeito da minha imaginação, e nega-se a acreditar na visão temerosa, de que já por duas vezes fomos testemunhas ; pedi-lhe portanto que viesse comnosco, para que se o p hantasma d e novo apparecer, elle possa testemunhar a verdade do que afiançâmos e dirigir-lhe a palavra. HORACI O Histori as, qual apparecer! BERNARDO Sentemo-nos u m i nstante, e vamos repetir-te a narração tio que temos p resenceado duas noi t es consecutivas e a que p restas tão pouco credito. HORACIO Com todo o gosto, e deixemos fal1ar Bernardo.. BERNARDO A noite passada, á hora em que esta estrella que vêem ao poente do polo descreve o seu gi ro e vem i lluminar esta parte do firmamento, em que ora brilha, no m omento em que na torre soava uma hora, Marcel10 e eu... MARCELLO Silencio, eil-o que apparece. ' Apparcce a sombra do REI BERNARDO Assimilha-se ao defunto rei. MARÇELLO Tu que estudaste, Horacio, falia-lhe. BERN A RDO Não é verdade que se parece com o defu n t o rei? Observa bem, Horacio. HORACIO A simil hança é espantosa ; a surpreza e o terror paralysa ram-me. Digitized b y

20 to BERNARDO Parece esperar que lhe fanem. MARCELLO FalIa-lhe, Horacio. HORACIO Quem quer que és, que a esta hora da noite usurpas a fórma magestosa e guerreira, debaixo da qual se mostrava o meu defunto soberano, em nome do céu, fana, ordeno-to eu t MARCELLO Parece descontente. BERNARDO E il-o que se afasta, caminhando lenta e gravemente. HORACI O Detem-te, falia, falia, i ntimo-te a que falies. (A sombra afasta-se.). MARCELLO Foi-se sem responder. BERNARDO Então, Horacio, que é essa tremura e pallidez ; não haverá alguma cou sa mais do que um effeito de imaginação, que d izes agora? HORACIO Pelo Deus do céu, não o acreditava sem o t es temunho po sitivo e i rrecusavel dos meus p roprios olhos. MARCELLO Não se parece com o rei? HORACI O Como t u te pareces comtigo mesmo, era a armadura que usava quando combateu o ambicioso norueguez ; t inha aquelle ar ameaçador, no dia em que no seu p roprio carro, atacou, por causa de uma acalorada porfia, o guerreiro polaco, e o p rostrou no gêlo para nunca mais se levantar. E assombroso t MARCELLO Assi m é que elle já duas vezes passou pelo nosso posto de observação com o seu caminhar grave e marcial.

21 ' u HORACIO Com que design io ignoro-o, mas em m inha opi n ião é u m presagio para o estado d e alguma grand e catastrophe. MARCELLO Pois bem, sentemo-nos, e aquelle d'entre vós todos que o souber, diga porque fatigam, com guardas vigilantes e rigorosas, os subditos d'este reino ; para que esta fun dição d iaria de canhões de bronze, estas compras de armamentos e muni ções no estrangei ro ; para que se enchem de opera.rios os nos sos arsenaes m ariti mos ; porque este augmento de t rabalho, que nem os dias santos são respei tados ; para que esta activi dade de dia e de noite? O que será? Qual de vós m' o poderá ' dizer? HORACIO Posso eu, ao m enos, referir os boatos. Nosso ultimo rei, cuja imagem ainda ha pouco vimos, foi, segundo dizem, con vocado a campo fechado por Fortimbraz de Noruega, que u m cios, o orgulho t i nhajevado a esse acto. N'esse combate o nosso valente Hamlet, e era justa a sua reputação, matou a Fortim braz. Ora em virtude de urna declaração authentica, sanccio nada pelas leis da cavallaria, se Fortimbraz succumbisse, todos os seus estados p ertenceriam ao vencedor. Por sua parte o nosso rei tinha empenhado da mesma fórma a sua palavra ; e no caso de elie ser vencido, uma i gual porção de territorio pertenceria a Fortimbraz. Assim, em virtude d' este pacto recip roco, a s uc cessão do vencido pertencia de direito a Hamlet. Comtudo o joven Fortimbraz, ardente e sem experiencia, reuniu nas fron teiras de Noruega um e xercito de aventureiros, promptos e re solvidos pela soldada aos mais audaciosos comm ettimentos. O seu proj ecto, segundo o nosso governo está informado, é nada menos do que retomar á viva força e de mão armada esse territorio que seu pae perdeu com a vida : eis-aqui, na mi nha fraca opinião, a rasão principal dos preparativos que fa zemos, das guardas a que somos obrigados, e d' esta actividade tumultuosa que se nota em todo o paiz. BERNARDO Tambem eu julgo ser esse o motivo ; i sto explica-nos porqu e vemos passar diante dos postos d e guarda a sombra d o rei,

22 com a sua armadura e com o seu porte magestoso, d'esse rei que foi e é o causador d'esta guerra. BORACIO É um argueiro nos olhos da in telligencia para lhes pertur bar a \Oista. Nos tempos mais glo ri osos e florescentes de Roma, pouco antes da morte do grande Julio, abriram-se os lumulos, e os mortos, nas suas m orta lhas, di\oagaram pel a cidade, sol tando gritos ameaçadores; viram-se estrell as dei x ar ' após si rastos luminosos, choveu sangue, desastrosos signaes appare ceram no céu, e o astro humido, sob cuj a influencia está o imperio de Neptuno, eclipsou-se; todos julgaram ser o fim do mundo. Estes mesmos signaes precursores de acontecimentos terrí\ eis, correios de maus destinos, prel udios de gran des ca tastrophes, o céu e a terra os fizeram apparecer nos nossos c l im as, aos o l h os impre ssionaveis dos nossos compatriotas. A sombra re:lpparece HORACIO continuando Mas silencio, olhem, eil-o que volta. Vou interpell al-o, em bora elie me fulmine. Pára. lilusão. Se tens o dom da pa lavra, se pódes arlicular son s, fali a; se h a alguma boa acção cujo cumprimento te possa al liviar e con tribuir para a minha salvação, responde-me : se és sabedor de alguma desgraça que ameace a tua palria, e que um aviso opportuno possa des viar... Oh fana! ou se em tua vida confiaste ás e n tran has da terra riqueza s mal a dq uiridas; e a maior parte das vezes é por isso que vós, os espiri tos, divagaes depois da morte, dil - o. (O gallo canla.) Delem-te e falia. Veda-lhe o cam inh o, Marcello. alarcello Devo servir-me da minha parta zana? HORACIO Scrve te se não parar. BERNARDO Para cá? nor.\ci O Por acolú. 1.\ sombra acalila-se.i O Di9iliZed by Coog Ie

23 MARCELLO Partiu 1- que presença magestosa 1- são desacertadas es tas demonstrações violentas l é i nvulneravel como o ar, e os nossos golpes não são senão o ridiculo esforço d e uma colera impotente. BERNARDO Ia faliar quando cantou o gabo. HORACIO Estremeceu como um culpado que uma intimação subita aterra. Ouv i dize r que o gano, que é o clarim da aurora, acorda o Deus da manhã com a sua voz sonora e penetrante, e que a esse signal todos os espiritos e rrantes no mar, no fogo, na terra ou no ar se apressam em voltar aos seus respectivos domink>s. A p rova está no que acabâmos de presencear. 1IlARCELLO O gallo cantou, e elie desappareceu. Algumas p essoas dizem que na vespera do dia em que se celebra a natividade do Sal vador do mundo, o arauto da manhã canta toda a noite sem i nterrupção ; p retendem então q u e nenhum espirit o ousa saír da sua mansão, que as noites são salubres, que nenhuma es trella exerce influencia maligna, nenhum maleficio surte effeito que nenhuma fei t iceira exercita os seus fei tiços, tant o esse dia é bento, e está sob o imperio de uma graça celeste. HORACI O Assim o ouvi dizer, e acredito-o. Mas e i s que no oriente acolá no fundo, por detrás dos outeiros, surge a manhã, ves tida de p urpura por entre o orvalho. Demos fim á nossa vigi lia, e vamos dar parte ao joven Hamlet do que vimos esta. noite ; porque, por vida minha, cr,e para todos, l h e fallará. Approvam esta confidencia, que nos impõe o nosso dever e a nossa affeição? MAllCELLO Vamos sem detença ; sei onde o acharemos, e onde lhe po deremos fallar sem constrangimento. (Retiram-se.)

24 SCENA II UIna sala apparatosa no castello E ntram o REI c a sua comi tiva, a RAINHA,, POLONIO', LAERTE, ORNEUO e COR - EI morte de Ham ado i rmão, "ai nte, arecena J usto corações esti rsos na tristeza e saudade, e que uma nuvem de. dor cobrisse o solo d' este reino ; comtudo, a rasão combateu os impulsos da natu reza, tanto que enfreámos a nossa dor, e embora ainda esteja ' bem viva a recordação, pensâmos tambem em nós. Portanto, com u m p razer incompleto, confundi n do os sorrisos com as laas, a ale ria n indo o dob aos r esposa aqu cos nupcmes, ' ora ossa irmã, e partir?omnos este oso paiz. N' e ra OUVImos p ssos rados conselh, grae enunciados. tos. Quanto ao joven Fortimbraz, fazendo seguramente uma fraca idéa do nosso poder, ou i maginando que a morte de nosso chorado irmão lançasse o estado na d issolução e na anarchia, embalando-se em chimerica esperança, ousou mandar-nos men. " a m após m ensaa f do-nos a restituir-lhe o territoerdido por se mente adquir vao i rmão ; isto respeita. Fa de do motivo d ' O motivo é e senraz, ega, tio do j screvemos ao que Jazendo enfermo n um l eito, mal conhece os p rojectos d e s e u sobrinho, pedindo-lhe q u e ponha o seu veto á empreza, porque é de entre os seus subditos que se fazem as l eyas de soldados e os alistamentos. Encarregámo-vos, Corneli o e Vol t imando, de apresentar as nossas" saudações ao i doso monar. vos norueguez, e ade, que nas ossa lrucções que J rmeis adstrict recebereis. A deidade do resu ão dos negoc' con ELIO c VOLTIMANDO Senhor, a nossa dedicação e obediencia não tem l im ites. C)gIe

25 15 o R E I continuando Nem o duvidâmos. Recebam u m cordeai adeu s. (CorncJio c Vol Agora, tu, Laerte, que pretendes? Disseram-nos que nos querias fazer uli!a supplica? Qual é? Tu não podes fazer ao monarcha dinamarquez um pedido que não seja rasoavel, e não recorres a clle em vão. Que poderias desejar, Laerte, a que não estej amos p romptos a annuir, mesmo antes de co nhecer a p retensão. A cabeça.não é mais sympathi ca ao co ração, a mão não é mais prompta em servir a bôca do que o throno oe Dinamarca é dedicado a teu pae. Que desejas pois, Laerte? timando sáem.) LAERTE Meu augusto soberano, a vossa l icença e o vosso consenti mento, para voltar a F rança. Gostosamente vim a Dinamarca para assist ir á vossa coroação, mas, cumprido esse dever, con fesso-o, os meus desejos e a minha vontade m e chamam a França., e suppli co a vossa magestade que m e conceda partir. o REI Já alcançaste o consentimento de teu pae? o que diz Po lonio? A RAINHA Arrancou-me o meu consenti mento, tanto me importu nou ; acabei por ceder, mau grado meu, aos seus desejos. Supplico lhe, pois, senhor, que lhe conceda a l icença pedida. o REI Podes partir quando te aprouver, Laerte ; deixo-te a l iberdade de dispores do teu tempo e da tua pessoa. Então, Hamiet, meu primo, meu filho? á parte Ain daque m u i proximos parentes não somos primos. o REI Potque essas nuvens que p esam sobr'e a tua fronte? fia ILET Engana-se, senhor, como pó de have r nuvens, quando brilha o sol. A RAINHA Querido Hamlet, d espe essas roupas de dó, e lança um olhar

26 16 ami gavel para o rei de Dinamarca. Descrava o s teus olhos do chão; pareces procurar as pegadas do teu glorioso pae. Sabes bem que é um destino invariavel; tudo quant o vive ha de mor rer, e este mundo é uma ponte para a eternidade. IWlLET Sim, senhora, é u m d estino commum. A RAINHA Se é assim, o que te parece a t i tão extraordinario? HAYLET Senhora, não me parece, é-o na verdade. O parecer para m i m nada vale. Minha mãe, não são nem esta capa negra, nem estas vestes obrigadas nos l u tos solemnes, nem os suspi ros que mal pó de sol tar um peito oppri m i do, nem torrentes de lagrimas, nem o semblante m acerado, nem todas as mani festações d e uma dor pungente, que podem exprimir e reve lar o que eu sinto. Todos estes s i gnaes podem parecer dor; é u m papel facil de representar, m as não são verdadeira dor, são como o fat o para o comediante; mas eu (pondo a mão sobre o coração) sinto aqu i, o que não ha palavras que o expressem. o REI Nada ha na verdade, Hamlet, mais commovente e louvavel do que os deveres funebres prestados á m emoria de um pae. Mas l embra-te que teu, pae já perdêra o seu, e que esse tam bem já p erdêra o pae. E para o sobrevivente um dever de pie dade fil i al, dar d urante u m certo praso p rovas de uma dor respe itosa ; mas perseverar n'uma atnicção o bstinada, é mos trar uma teima impia ; é uma dor cobarde, é a prova de uma vontade rebelde aos decretos da p rovidencia, de u m coração sem energia, de uma alma i ncapaz de resignação, de uma intelligencia pobre e l im itada. Porque nos deve impressionar a tal ponto um acontecimento, que sabemos ser uma necessi dade, e que se repete tão frequente, quanto as, occorrencias,. mail' vulgares ; é uma triste indocilidade. Que t t E uma offensa a Deus, uma offensa aos finados, urna absurda ott ensa á na tureza, que não t m em seus fastos mais vulgar acontecimento, qne a morte de u m pae ; a qual, desde o primeiro cadaver até

27 ao homem que h oje se finou, nunca deixou de nos clamar: Assim estava escripto. Supplico-te, portanto, abandona essa aflli cção impotente, e vê em nós um segundo pae ; porque que remos que todos saibam que tu és o mais proximo ao nosso throno, e que a affeição mais terna que um pae tem a seu filho, tenho-a eu a ti. Quanto á tua i nt enção de voltar a Wittem berg, para continuares os teu s estudos, nada ha mais opposto aos n ossos desejos; conj u râmos-te que fiques aqu i, sê o p ra zer de nossos olhos, o primeiro da nossa côrte, nosso sobri n ho, nosso filho. A RAINHA Hamlet, far-te-ha tua mãe uma suppli ca baldada? p eço-te fica comnosco, não vás para Wittemberg. Farei o que podér, para em tudo vos provar obediencia. o REI Eis emfim uma resposta affectuosa e comedi da. Serás n a D inamarca u m segundo Eu. (Á rainha) Venha, senhora, este acto de deferencia de Hamlet, cumpl'ido tão naturalmente e sem esforço, enche de j u bilo o meu coração. Para o celebrar o rei de Dinamarca não l ibará uma t aça, sem que a voz do ca nhão o t ransmitta ás n uvens. A cada taça quero que o céu o annuncie, repercutindo o estrondo dos raios da terra. Va mos agora. (Todos sáem excepto Hamlet.) só Ah I porque não poderá esta carne tão soli da fundir-se e tornar-se orvalho. Ah que se o Eterno não tivesse ful m inado como reprobo o suicida... Senhor Deus, meu Deus, como são insipidos, fasti diosos e vãos os gosos do mundo. Que pena l ElIe é um jardim inculto que só tem plantas grosseiras e mal eficas. Pois será possivel que ousassem tanto? Morto ha doi s mezes I que digo? Nem dois mezes ainda. Um rei tão bom, que tanta. similhança tinha com est e como Hyperion com u m Satyro, t o do t ernura para minha mãe, a ponto de não querer que u m a brisa mais fresca açoutasse o s e u rosto I Céu s e terra I e deverei eu recordar-m e? Pareci a que a vida de u m era a v i da do o utro I Comtudo, passado apenas u m mez - não posso nem quero pen sai-o -"fragilidade é synonymo de mulher. Só um mez, sem Digitized b y

28 18 a inda ter gasto o calçado que usava acompanhando o Ceret ro do marido, banhada e m l agrimas como uma Niobe, ella mesma, essa m ul her, oh céus! um animal privado do soccorro da ra são teria prolongado o seu lut o ; essa mulher desposou meu tio, o irmão de meu pae, mas que tem tanto de meu pae como eu de Hercules. No fim de um mez, anles que seceassem as suas hypocritas lagrimas, easou. O h criminosa precipitação! Voar com tan t o afan a um leito i ncestuoso, é horrivel! E será pos sivel que o c éu o tolere? Despedaça-te coração, já que forçoso é calar. Chegam HORA CIO, BERNARDO e lj..\rcello HORACIO Deus guarde a Vossa Alt eza. HillLET Quanto folgo de te ver de boa saude. És tu, Horacio, não me engano. HOR.\CIO E u mesmo, o vosso servo fiel até á morte. HA1ILET Queres d izer amigo; d e hoje em d iante dar-te-hei esl e nome. Mas que fazes tu longe de Wittemberg, Horacio? Marcello. MARCELLO Meu principe! O Alegro- rne de te ver, bons dias. (A Horacio.) Mas, francamente, que motivo te obrigou a voltar de Wittemberg? HORACIO Tudo dissipei. Nunca consentiri a que u m teu ini m i go assim fal Ias se a teu respei to ; e não m e obri.g arás a forçar a minha rasão a crer no que o meu coração se nega a acre ditar. Accusares-te d'esta ma neira a ti m esmo... tu não és dissipador. Que motivo tão forte te pode pois trazer a Elsenor, tu 01'0 contarás mais tarde, entre dois copos de vinho generoso, antes da tua partida.

29 19 HORAClO Senhor, vim prestar a u lt ima homenagem a seu augusto pae. Peço-te, meu camarada d e estudos, que nã.o zombes ; creio antes que vieste assistir ao casamento de minha mãe. HORACIO Verdade é que não houve quasi intervallo.,. IWILET Por alvitre economico, Horacio. O banquete funerario ainda subministrou as iguarias e as vian das para o festi m nupcial. An tes quizera encontrar no céu o meu mais encarni çado inim i go, do que ter v i sto despontar um tal dia, Horacio. Meu pobre pae, parece-me que o estou ven do t HORACIO Onde, senhor'? Na minha imaginação, Horacio. HORACIO Recordo-me de o ter visto, era um grande rei., Era u m homem que, bem considerado, não tinha rival n a terra. HORACIO Julgo tel-o visto a noite passada. Vi ste, quem?. HORACIO Alteza, v i o rei seu pae. O rei meu pae? HORACIO Senhor, acalme e sta agitação e espanto, e preste attenção, emquanto eu, fundado no testemunho ocular d'estes sen hores, vou relatar esse p rodigio. Digitized b y

30 auilet Falia, pelo amor de Deus, sou todo ouvidos. H08.\CIO Durante duas noites consecutivas, no meio das trevas e do silencio, emquanto estes senhores estavam de sentinella, eis ti que lhes aconteceu. Uma figura parecida com seu pac, armada da cabeça aos pés, lhes appareceu caminhando lenta e mages tosamenle. Tres vezes, atemorisados e auonitos, o viram passar á distancia do bastão de commando que empunhava, emquanto elles; fulminados pelo terror, ficaram mudos, nem ousaram fal lar. Confiaram-me, debaixo de segredo, tremulos ainda, o que. tinham presenceado. Na noite seguinte entrei com elles de sen linella, e confirmando a verdade das suas palavras, á hora por elles indicada, debaixo da fórma por elles descripta, voltou a apparição. Reconheci seu pae; as minhas duas mãos não são mais parecidas. IWILET. Mas em que sitio appareceu? MARCELLO Senhor, na explanada, onde estavamos de sentinella. IillfL ET Fallaram-Ihe. HORACIO Fallámos, mas não respondeu. Comtudo uma vez pareceu me que movia a cabeça, como quem quer fallar; mas n'esse momento cantou o gallo matinal; ao som do canto afastou-se o espectro apressadamente, e nós perdemol-o de vista. Na verdade é incomprehimsivel. BORACIO Senhor, juro-lhe pela minha vida que mos nosso dever informar Vossa Alteza. é verdade, e julgá Não posso esta noite? dissim u lar a minha inquietação' Estão de guarda

31 2i 1m tez rm,d' TODO S ra TODOS t\.rmado, meu senhor. MLE Da cabeça aos pés? DO S Tal qual. :'IILE Ira he feiç? 1m tin a a VI - TODOS I nta \ILE i nh a physlonomm carregada? DOS A expressão era antes triste que colerica. Pallido ou córado ') DOS Muito p al l i do. MLET O seu olhar fixou-se em algum de vós? TODOS Constantemente. lile Queria l á ter estado. UCI O seu espanto teria sido i gual ao nosso. ] mais que rova 1. D MLE orou m?. at m HOHACI O raro... t o ess pa co to, p itized JC 3L(

32 li.\rcello l' BER:SAROO Muito mais, muito mais. HORACIO Não a,oez que o vi. ET b31ba era gr Yerdade'l CIO Era, como em sua,olda, de um negro prateado. Velarei tambem esta noite, talvez que volte. CIO em duvida ai LET e se me apre liaro da figura d e ei, embora o m emo me ordenasse o si enclo, pe as suas horrendas rauces. Peço-vos, portanto, que se até hoje tendes guardado um segredo tal a respeito da apparição, de hoje em diànte sejaes ainda mais cautelosos em conservar o sigillo; e aconteça o que acontecer esta noite, reflexão e silencio: serei. a esta prov Assim, pois, trarmeia ei comvosco a entre as onz DOS s nossos resp e. HA.'\ILET Sempre amigos, adeus. (Horacio, Marcello e Bernardo sáemo) {Conti nuando.} A sombra de meu pae, porque apparece armada? Ha verá algum perigo. Suspeito alguma traição. Espero impaciennte a noite. A s tão ega coração. ltos, que o h ssa descobrir, C)gIe

33 SCENA III u quarto em casa de Polonlo Entram LAERTE e OPHELIA LAERTE Já embarcaram os meus creados e roupas. Adeus, minha i rmã ; quando ventos propicios encherem as vélas ao navio que me leva, espero que com a m i nha ausencia não esrriará a tua amisade, e que me darás novas tuas. OPHELlA D uvídas porventura, i rmão?, LAERTE Quanto ao qu e respeita a Hamlet e á sua fri vola amisade, considera-a como uma moda ephemera, u m capricho dos sen tidos, uma v io l eta da primavera, p recoce mas passagei ra, suave mas fenecendo ao d esabrochar, e cujo p erfume dura um mi nuto apenas. OPHELlA Só um m in uto? LAERTE Só, acredita-me, porque o teu desenvolvimento não é só nos musculos e no corpo ; á m edida que o templo toma Ptoporções mais vastas, tambem se expande o espirito e a alma. E possivel que te ame agora, que nenhuma m acula, nenhuma desleal dade offusque a pureza dos seus sentimentos ; mas acautela-te, p orque n a posição que occupa é-lhe vedada a p ropria vonta de, é escravo do seu nascimento. Não póde, como os outros, homens, escolher só por affeição, porque á sua escolha estão ligados o bem-estar c a salvação do estado ; por isso deve subordinal-a ao voto e á approvação da nação d e que é chefe. Se, pois, t e faliar d e amor, assisadamente usarás, não acl'edi t an do senão o que a sua posição lhe permitte offerecer, visto que a sua vontade deve ser a vontade da nação. Pensa bem, que mancha para a tua reputação, se prestasses ouvidos por de mai s credulos, ao encanto das suas falias, se envenenasses tua alma, se abrisses o corre d a castidade ás suas audaciosas instan-

34 cias. Acautela-te, Ophelia, acautela-te, querida i rmã, l ula com a tua affeição para vencer as settas e os perigos dos desejos. A virgem p rudente já é assás prodiga se patenteia a sua belleza aos raios l unares ; a propria virtud e não escapa aos golpes d a calumnia ; o verme roe as filhas predilectas d a primavera, ant, e s das flores desabrocharem ; e é na aurora da vida, regada pelo puro e limpido orvalho, que h a mais perigo para a flor da cas t i dade. Sê, pois, circumspecta, a melhor protecção é o receio do perigo ; a juventude é para si mesma um perigo, se não trava luta com outros maiores. OPHELlA. Em meu coração encerrarei, como um preservativo, a tua salutar lição. Mas, querido i rmão, não sej as tu, como certos pastores sem virtude, que indicam ás suas ovelhas o caminho escarpado e espinhoso que conduz ao céu, emquanto elles, li bertinos, fogosos e sem pudor, tril ham o caminho das flores, da l icença, e são a antithese das suas palavras. I LAERTE De m i m não te arreceies : já devia tel' partido ; eis m eu pac. Entra POLONIO Uma dupla benção é u m beneficio duplo ; abençóo a occasião de me despedi r segunda vez de t i. POLONIO Ainda aqu i, Laerte para bordo, para bordo. Não te enver gonhas Teu navio só te espera para velej ar. Rece' b e a m inha benção, e grava na tua memoria os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e não dês execução apressadamente aos teus projectos ; medita-os maduramente. Sê lhano sem te esque ceres de quem és. Quando tomares um amigo cuja affeição tenhas experimentado, l iga-o a ti por vinculos de aço ; mas não dês confiança i rreflectidamente. Faze por evitar questões ; mas se o não podéres conseguir, conduze-te de manei ra que fiques sem p re superior ao t e u adversario. Ouve a todos, m a s s ê avaro d e palavras ; escuta o consel ho q u e te derem, forma epoi s o teu juizo. No teu trajar sê tão sumptuoso, quanto t'o permittam os teus meios, mas nunca affectado ; rico, mas não offuscante ; o porte dá a conhecer o homem, e n' esse ponto, as pessoas de

35 15 qualidade e m França revel am u m gosto p ri moroso, e o mais fin o tacto. Não emprestes, nem peças emprestad o : quem em presta perde o dinheiro e o ami go, e o pedir emprestado é o primeiro passo para a ruina. Mas sobre tudo sê verdadei ro para a t ua consciencia, e assim como a noite se segue ao dia, seguir-se-ha t ambem, que o teu coração j amais abrigará falsi dade. Adeus, que a minha benção selle em teu coração os meus conselhos. LAERTE Despedindo-me, humil demente vos beij o a mão, meu pae. POLONIO Não tens tempo que perder, teus creados esperam-te. LAERTE Adeus, Ophelia, recorda-te das minhas palavras. OPIIELIA Fechei -as no meu coração ; dou-te a chave, guarda-a. LAERTE Adeus. (Sáe.) I'OLONIO Que t e d i ss e elle, Opheli a? OPHELIA Com l icença de meu pae, fal lou-me a respe ito de Hamlet. POLONIO Folgo que o fizesse. D isseram-me que ultimamente Hamlet tem ti do comti go frequentes entrevistas, e que tu não te esqui vas ás suas frequentes visitas. Se assim é, e crei o na informação que me deram, devo dizer-te que não encaras a tua posição com a lu cidez que convem a mi ha filha, e que a tua hoqra exige. D ize me a verdade, o que h a? OPHELIA Protestos de amor. POLONIO De amor ' como inexperiente fanas, conservas as i llusões t odas. Dás tu porventura credito aos seus protestos, como til lhe chamas?

36 OPHELI A Nem sei, senhor, o que devo pensar. POLONIO Pois bem, eu t'o digo. Ê necessario q u e sejas bem creança para crer uma realidade os seus p rotestos, de cuj a sinceridade devéras duvido. Não te deprecies assim ; seria uma loucura. OPlIELIA O seu respeito foi i nseparavel das suas phrases de amor. POLONIO E tu acreditas, pobre louca. OPHELIA Firmou as suas palavras com os j u ramentos mais sagrados. POLONIO Assim arma o caçador os l aços á avesinha innocente e in cauta. Sei que, quando o sangue ferve, a nossa bóca nunca se nega a protestos e juramentos. Minha filha, estes lampejos que dão mais luz que calor, e cujo brilho é ephemero, nunca os to mes por verdadeira chamma de amor. A datar de h oje, não malbarates tanto a tua presença v irginal ; difficulta mai s as entrevistas, que não baste pedir para as obter. Quanto ao sr. Hamlet e á confiança que n'ell e podes ter, considera que é jo ven, e que póde tomar l iberdades de que depois t enhas que te arrepender. N'uma palavra, Ophelia, descrê dos seus juramen tos, porque não são verdadeiros ; i n terpretes d e d esejos p ro fanos, revestem se da linguagem da mais santa sinceridade. Uma vez por todas, e franqueza, filha, proh ibo-te toda e qual quer conversa com o sr. Hamlet. Pensa b em. Ordeno-t'o. OPHELlA Obedecerei, meu pae. (SAem.)

37 '1.7 SCENA IV A. expl&d&d.a do ca."tello de Eblenor Cbegam, HORA CIO e MARCELLO H A M LE T Que frio horrivel, gélo. HORACIO O ar está devéras glacial. Que horas são '! HORACIO Não deve tardai' a meia noite. MARCELLO Está dando meia noite. HORACIO Já I não ouvi, e m todo o caso approximâmo-nos da hora a que costuma apparece r o phantasma. (Ouvem-se ao longe tangeres de instrumentos, e o troat de artilheria.) Que rumor é este '! O rei consagra esta noite ao prazer, está bebendo, e a cada copo de vinho do Rheno, os timbales e c larins proclamam o brinde que levantou. HORACIO Isso é costume '! Sim é, mas apesar de eu ter nascido n'este paiz, e estar acostumado a Mles usos, ha emquanto a m i m mais gloria em infringil-os, do que em observai-os. Estas orgias abj ectas tra zem-nos, do oriente ao occidente, o desprezo das outras na ções, que nos qualificam de ebrios, e juntam aos nossos no mes os epithetos mais grosseiros. Este defeito embaça as nossas mais brilhantes qualidades, e tira-lhes todo o valor. O mesmo acontece aos individuos. Se ao nascerem, receberam da natu.. reza alguma macula original, de que não são culpados, pois que o nascimento é i ndep e nden t e da nossa vontade; se os Digitized b y

38 28 ami ge algum vicio de temperamento contra o qual t odos os esforços da rasão são impotentes, algum costume que desagrade nos seus modos destrui ndo-lhes o encanto ; acontece a esses homens, tendo o estigm a de um defeito unico, libré da natu reza, sêllo da sua estrella acontece, digo, que todas as suas mitas como a graç udes, fossem opi nto com port a de, ficariam l a de unico. Basta publica por para depreci 1. _ a sombra Apparccc HORACIO Senhor, eil-o. HAMI,ET njos d o céu, ricordiosos, p Genio fazej o, ou de ai, que exha.l es cees, ou as ema erno ; que se] u casas as tuas in reces-me deb fórma t ão grata que te quero fallar. Interrogo-te, Hamlet, senhor, meu pae, rei de D inamarca, oh I responde-me, não me deixes, na ignorancia, morrer de emoção ; mas dize-me, porque teus ben tos ossos encerrados no ataude romperam os sebos ; porque te l evantaste do tumul o e m que te haviamos depositado ; porral para te la ndo? se ergueu a 1 o, cadaver i stindo a tua e aço, ueias t u á di ade da lua, i noite ldo-nos, fraco a nacaracter de h as al, e fazendo su za, nas ancia mas pensamentos que excedem o nosso alcance? Responde. Porque? Com que fim? Que exiges? HORA CIO Faz-vos signal d rr omo se quizesc;e fali'u-vos a sós. CELLO reja, principe O convida a io de cortezia gar mais rem, com vá. HOllACIO Senhor, pelo amor de Deus. C)gIe

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