A INFLUÊNCIA DA ARTE NA SAÚDE DO IDOSO

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1 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÒS GRADUAÇÂO LATO SENSO INSTITUTO A VEZ DO MESTRE A INFLUÊNCIA DA ARTE NA SAÚDE DO IDOSO Elisangela Moreira Lima Orientadora: Maria Da Conceição Maggioni Poppi Betim, 2009

2 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÒS GRADUAÇÂO LATO SENSO INSTITUTO A VEZ DO MESTRE A INFLUÊNCIA DA ARTE NA SAÚDE DO IDOSO Monografia apresentada à disciplina Trabalho de Conclusão de Curso de Pós Graduação Lato Senso Saúde da Família da Universidade Candido Mendes, Instituto a Vez do, como pré-requisito à obtenção do título de Especialista em Saúde da Família. Por: Elisangela Moreira de Lima

3 3 EPÍGRAFE A idade destrói as células A velhice destrói o espírito, Você é idoso quando sonha é velho quando apenas dorme. Você é idoso quando ainda aprende É velho quando já nem ensina. Você é idoso quando o dia de hoje é o primeiro do resto de sua vida. É velho quando todos os dias parecem o último da longa jornada. O idoso é aquela pessoa que tem tido a felicidade de viver uma longa vida produtiva, de ter adquirido uma grande experiência. Ele é uma ponte entre o passado e o presente, como o jovem é uma ponte entre o presente e o futuro. E é no presente que os dois se encontram. Velho é aquele que tem carregado o peso dos anos, que em vez de transmitir experiência às gerações vindouras, transmite pessimismo e desilusão. Por isso nem todo idoso é velho e há velho que ainda nem chegou a ser idoso. (autor desconhecido)

4 4 Agradeço a Deus pela presença nos momentos difíceis e pela realização deste trabalho. Aos meus pais, e a todos os meus familiares pelo carinho, afeto e cumplicidade, expressos ao longo deste curso de pós - graduação e da vida. À Maria da Conceição Maggioni Poppe minha orientadora, por sua disponibilidade, ensinamentos e apoio, fundamentais durante todo o processo de criação e elaboração desta monografia.

5 5 RESUMO Esta monografia procura explicitar a arte como influência na saúde do idoso, considerando as mudanças em curso na sociedade contemporânea, que a afetam diretamente. As atividades artísticas possuem um vasto significado, pois são realizadas e entendidas como interlocução e interação entre as pessoas. A arte é uma forma de comunicação de sentimentos entre diferentes pessoas, harmoniza as relações, possibilitando um novo sentido a vida. Aponta que, frente às carências geradas pelo processo de envelhecimento; o idoso precisa de ações políticas especificas, as quais devem ter como objetivo, uma maior integração do idoso ao seu meio social. O país vem passando por um processo de lutas e movimentos sociais, e, elaborando leis e abrindo novos espaços para reintegração dos idosos, o que leva a sociedade refletir sobre sua realidade. Ainda existe um grande distanciamento entre as leis e a realidade da população idosa, tanto em caráter de conhecimento, quanto na questão da aplicabilidade das mesmas. Através de um centro de convivência, é possível, por meio das atividades oferecidas aos idosos; reduzir alguns problemas característicos da idade; proporcionar uma melhora na saúde física e mental, esclarecer sobre o Estatuto do Idoso, entre outros benefícios. Observa-se a arte com todo seu potencial inovador, como estratégia que leva a reflexão, aceitação de si e do outro e ao desejo de participação. Palavras chaves: Idoso/envelhecimento, saúde, socialização, redes sociais e arte.

6 6 METODOLOGIA Este trabalho teve como base, uma consistente pesquisa bibliográfica, bem como consulta em revistas e internet. O trabalho, de maneira geral, tem como objetivo, ser um instrumento simples de auxílio à reflexão de que envelhecer, não deve ser visto como um processo doloroso. Mas sim, uma etapa, na qual a vida ainda pode ser plena com saúde e com muitas realizações. Por tratar-se de uma pesquisa teórica empírica, o universo escolhido foi a Associação de Proteção e Amparo à Maternidade, Infância e Velhice APROMIV, Núcleo Viver Melhor, no município de Betim. As técnicas de ida a campo utilizadas foram: a observação e a entrevista semi-estruturada. Através da observação, obtivemos informações sobre o cotidiano dos idosos dentro da instituição acima referida, e a entrevista semiestruturada nos permitiu a uma série de perguntas abertas, feitas verbalmente em uma ordem prevista, o que nos possibilitou no decorrer da entrevista acrescentar perguntas de esclarecimentos, as quais contribuíram na obtenção das respostas. A importância dessas técnicas segundo Neta (1994) reside no fato de podermos compreender uma variedade de situações ou fenômenos presentes na saúde e na vivência social dos idosos. A pesquisa de campo foi realizada com 10 idosos, com idade igual ou superior a 60 anos, em sua totalidade mulheres. Portanto, o estudo realizado durante a pesquisa, permitiu-nos observar que a arte com todo o seu potencial inovador torna-se um instrumento estratégico que levará à reflexão, a aceitação de si e do outro e ao desejo de participação, podendo então quebrar as barreiras criadas nas relações que geram e levam ao isolamento, tornando o idoso mais saudável à medida que controlam a pressão, o diabetes, entre outras doenças crônicas.

7 7 Todos autores citados na referência bibliográfica foram importantes, mas foi através da contribuição de Fischer (1987) e Beauvoir (1990) que podemos concluir que há uma necessidade de se estimular uma nova mentalidade de (re)integração do idoso na sociedade e isso só será possível através da conscientização da população como um todo e da utilização da arte, para que esta possa servir como meio de revitalizar a pessoa de idade avançada e trazê-la de volta à ativa, com saúde e tornando-a o mais independente possível e promovendo relações inter-pessoais com pessoas de várias idades. Essa interação social provocará, certamente, a ocorrência de inúmeras transformações nos indivíduos, e o significado de cada ação efetivada permitirá que cada um possa construir ou reconstruir novos laços efetivos e novas formas de compartilhar o aprendizado. Todo processo de regate físico e emocional do idoso, buscado através da arte, pretende reforçar a consciência de sua importância como um ser que se mantém situado no espaço e no tempo, possuindo sua forma própria de viver como humano.

8 8 SUMÁRIO Introdução I Aspectos sociais do Idoso...12 I. 1 Breve contexto histórico sobre o envelhecimento...12 I.2 A dimensão do significado de ser velho...18 II Saúde, socialização e rede social...23 III A arte e o Centro de Convivência...31 Conclusão...36 Referências Anexos

9 9 INTRODUÇÃO A presente monografia é resultado da pesquisa realizada no 1º semestre de 2008, cujo tema foi A influência da arte na saúde do idoso ; trabalho produzido no curso de Pós - Graduação Saúde da Família da Universidade Candido Mendes do Rui de Janeiro - Núcleo Belo Horizonte, Instituto a Vez do Mestre, sob a orientação da professora Maria da Conceição Maggioni Poppe, com o objetivo de compreender em que medida a arte influência na saúde do idoso. Toda estrutura da pesquisa está embasada no convívio dos idosos com a arte, pois segundo Nietzsche (1992), só a arte tem o poder de produzir representações da existência que nos possibilitou viver. Esta por sua vez, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento humano e cultural, o que impulsiona relações entre pessoas e grupos, renovando vivências, laços de solidariedade, criando imaginários para o conhecimento de si e do outro e isso é de fundamental importância quando nos referimos ao idoso, que por questões biológicas, psicológicas, emocionais e sociais, sofre uma redução em sua rede social. Pela natureza do trabalho realizado e dos aspectos subjetivos a serem abordados em relação à arte e seus desdobramentos na vivência dos idosos optamos pela metodologia de abordagem qualitativa, pois, conforme Minayo (2002) esta responde a questões particulares, e se preocupa com um nível dentro da realidade de cada um, que não pode ser quantitativo, valorizando as crenças, aspirações, valores e atitudes, abrangendo um universo profundo das relações, os quais não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. Para o entendimento do tema proposto, levantamos a hipótese de que a arte influenciaria na saúde do idoso, criando momentos de socialização e

10 10 minimizando o isolamento comum nesta etapa da vida, estimulando também a quebra de barreiras construídas por si mesmo e pela cultura. Portanto, esta se tornaria um instrumento estratégico que levaria à reflexão, a auto-estima, ao autoconhecimento, a sua aceitação e do outro e ao desejo de participação. Cabe esclarecer que o presente trabalho faz parte das exigências da cadeira de trabalho de conclusão do curso de Pos - Graduação Saúde da Família, e que esperamos que este possa gerar contribuições na atuação do especialista em Saúde da Família no sentido de subsidiar, qualificar e ampliar os espaços já existentes, em que se desenvolvem atividades para idosos como os grupos de convivência, oportunizando atividades que ajudem na melhoria da saúde e da qualidade de vida do idoso, fazendo com que o mesmo, interaja com um grupo e se reinsira socialmente através de oficinas de arte, pois a partir desta vivencia de grupo o idoso tende a elaborar um novo modo de viver e formas de participar, o que leva a obter modificações em sua própria vida e no meio social em que está inserido. Portanto, nessa monografia verificamos que as atividades artísticas em geral promovem a saúde, a reintegração e ampliação da rede de relações sociais do idoso com mais de 60 anos, que participa dos Centros de Convivência para a Terceira Idade 1. De acordo com Fischer (1987) a arte, através de suas várias técnicas expressivas, vem possibilitar e facilitar ao idoso a obtenção de um melhor entendimento de seus próprios anseios e necessidades, iniciando concomitantemente um processo coletivo e individual de desmistificação da idéia vigente de que o idoso é ser inválido, inútil ou incapaz. Busca fazê-lo compreender e aceitar o envelhecimento como algo inerente ao processo existencial e saudável. Para tanto, no primeiro capítulo, aborda-se as transformações mais significativas nas questões do envelhecimento, envolvendo os aspectos sociais do 1 [...] terceira idade é uma criação recente das sociedades ocidentais contemporâneas. Sua invenção implica a criação de uma nova etapa na vida que se interpõe entre a idade adulta e a velhice e é acompanhada de um conjunto de práticas, instituições e agentes especializados, encarregados de definir e atender as necessidades dessa população que, a partir dos anos 70 deste século, em boa parte das sociedades européias e americanas, passaria a ser caracterizada como vítima da marginalização e da solidão. (BARROS, 2000, p.53)

11 11 idoso de maneira mais ampla, no qual fazemos um breve contexto sobre como o velho era visto na antiguidade até chegarmos aos tempos atuais, ficando claro, através de dados estatísticos que a população está envelhecendo de maneira alarmante. O interessante neste capítulo fica por conta dos resultados obtidos na pesquisa de campo, onde conseguimos perceber, através das entrevistas, relatos que nos levam a analisar e refletir, sobre a maneira de como o idoso é visto pela sociedade e a maneira como este idoso se sente na realidade em relação a se estar velho ou não. O segundo capítulo mostra a importância da saúde, da socialização e ampliação da rede social do idoso, pois mediante estudos, pode-se perceber que ao longo do envelhecimento humano, algumas pessoas vão perdendo seus contatos sociais e consequentemente se isolam, e na busca por amenizar esse isolamento que pode levar ao sofrimento e agravamento de doenças, acreditamos que a partir da ampliação da rede de relacionamentos do idoso, conseguiremos resultados positivos para o mesmo. Já o terceiro capítulo, faz um apanhado geral da trajetória política social em relação ao idoso, mostrando as principais iniciativas governamentais e não governamentais adquiridas ao longo da história, através de lutas e movimentos sociais que fizeram valer os direitos da pessoa idosa. Para finalizar, trazemos os resultados que respondem ao tema dessa monografia, com várias entrevistas comprovando que as atividades artísticas nos Centros de Convivência são hoje um dos mecanismos a serem utilizados para que o idoso se reinsira novamente na sociedade. Acreditamos que através da participação em grupos o idoso criará em si à vontade de estabelecer novas amizades, de realizar sonhos, de conquistar uma nova maneira de se viver, e assim modificar a sua vida, a sua saúde e o meio em que vive.

12 12 I ASPECTOS SOCIAIS DO IDOSO Para darmos início ao desenvolvimento propriamente dito, faremos um breve contexto histórico sobre o envelhecimento e a dimensão do significado de ser velho, amarrando todo esse processo com a trajetória política, luta constante da sociedade e dos idosos que buscam um envelhecer com saúde, mais digno e humano, no qual os seus direitos possam ser respeitados. Todo esse processo de lutas e movimentos sociais serviu não somente para elaboração de leis e abertura de novos espaços para reintegração do idoso, mas também para levar a sociedade a refletir sobre sua realidade. Salientamos que essa reflexão deveria seguir um caminho, no qual as pessoas pudessem perceber que é preciso derrubar todos os mitos e preconceitos relacionados ao idoso, pois, devemos compreender que a velhice não pode ser vista como uma fase da vida, na qual há apenas perdas e doenças, mas uma etapa com muitos pontos positivos, novas descobertas e muitas realizações, compreendendo que o processo de envelhecimento deve ser vivido com qualidade e alegria, sabendo que viver bem é um direito de todo ser humano. I.1 BREVE CONTEXTO HISTÓRICO SOBRE O ENVELHECIMENTO A juventude é o momento de estudar a sabedoria, a velhice e o momento de praticá-la Jean-Jaques Rousseau ( ). Na antiguidade prestigiava-se a idade madura e a idade avançada.

13 13 Em Ditos e Feitos memoráveis de Sócrates, Xenofonte ( a.c) menciona o respeito que Sócrates ( a.c) aconselhava os filhos a terem pelos pais e principalmente pelas mães. Em a Republica, Platão prega o respeito aos mais velhos nas leis da Cidade Ideal. Na Grécia, em relação aos negócios públicos, não se confiava nos jovens. (MASCARO, 2004, p. 27). Segundo Mascaro (2004), não se tem dados suficientes para calcular a quantidade de idosos na Antiguidade. Para os historiadores conhecer a realidade da velhice em sociedades antigas, só foi possível através de escrituras sobre pedras colocadas em túmulos. Nessa época a vida era muito difícil e era preciso ter bastante saúde e resistência física, pois, a velhice iniciava-se muito cedo e a longevidade era rara. A partir do Cristianismo marca-se o fim do mundo antigo. Na alta Idade Média (século V ao X) há um crescimento do Feudalismo, nesta fase: [...] a vida era árdua principalmente para os idosos que não faziam parte da camada privilegiada dos senhores feudais. [...] o trabalho no campo afastava os velhos das atividades e a grande maioria dos homens idosos estava excluídos da vida pública. (MASCARO, 2004, p. 29). Na baixa Idade Média (século X ao XV), há um renascimento comercial, culminando com o surgimento da burguesia, nessa fase os idosos pertencentes às classes privilegiadas são reverenciados. Portanto, o prestígio em relação aos idosos, se dava apenas àqueles que de uma forma ou de outra, acumulavam riquezas, o que levou a exaltação e valorização da beleza e dos corpos jovens. A velhice do corpo, a decadência física e a perda do vigor da juventude são vistas nessa época como um naufrágio [...] (MASCARO, 2004, p.30). Na Europa do século XVIII, a velhice inicia-se cedo e esses se retiravam da vida social, se não fossem chefes de família, monarcas ou sacerdotes, esta imagem permaneceu até o inicio do século XX. (MASCARO, 2004).

14 14 Com as transformações históricas, após a revolução industrial, os idosos foram beneficiados com o avanço da medicina, das práticas de higiene e saúde pública, e o aumento da expectativa média de vida. Neto (1997) conclui que tais avanços contribuíram para o aumento repentino do número de idosos, denominado como aged-boom. Estudos demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-2002) facilitaram a visibilidade desse fenômeno, confirmando, que a transição demográfica mundial nas duas últimas décadas, em relação ao envelhecimento, teve um aumento considerável de indivíduos idosos numa faixa etária acima dos 60 anos de idade. MALTEMPI enfatiza que: A problemática social do idoso não representa mais uma questão social que diz respeito a eles próprios, pois o aumento gradativamente alto desse grupo e os efeitos do seu isolamento são circunstâncias que afetam a Sociedade Brasileira e já mobilizam importantes setores na busca de caminhos que obstaculizam sua crescente marginalização. (MALTEMPI) Os idosos representam cerca de 9% da população brasileira, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-2002). Nas próximas duas décadas, a população idosa do Brasil poderá dobrar, passando de aproximadamente 15 milhões de pessoas com sessenta anos ou mais de idade para cerca de 30 milhões, conforme estimativa desse órgão. Tabela 1 Pessoas residentes de 60 anos ou mais de idade e respectivo crescimento relativo, segundo os grupos de idade Brasil 1991/2000.

15 15 Segundo o IBGE (2002), no Brasil, a proporção de pessoas da terceira idade vem crescendo mais rapidamente que a proporção de crianças. Esse crescimento se deve à soma de dois fatores: a queda da taxa de fecundidade e o aumento da longevidade da população. Em 1980, tínhamos 16 idosos para 100 crianças, em 2000, 30 idosos para 100 crianças. Para se ter uma idéia, de acordo com o IBGE (2002), em 1991 havia centenários no Brasil. Em 2000, o número de pessoas com 100 anos ou mais chegou a , o que representa um aumento de 77%. A maior parte destas pessoas estava concentrada em São Paulo (4.457), depois na Bahia (2.808), seguida de Minas Gerais (2.765) e Rio de Janeiro (2.029). É importante ressaltar sobre a feminização da pessoa idosa no Brasil, que segundo o IBGE (2002) o número de mulheres em 1991 correspondia a 54% da população de idosos, passando para 55,1% em Isto significa que para cada 100 mulheres idosas havia 81,6 homens idosos, relação que, em 1991, era de 100 para 85,2. Tal diferença é explicada nas pesquisas, pelos diferenciais de expectativas de vida entre os sexos, fenômeno mundial, mais que tem bastante significado no Brasil, isto porque, as mulheres vivem em média 8 anos mais que os homens. Essa relação entre o gênero e envelhecimento baseia-se nas mudanças sociais ocorridas ao longo do tempo e nos acontecimentos ligados ao ciclo de vida. A maior longevidade feminina implica transformações nas várias esferas da vida social, uma vez que, o significado social da idade está profundamente vinculado

16 16 ao gênero. Talvez, esse seja um fato que explique o número acentuado de mulheres que participam com mais freqüência no Centro de Convivência, onde foram realizadas a pesquisa. Na verdade, o crescimento da população de idosos, em números absolutos e relativos é um fenômeno mundial, onde o Brasil apresenta uma taxa bem significativa em número de idosos. Portanto, precisamos criar alternativas para dar mais qualidade de vida há estes anos a mais conquistados. Segundo as pesquisas do IBGE (2002) aqui listadas, o brasileiro está vivendo mais, e consequentemente o idoso vive mais também. Hoje a expectativa média de vida de um homem brasileiro aos 60 anos, é de viver mais 16 anos, e da mulher 19,5 anos. Portanto, neste aspecto em que o ritmo acelerado de crescimento da população idosa se torna cada vez mais visível, a preocupação dos diversos

17 17 setores da sociedade torna-se necessária, no sentido de não desamparar o idoso, numa expectativa de melhorar o atendimento em relação à necessidade do idoso. É o que veremos mais adiante, quando apresentaremos num tópico específico sobre a trajetória das políticas sociais em relação ao idoso, um conjunto de medidas governamentais, conquistados através de muitas lutas ao longo da história.

18 18 I.2 A DIMENSÃO DO SIGNIFICADO DE SER VELHO Eu não sinto a idade, são os outros que a sentem em mim. Sartre Pesquisa sobre o envelhecimento ao longo da história da humanidade, tem levado filósofos, cientistas e até mesmo o próprio homem comum, na busca de uma compreensão ou definição que explique o significado do tempo e seus efeitos no momento em que chamamos de velhice (SALGADO, 1990). Envelhecer faz parte de um processo biológico natural que pode ser definido como um conjunto das alterações progressivas sofridas pelo organismo ao longo da vida, estando associado ao fato de ter idade (SILVA, 1990, p.283). Está etapa da vida traz grandes mudanças biológicas, fisiológicas e psicossociais, econômicas e políticas. De acordo com Fraiman (1995), durante a vida do ser humano, existem duas grandes variáveis que regulam de uma forma automática o comportamento social e as relações entre indivíduos e grupos, são elas: as variáveis da idade e do sexo. Cabe, portanto neste momento, uma atenção a variável da idade. Contudo, a idade é uma conceituação, uma dimensão subjacente à agência social. Ela conglomera e torna homogêneas grandes classes de indivíduos, submetendo-os às normas sociais que não apenas não os beneficiam, mas também estigmatizam e até os prejudicam, por desconsiderar as diferenças individuais. (FRAIMAN, 1995, p.19). Assim, verificamos não existir apenas um, mas vários conceitos de idade, os quais são explicitados de forma clara por Fraiman (1995). Estes conceitos são: Idade cronológica: medida criada, principalmente em função de práticas administrativas. É a idade que está em nossos documentos.

19 19 Idade biológica: é a idade de nossos tecidos e órgãos, e não está relacionada necessariamente à cronológica, pois as pessoas envelhecem de forma diferenciada das outras. Idade social: esta vem determinada por regras, e é imposta pela sociedade. Categoriza as pessoas dentro das leis, mostrando os seus direitos e deveres. Idade existencial: trata-se da somatória de todas as experiências vividas por um indivíduo. Em afirmação ao pensamento da autora, Salgado (1990) diz que, a velhice é algo aceito na individualidade de cada um, pois abrange várias questões como: experiência de vida, razões orgânicas particulares, desenvolvimento social e cultural. Portanto, todas essas questões criam em alguns indivíduos o querer aceitar-se como um velho ou não, independente de sua idade cronológica. Assim, acrescentamos os aspectos psicológicos, por julgarmos mediante o estudo até então apresentado, como fundamental na compreensão de que o processo de envelhecimento inclui a subjetividade de cada um. Para compreendermos melhor, Frutuoso (1999), cita que o conceito de pessoa idosa é polissêmico 2, no qual a idade cronológica, critério adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que estar com 60 anos para os países em desenvolvimento e 65 para os países desenvolvidos é ser idoso. Mas, deve-se levar em conta outros fatores como: naturezas psicológicas, culturais e os avanços tecnológicos e da medicina, os quais demonstram que a maioria dos indivíduos dentro desta faixa etária estabelecida pela OMS não se consideram idosos. De acordo com Ballone (2002) a percepção do envelhecimento é a manifestação subjetiva das alterações sofridas a níveis somáticos e funcionais, atribuídos ao envelhecimento. E ainda de acordo com Secco: O envelhecimento embora marcado por mutações biológicas visíveis, é também cercado por determinantes sociais que tornam as concepções 2 Relativo à polissemia; que tem mais de um significado (HOUAISS)

20 20 sobre velhice variáveis de indivíduo para indivíduo, de cultura para cultura, de época para época. Deste modo, fica evidente a impossibilidade de pensarmos sobre o que significa ser velho, fora de um contexto histórico determinado. (SECCO, 1999, p.12). Diante deste contexto é impossível definir a priori a idade da velhice, pois está em jogo uma série de fatores individuais, psíquicos, culturais ou físicos, que diferem de uma pessoa para outra (SILVA, 199, p.283). Durante as entrevistas realizadas na instituição, um ponto interessante exemplifica o texto acima, enfocando o lado subjetivo do envelhecimento no quais 80% das entrevistadas não se consideram uma pessoa idosa. (anexo B - Gráfico 1) Eu não! Eu não. Eu me sinto assim. Quer ver. Ah! Eu acho que eu me sinto assim com uns 15 ou 20 anos e acho ótimo (A.F. 60 anos) 3 Não. Não. Eu me considero uma garota (M.P. 65 anos) 4 Não! Me considero jovem. (L.F. 65 anos) 5 Na realidade a idade da velhice é imposta pela sociedade culturalmente, esquecendo-se, que cada um, envelhece numa idade diferente, o que torna claro que este processo é subjetivo. A velhice, como todas as situações humanas, tem uma dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo e, portanto, sua relação com o mundo e com sua própria história. Por outro lado, o homem nunca vive em estado natural: na sua velhice, como em qualquer idade, um estatuto lhe é imposto pela sociedade a qual pertence. (...) Ela lhe destina lugar e papel, levando em conta sua idiossincrasia individual: sua impotência, sua experiência; reciprocamente, o indivíduo é condicionado pela atitude prática e ideológica da sociedade em relação a ele. Não basta, portanto, descrever de maneira analítica os diversos aspectos da velhice: 3 Anexo C, entrevista 1. 4 Anexo, entrevista 4. c 5 Anexo, entrevista 7. c

21 21 cada um deles reage sobre todos os outros e é afetado por eles: é no movimento indefinido desta circulariedade que é preciso aprendê-la. (BEAUVOIR, 1990, p.15,16) No total de 100% das entrevistas, 50% disseram não depender da idade cronológica, o fato de se estar idoso ou não, o que confirma mais uma vez o que diz os autores acima. (anexo B Gráfico 2) Ser idoso não é questão de idade. A pessoa pode ter 60 anos e ter uma juventude de 20 ou 30 anos. (A.F., 60 anos) 6 Só é idoso quem quer. (M.P, 65 anos) 7 Percebemos que as histórias de vida como: atitudes de fracasso, doenças, pessimismo, falta do que fazer, tristeza e até o sofrimento, servem para definir, na concepção de alguns idosos entrevistados, o que é ser idoso. Ser idoso é sofrimento (M.G., 61 anos) Pessoas que se deixam abater com o tempo (L.F., 65 anos) 8 Eu acho que idoso é aquele que esqueceu da vida e do mundo, tem apatia por tudo e não quer saber de fazer nada. (A.F, 60 anos) 9 Ser idoso é quando a pessoa não tem as coisas para encher a cabeça. E então fica levando aquela vida deprimida. (A.S.S.M, 69 anos) 10 A percepção do envelhecimento pode também ser analisada com mais destaque através das alterações na aparência física: 6 Anexo entrevista 1. c, 7 Anexo c, entrevista 4. 8 Anexo, entrevista 7. c 9 Anexo, entrevista 1. c 10 Anexo, entrevista 2. c

22 22 A grande maioria dos idosos percebe que se estar velho quando está com menos cabelo, cabelos brancos, manchas e rugas na pele, problemas de visão e de audição déficit na força muscular, etc. A isso se associa uma característica psicológica, que é um forte apego ao passado. (BALLONE, 2002) Podemos confirmar esta afirmativa do autor, na fala de uma das entrevistadas. Ficar velho é estar cheio de rugas, doente e sem força. (L.M. 61 anos) 11 Em suma, muitos dos significados subjetivos advindos de cada indivíduo, podem muitas vezes ser analisados e até mesmo explicados a partir de fatores culturais, pessoais, sociais e familiares. Ballone (2002) define a subjetividade da velhice como: Socialmente, está em primeiro lugar, sem dúvida, a contundente influência restritiva que a sociedade exerce sobre os idosos, limitando suas possibilidades de atuação, oprimindo-os sob os modelos e padrões do "velho", e restringindo suas possibilidades de participação. De modo geral, não existe uma velhice típica, padrão, característica e igual. Existem múltiplas velhices; tantas como sociedades, culturas e classes sociais (BALLONE, 2002). 11 Anexo, entrevista 8. c

23 23 II SAÚDE, SOCIALIZAÇÃO E REDE SOCIAL Quando a Organização Mundial da Saúde foi criada, pouco após o fim da segunda Guerra Mundial, houve uma preocupação em traçar uma definição positiva de saúde, que incluiria factores como alimentação, atividade física, acesso ao sistema de saúde etc. O "bem-estar social" foi à definição que veio de uma preocupação com a devastação causada pela guerra, assim como de um otimismo em relação à paz mundial. A OMS foi ainda à primeira organização internacional de saúde a considerar-se responsável pela saúde mental, e não apenas pela saúde do corpo. Ao nascer, o indivíduo traz na sua bagagem apenas a sua natureza individual. Com a vivência em sociedade, o ser humano vai adquirindo a natureza social, e conseqüentemente há uma integração do indivíduo aos grupos e a sociedade (DELLA TORRE, 1986). Pode-se dizer que este é o momento que ele aprende a ser um membro desta sociedade, isto é o que chamamos de socialização. O processo de socialização, no entanto, se baseia em dois momentos, na socialização primária e na socialização secundária, nas quais os sociólogos fazem uma significativa distinção. A socialização primária é o processo por meio do qual a criança se transforma num membro participante da sociedade. A socialização secundária compreende todos os processos posteriores, por meio dos quais o indivíduo é introduzido num mundo social específico. (FORACCHI E MARTINS, 1981, p.213). Neste sentido, Turner (2000) salienta que a socialização nos primórdios da vida é importante, pois, nunca paramos esse processo, ele é contínuo em toda a

24 24 trajetória da vida. Assim, quando aprendemos a interagir, lemos os gestos dos outros, apreendemos nossas primeiras imagens. Começamos a sentir as expectativas dos outros e a experimentar nosso primeiro contato com símbolos culturais; começamos a criar e a desenvolver nossos próprios gestos e desempenhamos papéis que nos ajudam no relacionamento com o outro, o que nos fornece uma base para formação da personalidade social. A socialização secundária introduz o indivíduo já socializado em novos setores da sociedade. É dentro das instituições que se dá a socialização secundária. O indivíduo agora começa a interiorizar conceitos inerentes àquela instituição em que ele vive, ou trabalhar, ou se divertir. Nós últimos anos ocorre à chamada socialização terciária que corresponde à velhice: Esta pode dar inicio a uma crise pessoal, já que o mundo social pode tornar-se, nesta etapa, monótono, no que diz respeito ás mudanças. O problema principal da etapa terciária consiste no fato de o indivíduo muitas vezes ter que abandonar comportamentos aprendidos e/ou deixar de pertencer a grupos que até há bem pouco tempo havia pertencido. Os critérios e valores se alteram e o indivíduo sofre uma dissocialização. Simultaneamente, tem que iniciar um novo processo de aprendizagem social para adaptar-se a este mundo diferente, a ressocialização. (SÁVOIA E CORNICK, 1989,p.56) Portanto, nos tornamos um ser social através da integração com os outros, e assim adquirimos uma personalidade, aprendemos como conviver em sociedade e nos organizamos. O homem usa símbolos culturais a língua sendo o mais óbvio, mais também expressões corporais e faciais, e qualquer coisa que tenha significado para os outros para coordenar suas ações, pois estamos constantemente mandando e recebendo mensagens. Sem tal interação, não poderíamos nos ligar a outras pessoas; não poderíamos produzir cultura e não poderíamos construir e sustentar as estruturas sociais tão essenciais à vida humana. A interação é, portanto, o processo social

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