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2 PAIXÃO PELO SUCESSO. O Banco BNI tem uma nova imagem, um novo símbolo que une a razão ao coração, que une o rigor dos procedimentos à importância que damos à transparência, nas relações que estabelecemos com os nossos Clientes. O BNI mudou por si, pela paixão que tem pelas pessoas, pelo sucesso das empresas e pelo futuro que, juntos, ajudamos a construir em Angola. Bem-vindo ao seu Banco BNI de sempre. Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 1

3 Carta do Editor Esta e outras revistas que publicaremos nos próximos quatro meses serão dominadas pelas eleições gerais que se realizarão no País em Agosto próximo. Procuraremos abordar o desenrolar de todo o processo, fazendo incursão aos programas que dos partidos políticos aprovados pelo Tribunal Constitucional. Pretende-se que as eleições decorram num clima de paz e harmonia, onde se respeite o direito à diferença sem ser necessário, entretanto, o recurso à violência. Para isso, a Comissão Nacional Eleitoral leva à cabo em todo o País uma ampla campanha de educação Cívica que envolve a participação directa e activa de várias sensibilidades. Uma campanha que consideramos oportuna, que permitirá ainda mais aprumar o conceito dos cidadãos em torno de uma democracia participativa, que tem na realização regular das eleições um dos seus eixos mais importantes. Faremos a nossa abordagem em torno das eleições de uma forma profissional, dando espaço aos intervenientes directos no processo, os partidos políticos principalmente, mas para que sejamos bem sucedidos nessa nossa maratona é também importante que as portas para a informação necessária para o conhecimento do público leitor estejam abertas. Infelizmente na edição que vos chega as mãos, surgiram alguns obstáculos que esperamos poder vencer já em próximas edições. Vale recordar que dos mais de setenta partidos registados no Tribunal Constitucional desde a entrada do multipartidarismo em Angola, estão aptos a participar nesse pleito eleitoral apenas nove partidos e duas coligações, porque preencheram os requisitos exigidos por lei, mormente a apresentação de assinaturas de militantes de cada formação política. Sumário Editorial Página Aberta Destaque Ponto de Ordem País Leitores Figuras de Cá Mundo Real Cultura Dossier Economia & Negócios Em Directo Saúde e Bem Estar Reportagem Desporto África Mundo Moda e Beleza Vida Social Figuras de Lá Recado Social Capa: Pedro Hiangalalo Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 2

4 Pág. 68 Destaque 40 Dossier Pág. Pág. Pág. 20 País 94 Moda e Beleza Publicação mensal de economia, negócios e sociedade Ano 12 - n.º 127, Junho 2012 N. º de registo 13/B/97 Director Geral: Victor Aleixo Redacção: Carlos Miranda, Sebastião Félix, Venceslau Mateus e Suzana Mendes Fotografia: Nsimba George e Samy Manuel Colaboradores: Manuel Muanza, Juliana Evangelista, Crisa Santos, Rita Simões, João Barbosa (Portugal), Mário Santos (Inglaterra), Wallace Nunes (Brasil) e Sousa Jamba (EUA). Design e Paginação: Humberto Zage e Sebastião Miguel Publicidade: Paulo Medina (chefe) Secretariado e Assinaturas: Katila Garcia Revisão: Baptista Neto Distribuição e assinaturas: Portugal: René Kunzika Telf: Londres: Diogo Júnior E16-1LD - tel: Tlm: com Brasil: Wallace Nunes Móvel: (55 11) Produção Gráfica: Cor Acabada, Lda Tiragem: exemplares Direcção e Redacção: Edifício Mutamba-Luanda 2º andar - Porta S. Tel: / Fax: Caixa Postal s: Site: Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 3

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6 Separar o Trigo do Joio Começa-se a montar o cenário para os principais intervenientes às eleições gerais de O Tribuna Constitucional já apurou os nove partidos políticos e coligações que, reunindo os requisitos exigidos por lei, estão aptos a fazerem a sua campanha para uma participação condigna no pleito. Este ano, pela primeira vez e em função da alteração da Constituição, será para a eleição simultânea do Presidente e vice-presidente da República e dos parlamentares. É o primeiro ensaio imposto por uma Constituição tida por atípica pelo Presidente José Eduardo dos Santos que, bebendo de outras experiências, entendeuse que melhor se adapta à realidade do nosso País. Facto curioso, das mais de setenta formações políticas que estavam legalizadas no Tribunal Constitucional desde o nascimento do multipartidarismo em Angola, apenas pouco mais de meia dúzia agora reuniram os requisitos da lei para participarem nesse pleito eleitoral. Algumas das formações políticas já vinham da não participação nas eleições anteriores, o que, para já, passam a ser consideradas automaticamente extintas e outras, tendo reunido as exigências em 2008, deverão ter hibernado e agora não tiveram as assinaturas de militantes que os dava o direito de ir ao voto. Se na verdade eram partidos estruturados, com o controle seguro dos seus militantes, esse revez, de não participação nas eleições de Agosto, é um duro golpe aos militantes que pretensamente possuiam tudo por má conclusão dos deveres de casa. Não se pense por isso que a realização de um pleito eleitoral com menos formações políticas possa vir a significar o empobrecimento da democracia. Antes pelo contrário, também pode ser encontrada a causa numa maturidade dos cidadãos eleitores que, vendo a inércia de forças políticas a quem eventualmente depositavam a confiança para o seu voto, decidiram mudar de ares. Na verdade, muitas das forças políticas que surgiram no nosso Editorial processo político como cogumelos não se preocuparam na componente organizativa, na criação de uma empatia com os seus militantes e as suas acções junto da sociedade pouco eram sentidas, o que fez alimentar a esperança de não continuarem a ter direito de participar activamente no jogo político. O mesmo se atribui àquelas formações partidárias que viram no jogo político uma forma mercantilista de actuação para melhor servir os seus interesses pessoais. É a primeira penalização dura que o processo impõe, o que obrigará os partidos políticos que permanecerem depois desse pleito eleitoral a não descuidarem a componente organização, o saber explicar à sociedade o sentido da ideologia da sua linha de actuação na esteira de conseguirem mais eleitores e, por conseguinte, continuarem a ser parte activa do processo. Por isso, a democracia não saiu enfraquecida. Antes pelo contrário, ela é reforçada, tendo-se presente a máxima sagrada de que não se mede a presença dos actores em palco pela quantidade mas sim pela qualidade. Não sendo tarde, porque o País ainda só vai na realização das terceiras eleições, a depuração agora verificada é saudável para o melhor alinhamento dos intervenientes políticos. O número exagerado de formações políticas que existia, ao continuar, não constituia nenhuma mais valia para cimentar as alavancas da democracia. Mais cedo do que se pensava,os angolanos começam a separar o trigo do joio e não sendo profetas, já haviamos afirmado que a nossa realidade não tem espaço para no jogo democrático, estarem perfiladas mais do que nove formações políticas. Rondado nesse número, urge repetir, que esse facto não significa nenhuma penalização para a democracia, que se vê emagrecida com doses cavalares que o Tribunal Constitucional, em respeito da lei, aplicou. É preciso apertar o cerco para que as pessoas não encontrem na política uma forma fácil de se ganhar dinheiro. Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 5

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8 DESPORTO Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 7

9 Página Aberta Carlos Lopes, Secretário Executivo da ONU para África O mundo precisa de um contrato social para o século XXI Carlos Lopes, 52 anos, natural da Guiné Bissau, carrega uma larga experiência no campo da diplomacia internacional. Recentemente foi nomeado Secretário Executivo da Comissão Económica de Africa, ligada a ONU. Ele esteve na recentemente terminada Conferência do Brasil intitulada Rio+20 e, em entrevista à comunicação social, manifestou o interesse de se recuperar a ideia da defesa de um contrato social entre as nações para se enfrentar os desafios económicos e políticos. Ele falou mesmo em propor um novo contrato social para o século XXI e sobre o nosso continente,o africano, Carlos Lopes teme que os africanos tirem lições erradas da experiência brasileira com o meio ambiente. «A Africa corre o risco de copiar melhor os defeitos do que as vantagens do modelo brasileiro»-sublinhou. Pela sua importância, respigamos parte de uma entrevista interessante que Carlos Lopes concedeu à revista Época. Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 8

10 RE - O Brasil recebe a Rio+20 num momento de poucas expectativas quanto a avanços reais na protecção ao meio ambiente. Qual a importância, hoje, desses avanços para soluções na área social? Uma coisa depende da outra? Carlos Lopes (C.L.) - Durante bastante tempo, depois da Segunda Guerra Mundial, houve um período de grande crescimento, que durou mais ou menos 30 anos. Esses anos fizeram com que a preocupação do mundo estivesse na produção de riqueza, e pouco foi feito para a distribuição dessa riqueza. Depois veio a preocupação com a igualdade e a distribuição. Nos últimos anos veio a preocupação com os recursos do planeta. Esses três elementos deram origem ao conceito de desenvolvimento sustentável, e a Rio 92 foi o ponto alto da adopção desse conceito. Estamos no momento de um balanço. Houve bastante progresso,com várias convenções importantes. Hoje em dia, quase todos os países desenvolvidos têm controle de emissão de CO2 e políticas para incentivar a inovação na área de energia renovável. Mas estamos longe da conta,todas as negociações globais estão emperradas, não só as relativas ao desenvolvimento sustentável. Continuamos a ver o problema como sendo em camadas, foi assim que ele evoluiu. A verdadeira transformação será quando virmos a economia como sendo o ponto principal da transformação. O ideal é que uma economia verde aposte na inovação e na transformação dos métodos económicos para que sejam sustentáveis e mais humanos. RE - Numa escala de zero a dez, onde está o mundo hoje na procura desse objectivo? C.L. - A maneira de medir isso são os Objectivos do Milénio (Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, definidos pela ONU). Temos oito objectivos, e neles já estão as questões social, económica e ambiental. E o que nos diz o relatório sobre os objectivos, produzidos no final de 2011? Estamos a ponto de atingir algumas das metas, mas não todas. Diria que estamos a meio caminho. Os objectivos são para 2015, portanto ainda temos três anos. Mas todos acreditam que, para 2015, não será possível atingi-los. E olha que foram objectivos realistas, não eram objectivos para a completa transformação do planeta. RE - Apesar de realistas,essas A África tem as maiores reservas de terras aráveis não aproveitadas. Na África e no Brasil temos o futuro da produção alimentar do mundo». metas foram concebidas numa época (ano 2000) em que a economia global estava em franca expansão. Hoje estamos numa situação completamente diferente. Ainda é realista perseguir esses objectivos? C.L. - Segundo o FMI, as zonas mais resilientes à crise, que crescerão mais na próxima década, são precisamente aquelas que precisavam fazer mais progresso. A África é o continente que mais cresce hoje no mundo. Em principio, os objectivos do milénio ainda não foram afectados pela crise. Houve uma dramática redução dos indicadores sociais e económicos em 2010, ano em que a crise atingiu esses países. Depois, rapidamente, eles se recuperaram. E agora podemos, com Página Aberta uma dupla recessão nas economias mais avançadas, ter outro fenómeno equivalente. RE - Tem havido um grande optimismo em relação à situação económica de África. Mas alguns temores começaram a voltar: em Março, houve um golpe militar no Mali e em Abril no seu próprio País, a Guiné Bissau. Fala-se no perigo do norte do Mali se tornar uma futura Somália, com a acção de radicais islâmicos. Isso ameaça os avanços vistos em África? C.L. - É verdade que a África cresce economicamente, com 5,8% de média (crescimento) no continente e cinco economias africanas estão entre as dez que mais crescem no Mundo. Mas a África tem quatro tendências, não completamente estudadas, que influenciarão muito a qualidade desse crescimento. Haverá uma alteração demográfica gigantesca em Africa, que tem hoje 1 bilhão de habitantes. Até o final do século serão 2 bilhões. Essa população jovem será muito urbana, conectada com as novas tecnologias. Em segundo lugar, há uma interconexão de conflitos de baixa intensidade em duas grandes bacias: no Sahel, ao sul do Sahara, e no Vale do Rift, desde o Corno de Africa até os Grandes Lagos, nos Congos, Ruanda e Burundi. Esses conflitos são interconectados com outros fenómenos novos, como o tráfico de drogas, terrorismo e extremismo religioso. A terceira tendência: a composição do PIB dos países africanos, que está a ficar menos rural. Em quarto lugar, a Africa tem as maiores reservas de terras aráveis do mundo ainda não aproveitadas. Na África e no Brasil,temos o futuro da produção alimentar do mundo. RE - A Africa tem condições de explorar essas terras de uma maneira que não prejudique o meio ambiente? C.L. - Neste momento, não. É Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 9

11 Página Aberta A África tem as maiores reservas de terras aráveis do mundo ainda não aproveitadas um desafio enorme, que precisará de atenção mundial, de códigos de conduta por parte dos investidores, de estudos sobre políticas agrícolas e defesa dos direitos dos mais vulneráveis. Isso é um grande campo que se abre. Pode levar a tremendas consequências negativas para a África, mas é uma grande tendência, inevitável por causa da demanda mundial que baterá nessa porta. RE - O Brasil é um bom ou um mau exemplo de coexistência das necessidades de progresso económico e protecção ambiental? C.L. - Há coisas positivas e negativas que os africanos devem aprender com o Brasil. Como positivas, houve uma adaptação à agricultura tropicalizada com conhecimento científico, o que é muito próximo das necessidades africanas. O que faz a Embrapa no Cerrado é muito equivalente ao que é necessário nas savanas e nas zonas mais afectadas pela desertificação em África. O que faz a Embrapa em termos de apoio a novas formas de produção de gado que sejam compatíveis com determinados microssistemas climáticos é muito interessante para a Africa. Outra parte positiva é o uso do etanol. Se for bem feito, é uma oportunidade para pequenos países africanos produzirem as suas fontes de energia com um pouco mais de independência. Mas também temos os aspectos negativos da experiência brasileira, como a proliferação de um sistema de ocupação latifundiária que não está completamente regulado e é sempre regulado a posteriori. Isso é uma tendência que já existe em África e pode ser amplificada por uma importação fácil do modelo brasileiro. A África corre o risco de copiar melhor os defeitos do que as vantagens do modelo brasileiro. RE - Considerando o papel brasileiro actual, como referência ambiental e potência emergente no mundo, o Brasil explora bem a sua posição de nova liderança? C.L. - Acho que o Brasil não é visto como um líder ambiental. O Brasil é visto como o país com maior biodiversidade do planeta, e isso merece enorme carinho, respeito e admiração. A Bacia Amazónica é fundamental para o conjunto da sobrevivência da Terra. Mas aí, apesar do Brasil ter acolhido a Rio92 e agora a Rio+20, considerar que o Brasil já lidera em termos de meio ambiente, vai uma distância que o Brasil tem de ocupar.mas ainda não ocupou. Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 10

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13 Destaque Rio+20 Avanço nas ideias, mas fracasso nos resulta A Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável terminou sem ninguém comentar os problemas da falta de desenvolvimento sustentável no continente africano Por: Wallace Nunes (Texto e Fotos) O documento final O Futuro que Queremos, concluído na Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que terminou na última semana de junho, causou descontentamento tanto à sociedade civil quanto a representantes do governo brasileiro e, também, em ONG's internacionais. A reportagem de Figuras&Negócios ouviu especialistas na área do meio ambiente sobre o texto apresentado e eles concordam num ponto: a Rio+20 apresentou uma nova agenda sem se aprofundar em temas urgentes, como oceanos, financiamento de políticas sustentáveis e direitos das mulheres, questões para o continente africano e tampouco definiu modos e metas para implementação de propostas. De acordo com Yolanda Kakabase, presidente do conselho do WWF Internacional, o resultado final deixou dúvidas sobre como as nações irão adoptar as medidas incluídas Líderes mundiais celebram documento no documento. Para ela, faltou mais ousadia à conferência que serviu somente para confraternização entre os líderes mundiais. "Os países vieram aqui, os chefes apertaram as mãos, mas ninguém fez nada para melhorar o documento. Se eles quisessem fazer a diferença, poderiam ter dito: não aceitamos o documento, e teriam proposto mudanças." Para o coordenador do programa de mudanças climáticas e energia da ONG WWF, Carlos Rittl, a Rio+20 foi uma "oportunidade mal aproveitada" e serão necessários anos de conversas e diálogos entre os países para que os problemas que envolvem o desenvolvimento sustentável sejam definitivamente resolvidos. "Ao invés de trazer decisões concretas, a Rio+20 colocou à nossa frente uma nova agenda de negociações. E agenda de negociações nós nunca sabemos quando começa, muito menos onde vai chegar." A Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, no entanto, comemorou a Rio+20 durante o discurso de encerramento da cimeira. Para ela, o documento final da conferência é "um ponto de partida". "Agora, o que nós temos de exigir é que, a partir desse documento, as nações avancem. O que não podemos conceber é que alguém fique aquém dessa decisão." Maior decepção - O texto não trata de forma concreta a questão Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 12

14 Destaque tados práticos do financiamento para o desenvolvimento sustentável. De acordo com Rittl, trata-se de medidas urgentes, mas que não foram bem definidas no documento. "Esperávamos resultados mais concretos. Sequer foram definidos os termos que serão trabalhados. Saímos da Rio+20 sem nada. Não sabemos o quanto vai custar, o que é necessário investir, quais deveriam ser os compromissos dos países ricos para colocar dinheiro na mesa e quais os mecanismos que vão contribuir para pagar a conta do desenvolvimento sustentável." Para Dilma, um próximo passo deve envolver o financiamento de medidas para o desenvolvimento sustentável. As nações ricas, por sua vez, atribuíram à crise económica a impossibilidade de se comprometerem com recursos para o meio ambiente, e um fundo proposto de US$ 30 bilhões para ajudar países em desenvolvimento a implantar medidas de proteção ao meio ambiente foi descartado. A ministra do Meio Ambiente do Brasil, Izabella Teixeira, lamentou que temas como preservação dos oceanos, "embora aprovado no tratado, e direitos reprodutivos das mulheres, em que o Brasil já avançou tremendamente", não tenham evoluído na Rio+20. Essa última questão também decepcionou o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, que afirmou estar pessoalmente frustrado sobre os direitos reprodutivos da mulher. "Eu, particularmente, me sinto frustrado em relação à questão dos direitos reprodutivos da mulher. Este não é um tema que será Dilma Rousself, Presidente do Brasil e Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU resolvido nesta conferência." Cimeira dos chefes e dos Povos - Embora a Rio+20 tenha decepcionado, a conferência atraiu milhares de representantes de movimentos sociais, empresariais e ONGs. Para Rittl, a participação da Cimeira dos Povos, evento que ocorreu paralelamente a Rio+20, foi positiva. Segundo o coordenador, ONGs e empresas mostraram caminhos para propor soluções para o desenvolvimento sustentável. Porém, ele advertiu que essas decisões precisam de estar associadas a compromissos políticos. Conforme anunciou o Secretário-Geral da ONU para a Rio+20, Sha Zukang, foram firmados 692 compromissos entre essas entidades, com investimento de, aproximadamente, R$ 1,3 trilhões, qualquer coisa como 900 bilhões de doláres em energia limpa, emprego e erradicação da pobreza. Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 13

15 Destaque Rio+20 A grande oportunidade qu A sociedade mundial organizada se mobilizou, para que a conferência, no Rio de Janeiro, fosse muito mais que um balanço da ECO 92 e priorizasse acções efectivas, mas nada disso aconteceu Por: Wallace Nunes (Texto e Fotos) Plenária de alto nível Frustração. Essa é a palavra que mais se ouviu após o término da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). Se houver uma comparação efectiva sobre o que aconteceu na reunião do G-20 em Los Cabos, México, na cimeira dos líderes das maiores economias mundiais, pode-se afirmar com muita certeza que a palavra fracasso será repetida duas vezes. Pelo lado das acções, nada em uma nem na outra. Pelo lado dos conceitos, um choque estrondoso. Ao sul, mais do que esperado, concluiu-se por postergar as decisões. Uma nova agenda foi criada, mas para Três anos serão suficientes para recauchutar as apresentações em PowerPoint feitas para os Objectivos do Milênio da UNCTAD, Rodada de Doha, ou COP. Ao norte, a necessidade de estimular o crescimento económico e ajudar os bancos, agora os europeus, a manterem a unidade em torno do Euro. Claro que o feito deverá ocorrer estimulando a demanda interna dos países, mas sem tirar os olhos da austeridade fiscal. Não se sabe se a complexa missão ficará a cargo do mágico Mandrake ou do Fantasma, célebres figuras de histórias aos quadradinhos, criadas por Lee Falk. O que transparece dos dois encontros, que coincidem em difícil momento das política e economia mundiais, é a imagem de um acirrado cabo de guerra. De um lado, com uniforme verde e rosa, a equipa do para o mundo que eu quero descer ; do outro, vestida de preto, a se parar não vai dar tempo de ninguém descer. Resquícios da ECO-92 e da esquecida Rio+10 - Não há como negar que a comemoração de duas décadas da Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento, a ECO 92, também conhecida por Cimeira da Terra, teve um pequeno e simbólico significado durante a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável Rio+20. Até o encerramento da cimeira no Rio de Janeiro, o evento era considerado o principal marco histórico sócio-ambiental, mas o que muitos temiam, que aconteceu, nos bastidores da preparação da futura conferência era a possibilidade de o evento se restringir a um simples balanço e propostas no papel, já que não tinha caráter deliberativo, não se representar avanços significativos na busca pela sustentabilidade no planeta. Organizações não-governamentais (ONGs) e movimentos sociais e empresariais já se mobilizaram para Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 14

16 Destaque ue resultou em nulidade pressionar e propor pautas de políticas públicas aos governos, a fim de que a Rio+20 pudesse resultar em acções efectivas. Para isso, houve a elaboração de uma agenda de eventos extra-oficiais que antecederam o encontro oficial. No centro das discussões está o tema Economia Verde, no contexto do desenvolvimento sustentável e da extrema pobreza. Nesse sentido, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) chegou a lançar, em fevereiro deste ano, o relatório Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza. O documento sinaliza que, para concretizar a transição para uma economia verde, seria necessário um investimento de 2% do Produto Interno Bruto Global (PIB) cerca de US$ 1,3 trilhão em dez sectores: agricultura, edificações, energia, pescas, silvicultura, indústria, turismo, transporte, água e gestão de resíduos. Mas diretrizes sobre essa pauta estão ainda longe de serem definidas. A Rio+20 também foi palco para se avaliar os resultados práticos de importantes documentos gestados a partir da ECO 92, como a Agenda 21, as Convenções sobre Mudança do Clima e a Diversidade Biológica, a Declaração de Princípios sobre as Florestas, de Combate à Desertificação, entre outros, que foram elaborados posteriormente, como a Carta da Terra, em Mobilização da sociedade e o FSM No Brasil, foi formado o Comité Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20. Segundo Aron Belinky, coordenador de Processos Internacionais do Instituto Vitae Civilis, que representou o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS) na Coordenação Nacional do Comité, o papel do grupo actualmente formado por 14 redes trouxe mais participantes para o debate até o ano que vem. As nossas acções são elaboradas por meio de grupos de trabalhos. Um deles é o de formação e mobilização, que deverá levar os temas em discussão para a sociedade e cuidará da organização do evento paralelo previamente chamado de Cimeira dos Povos, que terá a participação da sociedade civil, pontua. Representantes do Brasil, do Canadá, da França, do Japão, e de alguns países da América Latina já estão envolvidos nestas ações, adianta o ambientalista. Na Cimeira dos Povos, queríamos que fosse garantido que a economia verde fosse avaliada como um interessante indutor de sustentabilidade, desde que abrangesse as questões sociais, além das ambientais, e tenha sempre presente a questão da qualidade de vida dos cidadãos, além da ecoeficiência. Uma outra frente da sociedade civil da Rio+20 se deu no âmbito do Fórum Social Mundial (FSM). A decisão foi tomada no final da edição deste ano, em Dakar, no Senegal. Segundo o empresário e activista da área de responsabilidade social, Oded Grajew, que integra o Comitê Internacional do FSM, a edição internacional descentralizada do evento teve como principal pauta a temática ambiental, voltada à conferência. O FSM não representa as elites económicas e exigirá uma demanda de mobilização da sociedade sobre outro modelo de desenvolvimento. Tratamos de propostas de mudança da matriz energética para a renovável, da questão nuclear, das hidroelétricas em confronto com as populações indígenas, do modelo de consumo e resíduos orgânicos, entre outros, aponta Grajew. Segundo ele, a meta é propor políticas públicas ao governo e informações sobre indicadores quanto à grave situação do modelo actual de desenvolvimento, que leva ao esgotamento de recursos naturais e ao aumento das desigualdades. Como 2012 será também um ano de eleições em alguns países Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 15

17 Destaque importantes como EUA, Alemanha, em nações asiáticas e, também, africanos como Angola, isso prejudica as decisões. Talvez essas nações não queiram assumir alguns compromissos que podem comprometer os resultados nas urnas, alerta. Ele reforça que, no contexto da Economia Verde, as discussões do FSM permanecerão voltadas a questões sociais, ao combate às desigualdades. No campo empresarial, Grajew informou que algumas iniciativas em andamento são do Instituto Ethos, que lançou, em fevereiro deste ano, a Plataforma por uma Economia Inclusiva, Verde e Responsável. A proposta é que possa ser apresentada, também, uma agenda de sustentabilidade urbana para os candidatos às eleições municipais brasileiras no ano que vem. O projeto será amadurecido na Conferência Ethos, em Agosto deste ano. Governança e desenvolvimento sustentável - Este tema está a ser pouco debatido oficial e extraoficialmente. Deve ser visto não como uma discussão sobre burocracia, mas como uma condição necessária para encaminhar as decisões e recomendações que se tomem na conferência, analisa. Belinky afirma que, se por um lado, hoje se enxerga o desenvolvimento sustentável no conjunto, as instituições internacionais e internas a cada país são estanques. Umas actuam no campo económico, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o FMI e a Organização Mundial do Comércio (OMC), que não se conectam nas dimensões sociais e ambientais. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial do Trabalho (OIT), que têm algum poder político, estão desconectadas do lado ambiental. A ideia é integrálas à questão do desenvolvimento sustentável. No caso da questão ambiental, as discussões levam à constatação de que não existe nenhuma organização internacional com real poder regulatório. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) é um dos com menor orçamento na ONU e depende de adesões voluntárias. Não é essencial dentro do sistema, participa quem quer. Pode encaminhar, no máximo, estudos, recomendações, mas sem poder regulatório. Como primeiro passo, uma das propostas que serão defendidas pela sociedade civil é que haja uma resolução para se criar uma agência ambiental internacional, aprimorando o funcionamento do PNUMA ou por meio da sua união com outras agências. O governo brasileiro, inclusive, tem defendido uma agência guarda-chuva, que tenha sob ela várias agências internacionais do sistema ONU. As entidades, Embaixador de Angola em audiência na Câmara dos Deputados antes da RIO+20 segundo Belinky, enxergam que existe uma necessidade tanto ética quanto política e económica de tirar as pessoas da pobreza. Isso não significa que deverão ter padrão de consumo insustentável, como o norte-americano e europeu. Não é objectivo estender a sociedade perdulária, adverte. As expectativas sobre os resultados da Rio+20 caminharam na direcção de dois extremos. Foi uma grande oportunidade que resultou na nulidade. A conferência pode fazer uma convergência, desatar nós ou, então, se não se dispuser, será um ponto de jogar conversa fora. Mas, de qualquer forma, a mobilização de propostas da sociedade civil será um avanço. Ou os governos são capazes de mostrar relevância no mundo contemporâneo ou são incapazes de acompanhar o ritmo que a sociedade avança, tornandose um empecilho. Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 16

18 Victor Aleixo Ponto de Ordem Educação Cívica Oportuna A campanha de educação cívica em torno das eleições gerais que se registarão em Agosto de 2012, lançada pela Comissão Nacional Eleitoral é bastante oportuna e deve merecer o engajamento das forças vivas da nação,com especial realce para os actores principais da vida política do País. Vai-se participar numa competição democrática para a eleição daqueles que nos próximos cinco anos governarão o País, e sabe-se que em períodos como esse, em várias partes do mundo, os militantes dos diferentes partidos políticos directamente engajados no processo, exacerbamse nos comportamentos e em alguns casos, compremete-se mesmo o clima de pacificidade que se pretende e se reclama. Angola não vai ser diferente, disso se tem a certeza. Mas é importante que esse exacerbar de ânimos, da manifestação da contradição de ideias entre os militantes das diferentes formações políticas em disputa por uma melhor posição no xadrez político angolano, seja só isso mesmo: uma divergência de opiniões que termina tão logo se venham a conhecer os resultados. Nunca é demais repetir: há pouco mais de dez anos conhecemos o calar definitivo das armas e os angolanos decididamente engajaram-se nas tarefas da reconstrução. O País, disso ninguém pode duvidar, está transformado num verdadeiro canteiro de obras, pelo que é um processo que urge continuar, senão mesmo acelerar, tendo em vista o seu desenvolvimento harmonioso. Não interessando incitar a cultura do ódio e violência, infelizmente praticas que se materializam em alguns processos eleitorais, sobretudo no continente africano, tem de se apadrinhar essa medida da CNE pela generalização das jornadas de educação cívica. Urge eliminar pela raiz todos focos que possam criar espaço para a violência, e isso passa, primeiro, por sensibilizar os cidadãos sobre a importância das eleições, o papel dos políticos e respectivas formações políticas na Sociedade, o respeito pelas instituições e pela diferença de opiniões. Realçante também fazer sentir que em qualquer competição tem de haver vencidos e vencedores e por isso urge respeitar os resultados do escrutínio. A lisura e transparência nas eleições terão de ser princípios sagrados seguidos pelos interventores directos de todo processo eleitoral. Cumprindo rigorosamente esses preceitos, não se pode acreditar que fica porta aberta para a confusão, para a anarquia depois do pleito. A democracia que queremos para Angola deve se cimentar na vontade do Povo e esse já manifestou que sabe julgar os seus representantes nas urnas em função dos objectivos que prometem materializar se eleitos. As terceiras eleições que o País conhecerá, depois da adopção do multipartidarismo em Angola, têm o condão de encontrar o povo mais maduro, mais consciente das suas responsabilidades e do seu dever cívico na implantação de uma sociedade democrática onde estejam esbatidas as grandes assimetrias. Um Povo que sabe que esse desiderato só se consegue com a paz, a liberdade de opinião e de escolha. Sabendo-se dessa vontade, é importante exigir dos políticos leituras correctas da situação, não podendo ser eles, em nenhuma circunstância,os instigadores para uma mudança adversa ao que todos querem. Sem vencedores antecipados, o povo angolano vai para o pleito eleitoral escolher o Partido e representantes da sua justiça. Desde logo, com a ambição de ver escrupulosamente respeitado o resultado que as urnas eleitorais ditarão. Não interessa, porque não é próprio da regra de jogo limpa que o xadrez da democracia defende, antecipar-se políticas argumentatórias de fraude ou falta de transparência de processos, porque esta é a prática de actuação daqueles que, com o mau trabalho de casa feito, sentem-se sempre derrotados. Figuras&Negócios - Junho 2012 Pág. 17

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