Todo dia ela faz tudo sempre igual... : Reflexões sobre o Cotidiano e gênero

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1 Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008 Todo dia ela faz tudo sempre igual... : Reflexões sobre o Cotidiano e gênero Maria Eduarda Ramos (UFSC) 1 Cotidiano ; mulheres; trabalho doméstico. ST 55 - Música popular brasileira & relações de gênero Na composição da música Cotidiano de Chico Buarque a idéia ocorreu ao autor debaixo do chuveiro e foi inspirada em um sonho que Chico teve com uma senhora que ao fundo de uma cozinha falava: Feche a porta! (Werneck, Humberto, 1989). Em DVD recente 2 sobre a temática feminina na composição de Chico Buarque e que contempla Cotidiano, este fala sobre mulheres na música e em diferentes momentos. Chico afirma que em determinadas épocas era impossível de se pensar uma música em que a mulher tivesse um papel ativo ou independente. As mulheres, chamada por ele de saídas, foram cantadas a partir dos anos 60, 70. Ele próprio diz que acha que a primeira música que fez sobre uma mulher cantando sua liberdade foi encomendada por Gal Costa, Olhos nos olhos (1976). E ressalva que nos anos 40 jamais uma música como esta poderia existir. Cotidiano ainda canta uma mulher no espaço privado. A música Cotidiano, de 1971, retrata a rotina de um casal em que a mulher fica em casa, acorda o marido e o espera no portão no final do dia. Expõe assim uma época em que a mulher era associada ao espaço privado. Mas será que atualmente há mulheres como a música? Neste artigo, além de fazer uma discussão relacionando o poema musicado de Chico com os afazeres das mulheres no espaço doméstico, pretendo apresentar duas experiências com a música. Numa delas um grupo de mulheres vítimas de violência doméstica participou de uma reflexão sobre a letra da música Cotidiano, falando sobre suas rotinas em casa e com o marido. A outra ocorreu em um acesso que fiz ao site de relacionamentos Orkut, na comunidade denominada Analisando Chico Buarque, onde a música foi alvo de comentários dos participantes dessa comunidade virtual. As pessoas escreveram a respeito do que pensavam e o que sabiam sobre a música, aparecendo alguns comentários referidos às relações de gênero. Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar Grupo de mulheres No grupo reflexivo de mulheres vítimas de violência doméstica 3 a música Cotidiano fez parte de uma atividade em que eu e uma colega, coordenadoras do grupo, levamos algumas músicas para discutir com as participantes. Dentre várias músicas, foi sobre Cotidiano que elas mais dialogaram.

2 2 Colocamos a música para elas escutarem. Logo depois uma das participantes, que irei chamar aqui de Carmem 4, falou: A música está certa. É isso que tem que fazer. Ana se manifestou a favor do que foi falado. Então, Alice diz não concordar com elas, já que tinha cuidado do marido e da casa sempre e só recebeu o desprezo de seu cônjuge. Além disso, ela acreditava que estavam no grupo justamente porque serviam seus maridos, Os homens querem uma Maria, uma Amélia que se encontra nos jornais, nos classificados. As outras duas disseram que concordavam com ela, e que costumavam falar a seus maridos que eles queriam uma empregada e não uma esposa. Entretanto, por mais que soubessem que é errado ficar servindo o marido, acreditavam que elas tinham que fazê-lo. Carmem dizia ser dever dela fazer o serviço da casa e cuidar do marido, mas já que ele a vinha xingando, me chamando de feia e preguiçosa na frente dos amigos, ela decidiu parar de fazer comida para o marido. Porém, ele continuou com as ofensas. Carmem é uma senhora que tem seus quase 60 anos. Enquanto Ana, que parece concordar com Carmem, tem 20 e poucos anos. Alice e Lúcia (outra participante) têm entre anos. Por mais que sejam de idades diferentes, em algumas idéias elas se aproximam: falam do dever do cuidado, das violências psicológicas, saí da casa da minha mãe para morar com ele, para casar. E agora isso, ele me desprezando. Pode-se dizer que essas mulheres por alguns momentos tomam papéis socialmente estabelecidos como naturais. Gênero entende-se como os aspectos relacionais da construção do feminino e do masculino, rejeitando o determinismo biológico. Portanto, homens e mulheres se aprisionam em um padrão de normalidade, sem questionar justamente a construção social, histórica e cultural desse padrão (Testoni; Raquel J. F.; Tonelli, Maria J. F., 2006, p. 41). Os estudos de gênero denunciam esta regulação da constituição da subjetividade (Testoni; Tonelli, 2006). Outras questões faladas por Alice e Carmem giraram em torno do fato de elas terem ajudado os maridos a adquirir o que eles têm atualmente. Alice diz ter montado um negócio com o marido, trabalhado com ele, feito empréstimos em seu nome. Só fiquei com as dívidas e com a violência psicológica. Carmem relata que quando conheceu seu marido, ela trabalhava e ganhava seu dinheiro. Já ele, só tinha uma roupa. Minhas amigas falavam: como eu tinha coragem de namorar um homem que só tinha uma roupa. Eu tinha vergonha, porque eu trabalhava e comprava roupas para mim. Daí, comecei a comprar roupa para ele. E hoje é meu aniversário. Ele não fez nada. Ficou renando em casa. Lúcia finaliza a discussão sobre a música com a reflexão: fazendo tudo que eles querem, dar tudo pronto, é como se a gente fosse mãe deles. Todas concordam com ela. Ana era a única que não trabalhava, por motivo de doença. Carmem trabalhou por muito tempo como empregada doméstica e atualmente está aposentada. Ela tem duas casas que aluga. Lúcia trabalha e sustenta a família, já que o marido não trabalha. Ela estava em processo de separação. Alice trabalhava na empresa de um amigo, mas sem remuneração. Portanto, ainda

3 3 financeiramente dependente do marido o casal morava na mesma casa, mas não viviam como casados. São mulheres que quase todas trabalhavam ou trabalham, mas que por algumas questões (uma destas, a crença de que servir é o dever da mulher) permanecem na situação de violência. Seis da tarde como era de se esperar - Comunidade do Orkut Uma comunidade no site de relacionamento Orkut, chamada Analisando Chico Buarque, teve uma proposta de discutir a música Cotidiano. As reflexões diferem do grupo de mulheres, uma vez que os comentários giram em torno da positividade e da negatividade de se ter uma rotina, tudo sempre igual. Há comentários de que na música talvez não seja uma mulher, mas a própria rotina que acorda o personagem. Outro comentário interessante é sobre uma possível questão política presente. A participante tece o comentário de que a música é de 1971, época em que o Chico acabava de voltar do exílio. A letra reflete a tensão do período duro da repressão política. Pois a rotina do casal pode ser quebrada a qualquer momento, há insegurança, me morde com a boca de pavor. Um outro comentário centra-se em como a música descreve bem os personagens. Principalmente a mulher que cuida da casa e do marido. A pessoa que comenta escreve que se a personagem fosse real ela talvez a reconhecesse na rua. Outro participante comenta que a rotina é positiva. Elogia a rotina linda que há no carinho com que a mulher trata o marido cuidado de buscá-lo no portão, o beijo de recepção. Mas ressalva apesar do carinho e da rotina agradável, ela o sacode de manhã e fala coisas que diz toda mulher. Num comentário semelhante a esse, é exposto que no meio de uma rotina de tédio, o compositor exalta o amor e a preocupação que a mulher tem por seu marido. Quem tece o comentário reforça que um casal pode ser feliz apesar da rotina. Outra nota que destaco, é uma mulher que diz ter criado uma briga com seu marido por causa de Cotidiano, porque ele elege o poema musicado como nossa música. Ela interpreta a música como um homem que quer se separar de sua mulher, mas não o faz porque pensa na vida pra levar. Além de na estrofe: Toda noite ela diz pra eu não me afastar / Meia-noite ela jura eterno amor / E me aperta pra eu quase sufocar / E me morde com a boca de pavor, ela achar que o marido diz que o amor de sua esposa é sufocante. Todo dia ela faz tudo sempre igual Reflexões Este poema musicado incita-nos a pensar sobre as questões das mulheres no espaço privado, os afazeres domésticos e as relações de cuidado com o marido. A música foi escrita no ano de 1971, época em que ao mesmo tempo que algumas mulheres ainda não tinham como objetivo a

4 4 qualificação para o trabalho no espaço público, outras participavam da segunda onda do feminismo que envolvia a saída das mulheres para o mercado de trabalho. Estatísticas sobre trabalho feminino no Brasil apontam que a partir dos anos 70 se intensificou e diversificou o mercado de trabalho para as mulheres (Bruschini, Cristina e Lombardi, Maria Rosa, 1996). A participação feminina no trabalho é cada vez mais expressiva nas últimas décadas ( %; %; %; %; %). Entretanto, houve uma maior participação das mulheres no setor terciário da economia. A este setor são atribuídos baixo prestígio e rendimentos menores. Mas de 1970 para 1980 o número de mulheres profissionais com nível superior aumentou de 18% para 35%, facilitando a entrada delas em outros setores econômicos mais prestigiados. O aumento da entrada das mulheres nas universidades se deu principalmente em 1961/1971, com a ampliação das vagas. No ano de 1971, a participação feminina nestes espaços era de 40% da população estudantil (Machado, Maria Helena, 1986). Vários fatores influenciam para esse crescimento do número de mulheres no mercado de trabalho: culturais, econômicos e demográficos (Bruschini; Lombardi, 1996). Algumas das mudanças foram conquistadas pelo movimento feminista. Um exemplo simples de como o movimento feminista discutia as questões do trabalho são os artigos de Carmem da Silva na revista Cláudia intitulados Trabalhar para não ser bibelô, Independência, entre outros (Teles, Maria A. de A., 1999). Ser mulher, até aproximadamente o final dos anos 1960, significava identificar-se com a maternidade e a esfera privada do lar, sonhar com um bom partido para um casamento indissolúvel e aperfeiçoar-se a atividades leves e delicadas, que exigissem pouco esforço físico e mental (Rago, Margareth, 2004, p. 31) 5. Em muitas contextos, na divisão de papéis ditos masculinos e femininos, as mulheres eram consideradas como confinadas ao espaço privado. A chamada mulher pública por muito tempo foi sinônimo de mulher da vida, expressão negativa e que estigmatizava e marginalizava algumas mulheres (Rago, 2004). A vida privada não é uma realidade natural, dada desde a origem dos tempos: é uma realidade histórica, construída de diversas maneiras por sociedades determinadas (Prost, Antoine; Vicent, Gérard, 1992, p.15). O sentido da vida privada modifica-se em diferentes meios sociais e tradições culturais (Prost; Vicent, 1992). Alguns problemas ainda ocorrem com as mulheres no mercado de trabalho: muitas vezes o trabalho feminino foi/é encarado como apenas complemento da renda familiar. Também é necessário citar que ainda há diferença de salários, em que as mulheres recebem menos do que homens desempenhando os mesmos cargos. Outro problema que podemos apontar quanto a esta temática, é quando não ocorre contratação de mulheres por estas terem a possibilidade de engravidar. A dupla jornada de trabalho (casa e fora) é outro fator que influencia na profissão das

5 5 mulheres. Ainda é a maioria delas que cuida da casa e dos filhos, mesmo trabalhando fora (Rago, 2004; Teles, 1999; Machado, 1986). Nas duas interpretações que apresentei sobre a música foi possível ver que há diferença entre os grupos. O grupo, com a presença de mulheres, estava num contexto em que a reflexão era sobre si mesmas na situação de violência que vivenciavam. Já no Orkut, quase não se vê a preocupação de discutir as questões de gênero. Não há um estranhamento da posição doméstica em que a mulher da música se encontra. No grupo de mulheres emergiu essa discussão porque se aproximava da realidade delas. Penso que são vivências diferentes, mas que denunciam desigualdades. Pode-se afirmar que foram criadas as condições de possibilidades para novas relações de gênero que sejam não-assimétricas. Condições que permitem começar, ou seja, não são pontos finais. De um lado, as mulheres se fortalecem e dão visibilidade aos efeitos do movimento feminista. Por outro lado, ainda há muitas mulheres que dizem conviver bem com sua condição feminina, mesmo com problemas e queixas, segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo (Rago, 2004). Por isso, as questões do trabalho feminino, na casa e fora, ainda necessitam de problematização. E estas reflexões ficam mais agradáveis feitas com o recurso da arte, como a música belíssima de Chico Buarque. Referência Bibliográfica BRUSCHINI, Cristina e Lombardi, Maria Rosa. O trabalho da mulher brasileira nos primeiros anos da década de noventa, Disponível em: <http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/anais/pdf/1996/t96v1a24.pdf>. Acesso em: 19 de junho de MACHADO, Maria Helena. A participação da mulher no setor saúde no Brasil /80. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.2, n.4, Disponível em: <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s x &lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 20 Junho de PROST, Antoine; VICENT, Gerard (org). História da vida privada 5: da Primeira Guerra a nossos dias. São Paulo: Companhia das Letras, RAGO, Margareth. Ser mulher no século XXI ou Carta de Alforria. In: Venturi, Gustavo; Recamán, Marisol e Oliveira, Suely (org). A mulher brasileira nos espaços público e privado. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, TESTONI, Raquel Jaqueline Freiberger.; TONELLI, Maria Juracy Filgueiras Permanências e rupturas: sentidos de gêneros em mulheres chefes de família. Psicologia & Sociedade; 18 (1): 40-48; jan/abr, WERNECK, Humberto. Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música. Cia da Letras, Disponível em: <http://www.chicobuarque.com.br>. Acesso em: 15 de maio de 2008.

6 6 1 Mestranda no Programa de Pós- Graduação em Psicologia da UFSC. Orientada pela Professora Dra. Mara Coelho de Souza Lago. 2 DVD Chico Buarque À flor da pele. 3 As participantes do grupo eram mulheres que sofreram violência doméstica em que os agressores são os cônjuges. Violência física, sexual e principalmente, psicológica. 4 Todos os nomes usados neste artigo são fictícios. 5 Não se pode afirmar que todas as mulheres brasileiras vivenciavam esta realidade até 1960, nem em outras épocas. Algumas mulheres já trabalhavam na esfera pública, principalmente aquelas de camadas populares que necessitavam trabalhar para auxiliar no sustento da família.

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