Azuis-Celeste e algumas

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1 Memórias de Dois Carros Azuis-Celeste e algumas Estórias afins Vou aqui falar dos meus automóveis e especialmente de dois azuis-celeste. Aprecio automóveis como aprecio qualquer objecto com qualidade um relógio, uma caneta, uma arma, mas não sou fanático e muito menos entendido. Tive muitos automóveis, não sei bem quantos. Comecei pelos Volkswagen e, como sou maníaco das séries, tive vários carochas. No primeiro, a caixa ainda não era sincronizada. Mais tarde, iniciei a série dos Rover Vendiam-se na Garagem Vitória, a São Mamede, dirigida pelo engenheiro Costa Pinto, que deificava os seus carros. Só vendia um Rover a quem lhe parecesse que o merecia. Caso contrário, informava secamente que não havia carros para entrega. Também não conce- 119

2 bia que alguém se pudesse gabar de ter visto um Rover a ser rebocado. Para o efeito, mandava, fosse onde fosse, um mecânico para desempanar o carro in loco. Passei pela série dos Honda e dos BMW, e hoje em dia sucumbi à tentação de um todo-o-terreno Mercedes. Entre as séries tive muitos outros carros e é aqui que surgem os dois azuis-celeste. O primeiro foi um Taunus que em 1962 comprei em enésima mão, durante a comissão em Angola. Da cor à forma e ao motor, nada tinha que o recomendasse. A compra só se justificava pelo meu estado de espírito em Angola tudo era transitório e o Taunus também. Não sabia ainda que tudo é transitório, em todos os tempos e em todos os lugares. O João Manuel Espregueira Mendes e o Joaquim Fontes Pereira de Mello, tal como eu tenentes-milicianos médicos no Hospital Militar, passavam a vida a troçar do azul-celeste. Eu, só para os provocar, mandava polir a pintura quase todos os dias, o que a tornava ainda mais pimba. Os autores da obra eram miúdos africanos que enxameavam as ruas de Luanda, a quem gostava de dar trabalho e que, por alguns angolares, poliam os carros servindo-se de uns óleos misteriosos, uns trapos esfarrapados e muita força dos magros braços. O carro resplandecia, o que levava o Espregueira Mendes, de cada vez que nos cruzávamos, a baixar as palas, pôr os óculos escuros, fazer sinais de luzes, etc., ofuscado por tanto rutilar. 120

3 Mas o carro tinha ainda outra particularidade: a alavanca das mudanças, situada no volante, periodicamente, ao passar da segunda para a terceira, fazia uma luxação e encravava. Aprendi logo a reduzir a luxação. Dias antes de regressar a Lisboa vendi-o a um capitão que ficara hipnotizado pelo seu brilho cada vez mais eléctrico. Na altura, referi-lhe a artropatia da alavanca e a técnica de redução. Porém, o capitão não a assimilou e várias vezes me procurou, com crescente irritação, para que lhe resolvesse o problema. Depois, deixou de aparecer e pensei que estava tudo sanado. Mas, no meu último dia em Luanda, quando jantava na Versailles, vejo entrar o capitão que, de cabeça perdida, brandia um ferro. Pensei que o ferro era uma chave de rodas para me agredir; mas não, o ferro era a alavanca das mudanças que, desta vez, se tinha desprendido. Já não era uma luxação, era um desmembramento. Lá fui com ele e consegui fixar a alavanca. E foi assim que da última vez vi o meu Taunus, ao desaparecer para sempre na noite de Luanda, com o seu azul-celeste a refulgir teimosamente sob o cintilar do Cruzeiro do Sul. Já em Lisboa, reincidi com um Fiat 1500 S azul-celeste. O aristocrático S significava que o motor fora transformado pelo Bonetto e tinha duas árvores de cames à cabeça. Era descapotável e atrás havia apenas um pequeno espaço onde não cabia mais que uma mala ou uma criança. Na auto-estrada, então 121

4 quase vazia e transformada em autódromo pelos amadores de emoções fortes, poucos carros se batiam com ele. Quando, de manhã, entrava devagar na cerca do Hospital de Santa Maria com o motor quente a ronronar, o Fernando Magalhães Colaço gritava-me: Isso é que é qualidade de vida! E era. Eu tinha então tudo, e o tudo incluía uma grande alegria de viver. Um domingo à tarde, vim a Lisboa observar uma criança. No regresso ia em despique com um BMW quando, umas centenas de metros adiante, surgiu um polícia de trânsito, de braço erguido, a mandar parar. Travei a olhar pelo retrovisor, com medo do BMW. Depois, imobilizado em plena auto-estrada, verifico que o agente nos tinha mandado parar para que um Volkswagen da corporação passasse sobre a placa central então sem separadores e invertesse a marcha, ficando no sentido de Cascais. O autor da manobra era o típico polícia de trânsito da época farda de caqui amarelo, atarracado, face rubicunda, abdómen proeminente. Quando finalmente nos mandou seguir, encarei-o e abanei a cabeça com severidade. Apitou e mandou-me parar, mas não obedeci e prossegui a marcha. Correu para o seu carro e iniciou a perseguição com a sirene a apitar. Tive então o raro gozo de me sentir o Al Capone nas ruas de Chicago. 122

5 Carreguei um pouco no acelerador e, cada vez mais, a imagem do carro da Polícia se reduzia no retrovisor e o som da sirene enfraquecia. Já não a ouvia quando, ao chegar à Gibalta, dou com um engarrafamento. Voltei a ouvir a sirene e, pouco depois, o carro estacionava ao meu lado. O mesmo polícia que me mandara parar, saiu, pediu-me os documentos e depois perguntou-me por que razão tinha abanado a cabeça. Então, disse-lhe mais ou menos assim: Gostava de lhe poder responder, de me abrir consigo, de o fazer meu confidente, porque até tem cara de pessoa compreensiva, mas a razão do abanar de cabeça é tão confidencial, tão íntima, que não posso. A minha honra e a de outras pessoas não o permitem. Nessa altura, as telangiectasias da face já tinham duplicado de débito. Reflectiu, e repetiu a pergunta. Repeti a resposta. As telangiectasias passaram a violáceas e começava a escumar pela boca. Então, arranquei-lhe os documentos da mão, disse-lhe o que pensava da sua manobra, e como o engarrafamento se tinha desfeito, deixei-o atordoado no meio da estrada e desapareci. Uma última estória. Quando de um congresso de Pediatria, fui ao aeroporto esperar o Dr Douglas Montagu Gairdner, grande figura médica do Reino Unido e editor dos Archives of Diseases in Childhood. Inesperadamente, o Douglas chegou com a sua mulher, Nancy, de modo que teve de enrolar o seu metro e oitenta e cinco 123

6 no banco de trás. Dei uma volta turística por Lisboa. Quando chegámos ao Hotel Tivoli e esse foi o primeiro sinal do seu senso de humor, saiu do carro dobrado em ângulo recto, com as mãos nas ilhargas e, perante o espanto dos presentes, avançou a gemer até à recepção. Daí em diante, referia-se ao carro com ódio e chamava-lhe «your measles car», um carro que se não repete porque nos deixa imunizados. Insultava, mas, um ano depois, hospedado em nossa casa, já gostava de ir de manhã para Lisboa, sentado ao meu lado, com o vento a assobiar-lhe nas orelhas. Diversas ocasiões voltou a Portugal, e nós algumas vezes ficámos na sua linda casa em Cambridge. Ele e as filhas formavam um quarteto em que Douglas tocava a tuba. Eram especialistas nos mestres do barroco italiano. Quando foi homenageado pelos pediatras ingleses, escrevi nos Archives: «I should like to state the feelings of Portuguese paediatricians about Dr Douglas Gairdner, who came several times to Portugal, invited by the Portuguese Academy of Paediatrics.»Every time Douglas made an immediate integration. He never gave us the impression of a foreign scientist, lecturing. He was always interested to hear about our problems and his advice was realistic and full of experience and common sense.»travelling around Portugal he was not a tourist. He has the natural capacity of mixing with people and participating in local 124

7 life. Alone by himself, he enjoyed the happy disorder of third class in Iberic trains, where, without understanding one single word of the conversation, he managed to start contacts and communicate. He had the iniciative to search for regional art, to visit popular restaurants, to try local food with obvious pleasure, to hear fado with application, to relish our beaches and to live every moment as if he were born here.»this human quality makes Douglas the best paediatric ambassador that ever came to Portugal.» Depois, como o meu veloz Fiat 1500 S azul-celeste, o tempo tudo ultrapassou. O João Manuel Espregueira Mendes, o Joaquim Fontes Pereira de Mello e o Fernando Magalhães Colaço morreram, todos muito jovens. Deborah, a filha mais nova dos Gairdner, quando uma tarde ia de bicicleta para a lição de violino, foi atropelada e morreu. A Nancy caiu numa depressão irreversível. Douglas, julgo que por desafio para com a vida e por espírito de missão, continuou todas as suas actividades durante uns anos ainda. Depois, embora sem as abandonar totalmente, deve ter pensado que era tempo de se dedicar aos netos, de ler e de reler, de escrever e de jardinar. Tuba, porém, nunca mais tocou. A verdade é que estavam mortos por dentro. Pouco tempo passado, e com curto intervalo, o Douglas e a Nancy morreram completamente. 125

8 Alguns anos depois, também eu recebi a mais forte e a mais certeira bofetada que a vida me poderia dar, tão forte e tão certeira que não percebo como consigo falar, andar, mexer as mãos. Há quem lhe chame uma cruel amputação. Mas não passa de uma metáfora absurda, pois é evidente que a perda de um braço ou de uma perna não se lhe pode comparar. Quem imaginaria tais infortúnios nos tempos felizes do Taunus azul-celeste, do Fiat azul-celeste? Sabia-o, e também por experiência própria, Marcel Pagnol, quando escreveu: «Telle est la vie des hommes. Quelques joies, très vite effacées par d inoubliables chagrins.»

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