A descolonização de Angola: migração e adaptação de portugueses e brancos angolanos no Rio de Janeiro

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1 A descolonização de Angola: migração e adaptação de portugueses e brancos angolanos no Rio de Janeiro ISABEL DE SOUZA LIMA JUNQUEIRA BARRETO Entre 1961 e 1974, deu-se a guerra de independência de Angola. Com a Revolução dos Cravos, iniciada com o 25 de Abril de 1974, que põe fim ao regime ditatorial do Estado Novo ( ), inicia-se um processo de negociações que encerra o conflito. Uma das medidas estabelecidas é a formação de um governo de transição (formado pelos três movimentos independentistas, FNLA, MPLA e UNITA e por autoridades lusitanas). Tal medida prepararia a mais rica das colônias portuguesas no século XX para a sua emancipação política. A relação entre os movimentos de libertação, entretanto, era marcada por hostilidades. Ao longo do ano de 1975, rebentam combates entre os três movimentos, no prenúncio do que viria a ser uma sangrenta e longa guerra civil. Devido ao clima de insegurança instalado no país, ao longo daquele ano, sobretudo no segundo semestre, deu-se o êxodo da minoria branca residente. A questão racial era entendida como fator de mobilização das massas. Viriato da Cruz, um dos principais nomes do Movimento Popular Pela Libertação de Angola, o MPLA, havia declarado, em entrevista a um jornal inglês, que O racismo das massas é o elemento mais dinâmico do nacionalismo africano. Não fomos nós que o criamos. Ele existe por virtude da opressão que os africanos têm sofrido durante séculos em contato com os colonialistas europeus. Rejeitar esse elemento como fator de luta seria politicamente errado (...). De resto, os líderes africanos não são racistas. Alguns deles, mesmos, são casados com mulheres europeias (CRUZ, apud BITTENCOURT, 2002: 187). A questão do lugar dos brancos na sociedade angolana, uma vez conseguida a independência era delicada. Nessa mesma entrevista Viriato da Cruz declarou que os brancos em Angola teriam após a independência, os mesmos direitos civis da maioria negra, porém não teriam privilégios. Marcelo Bittencourt mostra que em cartas trocadas com Lúcio Lara, outro dos nomes de destaque do movimento, Viriato da Cruz defende a incorporação de militantes brancos (BITTENCOURT: 2002: ). Doutoranda do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense.

2 3 No que se refere ao posicionamento político da minoria branca Adolfo Maria 1, em entrevista concedida ao historiador Fernando Pimenta esclarece que havia uma escassa minoria dentro da população branca muito politizada opositora do salazarismo e que era favorável a independência política de Angola não importando o regime político em vigor em Portugal. A partir da década de 1940 é possível dividir o posicionamento político dentro desse grupo em três diferentes vertentes. A primeira delas, formada por simpatizantes da ditadura salazarista. A segunda era composta por portugueses, opositores do regime, radicados em Angola ou que para lá foram deportados por razões políticas. Esse era o grupo mais politizado. A terceira era formada por angolanos brancos nacionalistas e ou independentistas, que tinham pouca ou nenhuma ligação. Esses grupos, entretanto, eram minoritários dentro da população branca, no geral politicamente amorfa e incapaz de encontrar alternativa ao papel que Lisboa lhe reservou: ser um instrumento do regime colonial. (PIMENTA, 2006: 35) Quanto as ideias relativas a independência, Adolfo Maria destaca para além do grupo politicamente amorfo, cinco posicionamentos. São eles: desprezo pela metrópole e hostilidade com os colonos recém-chegados, porém com pouca ou sem familiaridade com o conceito de independência; o desejo pela independência, mas com Angola sendo governada por membros da minoria branca, integrando a elite mestiça e negra assimilada 2, visão essa compartilhada por esse grupo; a defesa, feita por um setor conservador da burguesia branca, de uma independência de tipo rodesiano, ou seja, o país seria governado por membros da minoria branca somente; um grupo liberal da burguesia branca de Angola, que defendia uma independência para a totalidade da população, mas com a elite branca como condutora e finalmente um grupo reduzido de intelectuais progressistas, muito influenciado por ideias de esquerda, defensores da entrega do poder à maioria negra. No que se refere à atuação dos brancos nacionalistas, destaque é dado à FUA, Frente de Unidade Angolana. A FUA teve uma existência efêmera, apenas dois anos ( ), mas tem um papel determinado no processo da independência de Angola. Seus membros freqüentaram os mesmos Liceus de muitos dirigentes do MPLA, por isso tentou aproximar-se desse movimento para com ele colaborar na luta pela independência. Entre Agosto e Dezembro de 1962, em Paris e entre Janeiro e Agosto de 1963, em Argel, teve uma atividade 1 2 Adolfo Maria Nascido em Angola, filho de imigrantes transmontanos que se envolveu na luta anticolonial ingressando primeiro na FUA, Frente de Unidade Angolana, e posteriormente membro do MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola. Categoria utilizada para designar grupos de influência cultural europeia nativos das colônias portuguesas que formavam um estrato social intermediário na estrutura daquelas sociedades.

3 4 intensa. 3 No período parisiense membros de ambos os movimentos se reuniram para encontrar formas de colaboração, porém sem sucesso. Apesar da sua atuação em prol da independência de Angola, ainda na cidade luz seus membros se precipitaram e publicaram um documento denominado Programa e Estatutos, que era, pode-se dizer, um programa de governo para Angola. Tal ato levou a uma desconfiança dos demais movimentos, pois a Rodésia governada por Ian Smith, já despontava e estava na dianteira das preocupações das lideranças nacionalistas, tanto em Angola quanto em Moçambique. Tal fato minou qualquer possibilidade de entendimento com o MPLA e a possibilidade de um termino distinto da guerra de independência. Fatores que contribuíram para o desfecho foram, por exemplo, a geopolítica internacional, marcada pela Guerra Fria, que leva os movimentos de libertação a se aliarem a lados opostos e o desenrolar dos eventos em Portugal após a queda do Estado Novo. Com a Revolução dos Cravos houve o início das negociações para a independência, como mostra Rui Pena Pires: Em Abril de 1974, com a queda do regime autoritário são criadas condições para uma rápida descolonização. O caráter abrupto das mudanças então desencadeadas, a incapacidade de o Estado português assegurar o controlo eficaz do processo de transição para a Independência, bem como em alguns casos, a situação de guerra civil e o conflito racial visando uma rápida africanização do poder econômico e político, vão provocar durante o ano de 1975 o êxodo dos brancos radicados nas colónias (...). (PIRES, 1998:184) No momento em que o regime do Estado Novo é derrubado em Portugal os brancos angolanos estavam fortalecidos. A primeira reação à Revolução dos Cravos foi-lhe favorável, pois, associavam a ditadura a constrangimento e ineficiência. Acreditavam que pouco iria ser modificado quando Spínola, como novo presidente de Portugal declarou que conduziria pessoalmente a descolonização de Angola e nomearia Silvino Silvério Marques como governador dessa província. Mudanças seriam, entretanto, feitas. Tal fato levou a conflitos entre brancos e negros. Na metade de 1974 os conflitos entre brancos e negros em Angola estavam no centro da cena política. Aqueles que apoiavam as teses estado novistas ou soluções federalistas passaram segundo Carolina Peixoto a tentar golpes para evitar a 3 A FUA publicou em um espaço de três meses três números de um jornal denominado Kovaso, distribuído clandestinamente em Angola; dirigiu exposições aos chefes da OUA, Organização da Unidade Africana; enviou estudos sobre Angola a diferentes organismos na Europa, na própria África e nos Estados Unidos; estabeleceu contatos com grupos franceses e belgas e fizeram contatos com pessoas ligadas a Angola, que residiam neste território, de Portugal e dos Estados Unidos (TORRES, 2000).

4 5 transferência do poder para os movimentos de libertação com intuito de manter os privilégios e a estrutura da sociedade colonial. Aderiram então a movimentos clandestinos que postulavam uma solução rodesiana, ou seja, o poder político para a comunidade branca. (PEIXOTO, 2009) Outras soluções foram também debatidas. Havia brancos, como apontado por Adolfo Maria (e mestiços) que faziam oposição a Salazar, que tinham uma orientação liberal democrática, ocasionalmente socialista. Estes estavam representados por movimentos democráticos. O primeiro partido político a buscar apoio da comunidade branca foi o PCDA (Partido Cristão Democrático de Angola). Tendo surgido em Maio de 1974 defendia uma descolonização consensual. Através disso buscava atrair assimilados, figuras políticas africanas que não se envolveram nos movimentos de libertação e os brancos economicamente menos favorecidos. No dia 19 de Julho de 1974 foi fundada a FRA (Frente de Resistência de Angola), representando setores do capital angolano. Reivindicavam uma abertura de conversações entre os movimentos de libertação e a comunidade branca. (PEIXOTO, 2009) O processo de transição que marca este momento configurou-se como bastante delicado. Os três movimentos e as autoridades portuguesas se reuniram no Algarve entre 10 e 15 de Janeiro de Definiram-se aí os procedimentos da transferência do poder político para os angolanos. Este ficou conhecido como Acordo de Alvor. Agendou-se a independência angolana para 11 de Novembro de Até então haveria um governo transitório, dirigido por um colegiado de três membros, representando cada um os três movimentos de libertação. O governo português seria representado por um alto-comissário nomeado pelo presidente da República. Este não poderia intervir no governo. Em 31 de Janeiro de 1975, o governo de transição entra em vigor. Entretanto, logo as discordâncias entre os movimentos de libertação ficaram evidentes. Os três movimentos tiveram diferentes estratégias para serem aceitos pela comunidade branca. Quanto a isso, Adolfo Maria revela a Fernando Pimenta que: Desde 1974 e sobretudo início de 1975 que havia militantes brancos em cada um dos três movimentos até havia famílias em que as pessoas estavam repartidas pelos três movimentos. Aliás ocorreu uma coisa curiosa. Em 1974/1975, os movimentos mais antibrancos, isto é, a FNLA e a UNITA, foram os que se mostraram mais abertos à entrada de brancos nas suas fileiras como militantes e quadros. Subitamente a FNLA passou a ter muitos brancos talvez mais do que o próprio MPLA possivelmente porque a FNLA não tinha implantação urbana, e

5 6 como tal, precisava de brancos para se implantar nas cidades. Além disso, a FNLA estaria ideologicamente mais próxima da maioria dos brancos (pelo contrário o MPLA representava o 'papão comunista') (PIMENTA, 2006: ) Ainda segundo Adolfo Maria, em seu depoimento a Fernando Pimenta, uma vez que pelos Acordos de Alvor seriam realizadas eleições, a maioria da população branca estava se sentindo segura. Houve, entretanto, grupo dentre a minoria branca (e também alguns negros e mestiços) que tinham comprometimento com a repressão colonial, que partiu de Angola logo que se deram os Acordos de Alvor. A grande maioria dos brancos indicava que permaneceria em Angola. (PIMENTA, 2006: ). A insegurança aumenta já no princípio de Em Abril a situação piora na capital, há troca de tiros, raptos e assassinatos entre membros dos três movimentos. O êxodo da minoria branca, nessa altura, ainda não começa. Acreditando que tal situação seria passageira, embarcam para Lisboa mulheres e crianças, o que ocorre em grande número a partir de Junho. Os homens ficam. A medida que a situação se agravava muitos brancos levam seus bens para os portos com intuito desses serem levados a Portugal. O pânico toma conta a partir da Batalha de Luanda, entre Julho-Agosto de Nessa batalha o MPLA expulsa a UNITA e a FNLA da capital. O ápice do êxodo ocorre entre os meses de Setembro, Outubro e Novembro de (PIMENTA, 2006). Os aeroportos de Angola ficam cada vez mais lotados de pessoas em fuga, companhias estrangeiras (entre elas a Varig), também auxiliam na retirada desta população. Ainda segundo mesmo autor: A tragédia do êxodo dos brancos angolanos. Que recorda a fuga traumática dos pied-noirs argelinos em 1962 afetou cerca de pessoas, as quais se estabeleceram sobretudo, em Portugal, mas também no Brasil, África do Sul, Rodésia do Sul, etc. Estima-se que pouco mais de (10%) brancos permaneceram em Angola após a Independência, em 11 de Novembro de (PIMENTA, 2004: 26) Em Portugal, ao longo daquele ano chegam por volta de meio milhão de portugueses radicados nas colônias. De Angola, colônia com uma população branca mais expressiva, chegam 61% desse total. Houve, entretanto, quem optasse por não ir para a Europa. Parte dos que deixaram Angola veio para o Brasil. O afluxo de refugiados é tão expressivo, que não só a imprensa cobre a chegada, mas entre os meses de Outubro e Novembro o governo Ernesto Geisel monta uma força-tarefa em São Paulo e no Rio de Janeiro. Esta, formada por

6 7 representantes de três ministérios (Relações Exteriores, Trabalho e Justiça) tem como finalidade regularizar os papéis de permanência dos recém-chegados em um prazo de três a cinco dias quando o prazo normalmente é de quarenta e cinco a cinquenta dias e ajudar-lhes a conseguir um emprego e fornecer-lhes documentos (muitos aqui chegaram sem nenhuma documentação) e houve quem, além disso, chegasse apenas com a roupa do corpo. O exame de telegramas trocados entre a embaixada brasileira em Portugal e o Ministério das Relações Exteriores permite perceber o desenrolar da posição brasileira quanto à recepção desses imigrantes. A emigração de portugueses vindos dos territórios africanos em processo de descolonização, sobretudo Angola e Moçambique, era uma possibilidade desde fevereiro de As autoridades portuguesas estavam desejosas de uma solução para a questão dos deslocados, pois, estimavam o significativo aumento do fluxo migratório de colonos e militares desmobilizados em direção a Portugal, que na época enfrentava altos índices de desemprego. Em Maio daquele ano outra preocupação era a emigração, para outros países, entre eles o Brasil, de mão-de-obra qualificada da metrópole, não apenas de deslocados da descolonização. Esse fluxo poderia vir a se agravar nos meses subseqüentes. Uma das causas seria o aumento do retorno de portugueses, principalmente de Angola. Em Junho, ANI, Agência Nacional de Informações, através do consulado português no Rio de Janeiro obteve informações de que entre Abril e Maio daquele ano inscreveram-se 601 e 640 pessoas respectivamente. Tinham essa intenção de fixar residência. O perfil profissional era de mãode-obra altamente qualificada em busca de oportunidade de trabalho. Desde meados de Junho, quatro vôos da TAP saíam diariamente de Luanda em direção a Lisboa com mil ou mais passageiros. Desses vôos três eram destinados a dar vazão a uma lista de candidatos a deixar Angola. Lista esta, na qual estavam inscritas cerca de duzentas mil pessoas. Desde o 25 de Abril, teriam deixado Angola cerca de pessoas. O êxodo recrudesceu entre Maio e Junho após os surtos de violência que caracterizaram o período. Em Agosto um telegrama informa que um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Portugal declarou que era provável que o Brasil viesse a conceber visto de permanência para cerca de portugueses procedentes de Portugal, Angola e Moçambique ao longo de Em Setembro representante do distrito do Huambo entrou em contato com autoridades diplomáticas brasileiras em Lisboa para tratar da emigração direta de cerca de 500 portugueses residentes em Nova Lisboa (atual Huambo). A operação seria feita em dois vôos charter entre aquela cidade e o Rio de Janeiro ainda naquele mês. A mesma autoridade portuguesa retornou à embaixada brasileira dias depois para comunicar que já

7 8 havia sido fretado um DC-8 da Ranger Air International que transportaria mais 700 pessoas em quatro vôos de Nova Lisboa para o Rio de Janeiro. Os telegramas não esclarecem se se tratava de operações distintas ou se àquelas 500 iniciais se juntaram mais 200. Telegrama datado de 3 de Outubro informa que na imprensa portuguesa foi noticiado que um vôo charter chegou ao Rio de Janeiro procedente de Angola com 150 passageiros, não informa, entretanto se se tratava de deslocados do grupo em questão. Neste o embaixador Carlos Alberto da Fontoura pediu esclarecimentos das autoridades de Brasília sobre o grupo de recém chegados. Telegrama datado de 16 de Setembro informava que havia já naquela altura do ano em território metropolitano cerca de retornados, sendo que vinham de Angola. Telegrama do dia seguinte informa que autoridades portuguesas vinham ao Brasil para negociar com o Itamaraty sobre a possibilidade de o Brasil acolher portugueses residentes em Angola. Havia entretanto, preocupação em se exercer um controle e impor restrições para a entrada de portugueses seja a partir da Europa ou de Angola. Em Outubro, telegrama datado do dia 09 informava haver grande insatisfação entre os retornados e que a maioria estava disposta a passar por um novo processo migratório, sobretudo para o Brasil. O documento informa que havia um número crescente de candidatos à emigração para o Brasil procurando a embaixada brasileira e as repartições consulares em Lisboa e na cidade do Porto. Segundo o texto, 75 % deles seriam capacitados tecnicamente e que contavam com recursos próprios para instalação e manutenção inicial no país. Meses depois, em 5 de Dezembro, o Itamaraty é informado que o Instituto de Apoio aos Retornados Necionais (sic) (IARN) estava arcando com as despesas de transporte para o Brasil de deslocados das antigas colônias. A agência da Varig em Lisboa informou que entre 2 de Outubro e 4 de Dezembro recebeu do instituto 110 consultas a respeito do preço de passagens entre Lisboa e Rio de Janeiro. É importante que se diga que, entre os que aportam no Brasil, nem todos são portugueses ou angolanos brancos. Há, embora em menor número, negros e mestiços. Houve também o envolvimento das associações portuguesas no auxílio para arranjarem casa e emprego. Este ficou a cargo delas, após o encerramento da Força Tarefa. No que se refere a números eram milhares. A revista Veja, cita seis mil refugiados segundo estatísticas do Itamaraty, o jornal O

8 9 Globo, que a embaixada portuguesa divulgou que no primeiro semestre daquele ano, 4.418, pessoas chegaram ao Brasil. 4 Cabe aqui fazermos algumas reflexões acerca do fenômeno das migrações e do êxodo. Há poucos estudos sobre este grupo de imigrantes no Brasil. 5 Além desses estudos, a imprensa da época é muito importante para se compreender como se deu a chegada no contexto brasileiro. Fontes igualmente importantes são relatos orais desses imigrantes. Informações dadas pelos próprios atores possibilitam a compreensão do evento em questão. A migração, como apontam Zeila Demartini e Alice Beatriz Lang: é um fenômeno complexo, podendo ser visto como um fato coletivo e como uma experiência pessoal. Pode ser estudada de várias formas, sob perspectivas as mais diversas e com base em fontes também diversas: fontes escritas (dados censitários, imprensa, correspondência, documentos vários, romances, etc.), fontes orais, fontes iconográficas, observação participante. As fontes podem ser preexistentes ou criadas pelo pesquisador. (DEMARTINI e LANG, 2008: 212) Aprofundando a questão do migrante e abordando a questão do exílio, Cláudia Cardoso procura compreender o universo desses indivíduos a partir de uma abordagem fenomenológica. Ser um exilado é estar em contato com a ruptura e a perda. Uma das muitas situações possíveis de origem do fenômeno do exílio é a fuga de uma situação de guerra. No que se refere à experiência de imigrante, baseada na visão de Abdelmalek Sayad Cardoso mostra que as experiências do emigrante e do imigrante se inscrevem no deslocamento no espaço. De acordo com Sayad a emigração tem uma relação dialética com a imigração. Dessa forma: para o autor a dualidade de um mesmo fenômeno, a emigração e a imigração, se mostra, na medida em que um determinado conjunto de circunstâncias sociais leva a que a população de um determinado local e época dê origem, do mesmo modo, a uma forma também particular de imigração em outro lugar, ideia que ilustra as diferentes fases migratórias que marcam a ida dos colonos portugueses para Angola. Desta forma, pode-se caracterizar o fenômeno como um processo não uniforme, regulado por ondas distintas ao longo do tempo. Seguindo o raciocínio do autor, os diversos grupos pertencentes a estas idades de imigração se distinguem 4 Essas informações foram obtidas a partir de periódicos da época, como a Revista Veja, edições 371 e 376 de 15/10/1975 e 19/11/1975, respectivamente e do Jornal O Globo, edição de 02/09/ Todos os estudos se concentram em São Paulo e foram levados à cabo por pesquisadores do Centro de Estudos Rurais e Urbanos, CERU.

9 10 dentro da comunidade imigrante, perpetuando a existência de diferentes categorias de emigrantes e imigrantes. (CARDOSO, 2008: 23-24) A pesquisa realizada pelos pesquisadores de São Paulo aponta questões que têm guiado nosso estudo. Através da metodologia da História Oral coletamos depoimentos sobre as histórias de vida desses imigrantes, pois: Enquanto os historiadores estudam os atores da história à distância, a caracterização que fazem de suas vidas, opiniões e ações sempre estará sujeita a ser descrições defeituosas, projeções da experiência e da imaginação do próprio historiador: uma forma erudita de ficção. A evidência oral, transformando os objetos do estudo em sujeitos, contribui para uma história que não só é mais rica, mais viva e mais comovente, mas também mais verdadeira. (THOMPSON, 2002: 137) A pesquisa tem se baseado em entrevistas de história de vida. A utilização deste método permite perceber como a partir da memória o indivíduo reconstitui sua vivência e elabora sua identidade. Como estamos tratando de indivíduos que viveram uma experiência traumática, optamos por analisar a relação entre memória identidade e histórias de vida, a partir da reflexão de Michael Pollack. Em artigo sobre este tema o autor explica que, os elementos que constituem a memória, seja ela individual ou coletiva são de dois tipos: os acontecimentos vividos pessoalmente e os vividos por tabela. Além deles a memória é reconstituída por personagens e por lugares. Em meio a estes três fatores a memória: é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si. (POLLACK, 1992: 204) Desta forma, nas memórias dos entrevistados ouvidos até agora, temos o seguinte quadro no que se refere à adaptação ao novo contexto: para alguns foi mais fácil, para outros mais difícil, sobretudo no que se refere à recepção pelos brasileiros, que seriam na visão deles pouco acolhedores diante de, por exemplo, diferenças linguísticas. As diferenças culturais também são apontadas como fator de dificuldade de adaptação nos primeiros tempos. Ambos foram fatores que levaram muitos a emigrarem novamente:

10 11 o brasileiro talvez não compreendia ou acharam graça ou outros porque era da índole deles faziam aquela piada Ah é portuguesa é? porque às vezes até ficava com certa vergonha de dizer pelo receio da pessoa vir a dizer algo que a gente não gostasse de ouvir. Porque às vezes a gente ouvia Ah porque portugu... vai embora, portugu...mas tu tá fazendo, ta fazendo o quê quer dizer às vezes a gente às vezes quer falar Ah, mas eu não to adaptando não to... não sei não consigo gostar disto ou daquilo desta maneira Ah então veio pra qui fazer o quê? quer dizer isso tudo são maneiras que a gente não não aceita, porque você, a gente ia pra África do Sul, a gente vinha pra qui ou pra ali a gente falava, mas a pessoa que estivesse conosco ela não nos dava essa piada, ela tentava ajudar Não, não faça isso, não faça e às vezes a gente ouvindo, ouvindo essa piada a gente se sentia como que levando um empurrão. Tanto que muita gente, muito angolano chegou a ir embora do Brasil Tinha muito Angolano aqui, mas uma grande parte deles foi pra Lisb, foi pra Portugal e eles voltaram pra Angola, Moçambique, não conseguiam se adaptar aqui. Gostavam, mas não se adaptavam. Eu fui uma das pessoas que custei a adaptar (S.T.) Para outros, a língua, o clima, o acolhimento inicial que receberam de parentes ou de pessoas desconhecidas, foram fatores que favoreceram a adaptação. Vejamos agora o que alguns deles nos dizem: Então, quando nós chegamos e viemos por essa facilidade, já termos alguém aqui para nos receber, não é? Já tinha pelo menos um lugar pra você ficar, né? Pela facilidade da língua, que também dá uma ajuda bem grande, imagina um lugar onde a gente não, não sabe falar a língua. Viemos pra cá. Viemos pra casa do meu tio. Ficamos dois anos e meio com ele ( ). Depois que a gente saiu dessa situação, aí a gente foi viver com os próprios recursos. Foi muito melhor ( ). (O.G.) A adaptação, como coloca Denise Rollemberg é um processo penoso agravado por carências materiais, desconhecimento da língua (no caso aqui estudado diferenças entre o português falado no Brasil e em Portugal), da cultura e da burocracia, pela falta de documentos e não raro, pela falta de possibilidade de exercer a profissão de origem. As cidades de chegada para a maioria foram o Rio de Janeiro e São Paulo, posteriormente fixaram-se em outras cidades como Salvador, São Luís do Maranhão, Porto Alegre e Florianópolis, por exemplo. Quanto ao período de chegada dos nossos entrevistados há

11 12 aqueles que desembarcaram aqui ainda em Dezembro de 1974, outros durante o ano de 1975 e também no ano seguinte. Segundo Demartini e Cunha: Os.velhos. e.novos. colonos vindos de Angola tiveram o Brasil como destino desde o início da guerra colonial, no início dos anos Alguns militantes nacionalistas (não somente brancos, mas também mestiços, negros e indo-portugueses) vieram como fugitivos da repressão do regime salazarista, e formam ainda hoje uma rede, hoje internacional, de amigos. Vieram de diversas regiões daquele território. Evidentemente, mais de grandes cidades como Luanda, Nova Lisboa (hoje Huambo) e Benguela, mas também de outros lugares, tais como Cabinda, Bié, Cuanza Sul e Huíla. Mas é notável a quantidade de portugueses e luso-africanos encontrados em todo o Brasil. oriunos sobretudo de Luanda e Huambo. e vindos em meados dos anos 1970, sobretudo em 1975, altura de sua fuga da guerra civil angolana iniciada pela intensa luta armada pelo poder entre os movimentos de libertação. (DEMARTINI; CUNHA, 2008: 131) Os imigrantes criaram laços aqui. Devemos salientar também que a pesquisa encontra-se em andamento. As questões acima apontadas poderão ainda aprofundadas em novos depoimentos e outros informantes ainda serão ouvidos ao longo da pesquisa, ampliando o quadro analisado. Novas questões, portanto, podem vir a ser incorporadas. Bibliografia: BITTENCOURT, Marcelo. "Estamos Juntos". O MPLA e a luta anticolonial ( ), Niterói, Universidade Federal Fluminense, 2002, Tese de Doutorado. CARDOSO, C.R.E. Diáspora e Regresso: os imigrantes luso-angolanos no Brasil. São Paulo, Universidade de São Paulo, 2008, Dissertação de Mestrado. DEMARTINI, Z.B.F.; CUNHA, D.O. Os colonos da África portuguesa sob o regime colonial e seu deslocamento para o Brasil no pós-independência, Cadernos CERU, série 2, v. 19, n. 1, junho LANG, A. B. S. G. ; DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri. Imigrantes portugueses em São Paulo: história oral. In: Maria Izilda Matos; Fernando de Sousa; Alexandre Hecker. (Org.). Deslocamentos & Histórias: os portugueses. Bauru: EDUSC/CEPESE, 2008, v., p MAC QUEEN, Norrie. A descolonização da África Portuguesa: a revolução metropolitana e a dissolução do Império, Mem Martins, Editorial Inquérito, 1998.

12 13 MEIHY, José Carlos Sebe Bom; HOLANDA, Fabíola. História Oral: como fazer, como pensar, São Paulo, Contexto, PEITOTO, C.B.T. Limites do Ultramar Português possibilidades para Angola: o debate político em torno do problema colonial ( ), Niterói, 2009, Dissertação de Mestrado. PIMENTA, Fernando. Ideologia Nacional dos brancos Angolanos ( ), VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, Coimbra, Angola no Percurso de um Nacionalista: conversas com Adolfo Maria, Porto: Edições Afrontamento, PIRES, POLLACK, Michael. Memória e Identidade Social, Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, p ROLLEMBERG, Denise. Exílio entre Raízes e Radares, Rio de Janeiro, Record, TELEGRAMAS Confidenciais. Série Brasil-Portugal (1975). Arquivo Histórico do Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores, Brasília-DF. THOMPSON, Paul. A voz do Passado: História Oral, Rio de Janeiro, Paz e Terra, TORRES, Adelino. Preâmbulo, In: DÁSKALOS, Sócrates. Um testemunho para a História de Angola do Huambo ao Huambo, Lisboa, Veja, 2000.

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