REPRESENTAÇÕES DO COLONIALISMO PORTUGUES NO CONTO MESTRE TAMODA DE UANHENGA XITU *

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1 REPRESENTAÇÕES DO COLONIALISMO PORTUGUES NO CONTO MESTRE TAMODA DE UANHENGA XITU * Washington Santos Nascimento (USP, FACEQ) ** Resumo: Este trabalho pretende fazer uma discussão sobre as representações do Colonialismo Português e mais propriamente da política de assimilação colonial portuguesa e dos assimilados no conto Mestre Tamoda do escritor angolano Uanhenga Xitu. A partir de uma discussão sobre o conceito de representações sociais, da relação história e literatura pretende-se aprofundar as inferências do contexto social angolano da segunda metade do século XX na obra de Uanhenga Xitu Palavras-chave: Colonialismo, Literatura, Uanhenga Xitu Abstract: This work aims to promote a discussion on representations of Portuguese colonialism and more proper colonial policy of assimilation Portuguese and assimilated in the tale "Master Tamoda" of Angolan writer Uanhenga Xitu. From a discussion of the concept of social representations of relation between history and literature is intended to deepen inferences from the Angolan social context of the second half twentieth century in the work of Uanhenga Xitu. Key-words: Colonialism, Literature,Uanhenga Xitu ** Este trabalho é uma versão modificada do trabalho apresentado ao professor Dr. Benjamin Abdala quando da realização da disciplina Literaturas Comparadas em 2009, na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humana da USP. **** Doutorando em História Social pela USP, Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e Licenciado em História pela UESB. Atualmente é professor da FACEQ.

2 Nascido Agostinho André Mendes de Carvalho em 1924 em Calomboloca, a 100 km de Luanda, Angola, Uanhenga Xitu, seu nome em kimbundo, é uma dos mais importantes políticos e escritores angolanos. Sua formação escolar se deu nas escolas metodistas, tornando-se enfermeiro. Foi preso pela polícia política do governo português em 1959 e permaneceu no campo de concentração do Tarrafal de 1962 a È membro do MPLA desde os primeiros momentos e exerceu cargos importantes na Angola Independente tais como o de Ministro da Saúde. Suas principais obras são Meu Discurso (1974); Mestre Tamoda (1974); Bola Com feitiço (1974); Manana (1974); Vozes na Sanzala Kahitu (1976); Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem (1980);Os Discursos de Mestra Tamoda (1984); O Ministro (1989); Cultos Especiais (1997), (Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem (reedição 2002). Tamoda é sua personagem mais importante, aparecendo em duas obras. Segundo o crítico literário angolano, Luis Kandjimbo (2000); Tamoda, simbolizando, o mimetismo cabotino, é uma personagem típica do mundo que através da exibição de maneirismos expõe à hilaridade o uso da língua portuguesa perante uma audiência de jovens e crianças, transformando-se em modelo, no que diz respeito ao emprego e manipulação de vocabulários portugueses. (KANDJIMBO, 2000, 198) È através dele que o escritor tece criticas a situação colonial principalmente a partir da segunda metade do século XX quando a política de assimilação colonial estava em franco desenvolvimento. Nesse sentido se pretende nesse trabalho através do conto Mestre Tamoda fazer uma discussão sobre as representações sociais da política de assimilação colonial e dos assimilados na obra de Xitu. Nesse sentido tal qual o que propõe Benjamim Abdala Junior ( 2003) a forma literária será entendida em sua historicidade. Procurando situá-la [...] num entrecruzamento

3 problemático entre o cíclico e o linear, onde se disputam impulsos contraditórios e complexos processo históricos. (ABDALA JUNIOR, 2003, 13). Representações Sociais: aproximações conceituais. Representação social é um conceito que no campo da filosofia que significa [...] a reprodução de uma percepção retida na lembrança ou do conteúdo do pensamento. (MINAYO, 1995, 89). Adotada pelas ciências sociais, é definida como [...] categorias que expressam a realidade, explicam-na, justificando-a ou questionando-a. (MINAYO, 1995, 89). Os primeiros teóricos a trabalharem de maneira explícita com o conceito de representação social foram Émile Durkheim (1976) e Marcel Mauss (2003). Preferindo a terminologia Representações Coletivas, Durkheim (1976) diz que existem determinadas categorias de pensamento por meio das quais certas sociedades elaboram e expressam a sua realidade. Seria uma forma de manter o grupo social coeso, bem como suas proposições para o mundo, mediante imagens, normas, ritos, discursos e instituições. Indo ao encontro de Durkheim, Mauss (2003) mostra que a sociedade se exprime simbolicamente em suas instituições e costumes por meio da linguagem, da arte, da magia e das crenças. Assim seria objeto das ciências sociais tanto o fato social total quanto a sua representação, sem, entretanto, reduzir a realidade apenas à percepção que os homens têm a respeito dela. Contemporaneamente, o termo possui vários significados, em decorrência da existência de outras categorias similares, tais como imaginário, imaginação, mentalidades etc. Para Francisco Falcon (2000), as representações são vistas, pelo paradigma moderno, como um discurso produzido pela constatação de uma realidade e, pelo pós-moderno, elas podem ser associadas ao próprio objeto do conhecimento. Para os modernos, a questão se coloca em termos epistemológicos, ou seja, é um conceito por meio do qual se pode analisar um fenômeno social concreto; é também uma categoria inerente ao conhecimento histórico de uma realidade 1. Para os pós-modernos, essa 1 Falcon enumera, entre os autores que se encontrariam nessa tradição iluminista, Baczko, Elias, Bourdieu, Chartier, Ginzburg, etc.

4 categoria mostra a impossibilidade de ter um conhecimento histórico do mundo, ou seja, o real como um objeto não existe, apenas suas representações 2. Tomando posição nesse debate, adotamos a perspectiva moderna do que sejam as representações: elas partem do real, mas não se confundem com ele; constroem-se com base em várias determinações sociais para, em seguida, tornarem-se matrizes de classificação e ordenação do próprio mundo social. Nesse sentido Pierre Bourdieu (2004, 2005, 2007a, 2007b) constitui-se em um referencial válido para entender de que maneira grupos distintos em situações de conflito social representaram a si mesmos, aos outros e as suas práticas culturais. Para Bourdieu, as representações sociais são sempre determinadas pelos interesses dos grupos que as forjam. Assim não seriam discursos neutros, pois tenderiam a impor determinada visão de mundo, que implicaria em condutas e escolhas. A idéia contida nas suas obras contribui para a formulação renovada do estatuto do real não mais entendido como oposto a representações. Segundo ele, era preciso incluir no real as representações do real, pois [...] a representação que os indivíduos e os grupos exibem inevitavelmente através de suas práticas e propriedades faz parte integrante de sua realidade social. (BOURDIEU, 2007, 447). As lutas de classificação 3 teriam tanta importância quanto às lutas econômicas e nelas estaria em disputa [...] o poder de impor uma visão de mundo social através dos princípios de di-visão que, quando se impõe ao conjunto do grupo, realizam o sentido e o consenso sobre o sentido e, em particular, sobre a identidade e a unidade do grupo, que fazem a realidade da unidade e da identidade dos grupos. (BOURDIEU, 2004, 113). Se existe a necessidade de uma luta de classificações é porque há uma fissura grande no meio social, ou seja, ele é complexo, nuançado e ambíguo, o que exige uma representação que dê conta de normatizar aquele universo social, que, de alguma forma, diga: 2 Entre esses Foucault, Veyne, Rorty, Barthes, White, Jenkins etc. 3 [...] lutas pelo monopólio de fazer ver e fazer crer, de dar a conhecer e de fazer reconhecer, de impor a definição legitima das divisões do mundo social e por este meio, de fazer e de desfazer os grupos (BOURDIEU, 2005, 113).

5 é isso e não aquilo. Nesse sentido, essas lutas de classificações imporiam uma identidade grupal única e coesa, ou seja, um outro homogêneo, idealizado que de fato nunca existiu. Outro conceito da obra de Bourdieu que ajuda a compreender o impacto das representações sociais é a idéia de violência simbólica, ou seja, a dominação de um grupo sobre outro por meio de símbolos e de palavras. Segundo ele, essa violência (e o poder engendrado por ela) impõe significações como sendo legítimas, [...] dissimulando as relações de força que estão na base de sua força, acrescenta sua própria força, isto é, propriamente simbólica a essas relações de força. (BOURDIEU, 2007b, 25). Partindo das considerações feitas por Pierre Bourdieu (2004, 2005, 2007a, 2007b ), entende-se que as representações sociais sobre a política de assimilação colonial e dos Assimilados são dados do mundo real, que foram "deslocados" para o campo do simbólico. Dessa forma tais representações não são simples reflexos verdadeiros ou falsos da realidade, mas sim podem ser entendidas como entidades 4, que constroem de maneira dialética as demarcações do mundo social. No campo da história e de sua relação com a literatura destacam-se aqui nesse trabalho as considerações feitas por Roger Chartier (2009, 2002, 1994, 1990). Fortemente influenciado por Bourdieu, Chartier diz que as representações partem do real, mas não se confundem com ele; constroem-se a partir de várias determinações sociais para, em seguida, tornarem-se matrizes de classificação e ordenação do próprio mundo social. Dessa forma o que se propõe fazer nessa pesquisa é uma história social das representações sociais dos assimilados, sejam elas interiorizadas ou objetivadas. Segundo Chartier (2009), As representações não são simples imagens, verdadeiras ou falsas, de uma realidade que lhes seria externa; elas possuem uma energia própria que leva a crer que o mundo ou o passado é, efetivamente, o que dizem que é. Nesse sentido, produzem as brechas que rompem a sociedade e as incorporam nos indivíduos. (CHARTIER, 2009, 51-52). É essa "energia própria" das representações que nos ajuda a entender as relações sociais construídas em Luanda, Angola, entre 1945 e A perspectiva aberta pelas representações dos assimilados permite questionar a existência de um recorte 4 CHARTIER, R. A história cultural: Entre Práticas e Representações. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

6 fundamentalmente dualista entre dominantes e dominados em Luanda. Entretanto não pretende-se negar a existência desse recorte, mas mostrar a complexidade da questão 5. Embora as representações sobre os assimilados construídas a partir do Estado Colonial Português e do Estado Nacional Angolano, aspirassem à universalidade, eram sempre determinadas pelos interesses dos grupos situados de maneira heterogênea na estrutura social, daí a existência das "lutas de representação", entre os Estados (Português e Angolano) e os portugueses, indígenas, assimilados e angolanos. Dessa forma a ênfase maior nessa pesquisa são as lutas de representações, visíveis principalmente nas memórias de escritores e moradores de Luanda. Sobre as lutas de representações, Chartier (1988) diz que; As lutas de representações tem tanta importância como às lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio. Ocupar-se dos conflitos de classificações ou de delimitações não é, portanto, afastar-se do social [...] muito pelo contrário, consiste em localizar os pontos de afrontamento tanto mais decisivos quanto menos imediatamente materiais (CHARTIER, 1988, 17) Essa luta de representações mais do que algo subjetivo, envolve a construção de relações sociais e remete a propriedades sociais objetivas, exteriores a própria representação, que delimita os diferentes grupos que constituem um determinado universo social. Acredita-se que uma análise profunda das representações sociais dos assimilados e de suas transformações ou mesmo substituições, ao longo do tempo, em Luanda, servirá para uma inferência das diferentes motivações envolvidas nos processos decisórios que orientaram as ações individuais dos assimilados e coletivas da sociedade existente em Luanda na segunda metade do século XX. O Colonialismo Português: A política de assimilação colonial e os assimilados na literatura angolana. Situado no sudoeste da África, Angola é um país que tem sua história ligada ao Brasil, para onde foram enviados grande contingentes populacionais durante o período do 5 François Dosse (2003) de que sair do esquema do reflexo de dominações não deve fazer esquecer que o poder de produzir, o poder de impor e de nomear as representações é desigualmente repartido, o que implica ligar os fenômenos de apropriação ás praticas (DOSSE, 2003, 272).

7 tráfico de escravos e a Portugal, que o colonizou desde o século XV, mas com uma ênfase maior nos séculos XIX e XX, principalmente depois da independência do Brasil 6. Os últimos anos da monarquia portuguesa e o inicio da primeira republica ( ) foram marcados pelo esforço de obter o controle efetivo sobre as possessões africanas reinvidicadas, mas a crise da economia colonial no inicio do século XX, o crescimento do descontentamento de setores econômicos importantes da vida portuguesa como o têxtil e o vinícola, levaram a queda da 1ª Republica e o golpe militar de 28 de maio de Esse golpe marcou o inicio de um processo que culminaria na instituição do Estado Novo na década de 1930 com a instalação de Antonio de Oliveira Salazar no poder. Fernando Rosas (1987) diz que esse regime é marcado por um [...] compromisso ideológico e político de raiz autoritária, antiliberal e antidemocrática, e onde coexistem contraditoriamente os elementos de desenvolvimento e os de estagnação no plano econômico (ROSAS, p. 107). Em relação às colônias esse autoritarismo é traduzido no cerceamento das autonomias dos territórios coloniais no domínio financeiro e na substituição dos altos comissários por governadores locais sem poder de decisão 8. Em decorrência das pressões de setores econômicos interessados no ultramar e que de certa forma foram atingidos pela desorganização das relações imperiais, a questão colonial assume um peso, anteriormente nunca visto na vida política portuguesa. Para conferir uma maior consistência ao aparelho do Estado Ditatorial e promover uma eficácia maior a sua ação foram promulgados um conjunto de leis. Esses códigos e regulamentos visavam, dentre outras questões, criar uma identidade subordinada para o outro o indígena como um não cidadão e, ao mesmo tempo, traçar fronteiras identitárias entre a grande massa de africanos que seria enquadrado nesta categoria e os poucos africanos que dela estariam isentos, os assimilados. 6 Segundo Valentim Alexandre (2000) após a independência do Brasil era [...] corrente entre as elites portuguesa\s a tese de que o país não poderia sobreviver sem um império caso em que seria inevitável a sua absorção pela vizinha Espanha. Para o evitar, devia criar-se de imediato um novo Brasil, agora em África ver ALEXANDRE, Valentim. Velho Brasil/Novas Áfricas - Portugal e o Império ( ). Porto: Ed. Afrontamento, 2000, p Ver ALEXANDRE, Valentim. Ideologia, economia e política: a questão colonial na implantação do Estado Novo In: Análise Social, XXVIII, , 1993, pp Ver ALEXANDRE, Valentim. Portugal em África ( ): Uma perspectiva Global In Revista Penélope, nº11, Lisboa, 1993, pp.53-66

8 O indígena é um termo que provem do latim e que refere-se aquilo que é natural de um lugar ou país que habita 9. Em Angola se referia a todos os nativos (independentes de serem crioulos, ouvimbundos, mbundos, bacongos...), mais de 90% da população, que estava passível de uma legislação especifica do estado português. Já a figura do assimilado já existia antes mesmo do Estado Novo e se reportava a aqueles povos e/ou grupos étnicos que se assimilavam de bom grado o universo cultural europeu 10. O que o colonialismo português fez durante o governo de Salazar fez foi imputar-lhe uma implicação jurídica, ou seja, o [...] assimilado corresponde, no colonialismo português, a um estatuto jurídico com pretensões de legislar sobre os fenômenos culturais (BITTENCOURT, 1999, p.95). Em Angola com o golpe militar de 28 de maio de 1926 se estabeleceu, definitivamente e com uma profundidade anteriormente não vista, uma divisão hierárquica da população, de um lado uma pequena quantidade de brancos, mestiços e negros assimilados, e de outro, grande número de indígenas 11. O colonialismo português durante o governo de Salazar fez da assimilação colonial uma política de estado, principalmente depois da promulgação do Estatuto Político, Civil e Criminal de Angola e Moçambique (O Estatuto do Indigienato). Publicado em 1926 e em vigor até o ano de Sobre os assimilados trata-se de uma construção jurídica do colonialismo português 13. Era um status social, legalmente instituído, concedido a todos aqueles nascidos nas colônias que cumprissem determinadas obrigações instituídas em linhas gerais pelo 9 Ver NORÉ, Alfredo & ADÃO, Áurea. O ensino colonial destinado aos "indígenas" de Angola. Antecedentes do ensino rudimentar instituído pelo Estado Novo In; Revista Lusófona de Educação, Universidade Lusófona de Humanidades e tecnologias, Portugal, 2003, p Eugenia Rodrigues (2000) diz que desde o 1913, já havia em Angola uma definição legal para os considerados assimilados. Ver RODRIGUES, Eugenia. As associações de nativos em Angola - o lazer militante em prol dos angolanos. In; Estudos Afro-Asiáticos (Rio de Janeiro), nº 37, 2000, pp Ver HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. 2ª. ed. São Paulo: Grupo Summus - Selo Negro Editora, 2008, p Quatro anos depois é também instituído por Salazar, então ministro das Colônias, o Ato Colonial. O Ato Colonial de 1930 define um quadro jurídico-institucional geral de uma nova política para os territórios sob dominação portuguesa. José Cabaço (2002) define-o como sendo o documento orgânico do colonialismo português. Ver CABAÇO, José Luís: Políticas de identidade no Moçambique colonial In MAGGIE, Yvone & Rezende, Claudia Barcelos (org.). Raça como retórica. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, A Idéia de construção Jurídica é tomada de BITTENCOURT, Marcelo. Dos Jornais às Armas. Trajectórias da Contestação Angolana. 1. ed. Lisboa: Vega, v p

9 Estatuto Político, Civil e Criminal de Angola e Moçambique (O Estatuto do Indigienato), publicado em 1926 e em vigor até o ano de De maneira específica o Regulamento do recenseamento e cobrança do imposto indígena, promulgado em 1938, definia as condições pelas quais os indígenas deveriam se submeter para se tornar cidadão, isto é, um assimilado 14. Para tanto o pleiteante deveria, [...] ter abandonado inteiramente os usos e costumes da raça negra, falar, ler e escrever corretamente a língua portuguesa, adaptar a monogamia 15 e por fim [...] exercer profissão, arte ou oficio compatível com civilização européia, ou ter rendimentos, que sejam suficientes para prover aos seus alimentos, compreendendo sustento, habitação e vestuário, para si e sua família 16. Após conseguir provar que era um assimilado seria conferido, pelos administradores de Conselho ou Circunscrições, uma certidão de identidade, instrumento indispensável para que eles pudessem conseguir determinados tipos de trabalhos, principalmente na administração pública, bem como obter a carteira de motorista, aumentando assim sua possibilidade de ascender socialmente. Eles tinham que pagar mais impostos do que os indígenas, mas podiam ocupar baixos cargos na administração colonial e eram dispensados do trabalho voluntário, extensível e compulsório a todos os indígenas. Podiam acessar tribunais regulares e ao menos em tese tinham direitos iguais aos dos europeus. Mas mesmo assim continuavam a ser tratados como [...] cidadãos de segunda classe, alvos de preconceito racial, econômico e social" (HERNANDEZ, 2008, p. 515). Segundo Gerald Bender (1980) em Luanda quase todos sofriam cotidianamente manifestações de discriminação racial O termo Indígena, segundo Alfredo Noré e Áurea Adão (2003), provem do latim e refere-se aquile que é natural de um lugar ou país que habita. Em Angola se referia a todos os nativos (independentes de serem crioulos, ovimbundos, mbundos, bacongos...), mais de 90% da população, que estava passível de uma legislação especifica do estado português. 15 Relatório da Conferencia dos Governadores da província de Angola Maio/1938. Luanda: Conselho de Governadores, Apenso no 1 (AHU, Sala 3, maço Doc. Datilografado). In: NORÉ, Alfredo & ADÃO, Áurea. O ensino colonial destinado aos "indígenas" de Angola. Antecedentes do ensino rudimentar instituído pelo Estado Novo In; Revista Lusófona de Educação, Universidade Lusófona de Humanidades e tecnologias, Portugal, 2003, 1, Idem 17 Segundo Bender (1980) e Hernandez (2008), eles contavam com representações no Conselho-Geral (ou Conselho do Governador) alem de terem um representante parlamentar na Assembléia Nacional e também conservavam determinados usos e costumes trazidos de sua história e trajetória pessoal. Alem disso tinham um tipo de educação diferenciada em relação aos indígenas, em que era similar aos dos europeus, enquanto que para os indígenas eram um ensino profissionalizante.

10 Para José Honório Rodrigues (1982) tudo isso levou a que a assimilação fosse considerada uma política falida. Em 1940, havia em Angola cerca de assimilados num total de habitantes, ou seja, menos de 1% da população angolana 18. Segundo Adriano Moreira (1956) as razões para esse baixo índice se davam porque os indígenas não desejavam perder [...] as vantagens da assistência oficial e de manter a isenção de alguns dos mais pesados encargos dos cidadãos, designadamente em matéria fiscal e militar. (MOREIRA, 1963, p.44). Outra razão eram as dificuldades encontradas para o acesso a educação formal, Ilídio do Amaral (1960) diz que em 1952 apenas 37 alunos de todas as raças tinham completado os estudos em Angola. Se a questão é complexa, e havia uma má vontade do Estado Português em conceder o Estatuto do Assimilado, a assimilação era muito mais retórica do que real, mas o fato é que alguns conseguiram. E como diz José Maria Nunes Pereira (2001) Ser indígena ou assimilado determinava muito da vida do africano (PEREIRA, 2001, p.5), ou seja, se ser um assimilado significava ter uma cidadania de segunda, ser indígena significava não ter cidadania alguma, esse era submetido ao trabalho forçado, não tinha direito a propriedade privada e tinha reduzidas possibilidades de acessão social. Para Mourão (2006) Embora os assimilados tenham atingido uma minoria, face ás dificuldades legais e administrativas para se obter essa qualificação, o seu estatuto consistiase numa ampla expectativa de mudança (MOURÃO, 2006, p.241). O que fazia com que o estatuto da assimilação fosse procurado, pois ser assimilado representava pertencer a uma classe média, fazendo parte do pequeno e médio funcionalismo, ter acesso á educação formal e em linhas gerais, representava a possibilidade de ter um futuro diferenciado daquele que era comum para a maioria da população 19. Após a independência de Angola os assimilados foram utilizados como parâmetros de um comportamento não desejado. Kelly Araújo (2005) diz que "Para o poder instituído, Angola já não mais comportava um homem 'reacionário', entendido aqui como tendo enraizadas as suas particularidades étnico-culturais ou regionais, nem ser um 'assimilado', produto da política colonial. (ARAÙJO, 2005, p. 80). O que se esperava era a construção de 18 Nesse ritmo, segundo Rodrigues (1980), seriam necessários anos para que Portugal enfim pudesses cumprir a sua missão civilizadora. 19 Ver Mourão, Fernando Augusto Albuquerque. Continuidades e descontinuidades de um processo colonial através de uma leitura de Luanda. São Paulo: terceira margem, 2006.

11 um homem novo, adequado aos princípios marxistas-leninistas de disciplina, trabalho e eficiência, por meio do qual se esperava construir a unidade nacional. A política de assimilação colonial, assimilados e o universo literário angolano Diferentes escritores foram ou conviveram com os assimilados e a política de assimilação colonial. Veja o depoimento do ex-assimilado, o escritor angolano, nascido na província de Benguela, Raul David. Diz ele Eu fui assimilado. O assimilado teve vantagens e desvantagens. Voulhe contar quais eram as vantagens dos assimilados. A vantagem era poder ir ao cinema onde estavam brancos quando eles aceitavam viajar numa carruagem de 2ª classe, com os brancos, estar no mesmo restaurante, mas isso era tudo fictício, num certo ponto... Porque havia restaurantes de luxo onde o assimilado não entrava por incapacidade financeira e até pelo esnobismo dos freqüentadores desses lugares. Mas vamos por de parte isso (DAVID In LABAN, 1991, 54) Ser assimilado era poder ir ao cinema, mas se os brancos deixassem. Em outros lugares, como nos restaurantes, em que os brancos deixavam, era a incapacidade financeira que impediam os assimilados de entrarem. Em outro trecho, David, revela as contradições e complexidades de ser um assimilado. assimilados: A desvantagem do assimilado consiste no logro social. Por quê? Porque o assimilado, tendo a mesma instrução que o seu colega europeu, nunca ascendia a lugares de mando era sempre subalterno. E então nunca tinha dificilmente tinha poder econômico, enquanto que o indígena, que tinha a sua lavra, que tinha a sua propriedade, que tinha o seu gado, vivia economicamente desafogado (DAVID In LABAN, 1991, 54-55) Por fim ele mostra todo o jogo existente entre o poder colonial e os Isso foi um jogo... Foi preciso nós compreendermos... Foi daí que veio o nosso ardor de luta. Porque, depois, eles começaram a meter-nos o papão: Olhem que vocês estão mal conosco... Ficarão muito pior se nós não ficarmos cá... Então nós dissemos: Isto é conosco, é entre nós, não é nenhum estranho... (DAVID In LABAN, 1991, 55)

12 O escritor Boaventura Cardoso, nascido em Luanda, Angola é outro exassimilado, as representações sobre o que era ser uma assimilado também aparece em suas memórias; [...] eu quando andava na escola, por essa altura, no ensino secundário, já contestava o ensino que era ministrado aos angolanos, pelo conteúdo das próprias disciplinas. Era evidente que o sistema pretendia fazer de nós, nessa altura, bons portugueses. Eu tinha plena consciência disso. Toda a vivencia que eu tive, particularmente na escola, foi encaminhado no sentido da formação de um homem assimilado, da assimilação dos hábitos e costumes europeus, da transformação das mentalidades. Tudo isso deu-me uma consciência do fenômeno da assimilação. (CARDOSO In LABAN, 1991, 833). Como se vê o debate sobre a politica de assimilação colonial e sobre os assimilados era algo constante entre os escritores angolanos. Afinal eles eram os maiores interlocutores do povo. Representações da Política de assimilação colonial e dos assimilados no conto Mestre Tamoda de Uanhenga Xitu Agostinho André Mendes de Carvalho, doravante chamado de Uanhenga, pode ser entendido como um intelectual, que segundo Edward Said (2002) é capaz de representar, dar corpo a uma determinada mensagem, ou mesmo atitude, filosofia... para um determinado publico e mesmo por esse publico. Ele torna a voz desse publico. Assim Xitu é a voz dos angolanos na luta contra o colonialismo português. Como intelectual, Xitu, escreve, depois de muita reflexão, acredita no que fala e quer convencer seus pares de que o que defende é o ideal, daí existir uma mistura entre o universo privado e publico dele. Em sua obra literária sua vida se mistura a de suas personagens. È também um pertubardor da ordem social. Segundo Said (2002) No fundo, o intelectual, no sentido que dou á palavra, não é nem um pacificador nem um criador de consensos, mas alguém que empenha todo o ser no senso crítico, na recusa em aceitar formulas fáceis ou clichês prontos, ou confirmações afáveis, sempre tão conciliadoras sobre o que os poderosos ou convencionais tem a dizer e sobre o que fazem. Não apenas relutando de modo passivo, mas desejando ativamente dizer isso em público. (SAID, 2002, 35-36)

13 Em se tratando de um contexto de resistência ao colonialismo português, podemos compreender Xitu enquanto um intelectual fortemente engajado em uma causa que não era só sua, mas também do povo angolano. Em se tratando de um escritor, vale a pena lembrar Benjamim Abdala Junior (2007), ele diz que; Quando o escritor escreve, pode julgar que o texto é apenas seu, não tendo consciência de que na verdade é a sociedade que se inscreve através dele. Na sua escrita está uma confluência de práxis coletivas, desde a específica da série literária até ás outras, relativas á sua atividade noutros campos sêmicos do trabalho social. O escritor engajado procura ter consciência dessa inserção social. (ABDALA JUNIOR, 2007, 45) Engajado que eram, em diferentes obras trata da questão da política de assimilação colonial, bem como dos assimilados. Em seu romance Manana de 1974, é possível perceber um critica a assimilação colonial através de uma personagem, Filito. Ele era um assimilado, que estudara no Liceu, mas por ter demonstrado vocação para carpinteiro e contra a vontade de seus pais, inicia o seu oficio com seu tio Chico. Em determinado momento da obra, através de Tio Chico. Uahenga diz o que pensa sobre os assimilados, Aprende ofício, sobrinho! Este é arte. Não deixa pessoa pedir esmola. Teu pai anda aí com mania de liceu, ianhi? 4ª classe, chega bem. Depois aprende arte. Uma data de gente que anda aí com liceu, mas com mania de funcionário, são calutêiros. Não pagam as obras que a gente faz. Alguns matam as famílias com fome. A vida deles é só ter sapato engraxado e camisa limpo. Mas em casa só comem farinha com açúcar. (XITU, 1978, p. 28) Entretanto é no conto Mestre Tamoda que Xitu faz uma abordagem mais profunda da situação colonial. Escrita em 1974 o conto mestre Tamoda conta a história de Tamoda. Esse muito novo fora morra na capital Luanda, onde vivera muito anos. Lá trabalhava e estudava nas horas vagas com os filhos dos patrões e dos criados. Assim, conseguiu aprender a fazer um bilhete e uma cartinha que se compreendia (XITU, 1974, p. 9).

14 Homem abandonara Luana e voltara para o interior, à região rural onde nascera.trazendo da cidade algum recurso pagava alguém para fazer o trabalho obrigatório imposto pelo governo português. Tendo então uma certa liberdade exibia então seus dotes intelectuais por entre seus pares. Passou então a ensinar o português de Tamoda, que utilizava palavras do quimbundo angolano. Aqui uma cisão entre duas concepções diferentes de português, por mais que fosse o português ele fora instrumentalizado pela personagem Tamoda ( e pelo povo angolano) como forma de resistência ao colonialismo português e a língua formal. Através da personagem Tamoda, Xitu evidencia a linguagem como forma de libertação do povo angolano. No português de Tamoda dicionário era o ndunda. Para outras palavras do português também eram feitas modificações no quimbundo. Nessa transição eventualmente algumas palavras não caiam bem. Ao dizer que o muchacho era muchachada, na língua local soava como muxaxala que em quimbundo, significa sulco nadegueiro ou via retal. O que vai gerar uma certa fúria dos angolanos locais ao ouvirem seus filhos pronunciarem essa nova palavra. Mas a fúria maior vinha da professora que ensinava o português formal de Portugal. Utilizando-se de castigos físicos para que seus alunos se esquecesse do português de Tamoda e se concentrassem na verdadeira língua. Na professora se vê a dominação do colonizador, que desconsiderava qualquer diferença regional no que se refere aqui, a linguagem. No conto se vê que Tamoda mesmo não sendo um assimilado legalmente, se portava como se assim fosse, chamado de mestre do português novo, fora denunciado como mandrião e por não portar documentos de assimilado, o que lhe facultaria a possibilidade de seu efetivamente um mestre, fora chamado ao Conselho Municipal para prestar esclarecimentos. Ao chegar na Administração do Conselho, para mostrar que de fato era um assimilado, e que portanto poderia lecionar, bem como não ser obrigado ao trabalho compulsório, houve a seguinte fala dos cipaios, angolanos negros, que estavam protegendo o palácio;

15 Estes rapazes, quando saem na cidade, pensa já não é pessoa da terra cochichou um dos cipaios para os outros. Mas o gajo pôe puto tudo de dicionário. Deve ser funcionário. -Quem?! Aka mukuá tuhaa maié!... Kingilé, o jiboto ojo nhi capacet oko tuondo musumbe eko um makoka... [alguns são pilintras, uns zes-ninguéns... espere, não tarda muito que fique sem esses sapatos e o capacete a troca por mandioca] (XITU, 1974, 29) Ser assimilado era poder ascender postos na administração colonial, mas os ganhos eram ínfimos, fazendo com que, segundo Xitu, eles trocassem os seus sapatos e capacetes por comida, a mandioca. Outra questão importante é que esse escritor ao fazer a critica aos assimilados, faz na língua local e não no Português, mostrando dessa forma de que lado estava. Em outro trecho do conto, Tomoda, diz porque não conseguira convencer a autoridade colonial de que era um assimilado. Diz ele que; Na primeira pergunta, ele não sabia que quer dizer coaptidão. Depois falei os livros das leis (vuua Tamoda ouviu-se esta expressão no meio da multidão). Quando lhe falei nos códigos [de leis] é que ele ficou empavidamente sorumbático (XITU, 1974, p.41) Aqui Xitu critica o fato de que nem mesmo os portugueses de Portugal não falavam o português que eles imaginavam que os assimilados deveriam falar. Nesse sentido vale á pena lembrar Amilcar Cabral (1978) que disse que se a política de assimilação colonial fosse aplicada em Portugal apenas uma pequena parcela deles poderiam conseguir o estatuto de assimilado. Considerações finais O que se vê no texto de Uanhenga é um texto descolonizado que, embora vinculado a uma cultura dominada, subverte e torna-se um instrumento de luta contra o colonialismo. Segundo Salviano Santiago [...] acaba por ser mais rico (não do ponto de vista de uma economia interna da obra) por conter em si uma representação do texto dominante e uma resposta a esta representação no próprio nível de fabulação, resposta esta que passa a ser um padrão de aferição cultural da universalidade tão eficaz quanto os já conhecidos e catalogados. (SANTIAGO apud ABDALA JR (2003), 1982, p.23).

16 Em Uanhenga se vê um intelectual que não se afasta do mundo real. Ele tem domínio do contexto que o cerca, tem horizontes de um novo mundo a ser construído, comunga do principio esperança de que fala Ernst Bloch (2005) enquanto um sonho diurno, desperto de que dias melhores virão. Referências Bibliográficas ABDALA JR, Benjamin. De vôos e ilhas literatura e comunitarismos. Cotia: Ateliê, Literatura, história e política: Literaturas de língua portuguesa no século XX. Cotia (SP): Ateliê Editorial, ALEXANDRE, Valentim. Velho Brasil/Novas Áfricas - Portugal e o Império ( ). Porto: Ed. Afrontamento, 2000, p Ideologia, economia e política: a questão colonial na implantação do Estado Novo In: Análise Social, XXVIII, , 1993, pp ARAÙJO, Kelly Cristina Oliveira de Araujo. Um só povo, uma só nação": O discurso do estado ára a construção do homem novo em Angola ( ), Dissertação de Mestrado, FFLCH-USP, BARTHES, Roland. O Grau Zero da Escrita. SP: Edições 70. BENDER, Gerald J. Angola: mito y realidad de su colonización. México, Siglo XXI, 1980 BLOCH Ernst. O princípio Esperança I. Rio de Janeiro. Contraponto (prefácio) BITTENCOURT, Marcelo. Dos Jornais às Armas. Trajectórias da Contestação Angolana. 1. ed. Lisboa: Vega, v p Bender (1980) BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento, Porto Alegre: Editora Zouk, 2007b. O poder simbólico. Lisboa: Difel, A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2004.

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18 MINAYO, M. C. S. de (1995). O conceito de representações sociais dentro da sociologia clássica. In P. Guareschi & S. Jovchelovitch (Orgs). Textos em representações sociais. (2nd ed., pp ). Petrópolis, RJ: Vozes MOURÃO, Fernando Augusto Albuquerque. Continuidades e descontinuidades de um processo colonial através de uma leitura de Luanda. São Paulo: terceira margem, NORÉ, Alfredo & ADÃO, Áurea. O ensino colonial destinado aos "indígenas" de Angola. Antecedentes do ensino rudimentar instituído pelo Estado Novo In; Revista Lusófona de Educação, Universidade Lusófona de Humanidades e tecnologias, Portugal, 2003, p.102. PADILHA, Laura. Entre voz e letra. O lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX. 2. ed. Niterói / Rio de Janeiro: EdUFF / Pallas, v p. PEREIRA, José Maria Nunes. Mario P. de Andrade e o Luso Tropicalismo. In: BELLUCCI Beluce. (Org.). Congresso ALADAA. Ásia e África face a Globalização. Rio de Janeiro: UCAM, 2001, v., p RODRIGUES, Eugenia. As associações de nativos em Angola - o lazer militante em prol dos angolanos. In; Estudos Afro-Asiáticos (Rio de Janeiro), nº 37, 2000, pp Rodrigues (1980) XITU, Uanhenga. Mestre Tamoda e outros contos Lisboa : Edições 70, p. Manana. Lisboa : Edições 70, 1974.

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