Palavras-chave: Televisão digital, Telejornalismo, Internet. Introdução

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1 1 Convergência Midiática: A TV e os telejornais se encontram na internet Antonio C. Brasil 1 Professor do Departamento de Jornalismo - UFSC Resumo: A convergência midiática completa já permite a inclusão do meio televisivo e seu segmento noticioso, o telejornalismo na Internet. Este trabalho analisa e discute os modelos e alternativas para esse processo de convergência da televisão e dos telejornais para os meios digitais. O autor procura fazer um breve relato da história dessa experiência que tenta inovar ojornalismo e o ensino de jornalismo multimídia. Espera-se que este trabalho possa contribuir para criar outras experiências no gênero. Afinal, a TV na internet pode oferecer uma oportunidade para desenvolver um telejornalismo mais crítico, inventivo e mais contextualizado, marcado pela diversidade.a nossa hipótese é que o acesso às novas tecnologias e experiências laboratoriais como a TV UERJ online, a primeira TV universitária brasileira na Internet, também oferecem oportunidades para o desenvolvimento de novas linguagens multimidiáticas, cria novas formas de recepção participativa e aprimora o ensino de Telejornalismo no Brasil. Palavras-chave: Televisão digital, Telejornalismo, Internet. Introdução Television on the Internet is not just television anymore John Pavlik Eventually, Television will fit on the Internet which doesn t necessarily mean it will end up there Bruce Owen Apesar de ainda serem meios hegemônicos, tanto a televisão como o seu segmento noticioso, o telejornalismo, enfrentam uma de suas maiores crises 2. Após mais de 50 anos de grandes realizações, o velho modelo de produção televisivo apresenta sinais evidentes de desgaste, se tornou repetitivo, pouco criativo e enfrenta a competição crescente das novas tecnologias. Em tempos de revolução digital, a audiência do meio e, principalmente, dos telejornais, envelhece, está cada vez mais reduzida, insatisfeita e busca alternativas. Pesquisas recentes divulgadas nos EUA indicam a migração do publico televisivo para a Internet e o desinteresse do publico pelo jornalismo. Os meios tradicionais têm sentido o impacto de duas distintas e poderosas tendências. O jornalismo na Internet atrai segmentos significativos do publico. 1 Jornalista, professor de jornalismo da UFSC e crítico de televisão e novas mídias. Foi Professor Visitante na Rutgers, The State University of New Jersey, EUA, fez mestrado em Antropologia Social pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ, pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University e em Antropologia Social no PPGAS do Museu Nacional da UFRJ. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica", A Revolução das Imagens e Antimanual de Jornalismo. 2 HARGREAVES (2003), p.78

2 2 Enquanto a televisão ainda é o meio dominante em termos de tempo despedido pelos espectadores com uma media diária de minutos, o computador desponta como o segundo mais importante meio comunicacional com cerca de 120 minutos diários. Segundo Umberto Eco, A televisão atual, não tem mais do que dez anos de vida. Ela se converterá em um simples meio de seleção de informação e que por isso, deve aumentar consideravelmente a responsabilidade do usuário, do espectador que precisará de novas técnicas para selecionar os conteúdos oferecidos pelos novos meios. 3 O pesquisador espanhol, Javier Perez de Silva também confirma essa tendência em seu livro, La television ha muerto La nueva produccion audiovisual en la era de Internet. Ele alerta sobre o futuro: Las cadenas de tv: renovarse o morir. Estamos diante de novas formas de assistir e fazer uma televisão digital. Segundo Silva, La TV del futuro no estará centrada en la imagen, sino que sera um soporte hipermedia, centrada em el concepto de portal de televisión. 4 Para o autor, a palavra chave para essa nova televisão é elegância. Sem duvida, uma bela palavra. Porem o seu verdadeiro significado tem sido prostituído através dos tempos. Elegância provem do verbo eleger. Ou seja, elegante é alguém que escolhe bem, principio essencial para uma audiência menos preguiçosa e mais participativa. Mas todas as mudanças enfrentam resistências. Temer o futuro e se contrapor as mudanças são uma tendência histórica. Principalmente em um meio tão conservador como a TV ou o telejornalismo. John Pavlik renomado pesquisador de novas tecnologias da Rutgers University nos alerta sobre a resistência a qualquer tipo de mudança na produção televisiva e nos telejornais: Numa atividade tão conservadora como o telejornalismo essa resistência não é um privilegio de um país como o Brasil. Nos EUA, as propostas de renovação sempre enfrentam criticas pessimistas e enormes obstáculos. Mudar implica riscos. 5 Em relação ao meio televisivo, não conseguimos sequer obter um consenso sobre questões básicas como o próprio conceito de qualidade. Para Machado, Numa sociedade heterogênea e complexa, em que não existe felizmente nenhum consenso sobre a natureza do meio, sobre seu papel na sociedade e sobre o modo como 3 Eco apud Silva, J. (2000), p Ibid, p Pavlik, (2005) p. 3.

3 news. 7 Pesquisas e transgressões 3 devem interagir produtores e receptores, uma televisão de qualidade deve ser capaz de equacionar uma variedade muito grande de valores e oferecer propostas que sintetizem o maior número possível de qualidades. 6 Apesar das discordâncias e da falta de consenso, ainda vemos o mundo pela TV. Para Vizeu, Os noticiários televisivos ao apresentarem as noticias diariamente de uma forma sistematizada e hierarquizada constituem-se em um referente importante na construção desse mundo do cotidiano *. Estudos recentes conduzidos pela OFCOM, instituição independente britânica que pesquisa e regulamenta as telecomunicações, nos advertem sobre o futuro. a TV e os telejornais enfrentam desafios e ameaças em relação ao futuro e aos hábitos dos seus espectadores mais jovens: TV viewers losing interest in É neste cenário de mudanças e quebras de paradigmas que desenvolvemos nossas pesquisas teóricas e empíricas sobre a migração da TV e dos telejornais desde Já naquela época, resolvemos testar conceitos e novas formas de narrativas comunicacionais ao lançarmos o telejornal e a TV UERJ online, a primeira televisão universitária brasileira na Internet 8. O presente estudo é resultado de quase três anos de pesquisa de pós-doutorado na Rutgers University, EUA sobre o estado da arte da TV e dos telejornais na Internet. 9 Tem com objetivo principal analisar as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias para a prática e para o ensino de jornalismo. Cometemos a ousadia ou a heresia de tentar investigar o futuro. Para tal, em um estudo multidisciplinar, ao invés de concentrarmos em revisão bibliográfica, privilegiamos as técnicas de pesquisa etnográficas e observacionais participativas próprias ao campo da Antropologia. O objetivo é valorizar a obtenção de dados primários, comprovar teorias, analisar e experimentar novos conteúdos voltados para a implantação de projetos televisivos na Internet. Mas essa pesquisa também é o produto de mais de 30 anos de experiência profissional com o meio televisivo, o telejornalismo e com o universo acadêmico. Nossas propostas estão voltadas para um futuro possível. Alem de discutirmos teorias 6 Machado, 2000, p Ver Nogueira, Leila, Quebrando o espelho: uma analise comparativa do jornalismo nas TVs UOL e UERJ online, FACOM/UFBA, Brasil, A., University IPTV: a new approach to multimedia online journalism and education, research report, AEJMC, 2005.

4 4 criticas, buscamos analisar algumas tendências e desafios para o meio televisivo na era digital. Nossas conclusões são resultados de muitos anos desenvolvendo novas linguagens narrativas e ferramentas de ensino para a prática do telejornalismo. Segundo o Professor John Pavlik, o ensino de jornalismo ainda se baseia em modelos do final do século XIX e a maioria dos currículos das escolas de jornalismo segue as linhas tecnológicas do século XX. O problema é que já estamos no século XXI. A crise no ensino de jornalismo se torna inevitável. 10 TVs na Internet ou WebTVs WebTV significa TV na Internet. Trata-se de uma tecnologia que vem sendo desenvolvida há cerca de 10 anos e visa viabilizar a transmissão de conteúdo televisivo via Internet. Segundo dados recentes, o serviço de WebTVs tem aproximadamente 1,5 milhão de assinantes em diversos países, o que lhe confere uma penetração em torno de 1,5% no universo de usuários de acesso DSL, em banda larga. As estatísticas contabilizam um crescimento de 40% na base de assinantes ao longo dos primeiros seis meses do ano. O mesmo estudo projeta para 2006 um crescimento expressivo da oferta do serviço de WebTVs no mundo. Para efeitos de classificação, os provedores de WebTVs podem ser divididos em seis categorias: Principais redes de TV Estações de TV locais Grandes empresas de produção cinematográfica Conglomerados de mídia Empresas licenciadoras de tecnologia para vídeo na Internet Produtores independentes de vídeo e animação 11 Nesse cenário, observamos o crescimento da convergência da TV com a Internet e o surgimento de diversos tipos de plataformas e interfaces, com finalidades que vão desde o entretenimento até a comunicação e informação. A maior vantagem está relacionada com a independência espaço-temporal que estas soluções permitirão. A capacidade de interatividade pela junção da Internet à Televisão pressupõe que o utilizador terá interesse em interagir com o meio e um maior 10 Pavlik (2001), p Ibid. p.87.

5 5 grau de liberdade. [...] Outra vantagem está relacionada com a facilidade e democratização que a utilização da Internet pode trazer a participação publica. 12 A migração da TV e dos telejornais para a Internet se assemelha a própria implantação da TV no Brasil. No caso especifico da televisão, o meio mais abrangente e popular a convergência digital fez surgir formas alternativas de transmissão de notícias. Neste sentido a pesquisa destaca e revisa as primeiras experiências de telejornalismo na Internet. Os primeiros a ingressar no novo mercado no Brasil foram os provedores Terra e UOL. Na área acadêmica esse tipo de produção também ganhou destaque, com os telejornais produzidos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. 13 Nestes projetos experimentais, a grande inovação não é de caráter formal. Em um primeiro momento de implantação das televisões na Internet, o acesso à linguagem convencional do telejornalismo simplesmente deixa de ser um privilegio restrito a alguns segmentos da sociedade. O objetivo principal é ter acesso a prática dos telejornais para num segundo momento das pesquisas, experimentar novas linguagens narrativas com a recepção e avaliação por parte do publico externo. Quando disponibilizada em um novo meio como a Internet ou mesmo em um ultrapassado sistema de circuito-fechado de uma universidade ou condomínio, a linguagem do telejornalismo torna-se uma arma informacional poderosa. Possibilita a captação e transmissão de eventos até então considerados inapropriados para os meios de comunicação massivos tradicionais como a televisão. Para a educação, os sistemas de IPTV oferecem oportunidades inusitadas. Segundo pesquisas recentes na área educacional divulgadas por Noam: A Internet é o parceiro natural e ideal para os serviços comunicacionais públicos voltados para a educação.. 14 As novas características do sistema de Web TVs também aumentam o público potencial de acesso à Internet e, conseqüentemente, o mercado potencial de educação a distância via internet pela TV Digital. Boa parte da população que sofre de "exclusão digital" pode passar a usufruir dos serviços que a rede propicia, incluindo educação a distância, com uso desta tecnologia. 12 FERRAZ e BRANCO (1999) p MELLO (2002), p NOAM (2004), p.68.

6 6 Para Nilson Lage, idealizador de projeto pioneiro no setor, um dos principais problemas para o acesso de boa parte da população a recursos de ensino distancia (EAD) é a dificuldade de acesso ao canal de comunicação, que implica em ter um equipamento de uso bastante restrito se comparado ao uso que fazemos de uma TV. Com a ampliação prevista, ad infinitum, do numero de canais de áudio e vídeo (via cabo, TV digital, Internet de banda larga ou Internet 2), surge a possibilidade de ampla utilização de som e imagem em educação seriada ou permanente, difusão cultural, promoção comunitária etc.. 15 Hoje, já podemos fazer uso das WebTVs em intranets (redes digitais de comunicação interna), dentro de escolas e corporações. Aparelhos baratos de IPTV transformam as televisões instaladas em escolas em verdadeiras janelas para o conteúdo da intranet, em sala de aula e a baixo custo. A partir do aparelho de IPTV conectado à televisão, o professor acessa bibliotecas de áudio, vídeo, animação e até textos (apesar da baixa resolução de vídeo da televisão), substituindo de forma produtiva e à baixo custo os aparelhos de vídeo-cassete para uso educacional. O futuro da TV na Internet Para Pavlik, TV na Internet não é somente mais uma forma de televisão. A Internet não é somente mais uma forma de transmistir a programação televisiva; ela começa a mudar fundamentalmente tudo que conhecemos como televisão. 16 Paternostro alerta que a TV digital com imagens em alta definição, HDTV vai estabelecer novas formas de se produzir televisão no Brasil: Trabalham em televisão, tanto no conteúdo quanto nos formatos da programação. Os técnicos e pesquisadores já afirmam que a linguagem da televisão terá que ser totalmente reformulada. [...] Será um filosofia, uma concepção do fazer televisão completamente diferente da que se tem hoje em dia. [...] E sem contar que, quando a HDTV estiver linkada a Internet, tudo pode acontecer. 17 Nos últimos anos, mais de 70 instituições de pesquisa colaboram no processo de implantação do sistema de TV digital no Brasil desenvolvendo recursos técnicos especializados. No entanto, somente alguns centros de estudo trabalham com o conteúdo dessa nova TV digital. Poucas instituições acadêmicas ou profissionais se 15 LAGE, (2002), p PAVLIK, (2005), p PATERNOSTRO, (1999), p.53 e 54.

7 dedicam a pesquisar, experimentar e indicar novos caminhos para o telejornalismo na era digital. Mas por que a TV como conhecemos hoje, deveria migrar do seu atual modelo e ambiente difusor aberto (broadcast) para um novo meio ainda mais segmentado do que as TVs a cabo, por exemplo? Por que a TV deveria migrar para a Internet? Primeira razão deveria ser a redução de custos. Outra razão seria a conquista de novos públicos de telespectadores ou Internautas. Mas a Neusa Amaral, em sua tese de doutorado Televisão e Telejornalismo Do analógico ao Virtual esclarece de forma clara e definitiva: Poderíamos, sem deslumbramentos, dizer que estamos sim presenciando o surgimento de uma nova mídia visual hipermidiática, convergente, simbiótica, diferente que irá conviver com as mídias eletrônicas convencionais como o rádio, o cinema e a televisão convivem hoje. Mais adiante ela conclui: A linguagem ainda está em formatação, mas já se sabe que não é TV na Internet, nem jornal com imagens em movimento. É algo novo, que ainda não tem uma formula certa e única. Telejornais na Internet Em relação ao jornalismo, o crítico de TV, Gabriel Priolli diz que o telejornalismo na Internet se caracteriza pela linguagem própria, pela recepção mais ativa, alem da interatividade total e da agilidade. Priolli avalia que há uma mudança de concepção, o telejornal de TV e apenas um telejornal. Na Web você conta com a Internet, pode se aproveitar todos os recursos, adaptar o produto, além de uma série de suportes. As pessoas estão buscando informações profissionalmente e não por entretenimento. O telejornal na Internet tem a possibilidade de ser mais completo porque disponibiliza além de áudio e vídeo, ferramentas de texto, discussões através de chats, salas de batepapo. 18 Algumas características experimentais: 7 Incorporação de uma nova forma de pensamento visual que privilegia a narrativa experimental multimídia com algumas das seguintes técnicas: Convergência de mídias em linguagem audiovisual Transmissões ao vivo via Internet (live webcasting) para treinamento de estudantes e jornalistas. Entrevistas e entradas ao vivo em telejornais. 18 PRIOLLI, (2002), p. 23.

8 8 Desenvolvimento de linguagens experimentais para o jornalismo de TV. Aplicação de princípios de realidade virtual e jogos de simulação para jornalismo. Videojornalismo. Produção de matérias jornalísticas em regime de multitarefas. Implantação de bases de dados digitais com arquivos de imagens em movimento e acesso pela Internet. Desenvolvimento de novas formas de jornalismo participativo e interativo. ICQ (Instant Communication Query), Chats (forums), Blogs, Videoblogs. Produção de matérias para TV que incluam storyboards (transcrições textuais das matérias para televisão referenciadas por imagens estáticas na forma de videoframes ou quadros de vídeo. Jornalismo internacional treinamento específico para formação de correspondentes estrangeiros com a utilização dos recursos de pesquisa da rede. Pesquisas de publico em tempo real, ao vivo sobre temas apresentados nos telejornais na Internet. Experimentação e desenvolvimento de novas formas de documentários específicos para o jornalismo de TV na Internet (IPTV). Uma nova geração de audiência e de jornalistas Em sua fase mais recente, as novas tecnologias criam um ambiente de integração de conhecimentos tecnológicos e procedimentos jornalísticos. O uso intensivo da Internet como meio de comunicação, apuração, transferência de informações e, no futuro, certamente, trafego de arquivos de imagens em movimento, imediatamente e em larga escala. Para Lage, enquanto educadores, enfrentamos um grande desafio em relação a implantação de novas tecnologias para o ensino de jornalismo: a tecnologia exigirá ainda mais dos envolvidos em projetos de pequena dimensão... A formação de novos currículos, menos abstratos e mais focados na realidade social e na maneira como as mensagens mediadas por mídia de tecnologia avançada se inserem nesse contexto. Subsidiariamente, será necessário contato íntimo com computadores e programas, coisa que já vem sendo exigida no provimento de informação em bancos de dados e portais da Internet LAGE (2002), p. 5.

9 9 Hoje, constatamos a necessidade de que os jornalistas tenham competências múltiplas, isto é, que sejam capazes de escrever roteiros, produzir programas, editar, apresentar, reportar. 20 Novos recursos tecnológicos, como o crescimento da potência dos computadores, desenvolvimentos de instrumentos de memória cada vez mais poderosos e com custos cada vez menores, digitalização de imagens e compressão algorítmica de conteúdos para transferência via redes digitais, tornam a TV e os telejornais na Internet uma realidade economicamente e tecnologicamente viável. Nesse momento, surge um ambiente informacional totalmente novo interligado em redes mundiais que, no entanto, ainda falam muitas línguas, que necessitam narrativas especificas e tradução eficiente que exigem mais pesquisas empíricas e inovações. Telejornalismo e Inovação Segundo a Profa. Sonia Dalcomuni (apud TOURINHO, C. 2009): Invenção é o desenvolvimento de uma solução cientifica ou não para resolver um problema específico. Inovação, por outro lado, é a primeira aplicação econômica, comercial ou acadêmica desta invenção. Difusão é a generalização do uso das inovações. Interage com outras tecnologias, serviços, linguagens ou produtos. Inovação tem que ser sancionada ou viabilizada pelas instituições e pela cultura de determinada época. É preciso alcançar uma sintonia entre a oferta, a demanda, o custeio e o momento histórico para que o fato gerador, seja ele tecnológico, operacional, econômico ou comunicacional, torne-se realmente uma inovação. Uma inovação quebra paradigmas. O lançamento de algo novo rompe modelos mentais, aborda pontos diferentes... Modelos melhores são criados a partir da crítica ao modelo anterior. Podese dizer, então, que inovação é uma aposta no desejo da sociedade de ter suas necessidades humanas atendidas em melhores condições. Em relação à televisão e seu segmento telejornalístico podemos confirmar a aplicação de inovações como as WebTVs não só na produção de telejornais ou na educação à distância, mas inclusive no em área diversas e inusitadas da sociedade. Em artigo recente publicado no Portal Imprensa com o titulo Empresas usam canais de TV próprios para ampliar comunicação e fazer jornalismo são descritas novas aplicações 20 Idem

10 10 de TVs na Internet: Além da empresas, clubes de futebol apostaram na ideia. Vários times deram conta de criar seus canais. Entre eles, A TV Corinthians, TV Flamengo, Grêmio TV, Santos TV, a TV Inter e o São Paulo que em breve lança sua TV própria. No mesmo artigo Max Petrucci, diretor da Garage Interactive Marketing, destaca que as televisões digitais representam uma forma barata de desenvolver projetos com conteúdo. "Quando conseguimos unir expertise e ferramentas que possibilitam ações de responsabilidade social, temos o cenário perfeito (ver em O ensino de jornalismo O projeto da TV UERJ Online é uma aposta no poder da inovação e no desejo de melhorar o ensino de jornalismo. Nunca fomos um projeto de divulgação de realizações institucionais, uma televisão universitária sob controle direto de reitorias ou de assessorias de comunicação. Além de oferecer aos estudantes de jornalismo e de Relações Públicas da UERJ a oportunidade de produzir TV e telejornais de verdade, em tempo real, ao vivo via Internet, procurávamos estimular a cobertura independente da nossa própria realidade. Nossos alunos mostraram o cotidiano da UERJ, as principais realizações de diversas administrações. Mas nossas câmeras e microfones também cobriram e divulgaram os incêndios, as greves e até mesmo a invasão da reitoria em 2009 por estudantes insatisfeitos com os caminhos da universidade. Procuramos seguir as orientações de pensadores paradigmáticos brasileiros: "A universidade brasileira não deveria se restringir a pesquisar o passado. Ela tem um compromisso com o presente e um dever de apontar novos caminhos para o futuro." Esta declaração em tom de cobrança por parte do professor Nilson Lage, da UFSC, proferida durante o Fórum de Professores de Jornalismo, realizado em Porto Alegre em 2002 (ver em ainda demanda uma resposta condizente por parte de todos aqueles que ainda acreditam no verdadeiro papel das nossas instituições de ensino superior. O ensino de jornalismo deve ser um ensino teórico, prático e, principalmente, inovador Também creio que o ensino do jornalismo deve estar preparado para lidar com ferramentas que possibilitam a inovação do jornalismo. A universidade deveria ser o espaço para romper velhos e desgastados modelos de prática profissional. A TV UERJ enquanto um laboratório de ensino não rompe com o modelo de ensinar propriamente dito. Continuamos prestigiando a sala de aula e o ensino teórico e histórico do

11 11 jornalismo de TV. Mas o fato é que a TV UERJ procura utilizar as novas tecnologias não apenas para apresentá-las aos futuros jornalistas. Ela faz o bom uso dessas ferramentas, tão importantes no processo educacional. Afinal, não basta saber, é preciso saber fazer. E, se possível, fazer algo novo e melhor. Indicar novos caminhos para o futuro. Com o projeto da TV UERJ online, a primeira televisão universitária brasileira na Internet procurou romper a trilogia imobilidade, passividade, submissão, características tanto da TV convencional quanto do ensino no Brasil. Nossa grande inovação não é simplesmente tecnológica ou comunicacional. Creio que a nossa grande contribuição, a nossa subversão de paradigma é praticar jornalismo competente e independente dentro de uma instituição de ensino superior brasileira. E isso não é uma tarefa fácil. Histórico do projeto Há muitos anos pesquiso e desenvolvo novas metodologias e tecnologias para o ensino de jornalismo. Trabalho com pesquisa aplicada. Procuro soluções para problemas. A crise no jornalismo é grave, mas é ainda mais grave no ensino de jornalismo. Ambos, na forma como os conhecemos, podem estar morrendo. Segundo o Prof. John Pavlik, uma das maiores autoridades no estudo de novas tecnologias, o ensino de jornalismo ainda se baseia em modelos do final do século XIX e a maioria dos currículos das escolas de jornalismo segue as linhas tecnológicas do século XX (PAVLIK,, J. 2001). O problema é que já estamos no século XXI e os alunos de jornalismo percebem essa defasagem. A crise se torna inevitável. Mas o ensino de jornalismo e a própria produção de jornalismo de qualidade têm solução. Seja em universidade pública ou privada, em jornal impresso, no rádio, na televisão ou na internet, tanto faz. Nunca deixei de acreditar no poder de uma sociedade bem informada com múltiplas fontes de notícias. Algumas melhores ou mais confiáveis, dependendo sempre do interesse e da escolha de cada um. O problema é que o ensino de jornalismo costuma estar centrado em premissas equivocadas. Ao invés de insistirmos em velhas armadilhas como a prioridade das disciplinas humanísticas ou teóricas sobre as disciplinas práticas ou parâmetros subjetivos e pouco precisos de qualidade, deveríamos desenvolver conceitos de competência e criatividade.

12 12 Pesquisar e testar novas metodologias de ensino e novos formatos de programas jornalísticos pode ser uma solução. Em vez de fábrica de jornalistas, os nossos cursos poderiam ser laboratórios para o desenvolvimento e experimentação de novos formatos e linguagens audiovisuais. E tudo começa com a necessidade de ensinar jornalismo de televisão em instituições de ensino que não possuem televisão. Creio que seria o equivalente a tentar ensinar a tocar um instrumento musical como piano, por exemplo, sem ter acesso ao... piano. Um exercício de boa vontade, imaginação e precariedade. Um ensino em metáfora. Para mim, ensinar jornalismo de televisão sem uma televisão ainda é inaceitável. Na falta de bons laboratórios, de equipamentos modernos, de recursos financeiros e principalmente, de visibilidade externa procuramos soluções drásticas, soluções criativas e possíveis, soluções guerrilheiras. No passado, já havíamos desenvolvido telejornais para circuito interno de TVs em universidades privadas, as TVs do poste já em Era uma forma rudimentar de fazer TV com uma câmera ligada a monitores espalhados pelo campus da universidade. Produzíamos programas ao vivo, telejornais, inclusive, e tínhamos um público interessado e participante. Foi possível, então, colocar em prática a ideia de produzir um telejornal diário para ser exibido nos televisores internos da Universidade. A maior contribuição do projeto era aproximar os alunos da realidade profissional. Produzir boas reportagens dentro dos limites do jornalismo e da instantaneidade do veículo televisivo. Um laboratório de TV e de jornalismo onde o aluno pudesse experimentar novas ideias, criar alternativas. Um espaço dentro da universidade onde a prioridade não fosse acumular conhecimento ou ser bem avaliado. Um ambiente de liberdade onde o aluno pudesse acertar e... errar. Como costumo dizer aos futuros jornalistas, procurem, de preferência, cometer erros novos. A exibição dos programas de entrevistas e telejornais tinha hora marcada, portanto, textos, matérias, produção de imagem, enfim, tudo tinha que ser feito a tempo. E o mais importante, orientávamos os alunos sobre a importância de respeitar o público, mesmo que ele fosse muito pequeno. Nosso objetivo era conquistar a credibilidade e valorizar a ética na prática profissional. Não produzíamos metáforas de jornalismo. Produzíamos telejornais diários com matérias de interesse do nosso público. O projeto recebeu o premio de Melhor Telejornal da EXPOCOM durante os congressos da INTERCOM em 1998 e Este projeto quase artesanal de produzir

13 13 televisão e de ensinar telejornalismo que antecede a utilização massiva da Internet no Brasil foi fundamental para a criação da TV UERJ online. Por uma universidade inovadora e midiatizada A nossa TV surgia de forma simples e rudimentar. Para transformar uma invenção em inovação, desenvolvemos o conceito de Guerrilha Tecnológica. Não esperamos as condições ideais. Fazemos com o que temos. O projeto da TV UERJ é resultado desse conceito. Estamos sempre fazendo e experimentando. A qualidade da imagem e do áudio ainda precisa melhorar. A linguagem está em construção e o projeto ajuda a construí-la. Mas acreditamos que dessa alquimia de novas tecnologias e novas linguagens vai sair um jornalismo mais crítico, mais barato e mais próximo dos problemas cotidianos dos brasileiros. Hoje, qualquer pessoa ou grupo de pessoas já pode produzir sua própria televisão, seu próprio telejornal. Mas, infelizmente, ainda hoje, produzir telejornais diários, ao vivo, com alunos, professores e notícias de verdade é um "sonho impossível" para muitas instituições de ensino superior brasileiras. E o grande obstáculo não é tecnológico, financeiro ou operacional. Televisão ao vivo ainda é considerada um veículo muito incontrolável e perigoso. Apesar de inúmeros problemas e obstáculos, ainda acreditamos que o caminho certo para a melhoria do ensino de jornalismo ainda aponta para um veículo caótico, porém ainda livre e democrático como a Internet. Ao elaborar um protótipo de televisão universitária na Internet o projeto da TV UERJ online apresenta competências e características típicas das novas plataformas digitais e do jornalismo online, a destacar: Hipertextualidade, Multimidialidade, Interatividade, Personalização, Memória, Instantaneidade, Atualização contínua, Ausência de limites espaciais, Flexibilização de papéis profissionais e Utilização de softwares livres (MACHADO, E. e PALACIOS M., 2007). O objetivo do projeto é instigar o exercício prático do jornalismo digital enquanto elemento de convergência voltado para futuras reflexões na área. Um verdadeiro jornalismo menos arrogante e mais participativo. Procuramos desenvolver práticas pedagógicas que indiquem um jornalismo menos vertical, mais horizontal e mais colaborativo.

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