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2 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 2 Quem domina a garantia domina o crédito Pablo Pombo Se eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria aceso o sentimento de amar a vida dos seres humanos. A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo afora. Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem. A capacidade de escolher novos rumos. Deixaria para você se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável: além do pão, o trabalho. Além do trabalho, a ação. E, quando tudo mais faltasse, um segredo: o de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída. Mahatma Gandi à Tia Nadir da Silva (in memorian). Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão. Como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado, quando pleitear com os inimigos à porta. Salmos 127:3. ao meu querido filho Kaue Rosa

3 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 3 Ricardo Mello Sistema Nacional Garantias de alternativa eficaz de acesso ao crédito para micro e pequenas empresas no Brasil EDITORA l etradágua

4 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 4 Copyright 2007 Ricardo Alexandre de Mello Copyright desta edição Gehlen Edições Edição Joel Gehlen Revisão Wilka Seto-Gehlen Impressão Nova Letra Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica Editora Letradágua. isbn apoio 2007 Editora Letradágua R. Henrique Tamanini, 303, Iririú CEP Joinville SC Fones: (47) e

5 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 5 Agradecimentos Agradeço a Deus por ter concluído esse livro. Agradeço ao amor da minha mãe Katia, à esposa Deise, e a vó Selma que me estimularam nos momentos mais difíceis deste livro, sem elas não seria possível superar este desafio. Agradeço ao precursor do Sistema de Sociedade de Garantia Dr. Pablo Pombo pelos artigos enviados pela internet e na divulgação deste modelo no Brasil. Agradeço ao Professor da UFSC Dr. Nelson Casarotto Filho pela confiança, oportunidade, ensinamentos e orientações transmitidos, bem como, por ser o mentor desta pesquisa. Agradeço a FAMPESC, especialmente ao seu ex-presidente Floriani, hoje vice-presidente da Confederação Nacional das Micro e Pequenas Empresas (CONEMPEC). Agradeço ao Banco de Desenvolvimento Regional do Extremo Sul (BRDE), especificamente ao Presidente, Dr. Casildo Maldaner e ao Diretor Financeiro, Dr. Renato de Mello Vianna, assim como, ao assessor Fabio Mafra pelo apoio à edição deste livro. Agradeço ao Banco de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (BADESC), especificamente, ao Presidente, Dr. Dalírio José Beber e ao Diretor de Operações, Dr. Sayde José Miguel, pelo apoio à edição deste livro. Agradeço ao grande tradutor e amigo Mário Roberto Pena Fiqueira. À minha orientadora no Programa de Pós-Graduação de Sociologia Política (PPGSP) Professora Pós-Doutora Cecile Raud-Mattedi, a qual acredita na evolução deste sistema como uma nova opção de crédito solidário. Aos meus sogros (Dirceu e Marisa) pela visão da Igreja "..., e a casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade." (1 Timóteo 3:15) e da visão de Jesus Cristo. "Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria na tua presença." (Atos 2:28) 5

6 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 6 ÍNDICE Um estudo de grande relevância 9 Resumo 11 Justificativas 12 Panorâmico Histórico na visão de Pablo Pombo 13 CAPÍTULO I Introdução Aspectos econômicos Os parâmetros básicos para o crédito - os Cs do Crédito Classificação das operações de crédito por nível de risco e provisionamento (COSIF 1.6.2) Aspectos Sociais Definição e desenvolvimento de Redes de Empresas Tipos de Redes de Empresa Redes de Empresas Aspectos Políticos Modelos detectados: Classificação dos Sistemas de Garantia Fundos de Garantia programas de garantias Os Sistemas de Sociedades de Garantias 34 CAPÍTULO II Breve Panorama da situação continental Visão Geral do Continente 37 CAPÍTULO III A situação dos sistemas de garantia na Ásia Visão geral do continente asiático Os Sistemas de Garantias do Sudeste Asiático 43 CAPÍTULO IV Sistemas de garantia na Europa 4.1 Dois modelos Características Gerais dos Sistemas Europeus Descrição geral dos entes: Regime jurídico, âmbito de atuação e objeto social Marco legal e normativo, regulação e controle 54 6

7 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page Órgãos sociais ou gestão Formação do acionista e procedência de recursos de capital O Custo Operacional da Sociedade de Caução Mútua (SCM=SNG) Refinaciamento: vínculo com setor público e com sistema financeiro Setor Público Setor Financeiro Refinanciamento Segundo Piso Tendências dos sistemas de garantias na EU Os Sistemas de Garantias da Espanha Características Gerais Âmbito e objeto social A Confederação Espanhola das SGRs (CESGAR) Marco legal e normativo Acionistas e recursos de Capital Atividades e produtos Operações Refinanciamento Companhia Espanhola de Refinanciamento (CERSA/1994) acordo de resseguro com o Fundo Europeu de Investimentos (FEI) Evolução futura União Européia /Fundos de Investimentos Europeu 85 CAPÍTULO V Situação dos Sistemas de Garantia na América do Sul 5.1 Visão Geral Os Sistemas de Sociedade de Garantias: Argentina SGR da Argentina (Lei SGR/1995) Características Gerais Marco legal e normativo Acionistas e recursos de capital Atividades e produtos Operação Condições Gerais da Garantia Refinanciamento Evolução futura Fundo de Garantia da Província de Buenos Aires (FOGABA) Características gerais 101 7

8 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page Âmbito e objeto social Acionistas e recursos de capital Atividades e produtos Operações Condições gerais de garantia Refinanciamento Anexo Estatístico do Sistema de Garantias na Argentina Sistemas de Garantia no Brasil: Programa de Garantias Características dos Programas no Brasil A visão da FAMPESC sobre a constituição da SGS Simulação de operação de crédito na sociedade de garantia solidária dentro da FAMPESC, segundo modelo espanhol Aspectos Jurídicos 108 PRINCIPAIS PARTES DA LEI 149.1,16 (Constituição das Sociedades de Garantia Recíproca de 12/03/1994 na Espanha) 111 Capítulo I - Disposições Gerais 111 Capítulo II - Da fundação da SGR 114 Capítulo III - Das participações sociais e dos direitos dos sócios 118 Capítulo IV - Dos órgãos da Sociedade de Garantia 121 Capítulo V - Modificação nos estatutos, aumento e redução de capital 125 Capítulo VI - Salvaguarda do capital e aplicação dos lucros 127 Capítulo VII - Das contas anuais das SGRs 128 Capítulo VIII - Fusão e Dissolução das SGRs 128 Capítulo IX - Da dissolução e liquidação das SGRs 129 Capítulo X - Da supervisão administrativa, do regime ratificante e dos benefícios fiscais das SGRs 131 CAPÍTULO VI Conclusão Recomendação 134 Referências bilbliuográficas 137 Anexos 141 Projeto de Lei Complementar Justificação da Consultoria do Legislativo 148 Glossário 150 8

9 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 9 Um estudo de grande relevância Pablo Pombo González* Os usuários e profissionais vinculados aos esquemas de Sistema de Garantia Mutualista ou Sistema de Garantia Recíproca para micro e pequenas empresas (MPEs) distinguem-se por serem autênticos divulgadores da atividade e ardorosos defensores de seus benefícios. Distinguem-se precisamente por sua constância e inalterável intenção na disseminação destes esquemas. Há décadas que contam com uma incalculável colaboração de alguns, ainda escassos, investigadores e professores de Universidades que estão respaldando, com seus conhecimentos técnicos e científicos, uma realidade que está em torno de um século de vida. Este é o caso de Ricardo Alexandre de Mello do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGSP/UFSC), situada na cidade de Florianópolis, estado de Santa Catarina. Com seus conhecimentos, reconhecidos por seus títulos acadêmicos, reúne a intenção e a constância que requer todo investigador. Esta combinação de esforço e empenho decidido é o que o distingue, como um excepcional valor, para a divulgação e implementação destes esquemas de garantia no Brasil. Seu rigor científico e profissional faz com que os temas por ele analisados sejam considerados de grande relevância quando se pretende desenvolver um esquema com essas características. Nos sistemas financeiros, a garantia é um bem "escasso", sobretudo aquelas garantias melhor qualificadas e ponderadas, o que provoca dificuldades no acesso ao financiamento para as MPEs. Nos encontramos ante uma situação contraditória: por um lado, a MPE é uma importante geradora de emprego e de riqueza, e por *Presidente Fundador da Associação Européia de Caução Mútua e Consultor Internacional de Sistemas de Garantias. Julho de 2006 Córdoba (Espanha). 9

10 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 10 outro, as normas dos sistemas financeiros nacional e internacional a discriminam. Uma via de solução encontra-se nos sistemas de garantias. A decisão fundamental é estabelecer qual modelo é mais adequado, uma vez que os sistemas de garantia não são homogêneos e, portanto, não têm a mesma qualidade, eficácia e relevância. Os SGR ou SGM ou SGN, com seu componente empresarial privado, têm um amplo histórico de eficácia frente a outras opções ou esquemas públicos. O trabalho de Ricardo Alexandre de Mello vem aprofundar o conhecimento e a análise desses esquemas, contribuindo no processo de tomada de decisão em curso no Brasil. 10

11 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 11 Resumo Devido à baixa rentabilidade das operações bancárias e à dificuldade quanto ao oferecimento de garantias colaterais (reais e pessoais) para a obtenção de crédito pelas micro e pequenas empresas, inclusive pelo seu pequeno porte e mínima solidez, torna-se necessário que haja interatividade entre as mesmas, com relação às questões vivenciadas em seu cotidiano, fazendo com que isto seja objeto de estímulo ao desenvolvimento, a título regional e nacional na busca de sua autonomia, isto baseado em estatuto próprio, do qual consta a Sociedade de Garantia Solidária (SGS), de acordo com a Lei número 9.841, Artigos 25 a 31, regulamentada pelo decreto 3474, de 19/05/2000. A referencia analítica para o presente estudo foi a Sociedade de Garantia Reciproca da Espanha (SGR), pois a legislação da SGS é baseada em parte na original espanhola. Conclui-se, que há uma possibilidade de se implantar a SGS no Brasil e em seguida para outros Estados, desde que tenha uma reformulação da Lei Artigos 25 a 31, passando a depender também das autoridades monetárias, públicas e regionais, devendo exercer o papel de indutoras ou promotoras, ao conceder maneiras diversas de participação, com regras de saída progressivas, não deixando de responsabilizar as empresas e também não as impedindo de conseguir melhores condições financeiras em suas atividades. Vale ressaltar, que este tema foi indicado pelo professor Dr. Nelson Casarotto, pertencente aos quadros do BRDE, no ano de 2000, no mestrado da Engenharia de Produção e Sistemas (EPS), já defendida, propiciou nova proposta, agora de tese de doutoramento no Departamento. Pela sua importância, foi aprovada no projeto de doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (PPGSP) da UFSC sob orientação da professora francesa pós-dra Cécile Raud. Palavras chaves: Sistema Nacional de Garantias, micro e pequena empresa e desenvolvimento regional. Antes de entrar em matéria de estudo apresenta-se aqui o panorâmico histórico do Sistema de Garantia Mutualista ou de Sistema de Sociedade de Garantia (SSG) denominado no Brasil Sociedade de Garantia Solidária (SGS) ou atualmente Sistema Nacional de Garantias (SNG), e em seguida sua introdução. 11

12 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 12 Justificativas Esta proposta contribui para os estudos ligados ao crédito das MPEs bem como encaminha soluções a fim de evitar problemas inerentes que normalmente levam ao fracasso empresarial. Assim sendo, a presente pesquisa poderá auxiliar os meios governamentais e privados na criação e desenvolvimento de programas de fomento e apoio às micro e pequenas empresas (MPEs). Para as MPEs, faz-se necessário diagnosticar uma situação e definir uma política exclusiva que permita condições de manutenção e posterior desenvolvimento. Medidas isoladas podem não produzir o efeito desejado, acabando por beneficiar setores mais concentrados ou com maior poder de barganha, e só teriam apoio pela mobilização de recursos (Bacic, 1998). O desenvolvimento de empresas menores é importante para uma participação mais ampla em termos de benefícios e decisões econômicas; as pequenas empresas, com freqüência, podem servir melhor a mercados restritos ou fragmentados, nos diversos países em desenvolvimento, se comparadas com as grandes organizações. O desenvolvimento das pequenas empresas pode contribuir para diminuir os desequilíbrios regionais, a concentração urbana e os efeitos adversos, oferecendo uma resposta mais rápida às necessidades de política econômica, fato de extrema importância em épocas de retomada do crescimento, principalmente no que diz respeito à velocidade de respostas aos investimentos realizados e a dependência do crédito e da política econômica. As micro e pequenas empresas, se forem encaradas como fonte de dinamismo econômico, introduzirão novas perspectivas para esse segmento, sendo que delas se poderá esperar bem mais do que apenas a absorção de mãode-obra para aqueles que ainda não tiveram acesso ao emprego nas grandes empresas. Em vez de serem usadas como fonte de instrumento de políticas sociais, as pequenas empresas podem de fato constituir importantes estratégias de desenvolvimento econômico 1, proporcionado maior competitividade entre 1. Segundo Furtado (1980), a idéia corrente de desenvolvimento econômico e social refere-se a processo de transformação no sentido morfogenético: a adoção de algumas formas onde não se trata de simples desdobramento das preexistentes que engloba o conjunto de uma sociedade. Essa transformação está ligada à introdução de métodos produtivos mais eficazes e se manifesta sob a forma de aumento do fluxo de bens e serviços finais à disposição da coletividade. 12

13 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 13 Sistema Nacional de Garantias regiões inteiras (Abreu & Cândido, 2000). Em razão do universo da micro e pequena empresa na nova realidade econômica vigente, a presente proposta se justifica na busca de alternativas, encaminhando soluções para os problemas e facilitando o acesso ao crédito nesse segmento. Panorâmico Histórico na visão de Pablo Pombo Um dos grandes especialistas mundiais em Sistema de Sociedade de Garantia, é o economista espanhol Pablo Pombo. Presidente fundador da Associação Européia de Caução Mútua (AECM) <www.aecm.be> desde 1996 e Presidente do Conselho de Administração ( ). Secretário técnico da Rede Iberoamericana de Garantias (REGAR) <www.redegarantias.com> e consultor internacional em sistemas de garantias. Vem coordenando e assessorando em projetos de implantação legislativa de SGRs na: Argentina, Venezuela, El Salvador, Equador, Guatemala, Costa Rica e Itália. Foi presidente da Confederação Espanhola de SGRs (CESGAR) <www.cesgar.es> na etapa da promulgação da nova Lei 01/1994 do setor SGR espanhol. Membro do Conselho de Administração da Companhia Espanhola de Refinanciamento (CERSA) <www.cersa.es> (1994/96). Tem a comenda do Rei da Espanha Juan Carlos I (1995). Experiência como responsável executivo em SGRs, a mais de 15 anos. É licenciado em Ciências Econômicas e Empresariais pela faculdade ETEA da Universidade de Córdoba (Espanha). No pacto econômico e social do ano de 1977 (pacto da Moncloa) se contemplava, entre as medidas de fomento do emprego e o desenvolvimento empresarial a regulação de sociedades mutualistas de garantia que permitissem às PMEs acessar ao crédito com carência e insuficiência de garantias. A figura da Sociedade de Garantia Recíproca (SGR) se introduziu em um momento econômico que evidenciava a impossibilidade do pequeno e médio empresário abordar sozinho os problemas anexos ao financiamento de seu estabelecimento. Deram-se passos históricos desde o início do século: A iniciativa para a criação na Espanha deste tipo de Sociedade partiu da iniciativa da Câmara de Comércio e Indústria de Barcelona no meio dos anos 70, porém a idéia não era nova e tinha antecedentes, tanto na Espanha quan- 13

14 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 14 Ricardo Mello to no estrangeiro. O decreto de 31/07/1915 criou os denominados sindicatos industriais e mercantis, organismos que representavam uma caução derivada e um mecanismo solidário "entre aqueles que o constituiam". Após as primeiras iniciativas, incluindo um anteprojeto, o Decreto-Lei 15/1977 sobre medidas fiscais, financeiras e de investimento público, autorizou o governo a regular a constituição e o regime jurídico, fiscal e financeiro das SGRs. Em decorrência desse fato surgiu o Decreto 1885/1978, de 26/07; a disposição legal pelo que se estabelece e regula pela primeira vez na Espanha este tipo de entidades. O modelo da norma jurídica se inspirou na legislação Francesa sobre Sociedade de Caução Mútua, embora tenha se ampliado e introduzidas mudanças de forma significativa. No verão de 1979 põe-se em marcha a primeira SGR e inicia-se um processo febril, que foi denominado deficiente (falta de capitalização e experiência), que leva a existência de 30 SGRs ao final de 1982, com o número máximo de 42 em O apoio inicial da administração pública através do então Instituto da PME industrial (IMPI) sócio protetor, com aportes ao capital na maioria das SGRs motivou em grande parte um forte destaque dos Sistema de Garantias. Mais tarde, por iniciativa do IMPI, o sistema se redimensiona e ocorre um processo de fusões que reduz a 26 o número de sociedades. Mas, sobretudo, produz-se uma transformação do âmbito de atividade desde um modelo local (provincial) a um regional (comunidades autonômas). As comunidades autonômas começam a assumir o papel desempenhado pelo IMPI até o momento, possibilitou que, pouco mais tarde, este último abandonasse o modelo de ajuda publica através da subvenção e capitalização e acolherá ao modelo de suporte público baseado em um sistema de refinanciamento. Para este, fim criou-se a Sociedades de Garantias Subsidiárias (SOGASA) em 4/08/1980 participada pelo IMPI e as SGRs; A aprovação da Lei 1/1994, de 11/03, sobre o regime jurídico das SGRs supõe a mudança fundamental que tem motivado o atual nível de atividade da SGR. Esta lei supõe o reconhecimento como entidade finan- 14

15 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 15 Sistema Nacional de Garantias ceira reconhecida a Lei sobre Disciplina e Intervenção das Entidades de Crédito do Banco da Espanha. Além do mais: Amplia-se a lista de SGRs em direção a prestação de serviços de assistência e assessoria financeiras a seus sócios. Aumenta-se a solvência das SGRs com a mudança do antigo fundo de garantia em um Fundo de Provisão Técnica (FPT), muito mais próximo a sua nova realidade como entidades financeiras e que dota de maior realidade ao próprio aval. Com o FTP deve provisionar como mínimo 1% de risco, uma provisão semelhante às demais entidades de crédito. Além disso se possibilita o cancelamento do requisito legal por que o sócio devia aportar no antigo Fundo de Garantia o 5% de aval solicitado, no qual reduz o custo de aval. O capital mínimo da sociedade passa dos 50 milhões de pesetas, que fixava o Real Decreto 1885/1978, a 300 milhões de pesetas. O número mínimo de sócios participantes fundadores passa a 150. Como se observa o diagrama da evolução do sistema, com os últimos passos legais dados até o momento, o desenho do sistema de garantia espanhol apresenta-se com um dos mais completos da Europa e como fluente para muitos sistemas recentes deste entorno, inclusive nos países da América Latina. 15

16 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 16

17 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 17 Capítulo I Introdução 1.1 Aspectos econômicos Segundo Puga (2003), somente nos anos 80 e início dos anos 90, a visão acerca da importância das micro e pequenas empresas (MPEs) começou a mudar. Bich (apud, Puga 2003) destacava: o que quer que as grandes empresas estivessem fazendo, elas não seriam mais as principais fornecedoras de novos empregos para os americanos. De fato, dados mais recentes, apontam que as MPEs tornaram-se responsáveis por 77% dos postos de trabalho criados nos Estados Unidos da América no período que abrangeu 1990 a Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego (RAIS/TEM), de 2000, 93% do total dos estabelecimentos empregadores do Brasil são constituídos por empresas de micro e pequeno porte (com até 100 empregados), e nos anos de 1999 e 2000 foram responsáveis por 96% dos empregos, respondendo também em torno de 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Conforme Kruglianskas (1994), os principais motivos da baixa participação das MPEs brasileiras em relação ao PIB podem ser aqui resumidos: a) pouco associativismo das MPEs brasileiras; b) baixa participação dos bancos privados em conceder crédito para as MPEs; e c) por serem as medidas de apoio para este setor de natureza eminentemente setorial e específica, estas tendem a favorecer o lobby industrial, o que significa dizer que grande parte dos financiamentos é canalizada para grandes empresas (principalmente os recursos oriundos do BNDES) por apresentarem garantias maiores, e, pouquíssimo é feito para que sejam satisfeitas as necessidades das MPEs. Para Sachs (2003), a alocação adequada das pessoas em um âmbito de pleno desenvolvimento está exatamente na contemplação da diversidade das 17

18 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 18 Ricardo Mello formas de trabalho encontrada nas MPEs. Desta forma, gera-se um maior número de empregos, acarretando uma relevante contribuição no intento de reduzir a pobreza. Isto se dá em razão de se abrirem novos caminhos para atender a "maior concentração de necessidades desprovidas de voz, em sua maioria silenciosa, na economia mundial" (Pombo, 2001). Segundo Pombo (2001), nos países de menor desenvolvimento econômico, como o Brasil, o grande problema para as MPEs está ligado com o acesso ao crédito. Em contrapartida, nos países mais desenvolvidos, mesmo que uma empresa tenha à disposição um crédito bancário expressivo, tal fato não representa uma liberação imediata do financiamento. Justifica-se, em ambos os casos, pela obrigatoriedade, de usufruir o sistema financeiro. No Brasil, a quantidade de MPEs que encerram suas atividades ainda é bem alta. Conforme dados do SEBRAE (2004), 32% fecham em menos de um ano; 44% em menos de dois anos; 56% em menos de 3 anos; 66% em menos de 4 anos e, por fim, 71% delas em menos de 5 anos. O principal motivo dáse em função de: falta de capital de giro (24,1%); alta carga tributária (16%); ausência de clientes (8%); grande concorrência (7,1%) e baixa rentabilidade (6,1%). Tais dados são confirmados no quadro a seguir: Quadro 1: Custo da mortalidade das MPEs Empresas encerradas R$ Postos de trabalhos reduzidos Perda nos investimentos R$ 2,4 bilhões R$ 19,8 bilhões Fonte: SEBRAE, 2004 (Apud Folha de S. Paulo 12/08/04, caderno B, p. 12) Ressalta-se, neste caso, que não se trata somente de disponibilidade de crédito, mas sim da existência de uma demanda. Com relação à 10ª conferência UNCTAD (10/1998) estima-se que 80% da demanda de crédito no mundo estão sem ser assistidas. Este dado refere-se mais aos países em via de desenvolvimento nos continentes africano e americano. No Brasil, nota-se que apenas 10% do total de crédito ofertado é destinado às MPEs. Isto porque, segundo o instrumento de política monetária aplicado no Brasil, open market, o restante (90%) é direcionado para financiar o 18

19 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 19 Sistema Nacional de Garantias déficit nominal (superávit primário menos juros da dívida interna; neste caso, os juros são maiores que o superávit primário, por isso deficitário) do governo através da emissão de venda de títulos bancários, tendo como resultado uma drástica redução de quantidade de dinheiro em circulação. No entanto, poder-se-ia ter outro instrumento: o depósito compulsório. Neste, para cada R$ 100,00 existente havia o seguinte destino: o banco, por exigência do Banco Central do Brasil (BACEN), poderá emprestar até R$ 47,00, isto porque o restante (R$ 53,00) fica depositado no BACEN, sendo que deste rateio, R$ 45,00 ficam sem remuneração e os R$ 8,00 são remunerados pela taxa SELIC (no período 03/06 operava com a taxa de 16,50% ao ano). Vale salientar que os R$ 47,00 acabam sendo direcionados para compras de títulos públicos, inviabilizando o acesso ao consumo das famílias (incluindo as MPEs) e, consequentemente, reduzindo o PIB, já que elas concorrem com cerca de 3/5 (60% do PIB). Para Sachs (2003), é preciso transcender a uma análise meramente econômica das MPEs e, para avaliação destas, levar especialmente em consideração a sua importância social ligada à função sócio-econômica que exercem, aos encadeamentos que promovem a jusante e a montante, e aos serviços de proximidade que prestam. Ele reitera ainda que as MPEs merecem um estudo aprofundado devido ao fato de elas fazerem parte de um quarto segmento que emerge, considerado como economia solidária 2. Para Singer (2002), a economia solidária é ou poderá ser mais do que mera resposta à incapacidade do capitalismo em integrar sua economia a todos os membros das sociedades desejosos e necessitados de trabalhar. A economia solidária certamente superará, como alternativa do capitalismo, as expectativas fundadas sobre ela. Não exatamente superior em termos econômicos estritos, mas, já que se vale da certeza de que as empresas solidárias viriam a sobrepujar suas congêneres capitalistas, justamente pelo fato de poder oferecer aos mercados, produtos ou serviços melhores em termos de preço e/ou qualidade. Ela foi concebida também para proporcionar às pessoas que possam vir a adotá-la, 2. Segundo Laville (Apud Serva, 2002, p. 168), a economia solidária pode ser apreendida como instituições intermediárias dos dois campos que elas articulam, o campo político e o campo econômico. 19

20 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 20 Ricardo Mello enquanto poupadoras e consumidoras, uma condição não utópica, já que ela representa uma alternativa real de melhoria de vida do contexto da sociedade. Já na economia capitalista de mercado, é preciso distinguir o setor das grandes e médias empresas e o setor das MPEs formais, além das estatais. Este estudo, no Brasil, vai além das cooperativas de crédito, em razão do surgimento de um inédito e vigoroso Sistema de Sociedade de Garantia. Este sistema é difundido mundialmente e tem aplicativos em vários países, onde cada qual adapta uma subdivisão do sistema, já que ele agrupa dois modelos: o Sistema de Garantia Mutualista (onde o empresário é parte direta da sociedade) e o Sistema de Garantia Corporativista (mediante corporações constituídas por entes ou instituições públicas, bancos e associações). Este livro limita-se à análise do Sistema de Garantia Mutualista (SGM) 3, o o qual é denominado no Brasil de Sociedade de Garantia Solidária (SGS). Segundo comentário de Lisboa (2004), as SGSs, eventualmente, poderiam comportar-se como finanças solidárias e, deste modo, fariam parte da produção social da própria economia solidária, incluindo-se num processo socialmente cumulativo. Nele as relações de poder alternariam-se entre associados, banqueiros e governo, através de políticas públicas adaptáveis a novas regras e novos marcos legais. Prepondera como elemento central destas relações o poder da moeda. No caso em questão, as finanças solidárias arrogam-se uma dimensão de meio de pagamento, funcionando tal qual uma nova forma de operacionalização de um sistema de garantia e de crédito. A análise das finanças solidárias, entendidas como um instrumento de democratização do sistema financeiro, introduz-se no campo da economia solidária como um dos elementos de democratização das relações econômicas e também do mercado. A democratização do mercado, além de manter uma relação equilibrada 3. O panorama histórico de finanças solidárias não é recente. Elas datam dos séculos XVIII e XIX, por meio da Lending Charity (concessão de empréstimos de caridade para empreendedores de Londres). O sistema de fundo de empréstimo, no século XIX, na Irlanda, e o sistema de garantia da França, criados, respectivamente, em 1917 e 1929, coincidiram com a desocupação dos bancos dos locais pequenos. Portanto, o berço dos sistemas de garantia, predominantemente, deu-se na Europa. A partir da década de 90 disseminou-se para outras regiões, inclusive a própria América Latina: Argentina, El Salvador, Venezuela e Peru. Atualmente está em fase de transição no Brasil e Uruguai, sendo que o decreto-lei para funcionamento do Sistema de Garantia Mutualista foi aprovado para execução no Chile, em

21 arte sgs ok.qxd 7/11/ :47 Page 21 Sistema Nacional de Garantias entre a oferta e a demanda, leva a novas relações de poder dentro de um complexo sistema inter-relacionado, onde se destacam as vinculações de força estabelecidas entre os entes, sejam individuais ou coletivos, públicos ou privados, formais ou informais. Todos os partícipes, mesmo ocupando diferentes atribuições dentro da estrutura econômica, cumprem várias funções e atividades. Além disso, as finanças solidárias constituem-se como formas de democratização do sistema financeiro por procurar adequar produtos bancários às necessidades básicas da população e fortalecer o trabalho social de cada território. Elas visam priorizar os excluídos do sistema bancário tradicional, interagindo na sustentação de uma relação mais permanente entre economia e sociedade, constituída sob a égide da ética e da solidariedade, ao criar condições para um desenvolvimento humano que necessariamente deva ser integrado e sustentável. Na visão de Mercadante (Apud, Mance, 2000), o papel do Estado na elevação das finanças solidárias, consideraria como essencial, visto que toda e qualquer iniciativa que fosse levada a cabo não surtiria efeito sem o apoio fornecido por ele. O autor ainda acredita que o Estado promoverá ações estratégias, recuperando os mecanismos de fomento ao desenvolvimento e de regulação da economia. Portanto, a forma assumida pelas instituições 4 é fortemente condicionada pelo conteúdo e pela estrutura das relações sociais nas quais a ação econômica está imbricada, ou seja, pela configuração das redes sociais, ou também, pela interação entre Estado, micro e pequenas empresas e bancos (Mattedi, 2005). No Brasil, a SGS consta no Estatuto da MPE (Capítulo VIII, Artigos 25 a 31, regido pela Lei 9841 (05/10/99) e regulamentada pelo decreto número 3474 de 19/05/00), com ínfimas modificações em relação ao anterior (1994). Segundo Sachs (2003), a Constituição Federal de 1988 determina, em seus artigos 170 a 179, um tratamento diferenciado para as MPEs, visando eliminar suas obrigações creditícias. Para Hentz (2001), a SGS (instrumento financeiro), de acordo com a lei, tem personalidade de direito privado. Constitui-se em forma de sociedade 4. Segundo Aurélio (1998), instituições são leis fundamentais que regem uma sociedade política, ou também, conjunto de estruturas sociais estabelecidas pela tradição, especialmente as relacionadas com a coisa pública. 21

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