Um Gerador de Sistemas Tutoriais Inteligentes para Auxílio à Alfabetização em Português

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1 Um Gerador de Sistemas Tutoriais Inteligentes para Auxílio à Alfabetização em Português Ana Célia Rocha Mascarenhas, Marco Aurélio de Carvalho Departamento de Ciência da Computação Universidade de Brasília (UnB) Caixa Postal Brasília DF Brasil {anacelia, Abstract. Brazil is a country with high tax of illiteracy due to many reasons. Reverting this picture is a hard work which involves sorting out a number of problems, among them the students' difficulties of learning. This paper describes a project for developing an Intelligent Tutoring System Generator to test different schemes for teaching literacy in Portuguese. Resumo. O Brasil é um país com alto índice de analfabetismo, por diversos motivos. Reverter esse quadro é um trabalho longo e que no meio do caminho se depara com alguns problemas, entre eles a dificuldade de aprendizado. Este artigo descreve um Gerador de Sistemas Tutoriais Inteligentes para testar diferentes métodos de alfabetização em Língua Portuguesa. 1. Introdução Segundo Emilia Ferreiro (Ferreiro, 2001), o Brasil é um dos países da América Latina que tem reflexões mais prolongadas e profundas em relação ao problema da alfabetização. Apesar de haverem surgido diversos métodos de alfabetização aqui e em outros países, os métodos mais utilizados no Brasil são baseados em fonologia silábica. Será que esse paradigma foi efetivamente testado? A proposta deste trabalho é apresentar o Gerador de Sistemas Tutoriais Inteligentes (STIs) focado no ensino lingüistico de alfabetização para testar os efeitos no processo de aprendizagem. 2. Sistemas Tutoriais Inteligentes Os Sistemas Tutoriais Inteligentes são programas de computador com propósitos educacionais que incorporam técnicas de Inteligência Artificial. Tradicionalmente a arquitetura de um STI é composta de base de conhecimento, interface com o usuário, modelo do estudante e estratégias de ensino (Burns e Caps, 1998). Os STIs têm sido desenvolvidos de diferentes maneiras, entre as quais: Modelo Diferencial, Modelo de Overlay, Modelo de Perturbação, Modelo de Simulação, Modelo Mentalista e Modelo de Agentes. Wenger sugere que a função principal de um STI é agir como um "veículo de comunicação" (Wenger, 1987). Neste projeto a abordagem utilizada é a do "Overlay do Especialista, baseada em uma Árvore do Conhecimento que contém os temas a serem transmitidos, assumindo-se um caminho de percorrimento da esquerda para a direita e de baixo para cima (Carvalho 2000). Essa estrutura é semelhante às organizações hierárquicas tradicionais de livros e ementas de disciplinas, porém supõe-se que o estudante deva, por exemplo, primeiro ler o item 1.1.1, depois o

2 item 1.1.2, depois o item 1.1, depois o item 1.2.1, e assim por diante. A razão disto é que os ítem mais abrangentes (por exemplo, 1.1) englobam todo o conhecimento dos seus subordinados, portanto suas atividades de ensino só devem ser feitas depois que as mais específicas tenha sido concluídas. A escolha da atividade de ensino a ser exercitada em um dado momento leva em conta o conhecimento e avaliações daquele estudante, o que pode provocar um avanço ou um retrocesso no percurso da árvore. Se o estudante não se saiu bem em um particular "ramo" de conhecimento da árvore, as estratégias de ensino podem reabilitar atividades feitas no passado que sejam consideradas como construtores daquele conhecimento. Dessa forma, atividades de ensino de prioridades absolutas maiores passarão a concorrer na próxima escolha, com maior chance de serem indicadas na rodada seguinte. Ademais, pode ser interessante suspender uma atividade recentemente realizada por algum tempo, de forma que ela não venha a ser escolhida de novo nas próximas rodadas. Esse procedimento evita que uma mesma atividade seja executada exaustivamente sem analisar outros pontos, desmotivando o estudante. Segundo Emilia Ferreiro (Ferreiro, 1985), a solução da deficiência na aprendizagem não pode ser obtida através da repetição múltipla, pois o sujeito irá "repetir seu fracasso". O processo de escolha da atividade de ensino chega ao fim quando o estudante percorreu toda a árvore do conhecimento e a avaliação do sistema o considerou com um conhecimento suficiente, próximo ao conhecimento do especialista. 3. Alfabetização A alfabetização, considerada como o inicio do processo de aprendizagem do ser humano, é um dos pontos mais debatidos em educação em todo mundo, havendo grande polêmica em redor dos seus inúmeros métodos. Tradicionalmente classifica-se os métodos de alfabetização na língua portuguesa em analíticos e sintéticos. Os sintéticos partem da parte para o todo e os analíticos, do todo para as partes. Os métodos sintéticos podem se subdividir em alfabético, fonético ou fônico e silábico. O Alfabetico é o método em que o aluno aprende as letras isoladamente, liga as consoantes às vogais, formando sílabas; reúne as sílabas para formar as palavras e chega ao texto. No método fonético ou fônico, o aluno parte do som da letras, une o som da consoante ao som da vogal, pronunciando a sílaba formada. Já no método silábico o aprendizado concentra-se na observação e identificação das sílabas que compõem as palavras, como unidades fonológicas. Estudos realizados por Charles Fries (Fries, 1962) mostram que na maioria dos casos consegue-se sucesso no processo de alfabetização independentemente do método aplicado. Porém, se o método for mais fácil de ser assimilado e decodificado por quem está aprendendo, o aprendizado será mais rápido e eficaz. Grande parte dos métodos de alfabetização usados no Brasil são silábicos, conforme indicações do Referencial Curricular Nacional para Jovens e Adultos do Ministério da Educação. Na língua inglesa, os métodos de alfabetização de maior sucesso são baseados em consciência fonológica (Phonological Awareness), que se apresentou inicialmente

3 como uma solução clínica para pessoas que não conseguiam se alfabetizar, mas que vem gradativamente ganhando espaço em escolas como o principal método de alfabetização (Adams 1996, McGuinness 1997). O maior objetivo deste projeto é oferecer condições de teste e comparação experimental de diversos métodos existentes buscando contribuir para o aprimoramento dos mesmos e gerar novos questionamentos pedagógicos para futuros estudos. 4. O Sistema Essa pesquisa teve sua origem no desenvolvimento de um gerador de tutoriais inteligentes para dar suporte à alfabetização em Língua Inglesa (Carvalho 2000). O sistema foi desenvolvido em Java, podendo ser disponibilizado na Internet. Tal sistema é baseado em uma árvore do conhecimento utilizada para organizar o domínio de conhecimento a ser ensinado, associada com as atividades de ensino e as estratégias de ensino, definidas por um professor especialista. A partir da estratégia de ensino e da árvore do conhecimento decide-se a seqüência das atividades de ensino que deverão ser realizadas pelo estudante, de acordo com o seu desempenho, registrado no modelo do estudante. Desta forma é possível implementar tutoriais inteligentes diferentes, correspondendo a diferentes abordagens de ensino para o mesmo tema, conforme descritas por professores especialistas diversos. Como em um programa de perfil básico de alfabetização não espera-se os estudantes possuam conhecimentos da língua escrita, o projeto prevê a introdução de um sistema de síntese de voz para permitir que o computador simule a fala de textos escritos na língua portuguesa. Sintetizadores texto-fala são programas de computador que admitem como entrada um texto irrestrito escrito em linguagem natural e produzem como resultado o som correspondente à leitura deste texto. Ao ser submetido a um sintetizador texto-fala, um texto passa por uma cadeia de transformações, dando origem a uma série de códigos intermediários antes da obtenção do código final: um sinal de áudio. Dessa forma, na maior parte das vezes o estudante ouvirá exemplos e instruções e interagirá com o computador usando apenas o mouse para clicar palavras, ícones ou letras. As falas do computador são produzidas a partir de estímulos pedagógicos escolhidos pelo sistema tutorial e frases previamente estabelecidas pelo professor especialista, conforme a necessidade para a execução de uma atividade de ensino Problemas Para adaptar o sistema para o ensino de alfabetização em Português do Brasil, está sendo necessário solucionar algumas questões descritas a seguir. O sistema original inspira-se nos Temas Geradores da metodologia de Paulo Freire (Freire, 1970) e considera que na alfabetização deve-se partir de palavras extraídas do universo cognitivo e social do estudante, para despertar efetivo interesse e propiciar pronto uso das habilidades e conhecimentos adquiridos no processo de aprendizagem. Foi, portanto, desenvolvido um método para determinação das palavras a serem usadas no ensino a partir de um grupo pequeno de palavras-chave, denominado conjunto de sementes (seed set), associado com um tema específico. Esse conjunto é

4 usado como argumento de pesquisa em um amplo dicionário legível por computador, visando-se obter um subconjunto de palavras associadas com o tema proposto para compor o vocabulário de estímulos. Até o presente momento, entretanto, não foi disponibilizado ao projeto um dicionário em língua Portuguesa que possa atender aos seus requisitos. Na ausência de tal dicionário, um pequeno vocabulário poderá ser criado, colocando-se manualmente os estímulos requeridos. O segundo problema é a disponibilidade de um sintetizador texto-fala em Português Brasileiro, para transformar texto escrito em áudio. Esses textos serão préprogramados pelo professor como incentivo ou tática de ensino. O sistema Digalo, desenvolvido na França, é um candidato a essa função, porém o projeto ainda não obteve a concessão para seu uso nem o acesso às primitivas operacionais requeridas. Outro sintetizador que poderia ser utilizado é o Sistema Festival, desenvolvido na Universidade de Edimburgo, que é, todavia, baseado no Português falado em Portugal. A próxima alternativa seria a gravação em estúdio das frases, e palavras que o sistema viesse a falar. Tal estratégia seria bem menos flexível, já que alterações no vocabulário de ensino ou em textos explicativos poderia exigir novas gravações em estúdio. A Codificação Fonológica ou Simbologia Fonológica das palavras, é geralmente encontrada em dicionários em língua estrangeira. Porém o mesmo não acontece no Brasil, e os dicionários importantes em Português não trazem essa codificação, exceto alguns dicionários de tradução de língua portuguesa para outros idiomas. Esse recurso é uma peça fundamental para o funcionamento do sistema, pois as palavras usadas como estímulo deverão estar apropriadamente classificadas de acordo com seus atributos fonológicos a nível de fonemas, sílabas, rimas e prefixos. Na impossibilidade de obtenção desses atributos nos dicionários legíveis por máquinas, teremos que fornecer manualmente a codificação fonológica a cada uma das palavras do vocabulário. Isso reduzirá, mais uma vez, a flexibilidade do sistema, pois a agregação ou mudança de vocabulário (por exemplo, para adaptar a outra comunidade) deverá ser acompanhada pelo fornecimento da codificação fonológica de todas as novas palavras. 5. Conclusão A Inteligência Artificial Aplicada à Educação possui várias técnicas para oferecer novos meios de ensino utilizando Sistemas Tutoriais Inteligentes. O dilema da eficácia dos métodos de alfabetização é grande e utilizar um método inadequado ou ultrapassado pode dificultar o processo de aprendizagem. A implantação de métodos analíticos e sintéticos em um sistema adequando para as limitações pessoais de um analfabeto já é uma grande contribuição para a alfabetização. Como o sistema pode assumir o método de ensino descrito pelo professor especialista, se alguns grupos de alfabetização utilizarem o sistema com métodos diferentes, além de oferecer um auxilio para a alfabetização fornecerá a oportunidade de comparar os efeitos do desempenho na prática do perfil básico de alfabetização. O objetivo desta pesquisa, uma vez concluída a adaptação do sistema para o Português, é o de testar experimentalmente com grupos de crianças em idade de préalfabetização os efeitos do uso de diferentes sistemas tutoriais inteligentes como acessórios coadjuvantes ao ensino convencional de alfabetização. Dessa forma,

5 pretende-se separar um grupo para aprender com o auxílio do sistema utilizando consciência fonológica das palavras, outro grupo utilizando metodologia silábica e comparar o progresso desses dois grupos entre sí e com um grupo de controle usando computador com um programa não relacionado com alfabetização. A análise deverá considerar se houve melhora na aprendizagem a partir do uso do sistema, e qual dos grupos progrediu mais. Convém observar que os grupos deverão ser compostos por crianças de nível socio-econômico, cultural, e faixa etária equivalentes, e que sejam preferencialmente originários de mesma região geográfica. Poderão ser realizados outros testes com diferentes métodos de alfabetização. O foco inicial nesses dois métodos justifica-se porque os métodos silábicos são muito utilizados no Brasil e os métodos de Consciência Fonológica das palavras vem progressivamente provando melhor desempenho no processo de aprendizado na língua inglesa. Referências Adams, Marilyn Jager(1996) Beginning to read Thinking and Learning about Print London: MIT Press Black, A. W. Taylor, P., and Caley, R. (1998). The Festival Speech Synthesis System. System documentation, Centre for Speech Technology Research Universidade de Edinburgh. Burns, H. L. e Capps, C. G. (1988). Foundations of intelligent tutoring systems: An introducion. In Polson, M. C. and Richardson, J. J., editors, Foundations of Inteligent Tutoring Systems, cap. 1, páginas Lawrence Erlbaum Associates Publishers, Hillsdale, New Jersey. Carvalho, Marco Aurélio, (2000) Generating Intelligent Tutoring Systems for Teaching Reading: combining phonological awareness and thematic approaches. Universidade de Edimburgo, Edimburgo. Elan Informatique (2000) Digalo Ferreiro, Emilia e Teberosky Ana, (1985) Psicogênese da língua escrita. Editora Artes Médicas, Porto Alegre Ferreiro, Emilia (2001) Meu trabalho não é um método, Nova Escola, Editora Abril, São Paulo, Edição Nº139 Freire, Paulo (1970) Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra. Fries, C. C. (1962). Liguistics and Reading. Holt, Rinehart and Winston, Inc., Nova York Macedo, R. V. G., Blume, L. R., Rigolino, A. T. B., Milléo, N. M., Prado, N. P. Z. Referencial Curricular Nacional para Jovens e Adultos, Ministério da Educação McGuinness, Diane, (1997) Why Our Children Can t. The Free Press, New York, 1st edition Wenger, E., (1987) Artificial Intelligence and Tutoring Systems, Morgan Kaufmann Publishers, Inc.

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