PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP. Flávio Morgado

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1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Flávio Morgado Confiança na comunicação de informações econômico-financeiras: o caso das empresas de autogestão Tese apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a orientação do Prof. Doutor Rogério da Costa. São Paulo 2008

2 Banca Examinadora

3 DEDICATÓRIA Aos meus queridos pais, José e Maria, à minha amada esposa Célia, e ao meu filhão, Pietro.

4 AGRADECIMENTOS Ao meu orientador, Prof. Dr. Rogério da Costa, por explicar de forma tão clara temas espinhosos (incluindo Espinosa), e por ter me apresentado, por meio de sua pesquisa, às questões que hoje fazem parte desta tese: capital social, inteligência coletiva, redes sociais e confiança. À professora Dra. Maria Cristina Sanches Amorim, membro da banca de qualificação, que continua me orientando, desde o mestrado, pela confiança na capacidade deste autor de cumprir a tarefa aqui apresentada. Ao professor Dr. Fernando Antônio de Castro Giorno, membro da banca de qualificação, pelo aprendizado no dia-a-dia de trabalho, de vários assuntos, muito além dos acadêmicos. À professora Dra. Sonia Maria Portella Kruppa, pelo entusiasmo e orientações sobre Economia Solidária, e pelas portas abertas para interlocutores importantes. À professora Dra. Clarice Assalim, que fez a revisão deste trabalho, com o mesmo carinho que tem mostrado nesses muitos anos de amizade. À professora Dra. Maria Helena Villar e Villar, especialista em formação para autogestão, com que tenho trabalhado em parceria, e que fez a revisão dos resultados da pesquisa. À querida professora de inglês, Svetlana Ponomarenko Lázaro, por esse e outros abstracts, e por ser um exemplo de dedicação à docência. Ao Sr. Luigi Humberto Verardo, da ANTEAG, pelas discussões enriquecedoras e entusiasmadas sobre formação em autogestão.

5 Ao Sr. José Reitor Rizzardi, assessor jurídico da ANTEAG, pela acolhida em Avaré e pela forma engajada e compromissada com que trata os marcos legais e a organização das cooperativas. À Srta. Maria de Lourdes Roder, presidente e gestora da CooperJeans, em Arandu, São Paulo, pelos valiosos esclarecimentos sobre a prática da gestão de cooperativas, incluindo assuntos considerados tabu, como o da confiança nos números do negócio. Ao Sr. Aguinaldo Luiz de Lima, assessor técnico da UNISOL e membro do NAPES Núcleo de Ação e Pesquisa em Economia Solidária, da Cáritas, pelos esclarecimentos sobre a contabilidade de cooperativas. À Sra. Ana Beatriz Baron Ludvig e à Srta. Renildes Comandolle, da Bruscor, em Brusque-SC, pela cuidadosa atenção a mim dispensada e pelos valiosos esclarecimentos sobre o modo de operar da autogestão, de fato. Aos professores Dr. Elmir de Almeida, Joel Pelissaro, Dra. Maria Helena Villar e Villar, Dra. Marilena Nakano e Odair de Sá Garcia, do Núcleo de Estudos de Autogestão e Economia Solidária da Fundação Santo André, pelos momentos de reflexão sobre modelos de autogestão, sustentabilidade da Economia Solidária e formação em autogestão, com muito humor.

6 O sol é o melhor desinfetante. Louis Brandeis (juíz americano, sobre a necessidade de transparência no sistema financeiro) Nada é tão incapaz de causar uma boa impressão quanto o comportamento destinado a impressionar. Jon Elster (no livro Sour Grapes, sobre a subversão da racionalidade)

7 RESUMO Título: Confiança na comunicação de informações econômico-financeiras: o caso das empresas de autogestão Autor: Flávio Morgado Após os escândalos financeiros ocorridos em 2001, quando a confiança no mercado financeiro foi questionada, a questão da governança corporativa passou a fazer parte da agenda dos acionistas e demais envolvidos empresas clientes e fornecedoras, governo, investidores individuais, fundos de pensão e sociedade em geral principalmente com as demonstrações financeiras e com a auditoria a que eram submetidas. As demonstrações financeiras podem ser consideradas sistemas peritos, que são sistemas de excelência técnica ou competência profissional, sobre os quais não se conhece e não se pode conferir a maior parte dos fundamentos (códigos de conhecimento) que regem seu funcionamento. Confia-se, tem-se fé, não tanto em suas competências, mas na autenticidade do conhecimento perito, baseado na experiência e na regularidade no funcionamento desses sistemas, além das forças reguladoras, que visam à proteção dos usuários. O objetivo deste trabalho é estabelecer critérios para a criação de confiança no processo de comunicação de informações econômicofinanceiras. A pesquisa insere-se no campo da comunicação organizacional. A metodologia utilizada foi a dos múltiplos estudos de caso, envolvendo os componentes do processo de comunicação contábil, em empresas de autogestão. O emissor, a mensagem e o canal foram avaliados quanto à confiabilidade (ser merecedor de confiança). O receptor foi avaliado quanto à confiança (o ato de confiar). Os resultados mostraram a importância da transparência na divulgação das informações, aliada a controles internos efetivos, como requisito para a autogestão e para a democracia interna. Mostraram também as dificuldades dos trabalhadores em empresas de autogestão de se apropriarem do conhecimento sobre gestão, comprometendo, assim, a questão da participação. Outra constatação é que a confiança também é produto do ambiente institucional da autogestão e da Economia Solidária, que tem a confiança como princípio. Palavras-chave: Comunicação, Confiança, Sistemas peritos, Autogestão, Governança corporativa

8 ABSTRACT Title: Trust on the communication of economic and financial information: the case of self management enterprises. Author: Flávio Morgado After the financial scandals which occurred in 2001, when confidence in the financial market has been questioned, the issue of corporate governance has become part of the agenda of the shareholders and stakeholders - corporate customers and suppliers, government and individual investors, pension funds and society in general - especially with the financial statements and the audit to which they were submitted. The financial statements can be considered expert systems, which are systems of technical excellence and professional competence on which we do not know and we can t give most of the reasons (codes of knowledge) governing its operation. It s taken for granted; there is faith, not so much in their competences, but the authenticity of expert knowledge, based on experience and regularity in the operation of these systems, in addition to the regulatory forces, which aim at protecting users. The objective of this work is to establish criteria for the creation of confidence in the communication process of economic-financial information. The research is inserted in the field of organizational communication. The methodology used was that of multiple case studies, involving the components of the accounting communication process in self management enterprises. The sender, the message and channel were evaluated for reliability (be worthy of trust). The receiver was evaluated as to the trust (the act of trust). The results showed the importance of transparency in the dissemination of information, combined with effective internal controls as a requirement for self management and for internal democracy. The also showed the difficulties of workers in self management enterprises, of knowing about management, undermining thus the question of participation. Another observation is that trust is also the product of self-management and institutional environment for Solidarity Economy which has the confidence as a principle. Key-words: Communication, Trust, Expert systems, Self management, Corporate Governance

9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Ilustração 1 Mapa conceitual do trabalho Ilustração 2 Modelo de comunicação de Shannon e Weaver Ilustração 3 Modelo de comunicação de Gerbner Ilustração 4 Modelo de comunicação de Newcomb Ilustração 5 Modelo de Westley e MacLean Ilustração 6 - Fatores constitutivos da comunicação (Jakobson) Ilustração 7 - As funções da comunicação (Jakobson) Ilustração 8 Elementos dos processos em geral Ilustração 9 Processo de comunicação contábil Ilustração 10 Uma hierarquia de qualidades em Contabilidade (SFAC 2) Ilustração 11 - Modelo de Shannon e Weaver adaptado para autogestão Ilustração 12 Modelo de Newcomb aplicado às empresas de autogestão Ilustração 13 Modelo de Westley e MacLean adaptado à informação contábil Ilustração 14 Confiabilidade e confiança no processo de comunicação Ilustração 15 Modelo de contabilidade multidimensional Ilustração 16 Fluxo de caixa de uma empresa Ilustração 17 - Assembléia da Cooperbrim

10 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Tipos de confiança Quadro 2 Indicadores Institucionais de Autogestão Quadro 3 Indicadores Comportamentais de Autogestão Quadro 4 Situações relevantes para diferentes estratégias de pesquisa Quadro 5 Dimensões contábeis e seu conteúdo LISTA DE TABELAS Tabela 1 Quantidade e percentual de EES por unidade da federação/região Tabela 2 Cálculo de retiradas

11 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABM / ABC Activity-Based Management / Activity-Based Costing. ADR American Depositary Receipts. AGO Assembléia Geral Ordinária AICPA The American Institute of Certified Public Accountants ANTEAG Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de AutoGestão e Participação Acionária BOVESPA Bolsa de Valores de São Paulo BSC Balanced ScoreCard. CAF Conselho de Administração e Finanças da PUC-SP CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CFC Conselho Federal de Contabilidade CRC Conselho Regional de Contabilidade CLT Consolidação das Leis do Trabalho CMMI Capability Maturity Model Integration. COBIT Control Objectives of Information and Related Technology. COS Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP COSO Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission. CRC Conselho Regional de Contabilidade CVM Comissão de Valores Mobiliários. EDI Eletronic Data Interchange. ERP Enterprise Resource Planning. Fed Federal Reserve System GAAP Generally Accepted Accounting Principles. IASB International Accounting Standards Board.

12 IBASE Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas IBGC Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. IFRS International Financial Reporting Standard. IPO Initial Public Offering. ITIL Information Technology Infrastructure Library. MBA Master in Business Administration MTE Ministério do Trabalho e Emprego. Nasdaq National Association of Securities Dealers Automated Quotations system. NBC Norma Brasileira de Contabilidade NYSE New York Stock Exchange. PACS Políticas Alternativas para o Cone Sul, ou, na interpretação da própria entidade Participação, Autogestão, Cooperação e Solidariedade. PNQ / ProEsQ Plano Nacional de Qualificação / Projetos Especiais de Qualificação VMI Vendor Managed Inventory. SEC Securities and Exchange Commission. SENAES Secretaria Nacional de Economia Solidária. SFAC Statements of Financial Accounting Concepts. TCO Total Cost of Ownership UNISOL Brasil União e Solidariedade das Cooperativas e Empreendimentos de Economia Social do Brasil

13 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 19 Relevância do tema 20 Motivação para o trabalho 22 Objetivo do trabalho 24 Método de trabalho 24 Organização do trabalho 27 Mapa conceitual do trabalho 29 PARTE I CONFIANÇA E COMUNICAÇÃO CONFIANÇA Tipos de confiança e suas características Vantagens da confiança e da confiabilidade Falta de confiança A transparência na divulgação de informações O contexto mais amplo da confiança A confiança em sistemas abstratos Confiança e risco O PROCESSO DE COMUNICAÇÃO A comunicação humana Teorias da comunicação O processo de comunicação de informações econômico-financeiras GOVERNANÇA CORPORATIVA Accountability Controles e regulamentações Tecnologia da Informação e governança corporativa 84 PARTE II ECONOMIA SOLIDÁRIA E AUTOGESTÃO ECONOMIA SOLIDÁRIA E AUTOGESTÃO Economia Solidária Autogestão Transparência das informações Formação em Economia Solidária Indicadores de autogestão CONTABILIDADE NA ECONOMIA SOLIDÁRIA Contabilidade em cooperativas 107

14 5.2. Inserção da contabilidade nas empresas de autogestão 112 PARTE III PESQUISA DE CAMPO, RESULTADOS E PROPOSTAS METODOLOGIA DA PESQUISA DE CAMPO Hipóteses ou premissas do trabalho Qualidade da pesquisa Protocolo para o estudo de caso RESULTADOS OBTIDOS E PROPOSTAS Entrevistas e observações Análise dos modelos de comunicação processuais O território do emissor O território do canal e da mensagem O território do receptor CONSIDERAÇÕES FINAIS 165 REFERÊNCIAS 167 WEBOGRAFIA 175 GLOSSÁRIO 177 ÍNDICE REMISSIVO 180 APÊNDICE A QUESTIONÁRIOS DA PESQUISA 182 ANEXO A TRECHOS DA LEI DO COOPERATIVISMO 185 ANEXO B OBRIGAÇÕES ADICIONAIS À LEGISLAÇÃO (BOVESPA) 191

15 19 APRESENTAÇÃO Após os escândalos financeiros que ocorreram em 2001, envolvendo a Enron e outras grandes corporações norte-americanas, em que a confiança no mercado financeiro foi questionada (Carvalho e França, 2002), a governança corporativa passou a fazer parte da agenda do mundo corporativo acionistas e demais envolvidos, como empresas clientes e fornecedoras, governo, investidores individuais, fundos de pensão e sociedade em geral surgindo a preocupação com a confiança nas demonstrações financeiras e na auditoria a que eram submetidas. Segundo Imhoff (2003), no regime de demonstrações financeiras americano, principalmente devido aos bônus em dinheiro e às opções de compras de ações, dados aos executivos em função dos resultados contábeis, estes tendem a manipular resultados financeiros ou atrasar ou esconder notícias ruins. Demonstrar pode ter o sentido de tirar monstros, finalidade que as demonstrações financeiras muitas vezes não cumprem, contribuindo, pelo contrário, para criar mais monstros na imaginação dos que precisam entendê-las para tomar decisões. Isto porque as demonstrações financeiras se enquadram no grupo dos sistemas peritos ou abstratos. Em 2008, os Estados Unidos defrontam-se com mais uma crise séria, em grande parte devida à falta de fiscalização sobre instrumentos financeiros extremamente especulativos, e se preparam para o ajuste regulatório mais sério em sete décadas (após o crash de 1929). Esse ajuste ampliará os poderes do Fed (Banco Central Americano), apesar da dúvida sobre se leis mais duras teriam impedido a crise atual (Guandalini, 2008, p. 78). Os sistemas de gestão e de demonstrações financeiras podem ser considerados sistemas peritos (ou especialistas), que são sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje (GIDDENS, 1991, p. 35). Não se conhece e não se pode conferir a maior parte dos fundamentos (códigos de conhecimento) que regem seu funcionamento. Porém, confia-se, tem-se fé, não tanto em suas competências, mas na autenticidade do conhecimento perito.

16 20 Os sistemas peritos dependem de uma fé pragmática, baseada na experiência que mostra certa regularidade no funcionamento de tais sistemas. Além disso, existem forças reguladoras que protegem os consumidores, como as agências governamentais, as associações profissionais, os órgãos de defesa dos consumidores etc., que certificam profissionais, licenciam máquinas, vigiam a utilização de padrões, ou seja, dão autenticidade a esses sistemas. O modo de comunicação das demonstrações financeiras (contas e grupos de contas, saldos reais e previstos, critérios de classificação, de rateios, notas explicativas etc.) deve gerar confiança nos públicos a que se destinam. As empresas de autogestão, estudadas neste trabalho, devido aos pressupostos do contexto a que pertencem, o da Economia Solidária, deveriam ter mecanismos de participação dos trabalhadores associados, apoiados por controles internos efetivos e canais de comunicação transparentes e democráticos, em que a apropriação das técnicas de gestão fosse uma prática comum. Relevância do tema Um exemplo inicial da relevância do tema é a Lei Sarbanes-Oxley, criada em 2002, nos Estados Unidos, como reação aos prejuízos causados pelas fraudes de 2001, e que visa à governança corporativa, ou seja, dar aos processos de negócio transparência e segurança contra fraudes. A adequação à lei é obrigatória para todas as companhias norte-americanas e suas subsidiárias que tenham ações nas bolsas americanas. Iniciativas como essa também são acompanhadas pela busca de padrões contábeis, como o US GAAP (Generally Accepted Accounting Principles in the United States) e o IFRS (International Financial Reporting Standard), que são conjuntos de pronunciamentos de contabilidade publicados por órgãos da área como o FASB (Financial Accounting Standards Board) e IASB (International Accounting Standards Board). No Brasil, o Banco Central e a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) estão normatizando a questão, e estabeleceram que as instituições financeiras e as companhias abertas deverão apresentar as demonstrações consolidadas de 2010, comparativamente a 2009, seguindo as normas internacionais (RAMON, 2007).

17 21 Com o crescimento das empresas e a conseqüente complexidade de sua organização, parece também haver mais necessidade de atender à demanda de informações por parte de investidores e credores. A liquidez em Bolsa e a inclusão em níveis diferenciados de governança corporativa também estão positivamente associadas à quantidade de informações financeiras disponibilizadas pelas empresas (Mendes da Silva e Magalhães Filho, 2005), embora, conforme esses autores, contrariando as expectativas, o retorno anual das ações dessas empresas tenha se revelado negativamente associado à quantidade de informações disponíveis no website corporativo. Um estudo conduzido pela Business Week Magazine (apud PRICE/SAP, 2005b, p. 4), identificou uma correlação entre governança corporativa e retorno financeiro. Um estudo correlato da McKinsey (Idem, p. 4) revelou que falhas de conformidade (compliance) têm impacto negativo nos analistas, investidores e agências classificadoras, e, por conseqüência, no preço das ações. Esse estudo mostrou que 80% dos investidores estariam dispostos a pagar um preço maior por ações de empresas com governança efetiva. Segundo a agência Moody s (apud PRICE/SAP, 2005b, p. 4), baixos ratings de crédito são uma das conseqüências de falhas graves nos controles internos sobre demonstrações financeiras, como, por exemplo, práticas inadequadas de avaliação de riscos. Napolitano (2007, p.164) observou que têm feito sucesso, entre os investidores brasileiros, os fundos de ações socialmente responsáveis, que doam parte de seus ganhos a projetos sociais e de preservação ambiental, ou aplicam em ações de empresas com boa governança corporativa. Porém, esses investimentos têm dado retorno apenas regulares o que mais rendeu no período de novembro de 2006 a outubro de 2007, o Ethical II, do ABN-Amro, só empatou com o Ibovespa (que tem empresas em comum com esse fundo na carteira), o que também pode revelar uma tendência dos consumidores de admitir ganhar na média, mas manter a escolha, como, por exemplo, pagar mais por produtos de empresas que façam a compensação de carbono etc. Em outro trabalho, Rezende (2006) confirma a hipótese de que a rentabilidade desses fundos é semelhante aos outros fundos de ações, porém as empresas que integram esses fundos possuem melhor performance que as empresas que não são consideradas socialmente responsáveis, segundo os critérios de seleção dos fundos de investimento socialmente responsáveis.

18 22 A questão, sempre presente, é a da convivência, em uma economia capitalista, de empresas com características diferenciadas desta Economia Solidária, Empresas de Autogestão, Comércio justo, Empresa Verde, Empresa Amiga da Criança, Melhores Empresas para se Trabalhar etc. e sua atuação no mercado, competitividade e as possibilidades de uso de soluções mais complexas (reengenharia, terceirização, offshoring, fusões e aquisições etc). Motivação para o trabalho A motivação para o trabalho são as várias experiências do autor com sistemas informatizados de informações gerenciais e contábeis, com o desafio de gerar, por meio desses sistemas, relatórios e demonstrativos transparentes, corretos e inteligíveis por diversos públicos, ou seja, com requisitos de confiabilidade. Seguem algumas dessas experiências: Participação no desenvolvimento do Sistema de Gestão da Comunicação (interna e externa) do Itaú, baseado na implantação, nos moldes do Bank of America, de um código de divulgação voluntária (voluntary disclosure); Nesse trabalho foram levantados os conceitos, os termos e o processo de comunicação interna e externa e foram produzidos um glossário dos termos usados nas comunicações e um catálogo das comunicações, contendo emissores, receptores, conteúdo, periodicidade, meio e autoridade; Participação na elaboração de projeto de pesquisa, visando a um sistema para gestão de orçamento público por comunidades organizadas, no município de Mauá. Este projeto, caso fosse aprovado, poderia resultar em uma ferramenta de grande valia para o conceito de Orçamento Participativo (democracia baseada na informação); Desenvolvimento, para o grupo Pirelli, de um módulo de demonstrações financeiras baseado no conceito de correção integral de balanço, que permitia um melhor entendimento dos números em regimes de alta inflação; Participação de um grupo de estudo de Economia Solidária, na Fundação Santo André, que estudava, entre outros temas, as demonstrações financeiras de empresas de autogestão, baseado na necessidade de entendimento e

19 23 transparência dos dados para todos os associados da empresa. Nesta época, esse autor preparou um módulo sobre Marketing para um MBA (Master in Business Administration) específico para empresas de autogestão, coordenado pela ANTEAG Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de AutoGestão e Participação Acionária; Elaboração de dissertação de mestrado, na PUC-SP, sobre o impacto causado nos funcionários administrativos devido à reengenharia de processos e a implantação de sistemas ERP, em que a comunicação da mudança era um fator crítico; Participação na criação de sistema de custeio por atividade na Fundação Santo André, visando ao conhecimento dos custos de cada curso ou projeto. Esse sistema de custeio permite mais transparência para o processo de comunicação das informações e evita rateios por critérios pouco claros. O maior conhecimento do processo produtivo (atividades) é um dos ganhos desse sistema de custeio; Análise, discussão e elaboração de pareceres sobre criação e reformulação de cursos de graduação, a partir de projeções de receitas, custos, despesas, evasão etc., feitos para o CAF (Conselho de Administração e Finanças) da PUC-SP. Esses pareceres são utilizados para verificação de viabilidade econômica e para decisões vitais para esses cursos, como o valor da mensalidade, que devem ser tomadas com números corretos e confiáveis; Análise de sistemas informatizados para apuração de contas na área de saúde, nos quais está sempre presente a desconfiança, por parte das fontes pagadoras (seguradoras, convênios médicos e convênios autogeridos), sobre os lançamentos feitos pelos operadores (hospitais, médicos, empresas de diagnósticos etc.); Ensino de empreendedorismo e sistemas de gestão no Curso de Bacharelado em Ciência da Computação, da PUC-SP, contendo um módulo sobre sistemas de informação contábeis, que visa preparar os alunos para compreender as principais demonstrações financeiras e sua utilidade para a tomada de decisão.

20 24 Em todos esses trabalhos, o desafio sempre foi o de utilizar uma linguagem que criasse confiança nos usuários das informações, de modo a eliminar os monstros criados na cabeça destes, por terem de lidar com sistemas que eles não dominavam, mas que os afetava de forma direta e relevante. Objetivo do trabalho O objetivo deste trabalho é analisar os modos de geração de confiança no processo de comunicação de informações econômico-financeiras (balanços, resultados, fluxos de caixa, orçamentos, planejamento estratégico etc.), feitas pelos produtores dessas informações (contadores, controllers, gerentes financeiros), para um tipo específico de usuário, que são os associados, ou cooperados, de empresas de autogestão. O objeto de estudo será o processo comunicativo dessas informações nas empresas de autogestão. O objetivo é obter critérios ou uma metodologia para produção e disseminação de demonstrativos que possam gerar confiança da parte dos receptores e confiabilidade do processo de comunicação. A confiabilidade no processo de comunicação daria maior credibilidade ao modo de operar da Economia Solidária, principalmente à autogestão. A confiança no processo, por parte dos receptores das informações, propiciaria um ambiente com menores custos de transação e maiores possibilidades de desenvolvimento. Método de trabalho A revisão da literatura contempla os seguintes grupos de referências teóricas: Sobre confiança, serão utilizadas, principalmente, as seguintes referências: Robert C. Solomon e Fernando Flores (2002), sobre os fundamentos da confiança e sobre a criação da confiança autêntica; Eduardo Gianetti da Fonseca (2003), sobre as modalidades de malentendidos;

21 25 Francis Fukuyama (1996), sobre a prosperidade gerada nas sociedades baseadas na confiança; Richard Sennett (2000), sobre a crise de confiança e do caráter devido ao capitalismo flexível; Anthony Giddens (1991), quanto à confiança em sistemas abstratos, ou sistemas especialistas (peritos), que será visitada devido ao fato de as demonstrações financeiras poderem ser enquadradas nessa categoria; Peter Bernstein (1997), sobre o risco e sua relação com a confiança; Jürgen Habermas (2000) sobre a confiança como uma das características da modernidade. Sobre a comunicação verbal (oral e escrita), principalmente quanto ao processo de comunicação (emissor receptor mensagem código meio), serão utilizadas as seguintes referências: Lucia Santaella (2001), sobre as teorias, modelos e âmbitos da pesquisa em comunicação; John Fiske (2005), sobre os modelos do processo de comunicação; Armand e Michele Mattelart (2008), sobre a história das teorias da comunicação; Antonio Hohlfeldt, Luiz C. Martino e Vera Veiga França (2001), sobre conceitos, escolas e tendências da comunicação; José Maria Dias Filho (2001) e em conjunto com Masayuki Nakagawa (2007), sobre a compreensibilidade da informação contábil (problemas de evidenciação), à luz da Teoria Semiótica e da Comunicação; Sobre governança corporativa, conformidade (compliance) e um ambiente de negócios mais regulamentado (Lei Sarbanes-Oxley, Novo Mercado da BOVESPA, ITIL, COBIT etc.), serão utilizadas, principalmente, as seguintes referências:

22 26 Publicações das maiores empresas de consultoria e auditoria, como a PriceWaterhouseCoopers (2008), Deloitte (2003 e 2004) e KPMG Risk Advisory Services (2008); Publicações da BOVESPA (2008) sobre níveis de governança e o novo mercado; Masayuki Nakagawa (2007), sobre accountability (prestação de contas). Sobre autogestão, que é o modelo administrativo usado pelas empresas da Economia Solidária, cujas demonstrações devem seguir os pressupostos de transparência e confiabilidade, serão utilizadas, principalmente, as seguintes referências: Edir Antonia de Almeida (2006) e Valdir Michels (1995 e 2000), sobre as características específicas das finanças e da contabilidade de empresas de autogestão, cooperativas e da Economia Solidária; Paul Singer (2000), sobre Economia Solidária no Brasil; Publicações de entidades de apoio, de pesquisa e de órgãos governamentais, sobre autogestão e Economia Solidária, como a ANTEAG Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de AutoGestão e Participação Acionária (2004, 2005 e 2006), IBASE / ANTEAG (2004) e MTE / SENAES - Ministério do Trabalho e Emprego / Secretaria Nacional de Economia Solidária (2006). A metodologia de pesquisa será a dos múltiplos estudos de caso, em empresas de autogestão e entidades de apoio técnico a essas empresas. Ela prevê a formulação teórica anterior ao trabalho de campo, que será feita mediante a utilização de um protocolo de estudo de caso. Serão feitos levantamentos de documentos e entrevistas no território do emissor de comunicações econômico-financeiras (contadores, administradores financeiros etc.) para observar a confiabilidade do processo, mediante a utilização de regulamentações e critérios de evidenciação. Serão também feitas observações no território dos receptores (usuários) desse tipo de comunicação (associados / cooperados, gestores de outros setores não financeiros), para observar a imputação de confiança nas informações que

23 27 recebem, e quanto dessa confiança é devido ao processo de comunicação ou a outros fatores ligados à constituição da empresa. As entrevistas com representantes de entidades de apoio técnico à Economia Solidária, à Autogestão e às Cooperativas serão importantes para captar os problemas desse tipo de empresa, vistos sob a óptica dos pesquisadores do tema, formadores de quadros, mediadores políticos etc. O levantamento será complementado com o aproveitamento de dados secundários, oriundos de outras pesquisas efetuadas em cooperativas, nas categorias de análise que mantêm alguma relação com este trabalho, como a participação dos associados nas decisões, o processo de comunicação, o uso de informações contábeis etc. A análise dos levantamentos deste trabalho permitirá a proposição de processos de comunicação de informações econômico-financeiras que sejam confiáveis e que gerem confiança nos diversos públicos a que elas se destinam. Organização do trabalho Na parte I serão estudados os fundamentos teóricos da confiança, do processo de comunicação e da governança corporativa, com os seguintes capítulos: O capítulo 1 tratará da questão da confiança (ato de confiar) e confiabilidade (ser confiável) e dos processos de construção da confiança autêntica, mais efetiva que a confiança simples e que a cega. Serão também abordadas as vantagens da confiança e os problemas da desconfiança para a sociedade e para as empresas. A teoria dos sistemas abstratos (sistemas peritos) será útil para entender os mecanismos desse tipo de sistemas para que possa, posteriormente, ser aplicada às demonstrações financeiras; O capítulo 2 delimitará o trabalho no campo da comunicação, concentrandose na análise do processo de comunicação, nos seus diversos territórios (emissor, mensagem, meio, receptor), principalmente naqueles em que as informações econômico-financeiras sejam o objeto;

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