Cultura do empreendedorismo como modelo de autogestão: a busca da felicidade na construção discursiva da série 3 Teresas 1

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1 Cultura do empreendedorismo como modelo de autogestão: a busca da felicidade na construção discursiva da série 3 Teresas 1 Sílvia Dantas 2 Universidade de São Paulo, USP Resumo A partir da pesquisa recém-iniciada, esse trabalho busca uma aproximação com a série 3 Teresas, exibida pelo canal por assinatura GNT desde Com abordagem qualitativa amparada pela Análise de Discurso de linha francesa, trata-se de um estudo de caso que se delineia a partir do discurso teledramatúrgico e tem por objeto privilegiado a enunciação feminina, buscando analisar a produção de sentidos a partir da construção discursiva em que a busca da felicidade é norteadora. O referencial teórico se lastreia principalmente em Bauman (2005, 2008); Douglas e Isherwood (2004); Ehrenberg (2010); Freire Filho (2010, 2011); Slater (2002) e Orlandi (2009). Palavras-chave: Teleficção seriada; consumo; identidade; felicidade; 3 Teresas. Identidade, felicidade e consumo: uma breve discussão A questão da crise das identidades na contemporaneidade tem sido estudada por diversos autores sob diferentes primas. Uma das obras mais relevantes a respeito do tema é a de Hall (2006), em que ele apresenta três concepções de identidade: sujeito do Iluminismo (autocentrado), sujeito sociológico (relacional) e sujeito pósmoderno (fragmentado). A partir dessa última noção, ele salienta que: 1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 01: Comunicação e consumo: cultura empreendedora e espaço biográfico, do 4º Encontro de GTs - Comunicon, realizado nos dias 08, 09 e 10 de outubro de Doutoranda em Ciências da Comunicação pelo PPGCOM-USP, mestra em Comunicação e Práticas de Consumo pelo PPGCOM-ESPM/SP. Bolsista CAPES. Pesquisadora do Centro de Estudos de Telenovela (CETVN/ECA-USP) e do Observatório Ibero-americano de Ficção Televisiva (OBITEL).

2 à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar ao menos temporariamente. (HALL, 2006, p.13). Dessa forma, a identidade deve ser vista como um processo, que vai mudando ao longo do tempo. No mesmo sentido, Bauman (2008) reconhece que na atualidade a identidade seria um trabalho contínuo, uma pena perpétua de trabalhos forçados, vista como uma atividade auto-propulsora e auto-estimulante (BAUMAN, 2008, p.142). Isso fica ainda mais evidente quando se observa o contexto de mudança permanente marcante da sociedade de consumidores, que contrasta com a antecessora sociedade de produtores (era sólido-moderna), em que a segurança, a solidez e a durabilidade eram os principais valores. A sociedade de consumidores evoca o desfrute imediato de prazeres e a urgência como motores de um movimento sem fim, em que há a promoção da novidade e a desvalorização da rotina, como nos mostra Bauman (2008). Para ele, O anseio por identidade vem do desejo de segurança, ele próprio um sentimento ambíguo. [...] Em nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo livremente flutuante, desimpedido, é o herói popular, estar fixo ser identificado de modo inflexível e sem alternativa é algo cada vez mais malvisto. (BAUMAN, 2005, p. 35) Na medida em que a ancoragem nas grandes instituições cede lugar ao poder do mercado, o consumo emerge como atividade significativa que contribui para a formação da identidade. Consumir e reinventar identidades a partir dos bens passa a ser o imperativo desses novos tempos: os indivíduos são obrigados a escolher, construir, manter, interpretar, negociar, exibir quem eles devem ser ou parecer, usando uma variedade fantástica de recursos materiais e simbólicos (SLATER, 2002, p.87). Nesse sentido, Birman (2010) aponta que, na nova ordem neoliberal, o Estado perde posição de mediador e regulador do espaço social e o mercado se potencializa, tendo na produção de consumidores o interesse principal do novo capitalismo. Com a fragilização das instituições, cresce a busca por novas referências, de forma que o cultivo da alma cede lugar ao cultivo do corpo e ao hedonismo: a articulação entre a autonomia concedida ao indivíduo e o cultivo da qualidade de vida

3 e da autoestima deste delineia o fundamento moral do projeto da produção da felicidade na contemporaneidade (BIRMAN, 2010, p.37). Como França (2010) enfatiza, a busca pela felicidade [...] não significa um movimento imanente, um clamor interno dos indivíduos; ela é estimulada e é formatada pela sociedade (p.217). A autora ressalta que a partir do fim do século XX, a felicidade ganha novos contornos, deixando de ser uma questão coletiva e passando a uma dimensão individual: Marcada pela urgência, ela se torna também um problema e uma construção de cada um. [...] é resultado de um investimento pessoal. Esta é a privatização da felicidade que alcançamos nas últimas décadas, significando o direito, mas também um dever que nos impulsiona e atormenta. (FRANÇA, 2010, p.217) Ao analisar o crescimento da corrente da psicologia positiva, tão em voga na contemporaneidade, Freire Filho (2010) indica que, segundo esse discurso, a felicidade exigiria dedicação, condicionamento mental e gestão emocional, sendo uma construção unilateral do indivíduo, que precisa se esforçar para romper com a vitimologia e assumir o papel de único responsável por sua própria felicidade. Assim, na era da felicidade compulsiva e compulsória (FREIRE FILHO, 2010, p.17), a ideia de gerenciamento passa a permear todas as esferas sociais, cabendo a cada indivíduo administrar a própria vida rumo ao sucesso e à felicidade. Para isso, seria preciso conduzi-la como um negócio, a fim de superar limitações e maximizar a qualidade de vida para construir o sucesso, que passa a ser democratizado e definido única e exclusivamente a partir da atitude pessoal, sendo possível a todos e não mais restrito a alguns privilegiados. Trata-se, assim, de um imaginário que estimula a automobilização a favor da realização e superação contínua, que constitui a era do culto da performance (EHRENBERG, 2010; BIRMAN, 2010; FREIRE FILHO, 2011), que aponta para um devir atlético e empresarial da sociedade, um processo de conversão aos valores supremos da concorrência e da conquista (FREIRE FILHO, 2011, p.40). Sobre a utilização do termo performance, este autor apresenta uma retomada histórica, mostrando que, inicialmente voltada para o desempenho de cavalos de corrida, o seu sentido foi se modificando: passou a designar máquinas,

4 depois se dirigiu à ideia de recorde, até que, enfim, passou a classificar os seres humanos. Na atualidade, esse modelo de classificação se expandiu inclusive para os atos de cuidado com o corpo, o gerenciamento da carreira e a procura da felicidade. Ao que parece, tudo passa a ser pautado a partir do paradigma da eficácia, pois o empreendedor foi erigido como modelo da vida heroica (EHRENBERG, 2010, p.13). Dessa forma, a cultura do empreendedorismo, voltada à maximização de potencialidades e sucesso, passa a se configurar como modelo de autogestão, na medida em que se percebe uma certa naturalização desses discursos dirigidos anteriormente à lógica corporativa com o intuito de estimular a constante autossuperação. A almejada mitologia da autorrealização (EHRENBERG, 2010, p.11) parece reunir três grandes eixos: o espírito empresarial de concorrência, a busca de superação contínua pelo esporte e a realização pelo consumo de bens. O consumo, definido como processo social, conecta importantes questões das nossas vidas cotidianas com questões centrais da nossa sociedade e época. Ele relaciona-se com a forma pela qual devemos ou queremos viver, com questões acerca de como a sociedade é ou deveria ser organizada, com a estrutura material e simbólica dos lugares em que vivemos e a forma como neles vivemos. (SLATER, 2002, p. 8) A partir de um estudo antropológico do consumo, Douglas e Isherwood (2004) enfatizam a sua significação social, trazendo visibilidade e também estabilidade às categorias da cultura. Segundo eles, as posses materiais fornecem comida e abrigo, e isso deve ser entendido. Mas, ao mesmo tempo, é evidente que os bens têm outro uso importante: também estabelecem e mantêm relações sociais (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2004, p.105). Importante marcador social, o consumo traz significação e contribui para a classificação de pessoas, visto que aquilo que o consumidor compra pode fornecer pistas sobre quem ele é ou deseja ser, de maneira que fica evidente o vínculo entre a formação da identidade e o consumo. A maior atração de uma vida de compras é a oferta abundante de novos começos e ressurreições (chances de renascer ). Embora essa oferta possa ser ocasionalmente percebida como fraudulenta e, em última instância, frustrante, a estratégia da atenção contínua à construção e reconstrução da autoidentidade, com a ajuda dos kits identitários fornecidos pelo mercado,

5 continuará sendo a única estratégia plausível ou razoável que se pode seguir num ambiente caleidoscopicamente instável no qual projetos para toda a vida e planos de longo prazo não são propostas realistas, além de serem vistos como insensatos e desaconselháveis.(bauman, 2008, p.66) Ao divulgar o consumo como valor de pertencimento, a mídia também contribui para reforçar a vinculação entre consumo e cultura, reforçando a relação entre bens e identidade. As capacidades requeridas para a construção de uma identidade são elas próprias vendidas sob a forma de mercadorias (SLATER, 2002, p.89). Não podemos esquecer que na contemporaneidade, os meios de comunicação, em especial a TV, contribuem para o modo como enxergamos e compreendemos o mundo, como nos ensina Kellner. Numa cultura da imagem dos meios de comunicação de massa, são as representações que ajudam a construir a visão de mundo do indivíduo, o senso de identidade e sexo, consumando estilos e modos de vida, bem como pensamentos e ações sociopolíticas. A ideologia é, pois, tanto um processo de representação, figuração, imagem e retórica quanto um processo de discursos e idéias. (KELLNER, 2001, p.82). Especificamente em relação à teleficção brasileira que tem a telenovela como principal formato da ficção televisiva brasileira ao longo de mais de sessenta anos de desenvolvimento, ela foi incorporando à sua trama temas e discussões sobre questões sociais que circulam pelo país, tornando-se um recurso comunicativo (LOPES, 2009). Vejamos como a série 3 Teresas traz no seu bojo, de forma aparentemente natural, a questão do empreendedorismo no que se refere à busca da felicidade e a reinvenção da identidade com a contribuição do consumo. Conhecendo as 3 Teresas: uma aproximação com a série Exibida pelo canal por assinatura GNT a partir de , a série 3 Teresas apresenta questões do cotidiano feminino pelo prisma de três mulheres de gerações 3 Coprodução com a Bossa Nova Filmes, a primeira temporada da série teve 13 episódios semanais (sendo exibida de 08/05 a 31/07/2013), com duração de cerca de 23 minutos cada. A estreia da segunda temporada está programada para este ano, e as vinhetas da programação do GNT continuam trazendo chamadas para a série sem, contudo, apresentar data de estreia da nova temporada.

6 diferentes e mesmo nome, cujos apelidos a distinguem. Teresinha (Claudia Mello) é a avó, aposentada e mãe de Teresa (Denise Fraga), a mãe, recém-separada do marido, com quem tem uma filha, Tetê (Manoela Aliperti), adolescente às voltas com o primeiro namorado e o início da vida sexual, dentre outros conflitos marcantes da idade. A partir da separação de Teresa, mostrada no primeiro episódio da série, as três passam a morar juntas em: Uma série sobre a convivência, na mesma casa, de três gerações de mulheres, apoiando e enlouquecendo umas às outras, dividindo o mesmo espaço e o mesmo nome. Três visões muito particulares de mundo, três olhares diferentes para problemas semelhantes, em um programa repleto de humor, sentimentos e deliciosos conflitos. (GNT, 2013a) Figura 1. Teresinha, Teresa e Tetê: as 3 Teresas 4 A produção estreou no canal GNT no primeiro semestre de 2013 juntamente com três outras séries brasileiras 5 (Copa Hotel, As Canalhas e Surtadas na Yoga). A grande quantidade de lançamentos brasileiros é fruto da exigência de veiculação de conteúdo nacional a partir da Lei /2012 ( lei do cabo ). Nesse quadro, Lopes e Mungioli (2013, p.29) indicam as transformações no panorama das produções nacionais, como o aumento no número de produtoras independentes; migração de profissionais da publicidade e cinema para a TV; proporcionalidade de canais 4 Fonte: GNT. 3 Teresas. Sobre a série. Disponível em: <http://gnt.globo.com/_3teresas/sobre/>. Acesso em: 23 ago. 2013a. 5 Em entrevista a Stycer (2013), a diretora do canal, Daniela Mignani, considera 3 Teresas a melhor das quatro séries graças ao talento do diretor e à riqueza dos personagens.

7 nacionais e independentes nos pacotes oferecidos pelas operadoras e aumento dos recursos disponíveis para a produção televisiva. Analisando a fase de sucesso das séries principalmente as norte-americanas Silva (2014) também enfatiza a questão da migração de profissionais do cinema para a televisão, o que acaba repercutindo, dentre outros fatores, na qualidade do texto. A questão do desenvolvimento das formas narrativas contemporâneas está diretamente relacionada à emergência da televisão como espaço possível de qualidade artística e qualidade aqui entendida mais como discurso valorativo que característica ontológica, e isso não pela superação do cinema como meio audiovisual artisticamente legitimado, mas pelo investimento na singularidade estilística das séries no panorama audiovisual de hoje. (SILVA, 2014, p.245) Com direção de Luiz Villaça e bem recebida pela crítica, a série foi indicada como uma cinco das finalistas da premiação anual da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de 2013 na categoria televisão 6. Em sites e blogs sobre teleficção, 3 Teresas foi considerada um dos melhores lançamentos da temporada cheia de novidades no canal (KOGUT, 2013) com texto espetacular e atuações sob medida (LAVIANO, 2013), apesar do pouco destaque publicitário: Enquanto assistia fiquei me perguntando: por que o canal não fez o mesmo estardalhaço com a série como fez com Sessão de Terapia? (MONTONE, 2013). O texto é, de fato, um ponto alto da série, além do aprofundamento das personagens a partir das competentes interpretações das protagonistas. De forma breve, podemos caracterizá-la como uma dramédia a consciente e agridoce mistura de drama e comédia (ANG, 2010, p.89) com alta carga dramática e humor refinado, que revela como as diferentes gerações lidam com semelhantes questões do cotidiano feminino, tendo em vista o contexto social brasileiro contemporâneo. Tendo como foco de análise a construção discursiva, consideramos que o ferramental teórico e metodológico da Análise do Discurso (AD) de origem francesa 6 Concorreram na categoria as séries Agora Sim (Sony/Mixer); A Menina Sem Qualidades (MTV Brasil/Estudios Quanta); O Negócio (HBO/Mixer); 3 Teresas (GNT/Bossa Nova Films) e Latitudes (TNT/Losbragas/House Entertainment), sendo esta última a vencedora, conforme informações do site Meio e Mensagem, 2013.

8 podem nos ajudar a compreender a construção identitária do feminino na série 3 Teresas. Nas palavras de Orlandi, a Análise do Discurso visa fazer compreender como os objetos simbólicos produzem sentidos, analisando assim os próprios gestos de interpretação que ela considera como atos no domínio simbólico, pois eles intervêm no real do sentido (2009, p. 26). Sendo assim, a partir da enunciação das protagonistas, buscamos perceber a produção de significados acerca do cotidiano feminino por meio dos olhares das três diferentes gerações, conscientes de que os sentidos e os sujeitos se constituem em processos em que há transferências, jogos simbólicos dos quais não temos o controle e nos quais o equívoco o trabalho da ideologia e do inconsciente estão largamente presentes (ORLANDI, 2009, p. 60). Buscando desvelar as camadas de sentido dessa série, partimos para uma análise a partir de nosso interesse em perceber as questões da felicidade; o modelo de autogestão a partir do empreendedorismo; e o consumo. Primeira Teresa em análise Nesse artigo, analisamos o primeiro episódio da série, intitulado O amor não tem vista pro mar, exibido na TV por assinatura em 08/05/2013 e que foi o mais assistido on-line, conforme informações disponíveis no site GNT Play 7. Com abordagem qualitativa amparada pela teoria da Análise de Discurso de linha francesa, nossa metodologia consistiu em transcrever todos os diálogos do episódio com marcações de cenários, tempos e personagens para, a seguir, selecionarmos os trechos mais expressivos para análise. Nesse momento, tomamos como eixo o discurso de Teresa (Denise Fraga) e trazemos três cenas principais. Em uma breve sinopse, nesse episódio, acontece a situação desestabilizadora que dá início à narrativa e, assim, à trama. Com o fim do casamento, o marido deixaria no fim do dia o apartamento em que o casal vivia com a filha, fazendo Teresa sonhar com novas perspectivas. A personagem é vitrinista e está montando um 7 O episódio teve visualizações. Fonte: < Acesso em: 03 ago

9 cenário de praia para coleção Primavera-Verão quando seu quase ex-marido chega à calçada e ela o chama para entrar. Assim, que entra na vitrine composta por vários castelos de areia e referências ao mar, Ringo (Enrique Diaz) pisa em um castelo de areia, desmanchando-o. Ele traz sacolas com itens que ela havia pedido para compor o cenário e trocam palavras. Ele elogia o trabalho dela e fica emocionado, mas ela, de postura firme e decidida, procura ser racional. No entanto, as lembranças emergem. RINGO: A gente passou a lua de mel numa praia assim, ó, com a areia sujinha assim ó, lembra? TERESA: Humm... eu lembro é do bicho geográfico que eu peguei... você coçando meu pé sem parar... (os dois dão risada). Depois disso eu nunca mais pisei na areia descalça. RINGO (puxando pela memória): Praia da Baleia. TERESA: Praia Preta, Ringo!! RINGO: Praia Preta... é?! Bom... o importante é que foi bom, né? TERESA: É, foi, foi bom (fala com frieza). Um casamento que começa com bicho geográfico só pode mesmo terminar numa vitrine sem vista pro mar. RINGO: A gente podia ir um dia pruma praia, assim de novo, juntos. Um dia... TERESA: É, um dia, quem sabe... como amigos (levanta-se e Ringo se estristece), já que é só isso que a gente tem sido nos últimos tempos. 8 Figura 2. Ringo e Teresa na vitrine 9 8 Transcrição do episódio disponível em: < Acesso em: 03 ago Print screen de cena a partir do link: <http://globosatplay.globo.com/gnt/tres-teresas/>. Acesso em: 03 ago

10 Embora lembre os detalhes da lua de mel sobre os quais Ringo se atrapalha, Teresa se mostra decidida quanto à separação, com consciência da sua responsabilidade com a sua felicidade e disposta a conquistar a vista pro mar, intertexto que surge em várias cenas do episódio como uma metáfora para a felicidade e a realização completa. A recordação de lembranças da lua de mel de um casamento que chega ao fim é apresentada em um cenário colorido, de praia e, emblematicamente, em uma vitrine, lugar de visibilidade. O paradoxo é a exposição do fim do relacionamento em um cenário bonito, que remete ao início do casamento, em meio à confusão do dia a dia, em um bairro comercial, onde pessoas passam para lá e para cá alheios ao que se passa ali. A visibilidade da vitrine contrasta com os dramas pessoais íntimos dos dois personagens em cena. Momentos depois, Teresa está no banheiro da loja onde montava a vitrine, quando entra Márcia, sua colega, fumando. TERESA: Márcia! Pode fumar aqui? MÁRCIA: Se você não contar, eu também não conto. Aliás, Teresa, por que você nunca me contou que o tal Ringo era assim? TERESA: Folgado? MÁRCIA: Charmosão, simpático... Separou por quê? TERESA: Porque chega uma hora que isso não é suficiente. MÁRCIA: O sexo piorou muito? TERESA: Você tem que dar todas as respostas sozinha. Quando a felicidade não existe mas está em outro lugar, sabe? MÁRCIA: Eu sabia... sempre tem outro. TERESA: Não tem nada de outro. MÁRCIA: Ihhh... Tô te achando muito pra baixo para quem tá separando. TERESA: Para, tô ótima. É que hoje ele vai embora de vez, sabe? Aí vem aquela sensação... MÁRCIA: de liberdade! Eu te invejo... vai começar a melhor fase da sua vida. Separada é solteira com experiência. 10 Aqui fica demonstrada de forma nítida o discurso da obrigatoriedade da felicidade nos dias atuais. Ao ser questionada sobre o motivo da separação, Teresa afirma que ter um marido charmoso e simpático não é suficiente, que quer algo mais. 10 Transcrição do episódio disponível em: < Acesso em: 03 ago

11 E essa pergunta gera um monólogo, uma vez que ela continua falando sobre isso, mesmo quando a amiga pergunta sobre sexo ( Você tem que dar todas as respostas sozinha. Quando a felicidade existe mas está em outro lugar, sabe? ). Márcia então diz: Eu sabia... sempre tem outro. A conversa um tanto desconexa se assemelha a monólogo interior ou fluxo de consciência, já que não há diálogo propriamente dito, mas sim frases soltas e perguntas que não são respondidas. Teresa parece querer se convencer de que está tomando a decisão certa, uma vez que a busca da felicidade e de construção da identidade exige dela a decisão da separação. Ao dizer que a felicidade existe mas está em outro lugar, a personagem evidencia a insatisfação com o atual momento e se coloca no papel de responsável por buscar a sua felicidade, que se torna obrigatória nos dias de hoje de tal forma que demonstrar tristeza ou sinal de infelicidade seria um fracasso. É preciso renascer constantemente, como analisa Bauman (2008, p.128): Mudar de identidade, descartar o passado e procurar novos começos, lutando para renascer tudo isso é estimulado por essa cultura como um dever disfarçado de privilégio. Nesse contexto, nem mesmo no momento em que se afasta de um companheiro com o qual conviveu por 16 anos, ela teria direito a ficar para baixo, já que a amiga exige dela uma atitude de alegria e comemoração: Tô te achando muito pra baixo para quem tá separando. Ela tenta animar Teresa ao enunciar: Separada é solteira com experiência. Esse enunciado é objeto de interdiscurso quando Teresa, a seguir, ao comprar um novo colchão, conversa com o vendedor. O consumo ganha aqui uma função social importante, como demarcador simbólico de uma transformação, ou seja, seria um rito de passagem: do status de casada para separada, ou solteira com experiência, intertexto que ela usa com orgulho. Comprar um novo colchão é usar o consumo para dizer alguma coisa sobre si mesmo (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2004, 116), nesse caso, o novo estado civil. Mais uma vez, a enunciação de Teresa na loja de colchões mais parece um monólogo, pois enquanto o vendedor fala de questões práticas, como o número de

12 parcelas e as características técnicas do produto, o enunciado de Teresa deixa entrever um devaneio a partir das suas angústias, uma produção de sentido voltado ao merecimento de alegria, à busca da felicidade, da vista para o mar que ela tanto almeja. VENDEDOR: Sinta o encaixe perfeito do seu corpo no colchão. Não é isso que todo mundo quer? Eu digo, merece. TERESA: Isso, isso, merece. Merece. Eu mereço! (se deita com os braços abertos) VENDEDOR: Esse colchão não é um sonho distante como muita gente pensa. TERESA: Muita gente esquece que merece. VENDEDOR: É! É pra você? TERESA: Só. Inteiro, todinho pra mim. Pra mim... (se vira na cama de um lado para outro e de repente se senta). Mas também pode não ser, não sei. VENDEDOR: Você é solteira? TERESA: Eu pareço solteira? VENDEDOR: Não, não, desculpa. TERESA: Sou. Com experiência. VENDEDOR: E essa experiência pode ser sua em 10 vezes sem juros. TERESA: Não, não, a prazo não, não quero deixar nada pra depois. Figura 3. Teresa na loja de colchões 11 A mudança de identidade de Teresa traz a incerteza característica dos novos tempos o colchão é todo para ela ou também pode não ser, como ela diz, deixando clara a possibilidade de um novo amor que traga a felicidade tão desejada. De toda 11 Print screen de cena a partir do link: <http://globosatplay.globo.com/gnt/tres-teresas/>. Acesso em: 03 ago

13 forma, o consumo representa um ritual, que ajuda a conferir sentido, marcar um tempo e iniciar uma nova fase na vida da personagem: Os rituais são convenções que constituem definições públicas visíveis. [...] Viver sem rituais é viver sem significados claro e, possivelmente, sem memórias. [...] Os bens, nessa perspectiva, são acessórios rituais; o consumo é um processo ritual cuja função primária é dar sentido ao fluxo incompleto dos acontecimentos. (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2004, p.112) A substituição do colchão é bastante representativa da nova fase da sua vida. O colchão do casal seria a materialidade da vida em comum que agora cede lugar a um novo colchão de casal, sem história, todinho para Teresa, simbolizando a sua nova vida de separada, ou solteira com experiência, enunciação da sua colega que ela repete ao vendedor como interdiscurso. O interdiscurso significa justamente a relação do discurso com uma multiplicidade de discursos, ou seja, ele é um conjunto não discernível, ao representável de discursos que sustentam a possibilidade mesma do dizer, sua memória. Representa assim a alteridade por excelência (o Outro), a historicidade. (ORLANDI, 2009, p. 80) O Outro surge na fala de Teresa de diversas formas: além desse caso explícito, que poderia ser classificado como intertexto, o marido também está presente por meio da experiência a que ela se refere a todo tempo. A personagem também deixa clara a sua urgência em buscar a felicidade: nada mais a prazo evidencia a sua necessidade de gozar o bem-estar de forma imediata, como é comum na sociedade de consumidores, em que a espera por realizações a longo prazo foi substituída pela satisfação imediata dos desejos, como acontece pelo consumo de bens. Podemos interpretar que a compra à vista do colchão representaria o início imediato de uma nova identidade, deixando para trás o casamento insatisfatório e inaugurando uma etapa distinta, na qual ela pretende encontrar a sua vista para o mar. Considerações finais Na contemporaneidade, a felicidade foi alçada à condição de dever ao qual todos devem empreender esforços, tal qual um projeto pessoal a ser gerenciado como

14 uma empresa. Para isso, o consumo fornece subsídios para uma reconfiguração de identidade, a partir das variadas fases da vida ou simplesmente de acordo com o desejo do sujeito da sociedade de consumidores (BAUMAN, 2008). Nas campanhas publicitárias, nas ficções televisivas dentre as quais tomamos como objeto a série 3 Teresas, e na mídia em geral, ecoa o discurso da felicidade como responsabilidade individual, dependente apenas da performance de cada um para obter o seu lugar ao sol ou sua vista para o mar, como o discurso de Teresa reitera, e do consumo como significante social que contribui para a formação de identidades. Essa produção nos indica como a enunciação da personagem traz a intrínseca relação entre os eixos da formação da identidade, da busca da felicidade e do consumo. Referências ANG, Ien. A ficção televisiva no mundo: melodrama e ironia em perspectiva global. São Paulo, MATRIZes, ano. 4, n. 1, p BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: J. Zahar, BIRMAN, Joel. Muitas felicidades?! O imperativo de ser feliz na contemporaneidade. In: FREIRE FILHO, João. Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, p DOUGLAS, Mary; ISHERWOOD, Baron. O mundo dos bens: para uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, EHRENBERG, Alain. O culto da performance: da aventura empreendedora à depressão nervosa. Aparecida, SP: Idéias & Letras, FRANÇA, Vera. A felicidade ao seu alcance : que felicidade, e ao alcance de quem, afinal? In: FREIRE FILHO, João. Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, p FREIRE FILHO, João. A felicidade na era de sua reprodutibilidade científica: construindo pessoas cronicamente felizes. In: (Org). Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, p FREIRE FILHO, João. Sonhos de grandeza: o gerenciamento da vida em busca da alta performance. In: ; COELHO, Maria das Graças Pinto (orgs.). A promoção do

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