UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE BIBLIOTECONOMIA ROOSEWELT LINS SILVA

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE BIBLIOTECONOMIA ROOSEWELT LINS SILVA MODELO DE AUTOMAÇÃO EM BIBLIOTECAS BASEADO NA FILOSOFIA OPEN SOURCE: uma análise social e tecnológica São Luís 2005

2 ROOSEWELT LINS SILVA MODELO DE AUTOMAÇÃO EM BIBLIOTECAS BASEADO NA FILOSOFIA OPEN SOURCE: uma análise social e tecnológica São Luís 2005 ii

3 ROOSEWELT LINS SILVA MODELO DE AUTOMAÇÃO EM BIBLIOTECAS BASEADO NA FILOSOFIA OPEN SOURCE: uma análise social e tecnológica Aprovada em / / BANCA EXAMINADORA Profª Drª Cenidalva Teixeira Miranda Profª Ms. Raimunda Ramos Marinho Prof Dr. Carlos Alberto Brandão Barbosa Leite iii

4 À liberdade, ao ser supremo, meus pais, e meu avô Ribamar Silva (in Memorian). iv

5 AGRADECIMENTOS Aos meus companheiros de universidade do curso de Biblioteconomia: Erivaldo Freire, Ana Helena, Marla, Hélio Craveiro e Arlindo Cordeiro, amigos do Laboratório de Sistemas Inteligentes Programa de Pós-Graduação de Engenharia Elétrica da UFMA: Felipe Guilhon, Pedro Brandão, Gemayel Lira e Rômulo Martins, a Mário Araújo Júnior do Curso de Ciência da Computação da UFMA pela força dada na área de desenvolvimento web. Agradeço aos meus Mestres César Castro, Maria Cléa Nunes, Cenidalva Teixeira, Raimunda Marinho, Maria da Guia, Carlos Brandão, Thiago Moreira e Sofiane Labidi. Aos meus pais e familiares, em especial a minha grande mãe Telma Silva e minha irmã Madhava. Aos meus colegas de outras universidades como Morenos Barros (UFF), Jonathas Pedera e André Cavalcante (UFC) e aos babilônicos Gustavo Henn, Rodrigo Galvão, Fernando Alves, Gustavo Costa, Henrique, Tiago Body, Rodrigo Peruca e outros amigos da UFC, UFPE e UFRN. À minha companheira pesquisadora e extensionista Gerlandy Leão, por está sempre ao meu lado. Enfim, a todos que contribuíram diretamente ou indiretamente para a consolidação deste trabalho. v

6 Realmente, só pelo fato de ser consciente das causas que inspiram minhas ações, estas causas já são objetos transcendentes para minha consciência; elas estão fora. Em vão tentaria apreendê-las. Escapo delas pela minha própria existência. Estou condenado a existir para sempre além da minha essência, além das causas e motivos dos meus atos. Estou condenado a ser livre. Isso quer dizer que nenhum limite para minha liberdade pode ser estabelecido exceto a própria liberdade, ou, se você preferir; que nós não somos livres para deixar de ser livres. Jean-Paul Sartre vi

7 RESUMO O estudo discute a adoção de softwares livres na automação de bibliotecas como estratégia econômica e vantagens tecnológicas. Destaca as iniciativas brasileiras de adoção do software livre como estratégia de democratização do acesso as tecnologias da informação e alternativa para a dependência tecnológica. Discute conceitos referentes à inclusão social e digital e a função da biblioteca como instituição de livre acesso ao conhecimento. Analisa conceitos referentes à filosofia colaborativa nas comunidades open-source, apresentando o histórico, aspectos sociais e tecnológicos do desenvolvimento do software livre e sua aplicação em política de informatização de bibliotecas e criação de terminais de acesso público à internet. Expõe alguns pressupostos referentes à automação de bibliotecas e apresenta-se uma solução baseada no uso da Tecnologia da Informação aplicada na Biblioteconomia destacando Sistemas de Gerenciamento de Conteúdo, Sistemas para Gerenciamento de Bibliotecas e Ferramentas para Implementação de Bibliotecas Digitais e Repositórios Institucionais. Palavras-chave: Software Livre. Exclusão Digital. Automação. Bibliotecas. Democratização. Exclusão Social. Autonomia. vii

8 ABSTRACT The study discusses free software adoption in automation of libraries as economic strategy and technological advantages. It detaches the Brazilian initiatives of adoption of free software as strategy of democratization of the access the technologies of the information and alternative for the technological dependence. It argues referring concepts to the social and digital inclusion and the function of the library as institution of free access to the knowledge. Open-source analyzes referring concepts to the collaborative philosophy in the communities presenting the social and technological description, aspects of the development of free software and its application in politics of computerization of libraries and creation of terminals of public access to the Internet. It displays some estimated referring to the automation of libraries and presents a solution based on the use of the Technology of the Information applied in the Library Science as Systems of Content Management Systems, Systems for Management of Libraries and Tools for Implementation of Digital Libraries and Institutional Repositories. Keywords: Free Software. Digital Exclusion. Automation. Libraries. Democratization. Social Exclusion. Autonomy. viii

9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 5.1 Estrutura do Dspace...50 Figura 5.2 Arquitetura do Servidor Fedora...51 Figura 5.3 Tela Principal do Brushtail no Open BSD...54 Figura 5.4 Inserção de Artigos no Xaraya...55 Figura 5.5 Sistema de Busca no Xaraya...56 Figura 5.6 Tela de Catalogação de um Documento no PMB...60 Figura 5.7 Tela Principal do Open Biblio...61 Figura 5.8 Catalogação de um Livro no Open Biblio...62 Figura 5.9 Área de Administração do Gnuteca Figura 6.0 Tela Principal do Open Biblio instalado em um S.O Open BSD...64 ix

10 LISTA DE ABREVIATURAS ARC Cross Archive Search Service CMS Content Management System GPL General Public License GNU Gnu is Not Unix PHP Hypertext Preprocessor HTML Hypertext Markup Language JSP Java Server Pages OAI Open Archives Initiative OSI Open Source Initiative RSS Rich Site Sumary SQL Structured Query Language XML Extensible Markut Language WSDL Web Service Description Language W3C Word Wide Web Consortium x

11 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO Justificativa e Objetivos Metodologia EXCLUSÃO SOCIAL E A EXCLUSÃO DIGITAL Exclusão Social Exclusão Digital Iniciativas SOFTWARES LIVRES E A FILOSOFIA OPEN SOURCE História do Movimento Software Livre Modelo de Desenvolvimento de Softwares Livres Licenciamento de Softwares Licenças Open-Source AUTOMAÇÃO DE BIBLIOTECAS IMPLEMENTAÇÃO DE SOFTWARES LIVRES EM BIBLIOTECAS Ferramentas para Bibliotecas Digitais e Repositórios Institucionais Sistemas de Gerenciamento de Conteúdo Sistemas de Gerenciamento de Acervos Outros Softwares Livres Relevantes CONCLUSÃO...67 REFERÊNCIAS...70 ANEXOS...,...75 xi

12 10 1 INTRODUÇÃO O discurso contemporâneo de sociedade está centrado na valoração da informação e na educação continuada frente às necessidades demandadas do atual contexto econômico. O conhecimento tem valor estratégico nessa nova ordem mundial e cabe a esfera pública, o dever de implementar políticas capazes de socializar as tecnologias de informação e comunicação, assim como o acesso à escola, aos livros e ao lazer. Essas políticas devem oportunizar o desenvolvimento social e a difusão da informação como forma de promover a inclusão de grande parte da população brasileira através da apropriação do conhecimento nas escolas, centros culturais, empresas e a aplicação de tecnologias que atendam as demandas sociais nestas instituições. O alto custo de um projeto de informatização tem sido um dos maiores empecilhos para a implementação de um ambiente de acesso ao mundo do conhecimento através da internet e outras ferramentas multimídias. Esse impasse somado com a dependência tecnológica corrobora para a perpetuação de um hiato tecnológico educacional e comunicacional, que contribui para a segregação social e em contrapartida a exclusão digital. Falar de inclusão digital na contemporaneidade implica em uma análise centrada nas políticas públicas, ações da sociedade civil e do setor terciário. Nesta perspectiva a biblioteca como organismo responsável pela democratização do acesso ao conhecimento e a informação necessita está dentro das instituições responsáveis por programas de inclusão digital, que através de terminais de livre acesso à internet a toda a comunidade usuária, possibilita estreitar as barreiras da

13 11 exclusão da informação digital, assim como também o acesso a recursos informacionais tradicionais. Esta instituição faz uso das novas tecnologias para automatizar seus processos e oferecer novas ferramentas para seus usuários e dentro desta concepção procura-se destacar algumas iniciativas brasileiras de inclusão digital, ações concretas e projetos tomando como base o uso de softwares livres e transpor essa abordagem para o ambiente organizacional das bibliotecas. Como modelo prático de implementação de um ambiente de aplicações voltadas à Biblioteconomia, apresenta-se uma descrição da experiência e aplicabilidade de alguns softwares livres em diferentes Sistemas Operacionais nãoproprietários. 1.1 Justificativa As organizações preocupadas com a gestão de seus bens, serviços e produtos investem maciçamente em uma arquitetura tecnológica para possibilitar automação de seus processos, para isto é necessário racionalizar o uso da tecnologia da informação no ambiente organizacional. A arquitetura tecnológica de informações engloba não só os recursos da tecnologia da informação mas, também, todo o conjunto de informações de uma organização, os modelos de dados e toda a infra-estrutura tecnológica necessária para suportar os fluxos de informações (RODRIGUES; FERRANTE apud CÂNDIDO et. al 2000, p. 41), Neste aspecto, a instituição biblioteca como organização responsável pela disseminação da informação e seu tratamento, entra neste contexto a partir do momento que utiliza tecnologias para criar seus catálogos automatizados, passa a disponibilizar seus serviços na Internet e usa aplicações para gerenciar suas rotinas.

14 12 Para tal é necessário o uso de softwares específicos para gerenciamento de acervos e disponibilização de conteúdos em rede, e os existentes no mercado atendem às necessidades informacionais através de padrões internacionais, entretanto são demasiadamente caros e muitas vezes estão fora de orçamentos de bibliotecas, principalmente àquelas vinculadas à esfera pública ou comunitária. Como forma de contrapor esse impasse, os softwares livres apresentam uma alternativa para quem precisa de estabilidade, qualidade, autonomia e não dispõe de recursos para investir em uma tecnologia proprietária. Assim o enfoque dado aos softwares livres tem sido amplamente debatido nas Universidades, ONG s, Empresas e Poder Público. As principais discussões em torno do uso das tecnologias livres têm sido a respeito da importância social destas em políticas de inclusão digital, pois os altos custos e a dependência tecnológica com softwares proprietários criam barreiras para a socialização e aperfeiçoamento do uso das tecnologias de informação e comunicação, deixando-as como privilégios de poucos. Pinheiro (2003, p.286) aponta para esse fator: O Estado, como ente fomentador do desenvolvimento tecnológico e da democratização do acesso às novas tecnologias para a sociedade, não pode se furtar a sua responsabilidade de priorizar a utilização de programas abertos, os free softwares/open source. E se as pequenas, médias e grandes empresas multinacionais já estão adotando programas abertos, evitando assim o pagamento de centenas de milhões de dólares em licenciamento de programas, por que o Estado, com uma infinidade de causas sociais carentes de recursos, continuar comprando, e caro, os programas de mercado? Nesta perspectiva, pretende-se analisar as principais iniciativas no Brasil para o uso de softwares livres, medidas de combate à exclusão digital e colocar a biblioteca como uma das instituições inclusiva de informação, que através do uso de ferramentas computacionais em sintonia com os meios tradicionais, favorecem a aquisição, produção e disseminação do conhecimento. Verificar-se-á também as principais tecnologias livres utilizadas em bibliotecas: softwares livres para

15 13 gerenciamento automatizado de acervo e administração de bibliotecas, algumas ferramentas para implementação de repositórios e bibliotecas digitais, sistemas de gerenciamento de conteúdos na web, dentre outras tecnologias de código-fonte aberto. 1.2 Metodologia A pesquisa aplicada em Biblioteconomia e Ciência da Informação tem caráter puramente interdisciplinar e multidisciplinar, já que a informação é objeto de estudo de inúmeras áreas do conhecimento e perpassa pela comunicação, computação, lingüística e as ciências sociais. Muitos teóricos sustentam essa idéia, a exemplo Saracevic, (1996, p.48) em seu debate sobre as origens da ciência da informação e seu caráter de interligação com diversos campos do conhecimento O autor ratifica que a Biblioteconomia, Inteligência Artificial, Ciência Cognitiva, Comunicação influenciam diretamente. Segundo Gómez (2000, p. 334), a ciência da informação surge no horizonte de transformações das sociedades contemporâneas que passaram a levar em consideração o conhecimento, a comunicação e os usos da linguagem como objeto de pesquisa científica ao mesmo tempo em que domínios de intervenção econômico-tecnológica. Essas investigações sobre os pressupostos teóricos e metodológicos, analisando os aspectos epistemológicos que envolvem a Ciência da Informação enquanto disciplina científica é o cerne para o entendimento dos fenômenos informacionais. O modelo paradigmático da pesquisa é proposto através de uma análise histórica que visa analisar a realidade objetiva levando em consideração os condicionantes filosóficos.

16 14 Analisar a inclusão digital é investigar as nossas práticas, nossa transferência de conhecimento e então o problema é de ordem reflexiva sobre o processo de transferência. Esta é uma premissa sustentada na visão de Simões, (1996, p.82), afirmando que: Nossas reflexões sobre a produção do conhecimento partem de dois pressupostos epistemológicos: (a) o conhecimento é gerado na prática, nas relações sociais concretas e (b) a realidade está constantemente em movimento e, portanto, constituindo-se. A partir desta base conceitual, convém demonstrar os procedimentos metodológicos que serão utilizados na problemática da inclusão digital aplicada às bibliotecas. Será realizada uma pesquisa documental com base em relatos de experiências; artigos técnico-científicos tanto em forma impressa quanto eletrônica; sites oficiais de projetos; assim como livros especializados e recursos audiovisuais (filmes e documentários). Após essa revisão de literatura serão analisadas as principais iniciativas de disseminação do uso e desenvolvimento de tecnologias de código-fonte aberto como estratégia de inclusão digital no Brasil. A compreensão teórica do movimento do software livre será sustentada por artigos internacionais e publicações nacionais. Será realizado também um estudo sobre alguns aplicativos baseados em código aberto para informatização de bibliotecas, destacando tecnologias, recursos, portabilidade, interoperabilidade e outras características recomendáveis em sistemas automatizados para unidades de informação e a decorrente instalação em servidores para melhor análise de desempenho. Com base nestes pressupostos e com algumas experiências práticas poder-se-á investigar a exposta problemática para potencializar a discussão dentro da Biblioteconomia, Ciência da Informação e Informática.

17 15

18 16 2 EXCLUSÃO SOCIAL E A EXCLUSÃO DIGITAL A exclusão social e digital serão abordadas neste capítulo enfatizando conceitos, relações e algumas iniciativas existentes no Brasil para o combate da exclusão digital. Os aspectos sociais e econômicos serão apontados de acordo com a literatura pesquisada bem como questões pertinentes à políticas publicas voltadas ao acesso ao conhecimento. 2.1 Exclusão Social As maiores discussões sobre planos de inclusão social levam em conta fatores como moradia, segurança alimentar, reforma agrária, desemprego, questões étnicas, educação, cultura e políticas voltadas a portadores de necessidades especiais. Na literatura existe uma grande variedade de definições sobre exclusão social, portanto não existe uma abordagem teórica precisa referente ao conceito. Nesse sentido Iizuka (2003, p. 13) em seu estudo exploratório sobre exclusão digital coloca que existem diversas formas para se conceituar a exclusão social, mas de acordo como os autores pesquisados, dois eixos principais norteiam as definições: os efeitos, impactos do sistema capitalista, do mercado de trabalho, as questões sociais, perdas de direitos derivados da transformação do Estado e das suas políticas. Para Sawaia (apud IIZUKA, 2003, p.3), as análises referentes à exclusão social enfocam apenas uma perspectiva em detrimento das demais, como as análises centradas na esfera econômica, que abordam a exclusão como sinônimo de pobreza, e as centradas no social que privilegiam o conceito de discriminação, minimizando um dos aspectos fundamentais da exclusão que é o da injustiça social.

19 17 A questão do mercado de trabalho é um fator de extrema relevância, já que os altos índices de desemprego no Brasil formam um ciclo de segregação social, gerado pela mecanização e o uso de tecnologias aplicadas nos modos de produção e a não-capacitação do trabalhador para esta realidade, embora isso não seja o fator determinante para construção de um conceito sólido de exclusão social. É provável que o termo exclusão social esteja relacionado com o desemprego e a precarização do mercado de trabalho, entretanto, isso não implica, necessariamente, que ao longo dos anos não se tenha agregado outros fatores além da ausência de emprego. (IIZUKA, 2003, p.15). O modelo de sistema como um todo contribui maciçamente para uma definição de exclusão centrada na perspectiva econômica, pois emite na esfera social um padrão de comportamento consumista baseado na aquisição de bens e serviços para a inserção do indivíduo e grupos na cultura capitalista. O comportamento dos grupos que apropriam do excedente, condicionado que é pela situação de dependência cultural em que se encontram tende a agravar as desigualdades sociais, em função do avança na acumulação. Assim a reprodução das formas sociais, que identificamos com o subdesenvolvimento, está ligada a formas de comportamento condicionadas pela dependência (FURTADO, 1974, p. 82). Para Castel (apud IIZUKA, 2003, p ), a exclusão seria imóvel, ao denotar estados de privação, enquanto que a conceituação de desafiliação procura valorizar os processos que geram aquela situação. A exclusão não é uma ausência de relação social, mas um conjunto de relações sociais particulares da sociedade tomada como um todo. Desta forma o autor demonstra ainda que é preciso analisar os processos e as relações de exclusão e não apenas o fato em si, ou seja, a dinâmica pela qual as pessoas foram levadas a essa situação e além disso, deve-se perceber que a exclusão social é uma forma de relação social inserida numa realidade indivisível. Observa-se que este conceito propõe uma rede de interligação

20 18 com diversos fatores, como questões históricas de uma determinada sociedade e sua relações políticas e culturais. Dentre inúmeros conceitos, Sawaia apud Iizuka, (2003, p. 18), coloca que é necessário compreender as causas primeiras que levam à exclusão e sistematizar a análise de acordo com a realidade objetiva e toda a complexidade de uma estrutura social. O autor firma que: [...] é um processo multifacetado, uma configuração de dimensões materiais, políticas, relacionais e subjetivas é um processo sutil e dialético, pois só existe em relação à inclusão com os outros. Não é uma coisa ou estado, é um processo que envolve o homem por inteiro e suas relações com os outros. não tem uma forma única e não é falha do sistema, devendo ser combatida como algo que perturba a ordem social, ao contrário, ele é produto do funcionamento do sistema. (SAWAIA apud IIZUKA, 2003, p. 18) Dentro desta conceituação o autor assinala que o processo de exclusão não pode ser encarado sob uma ótica reducionista, culpando sempre o sistema capitalista, não podemos direcionar a discussão para um único fator e sim trabalhar a idéia de que existe toda uma construção histórica e diversos fatores objetivos e subjetivos que influenciam no entendimento da exclusão social. A exclusão não é um fato restrito e isolado e sim um processo sistematizado historicamente. Outro problema referente à exclusão social é o mapeamento para compreender a extensão da exclusão existente em um determinado território, muitas vezes os índices não refletem a verdadeira realidade do número de pobres e excluídos. A quantificação dos fatos sociais reduz a realidade de indivíduos em números, sendo que estes vivem em condições precárias, distanciando-os do nível ideal de qualidade de vida e contribuindo para a exclusão e o aumento da pobreza. Utilizou-se no final da década de 60 o indicador macroeconômico do PIB per capita para mensurar a extensão da pobreza nos países. Este indicador aplicado em países com grande concentração de renda poderia ser entendido como um país

21 19 com condições de vida adequada na medida em que o PIB per capita é relativamente elevado. Esta modalidade de análise social foi amplamente criticada por causa da fragmentação da realidade sócio-econômica de um país, estabelecendo apenas generalizações através de médias e não as particularidades. Spoti apud Iizuka (2003, p.20). Como bem coloca lizuka (2003, p.21): A despeito do mérito em quantificar o número de pobres no mundo e do avanço da generalização proposta a partir do PIB per capita, a exclusão social, ou seja, são suprimidos outros fatores como a carência educacional, o não acesso à saúde, a falta de perspectiva de emprego, trabalho e renda etc. A partir desta colocação, o autor apresenta uma crítica às formas de compreender as camadas socialmente excluídas através de números e padronização da realidade. Para que tenha um método mais eficaz de análise, Iizuka (2003, p. 22) propõe que a história, o processo de vida e o contexto em que vive cada indivíduo são algo que o distingue das outras pessoas e, portanto, não há porque tratar de forma homogênea algo que é naturalmente heterogêneo. No Brasil então esta crise de ordem metodológica parece ser ainda mais visível, devido a sua extensão territorial e diversidade cultural. Silveira (2003, p. 31) afirma que as eficácias das várias iniciativas ainda não é visível exatamente pela sua dispersão, pela ausência de indicadores consolidados, pela inexistência de uma coordenação pública unificada da implementação dos projetos de inclusão. Posto isso se verifica que pesquisas de mensuração são de extrema relevância, mas ainda não existe um total compromisso em desenvolver um levantamento mais preciso de todo os pontos fundamentais do processo de exclusão. Faz-se necessário tomar como referência essa abordagem conceitual sobre exclusão social para poder trabalhar a idéia de exclusão digital. O uso das tecnologias de informação e comunicação e do acesso ao conhecimento registrado

22 20 em dispositivos eletrônicos proporciona ainda mais a sociabilização do indivíduo na modernidade, fator este de significativa importância para uma sociedade dinâmica que tem como eixo central a automação de tarefas e a comunicação sem fronteiras. Acompanhar a evolução tecnológica e usufruir da produção intelectual são insumos primordiais no atual contexto e todo cidadão deve fazer parte dessa nova organização social independente de questões sexuais, étnicas, ideológicas e classe social. 2.2 Exclusão Digital Igualmente à exclusão social, a exclusão digital apresenta inúmeras variações conceituais e terminológicas: analfabetismo tecnológico, divisão digital, apartheid digital, infoexclusão etc. Independente de termos, todas tem como fator determinante o acesso às tecnologias digitais, em especial a rede mundial de computadores: a Internet ou www. A origem dessa discussão é explicitada abaixo: O termo exclusão digital ou divisão digital (digital divide) tem a sua origem em meados da década de 1990 como a publicação de um artigo de Jonathan Webber e Amy Harmon no jornal Los Angeles Times em 1995, de acordo com Larry Irving da Irving.com, Andy Carvin da Benton Foudation diz que no ínicio de 1996 houve uma declaração de então presidente Bill Clinton e do vice-presidente Al Gore em que ambos citam o termo digital divide num discurso realizado em Knoxville, Tenesse. É justamente no país que foi o berço da internet e que conta com o maior número de usuários em todo mundo e como uma diversidade no uso das novas tecnologias que surge o termo digital divide, um quase equivalente de exclusão digital. (IIZUKA, 2003, p. 37). É um paradoxo um país como os Estados Unidos levantarem questões referentes à exposta temática, pois de um lado tem uma política excludente em relação aos demais países dependentes e de outro apresenta um grande número de pessoas usuárias de ferramentas tecnológicas, sem contar que os padrões técnicos da informática são comandados por instituições norte-americanas. A internet é a

23 21 principal ferramenta de acesso ao mundo do conhecimento e da sociedade em rede, e quando tomamos os indicadores brasileiros nos deparamos com uma situação extremamente grave: a desigualdade. A internet possibilita que a democratização de discursos, problemas identificados e caminhos sugeridos sejam instantâneos. Mas, para isso é necessário que o acesso às novas tecnologias e à rede WWW seja universal. Caso contrário, a possibilidade de exercício de democracia através das tecnologias digitais de comunicação e informação é falácia. É conveniente ressaltar que por um lado a internet no Brasil vem retratar o agravamento de desigualdades sociais, econômicas e políticas, uma vez que a concentração de renda e acesso a bens como computadores e linhas telefônicas no país é privilégio de tão poucos, que criam-se duas novas categorias sociais: os que têm acesso à internet e os que não têm, de um lado uma parcela muito pequena da população que transita num universo de mil possibilidades de outro uma quantidade significativa que só ouve contarem sobre a nova realidade (LIMA; SELAIMEN, 2003, p. 66). É extremamente complexo um país em desenvolvimento como o Brasil solucionar a curto prazo essas disparidades sociais. Na democracia, o bem maior é a igualdade perante a lei e a segurança do cidadão, essa igualdade diz respeitos à celebração dos valores éticos, jurídicos e humanos. No Brasil a história demonstra que os recursos destinados às escolas e programas sociais são utilizados para a manutenção da classe dominante e implantação de medidas neo-liberais para legitimação da doutrina capitalista global. Como exemplo prático tem-se a inviabilização do programa de inclusão digital denominada de Fundo de Universialização dos Serviços de Telecomunicações FUST.

24 22 De acordo a lei Nº 9.998, de 17 de agosto de 2000 sobre o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, caberá ao Ministério das Comunicações através da Anatel formular as políticas, as diretrizes gerais e as prioridades que orientarão as aplicações do Fust, bem como definir os programas, projetos e atividades financiados com recursos do Fundo. A consulta ora em exame se refere a questões relativas à possível utilização de recursos do Fundo de Universalização de Serviços de Telecomunicações - FUST para a contratação de serviços de implantação, manutenção de utilização de acesso a redes digitais de informação, inclusive internet, a instituições de ensino, bibliotecas e instituições de saúde. O serviço incluiria também a disponibilização dos computadores e programas que possibilitariam o acesso às redes digitais. (BRASIL, MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES, 2004). Neste projeto seriam adquiridos 290 mil computadores, 46 mil impressoras, 16 mil scanners e outros equipamentos. Em três anos, seria investido 1,5 bilhão de reais no combate à exclusão digital no país (MIRANDA, 2003, p.255). O Governo retirou 2,6 bilhões de reais dos recursos destinados ao Fust nos anos de 2001, 2002 e O FUST abriria a possibilidade de um programa apoiado em software livre. Os laboratórios de informática nas escolas seriam como campo de várzea, um seara especial para a formação de nossos futuros craques em tecnologia. A base indispensável para uma grande alavancagem do Brasil no caminho da autonomia tecnológica, formando as atuais e futuras gerações em software livre e em tecnologia da informação (MIRANDA, 2003, p ). Silveira (2003, p. 29) propõe a idéia de transformar a inclusão digital em uma política pública sustentada em quatro pressupostos: Primeiro, o reconhecimento de que a exclusão digital amplia a miséria e dificulta o desenvolvimento humano, local e nacional. A exclusão digital não representa uma mera conseqüência da pobreza crônica. Torna-se fator de congelamento da condição de miséria e de grande distanciamento em relação às sociedades ricas. Segundo, a constatação de que o mercado não irá incluir na era da informação os extratos pobres e desprovidos de dinheiro. A própria alfabetização e a escolarização da população não seriam maciças se não fosse pela transformação da educação em política pública e gratuita. A alfabetização digital e a formação básica para viver na

25 23 cibercultura também dependerão da ação do Estado pra serem amplas ou universalistas. Terceiro, a velocidade da inclusão é decisiva para que a sociedade tenha sujeitos e quadros em números suficiente para aproveitar as brechas do desenvolvimento no contexto da mundialização de trocas desiguais e, também para adquirir capacidade de gerar inovações. Quarto, a aceitação de que a liberdade de expressão e o direito de se comunicar seriam uma falácia se fossem destinados apenas à minorias que tem acesso à comunicação em rede. Hoje o direito à comunicação é sinônimo de direito à comunicação mediada por computador. Portanto, trata-se de uma questão de cidadania. Em um país como Brasil percebe-se que milhares de pessoas estão à margem do exercício da cidadania, parece inútil falar sobre acesso à comunicação e a informação mediada por computadores, mas como pode-se ter uma sociedade mais digna se a própria dinâmica social demanda novos processos produtivos e novas competências profissionais? Como dá acesso à internet e capacitar pessoas que não tem o que comer, onde morar e muito menos o que vestir? Seria realmente interessante resolver a questão da exclusão digital e deixar de lado as pessoas que não usufruem dos princípios básicos de sobrevivência? O problema é que também não deve-se ignorar as crianças que freqüentam escolas públicas e não possuem uma formação baseada no uso de recursos multimídias para ampliarem seus conhecimentos, sendo que muitas dessas escolas poderiam ser contempladas com uma política pública de inclusão centrada no uso da tecnologia educacional. Assim como também não pode-se dar as costas aos programas de incentivos à leitura em comunidades desprovidas de bibliotecas e centros de cultura, esses indivíduos se não fizerem parte desse novo modelo de ensino e comportamento poderão contribuir com a violência e comprometer a soberania nacional. É difícil estabelecer uma boa perspectiva para esses estudantes no mercado de trabalho, já que a exigência de conhecimento mínimo de informática em qualquer atividade é um pré-requisito cada vez mais presente no Brasil e no mundo: basta verificar os editais de concursos públicos, quer para a esfera federal como

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