PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO. Flávia Vasconcellos Sella

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1 PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA UEL UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ UEM MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO Flávia Vasconcellos Sella ESTRUTURA E AGÊNCIA NO MEIO RURAL: UM ESTUDO DO PROJETO REDES DE REFERÊNCIA PARA A AGRICULTURA FAMILIAR A PARTIR DA TEORIA NEOINSTITUCIONAL Londrina 2009

2 FLÁVIA VASCONCELLOS SELLA ESTRUTURA E AGÊNCIA NO MEIO RURAL: UM ESTUDO DO PROJETO REDES DE REFERÊNCIA PARA A AGRICULTURA FAMILIAR A PARTIR DA TEORIA NEOINSTITUCIONAL Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Administração Mestrado em Administração da Universidade Estadual de Maringá em consórcio com a Universidade Estadual de Londrina, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Administração. Orientadora: Profª. Drª. Elisa Yoshie Ichikawa Londrina 2009

3 FLÁVIA VASCONCELLOS SELLA ESTRUTURA E AGÊNCIA NO MEIO RURAL: UM ESTUDO DO PROJETO REDES DE REFERÊNCIA PARA A AGRICULTURA FAMILIAR A PARTIR DA TEORIA NEOINSTITUCIONAL Dissertação aprovada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Administração, do Programa de Pós- Graduação em Administração (PPA- UEL/UEM), sob apreciação da seguinte banca examinadora: Aprovada em 18 de dezembro de Profª. Drª. Elisa Yoshie Ichikawa Orientadora PPA-UEM/UEL Profª. Drª. Amália Maria Goldberg Godoy Convidada - UEM Profª. Drª. Maria Iolanda Sachuk Membro - PPA-UEM/UEL

4 À minha família, aos amigos e à professora Elisa - que nunca desistiu de mim, mesmo tendo eu tantas vezes desistido.

5 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, à minha família, ao PPA professores e colegas; à EMATER/PR e ao IAPAR, que tanto se dispuseram a ajudar; aos agricultores, que fizeram parte das entrevistas e tornaram o trabalho concreto; e aos amigos, em especial à professora e orientadora Elisa, e à Cely, que tornaram tudo isso possível.

6 RESUMO O Brasil tem na agropecuária uma de suas principais atividades econômicas, seja por suas condições naturais ou pelo próprio processo de colonização que teve. Desta forma, o setor conta com tecnologia e pesquisa para ajudar a se desenvolver. Porém, os agricultores nem sempre adotam as práticas derivadas destas pesquisas, por não se identificarem com elas, daí a necessidade de tecnologia e projetos para adaptar os conhecimentos do laboratório para o campo. Neste contexto, o Paraná decidiu adotar o Projeto Redes de Referência para a Agricultura Familiar, um projeto do Governo do Paraná, em conjunto com o Institute d Élevage, o BIRD - Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, a EMATER/PR (Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural) e o IAPAR (Instituto Agronômico do Paraná). O Projeto consiste em escolher propriedades representativas de características regionais e sistemas de produção, com informações sobre solo, mão-de-obra e produção para que, a partir de diagnóstico de necessidades, fossem sugeridas ações para incremento de produtividade e melhora de qualidade de vida dos agricultores. A partir de parâmetros técnicos e econômicos, estas práticas seriam validadas e difundidas para as outras unidades por elas representadas. Assim, nesta dissertação, procurase compreender como o Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar influenciou as ações gerenciais e técnicas dos produtores rurais no Paraná, inseridos e não inseridos no Projeto no período de 1998 a A partir da apresentação do Projeto, das ações relativas à condução gerencial e técnica dos produtores inseridos e não inseridos no Projeto, interpretouse as manifestações de estrutura e capacidade de agência dos produtores inseridos e dos não inseridos no Projeto. Isso foi realizado com base nas prescrições do Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar, nos esquemas interpretativos dos produtores entrevistados e nas suas ações relativas à condução gerencial e técnica no período estudado, sob ótica da Teoria Neoinstitucional e Teoria da Estruturação. Estas teorias estudam como as organizações (e aqui se pode incluir as propriedades rurais), estão ligadas por interdependências técnicas, estruturais, normativas e cognitivas, o que pode gerar o isomorfismo, ou seja, respostas e estruturas semelhantes, e legitimadas, às pressões ambientais, sociais e políticas. Porém, estas respostas podem ser diversas a depender das diferentes lógicas institucionais e estímulos que as empresas sofrem, como enxergam as mudanças e do contexto relacional entre os que propõem a mudança e os que a adotam, além da influência de redes de relacionamento e filtros de adoção de inovações. Ou seja, as respostas às estruturas sociais dependem da interpretação que o agente tem delas, enquanto as reproduzem ou modificam, enquanto as traduzem para sua própria realidade, o que autores denominam capacidade de agência. Com a pesquisa, percebeu-se que há esta capacidade de agência nas ações da maioria dos agricultores inseridos e não inseridos no Projeto. Viu-se também que, pelos atores terem agência, podem gerar diferentes respostas aos mesmos estímulos, mas sempre de forma limitada e a limitar a estrutura do Projeto. Palavras-chave: Estrutura e Agência, Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar, Teoria Neoinstitucional, Teoria da Estruturação.

7 ABSTRACT One of Brazil s main economic activities is the agriculture and cattle raising industry, so it is for its natural conditions or for its colonization process. Therefore this sector has intensive research and tecnology to help its development. But, the farm men not always adopt the practices from these researches because they not constantly recognize themselves with them, thus there is the necessity of projects and studies to adapt the research knowledge to the field. Hence Parana adopted the Projeto Redes de Referência para a Agricultura Familiar, a Government of Parana Project togheter with the Institute d Élevage, IBRD International Bank for Reconstruction and Development, EMATER/PR (Parana`s Institute of Technical Assistence and Rural Extention) and IAPAR (Agronomic Institute of Parana). The Project chooses representative proprierties with regional characteristics and production sistems, with information about the earth, workforce and production so, from needs diagnosis, production rasing information and well fare actions for the farmers can be done. Then, from technical and economic parameters, these practices would be validated and difunded to the other units for them represented. Accordingly, in this paper, we have aimed to understand how the Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar has influenced the management and thechnical actions of the Parana s husbandmen, in and off the Project, from 1998 until With the Project and the farmer s action toward management and thechnical conduction presentation, it has been interpreted the structure and agency capacity of the farmers in or off the Project. Based on the prescriptions of the Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar, the interviewed farmers interpretative schemas and in their actions related to the management and thechnical conduction in the period studied, under the neoinstitutional theory and the estructuration theory. These theories study how the organizations (and the rural enterprises) are connected thru technical, structural, normative and cognitive inter-dependencies, what can provoque the isomorfism, in other words, similar answers and structures and legitimated by enviromental, social and political pressures. However these answers can be diverse depending on the different institutional logics and stimulus that the organizations sufer, how they understand the changes and on the reletional context between those who propose the change and those who adopt them, besides the relationship network and the innovation adoptions filters. Meaning: the answers to the social structures depend of the interpretation that the agent has of them, while they modify or reproduce them, while they translate them to their own reality, what authors call agency capacity. With this research it can be concluded that there is agency in the actions of the majority of the farmer inside and outside the Program. And that, because the actors have agency, they produce different answers to the same stimulus, but always in a limited way and limiting the Project Structure. Key-words: Structure and Agency, Redes de Referência para Agricultura Familiar Project, Neoinstitutional Theory, Structuration Theory.

8 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Diferenças entre velho e novo institucionalismo Quadro 2 Os pilares institucionais Quadro 3 Perspectiva do ambiente institucional versus ambiente técnico Quadro 4 Contexto efetivo da Teoria Neoinstitucional Quadro 5 Critérios para definição da categoria social do produtor rural Quadro 6 Padrões nas categorias e tempo scripts dos produtores entrevistados

9 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Processo de institucionalização Figura 2 Estruturação de Giddens Figura 3 Funcionamento da agência Figura 4 Circuito de reprodução Figura 5 Mapa do Paraná destacando as mesorregiões onde foi inicialmente implantado o Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar Figura 6 Modelo seqüencial de institucionalização Figura 7 Etapas do trabalho das redes de referência Figura 8 Municípios onde existem estabelecimentos das redes e suas principais atividades econômicas que compõem sistemas de produção em estudo... 79

10 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS APAE Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais ASTRUF Associação dos Trabalhadores Rurais do Assentamento da Fazenda São Francisco BIRD Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento COOPAVEL Cooperativa Agroindustrial de Cascavel CRESOL Cooperativa de Crédito Rural com Interação Solidária EMATER/PR Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária IAPAR Instituto Agronômico do Paraná INCRA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária MST Movimento dos Trabalhadores Sem Terra PIB Produto Interno Bruto PROAGRO Programa de Garantia da Atividade Agropecuária PRONAF Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar SEAB Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento UEM Universidade Estadual de Maringá

11 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO OBJETIVOS Objetivo geral Objetivos específicos JUSTIFICATIVA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-EMPÍRICA A TEORIA NEOINSTITUCIONAL Instituições: fontes cognitivas do agir ESTRUTURA E AGÊNCIA PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS PERGUNTAS DE PESQUISA DEFINIÇÃO CONSTITUTIVA E OPERACIONAL DELINEAMENTO DA PESQUISA DADOS: FONTES, COLETA E INTERPRETAÇÃO Fontes de dados Instrumentos de coleta de dados Sujeitos da pesquisa Interpretação dos dados APRESENTAÇÃO E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS O PROJETO REDES DE REFERÊNCIA PARA AGRICULTURA FAMILIAR OS PRODUTORES RURAIS Os agricultores inseridos no Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar Os agricultores não inseridos no Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar AS AÇÕES REALIZADAS As ações realizadas por agricultores inseridos no Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar As ações realizadas por agricultores não inseridos no Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar AS MANIFESTAÇÕES DE ESTRUTURA E CAPACIDADE DE AGÊNCIA ENTRE OS DOIS GRUPOS DE AGRICULTORES CONCLUSÕES REFERÊNCIAS A) ROTEIRO DE ENTREVISTA DOS PRODUTORES INSERIDOS NO PROJETO B) ROTEIRO DE ENTREVISTA DOS PRODUTORES NÃO INSERIDOS NO PROJETO...180

12 11 1 INTRODUÇÃO O Brasil tem na agropecuária uma de suas principais atividades econômicas, sendo que um a cada três reais gerados no país é derivado do agronegócio, ou seja, segundo estatísticas do Ministério da Agricultura, 33% do Produto Interno Bruto (PIB), 42% das exportações totais e 37% dos empregos brasileiros vêm da agricultura. Estes resultados são alcançados pela vocação do país para a agricultura, devido à quantidade de mananciais, qualidade do clima e solo etc., pela própria cultura e processo de colonização e pelo incentivo até hoje dado ao setor. Além disso, nas últimas décadas, houve muita pesquisa em ciência e tecnologia gerada em institutos de pesquisas pelo Brasil, para o incremento das atividades no meio rural (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 2007). No Paraná, o órgão oficial de pesquisa agropecuária é o IAPAR (Instituto Agronômico do Paraná). Ele foi estabelecido com a finalidade de execução da pesquisa técnico-científica e a formação e treinamento de pessoal especializado, visando o desenvolvimento da agricultura paranaense. Segundo Borgonhoni (2005), o Instituto auxilia na formulação e implementação de políticas públicas para o Estado, sendo o órgão encarregado de receber as demandas advindas dos diversos atores sociais e identificar oportunidades que possam contribuir para a inovação de produtos e processos agropecuários. Um exemplo disso é o Projeto Redes de Referência para a Agricultura Familiar. Na década de 1990, iniciou-se um intercâmbio de técnicos do IAPAR e do Institut de l Élevage, da França, para aplicação de um projeto de pequenos agricultores no Paraná, com os objetivos de: (a) levantar demandas de pesquisa a partir de diagnósticos nas propriedades; (b) realizar testes, ajustes e validação de tecnologias; (c) ofertar tecnologias e/ou atividades que ampliem a eficiência dos sistemas de produção; (d) disponibilizar informações e propor métodos para orientar os agricultores na gestão da propriedade rural; (e) servir como pólo de difusão e capacitação de técnicos e agricultores e subsidiar na formulação de políticas de promoção da agricultura familiar (EMATER/PR, 2007). Com essa perspectiva, um conjunto de propriedades representativas de determinado sistema de produção familiar foi escolhido. A intenção era que, após o processo de otimização visando à ampliação de sua eficiência e sustentabilidade, conduzido por agricultores e

13 12 técnicos (pesquisadores do IAPAR e extensionistas do EMATER/PR 1 ), estas propriedades servissem como referência técnica e econômica para as outras unidades por elas representadas (EMATER/PR, 2007). Assim, as propriedades inseridas no Projeto foram divididas em diferentes sistemas de produção, segundo características como solo, clima, mão-de-obra e maquinário disponível. De cada sistema foi escolhida uma propriedade para testes de novos arranjos produtivos para servir de referência posterior às outras propriedades semelhantes. Estas, não são semelhantes apenas por fatores geográficos, mas por fatores culturais e sociais. Segundo Meyer e Rowan (1991), as empresas de forma geral (e aqui se pode incluir as propriedades rurais), estão ligadas por interdependências técnicas e por trocas. Existe um paralelismo entre as organizações e o ambiente; afinal, as primeiras refletem a realidade construída socialmente no segundo. Este paralelismo entre as organizações é denominado, na Teoria Neoinstitucional, de isomorfismo, o que significa que o ambiente designa alguns valores e modelos legitimados institucionalizados - para as organizações, que para nele sobreviverem, devem segui-los. Mas, acreditar na aplicação irrestrita destes modelos é acreditar na pura reprodução dos mesmos. Se assim fosse, todas as práticas institucionalizadas seriam reproduzidas sem modificação. A literatura fala em agência para explicar a capacidade de reconstrução dos modelos por atores individuais (GIDDENS, 2003; SCOTT, 2001). Ou seja, segundo Machado-da-Silva et al. (2005), agência é a capacidade de agir, influenciada por estruturas referenciais, não apenas a reprodução das mesmas. O homem vive em sociedade, e para tanto, necessita de segurança em suas atitudes perante si e os outros. Assim, conforme vive, aprende como se portar em determinadas situações a partir de conseqüências desejadas. Giddens (2003) explica que, a partir desta aprendizagem, a qual é individual e ao mesmo tempo coletiva - dada que é social - em que os atores criam, recriam e reproduzem modelos, certas práticas passam a ser tidas como corretas em alguns contextos é a institucionalização ou processo de criação de estruturas. 1 Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural

14 13 Nota-se, portanto, que certas práticas são aceitas e reproduzidas (ou não) a partir da interpretação dos atores dos contextos e das respostas que julgam convenientes segundo suas intenções. Desta forma, mesmo em situações semelhantes, os indivíduos podem agir de formas diferentes, afinal, os contextos ambientais podem ser captados de forma diferente. É o que a literatura hoje denomina de tradução e edição, ou seja os indivíduos traduzem e editam as práticas do meio para sua própria realidade, seguindo as estruturas, mas de forma a adaptá-las a sua realidade. Com esta perspectiva e trazendo para o cenário desta dissertação, o que se pode perceber é que os pequenos produtores da agricultura familiar no Paraná estão inseridos no que Guarido Filho e Machado-da-Silva (2001) chamam de contexto objetivamente orientado por relações de trocas e, segundo Lourenzani (2003), dependentes de políticas governamentais, tecnologias, mercados específicos e de condições edafo-climáticas variadas. E, além desse contexto efetivo, há a interpretação desse contexto, que depende da realidade socialmente construída. Assim, o que se quer pesquisar aqui é a visão subjetiva do ambiente desses produtores, ou seja, investigar se a interpretação do contexto dos pequenos agricultores inseridos no Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar é diferente dos não inseridos. A partir disso, pretende-se estudar as manifestações de estrutura e capacidade de agência entre os dois grupos de agricultores, com base em suas ações realizadas desde o início do Projeto até Detalhando a colocação acima, no caso do Projeto Redes de Referência, é de se presumir que a partir de testes, observação e divulgação dos instrumentos utilizados pelos agricultores, extensionistas e pesquisadores, as estruturas foram sendo institucionalizadas e passando a servir de modelo às outras. Ou seja, com a pesquisa procura-se compreender não apenas efeitos de instituições, mas seu processo de formação (ou não) e seus significados. Com isso, pretende-se interpretar a influência do Projeto Redes de Referência na capacidade de agência dos agricultores contemplados e não contemplados no Projeto. Essa preocupação surgiu ao estudar dissertações anteriores sobre o assunto (SALDANHA, 2005; ARAÚJO, 2007), que investigaram o Projeto Redes de Referência sob outra perspectiva, mas que deixaram em aberto essa nova possibilidade, de se executar pesquisas empíricas que unam

15 14 preceitos da teoria da estruturação de Giddens (2003) e abordagem neoinstitucional, tendo como objeto de pesquisa a área agrícola. Baseado nestas considerações, o problema de pesquisa que se coloca para investigação é o seguinte: Como o Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar influenciou as ações gerenciais e técnicas dos produtores rurais no Paraná, inseridos e não inseridos no Projeto, no período de 1998 a 2009? 1.1 OBJETIVOS Objetivo geral Com base no problema de pesquisa anteriormente colocado, o objetivo geral desta dissertação é: Entender como o Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar influenciou as ações gerenciais e técnicas dos produtores rurais no Paraná, inseridos e não inseridos no Projeto no período de 1998 a Objetivos específicos Para a consecução do objetivo geral acima colocado, os objetivos específicos a serem alcançados neste trabalho são: 1) Apresentar o Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar, descrevendo a sua atuação no Paraná de 1998 a 2009; 2) Descrever as ações relativas à condução gerencial e técnica dos produtores inseridos no Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar; 3) Descrever as ações relativas à condução gerencial e técnica dos produtores não inseridos no Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar;

16 15 4) Interpretar as manifestações de estrutura e capacidade de agência dos produtores inseridos e dos não inseridos no Projeto, com base nas prescrições do Projeto Redes de Referência para Agricultura Familiar, nos seus esquemas interpretativos e nas suas ações relativas à condução gerencial e técnica no período estudado. 1.2 JUSTIFICATIVA O setor agropecuário é de suma importância para a economia e a sociedade brasileira. Assim, estudar este contexto, bem como possíveis arranjos e formas de gestão, sua implantação e processo são de grande valia aos estudos organizacionais. Ainda mais quando se estuda pequenos agricultores, que necessitam da terra para seu sustento e os projetos a eles sugeridos pelos sucessivos governos e seus aparelhos de Estado, que têm conseqüências administrativas, econômicas e sociais. A Teoria Neoinstitucional entra nesse contexto como forma de tentar explicar como se dão as manifestações de estrutura e a capacidade de agência entre os pequenos agricultores, considerando o meio institucional no qual estão inseridos. Especialmente aqueles inseridos no Projeto Redes de Referência para a Agricultura Familiar, um projeto cujos atores agricultores, institutos de pesquisa, órgãos de extensão rural e governo, principalmente são altamente institucionalizados, nem sempre possuem os mesmos objetivos, mas que neste contexto estão intimamente ligados, afinal as propriedades dos agricultores são os palcos de pesquisa e de desenvolvimento de tecnologia para outras propriedades e para os próprios pesquisadores do IAPAR e extensionistas da EMATER/PR. Neste contexto de pluralidade institucional e das relações entre diferentes atores com específicas relações de poder, dá-se palco a uma relação extremamente rica para tentar estudar empiricamente como se dá a interação entre estes atores; o que ela determina; quais são as pressões institucionais sofridas pelos agricultores inseridos (e os não inseridos) e o que estas relações significam para eles. Com este trabalho, procura-se auxiliar, então, no aprofundamento de uma teoria baseada não apenas em estudos de efeitos institucionais, mas de seu processo de formação e significação para o campo e para as organizações individuais.

17 16 Assim, a pesquisa traz relevância prática, por estudar outras nuanças do Projeto seu significado subjetivo e intersubjetivo para seus atores. E teórica, pois visa estudar como e porque estas organizações funcionam como o fazem e quais as conseqüências deste funcionamento. E, de forma mais específica, compreender as relações de estrutura e agência - relação de dualismo muito estudada na teoria organizacional - a qual teve até um volume especial da Organizational Studies em 1997, cujos artigos intercalaram conceitos de mudança institucional, também objeto de volume especial de revista científica, a Academy of Management Journal, em 2002, se mostra relevante para a pesquisa atualmente. 1.3 ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO A dissertação está organizada de modo a atingir seus objetivos. O primeiro capítulo introduz, contextualiza, apresenta a problemática em questão e a justificativa do trabalho. O segundo capítulo apresenta a Teoria Neoinstitucional, abordagem que norteia o estudo, assim como apresenta os conceitos de estrutura e agência. No terceiro capítulo, procura-se mostrar o percurso metodológico para atingir os objetivos da pesquisa. O quarto apresenta o Projeto Redes de Referência para a Agricultura Familiar e também contém a apresentação e interpretação dos dados primários, coletados a partir das entrevistas realizadas, e secundários, a partir de análise de documentos relativos ao Projeto de cunho oficial produzidos pela EMATER/PR e IAPAR - e cunho acadêmico, dissertações e artigos sem vínculo direto com os Institutos de pesquisa e extensão. Por fim, são colocadas as conclusões do trabalho, organizadas de forma a mostrar a consecução dos objetivos da dissertação.

18 17 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-EMPÍRICA Este capítulo tem como intento apresentar a sustentação teórica do trabalho, para chegar ao seu fim principal: entender como o Projeto Redes de Referência influenciou as ações gerenciais e técnicas dos produtores de leite inseridos e não inseridos no Projeto no período de 1997 a Serão apresentados diferentes enfoques dentro desta abordagem, para evidenciar suas especificidades e aprofundar seu entendimento. 2.1 A TEORIA NEOINSTITUCIONAL Reed (1998) é um dos autores que argumentam que as teorias sobre as organizações podem ser vistas como processos de ação e criação em períodos específicos, conforme a legitimação do conhecimento e enfoque da condição histórico-social vigente. Seria um modo de ver o mundo, pelo qual pesquisadores procuram explicá-lo, influenciando assim os meios e resultados das pesquisas. Essa idéia pode ser complementada pela seguinte afirmação: as ciências sociais diferenciam das naturais, pois ajudam a criar-se (GIDDENS, 2003, p. XL). Segundo Scott (1991), com o advento do capitalismo, as organizações formais passaram a ter papel fundamental nos estudos sociais, como peças essenciais no sistema sociológico. Desde então, segundo Greenwood et al. (2002), inúmeras teorias procuram entender como e porque as organizações funcionam como o fazem e quais as conseqüências destas ações. Assim, existem várias teorias sobre as organizações, cada qual representando o estado da arte de um momento específico. Neste contexto, emerge a Teoria Neoinstitucional. Na visão de Scott (2001), esta teoria, ao lado da Teoria da Ecologia Organizacional, procura explicar as diversidades nos campos organizacionais (organization fields). Estes campos seriam sistemas compartilhados de significados formados por organizações com alto grau de interação, estruturas, informações e percepções intra-organizacionais compartilhadas e padrões de coalizões (DIMAGGIO; POWELL, 1991; GREENWOOD et al., 2002; SCOTT, 2001; TOLBERT; BARLEY, 1997). Assim, os campos não são mais apenas locais de proximidade geográfica e relações cara a cara, como o velho institucionalismo descrevia. Mas, ambientes formados por indústrias, profissões, agentes de governo e outros agentes que compartilham significados, estruturas e

19 18 percepções e sentimento de mutualidade. Um exemplo de campo organizacional seria o da agricultura, que abrange propriedades rurais dos mais diversos tamanhos, cooperativas, governo, agências e autarquias, cooperativas, institutos de pesquisa, empresas de transporte, entre outros. Tolbert e Zucker (2006) defendem a idéia de que a Teoria Neoinstitucional parte da premissa de que as organizações, por estarem inseridas em sistemas os campos - se inter-relacionam. A afirmação de Meyer e Rowan (1991, p. 41) reforça essa opinião: organizações formais são sistemas de atividades coordenadas e controladas que emergem quando seu trabalho imerge em complexas redes de relações técnicas e trocas. Neste sentido, Greenwood et al. (2002) discorrem que as influências das redes sociais e contexto institucional explicam inclusive os mitos racionalizados, ou seja, o entendimento comum criado por interação social - do meio apropriado de se fazer as coisas ou prescrições de conduta apropriada. Em sua pesquisa, estes autores narram as ações da Associação de Contadores do Canadá e de Alberta para mudar o foco de seus serviços da área de contabilidade e auditoria para mais funções (como consultoria, por exemplo). Para tanto, utilizaram pressões de caráter normativo mudanças no estatuto da associação de profissionais - e coercitivo mudança na lei que regulava a profissão, além de instrumentos cognitivos com artigos publicados e muita mídia sobre a mudança. E, após vinte anos de pressões institucionais, o aumento do escopo de atribuições foi finalmente institucionalizado no campo como o jeito certo de ser uma empresa ou profissional de contabilidade. Owen-Smith e Powell (2008) explicam que as redes sociais são criadoras e condutoras de idéias e práticas. Enquanto as instituições moldam estruturas e condicionam seus efeitos, as redes geram categorias e hierarquias que definem instituições e contribuem para sua eficácia. Desta forma, organizações são impelidas a incorporar práticas e procedimentos que são institucionalizados por profissionais, hierarquias e reforçados pela opinião pública. Estes autores estudaram sobre significados compartilhados e estruturas emergidas de interação repetida. Ou seja, pesquisaram como redes informais podem condicionar campos. Eles estudaram como fatores institucionais influenciam decisões por meio de pesquisa sobre redes relacionais e adoção de certos tipos de administração. Resultado: corporações com dirigentes que se formaram em escolas de elite estavam mais propensos a certas adoções que

20 19 quem não estudara não. Assim, o background institucional e conexões influenciam em estratégias corporativas. Ou seja: as práticas tinham influências institucionais e efeitos de rede. Desta forma, a rede é canal de efeitos institucionais como referência de práticas. E redes e instituições influenciam-se mutuamente (OWEN-SMITH; POWELL, 2008). Meyer e Rowan (1991) complementam esta idéia, defendendo que as relações nos diferentes campos determinam procedimentos organizacionais, os quais nem sempre são os mais eficientes, mas que aumentam as perspectivas de sobrevivência das empresas por sua legitimidade social. Estes autores defendem que há dois tipos de empresas, aquelas que adotam novas práticas por fatores econômicos, por serem eficazes a seus problemas, e aquelas que adotam estas práticas de forma tardia, para legitimar-se ao campo. Ou seja, estes autores defendem que as empresas, para legitimarem-se, adotam muitas vezes, práticas não consoantes com suas necessidades para se legitimarem perante o campo, condição sine qua non para sua sobrevivência. Porém, como estas não seriam necessariamente as melhores práticas para a organização, muitas utilizam o que Meyer e Rowan (1991) denominam de decoupling activities: as empresas seguiriam certos preceitos institucionais perante o campo; no entanto, na prática, realizam práticas diversas. Neste sentido, uma empresa pode se mostrar ao campo como adotante de práticas de responsabilidade social, como ajuda a entidades filantrópicas, para obter marketing gratuito e apoio do campo organizacional, porém seus funcionários trabalham em ambiente insalubre. Ainda sobre decoupling activities, Boxenbaum e Jonsson (2008) ressalvam que estas também podem ser fontes de mudanças intra-organizacionais. Utilizando a situação acima, seria como se, de tanto pregar responsabilidade social e se mostrar como tal, a empresa acabasse percebendo seus funcionários e/ou a gerência - a situação de insalubridade e a modificasse. Assim, a Teoria Neoinstitucional estuda a relação entre organização e ambiente e como aquelas se adaptam a relações e pressões dele e delas derivadas. Esta teoria procura, nas influências de redes sociais e no contexto institucional, explicar como se comportam as organizações (GREENWOOD et al., 2008). Neste sentido, Haunschild e Chandler (2008) adicionam à teoria de Meyer e Rowan (1991), que organizações adotantes de certas práticas de forma tardia não o fazem apenas para legitimar-se perante a sociedade, mas que algumas

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