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1 Revista Jurídica da Faculdade Una de Contagem

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3 Organização Alessandra Mara de Freitas Silva Flávio Alves Janones Revista Jurídica da Faculdade Una de Contagem Volume 1 Número 1 Jul/Dez 2014 Belo Horizonte 2015

4 Copyright 2015 by Una Contagem As opiniões emitidas em artigos ou notas assinadas são de responsabilidade dos respectivos autores. A Revista Jurídica da Faculdade UNA de Contagem é editada semestralmente sob os auspícios da Faculdade de Direito do Centro Universitário UNA de Contagem e da Editora Letramento. FACULDADE DE DIREITO UNA DE CONTAGEM Reitor: Átila Simões da Cunha Direitor Geral: Flávio Alves Janones Coordenação do curso de Direito: Alessandra Mara de Freitas Silva Diretor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas: Evander Luis de Moura Coordenadora da Pós Graduação de Direito UNA: Cynthia Goursand Macedo Mendonça R454 Revista Jurídica da Faculdade Una de Contagem / Organização Alessandra Mara de Freitas da Silva ; Flávio Alves Janones v.1 n.1 (jul /dez 2014). -- Belo Horizonte, MG : Letramento : Faculdade de Direito do Centro Universitário UNA Contagem, p..; 16x23 cm. Periodicidade : Semestral ISSN: Professores - Contagem (MG) - Capacidade Jurídica, legislação, etc. 2. Direito - Brasil.I. Silva, Alessandra Mara de Freitas, org. II. Janones, Flávio Alves, org.iii.título. 2. CDD 340 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária Juliana Farias Motta CRB Este livro foi editado respeitando as novas regras ortográficas. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Não é permitida a reprodução desta obra por qualquer meio, físico ou digital, sendo a violação dos referidos direitos crime punível com pena de multa e prisão na forma do artigo 184 do Código Penal. O mesmo se aplica às características gráficas e editoriais. A Editora Letramento não se responsabiliza pela originalidade do conteúdo desta obra, sendo que essa é de responsabilidade exclusiva do autor, assim como do que dela impingir aos seus leitores. Impresso no Brasil. Printed in Brazil.

5 REVISTA JURÍDICA DA FACULDADE UNA DE CONTAGEM Editor Prof. Dr. Lucas Moraes Martins Organização Alessandra Mara de Freitas Silva Flávio Alves Janones Revisão Técnica Cristian Kiefer da Silva Hassan Magid de Castro Souki Fabiano Eustáquio Zica Silva Conselho Editorial Adilson Xavier da Silva (UNA) Alexandre Bueno Cateb (Ibmec/MG) Alexandre Travessoni Gomes Trivisonno (UFMG e PUC/MG) - Ana Flávia Arruda Lanna Barreto (UNA) Arthur Magno e Silva Guerra (Milton Campus) Daniel Moreira do Patrocínio (UNA) Fernando Herren Aguillar: USJT e da USP Fernando José Borges Correia de Araújo (Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa) Hugo Schayer Sabino (Faculdade Novos Horizontes) Jean Christhoper Merle (Universidade de Tours) Juraciara Vieira Cardoso (UFLA) Lucas Moraes Martins (UNA) Marcelo Sarsur Lucas da Silva (UNA) Oksandro Osdival Gonçalves (PUC/PR) Renata Mantovani de Lima (UNA) Pareceristas Iara Alves Etti Froes Ipojucan Coelho Ayala (PUC/MG) Fernando José Borges Correia de Araújo (Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa) Oksandro Osdival Gonçalves (PUC/PR) Álvaro Chagas castelo Branco (UniCEUB) Cristian Kiefer da Sila (UNA) Telder Andrade Lage (UNA) Fabiano Eustáquio Zica Silva (UNA) Lucas Moraes Martins (UNA) Hassan Magid de castro Souki (UNA) Alessandra Mara de Freitas Silva (UNA) Lucas Alexandre Barquette (UNA) Adriano Olinto Meirelles (UNA)

6 Periodicidade: Semestral Editora Letramento Editor Responsável: Gustavo Abreu Projeto Gráfico, Diagramação e Capa: Bruno Oliveira Avenida Professor Mário Werneck, 2900 Sala Belo Horizonte/MG Tel: (31) Tiragem: 1000 unidades FACULDADE DE DIREITO UNA DE CONTAGEM Revista Jurídica da Faculdade UNA de Contagem - Volume 1, Número 1, Jul/Dez 2014, pp Prédio I: Avenida João César de Oliveira, 6620, Beatriz; Prédio II: Rua João de Deus Costa, 330 Contagem - MG (31) CEP

7 Sumário editorial: Uma nova etapa...11 DILEMAS DE UM ESTADO (DEMOCRÁTICO) MULTICULTURAL: O direito como reconhecimento cultural nas sociedades democráticas contemporâneas Introdução Multiculturalismo e Pluralidade Cultural Compreensão do termo multiculturalismo Multiculturalismo e reconhecimento Do reconhecimento social na contemporaneidade: diversidade cultural e democracia CONCLUSÃO: O DIREITO E O RECONHECIMENTO...27 REFERÊNCIAS...30 TOMBAMENTO COMO INSTRUMENTO DE PRESERVAÇÃO AO PATRIMÔNIO CULTURAL, POLÍTICA URBANA E POLÍTICA CULTURAL INTRODUÇÃO DEFINIÇÃO E UTILIDADE DO TOMBAMENTO CRITÉRIOS PARA O TOMBAMENTO TOMBAMENTO E PLANEJAMENTO PODER PÚBLICO E O PARTICULAR NA MANUTENÇÃO DO PATRIMÔNIO TOMBADO CONSIDERAÇÕES FINAIS...46 REFERÊNCIAS...46 AS LEIS DE ANISTIA E AS TRANSIÇÕES DEMOCRÁTICAS INTRODUÇÃO AS TRÊS ONDAS DE TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA VIOLAÇÕES DE DIREITOS FUNDAMENTIAS E HUMANOS PROCESSAR E PUNIR OU PERDOAR E ESQUECER? CONCLUSÃO...56 REFERÊNCIAS...61 ENFRENTAMENTOS TEÓRICOS DA PESQUISA CIENTÍFICA PROCESSO COMO TEORIA DA LEI DEMOCRÁTICA, DE AUTORIA DE ROSEMIRO PEREIRA LEAL Considerações iniciais Proposição da pesquisa e seu marco teórico: embaraços à compreensão dos institutos do direito, lei e norma Metodologia: método crítico Lógica Lógica geral (formal) Lógica modal Lógica situacional Lei: da Ideia à Teoria...75

8 5.1. Modelos de Estado e o mito da sociedade pressuposta Estado Liberal de Direito Estado Social de Direito (Republicano) Estado Democrático de Direito Processo como Teoria da Lei Democrática na perspectiva da Teoria Neoinstitucionalista do Processo Revisitação crítica da dogmática indiscernível do direito, lei e norma Considerações Finais...91 Referências...92 DIREITO À MEMÓRIA E A VERDADE: Memórias de histórias de violações de direitos humanos durantes as Ditaduras militares no Cone Sul e no Brasil INTRODUÇÃO O FUNDO CLAMOR OS ARQUIVOS DO TERROR MEMÓRIAS RESGATADAS A REPRESSÃO NAS DITADURAS DO CONE SUL A Ditadura Militar no Paraguai O Regime Militar Brasileiro A Ditadura Argentina A Ditadura Chilena A Ditadura Civil e Militar no Uruguai CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS CONSIDERAÇÕES SOBRE OS DISCURSOS DE AUTO-ENTENDIMENTO ÉTICO-POLÍTICO NO PROCESSO LEGISLATIVO DEMOCRÁTICO INTRODUÇÃO TIPOS DE ARGUMENTOS ENVOLVIDOS NO PROCESSO DEMOCRÁTICO DE FORMAÇÃO DA OPINIÃO E DA VONTADE PERSPECTIVA DESENVOLVIDA PELA TRADIÇÃO LIBERAL PERSPECTIVA DESENVOLVIDA PELA TRADIÇÃO REPUBLICANA PERSPECTIVA DESENVOLVIDA PELA TEORIA DO DISCURSO CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS A NOVA PRINCIPIOLOGIA CONTRATUAL: A BOA FÉ OBJETIVA E OUTROS PRINCÍPIOS CONTRATUAIS INTRODUÇÃO O QUE É PRINCÍPIO? DIRIGISMO CONTRATUAL BOA FÉ OBJETIVA E BOA FÉ SUBJETIVA Histórico da Boa-Fé Objetiva Histórico da Boa-Fé Objetiva no Brasil Funções da Boa-Fé Objetiva Função Interpretativa FUNÇÃO INTERATIVA...149

9 Função Limitadora Venire Contra Factum Proprium Surrectio e Suppressio Requisitos Tu Quoque Diferenças Entre Venire Contra Factum Proprium, Surrectio, Suprecccio e Tu Quoque PRINCÍPIO DA FUNÇÃO SOCIAL DOS CONTRATOS PRINCÍPIO DA REVISÃO OU EQUILÍBRIO CONTRATUAL CONCLUSÃO REFERÊNCIAS DESAFIOS PARA A CONCRETIZAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL: A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE DEPENDENTES QUÍMICOS SOB A ÓTICA DA NOVA ORDEM CONSTITUCIONAL INTRODUÇÃO BREVE ANÁLISE HISTÓRICA DA INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA E A LEI Nº / Os Destinatários da Lei Os Tipos de Internação Previstos e seus Requisitos Legais A Finalidade da Internação Compulsória A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA SOB A ÓTICA DA NOVA ORDEM CONSTITUCIONAL A Dignidade da Pessoa Humana O Princípio da Legalidade O Direito Deambulatorial ASPECTOS RELACIONADOS À CRIMINALIZAÇÃO DAS CONDUTAS Vedação da Analogia In Malam Partem A EFICÁCIA DA INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE TOXICÔMANOS CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS A PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PÚBLICOS PELA ADMINISTRAÇÃO INDIRETA NO BRASIL: ANÁLISE DO REGIME JURÍDICO E IMPORTÂNCIA DE TAIS ENTIDADES À LUZ DO PRINCÍPIO DA SUBSIDIARIEDADE ATIVIDADES ADMINISTRATIVAS DO ESTADO PÓS-MODERNO E O PRINCÍPIO DA SUBSIDIARIEDADE DIFERENÇAS ENTRE SERVIÇO PÚBLICO E ATIVIDADE ECONÔMICA A DESCENTRALIZAÇÃO ADMINISTRATIVA A DESCENTRALIZAÇÃO ADMINISTRATIVA POR SERVIÇOS A ADMINISTRAÇÃO INDIRETA O PAPEL DA ADMINISTRAÇÃO INDIRETA NO BRASIL DIFERENÇAS ENTRE O REGIME JURÍDICO DE DIREITO PÚBLICO E O REGIME DE DIREITO PRIVADO NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PÚBLICOS PELA ADMINISTRATIVA INDIRETA NO BRASIL REFERÊNCIAS DA POSSIBILIDADE DE JULGAMENTO DE ATOS TERRORISTAS PELO TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL INTRODUÇÃO ANTECEDENTES HISTÓRICOS A Instituição dos Tribunais Militares Internacionais...213

10 2.2. A Instituição Dos Tribunais Ad Hoc Pelo Conselho De Segurança Das Nações Unidas Possibilidade Do Julgamento De Atos Terroristas Pelo Tribunal Penal Internacional Terrorismo Como Crime De Guerra Terrorismo Como Crime Contra A Humanidade CONCLUSÃO REFERÊNCIAS POR UMA BIOÉTICA DIALÓGICA E INTERDISCIPLINAR A PARTIR DO HISTÓRICO DE DESENVOLVIMENTO DA DISCIPLINA INTRODUÇÃO DESENVOLVIMENTO A) Contexto Social, Político e Científico para o Surgimento da Bioética B) Histórico da Bioética CONCLUSÃO REFERÊNCIAS A PROPOSTA DE REFORMA DO CONSELHO DE SEGURANÇA DAS NAÇÕES UNIDAS E O ESTADO BRASILEIRO INTRODUÇÃO A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS O Conselho de Segurança da Onu A PROPOSTA DE REFORMA DA ESTRUTUTA DO CSNU, A DANÇA DAS CADEIRAS E O BRASIL PONTOS DE DISCUSSÃO CONCLUSÃO REFERÊNCIAS HÁ ALGO REALMENTE IMPERDOÁVEL? INTRODUÇÃO A VÍTIMA REALMENTE OCUPA A FUNÇÃO ESSENCIAL? RAZÕES PARA A IMPERDOABILIDADE SUBJETIVA O INTERESSE EM AFIRMAR A IMPERDOABILIDADE REFERÊNCIAS INSIDER TRADING: O alcance subjetivo da proibição do uso indevido de informação privilegiada INTRODUÇÃO O Insider Trading O INSIDER TRADING NO DIREITO BRASILEIRO Considerações Iniciais O Alcance da Proibição à Prática do Insider Trading CONCLUSÃO REFERÊNCIAS...299

11 editorial Uma nova etapa Há tempos gesta-se, nas mentes e nos corações dos docentes e discentes do Curso de Direito da Faculdade UNA de Contagem, o pensamento de uma revista jurídica, cuja preocupação central fosse a de fornecer à comunidade acadêmica um espaço amplo e irrestrito para o debate de temas jurídicos, políticos e filosóficos. A concretização desse ideal se deve a múltiplos esforços, coordenados de forma harmoniosa pela Professora Alessandra Mara de Freitas Silva e pelo Professor Flávio Alves Janones. Para além de louros e títulos, o curso de direito da Faculdade UNA de Contagem tem ultrapassado o árido solo das promessas para se fazer mostrar através de realizações concretas e palpáveis. Com passos serenos e firmes, o surgimento da primeira edição da revista jurídica da Faculdade UNA de Contagem abre uma nova época para o curso de direito, ou melhor, trata-se, sobretudo, de uma renovação: a de empreender a experimentação de uma vida acadêmica plena. Nesta primeira edição, contamos com quatorze artigos de fina reflexão jurídica, cuja contribuição democrática nos põe diante de novos motivos de investigação. O leitor encontrará nesta edição desde problematizações práticas que buscam refletir o cotidiano jurídico até meditações sobre questões político-filosóficas. Buscando inventar novas formas de estudar o direito, a linha editorial se mostra, assim, intencionalmente aberta às mais variadas reflexões, pautada sempre pela ética da alteridade, como ressaltado por Emmanuel Lévinas a alteridade pressupõe o respeito pelo Rosto do Outro. Convidamos o leitor que passeie despreocupadamente em nossas páginas, que ponha o olhar aqui e ali, em um gesto parecido com o do flâneur de Walter Benjamin, e, quem sabe, encontrar-se-á o fragmento necessário para se repensar o papel do direito e da justiça. Professor Doutor Lucas Moraes Martins Editor-chefe

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13 DILEMAS DE UM ESTADO (DEMOCRÁTICO) MULTICULTURAL: O direito como reconhecimento cultural nas sociedades democráticas contemporâneas ADRIANO OLINTO MEIRELLES 1 RESUMO A sociedade do século XXI apresenta-se paradoxal, complexa e disforme, formada por inúmeros grupos identitários que possuem diferenças únicas e ao mesmo tempo similaridades consistentes, tudo isso dentro de um espaço territorial delimitado na forma de Estados; os estabelecidos sob uma democracia de direito. O presente artigo tem por objetivo ressaltar a importância do multiculturalismo na defesa e reconhecimento da diversidade cultural e o papel do direito, inclusive mediante o incentivo na criação de direitos culturais. Num primeiro momento, busca-se fornecer noções sobre multiculturalismo, para em seguida, ressaltar a importância do reconhecimento da diversidade cultural enquanto objetivo das teorias multiculturais. Numa terceira etapa, trata-se de demonstrar a importância do reconhecimento da diferença para a concretização de Estados democráticos e, por fim, a importância do Direito como instrumento para efetivar o reconhecimento cultural nas sociedades democráticas contemporâneas. Ressalta-se que não será analisada nenhuma abordagem multicultural específica, mas serão levantadas apenas questões gerais importantes para incentivar o debate multicultural e o direito. Palavra-chaves: Multiculturalismo; direito; reconhecimento. 1 Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas. Especialista em Filosofia Política pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e em Ensino pela Universidade Católica de Brasília. Bacharelado em DIREITO pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Licenciatura em FILOSOFIA pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Professor Assistente e Pesquisador do Centro Universitário UNA. Professor Assistente e Pesquisador do Centro Universitário Unibh. Membro associado do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito (CONPEDI). Membro da Associação Brasileira de Sociologia do Direito e Filosofia do Direito (ABRAFI). Integrante dos Grupos de Pesquisas: Direito, Constituição e Processo Professor Doutor José Alfredo de Oliveira Baracho Júnior e Direito, Sociedade e Modernidade Professora Doutora Rita de Cássia Fazzi. 13

14 ABSTRACT The XXI century society presents itself paradoxical, complex and formless, formed by numerous identity groups that have unique differences and similarities while consistent, all within a delimited territorial space as states; those established under a law of democracy. This article aims to highlight the importance of multiculturalism in the defense and recognition of cultural diversity and the role of law, including by encouraging the creation of cultural rights. At first, we seek to provide notions of multiculturalism, to then highlight the importance of recognizing cultural diversity as a goal of multicultural theories. In a third step, it is to demonstrate the importance of recognizing the difference to the achievement of democratic states and, finally, the importance of law as an instrument to effect cultural recognition in contemporary democratic societies. It is noteworthy that not be considered any specific multicultural approach, but will be raised only general issues important to encourage the multicultural debate and the right. Keywords: Multiculturalism; right; recognition. 1. INTRODUÇÃO A sociedade do século XXI apresenta-se paradoxal, complexa e disforme, formada por inúmeros grupos identitários que possuem diferenças únicas e ao mesmo tempo similaridades consistentes, tudo isso dentro de um espaço territorial delimitado na forma de Estados; os estabelecidos sob uma democracia de direito. A práxis cidadã do Estado (pós) moderno influencia o todo do Estado democrático através da forma como ele se expressa nas escolhas individuais e coletivas. A cidadania já não se vislumbra como sendo apenas condição de uma comunidade que tenha a mesma origem, no sentido de nacionalidade ou o pertencer a uma determinada comunidade no sentido Aristotélico 2 do 2 Para Aristóteles o meio mais adequado de definir o cidadão para os regimes democráticos é defini-lo como aquele que pertence a um Estado, considerando membro àquele que participa da vida política e pode ser eleito,... logo que um homem seja considerado apto para participar nas magistraturas deliberativas ou judiciais pode ser considerado um cidadão daquele Estado e sempre que haja um número de tais pessoas, suficientemente grande para assegurar a auto suficiência política, temos um Estado. Considera-se, ainda como forma de adquirir a cidadania o nascer sob o solo de determinado Estado, com genitores daquele mesmo lócus, trazendo assim o fator sanguíneo, sem excluir outras formas aquisitivas derivadas de cidadania. (ver: ARISTÓTELES. A política. Tradução Roberto Leal Ferreira. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.) 14

15 termo, mas sim como sendo uma forma de exercício, dentro da sociedade democrática, de direitos e deveres na construção de um ambiente que já ultrapassa os limites do Estado tomando como globalizado. A essa maneira como se juntam a nova sistemática podemos denominar sociedade ou quem sabe arriscar e chamá-lo de Estado multicultural, baseando na diversidade das demandas e na multiplicidade cultural dentro de um espaço que se estende além da concepção territorial do Estado Moderno, mas que ainda cabe uma análise interna como forma de melhor organizarmos as idéias referentes aos problemas de realização da cidadania dentro desse ambiente diferenciado. 2. MULTICULTURALISMO E PLURALIDADE CULTURAL 2.1. Compreensão do termo multiculturalismo Stuart Hall (2003) faz uma distinção entre os termos multiculturalismo e multicultural. Este último conceito, essencialmente qualificativo, compreende no contexto da sociedade a existência de diversas comunidades culturais que apresentam características e problemas de governabilidade, as quais pressupõem uma convivência e uma tentativa de construção de uma vida em comum. O multiculturalismo, por sua vez, é um substantivo, englobando um conjunto de estratégias e políticas elaboradas e aplicadas em sociedades multiculturais, que procuram regular e administrar os problemas que estão afetos às questões vinculadas, à diversidade e multiplicidade. O termo Multiculturalismo é empregado no singular e se traduz numa filosofia ou doutrina que fundamenta as estratégias multiculturais. Por outro lado, a definição do vocábulo multicultural, aplica-se ao que é plural, a exemplo do que ocorre com os diversos tipos de sociedade multicultural. As sociedades que são culturalmente heterogêneas, por definição são multiculturais. Os Estados Unidos da América e a França são exemplos de sociedade multiculturais, às quais se distinguem do Estadonação moderno, que é tipicamente constitucional e liberal, que no contexto Ocidental apresentam como pressuposto básico a homogeneidade cultural, que estrutura-se a partir de valores universais, individualistas e seculares. O multiculturalismo não é fenômeno recente. Dentro da sociedade e do Estado, vem ocorrendo de forma lenta e gradual, com aceleramento crescente nas ultimas décadas. Hall (2003) aponta alguns fatores ou mudanças 15

16 históricas decisivas que fizeram diferença para a formação da sociedade em que hoje vivemos: primeiro, o fim do velho sistema imperial europeu, sendo a questão multicultural uma questão pós-colonial; segundo, o fim da Guerra Fria, o fim do comunismo e a tentativa de instalação de uma nova ordem mundial; terceira a globalização, aqui destacada a globalização contemporânea com a compreensão do espaço/tempo, com tendência cultural homogeneizante e que traz consigo um sistema de conformação da diferença, como forma de resistência implicando numa concepção de poder mais discursivo do que normalmente vinha sendo encontrado até então. A noção de multiculturalismo é hoje cada vez mais utilizada, não somente nos meios acadêmicos e políticos, como no cotidiano, por uma gama variada de pessoas, estando seu significado associado a diversos sentido, o que faz com que essa proliferação do termo não contribua para estabilizar ou esclarecer seu significado. O termo multiculturalismo pode ter diversas leituras associadas a contextos específicos e diferenciadas dos Estados, o que vem acarretando a criação de diferentes interpretações explicativas do termo. Do mesmo modo como ocorre com as abordagens teóricas da política, da moral, das instituições democráticas, das normas jurídicas, dentre outras, ou seja, em termos conceptuais, importa notar que o multiculturalismo é um termo polissêmico e existem, pelo menos, dois sentidos diferentes em que este pode ser utilizado. Uma teoria do multiculturalismo pode tanto privilegiar uma perspectiva descritiva como também prescritiva 3. No primeiro caso, uma teoria multicultural descritiva reporta a um fato da vida humana e social, que é a diversidade cultural étnica, religiosa, ou seja, um certo cosmopolitismo que atualmente é fácil de ver em qualquer grande cidade da Europa e da América do Norte, ao passo que no segundo caso, o objetivo da teoria multicultural é prescrever, determinar formas concretas ou mais razoáveis, legítimas, associadas às chamadas políticas de reconhecimento da identidade e/ou da diferença que os poderes públicos prosseguem, ou deveriam prosseguir em nome dos grupos 3 Jean-Claude Forquin (1993; 2000), afirma que o termo multiculturalismo apresenta dois sentidos: um sentido descritivo e um normativo ou prescritivo. Para ele, o multiculturalismo, no sentido descritivo, designa a situação objetiva de um país onde existem grupos de origem étnica ou geográfica diversa, falando línguas diversas, que não compartilham nem os mesmos modos de vida nem os mesmos valores. O sentido descritivo reflete a realidade multicultural, multiracial, multi-étnica, multireligiosa de uma determinada sociedade. Quanto ao segundo sentido do multiculturalismo de caráter normativo, ou prescritivo, diz respeito às propostas, às políticas utilizadas relacionadas a se trabalhar a realidade multicultural. 16

17 minoritários e/ou subalternos, ficando claro que as abordagens teóricas podem conjugar as duas perspectivas. Nas seções que seguem neste capítulo, privilegia-se a abordagem teórico-prescritiva do multiculturalismo, mas antes de adentrar neste viés, é necessário descrever o multiculturalismo como um fato social para melhor compreender os motivos que irão justificar a necessidade do enfoque teórico. O multiculturalismo, entendido como a situação de convivência de grupos diferenciados culturalmente sob um mesmo território, não é um fato novo, mas vem ganhando expressão diante dos processos de deslocamentos humanos, principalmente nestes tempos globais, o que se pode denotar numa serie de acontecimentos que ocorrem nas sociedades contemporâneas como reflexo desta situação multicultural, tais como a existência de uma pluralidade de culturas criadas pelos movimentos migratórios que modificam os quadros demográficos culturais dos países, como exemplo, dos Estados Unidos, Canadá; os movimentos de grupos nacionalistas que reivindicam maior autonomia ou até mesmo secessão frente a seus Estados como os kurdos, Chechenos 4 ; a existência de novos movimentos racismos de cunho sociocultural; o crescimento do movimento fundamentalistas que não aceitam diversidade cultural; a atuação dos novos movimentos sociais em busca de acesso a cultura, política e ao direito tais como os movimentos feministas, dos homossexuais etc. Em menor ou maior grau, a questão do multiculturalismo está presente em todos os países caracterizados por instituições democráticas, por uma população heterogênea e por uma economia pós-industrial em vias de globalização. Os grupos (baseados na multiplicidade cultural) que formam o conjunto social apresentam necessidades diversas, que diante de um Estado enfraquecido (seja por sua crise econômica, moral, política...) e insuficiente na respostas 4 A divisão territorial ou a secessão podem resolver conflitos étnicos, entre povos que não queiram mais viver juntas, por meio da repartição do espaço nacional. Nem sempre essa divisão territorial e/ou secessão, com a criação de novos Estados, é uma política de coersão, já que ela pode se basear no direito à autodeterminação dos povos. É comum, no entanto, que uma divisão territorial ou uma secessão, ao invés de acalmar a região, acabe por criar conflitos ou originar migrações de populações, especialmente quando os recursos naturais se tornam escassos em um dos territórios formados. É exemplo dessa ação a formação do Bangladesh, que era parte do Paquistão, por imposição britânica durante o domínio colonial da Ásia Meridional, e a URSS, que era formada desde o começo do século XX por 15 repúblicas, sob hegemonia da Rússia, que se esfacelou a partir de São também citados como exemplos modernos de possibilidade de secessão: o Québec, no Canadá, onde predomina a população de origem francesa; os bascos do norte da Espanha; os corsos, na ilha da Córsega, possessão francesa; os escoceses e galeses da Grã-Bretanha; e o Tibete, na China, dentre outros. 17

18 por demandas mínimas que garantam a dignidade, o que se tem encontrado em maior quantidade é a exclusão social, a marginalização, o abandono, a discriminação, vê-se o cidadão cada dia mais distante do Estado e vice-versa. Em contraposição ao ambiente crítico buscam-se possibilidades não utópicas de um Estado Democrático que privilegie a participação diversificada e igualitária no dia a dia da comunidade, e que garantam o acesso à realização dos direitos humanos e fundamentais, e todas as demais nuanças que envolvem a cidadania ativa e completa. É diante do fato do multiculturalismo e de suas conseqüências no interior dos Estados nacionais que se realça a importância das soluções, em termos normativos, para suas questões, justificando assim, a realização de uma gama de medidas políticas e estudos acadêmicos frente à proliferação de reivindicações de caráter étnico-cultural resultantes deste convívio sócio-cultural. Nesse sentido é que o multiculturalismo pode ser compreendido sob um enfoque teórico de caráter normativo que tem por objetivo prescrever maneiras de solucionar os problemas provenientes da convivência entre as pessoas e os diferentes grupos culturais existentes nas sociedades plurais que buscam, na coexistência conjunta, manter suas pautas culturais e sociais. Entretanto, apesar das diferentes propostas teóricas multiculturais existentes, enfatizam-se apenas as propostas que apresentam como resposta ao gerenciamento das demandas culturais, caminhos contrários as práticas assimilacionistas, 5 segregadoras e até mesmo genocidas postas em práticas pelos Estados nacionais (SILVA, 2006). A respeito do sentido do termo multiculturalismo, afirma Touraine (1997) que muitas vezes este é entendido como um nacionalismo agressivo, mas, para o autor, não há nada mais distante do multiculturalismo que a fragmentação do mundo em espaços culturais que idealizam a homogeneidade e a pureza e onde um poder comunitário toma o lugar da unidade de uma cultura. Segundo Touraine (1997), cultura e comunidade não devem ser confundidas porque as sociedades modernas, constantemente abertas a mudanças, não possuem uma unidade cultural total e também porque as culturas são constantemente renovadas a partir de novos acontecimentos e de novas 5 Entendendo como processo de absorção de uma cultura por outra, recebendo metaforicamente a designação de cadinho de raças. Já o conceito de mosaico étnico (integração de diferentes peças da sociedade reunidas em um arranjo) é utilizado para designar formas menos arbitrarias de integração. CASHMORE, Ellis. Verbet: Integração. Dicionário de relações étnicas e raciais, tradução de Dinah Klevej. São Paulo: Summuns, 2000, p

19 experiências. Assim, o multiculturalismo não é nem uma fragmentação sem limites do espaço cultural, nem um melting pot 6 cultural mundial: procura combinar a diversidade das experiências culturais com a produção e a difusão de massa dos bens culturais (TOURAINE, 1997, p ). Em sua concepção original, a expressão multiculturalismo designa a coexistência de formas culturais ou de grupos caracterizados por culturas diferentes no seio de sociedades modernas (SANTOS; NUNES, 2003, p. 26). Considerando as dificuldades de precisão do termo, no entanto, pode-se afirmar que multiculturalismo se tornou rapidamente um modo de descrever as diferenças culturais em um contexto transnacional e global. O termo multiculturalismo, porém, pode continuar a ser associado a projetos e conteúdos emancipatórios e contra-hegemônicos, baseados em lutas pelo reconhecimento da diferença (SANTOS; NUNES, 2003). Assim, A ideia de movimento, de articulação de diferenças, de emergência de configurações culturais baseadas em contribuições de experiências e de 6 O caldeirão é uma metáfora para uma heterogênea sociedade cada vez mais homogênea, os diferentes elementos derretendo juntos em um todo harmonioso, com uma cultura comum. É particularmente utilizado para descrever a assimilação de imigrantes para os Estados Unidos; a metáfora de ponto de fusão juntos foi em uso por década de No século XVIII e XIX, a metáfora de um cadinho ou melting pot (s) foi usado para descrever a fusão de diferentes nacionalidades, etnias e culturas. Foi utilizado em conjunto com os conceitos dos Estados Unidos como uma república ideal e uma cidade sobre uma colina ou nova terra prometida. Era uma metáfora para o processo idealizado de imigração e colonização pela qual diferentes nacionalidades, culturas e raças (um termo que pode englobar nacionalidade, etnia e raça) foram a mistura em uma comunidade nova e virtuosa, e era ligado a utópica visões do surgimento de um novo homem americano. Enquanto o derretimento era de uso comum o termo exato melting pot entrou em uso geral em 1908, após a estréia da peça The Melting Pot por Israel Zangwill. Judeu inglês cuja história tem sido esquecido, mas cujo tema central não tem. Sua produção foi intitulada The Melting Pot e sua mensagem ainda detém um poder tremendo no imaginário nacional - a promessa de que todos os imigrantes podem ser transformados em americanos, uma nova liga forjado em um cadinho de democracia, liberdade e responsabilidade cívica. Em 1908, quando a peça estreou em Washington, nos Estados Unidos estava no meio de absorver o maior fluxo de imigrantes na sua história - irlandeses e alemães, seguidos pelos italianos e europeus do Leste, católicos e judeus -cerca de 18 milhões de novos cidadãos entre 1890 e Hoje, os Estados Unidos está passando por sua segunda grande vaga de imigração, um movimento de pessoas que tem profundas implicações para uma sociedade que por tradição é uma homenagem às suas raízes de imigrantes, ao mesmo tempo em que confronta de forma complexo e profundamente enraizado divisões étnicas e raciais. Os imigrantes de hoje não vêm da Europa, mas predominantemente a partir do mundo ainda em desenvolvimento da Ásia e América Latina. Esta mudança, de acordo com os historiadores sociais, demógrafos e outros estudiosos, vão testar severamente a premissa do melting pot fabuloso, a idéia, tão central para a identidade nacional, que este país pode transformar as pessoas de todas as cores e fundo em uma América. By William Booth. Washington Post Staff Writer. Sunday, February 22, 1998; Page A1. 19

20 historias distintas tem levado a explorar as possibilidades emancipatórias do multiculturalismo, alimentando os debates e iniciativas sobre novas definições de direitos, de identidades, de justiça e de cidadania. (SANTOS; NUNES, 2003, p. 33). Como lembra Touraine (2004) o reconhecimento do multiculturalismo ou, mais simplesmente, das minorias e da diversidade cultural só pode ser intelectualmente fundado se houver o reconhecimento de que o principio de igualdade não é separável do principio de diferenciação, para tanto, devemos reconhecer que vivemos numa sociedade multifacetada, que abriga inúmeras culturas, costumes, formas de vida, e, reconhecê-las com igual peso no momento da tomada de decisões, bem como atribuir igual força a todos pode ser o primeiro caminho para superar esse déficit, mas o que percebemos é a tomada de um caminho exatamente inverso, qual seja, a tentativa de massificar a pluralidade, ignorando a diferença Multiculturalismo e reconhecimento Do reconhecimento social na contemporaneidade: diversidade cultural e democracia O multiculturalismo, como ressalta Costa e Werle, visa ao reconhecimento institucional mediante direitos dos diferentes valores e aspectos culturais presentes numa sociedade, ou seja, O multiculturalismo é a expressão da afirmação e da luta pelo reconhecimento desta pluralidade de valores e diversidade cultural no arcabouço institucional do Estado democrático de direito, mediante o reconhecimento dos direitos básicos dos indivíduos enquanto seres humanos e o reconhecimento das necessidades particulares dos indivíduos enquanto membros de grupos culturais específicos. Trata de afirmar, como direito básico e universal que os cidadãos tem necessidade de um contexto cultural seguro para dar significado e orientação a seus modos de conduzir a vida; que a pertença a uma comunidade cultural é fundamental para autonomia individual; que a cultura com seus valores e suas vinculações normativas, representa um importante campo de reconhecimento para os indivíduos e que, portanto, a proteção e respeito às diferenças 20

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