HISTÓRIA COMTEMPORÂNEA I

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2 HISTÓRIA COMTEMPORÂNEA I 1ª Edição

3 SOMESB Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda. Gervásio Meneses de Oliveira Presidente William Oliveira Vice-Presidente Samuel Soares Superintendente Administrativo e Financeiro Germano Tabacof Superintendente de Ensino, Pesquisa e Extensão Pedro Daltro Gusmão da Silva Superintendente de Desenvolvimento e Planejamento Acadêmico FTC - EaD Faculdade de Tecnologia e Ciências - Ensino a Distância Reinaldo de Oliveira Borba Diretor Geral Marcelo Nery Diretor Acadêmico Roberto Frederico Merhy Diretor de Desenvolvimento e Inovações Mário Fraga Diretor Comercial Jean Carlo Nerone Diretor de Tecnologia André Portnoi Diretor Administrativo e Financeiro Ronaldo Costa Gerente Acadêmico Jane Freire Gerente de Ensino Luis Carlos Nogueira Abbehusen Gerente de Suporte Tecnológico Romulo Augusto Merhy Coord. de Softwares e Sistemas Osmane Chaves Coord. de Telecomunicações e Hardware João Jacomel Coord. de Produção de Material Didático MATERIAL DIDÁTICO Produção Acadêmica Produção Técnica Jane Freire Gerente de Ensino Ana Paula Amorim Supervisão Jorge Bispo Coordenação de Curso Paulo de Jesus Autor(a) João Jacomel Coordenação Carlos Magno Brito Almeida Santos Revisão Final Fabio José Pereira Gonçalves Editoração Fabio Gonçalves, Francisco França Júnior, Cefas Gomes Ilustrações Equipe Angélica de Fatima Silva Jorge, Alexandre Ribeiro, Bruno Portela, Cefas Gomes, Cláuder Frederico, Delmara Brito, Diego Aragão, Fábio Gonçalves, Francisco França Júnior, Israel Dantas, Lucas do Vale, Marcio Serafim, Mariucha Silveira Ponte, Tatiana Coutinho e Ruberval Fonseca Imagens Corbis/Image100/Imagemsource copyright F T C EaD Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei de 19/02/98. É proibida a reprodução totalou parcial, por quaisquer m eios, sem autorização prévia, por escrito, da FTC EaD - Faculdade de Tecnologia e C iências - Ensino a D istância.

4 SUMÁRIO O LIBERALISMO NA ENCRUZILHADA: DA ERA NAPOLEÔNICA ( ) ÀS REVOLUÇÕES LIBERAIS DE A ERA NAPOLEÔNICA ( ): 8 O IMEDIATO PRÉ-ERA NAPOLEÔNICA 8 O CONSULADO ( ) 10 A POLÍTICA EXTERNA NO IMPÉRIO ( ) 13 O CONGRESSO DE VIENA ( ): AS FORÇAS DE RESTAURAÇÃO/CONSERVAÇÃO E A GESTAÇÃO DO SISTEMA INTERNACIONAL 17 ATIVIDADE COMPLEMENTAR 19 O TRIUNFO MOMENTÂNEO DAS FORÇAS DE RESTAURAÇÃO/ CONSERVAÇÃO E AS REVOLUÇÕES LIBERAIS OITOCENTISTAS (1830 E 1848) 20 SOB A AÇÃO DA SANTA ALIANÇA ( ) 20 A ONDA REVOLUCIONÁRIA DE 1830 : 23 A ONDA REVOLUCIONÁRIA DE 1848: 26 O OPERARIADO EUROPEU ( ) 31 ATIVIDADE COMPLEMENTAR 36 TÓPICOS SOBRE POLÍTICA E ECONOMIA INTERNACIONAL NO SÉCULO XIX 38 A ASCENSÃO DOS ESTADOS TARDIOS, A QUESTÃO DO ORIENTE E O SOCIALISMO 39 A UNIFICAÇÃO DA ALEMANHA 39 A UNIFICAÇÃO DA ITÁLIA 44 O IMPÉRIO TURCO OTOMANO E A QUESTÃO DO ORIENTE 46

5 SUMÁRIO O SOCIALISMO 49 ATIVIDADE COMPLEMENTAR 53 O IMPERIALISMO 54 O CIRCUITO ECONÔMICO DA EUROPA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX 54 A PARTILHA DA ÁFRICA 58 A INVESTIDA IMPERIALISTA NA ÁSIA 62 OS CHOQUES INTERNACIONAIS E A POLÍTICA DAS ALIANÇAS 69 ATIVIDADE COMPLEMENTAR 71 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 73

6 Apresentação da Disciplina Prezado colega, O período privilegiado por esta disciplina é o século XIX, chamado por alguns historiadores de o longo século. A importância de seu estudo para a compreensão de nosso tempo dificilmente é igualada pela do estudo de qualquer outro século. É este o século da difusão do liberalismo, da formação do sistema internacional contemporâneo, é o século das nações e do nacionalismo, essa força avassaladora que ainda há pouco tumultuava os Bálcãs - tomem o caso da Iugoslávia, por exemplo - hoje provoca convulsões históricas em países como a Espanha, com o caso do país basco, e a Rússia, com o caso da Chechênia. É neste século que cresce a postura crítica diante da religião, visível hoje no espantoso crescimento registrado pelos censos da categoria dos indivíduos que se declaram sem-religião. É um século de impressionantes avanços científicos e técnicos que vão imprimir profundas mudanças na produção, inclusive de conhecimento. É este o século do racismo científico cujas marcas ainda persistem na atitude policial diante dos elementos suspeitos (você já deve ter percebido isso em uma abordagem policial). Do mesmo modo, é o século do imperialismo, com a subseqüente partilha do continente africano cujas funestas conseqüências ainda afligem bilhões de pessoas naquele continente - e o arrombamento do continente asiático. É este, também, o século da emergência do movimento operário e do socialismo, forças que até bem pouco tempo atrás eram, consideravelmente, poderosas e temidas, mas que em nossos dias passam por um recesso, do qual os mais pessimistas acreditam que não vão sair. Enfim, trata-se de um século formidável. Ao final de cada tema, apresentamos algumas questões pertinentes ao que foi estudado, como os exercícios de fixação. Priorizamos a forma discursiva, pois entendemos que uma das habilidades que o professor de História deve dominar muito bem é a da escrita. Cremos que isso ajuda, inclusive, no que concerne ao quesito desenvoltura, que é sempre percebido e comentado para o bem ou para o mal pelos estudantes. Sempre que possível, intercalamos a exposição dos assuntos com boxes explicativos, nos quais desenvolvemos um pouco algum detalhe importante que não pôde ser analisado no decorrer do parágrafo correspondente ou, então, apresentamos uma citação geralmente, documental - que lança alguma luz mais direta sobre o assunto. Recomendamos a leitura cuidadosa dos boxes, uma vez que neles estão algumas chaves para a compreensão acurada dos conteúdos abordados; além disso, alguma erudição é exigida no trabalho com história, e um dos objetivos que visamos com os boxes é justamente oferecer-lhe um pouco deste item fundamental à nossa profissão. Ao elaborarmos o material que você tem agora em mãos, levamos em consideração algumas questões que cremos ser recorrentes à experiência docente em História. Mantivemos sempre em vista o fato de que o objetivo deste curso é lhe oferecer subsídios para a otimização de sua atuação em sala de aula, e, com isso, contribuir para que seus estudantes tenham condições objetivas de obter uma melhor apreensão dos conteúdos aqui tratados. Procuramos, portanto, aproximar bastante a dinâmica desta disciplina à dinâmica do trabalho em sala de aula. Priorizamos o alcance de questões que devem ser abordadas no ensino médio, dado ser este o estágio crucial da vida de um estudante, momento em que devem se construir os conhecimentos necessários para o prosseguimento de seus estudos no ensino superior. No material AVA exploramos assuntos que não costumam receber o devido tratamento nos livros didáticos, material básico para o trabalho nas escolas. Assim, a correspondência entre os tópicos de um e de outro material pode não ser extremamente exata. Entendemos que isso foi necessário e não prejudicará seu aprendizado; pelo contrário, poderá contribuir ainda mais para o aprimoramento de seus conhecimentos, uma vez que se trata de temas para os quais a bibliografia especializada disponível em língua portuguesa é ainda lacunar. Esperamos que este material e a experiência com a disciplina, para além de consolidar alguns conhecimentos necessários ao bom desempenho de suas atividades, estimulem você a prosseguir, ampliando os conhecimentos e formulando estratégias de tratamento desses conhecimentos com seus estudantes. E esperamos, sobretudo, que o estudo lhe seja leve e agradável. Um abraço fraterno, Prof. Paulo de Jesus

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8 O LIBERALISMO NA ENCRUZILHADA: DA ERA NAPOLEÔNICA ( ) ÀS REVOLUÇÕES LIBERAIS DE 1848 Neste bloco, abordaremos um período conturbado e ainda mal estudado nas escolas - da história do Ocidente. Neste período, de menos de meio século, o avanço do liberalismo foi, primeiro, submetido à ambígua atuação de Napoleão Bonaparte, figura que nunca expressou devidamente os ideais da nova ideologia política, mas sob cuja liderança a guerra iniciada em 1792 na defesa da França Revolucionária transformou-se em guerra expansionista, que modificou o mapa da Europa e influenciou na mudança do mapa dos domínios coloniais europeus nas Américas e foi decisiva para a difusão das idéias e práticas políticas liberais, inclusive com efeitos sobre o terreno das mentalidades. Derrotado Napoleão Bonaparte, as forças mais reacionárias da Europa reuniram-se no que se costuma chamar de Concerto Europeu, instaurando uma conjuntura política marcada pela sobreposição momentânea das forças de conservação às de transformação; eram os representantes do Antigo Regime retomando o controle do cenário político, agitado pelo avanço do liberalismo iniciado na Revolução Francesa e acelerado com a expansão napoleônica. Com isso, além de provocar um refluxo no campo das políticas nacionais, inauguraram uma nova e avançada concepção de política internacional baseada na idéia de equilíbrio: eram os primórdios do sistema internacional. Uma preocupação dessas forças de conservação era o reajustamento das fronteiras nacionais modificadas pela expansão napoleônica. A outra preocupação era barrar, imediatamente, as ações revolucionárias que ameaçavam o antigo panorama político europeu. Contra o liberalismo, ideologia burguesa que apregoava o primado dos direitos naturais emanados dos indivíduos de onde se extrai a máxima de que todo o poder só pode emanar do povo, recolocava-se o Legitimismo que tinha por dogma político a afirmação de que só é legítimo o poder político que emana de Deus, e que o Absolutismo Monárquico gozava era sancionado pela autoridade divina por isso mesmo legítimo. Neste contexto de Reação Legitimista destacaremos o Congresso de Viena e a atuação dos Quatro Grandes (Inglaterra, Rússia, Áustria e Prússia) através da Santa Aliança. Buscaremos compreender os objetos e interesses envolvidos nesse contexto e daí o sentido e a importância histórica das referidas atuações, atentando especialmente para a postura ambígua da Inglaterra. Entretanto, a Restauração derivada da Reação Legitimista não conseguiu ser definitiva. Se não há dúvida que as forças de transformação foram obstadas, não se pode afirmar que deixaram de existir. Pelo contrário, a própria atuação da Santa Aliança nos mostra o quão ativas elas foram nesse período. E essas forças de transformação aos poucos foram incorporando uma História Comtemporânea I 7

9 segunda ideologia que viria engrossar o coro do liberalismo: o Nacionalismo. Assim, os movimentos liberais de 1830 e 1848 não são apenas movimentos liberais, são, também, e, em alguns casos, sobretudo movimentos nacionalistas. Isso quer dizer que para além de reivindicarem a aplicação dos princípios liberais ao campo político, têm também em conta o senso de pertença a um organismo que se torna cada vez mais importante para a estruturação do mundo tal e qual o conhecemos: a Nação. Além disso, em ambos os momentos se registrou a presença de um novo componente político: o socialismo. Embalada pelo clima de descontentamento geral provocado pela conjuntura econômica marcada pela sub-produção agrícola, pelo subconsumo industrial, as péssimas condições de emprego a que estava submetido o proletariado urbano que mal pagos eram atingidos pelo subconsumo, o aumento do lumpemproletariado, essa corrente política que preconiza a instauração de uma sociedade sem classes tornava-se um espectro a assombrar a Europa conservadora. Em linhas gerais, este bloco temático é um aprofundamento no estudo da crise do Antigo Regime e do triunfo da burguesia com a subseqüente formação das democracias liberais na Europa. A ERA NAPOLEÔNICA ( ) O IMEDIATO PRÉ-ERA NAPOLEÔNICA Sabemos que, para além das ameaças internas, a Revolução Francesa teve de enfrentar forças externas já em 1792 os revolucionários se viram às voltas com o chamado exército dos emigrados, coligação austro-prussiana que contava com a força de foragidos franceses. Em seguida, morto o rei Luís XVI, a Primeira República se veria ameaçada, já no Ano I, por uma coligação de países antipáticos à Revolução. Prússia, Áustria, Espanha, Rússia, Sardenha, Holanda e Inglaterra, uniram-se na Primeira Coalizão Européia sob o pretexto de fazer justiça à decapitação de Luís XVI. O que se viu depois disso foi um rápido endurecimento do regime revolucionário, que ameaçado interna e externamente acercou-se de uma série de instituições e medidas de exceção que instauraram o período do Terror, que responde em parte pelo posterior sucesso dos setores mais moderados da Revolução que com o Golpe do Nove Termidor, aplicado em julho de 1794, instalaram a fase conhecida como Reação Termidoriana, recolocando a Revolução Francesa sob o controle da alta burguesia, preocupada em estabilizar a situação, garantindo os direitos conquistados e consolidando uma República moderada (o Diretório) e de participação restrita o que explica o regime censitário instituído pela Constituição do Ano III (1795) -, na qual deveriam predominar também as liberdades econômicas, isto é, liberdade de comércio, indústria e câmbio. 8 FTC EaD HISTÓRIA

10 Daí as reações de jacobinos, que em abril de 1798 (22 Floreal) tentaram tomar o Conselho dos Anciãos, e outros grupos de oposição, como os realistas, que em setembro de 1797 (18 Frutidor) tentaram tomar o controle do Diretório e do Conselho, e os socialistas, que em 1796 sob a liderança do feudista François- Noël Babeuf, o Gracchus Babeuf, encamparam a Conspiração dos Iguais (ver box abaixo). Programa da da Conspiração dos Iguais: 1. A natureza deu a todo homem o direito de usufruir todos os seus bens; 2. O propósito da sociedade é defender essa igualdade, tão costumeiramente atacada pelos maus e pelos mais fortes, e incrementar, por meio da cooperação universal, o usufruto em comum dos benefícios da natureza; 3. A natureza impôs a todos a obrigação de trabalhar, ninguém pode esquivar-se dessa tarefa sem que com isso esteja cometendo um crime 4. Todo o trabalho e o gozo dos seus frutos devem ser em comum; 5. A opressão existe quando uma pessoa se exaure no trabalho da terra carente de tudo, enquanto outra nada na abundância sem que tenha feito nenhum esforço para isso; 6. Ninguém pode apropriar-se dos frutos da terra ou da indústria exclusivamente para si sem com isso cometer um crime 7. Numa verdadeira sociedade não pode haver pobres nem ricos; 8. Aqueles homens ricos que não desejam renunciar aos seus excessos de bens em favor dos indigentes são inimigos do povo; 9. Ninguém pela acumulação de todos os recursos da educação, pode privar um outro da instrução necessária ao seu bem-estar: a instrução deve ser comum a todos; 10. O objetivo da revolução é destruir a desigualdade e res- tabelecer o bem-estar coletivo; 11. A revolução não acabou porque os ricos absor- veram todas as riquezas, colocando-as exclusivamente sob o seu comando, fazendo com que os pobres fossem colocados em estado de virtual escravidão, definhando do na miséria e não sendo nada no Estado; 12. A Constituição de 1793 é a verdadeira lei dos franceses, em razão do povo tê-la solenemente aceito. História Comtemporânea I 9

11 Vamos Refletir! Analise os artigos do Programa da Conspiração dos Iguais e, em seguida, tente pensá-los em relação aos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Você percebe quais concepções políticas por detrás de um e de outro documento? Registre suas impressões abaixo. O CONSULADO ( ) Como se pôde perceber nas páginas anteriores, eram visíveis a falta de apoio popular e a fragilidade institucional do Diretório. Assim, perturbada pelas tentativas de tomada do poder político por parte da oposição e sentindo a ameaça externa que se tornava cada vez mais forte que a burguesia girondina adota uma solução de garantia de continuidade para seu predomínio, recorrendo a um governo rígido, que fosse capaz de sufocar as dissensões internas e fazer frente à Segunda Coalizão Européia (formada por Inglaterra, Rússia, Áustria, Sardenha, Nápoles e Turquia). Daí a opção pelo Consulado, instaurado com o Golpe do 18 Brumário, que suprimiu o Diretório e conduziu ao poder um general corso que se tornara célebre por suas vitórias contra as forças estrangeiras, dentre cujos resultados contava-se a cessão da Bélgica à França pela poderosa Áustria (Tratado de Campofórmio, 1797). Parafraseando o historiador Eric Hobsbawm, apesar de suas origens cavalheirescas Napoleão foi um típico carreirista, que graças à comprovada competência galgou os mais altos postos do exército. Durante a Revolução, e especialmente sob a ditadura jacobina que ele apoiou firmemente, foi reconhecido por um comissário local em um fronte de suma importância (...) como um soldado de dons esplêndidos e muito promissor. O Ano II fez dele um general. Sobreviveu à queda de Robespierre, e um dom para o cultivo de ligações úteis em Paris ajudou-o em sua escalada após este momento difícil. Agarrou a sua chance na campanha italiana de 1796, que fez dele o inquestionado primeiro soldado da República, que agia virtualmente independente das autoridades civis. O poder foi meio atirado sobre seus ombros e meio agarrado por ele quando as invasões estrangeiras de 1799 revelaram a fraqueza do Diretório e sua própria indispensabilidade. (HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções: Europa, ªedição, Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 2002, p. 111) A grosso modo, o Consulado não foi mais que uma nova roupagem para a República burguesa moderada dos tempos de Diretório, o que implica em considerar suas feições de classe. Assim, o Consulado foi um governo feito pela alta burguesia e para a alta burguesia. Um governo 10 FTC EaD HISTÓRIA

12 bem ao gosto da Gironda, que no âmbito interno garantia a paz suprimindo as sublevações populares (os levées en masse) e tentativas de golpe, a prosperidade com a adoção de medidas de fomento e a regulamentação da sociedade com a reorganização judiciária da qual deriva o famoso Código Napoleônico, ao passo que no âmbito externo fazia a guerra, enfrentando os exércitos da contra-revolução e anexando territórios estrangeiros com base na doutrina recente do direito às fronteiras naturais. Muito longe ficariam os sonhos da Revolução de Na bruma ficavam as esperanças de instaurar-se um regime onde a igualdade, a fraternidade e a liberdade fossem construídas pela maioria e para a maioria. O regime mantinha-se constitucional, regulado, agora, pela Constituição do Ano VIII (1799), de acordo com a qual o Poder Executivo deveria ser controlado por três cônsules o que nos lembra o triunvirato romano. Entretanto, quem se destacava, e na prática comandava, era o Primeiro-Cônsul: Napoleão Bonaparte. Inicialmente o mandato era decenal e a reeleição indefinida, posteriormente tornar-se-ia vitalício. O Legislativo, agora composto pelo Senado mais um Corpo Legislativo, um Tribunato e um Conselho de Estado, tornava-se fragilizado diante do Executivo, crescentemente fortalecido graças à centralização administrativa procedida no período. Entre 1801 e 1802, os franceses fortaleceram sua posição no cenário internacional, com a vitória sobre a Segunda Coalizão. Em 1801, além de assinar o armistíco de Lunéville, que garantiu o cessar-fogo com a Áustria, a França assinou também uma Concordata com o papa Pio VII, que reaproximando o Estado francês à Igreja Católica contribuiu para fortalecer a coesão interna, abalada pelo rompimento (em 1792) das relações entre as instituições, que em alguns casos colocou em campos opostos a devoção à Igreja e a lealdade à Revolução, alimentando uma oposição de longa duração entre o cristianismo e o liberalismo. Além disso a Concordata garantiu aos novos proprietários a posse das terras da Igreja confiscadas pelo Estado em Procedeu-se então à reestruturação administrativa, com a redefinição da estrutura institucional, dando lugar a um Estado forte e centralizado, através de medidas como a criação de um corpo de agentes fiscais que dentre outras funções seria responsável por arrecadar os impostos, um cadastro unificado de contribuintes, o estabelecimento da censura, a introdução de matérias militares no ensino e a consolidação do caráter laico do Estado. O voto era universal, mas quem realmente formava os corpos políticos era o governo que escolhia dentre uma lista de eleitos pelo povo os ocupantes dos cargos públicos. O Conselho de Estado preparava as leis, que eram discutidas pelo Tribunato e votadas pelo Corpo Legislativo restando ao Senado velar por sua execução. O Primeiro- Cônsul propunha e mandava publicar as leis, nomeava oficiais, juízes e outros funcionários públicos, bem como os ministros de Estado. Tal centralização do poder político, cara a uma burguesia que se servia do Estado para garantir a preservação de seus interesses, foi fortalecida pela reestruturação judiciária que tem por produto principal o Código Napoleônico ou Código Civil, através do qual se operou a incorporação definitiva dos ideais e demandas burguesas à legislação francesa. Mas, de acordo com o caráter girondino do Consulado, se por um lado o Código Civil garantia elementos como liberdade individual, liberdade de trabalho, liberdade de consciência, Estado leigo, igualdade perante a lei e defesa da propriedade privada, por outro garantia também a subordinação dos trabalhadores, que impedidos por lei de formar organismos de representação trabalhista, ficavam sujeitos ao arbítrio dos empregadores o que representa baixos salários e más condições de trabalho -, a subordinação das mulheres aos homens, embora mantivesse o divórcio, e o restabelecimento da escravidão nas colônias (abolida no período revolucionário). História Comtemporânea I 11

13 Paralelamente à reestruturação da vida política deu-se a reestruturação financeira de uma França abatida pelos eventos ocorridos nos anos da Revolução. Em 1800 deu-se a fundação do Banco da França, única instituição com o direito de cunhar papel-moeda no país, o que nos permite perceber mais uma vez o caráter centralizador das mudanças efetuadas no período. Foi criado também o novo padrão monetário, com a introdução dos centavos, até então inexistentes; em 1793 foi criada a Lira e em 1795 o Franco, moeda nacional até os dias de hoje. Essas medidas, ao reestruturarem as finanças francesas, proporcionaram boas condições para a reestruturação econômica do país. O Banco da França desempenhou um importante papel ao oferecer financiamento para a industrialização, bem como à reorganização do comércio e execução de obras públicas. E a reforma monetária dinamizou o comércio e a atividade bancária, alquebradas e ainda submetidas aos moldes vigentes no Antigo Regime. Em 1802, prestigiado graças ao êxito de sua política, Napoleão conseguiu, na Constituição do Ano X, o direito de se tornar cônsul único, vitalício e hereditário, com o direito de indicar o seu sucessor. Em 1803, valendo-se do recrudescimento das investidas estrangeiras paralisadas desde a Paz de Amiens (firmada em tratado com os ingleses em 1802), proclamou-se Imperador, recebendo a sagração episcopal no ano seguinte em Paris, e consolidou legalmente seu novo status na Constituição do Ano XII. A França voltava a se submeter a uma monarquia hereditária. As assembléias foram suprimidas, as liberdades individuais e políticas caíram sob o arbítrio do aparelho de Estado, o Tribunal e os Corpos Legislativos foram esvaziados de poder, a imprensa passou a ser regulada, no campo da educação a Universidade imperial deteve o monopólio do ensino superior e os programas passaram a ser controlados pelo Estado que restituiu o catecismo como disciplina formativa e impôs alterações ao ensino de História e Filosofia disciplinas consideradas como portadoras de riscos ao regime excluindo, inserindo e enviesando conteúdos. Enfim, acrescente regulamentação levou ao descontentamento generalizado, que expresso ampliou ainda mais a opressão com a multiplicação das perseguições policiais. Você sabia que Ludwig Von Beethoven dedicou uma de suas sinfonias, a Sinfonia Heróica, a Napoleão Bonaparte? Ele retirou a dedicatória depois que Napoleão se tornou imperador. Esses dois pequenos fatos lhe sugerem algo? Se sim, anote abaixo. 12 FTC EaD HISTÓRIA

14 A POLÍTICA EXTERNA NO IMPÉRIO ( ) As violações dos acordos internacionais pela França levaram russos e ingleses a firmarem uma aliança contra os franceses que deu origem à Terceira Coalizão. Um incidente apressou a aliança anglo-russa: o fuzilamento, em 1804, do duque de Enghien, pertencente à família Bourbon da qual também fazia parte Alexandre I, rei da Rússia sob a acusação de atentado contra a vida de Napoleão Bonaparte. O rompimento se deu após a resposta ofensiva embora cortês de Napoleão ao protesto de Alexandre I. Em agosto de 1805 russos, ingleses e austríacos uniam-se contra Napoleão e já em dezembro estavam derrotados. Ao fim da guerra, a França tornou-se ainda mais forte com a anexação da Itália e o desmembramento do Santo Império, com a separação da Áustria e a criação da Confederação do Reno, um organismo germânico sob a tutela francesa. Em 1806, outra coligação foi derrotada; desta vez os Estados da Prússia e da Rússia sentiram a força do exército imperial francês. A Prússia foi desmembrada e a Rússia, velho e respeitado império absolutista, tornou-se uma aliada dos franceses. Percebe-se então o poder da França napoleônica na Europa. Sua atuação reconfigurou o campo de forças existente até então. A Europa Ocidental tentava, mas não conseguia se libertar de sua interferência. A hegemonia da Áustria na região da atual Alemanha encerrou-se com o já citado desmembramento do Santo Império, cuja existência lembrava de uma forma muito discreta os tempos de Carlos Magno. Para o enfraquecimento da Áustria contribuiu também a criação do Vice-Reino da Itália. Na mesma região registra-se ainda a tomada dos Estados Papais (1809), após desentendimentos entre Napoleão e Pio VII que, por se recusar a apoiar a política externa do monarca francês foi confinado à cidade de Savóia de 1809 a Em linhas gerais, uma grande parte da Europa foi dividida em categorias criadas pela expansão e pelas vitórias napoleônicas. No centro a França encorpada pelos territórios anexados (Bélgica e regiões renanas), depois os Estados Familiares (Grão-Ducado de Varsóvia, Vice-Reino da Itália e os Reinos de Holanda, Nápoles e Espanha, todos agora governados por parentes de Napoleão) e os Estados Aliados (concentrados na recém-criada Confederação do Reno). Mas havia a Inglaterra, principal força econômica do globo e dona da mais temida marinha de guerra. Incomodava, duplamente, a política externa da França. Primeiro pelo posição de destaque que graças ao poderio bélico e à hábil diplomacia, dentre outros fatores (ver o material AVA), desfrutava no cenário político internacional. Junte-se a isto o crescente poderio econômico lastreado pela Revolução Industrial que ampliava a capacidade produtiva dos ingleses a um nível jamais visto na história, transformando-os em concorrentes implacáveis e portanto um obstáculo a ser retirado do caminho de qualquer nação com aspirações à potência hegemônica. Entendendo que militarmente seria muito difícil, senão impossível, sobrepujar a Inglaterra, e revidando à medida tomada pelo governo inglês em 11 de novembro de 1806, proibindo a entrada de navios franceses em seus portos, Napoleão decretou, em 21 de novembro, o Bloqueio Continental, obrigando todos os países da Europa a fecharem seus portos e seus mercados internos aos ingleses. Napoleão, Imperador dos Franceses e Rei da Itália, etc. História Comtemporânea I 13

15 Considerando: 1. Que a Inglaterra não admite o direito das gentes universalmente seguido por todos os povos civilizados; 2. Que ela reputa inimigo todo indivíduo pertinente a um Estado inimigo e faz prisioneiros de guerra, não só os navios armados, como também as tripulações dos navios de comércio e mesmo os negociantes que viajam no interesse de seus negócios. 3. Que ela aplica aos navios e às mercadorias de comércio e às propriedades particulares o direito de conquista que só pode ser aplicado ao que pertence ao Estado inimigo. 4. Que ela aplica às cidades e portos de comércio não fortificados, às embocaduras de rios, o direito de bloqueio, que segundo a razão e o uso de todos os povos civilizados só se aplica às praças fortes; que ela declara bloqueadas praças diante das quais nenhum vaso de guerra ela possui Que semelhante monstruoso abuso do direito de bloqueio só tem por fim impedir comunicações entre povos e elevar o comércio e a indústria da Inglaterra sobre a ruína da indústria e do comércio do continente. 6. Que tal sendo o objetivo evidente da Inglaterra, qualquer poder que, no continente, comercie com mercadorias inglesas favorece assim seus objetivos e se torna seu cúmplice. Em conseqüência, decretamos: I As Ilhas Britânicas são declaradas em estado de bloqueio. II Qualquer comércio e correspondência com as Ilhas Britânicas são proibidos. III Todo súdito inglês, qualquer que seja a sua condição, encontrado nos pontos ocupados por tropas nossas ou de nossos aliados é presa de guerra. IV Todo depósito, toda mercadoria, toda propriedade pertencente a um súdito inglês é declarada de boa presa. V O comércio de mercadorias inglesas é proibido e toda mercadoria pertencente à Inglaterra ou proveniente de suas colônias é declarada de boa presa. VII Nenhum navio, vindo diretamente da Inglaterra ou de colônias inglesas ou lá tendo passado depois da publicação deste decreto, será recebido em qualquer porto. VIII Todo navio que, por meio de falsa declaração, infringir este dispositivo será capturado; o navio e sua carga serão confiscados como se fossem propriedade inglesa. (...) (Decreto de Berlim, In: CARVALHO, Delgado de. História documental: Moderna e contemporânea. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1976.) 14 FTC EaD HISTÓRIA

16 Os fatos que se desenrolariam a partir daí teriam conseqüências irreversíveis. Em 1810, os russos, altamente fragilizados com a queda das receitas referentes à importação, deixaram de observar as cláusulas do Decreto de Berlim, voltando a fazer negócios com os ingleses. Frustradas todas as tentativas diplomáticas de contornar a situação, os russos se prepararam e Napoleão encampou uma desastrosa invasão; a resistência dos soldados e dos camponeses russos, a impossibilidade de manter o Grande Exército (como era conhecido o exército francês) em uma guerra que, diferentemente das outras em que se envolveu, seria prolongada e a hostilidade do rigoroso inverno daquelas paragens obrigaram-no a uma retirada tão vergonhosa que até hoje as pessoas, inclusive aquelas que têm poucos conhecimentos em história, se referem nos gracejos alusivos a uma certa posição corporal ( Foi assim que Napoleão perdeu a guerra ). E essa derrota, para além de ferir o orgulho do exército e da nação, afigurava-se como uma amostra de fragilidade da até então imbatível máquina de guerra francesa. Sobre os pontos frágeis do exército francês, vejamos o que nos diz Eric Hobsbawm: (...) o general revolucionário ou o marechal napoleônico era bem provavelmente um puro primeiro-sargento ou uma espécie de oficial de companhia promovido antes por bravura do que por inteligência: o Marechal Ney, heróico, mas totalmente imbecil, era o tipo exato. Napoleão venceu batalhas; seus marechais sozinhos tendiam a perdê-las. Seu precário sistema de suprimento bastava nos países ricos e saqueáveis onde tinha sido desenvolvido: Bélgica, norte da Itália e Alemanha. Nos espaços áridos da Polônia e da Rússia, como veremos, ele ruiu. A ausência total de serviços sanitários multiplicava as baixas: entre 1800 e 1815 Napoleão perdeu 40% de suas forças (embora cerca de 1/3 pela deserção), mas entre 90% e 98% destas perdas eram de homens que morreram não no campo de combate mas sim devido a ferimentos, doenças, exaustão e frio. Em resumo, foi um exército que conquistou a Europa em curtas e vigorosas rajadas não apenas porque podia fazê-lo, mas porque tinha que fazê-lo. (HOBSBAWM, Eric J. Op. cit., p. 110) As intervenções na Península Ibérica entre 1808 e 1814, também desastrosas, têm especial importância para as atuais nações latino-americanas, uma vez que ao desestabilizar os governos metropolitanos contribuiu para agravar a crise do sistema colonial e acelerar a eclosão das guerras de independência. No caso brasileiro, por exemplo, os panoramas da política e da economia mudam a partir da chegada da família real portuguesa, em 1808, em fuga diante da invasão das terras lusitanas pelas tropas do General Junot, devido à recusa do governo português em aderir ao Bloqueio Continental. No campo da política, muda o status do Brasil, agora Reino Unido e sede do império português. Junto com o status político mudam também as práticas políticas e com elas a consciência dos brasileiros em relação ao lugar ocupado até então nos quadros do antigo sistema colonial. No campo econômico, a vinda da família real teve seu preço: a Abertura dos Portos às Nações Amigas. Caíam os obstáculos coloniais ao livre comércio e a burguesia brasileira pôde sentir o que é ser uma burguesia nacional, algo bastante diferente de uma burguesia colonial. E como sabemos, ficou difícil para Portugal reverter o processo e recolonizar o país, agora cioso da possibilidade de se constituir em nação. Em setembro de 1813, Napoleão foi derrotado pela Sexta Coalizão, formada por História Comtemporânea I 15

17 Prússia, Rússia e Áustria em Leipzig, na Confederação do Reno (atual Alemanha). No início do ano seguinte Paris foi invadida pelos aliados, que entronizaram a Luís XVIII, restabelecendo a monarquia absolutista na França, o que nos permite perceber as feições políticas das forças envolvidas. Napoleão foi aprisionado na ilha de Elba, na costa da Itália, de onde fugiria em março de 1815 para retomar o poder, estabelecendo o que ficou conhecido como Governo dos Cem Dias. No mesmo ano, vencido na célebre batalha de Waterloo, Napoleão foi aprisionado na Ilha de Santa Helena, na costa sul da África, onde morreria em Entretanto, sua morte não encerrou o avanço do liberalismo no continente nem o retirou da mentalidade dos franceses. Principalmente entre os pobres sobreviveu a veneração à sua pessoa, sendo representado como o salvador da ordem. Por outro lado, sua morte ampliou o espectro que sua atuação lançou sobre a Europa. Em Portugal, por exemplo, houve até mesmo quem profetizasse o seu retorno de entre os mortos, como o Anticristo mencionado no Apocalipse de S. João, a fim de guerrear contra a Igreja e o povo de Deus. Essa crença não deixava de encontrar apoio na iconografia de diversas regiões do continente. Demonstrações curiosas da força com que as ações e a figura do indivíduo Napoleão Bonaparte, representante de uma coletividade específica, foram impressas nas mentalidades coletivas inclusive em espaços muito além das fronteiras francesas. O que nos leva a uma importante questão, a saber: como o avanço do liberalismo foi vivenciado nos mais diversos cantos da Europa. Em locais como a Península Ibérica, no centro e no leste da Alemanha, na Rússia, na Áustria e nos Bálcãs, havia pouca aceitação. Excetuando alguns intelectuais iluministas e jovens estudantes entusiasmados, essas populações não viam com bons olhos o liberalismo. As elites políticas temiam-no uma vez que representava uma ameaça aos velhos privilégios sustentados pelo Antigo Regime, ao passo que as populações camponesas rejeitavam-no especialmente por enxergarem nele o instrumento da instauração de um regime anticristão, o governo do Anticristo, isso porque uma das características marcantes do liberalismo é justamente o anticlericalismo, expresso não apenas na rejeição da autoridade da Igreja em matérias seculares o que implicava, dentre outras coisas, na negação da Teoria do Direito Divino dos Reis, mas na expropriação de bens eclesiásticos, como aconteceu na França revolucionária, que transformou uma ordem cujos monarcas, remontando ao tempo dos primeiros reis francos, ostentavam o título de Filho Mais Velho da Igreja. O já citado episódio do aprisionamento de Pio VII por Napoleão é bastante significativo em relação a isso. Entretanto, em outros locais, como Polônia, Hungria, Irlanda, Países Baixos, parte da Suíça, o oeste da Alemanha e a península itálica, as propostas de mudança social ventiladas pelo liberalismo tiveram, por razões várias, uma aceitação acima da média. No caso da Irlanda, por exemplo, missas eram rezadas em prol da vitória dos franceses. Você deve estar se perguntando: como, se a Irlanda era um país de maioria católica e a Igreja não simpatizava com os liberais? Isso se explica muito menos pela questão da simpatia aos liberais do que pela importância de ter uma força contra os ingleses, inimigos íntimos e antigos, bem mais odiados que os recémnascidos defensores do liberalismo. Além do mais, o liberalismo não era contrário ao cristianismo (embora alguns liberais como o barão d Holbach o fossem), era contrário à instituição religiosa - a Igreja Católica Romana, identificada como um dos sustentáculos da ordem do Antigo Regime. 16 FTC EaD HISTÓRIA

18 Você sabia que, no século XIX, a Igreja condenou oficialmente o liberalismo como um dos erros do século? O documento em que isso está registrado é o Syllabus Errorum, elaborado, em dezembro de 1864, no pontificado de Pio IX ( ). Trata-se de uma espécie de catálogo eclesial dos erros contra Deus e contra a Igreja. Além do liberalismo, o Syllabus condenava o racionalismo, o indiferentismo religioso, o naturalismo, o latitudinarismo (interpretação livre das Escrituras Sagradas), o progressismo, o primado do secular sobre o eclesiástico e a idéia de Igreja livre no Estado livre (que com o avanço do liberalismo ganhou espaço nos meios eclesiásticos esclarecidos ). Dica da Web Para saber mais sobre as relações entre a Igreja e o Liberalismo consulte o material AVA. O CONGRESSO DE VIENA ( ): AS FORÇAS DE RESTAURAÇÃO/CONSERVAÇÃO E A GESTAÇÃO DO SISTEMA INTERNACIONAL Entre 1 de outubro de 1814 e junho de 1815, as nações que o derrotaram reuniram-se em assembléia internacional na cidade de Viena (capital da Áustria) a fim de decidir como seriam restabelecidas as fronteiras alteradas pelo avanço do exército francês, bem como para repartir os espólios de guerra, isto é, baseando-se no velho Princípio das Compensações, impor à França o pagamento de indenizações e decidir a quem cabia recebê-las e quanto ou o quê cada qual receberia. Em reuniões periódicas ocorridas até junho do ano seguinte, o Congresso de Viena foi marcado pela atuação das Quatro Grandes Potências : a Inglaterra, representada pelo lorde Castlereagh; a Rússia, pelo czar Alexandre I; a Áustria, de Francisco I, representava-se por seu chanceler, o príncipe Metternich, e a Prússia pelo rei Frederico Guilherme III (da dinastia Hohenzollern). Em suma, o que estava em pauta era o restabelecimento do equilíbrio europeu, neste momento pensado nos termos do Antigo Regime, perturbado pela avassaladora expansão napoleônica. Assim, a reconfiguração do mapa político do continente era a primeira questão. Temendo que a aplicação do Princípio das Compensações implicasse na extinção do Estado francês pela partilha de seu território entre os vencedores, o governo francês, representado pelo príncipe de Talleyrand, ministro de Assuntos Exteriores de Luís XVIII, e outros diplomatas franceses, recorreu ao Princípio da Legitimidade, segundo o qual as restituições não deveriam alterar as fronteiras existentes antes de 1792, ano em que em pleno processo revolucionário se deu o começo da expansão francesa. Facilitava a aprovação desse princípio o fato de que o próprio representante da História Comtemporânea I 17

19 Áustria se interessava em não deixar que a Polônia continuasse sob o domínio da Rússia, o que fortalecia bastante a posição daquela nação no sistema internacional. Pela mesma razão, não desejava que possessões a Prússia ficasse com toda a região da Saxônia. Ciente disso o czar Alexandre I chegou a ameaçar, em entrevista com o lorde Castlereagh, que criaria um reino autônomo na Polônia, com as regiões que poderia incorporar à Rússia, ao qual daria uma constituição própria que o representante da Inglaterra considerou muito liberal. E isto não deixava de representar perigo para as conservadoras Áustria e a Prússia, ao passo que mais uma vez fortalecia a posição da Rússia, que, embora conservadora como as outras duas nações, poderia contar com o grato respeito da Polônia, dadas as condições de seu estabelecimento. Temendo antes o aumento do poderio russo que a criação de um Estado liberal polonês, que de resto poderia ser facilmente dominado pela Rússia, a Áustria e a Inglaterra tentaram cooptar a Prússia que rejeitou e uniu-se à Rússia. Assim, o mal estar que se seguiu entre os Quatro Grandes fortaleceu a posição da França, que conseguiu fazer sobreviver ao Congresso suas fronteiras anteriores a Em substituição à Confederação do Reno, criada por Napoleão, Metternich propôs a criação da Confederação Germânica, a qual seria formada por Áustria, Prússia e os outros 38 Estados alemães, e seria governada por uma junta governativa denominada Dieta Alemã. A formação da Confederação Germânica interessava à Áustria por pelo menos três razões políticas. Primeiro, punha a própria Áustria em posição hegemônica diante de um conjunto de Estados cujo potencial político lhe era perigoso, principalmente se a Prússia viesse a ocupar a posição hegemônica e agregando-os em torno de si formasse um Estado de dimensões comparáveis à de um império. A lembrança do velho Império Carolíngio ainda pesava mesmo àquela altura dos acontecimentos. Você sabia que o Estado alemão é relativamente recente, quando comparado com outros Estados da Europa a exemplo de França e Inglaterra? Sua unificação só aconteceria na segunda metade do século XIX, envolvendo uma série de guerras (contra a Dinamarca, em 1864, contra a Áustria, em 1866 e contra a França, em 1870). Além de se tornar hegemônica em relação aos Estados alemães, a Áustria se apoderou de uma parte da Polônia e das regiões italianas da Lombardia e Veneza, a Holanda recebeu a Bélgica, a Dinamarca ficou com os Estados alemães de Schleswig e Holstein. A Rússia ficou com as terras da Besarábia, da Finlândia e do antigo ducado de Varsóvia. A Polônia foi dividida em três partes, sendo que as terras do ducado de Varsóvia foram transformadas pela Rússia em um Reino da Polônia, governado por uma constituição outorgada pelo czar Alexandre I - exatamente como este havia ameaçado -, por outro lado as regiões de Poznan, Gdansk e Torun foram anexadas à Prússia ao passo que à Áustria coube o território da Ucrânia ocidental. Dessa divisão surgiriam conflitos políticos de cunho nacionalista, em que partes anexadas reivindicavam o direito a constituir Estados Nacionais autônomos. Mais tarde um desses conflitos na região da Polônia teria por resultado o assassinato de um príncipe austríaco o famoso arquiduque Francisco Ferdinando -, ocasionando o pretexto para a detonação da Primeira Grande Guerra. 18 FTC EaD HISTÓRIA

20 Atividade Complementar 1. Em quais circunstâncias deu-se a instauração do Consulado? 2. Caracterize o regime político do Consulado, destacando a importância de Napoleão Bonaparte para sua sustentação. 3. Em que consistiu a reestruturação administrativa do Estado francês realizada nesse período? Explique sucintamente a sua importância. 4. Cite as realizações do Consulado no campo da economia e explique sua importância. História Comtemporânea I 19

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