A PROTEÇÃO BRASILEIRA AOS REFUGIADOS: A assistência legal dada aos refugiados no país na garantia de seus Direitos Humanos

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1 A PROTEÇÃO BRASILEIRA AOS REFUGIADOS: A assistência legal dada aos refugiados no país na garantia de seus Direitos Humanos Renata Meniconi Rezende 1 William Ken Aoki 2 Banca examinadora 3 RESUMO: O Brasil tem sido considerado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas um país referência na América Latina no que diz respeito à legislação e tratamento da questão dos Refugiados. A legislação brasileira é uma das mais avançadas e foi elaborada com base em todos os principais instrumentos internacionais de Direitos Humanos que tratam da questão, garantindo aos refugiados, e, também, aos solicitantes de refúgio que buscam proteção no território brasileiro, uma vida digna e sem ameaças ou discriminação. PALAVRAS - CHAVE: Refugiados, Procedimento de Refúgio, Lei nº 9.474/97, Direitos Humanos. SUMÁRIO: Lista de Siglas; 1 Introdução; 2 Conceitos Fundamentais; 3 Princípios Fundamentais; 4 Breve Histórico da Questão dos Refugiados no Brasil; 5 Panorama Atual; 5.1 Haitianos; 6 Procedimento do Refúgio: do Pedido ao Reconhecimento; 6.1 Do Pedido de Refúgio; 6.2 Do Procedimento Decisório; Da Decisão de Reconhecimento; Da Decisão Negativa; 7 Garantias e Instrumentos de Proteção aos Refugiados; 7.1 Direitos e Deveres dos Solicitantes de Refúgio; Dos Direitos; Dos Deveres; 7.2 Direitos e Deveres dos Refugiados; Dos Direitos; Dos Deveres; 7.3 Soluções Duráveis; Repatriação; Integração Local; Reassentamento; 8 Considerações Finais; Referências. 1 INTRODUÇÃO Ao longo da história, foi necessário um longo caminho e diversas declarações e instrumentos internacionais para que fosse garantida uma proteção efetiva aos refugiados. Atualmente, em âmbito internacional, as questões relacionadas aos refugiados são tratadas, principalmente, pela Organização das Nações Unidas. Para que a assistência às estas pessoas vítimas de perseguição e violação dos direitos humanos fosse mais eficaz a ONU criou, em 1950, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados ACNUR. Antônio Guterres, Alto Comissionado de Nações Unidas para os Refugiados em 2007, afirmou, em 20 de junho deste mesmo ano que É hora de reconhecer que estamos enfrentando nada menos do que um novo paradigma do conceito de deslocamento no século XXI, com uma infinidade de fatores impulsionadores que levam as pessoas a deixar seus lares a uma escala sem precedentes. De acordo com dados do ACNUR, havia no Brasil, em 2012, cerca de refugiados reconhecidos pelo governo, de mais de 70 nacionalidades diferentes. A maioria dos refugiados está concentrada nos grandes centros urbanos do país e as mulheres constituem o 30% dessa população 4. No Brasil, a assistência dada aos refugiados é de responsabilidade do Comitê Nacional para os Refugiados CONARE, órgão vinculado ao Ministério da Justiça. Esse órgão coordena, juntamente com as Nações Unidas, todas as ações relativas a esse grupo social, desde a análise do pedido de refúgio até a integração do refugiado na sociedade brasileira. O procedimento de concessão de refúgio no país é regulado pela Lei 9.474/97, que trata a questão da forma humanitária e condizente com as determinações internacionais. 2. CONCEITOS FUNDAMENTAIS Consoante José Francisco Rezek (2013, p. 256) Asilo político é o acolhimento pelo Estado, de estrangeiro perseguido alhures geralmente, mas não necessariamente, em seu próprio país patrial por causa de dissidência política, de delitos de opinião, ou por crimes que, relacionados com a segurança do Estado não configuram quebra do direito penal comum. Tanto o asilo político quanto o refúgio são territoriais e se configuram como instrumentos de proteção internacional individuais. Entretanto, entre as principais diferenças cita-se que o asilo político se restringe a crimes políticos e é regido, no Brasil, pela Lei nº 6.815/80 (Estatuto do Estrangeiro). O refúgio, por usa vez, é regido pela Lei 9.474/97 e tem motivos mais amplos para o acolhimento de estrangeiros. O instituto do refúgio tem como objetivo proteger tais indivíduos. Segundo Barroso (2010, p.73): A obrigação pátria com relação ao refúgio advém, essencialmente, do Estatuto dos Refugiados das Nações Unidas de 1951 e de seu Protocolo de A esses instrumentos internacionais soma-se a Lei 9.474/97. Esta determina outras providências que deverão ser adotadas pelo Estado brasileiro no tocante à temática do refúgio e cria o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare); instituição caracterizada por guiar-se, na tomada de suas decisões e em suas atuações, pela prevalência de um caráter democrático e humanitário. As ações de inserção dos refugiados na sociedade brasileira, juntamente com atuação das Nações Unidas, mais especificamente do ACNUR, seguem o padrão humanitário internacional e permite que esse grupo tenha uma vida segura e digna, com pleno acesso à educação e saúde. A Convenção de 1951 Relativa ao Estatuto dos Refugiados define, em seu artigo 1º o termo refugiado como (Livro do Refúgio, p. 15): como toda pessoa que, como resultado de acontecimentos ocorridos antes de 1º de janeiro de 1951 e devido a fundados temores de ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, por pertencer a determinado grupo social e por suas opiniões políticas, se encontre fora do país de sua nacionalidade e não possa ou, por causa dos ditos temores, não queira recorrer à proteção de tal país; ou que, carecendo de 353

2 nacionalidade e estando, em consequência de tais acontecimentos, fora do país onde tivera sua residência habitual, não possa ou por temor fundado não queira regressar a ele. Nota-se que havia uma limitação a refugiados vindos da Europa (cláusula geográfica) antes de 1º de janeiro de 1951, o que caracteriza uma reserva temporal. Em âmbito interno conceitua-se refugiado a partir no artigo 1º da Lei 9.474: Art. 1º Será reconhecido como refugiado todo indivíduo que: I - devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país; II - não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior; III - devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país. (BRASIL, 1997, p.1) O inciso III do citado artigo foi uma inovação trazida pela lei brasileira, uma vez que tal reconhecimento não foi abordado pela Convenção de 1951, relativa ao Estatuto dos Refugiados. Tal inovação foi inspirada em dois outros instrumentos (JUBILUT, p.4): a Convenção relativa aos aspectos dos Refugiados Africanos, da Organização da Unidade Africana de 1969 e a Declaração de Cartagena, da Organização dos Estados Americanos de Nesse sentido, a lei 9.474/97 é considerada pelo ACNUR uma das mais modernas no tratamento do assunto. 3. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS Dentre os Princípios do Direito Internacional Público, mas especificamente dos Direitos Humanos Internacionais, são três os fundamentais para a temática dos refugiados. O princípio da dignidade humana, o qual defende que todos tem direito a uma vida digna, liberdade e igualdade em direitos sem sofrer qualquer tipo de discriminação e violência; sobre esse princípio a ONU declarou, na Assembleia Geral de 1949 que A dignidade do homem é intangível. Os poderes públicos estão obrigados a respeitá-la e protegê-la. O princípio pro homine está ligado ao da dignidade humana e estabelece que este deve representar uma interpretação extensiva dos Direitos Humanos e deve ser aplicada a norma mais favorável aos indivíduos, afim de evitar uma restrição no gozo dos seus direitos e liberdades. A própria Constituição Brasileira de 1988 traz esse princípio no art. 4º, II, ao afirmar que a República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelo princípio da prevalência dos direitos humanos. O princípio do non-refoulement, por sua vez, estabelece a não-devolução ou expulsão do refugiado para seu país de origem, ou outro país que representem ameaça à sua vida, segurança e integridade física. Este princípio é o mais tratado nas jurisprudências do STF no caso de pedido de extradição ou expulsão de estrangeiros. A título de exemplo, tem se um julgamento de 2010 (Ext 1170 / REPÚBLICA AR- GENTINA), no qual o Governo da Argentina requereu a extradição do nacional argentino Gustavo Francisco Bueno pela suposta prática de crimes em seu país de origem. Entretanto, a decisão levou em conta que o extraditando está acobertado pela sua condição de refugiado, devidamente comprovado pelo órgão competente - CONARE -, e seu caso não se enquadra no rol das exceções autorizadoras da extradição de agente refugiado, conforme ementa 5 : EXTRADIÇÃO. DOCUMENTO DE REFUGIADO EXPEDIDO PELO ALTO COMISSARIADO DA ONU (ACNUR). CONARE. RECONHECIMENTO DA CONDIÇÃO DE REFUGIADO PELO MINISTRO DA JUSTIÇA. PRINCÍPIO DO NON REFOULEMENT. INDEFERIMENTO. 1. Pedido de extradição formulado pelo Governo da Argentina em desfavor do nacional argentino GUS- TAVO FRANCISCO BUENO pela suposta prática dos crimes de privação ilegítima da liberdade agravada e ameaças. 2. No momento da efetivação da referida prisão cautelar, apreendeuse, em posse do extraditando, documento expedido pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados - ACNUR dando conta de sua possível condição de refugiado. 3. O Presidente do Comitê Nacional para os Refugiados - CONARE atesta que o extraditando é um refugiado reconhecido pelo Governo Brasileiro, conforme o documento n. 326, datado de O fundamento jurídico para a concessão ou não do refúgio, anteriormente à Lei 9.474/97, eram as recomendações do AC- NUR e, portanto, o cotejo era formulado com base no amoldamento da situação concreta às referidas recomendações, resultando daí o deferimento ou não do pedido de refúgio. 5. O extraditando está acobertado pela sua condição de refugiado, devidamente comprovado pelo órgão competente - CONARE -, e seu caso não se enquadra no rol das exceções autorizadoras da extradição de agente refugiado. 6. Parecer da Procuradoria Geral da República pela extinção do feito sem resolução de mérito e pela imediata concessão de liberdade ao extraditando. 7. Extradição indeferida. 8. Prisão preventiva revogada. O rol de exceções referido pela ementa é definido no art da Convenção de 1951, o qual determina que o benefício da não-devolução não pode ser invocado por um refugiado que represente um perigo para a segurança e a comunidade do país que concedeu o refúgio. Nesse sentido, a Lei 9.474/97 traz tal situação como uma hipótese da perda da condição de refugiado o inciso III do art. 39: o exercício de atividades contrárias à segurança nacional ou à ordem pública. 4. BREVE HISTÓRICO DA QUESTÃO DOS REFUGIADOS NO BRASIL Há duas maneiras por meio das quais um Estado pode incorporar o refúgio no seu ordenamento interno. Reconhecendo a validade e recepcionando a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, assim como o Protocolo de 1961 que trata do referido Estatuto, ou adotando uma lei própria e específica sobre o tema, sendo esta segunda prevista e recomendada aos Estados na Convenção de 51 e do Protocolo de Em 1960, o Brasil tornou-se signatário da Convenção e do Protocolo, ambos recepcionados com uma cláusula de reserva geográfica, motivo pelo qual o país só reconhecia refugiados europeus. Sobre essa cláusula, J.R. Fisher de Andrade (Livro do refúgio, 2010, p.26) afirma: quando argentinos, etíopes, uruguaios, etc. solicitavam proteção ao Brasil, era-lhes permitida tão somente uma permanência temporária até que os outros países os aceitassem via reassentamento. O país recebeu 150 vietnamitas 50 famílias vindas do Irã entre 1979 e 1980 e em 1986, respectivamente, mas a estes estrangeiros não era concedido o status de refugiado (Livro do Refúgio, p. 27). Durante o Regime Militar, as Cáritas Arquidiocesanas de São Paulo e do Rio de Janeiro recebiam pessoas perseguidas pelos regimes militares dos países da América Latina que buscavam proteção. Houve um momento em que a Cáritas do Rio de Janeiro contou com mais de 70 apartamentos alugados e abrigou cerca de 350 pessoas perseguidas pelas ditaduras do Chile, da Argentina e do Uruguai. (Livro 354

3 do refúgio, p.17) Estes apartamentos abrigavam os refugiados com seus familiares, filhos, crianças pequenas (p.65). Além desse abrigo, a Cáritas, a pedido e juntamente com ACNUR, foi responsável pelo encaminhamento de grande parte desses refugiados latinos a países nos quais poderiam ter uma vida segura e digna. No que diz respeito aos atores da implementação do Estatuto do Refugiado no Brasil, destaca-se o ACNUR, que somente começou a funcionar oficialmente no território nacional no ano e 1982, tendo sede na cidade do Rio de Janeiro. Somente em 1990, por meio do Decreto , o Brasil assumiu integralmente a Convenção de 1951 em 1989 revogou-se a cláusula de reserva geográfica, mas foram mantidas restrições quanto aos artigos 15 e 17 da Convenção que tratam, respectivamente, do direito de associação e de profissões assalariadas. Ainda em 1990, o ACNUR passou a ter sede em Brasília. A primeira iniciativa de regulamentação interna sobre o refúgio foi em 1991, ano no qual se promulgou a Portaria Interministerial nº 394 que definiu normas sobre a situação do refugiado admitido no Brasil sob a proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para refugiados (ACNUR). Tal portaria trazia, a título exemplificativo, no seu artigo 3º a previsão de fornecimento de Carteira de Trabalho e Previdência Social. A partir no final do ano de 1992 houve uma intensa entrada de refugiados no Brasil; refugiados estes vindos, principalmente, da Angola, Ex-Ioguslávia e da República Democrática do Congo. Conforme informações do ACNUR (Livro do refúgio, p. 18): Naquele momento, sob a portaria interministerial que proporcionava um marco jurídico interno mínimo, o Acnur entrevistava essas pessoas e apenas solicitava ao governo brasileiro o reconhecimento formal. O papel do governo brasileiro se restringia à liberação dos documentos e a partir daí os refugiados tinham que caminhar com suas próprias pernas no país que os acolhia. Como muitos desses refugiados vinham de regiões de guerra, com traumas psíquicos e com problemas de saúde, o apoio oferecido era insuficiente e havia a necessidade de maior integração dos refugiados no ambiente local. A partir dessa necessidade, o segundo passo para a implementação de uma legislação efetiva da questão do refúgio foi o documento denominado Pautas recomendadas pelo ACNUR para consideração quando do preparo da legislação implementadora da Convenção sobre o Estatuto do Refugiado, de1951, que veio de uma solicitação do governo brasileiro ao ACNUR para a preparação de um Decreto-Lei. Este documento já abarcava questões de destaque da posterior Lei 9.474/97 prevendo, por exemplo, garantia da não devolução, a criação de um comitê nacional para refugiados, as soluções duradouras, entre outras. A rápida tramitação e a provação do projeto de lei nº 1936/96 iniciou-se em 13 de maio de 1996 e foi sancionada em 22 de setembro de foi dada graças à pressão social e ao acompanhamento do ACNUR e, em 1997, foi publicada no Diário Oficial da União, a Lei A maior inovação desta lei, o conceito ampliado de refugiado, foi um dos pontos mais discutidos no projeto de lei. A definição atual de refúgio foi estabelecida em 1984, por meio da Declaração de Cartagena Essa definição atual abarca o inciso III do artigo 1º da Lei 9.474/97, e ela toda é trazido pelo primeiro artigo da lei. O Brasil optou pelas duas formas de incorporação do refúgio no seu ordenamento interno ao recepcionar os citados diplomas legais de proteção internacional dos refugiados e criar uma lei específica para tratar do tema: a lei 9.474/97, fato este que demonstra o interesse do Estado brasileiro em regular a situação dos refugiados conferindo a eles a proteção devida. De acordo com Liliana Lyra Jubilut, a lei 9.474/97, que define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, decorreu do Programa Nacional de Direitos Humanos de 1996, o qual demonstrou claramente o desejo do governo brasileiro de se inserir na ordem internacional no que concerne à proteção da pessoas humana. Segundo informações do ACNUR 6 O Brasil sempre teve um papel pioneiro e de liderança na proteção internacional dos refugiados. Foi o primeiro país do Cone Sul a ratificar a Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951, no ano de Foi ainda um dos primeiros países integrantes do Comitê Executivo do ACNUR, responsável pela aprovação dos programas e orçamentos anuais da agência. 5. PANORAMA ATUAL Conforme demonstra a análise estatística de 2010 a , o número total de pedidos de refúgio no Brasil aumentou mais de 800% durante o referido período, indo de 566 em 2010 para até dezembro de A maioria dos solicitantes de refúgio vem da Ásia, África e América do Sul. De acordo com o CONARE, no final de 2013 o Brasil possuía refugiados reconhecidos de 80 nacionalidades distintas, a maioria dos solicitantes de refúgio em 2013 foi composta por nacionais de Bangladesh, Senegal, Líbano e Síria; e a maioria destes solicitantes são adultos entre 18 e 30 anos e o estado que mais recebeu estes solicitantes foi São Paulo. No que diz respeito à distribuição das solicitações de refúgio em 2013, a maioria das solicitações realizadas foi apresentada na Região Sul (37%). A Região Sudeste apresentou 29,35%, seguida pela Centro -Oeste com 21,5%, Norte com 12% e Nordeste com 0,4%. Comparando o ano de 2010 e o de 2013, a taxa de elegibilidade aumentou de 37% para 45%, o número de casos analisados pelo CONA- RE aumentou consideravelmente: de 317 em 2010 para em O caráter humanitário da forma como é tratado o refúgio no Brasil se confirma com os dados, e o maior exemplo disso que é no ano passado, 100% das solicitações de refúgio de sírios foram deferidas, isso reflexo da grave crise no país, principalmente no que diz respeito às constantes violações de Direitos Humanos. Além disso, segundo o próprio ACNUR, o Brasil se tornou o principal doador do Alto Comissariado entre os países emergentes. Tal status teve início de 2010 quando foram doados US$ 3,5 milhões, seguidos de doações de US$ 3,7 milhões em 2011, US$ 3,6 milhões em 2012 e US$ 1,0 milhão em Haitianos Uma questão atual é a entrada de um grande número de haitianos no Brasil, que saem do seu país em busca de uma vida com melhores condições. Sobre o tema o ACNUR esclareceu que 8 Os haitianos que têm chegado ao Brasil não são elegíveis de status de refugiados, por não terem sido perseguidos, em seu país de origem, em razão de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião pública, como define as convenções internacionais sobre o tema. Por isso o grupo não está contabilizado pelas estatísticas do CONARE. Entretanto, esses estrangeiros não ficam desamparados no país, uma vez que suas solicitações são encaminhadas a um órgão federal, o Conselho Nacional de Imigração, que concede aos haitianos um visto especial humanitário que dá a eles proteção internacional e os mesmos direitos garantidos aos refugiados. 355

4 6. PROCEDIMENTO DO REFÚGIO: DO PEDIDO AO RECONHECIMENTO A lei nº 9.474/97 regula o procedimento para a aprovação do pedido de refúgio no Brasil e as competências de cada órgão envolvido com a questão. Alguns aspectos do procedimento para concessão do refúgio mostram, claramente, que o Brasil é um país que segue as determinações dos Direitos Humanos Internacionais em relação aos refugiados. Entre eles cita-se que tal procedimento é gratuito e tem caráter de urgência; o simples pedido de refúgio impede que o solicitante seja deportado para seu país de origem, e observa-se a existência de cônjuge e descendentes do solicitante; há previsão de recurso caso a decisão de reconhecimento tenha sido negativa; sendo positiva a decisão, o solicitante é reconhecido como refugiado desde a data da entrada no país, sendo conferida a ele a proteção cabível. No que tange a uma análise mais completa do procedimento será utilizado o método de Liliana L. Jubilut, a qual divide o processo em três partes. O pedido do refúgio; o procedimento decisório; a decisão do reconhecimento, dentro do qual se trata da decisão negativa e do recurso, sendo, no presente artigo, os dois últimos tratados de forma conjunta. 6.1 Do pedido de refúgio Conforme a lei 9.474, em seu artigo 17, o ato que marca a abertura dos procedimentos do processo de refúgio é a notificação feita ao solicitante para prestar declarações, notificação esta realizada pela autoridade competente. Entretanto, anteriormente a essa notificação dá-se a entrada do estrangeiro no território nacional, ingresso o qual é tratado pela referida lei nos artigos 7 e 8. Tais artigos determinam que o estrangeiro que chegar ao território nacional poderá expressar sua vontade de solicitar reconhecimento como refugiado a qualquer autoridade migratória que se encontre na fronteira (...) (art. 7), tal autoridade informará o estrangeiro sobre o procedimento cabível, o que confere a ele a facilidade de acesso às autoridades. Ainda nesse artigo, determina-se que não será feita a deportação do estrangeiro ao território no qual sua vida esteja ameaçada, a não ser que tal indivíduo seja considerado perigoso para a segurança do país. Ainda, estabelece-se que não constitui impedimento para solicitação de refúgio o ingresso irregular no território nacional (art. 8). O procedimento de solicitação de refúgio é, de acordo com art. 47 da Lei 9.474/97, gratuito e a ele é conferido caráter urgente. Há quatro organismos envolvidos nesse procedimento, sendo eles o AC- NUR, o CONARE, a Polícia Federal e as Cáritas Arquidiocesana. Um dos primeiros passos do pedido de refúgio é a lavratura do Termo de Declaração pela Polícia Federal, e traz a Lei 9.474/97, em seu artigo 9º, que esse termo deve conter as circunstâncias da entrada no Brasil, assim como as razões que fizeram com que o solicitante deixasse seu país de origem; traz também seus dados pessoais e, ainda, se há existência de cônjuge e descendentes. Tal Termo é considerado documento fundamental para o solicitante até o momento em que ele possuir o denominado Protocolo Provisório, previsto no artigo 21 da Lei 9.474/97. Após lavrado o Termo de Declaração, o estrangeiro preenche um questionário mais detalhado na Cáritas, questionário o qual é enviado ao CONARE para que seja expedido o citado Protocolo Provisório e o solicitante se submeta a uma entrevista com um representante do CONARE, ou, segundo informações da Cartilha para solicitantes de Refúgio no Brasil (2014, p. 15), com um funcionário da Defensoria Pública da União, do sexo preferido pelo solicitante, o qual será entrevistado em um idioma que compreenda e, caso seja necessário, na presença de um intérprete. Um grupo formado por representante do mencionado Comitê, do ACNUR e da sociedade civil elabora um parecer recomendando ou não a aceitação da solicitação do refúgio. Tal parecer, baseado também em relatório feito por advogados que trabalham Nas Cáritas/ ACNUR/ OAB, é, então apreciado pelo plenário do CONARE, que analisa o mérito. 6.2 Do procedimento decisório Para que se entenda melhor sobre o procedimento decisório, traz-se o artigo 14 da Lei 9.474/97 o qual estabelece que o CONA- RE é constituído por um representante do Ministério da Justiça, que o presidirá; um representante do Ministério das Relações Exteriores; do Ministério do Trabalho; do Ministério da Saúde; do Ministério da Educação e do Desporto, do Departamento de Polícia Federal, assim como um representante de organização não governamental, que se dedique a atividades de assistência e proteção de refugiados no País, o qual é atualmente a Cáritas Arquidiocesana. Além disso, o ACNUR é sempre convidado para as reuniões, embora não tenha direito de voto. Todos os membros do CONARE são indicados pelo Presidente da República e não recebem remuneração de qualquer espécie. É o CONARE o responsável por analisar o pedido e declarar o reconhecimento em primeira instância da condição de refugiado, consonante disposto no artigo 12, I, Lei 9.474/97. A decisão do Comitê Nacional para os Refugiados pode acolher o pedido ou negar ao solicitando a condição de refugiado Da decisão de reconhecimento No primeiro caso, tem-se uma decisão de reconhecimento. De acordo com o Capítulo IV da Lei 9.474/97, essa decisão é ato declaratório e deve ser fundamentada. Proferida a decisão positiva, cabe ao CONARE notificar o Departamento de Polícia Federal e o solicitante, para que sejam tomadas as medidas necessárias. Realizadas as notificações, o solicitante é considerado refugiado e, consequentemente, goza da proteção do governo brasileiro, devendo ser registrado junto à Polícia Federal, assinar o termo de responsabilidade e solicitar a cédula de identidade pertinente, o Registro Nacional de Estrangeiros (RNE). A comunicação da decisão ao Departamento de Polícia Federal suspende a tramitação de qualquer procedimento administrativo ou criminal pela entrada irregular realizado pelo agora refugiado no território nacional, conforme artigo 10, 2º, da Lei 9.474/97. Ainda, autora Liliana Jubilut (pgs. 12 e 13) afirma que: se entende que o solicitante que tem seu pedido de refúgio reconhecido já era refugiado antes mesmo da decisão (...). O que faz de um indivíduo um refugiado são as condições objetivas de seu país de origem e/ou de residência habitual das quais decorram um fundado temor de perseguição, e não o ato do governo brasileiro que reconhece o pedido de refúgio Da decisão negativa No entanto, na hipótese da decisão ter sido negativa, a Lei 9.474/97 prevê a possibilidade de recurso. No artigo 29 é determinado que no caso de decisão negativa, esta deverá ser fundamentada na notificação ao solicitante, cabendo direito de recurso ao Ministro de Estado da Justiça, no prazo de quinze dias, contatos do recebimento da notificação. Não faz-se necessário a presença de um advogado, motivo pelo qual o recurso não tem formalidade e pode ser feito pelo próprio solicitante. Durante a análise do recurso o solicitante, assim como seus familiares, permanecem no País. Caso o recurso seja provido tem-se o reconhecimento do solicitante como refugiado, sendo garantido a ele todos os direitos e deveres como tal. Por outro lado, sendo a decisão de primeira instância mantida, o artigo 32 da Lei 9.474/97 estabelece que ficará o solicitante sujeito à legislação de estrangeiros, não devendo ocorrer sua transfe- 356

5 rência para o seu país de nacionalidade ou de residência habitual, enquanto permanecerem as circunstâncias que põem em risco sua vida, integridade e liberdade, salvo aqueles que não podem se beneficiar da condição de refugiados, quais sejam os que tenham cometido crime contra a paz, crime de guerra, crime contra a humanidade, crime hediondo, participado de atos terroristas ou tráfico de drogas (Artigo 3, III, Lei 9.474/97) e os que seja considerados culpados de atos contrários aos fins e princípios das Nações Unidas (Artigo 3, IV, Lei 9.474/97). 7. GARANTIAS E INSTRUMENTOS DE PROTEÇÃO AOS REFUGIADOS O refúgio é um instituto que confere à comunidade internacional uma responsabilidade de proteção de um indivíduo que antes cabia a um Estado. Tal afirmação trazida por Liliana (JUBILUT, p.2) deixa claro a importância dos Estados incorporarem a temática dos refugiados em seus ordenamentos internos, o que ainda possibilita que cada Estado adapte as determinações internacionais à sua própria realidade, possibilitando que os refugiados sejam recebidos e protegidos de forma mais efetiva. A lei nº 9.474/97 estabelece em seu artigo 5º que: O refugiado gozará de direitos e estará sujeito aos deveres dos estrangeiros no Brasil, ao disposto nesta Lei, na Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e no Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados de 1967, cabendo-lhe a obrigação de acatar as leis, regulamentos e providências destinados à manutenção da ordem pública. (BRASIL, 1997, p.1) Após o reconhecimento como refugiado, é oferecida assistência e acompanhamento por meios de ações das Nações Unidas, as quais se fazem por meio do ANCUR, e de ONGs, tal como as Cáritas Arquidiocesana, que possibilitam que a proteção dada pela lei seja colocada em prática, o que de fato é observado. Por meio dessas atuações, os refugiados tem acesso a, por exemplo, rede de saúde e educação, e tem a possibilidade de viver em um ambiente seguro e digno, justamente o oposto ao que submetiam-se nos seus países de origem. 7.1 Direitos e Deveres dos Solicitantes do Refúgio Antes mesmo de terem a condição de refugiados, os solicitantes deste instituto têm direitos e deveres. O ACNUR, juntamente com o governo brasileiro e instituições parceiras, produz, anualmente, cartilhas em diversos idiomas para possibilitar que os solicitantes do refúgio tenham pleno acesso aos seus direitos e deveres, assim como ao procedimento administrativo e contatos úteis. 180 dias para que o pedido de refúgio não seja arquivado); informar seu domicílio e mantê-lo atualizado nas Delegacias de Polícia Federal e junto ao CONARE; comparecer às entrevistas agendadas durante o processo. Visando facilitar o pleno acesso ao processo de solicitação, este é gratuito e pode ser feito diretamente pelo solicitante, sem a obrigatoriedade de um advogado. Para que seja garantida a segurança do estrangeiro, toda informação prestada por ele é confidencial, não podendo ser compartilhada com autoridades do seu país de origem; além disso, ao menor de 18 anos desacompanhado ou separado da família será judicialmente designado um guardião responsável. 7.2 Direitos e Deveres dos Refugiados Dos Direitos Já no que diz respeito aos refugiados que já passaram por todo o processo, a Cartilha para Refugiados no Brasil de 2014 traz informações fundamentais. Além dos direitos básicos de não devolução e assistência jurídica gratuita de um Defensor Público da União; não ser descriminado; possuírem carteira de trabalho e poderem trabalhar formalmente; livre trânsito pelo território brasileiro; não sofrer violência sexual ou de gênero; acesso á saúde podendo ser atendidos em quaisquer hospital e posto de saúde públicos; acesso às escolas públicas de ensino fundamental e médio assim como programas públicos de capacitação técnica e profissional, acesso às instituições de ensino superior, nos mesmos moldes dos brasileiros ou através de programas de ingresso especiais para refugiados, praticar livremente sua religião; acesso ao CPF, CTPS, RNE e um documento de viagem, os refugiados tem direito à flexibilização nas exigências para apresentação de documentos do país de origem, uma vez que é clara a dificuldade de conseguir tais documentos (ACNUR, 2014, p. 8) conforme artigo 43 da Lei 9.474/97; à solicitação de residência permanente no Brasil após 4 anos do reconhecimento da condição de refugiado; e à reunião familiar, o que significa que, segunda a citada cartilha (AC- NUR, 2014, p.9) numa fala direta com os refugiados: os membros do seu grupo familiar também poderão ser reconhecidos como refugiados no Brasil, desde que estejam presentes em território brasileiro. Caso os seus familiares não estejam no Brasil, é possível solicitar ao CONARE que informe o Consulado do Brasil no país onde os seus parentes se encontram, que você é um refugiado reconhecido pelo governo brasileiro. Isso facilitará a emissão de um visto de viagem apropriado para os seus familiares. No entanto, o Governo brasileiro não possui programas para financiar o deslocamento de familiares dos refugiados ao Brasil Dos direitos Na Cartilha para Solicitantes de Refúgio no Brasil de 2014, são colocados (em português, inglês, francês, espanhol e árabe) como direitos dos estrangeiros que solicitam refúgio: a não devolução dos indivíduos aos países onde suas vidas estejam em risco; a não penalização pela entrada regular; acesso a documentos de identidade, qual seja o Protocolo Provisório, CPF e Carteira de Trabalho e Previdência Social ; o direito de trabalhar formalmente; orientação e/ ou assistência gratuita por um Defensor Público da União ou advogado das organizações parceiras do ACNUR para acompanhar todos os procedimentos do refúgio; livre trânsito pelo território brasileiro; educação; saúde; a não discriminação; a não sofrer violência sexual ou de gênero; praticar livremente sua religião Dos deveres Como deveres a Cartilha traz: respeitar todas as leis; respeitas as pessoas, entidades e organismos públicos e privados; renovar seu Protocolo provisório de solicitação de refúgios nas Delegacias de Polícia Federal e mantê-lo sempre atualizado (a Protocolo deve ser renovado a casa Dos deveres Já no que tange aos deveres, a Convenção de 1951 traz, em seu artigo 2º, que todo refugiado tem deveres para com o país em que se encontra, os quais compreendem notadamente a obrigação de respeitar as leis e regulamentos, assim como as medidas tomadas que visam a manutenção da ordem pública. Assim, os refugiados devem: respeitar todas as leis; respeitar as pessoas, entidades e organismos públicos e privados; renovar a carteira de refugiado (RNE); informar o domicílio e mantê-lo atualizado nas Delegacias de Polícia Federal e junto ao CONARE; solicitar autorização do CONARE para viajar para o exterior, uma vez que esta é imprescindível para que o refugiado não perda sua condição como tal. Nesse último, a ACNUR enfatiza que um refugiado reconhecido pelo CONARE somente ostentará a condição de refugiado em território brasileiro. Os outros países não estão obrigados a reconhecer como refugiado uma pessoa que já foi reconhecida em outro lugar (ACNUR, 2014, p.10). Sendo assim, em uma viagem para o exterior, devidamente autorizada pelo Comitê, o refugiado será tratado de acordo a lei migratória do país para onde viajar. 357

6 Em relação à solicitação da residência permanente, o refugiado deve seguir pelo menos um dos seguintes requisitos: residir no Brasil há quatro anos no mínimo; ser profissional qualificado ou contratado por instituição instalada no País; estar estabelecido com negócio resultante de investimento de capital próprio, que satisfaça os objetivos de Resolução Normativa nº 84 do Conselho Nacional de Imigração relativos à concessão de visto a investidor estrangeiro (ACNUR, 2014, p.17). 7.3 Soluções Duráveis A Lei 9.474/97 dedica o Título VII às denominadas soluções duráveis. Consoante a Cartilha para Refugiados no Brasil de 2014 (ACNUR, p. 21): Uma solução duradoura é aquela que termina o ciclo de deslocamento forçado e permite que as pessoas refugiadas tenham uma vida normal em um lugar seguro. Os países signatários da Convenção de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados, dentre eles o Brasil, têm a responsabilidade de encontrar soluções duradouras para os refugiados Repatriação A primeira delas prevista na referida Lei é a Repatriação, prevista no artigo 42 o qual define que esta solução se caracteriza, em regra, pelo retorno voluntário do refugiado ao seu país de origem. O caráter voluntário deixa de ser necessário nos casos em que não mais subsistirem as circunstâncias que causaram o refúgio e os refugiados não podem recusar a proteção dos países dos quais são nacionais, visto que podem retornar com segurança e condições dignas de vida. Entretanto, para que esta segurança seja realmente garantida, faz-se necessária uma avaliação do ACNUR no locar originário do refugiado que deseja voltar. O ACNUR frequentemente fornece transporte e auxílio para que o repatriado possa recomeçar sua vida, por meio de doações financeiras e projetos de geração de renda, entre outros (Protegendo refugiados no Brasil e no mundo, 2014, p.8) Integração Local Seguindo a ordem da Lei 9.474/97, os artigos 43 e 44 trazem a previsão da segunda solução durável: a integração local. Este capítulo foca na dificuldade enfrentada pelos refugiados para conseguirem documentos que devem ser emitidos pelos seus países de origem, assim como a situação desfavorável vivida por eles e determina que a obtenção da condição de residente e o ingresso em instituições acadêmicas de todos os níveis deverão ser facilitados. Esta solução nada mais é do que um processo gradual que visa garantir aos refugiados plena inserção legal, cultural, social, educacional e econômica no Brasil, e que seus direitos fundamentais sejam garantidos e respeitados. O ACNUR, em ação conjunta com as instituições parceiras, disponibiliza diversos serviços e oportunidades para os refugiados no território brasileiro. Entre elas, com base na Cartilha para refugiados no Brasil de 2014, podem ser citadas: aulas de português oferecidas de forma gratuita tanto por instituições públicas quanto por organizações da sociedade civil; educação toda criança e adolescente, solicitante do refúgio ou refugiado, tem direito a matrícula em qualquer escola da rede pública de ensino. Para tanto, devem apresentar o CPF ou o RNE. Além disso, são disponibilizados cursos profissionalizantes e técnicos por meio de instituições governamentais ou ao Sistema S (SESI, SESC, SENAC, SENAI), e parcerias do ACNUR com diversas universidades brasileiras; saúde todos os cidadãos, inclusive os solicitantes de refúgio e refugiados, têm direito de ser atendidos em qualquer unidade pública de saúde (ACNUR, 2014, p.23). O cartão do Sistema Único de Saúde (SUS) pode ser solicitado de forma gratuita com a apresentação do Protocolo Provisório, CPF ou RNE e pode ser utilizado para obter atendimento médico em todas as unidades de saúde pública em todo o país. Além disso, os filhos de refugiados e solicitantes de refúgio tem direito de serem vacinados gratuitamente em qualquer posto de saúde; trabalho - com a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), os solicitantes de refúgio e refugiados tem o direito de trabalhar de forma legal no país, tendo as mesmas garantias de um trabalhador brasileiro; assistência social uma vez registrados no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) os refugiados podem se candidatar para participar de programas como Minha casa, Minha Vida, Tarifa Social de Energia Elétrica, Bolsa Família, entre outros; assistência jurídica - assim como todos os brasileiros, os refugiados tem acesso à ampla assistência jurídica de forma gratuita. Tal assistência e orientação jurídica é garantida por meio das Defensorias Públicas da União e do Estado. No que tange à competência de cada uma, a cartilha traz diversas situações para uma prévia orientação do estrangeiro, principalmente ligadas à sua condição, que desconhece a lei brasileira. O ACNUR trata, também, sobre a questão da violência à mulher informando ao refugiado sobre a Lei Maria da Penha e como se deve agir em casos de agressão, não só física como psicológica, sexual e moral Reassentamento Como terceira hipótese de solução durável a Lei 9.474/97 prevê o Reassentamento, definindo, nos artigos 45 e 46 que este deve ser caracterizado, sempre que possível, pelo caráter voluntário e será efetuado de forma planificada e com a participação coordenada dos órgãos estatais e, quando possível, de organizações não governamentais, identificando áreas de cooperação e de determinação de responsabilidades. Sobre o reassentamento, a Cartilha Protegendo os Refugiados no Brasil e no Mundo de 2014 na p. 8, dita que: implementado pelo ACNUR para quem não pode voltar ao seu país de origem por temor de perseguição e nem permanecer no país de refúgio onde se encontra, devido a problemas de segurança, integração local ou falta de proteção legal e física. Nestes casos, o ACNUR procura a ajuda de terceiros países que estejam dispostos a receber estes refugiados. Entretanto, o próprio ACNUR (2014, p. 27) defende que para os refugiados reconhecidos no Brasil, o Reassentamento não é a primeira opção, e que: Aqui, a solução duradoura preferível é a integração local e, quando possível, a repatriação voluntária. Isso porque, os refugiados presentes no Brasil não possuem qualquer necessidade específica de proteção que o Estado brasileiro seja absolutamente incapaz de suprir, a ponto de se justificar o reassentamento em um terceiro país. O Estado brasileiro tem o dever de assegurar a proteção dos refugiados que se encontram em seu território e, em caso de necessidade, as autoridades policiais, o Ministério Público e a Defensoria Pública devem ser contatados. Não há hierarquia entre as solução duráveis, podendo o refugiado escolher a que melhor lhe convém. A possibilidade de seguir a escolha do refugiado será analisada pelo ACNUR, para que seja garantido que este indivíduo que antes vivia em uma situação de risco não volte a ter as mesmas condições de vida e que, dessa forma, sejam protegidos seus direitos humanos. 358

7 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS A atual assistência legal dada aos refugiados no país é suficiente e eficiente para garantia dos seus direitos humanos. A Lei 9.474/97 está de acordo e respeita os instrumentos legais internacionais que tratam do assunto, principalmente no que tange à Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, e ao Protocolo de 1961 que trata do referido Estatuto. Este instrumento legal é exclusivo sobre a temática dos Refugiados, característica que não se observa na maioria dos países. Além disso, traz uma inovação no inciso III do artigo 1º da referida lei, ao ampliar a possibilidade de refúgio para indivíduos que fugiram dos seus países de nacionalidade originária ou residência habitual devido a grave e generalizada violação de direitos humanos. Tal inovação não só alterou a definição do termo refugiado como possibilitou proteção a um maior numero de pessoas. A lei 9.474/97 prevê, ainda, um processo administrativo no qual as decisões, tanto de primeiro grau, quanto em sede de recurso, tem que ser devidamente fundamentadas, o que permite a ampla defesa e o contraditório. Além disso, tanto os solicitantes de refúgio, quanto os refugiados reconhecidos tem todos os direitos humanos estabelecidos pelas legislações citadas e tem plena capacidade e condição de exercê-los no país, recebendo assistência necessária para reestabelecer em território brasileiro uma vida digna, sem a ameaça do perigo enfrentado nos países de origem e a possibilidade de serem devolvidos ou extraditados. REFERÊNCIAS ACNUR. Cartilha para Refugiados no Brasil: Brasília, Disponível em: < Acesso em: 21/03/2014 BRASIL, Lei nº 9.474, de 22 de julho de Define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, e determina outras providências. Disponível em: < htm>. Acesso em: 20/10/2013. BRASIL, Ministério das Relações Exteriores. 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NOTAS DE FIM 1 Graduanda em Direito pelo Centro Universitário Newton Paiva. 9º período - Manhã 2 Professor - Orientador. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (2001), especialização em Direito Tributário pela Fundação Getulio Vargas (2004) e mestrado em Direito Internacional pela Universidade Federal de Minas Gerais (2004). Atualmente é advogado, professor adjunto, Coordenador do Grupo de Estudos em Direito Internacional do Centro Universitário Newton Paiva e Academic Advisor da International Law Students Association. 3 Bernardo Gomes Barbosa Nogueira, William Ken Aoki 4 Dados retirados do site do ACNUR no subtópico O ACNUR no Brasil. Disponível em: <http://www.acnur.org/t3/portugues/informacao-geral/o-acnur-no -brasil/>. Acesso em: 12/ Inteiro teor disponível em: <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador. jsp?doctp=ac&docid=610142>. Acesso em: 23/05/ Idem nota iii. 7 Dados retirados da Análise Estatística ( ) do ACNUR sobre o Refúgio no Brasil. Disponível em: < php?file=t3/fileadmin/documentos/portugues/estatisticas/refugio_no_brasil_2010_2013> Acesso em: 18/05/ Notícia do site do ACNUR de 14 de maio de Disponível em: < Acesso em: 18/05/

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