I. Do Bolsa Família à Renda Básica de Cidadania

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1 I. Do Bolsa Família à Renda Básica de Cidadania O programa Bolsa Família constitui um dos principais instrumentos utilizados pelo governo do presidente Lula para cumprir a sua meta de até o final de seu mandato, em 2006, assegurar que todos os brasileiros possam se alimentar pelo menos três vezes ao dia, e assim erradicar a fome e a pobreza absoluta no Brasil. Segundo a lei que define o programa, todas as famílias com renda mensal abaixo de R$ 100 por pessoa poderão ter acesso ao Bolsa Família. O benefício é de R$ 50 mais R$ 15, R$ 30 ou R$ 45, se a família tiver uma, duas, três ou mais crianças e sua renda mensal por pessoa for de até R$ 50. Se estiver na faixa de R$ 50 a R$ 100 o benefício será de apenas R$ 15, R$ 30 ou R$ 45 dependendo do número de crianças. Em contrapartida a família deve provar que as crianças de até seis anos foram vacinadas conforme o calendário do Ministério da Saúde, além da visita periódica aos postos de saúde para verificação de seu desenvolvimento e nutrição. As crianças e adolescentes de seis até dezesseis anos completos devem freqüentar a escola e apresentar pelo menos 85% de freqüência nas aulas. Os pais, quando for necessário e na medida do possível, devem realizar cursos de alfabetização ou aperfeiçoamento profissional. 31

2 Ao lançar o programa Bolsa Família, em outubro de 2003, o presidente Lula unificou quatro programas de transferência de renda até então existentes: o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação, o Auxílio Gás e o Cartão Alimentação. Em setembro de 2003, o programa Bolsa Escola beneficiava milhões de famílias; o programa Bolsa Alimentação, 1, 669 milhão, o Cartão Alimentação, 774 mil, e o Auxílio Gás, mais de 9,7 milhões. Nesse desenho de programas de transferência de renda, havia, entre outros problemas, a superposição do público-alvo. Em média, cada família estava em 1,8 programa. Em dezembro de 2003, havia 3,6 milhões de famílias cadastradas no Bolsa Família. Em dezembro de 2005, 8,7 milhões. Em setembro de 2006, 11,117 milhões, correspondendo a praticamente 100% das famílias com rendimento mensal per capita menor do que R$ 121. Considerando que cada família tem em média cerca de quatro pessoas, 11,2 milhões de famílias corresponderão a cerca de 45 milhões de pessoas. Isso é aproximadamente um quarto da população brasileira, estimada em 185 milhões em janeiro de Para pagar o benefício do Bolsa Família, que em novembro de 2005 era da ordem de R$ 64 por família, o governo definiu no Orçamento da União um montante equivalente a aproximadamente R$ 64 vezes 12 meses, vezes 11,2 milhões de famílias em 2006, pressupondo que o valor do benefício não seja aumentado. Essa soma, sem incluir os custos administrativos, será próxima de R$ 9 bilhões. Entre outras fontes de recursos orçamentários para fazer frente a esta finalidade, o governo dispõe de parte da receita da Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras. Ou seja, da alíquota de 0,38% 32

3 sobre cada movimentação financeira, apenas 0,08% são destinados ao Fundo de Combate à Pobreza. Os 0,30% restantes são destinados à Saúde. Não se trata de um valor tão excepcional quando se examina a sua finalidade e comparado a outros itens do orçamento. Para pagar os juros da dívida pública, por exemplo, somados os três níveis de governo da União, dos estados e dos municípios nos anos de 2003, 2004 e 2005 foram gastos, respectivamente, R$ 145,2 bilhões, R$ 128,2 bilhões e R$ 157,1 bilhões, segundo o Boletim do Banco Central. Atualmente, para efetivamente se prover o mínimo necessário aos brasileiros que estão passando privações, há que se ter um processo de verificação bastante minucioso sobre quem tem e quem não tem o direito ao benefício. O que ressalta a importância da atitude da dona Ione. Como as reportagens da imprensa já demonstraram, por vezes é difícil acompanhar os rendimentos de cada família e de seus membros, estejam no mercado formal ou no informal, ou ainda prestando serviços de qualquer natureza para terceiros e assim por diante. Para dona Ione e seu marido, Anquilino Machado, que ficou desempregado por mais de 14 meses, certamente não foi fácil a sobrevivência no ano que passou. Em alguns momentos, possivelmente, realizaram trabalhos aqui ou acolá, algum tipo de bico, ou pediram emprestado aos amigos e parentes, para adquirir o mínimo necessário. Será possível ao governo fiscalizar bem todas estas variações? E será adequado que os seus vizinhos e os órgãos de imprensa fiquem observando todos os dias, na casa de cada família beneficiária do Bolsa Família, 33

4 se ali tem telefone, televisão, computador; arroz, feijão e batata na despensa; leite, manteiga, carne, legumes e frutas na geladeira? Será que há alguma maneira de se resolver este problema, aperfeiçoando ainda mais o objetivo do programa Bolsa Família? Sim, existe. Felizmente esse caminho agora já é uma lei. A Lei nº /2004 aprovada pelo Congresso Nacional em 2003, sancionada pelo presidente Lula em 8 de Janeiro de 2004, e que, pouco a pouco, será implementada no Brasil. Trata-se da instituição da Renda Básica de Cidadania. O que diz a Lei /2004? Que será instituída, a partir de 2005, uma Renda Básica de Cidadania, que se constituirá no direito de todos os brasileiros residentes no país e estrangeiros que vivem há pelo menos cinco anos no Brasil, não importando a sua condição socioeconômica, receberem anualmente um benefício monetário. A incorporação de pessoas ao programa de Renda Básica de Cidadania será em etapas, a critério do Poder Executivo, priorizandose as camadas mais necessitadas da população. O pagamento do benefício deverá ser de igual valor para todas as pessoas, não importa a sua origem, raça, sexo, idade, condição civil ou mesmo socioeconômica, e suficiente para atender suas necessidades vitais, considerando para isso o grau de desenvolvimento do País e as possibilidades orçamentárias. Esse pagamento poderá ser feito em parcelas iguais e mensais. Ao definir o benefício o Poder Executivo vai levar em conta a Lei de Responsabilidade Fiscal. A cada ano, a partir de 2005, consignará no Orçamento Geral da União a dotação orçamentária suficiente para isso. Assim, já para os anos de 2005 e de 2006, ao definir a 34

5 expansão das metas do Bolsa Família citadas acima, pode-se considerar que o governo esteja cumprindo os passos previstos na lei para chegar à Renda Básica de Cidadania. A partir de 2005, os projetos de lei relativos aos planos plurianuais e às diretrizes orçamentárias deverão especificar os cancelamentos de despesas e as suas transferências, bem como outras medidas julgadas necessárias à execução do programa de Renda Básica de Cidadania. Mas então a dona Ione e o seu marido também vão receber a Renda Básica de Cidadania? Sim. E também pessoas tão bem sucedidas como o presidente Lula, o Pelé, o Ronaldinho, o Ronaldo, a Xuxa, o empresário tão admirado Antonio Ermírio de Morais, eu próprio e a senadora Heloísa Helena, que normalmente têm mais do que o suficiente para sobreviverem? Sim, todos, inclusive todas as pessoas que em Maringá, cidade da dona Ione, e pelo Brasil afora estiverem em dificuldades. Mas por que isso vai acontecer, já que os que têm muito não precisam da Renda Básica para a sua sobrevivência? Isso acontecerá porque eles deverão colaborar mais para que todos possam receber a Renda de Cidadania. Esta é a maneira de se atingir os mais pobres com maior eficácia. Quando a Renda Básica de Cidadania estiver integralmente implantada, teremos as seguintes vantagens: A eliminação de toda a burocracia envolvida na fiscalização dos rendimentos recebidos por cada pessoa para efeito de receber a renda básica de cidadania; Não haverá mais qualquer sentimento de estigma, humilhação ou de vergonha de uma pessoa precisar dizer quanto ganha para poder receber um complemento de renda; 35

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