EMPREENDEDORISMO E MICRO/PEQUENAS EMPRESAS: SINERGIAS E CONVERGÊNCIAS SOB A ÓTICA DO RELATÓRIO EMPREENDEDORISMO NO BRASIL

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1 XXX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO Maturidade e desafios da Engenharia de Produção: competitividade das empresas, condições de trabalho, meio ambiente. São Carlos, SP, Brasil, 12 a15 de outubro de EMPREENDEDORISMO E MICRO/PEQUENAS EMPRESAS: SINERGIAS E CONVERGÊNCIAS SOB A ÓTICA DO RELATÓRIO EMPREENDEDORISMO NO BRASIL Sérgio Luiz do Amaral Moretti (UNINOVE) Luciana Helena Crnkovic (UNINOVE) Maria dos Remédios Antunes Magalhães (UNINOVE) Fabricia Durieux Zucco (uninove) O trabalho visa contribuir para o aprofundamento e sistematização do conhecimento sobre as Micro/Pequenas Empresas (MPEs) sob a perspectiva dos novos dados fornecidos por pesquisas recentes. Buscase uma relação com o crescimento do empreeendedorismo no Brasil, campo no qual se observam tanto progressos quanto a permanência de antigas dificuldades. São dois os objetivos: apresentar elementos que permitam ampliar o debate sobre o conceito de MPE, ou pequeno negócio e analisar como as políticas de incentivo a este tipo de empresa se adéquam à realidade do empreendedor. A metodologia consistiu em uma pesquisa bibliográfica nos relatórios do SEBRAE-SP, Empreendedorismo no Brasil , do Global Entrepreneurship Monitor - GEM (2010) e do Doing Business (2010). Os resultados mostraram que ocorreu uma mudança significativa na demografia das MPEs e no perfil do empreendedor brasileiro. Surge paralelamente ao típico empreendedor tradicional, uma nova configuração formada principalmente por jovens e mulheres. O crescimento da participação da Internet, do Micro computador e do celular, em menor proporção mostra que, apesar das dificuldades da formação especializada e do baixo nível de escolaridade, os empreendedores acompanham as tendências mais avançadas disponíveis para se manterem competitivos. Palavras-chaves: Empreendedorismo, Micro/Pequena Empresa - MPEs, Global Entrepreneurship Monitor- GEM. Doing Business

2 1. Introdução Micros e Pequenas Empresas (MPEs) ganharam destaque nacional e internacional nos estudos acadêmicos devido a seu alto impacto em questões econômicas e sociais. Muitos autores consideram as MPEs um instigante campo de estudos reforçado pelo fato de que sua permanência e seu crescimento, apesar das desvantagens estruturais, constituem um fenômeno que merece ser mais bem compreendido. Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), de 2009, sua importância pode ser medida pela evolução nos últimos anos. Em 2000 as MPEs representavam 4,1 milhões de empresas, ou 1para cada 42 habitantes; em 2004, 5,0 milhões e 36 por habitante; em 2010 espera-se que atinja 6,8 milhões e 29 habitantes por empresa. Não é necessário muito esforço para se perceber o impacto social destes números, que toma proporções ainda maiores quando comparadas com padrões internacionais segundo os quais o Brasil é um líder. O SEBRAE, ainda projetou, para 2015, uma relação de 8,8 milhões de empresas para cada 24 habitantes, ou seja, o dobro do verificado em 2000 no início da série. Importante para o argumento é que elas correspondem a 99% das empresas brasileiras. O relatório Empreendedorismo no Brasil do Global Entrepreneurship Monitor GEM (2010) converge para este cenário ao tratar da vocação empreendedora do povo brasileiro representada por uma Taxa de Empreendedorismo (TEA) que mostra, aproximadamente 15 em cada 100 brasileiros adultos envolvidos em atividades empreendedoras. Este dado coloca o Brasil entre os dez mais empreendedores do planeta, mas revela outro lado da questão já que destes 7,5 milhões de brasileiros, 41 ( 6%) se lançam em atividades independentes por pura necessidade, ou seja, pela falta de oportunidades no mercado formal de empregos. O problema é potencializado pelo enorme peso dos impostos e da burocracia nacional, empurrando muitos para o mercado informal. Ao encontro deste fato, uma projeção do Doing Business para 2010 mostra o Brasil em 129º lugar entre 183 países - Singapura detém o 1º lugar, em um ranking total de facilidade para os negócios. Em itens específicos como pagamentos de impostos o Brasil ocupa o posto 150º; quanto a funcionários empregados, o 138º; para abrir um negócio, o posto 126º e, para fechálo, o 131º. Evidente está que não são números abonadores e que não facilitam a vida dos empreendedores nacionais, apesar do marco legal que será exposto a seguir. Este custo Brasil, formado por altas taxas de impostos e de dificuldades burocráticas, precisa acompanhar o ritmo e o esforço que o sistema legal e de financiamento procurou imprimir a este setor nos últimos anos (DOING BUSINESS, 2010). O trabalho visa contribuir para o aprofundamento e sistematização do conhecimento sobre as Micro/Pequenas Empresas (MPEs) sob a perspectiva dos novos dados fornecidos por pesquisas recentes. Busca-se uma relação com o crescimento do empreendedorismo no Brasil, campo no qual se observam tanto progressos quanto a permanência de antigas dificuldades. São dois os objetivos: apresentar elementos que permitam ampliar o debate sobre o conceito de pequena empresa (ou pequeno negócio) e analisar como essas políticas de incentivo à micro e pequenas empresas se adéquam à realidade do empreendedor. O trabalho está estruturado da seguinte forma: será feita uma revisão da literatura sobre MPEs e Empreendedorismo apoiada por uma pesquisa exploratória sobre os relatórios Cenários das MPEs entre , do SEBRAE-SP, Empreendedorismo no Brasil , do Global Entrepreneurship Monitor GEM (2010) e no Doing Business (2010). Finalmente, na última 2

3 seção serão feitas as considerações finais do estudo e apresentadas possibilidades para futuras pesquisas. 2. Empreendedorismo As definições sobre empreendedorismo são variadas e obedecem aos parâmetros dos paradigmas e epistemologias das quais se originam. O termo empreendedor tem origem no entrepreneur francês, que se refere aos que empreendem. Para Marshall (1920) é aquele que por meio de suas atividades, combina os fatores de produção - trabalho, capital (e informação) - de tal forma a produzir uma saída crescente de bens e serviços, aumentando, portanto a riqueza total ou o bem-estar material da sociedade. Schumpeter (1961) o associou a questão da inovação, aquele capaz de uma destruição criadora, de perceber novas oportunidades para os negócios. Para Drucker (1987) há que se buscar nas profundas mudanças de paradigmas atuais uma explicação para o que ele considerava um fenômeno cujas causas estariam em uma combinação de fatores culturais, sociais, econômicos e tecnológicos. No Brasil, o termo ganhou projeção a partir da abertura da economia, na década de O processo de abertura mostrou a falta de competitividade do país em muitas áreas e tanto o governos como os empresários tiveram que mudar a forma de atuar e reformar leis que travavam o desenvolvimento. Alguns números podem explicar melhor a situação do empreendedorismo no Brasil e para isso será utilizado o relatório Empreendedorismo no Brasil do Global Entrepreneurship Monitor GEM (2010). O valor médio do TEA dos últimos anos é de 12,83%, colocando o país em 9º lugar entre os participantes da pesquisa e mantendo-se acima da média mundial. Contudo, antes de se entrar em características do empreendedorismo brasileiro é necessário atualizar as condições que o relatório Empreendedorismo no Brasil do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), de 2010 considera ideais para que, este importante driver de desenvolvimento e de autonomia para os cidadãos possa verdadeiramente se consolidar. Desnecessário ressaltar a importância do relatório já que se encontra na sua 10ª edição e, se firmou devido a seu grande banco de dados sobre atitudes e ambiente empreendedor. Sua amostra é coletada em centenas de países permitindo comparações entre os resultados de suas pesquisas. Um esquema proposto por Bosma e Levie (2010, apud GEM, 2010, p ) como sendo a base de análise do modelo GEM mostra que as condições ambientais podem afetar três elementos constituintes do empreendedorismo: atitudes, atividades e aspirações. Dependendo da dinâmica do ambiente, país ou região, pode ser levado a acelerar ou a reduzir sua taxa de empreendedorismo. Atitudes empreendedoras são aquelas manifestadas na forma de opiniões e de percepções que a sociedade desenvolve face a este fenômeno; revela o status que o empreendedor ocupa na comunidade. Torna-se muito forte quando existe a percepção de oportunidade para se desenvolver uma nova atividade. Quanto à atividade empreendedora revela a quantidade de indivíduos envolvidos na criação de novos negócios, os tipos de setores envolvidos, a inovação aplicada nas novas ofertas. Trata-se mais de um processo do que um evento e é muito influenciada pelas políticas de incentivo. Já a aspiração empreendedora mostra a 3

4 natureza qualitativa dos empreendimentos refletindo o grau de envolvimento de cada um com a atividade e com o grau de ambição e de ousadia nela empregados. Por meio do modelo do GEM (2010, p. 32), pode-se ainda analisar as condições ambientais que afetam os três elementos abordados anteriormente procurando buscar índices de eficácia para a estrutura que se oferece aos empreendedores potenciais e estabelecidos. São elas: apoio financeiro, políticas e programas governamentais, educação e capacitação, pesquisa e desenvolvimento (transferência de tecnologia), infra-estrutura comercial e profissional, acesso ao mercado e a barreiras à entrada, acesso à infra-estrutura física e, finalmente a normas culturais e sociais. O Quadro1 mostra que a população reconhece as boas condições ambientais em que o país se encontra. Contudo, sendo um país ainda com forte desigualdade social, a atividade empreendedora apresenta a evidência de que a escolha se dá por necessidade. Quadro 1 Percepção das condições ambientais pelos empreendedores e a população no Brasil Fonte: Relatório Empreendedorismo no Brasil do GEM (2010). A estabilidade macro-econômica perseguida pelo país desde 1994 mostrou seus resultados permitindo que mais empreendimentos vencessem a barreira inicial e que se sustentassem por mais tempo. O Gráfico 1 mostra o peso do consumo nas novas atividades empreendedoras. 4

5 Gráfico 1 O peso do consumo nas novas atividades empreendedoras Fonte: Relatório Empreendedorismo no Brasil do GEM (2010). O mais importante, entretanto, é o crescimento dos empreendimentos por oportunidade em detrimento daqueles que a ele se lançam por necessidade. Este último revelaria não uma cultura empreendedora, mas uma falta de oportunidade. O Gráfico 2 mostra a situação hoje. Gráfico 2 Comparativo entre Empreendimentos por Oportunidade e por Necessidade. Fonte: Relatório Empreendedorismo no Brasil do GEM (2010). Estabelecidos os parâmetros sobre o empreendedorismo, passa-se a analisar o outro elemento do estudo que são as MPEs procurando estabelecer a relação entre o momento do empreendedorismo brasileiro e as condições para o seu desenvolvimento a partir do modelo proposto pelo GEM (2010). 3.MPEs 5

6 A busca de definições de Micro e Pequenas Empresas (MPE), com o objetivo de categorizar o campo, têm sido objeto de estudo de vários pesquisadores revelando importantes diferenças de abordagem que vão desde o porte, o número de funcionários e a forma de gestão, entre outras (FILION, 1990, 1997; JULIEN, 1997; LIMA, 2001; TORRÉS, 2005, TERENCE, ESCRIVÃO F o. 2009). Isto não ocorre com o conceito de Empreendedorismo para o qual convergem muitas das definições (BOAVA e MACEDO, 2009; MURPHY, LIAO WELSCH, 2006; BOAVA, 2006; EHRSTÉN E KJELLMAN, 2006) sempre voltadas para a questão da inovação e do rompimento com o usual. Convém, contudo, diferenciar o Empreendedor de Empreendedorismo; aquele entendido como representação do indivíduo capaz de proporcionar a ruptura (SCHUMPETER, 1961; TIMMONS, 1989; DRUKER, 1970, 1987); este, considerado como conjunto de ações que conduz o empreendimento ao sucesso desejado (BOAVA e MACEDO, 2009, p. 8). Com isso, pode-se diferenciar o indivíduo, dotado de certas características, do processo, que lhe permite alcançar seus objetivos Percebendo a relação entre o processo empreendedor e o seu desencadeamento a partir de uma vontade individual, a pesquisa sobre MPEs tem buscado esta aproximação (KRISTIANSEN e INDARTI, 2004; LENZI, VENTURA e DUTRA, 2005; GONÇALVES, OLIVEIRA e GONÇALVES, 2008; NASCIMENTO, DANTAS e MILITO, 2008; VEIT e GONÇALVES, 2007). Nesta investigação, o termo Orientação Empreendedora nas organizações surge com a proposta de identificar comportamentos organizacionais que possam melhorar a capacidade de empreender (LUMPKIN E DESS, 1996, 2001; HASHIMOTO, 2005, SANTOS e ALVES, 2009) sendo naturalmente, dependentes de modelos e de padrões identificados em empreendimentos de sucesso. Da mesma forma, o termo Perfil do Potencial Empreendedor, conforme empregado por Veit e Gonçalves (2007), que validaram, em pesquisa preliminar, um perfil composto de oito itens: competência, risco, inovação, planejamento, dedicação, relacionamento, pensamento analítico e desafio (p.9) que puderam confrontar com a teoria existente para este tipo de estudo (MCCLELLAND, 1961; CARLAND e CARLAND, 1996, FILION, 1999). Ele demonstra o quanto este campo pode contribuir para a compreensão do papel empreendedor na sociedade, principalmente em um país emergente com o Brasil. Diversos indicadores podem ser utilizados para a classificação das empresas nas categorias micro, pequena, média ou grande; entretanto não podem ser considerados completamente apropriados e definitivos para todos os tipos de contexto (D AMBOISE e MULDOWNEY, 1988; FILION, 1990; JULIEN, 1997; LIMA, 2001). As tentativas de definição, na maioria das vezes, têm razões fiscais ou buscam critérios de identificação com fins de benefícios oficiais e financiamento. Podem-se utilizar critérios qualitativos ou quantitativos ou uma combinação dos dois, embora estes sejam os mais utilizados, em algumas situações eles se mostram imprecisos ou insuficientes. Ainda que eles apresentem como vantagens a facilidade na coleta dos dados, agilidade na classificação de portes e possibilidade de comparação entre setores é recomendado que sejam utilizados com cuidado (JULIEN, 1997). Já os critérios qualitativos se referem a aspectos tangíveis e intangíveis estáveis que caracterizam as 6

7 empresas; por exemplo, grau de centralização das decisões, formalização de procedimentos e níveis hierárquicos (LIMA, 2001). Drucker (1987) escreveu que uma pequena empresa, pelo critério de número de funcionário, pode não ser pequena pelo critério de faturamento. Torrès e Julien (2005) reafirmaram essa proposição e ampliaram a idéia de especificidade da pequena empresa. Eles consideraram que uma proposta de classificação universal é limitada. Às vezes, em um exame empírico, a possibilidade de que uma pequena empresa não satisfaça os critérios de classificação e de que seja descartada do estudo é enorme. Os autores identificam, na literatura anglo-saxônica, uma espécie de paradigma orientador da pesquisa em pequenas empresas, ou a tese da especificidade gerencial que considera o pequeno negócio uma entidade específica, com problemas administrativos substancialmente distintos dos da grande empresa, com destaque para: estrutura administrativa centralizada; estratégias intuitivas e de curto prazo; baixa especialização; simplicidade e informalidade do sistema de informação e atuação em mercados locais. Isoladamente o tamanho não é uma variável suficiente para definir se uma empresa necessariamente forma parte de uma população de pequenos negócios. (TORRÈS; JULIEN, 2005, p. 359). Além deles, há também critérios qualitativos que devem ser considerados em uma definição de micro e pequena empresa, Filion (1990) apresenta três critérios mais mencionados: 1) independência da propriedade e da administração; 2) administração personalizada, e 3) pequena parcela de mercado. Lima (2001) postula que o primeiro critério reflete a relação estreita entre o capital e a administração, ou seja, quando a pessoa encarregada da administração da empresa é também seu proprietário, caracterizando a nomenclatura proprietário-dirigente. Esta pessoa toma decisões que põem em risco seu próprio dinheiro. Este aspecto constitui uma diferença fundamental entre a relação de um proprietário-dirigente com sua empresa quando comparada à relação de um administrador com a empresa na qual ele trabalha e da qual ele não detém a maioria das ações. O critério de independência de propriedade e de operação é, sem dúvida, um dos mais importantes que captam as características que fazem da MPE o que ela é (FILION, 1990, 1999). O segundo critério deve ser visto como complementar ao primeiro; é aquele que detém a propriedade faz a administração à sua própria maneira, imprimindo assim sua personalidade sobre a empresa. Este tipo de administração pode também ser chamado de administração idiossincrática. O terceiro critério é ambíguo e difícil de ser aplicado porque é necessário que se recorra a uma definição precisa do que é o mercado, quais suas fronteiras e o que significa uma pequena parcela de mercado. Este critério foi utilizado pela primeira vez nos Estados Unidos da América porque a legislação permite considerar até mesmo uma empresa de empregados como pequena (FILION, 1990). Além disso, de acordo com TERENCE (2008), para compreender o processo de criação de estratégias dos dirigentes dessas pequenas empresas, deve-se considerar sua característica marcante: a intuição. Brouthers, Andriessen e Nicolaes (1998) concluem que, nelas, as decisões, em várias instâncias do processo de criação de estratégias, não são racionais, isto é, não são tomadas a partir de informações coletadas e de resultados obtidos. Ao contrário, os empresários, confiando em sua intuição, tendem a elaborar estratégias com base nas próprias aspirações e experiências e não em análises racionais. Os autores apresentam uma proposta de melhoria relacionada com a análise do ambiente. Ressaltam a necessidade de compreender as mudanças ambientais registradas no contexto das pequenas empresas. Entende-se que os 7

8 dirigentes devem atualizar as informações sobre o seu ambiente, considerando as variáveis que têm impacto nos negócios. Desta forma, compreender as sinergias e as convergências do setor pode ajudá-las a sobreviver, a prosperar e a competir nas novas condições ambientais. É preciso fortalecer a coleta de informações, realizando-se atividades de análise de forma contínua. 4. O contexto legal brasileiro para as MPEs O marco legal brasileiro para as MPEs tem se consolidado nas últimas duas décadas, fato que se pode demonstrar pela sequência de leis promulgadas a partir de 1984: Lei de 27 de novembro de 1984: cria o estatuto da Micro Empresa dando-lhes tratamento diferenciado; Artigos 170 e 179 da Constituição Federal de 1988: o primeiro assegura prioridade de fornecimento a empresas brasileiras e de pequeno porte; o segundo determina tratamento jurídico diferenciado às MPEs com o intuito de promover seu desenvolvimento; Lei de 28 de março de 1994: atribui pisos de receita para classificar as MPEs e busca definir o que é empresa de pequeno porte, mas carece de complementação; Lei de 05 de dezembro de 1996: cria o Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e de Contribuição das Micro e Pequenas Empresas (SIMPLES) e também permite que estados e municípios possam criar benefícios fiscais para as MPEs. Define a micro empresa como aquela que possui faturamento anual de até R$ 120 mil; Lei de 05 de outubro de 1999 cria o Estatuto das Micro e Pequenas Empresas e revoga as leis e (a primeira e a terceira, já mencionadas); Lei Complementar nº 123 de 14 de dezembro de 2006: cria o Estatuto Nacional de Empresa de Pequeno Porte e revoga a lei (anterior da lista). Foi complementada pelas Leis 127 (2007) e 128 (2008). A evolução do marco legal, como exposta, levou à consolidação de uma abordagem quantitativa de classificação sobre o que se conhece como Lei Geral para Micro e Pequenas Empresas a partir da lei Complementar 128. As Micro Empresas são aquelas que possuem faturamento anual de, no máximo, R$ 240 mil por ano, enquanto as Pequenas devem faturar entre R$ ,01 e R$ 2,4 milhões anualmente. Esta evolução ocorreu em várias frentes permitindo definir o entorno e o escopo de atuação das MPEs em questões de padronização, diferenciação de tributação, redução da burocracia, acesso a novos mercados, crédito, tecnologia e justiça, e exportação. Entre as mudanças previstas na Lei Complementar 128, estão a simplificação do registro do Micro empreendedor Individual (MEI) e sua inclusão no Supersimples; a inserção de outras classes no programa do Simples Nacional, visando facilitar o acesso do micro empresárioindividual e das micro e pequenas empresas nesse cenário. Seu principal benefício será favorecer pessoas que trabalham no mercado informal e que não entram na formalidade devido à alta carga tributária. O governo estima que mais de 10 milhões de empreendedores se beneficiarão do MEI e da isenção de quase todos os tributos do Supersimples. Com as alterações, os trabalhadores brasileiros que se tornarem formais terão o direito de se aposentar por idade ou invalidez, de seguro por acidente de trabalho e reclusão, de licença-maternidade 8

9 para a mulher, entre outros benefícios. Os escritórios de contabilidade também serão favorecidos, pois a regulamentação da lei permite a desburocratização de processos. De acordo com Lima (2001), contrariamente ao caso de países que estudaram mais profundamente a questão (como Estados Unidos e Inglaterra), as bases de definição das MPE na legislação federal brasileira não apresentam critérios qualitativos. No nível internacional, a Resolução 59/1998 do MERCOSUL apresenta um desses critérios, mas ele não foi integrado à Lei Complementar n. 128 de 2008, nem ao Estatuto da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte pelo Decreto de 2000 que o regulamenta. Para ser considerada micro ou pequena, uma empresa não pode ser controlada por outra, nem pertencer a um grupo econômico formando um todo que excede os limites da classificação. Entre os três critérios qualitativos apresentados por Fillion (1990), já citados anteriormente, o mais próximo daquele utilizado na Resolução 59/1998 do MERCOSUL é o de independência da propriedade e da administração, mas que não está presente em nenhuma das definições apresentadas nos órgãos regulamentadores e representantes das MPE no Brasil. Outra definição muito utilizada, tanto para estudos acadêmicos quanto para critérios de mercado, baseia-se no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e também se vale de dados quantitativos, neste caso referente ao número de funcionários. Micro são as empresas que empregam até 9 pessoas, no caso de comércio e de serviços, ou até 19, nos setores industriais ou de construção. Já as pequenas são definidas como as que empregam de 10 a 49 pessoas, no caso de comércio e de serviços, e de 20 a 99 pessoas, em indústrias e em empresas de construção. Além dessas, há a definição dos órgãos federais como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que têm outro parâmetro para a concessão de créditos. Nessa instituição de fomento, uma microempresa deve ter receita bruta anual de até R$ 1,2 milhão; as pequenas empresas, superior a R$ 1,2 milhão e inferior a R$ 10,5 milhões. Os parâmetros do BNDES foram estabelecidos em cima dos parâmetros de criação do Mercosul. Mesmo com tantas definições, o financiamento e o apoio às microempresas e às MPEs é uma questão complicada e difícil que, ainda hoje, interessa aos governos (LIMA, 2001). Um dos grandes problemas voltados aos financiamentos reside no fato de que essas empresas por possuírem estruturas mais simples e menos burocratizadas, dificilmente se enquadram nas exigências dos programas de financiamento do governo. Para o SEBRAE, o porte das empresas segue uma orientação semelhante como se pode ver no Quadro 2: Classificação Receita operacional bruta anual Microempresa Menor ou igual a R$ 1,2 milhão Pequena empresa Maior que R$ 1,2 milhão e menor ou igual a R$ 10,5 mm Média empresa Maior que R$ 10,5 milhões e menor ou igual a R$ 60 mm Grande empresa Maior que R$ 60 milhões Quadro 2 Porte das Empresas para fins de financiamento Fonte: SEBRAE (2009) Em 2008, o relatório do SEBRAE-SP Cenário das MPEs de forneceu uma projeção da situação das MPEs bastante interessante: 9

10 A Internet já é a 3ª fonte de informação mais utilizada para os negócios, como 62% das preferências, estando somente atrás da figura do contador com 87% (em 1º lugar) e de pessoas e empresários do mesmo ramo com 72%; O acesso à Internet teve uma evolução impressionante, seguindo a preferência o item anterior, indo de meros 12% de MPEs com acesso em 2000 para 71% em 2009, com uma projeção de 80% para Esta participação é equivalente a que o Canadá tinha em 2007; A participação de MPEs com microcomputador mais que triplicou de 2000 para 2009, indo de 23% para 75%. A projeção para 2015 é de 83% de empresas de posse deste equipamento. Trata-se de um crescimento vigoroso, mas em 2015 o Brasil atingirá a posição, por exemplo, que o Reino Unido tinha em 2006; A proporção de MPEs com celular cresceu de 53% em 2000 para 91% e projeta-se pouco crescimento para 2015, ou seja, 92%; O crescimento do número de estabelecimentos MPEs será de 35%, ou mm, em 2015, contra mm, em 2009; Os estabelecimentos no setor de serviço serão os que apresentarão maior crescimento, participando com 47% do total em 2015 contra 39% em 2000; Foi projetado um crescimento acentuado dos empreendimentos voltados aos serviços o que revela certo grau de amadurecimento da economia brasileira que agora tem de dar conta do crescimento do consumo principalmente das classes de menor renda. Acrescentando à lista do SEBRAE-SP mais um dado do GEM (2010), pode-se perceber uma mudança significativa no peso da participação das mulheres em novos empreendimentos revelando a sua transformação em grande força de trabalho e de desenvolvimento para o país. No Quadro 3, seguinte, evidencia-se de que se trata daqueles que se lançam a um empreendimento por nele verem uma real oportunidade e não por necessidade que seria uma alternativa à falta de emprego. Quadro 3: Empreendedores por oportunidade no Brasil Fonte Relatório Empreendedorismo no Brasil do GEM (2010) Para reforçar devidamente o argumento das novas oportunidades que as condições ambientais oferecem, observa-se no Quadro 4, a seguir, com base na Taxa de Empreendedorismo (TEA), a maior participação das faixas etárias mais jovens no esforço empreendedor, reforçando o argumento de que estes conseguem perceber chances de sucesso no futuro. 10

11 Quadro 4 Participação no TEA por faixa etária, no Brasil Fonte Relatório Empreendedorismo no Brasil do GEM (2010) Assim, o crescimento vigoroso das MPEs revela uma simetria, como será visto, com a expansão do empreendedorismo, ou, talvez, se pudesse chamar de uma cultura empreendedora, estimulada por uma vocação inerente ao brasileiro. Os dois movimentos devem ser entendidos conjuntamente. 5. Considerações Finais O trabalho visou contribuir para o aprofundamento e sistematização do conhecimento sobre as especificidades das MPEs, e sua relação com o empreendedorismo em um cenário em mutação, no qual se observam progressos em diversos campos e permanência de dificuldades em outros sob a perspectiva dos novos dados fornecidos por pesquisas recentes. Foram dois os objetivos: apresentar elementos que permitam ampliar o debate sobre o conceito de pequena empresa (ou pequeno negócio) e analisar como essas políticas de incentivo à micro e pequenas empresas se adéquam à realidade do empreendedor. O ponto de partida foi que há uma convergência entre a proliferação das Micro e Pequenas Empresas MPEs e a crescente taxa de empreendedorismo, ambas encontradas na última década no Brasil. Os resultados das pesquisas mostraram que ocorreu uma mudança significativa na demografia das MPEs e do perfil do empreendedor brasileiro. Surge, paralelamente ao típico empreendedor tradicional, uma nova configuração formada principalmente por jovens e mulheres. Convém lembrar que uma dimensão valorizada das mulheres é sua capacidade em desempenhar mais de um papel e pensar vários assuntos ao mesmo tempo. Por outro lado, em que pese o crescimento do jovem e da mulher, o perfil tradicional ainda é o do homem na faixa etária entre 25 e 44 anos. O crescimento da participação da Internet, do Micro computador e do celular (em menor proporção) mostra que, apesar das dificuldades da formação especializada e do baixo nível de escolaridade, os empreendedores acompanham as tendências mais avançadas possíveis para se manterem competitivos. É esperançoso que a internet tenha crescido tanto entre as MPEs alcançando um 3º lugar alcançando uma participação bastante alta de 62% entre as principais fontes de informação. O crescimento acentuado das MPEs voltadas para serviços revela o grau de amadurecimento da economia brasileira que agora tem de dar conta do crescimento do consumo principalmente das classes de menor renda. As limitações do estudo são relativas à sua metodologia exploratória, ou seja, pela utilização de dados secundários, mas se considerou que, pelo menos no caso do SEBRAE, os números têm um forte poder de mostrar as evidências do cenário em que as MPEs se encontram. Deve- 11

12 se lembrar que o SEBRAE é referência nacional como base de dados sobre o tema. O relatório do GEM é igualmente importante, pois tem uma sólida metodologia, abarca uma grande quantidade de países e é um estudo periódico desde Os dados mostram que a linha de estudo das MPEs deveria estar mais ligada à do Empreendedorismo e mais relações deveriam ser feitas neste sentido. Como sugestão para próximas pesquisas, mais estudos relacionando tipo de empreendimentos com tipos de tecnologias utilizadas e se são dirigidos por homens, mulheres e jovens poderiam ser desenvolvidos. Estilos de gestão podem ser analisados a partir destas segmentações para que se possa dimensionar melhor o portfólio de especialidades que deve ser desenvolvido como apoio aos empreendedores. Outra linha possível de análise incentivada pelos resultados pode ser verificar o grau de evolução tanto de gestão quanto tecnológico, alcançado pelos empreendimentos que venceram os difíceis estágios iniciais e novos (GEM, 2007). Com isso poderia ser desenhado um mapa evolutivo da gestão, dos processos e do perfil dos empreendedores visando passar esta experiência para as próximas gerações. Outras linhas que podem ser desenvolvidas são investigar a difusão da cultura empreendedora nas Instituições de Ensino, assunto sobre o qual não foi verificada nenhuma evidência na pesquisa, e, também, as relações entre ascensão das classes de renda mais baixa ao mercado de consumo e de crescimento do seu espírito empreendedor. 5. Referências Bibliográficas BOAVA, D.L.T. MACEDO, F.M.F. Esboço para uma teoria tridimensional do empreendedorismo. Anais do XXXIII ENANPAD, São Paulo, 2009 BROUTHERS K. D., ANDRIESSEN F., NICOLAES I.: Driving blind: strategic decision making in small companies, CARLAND, J.A.; CARLAND, J.W. The Theoritetical Bases and Dimensionality of the Carland Entrepreneurship Index. Proceedings of the RISE 96 Conference, University of Jyvaskylâ, Finlândia, p.1-24 D AMBOISE, G.; MULDOWNEY, M. Management Theory for Small Business: attempts and requirements. The Academy of Management Review, v. 13, n. 2, Apr., 1988 DOING BUSINESS 2010: Reformando em épocas difíceis comparações e regulamentações em 183 economias. Office of the Publisher, The World Bank, Washington, DC, 2009 DOLABELA, F. O Segredo de Luísa. São Paulo: Cultura e Editores Associados, DRUCKER, P. Entrepreneurship in Business Enterprise. Journal of Business Policy, vol 1, 1970 Inovação e espírito empreendedor (entrepreneurship): prática e princípios. 2. ed. São Paulo: Pioneira, EMPREENDEDORISMO NO BRASIL , org. MACHADO, J.P. et al. do Global Entrepreneurship Monitor GEM. Curitiba: IBQP (2010) FILLION, L.J. Empreendedorismo: empreendedores e proprietários-gerentes de pequenos negócios. Revista de Administração, vol.34, n.2 p.02-28, 1999 Free Trade: The need for a definition os Small Business. Journal of Small Business and Entrepreneurship, v. 7, n. 2, p ,

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