ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO APLICADA À ODONTOLOGIA CLÍNICA GERAL UM ESTUDO DE CASO

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE ITAJ UBÁ Renata Apar ecida Ribeiro Custódio ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO APLICADA À ODONTOLOGIA CLÍNICA GERAL UM ESTUDO DE CASO Dissertação submetida ao Programa de Pós Graduação em Engenharia de Produção como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências em Engenharia de Produção Orientador: Prof. Carlos Eduardo Sanches da Silva, Dr. Itajubá 2006

2 ii UNIVERSIDADE FEDERAL DE ITAJ UBÁ Renata Apar ecida Ribeiro Custódio ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO APLICADA À ODONTOLOGIA CLÍNICA GERAL UM ESTUDO DE CASO Dissertação aprovada por banca examinadora em 22 de dezembro de 2006, conferindo à autora o título de Mestre em Ciências em Engenharia de Produção. Banca Examinadora: Examinador: Prof. José Geraldo Trani Brandão, Dr. Examinador: Prof. Carlos Henrique Pereira Melo, Dr. Orientador: Prof. Carlos Eduardo Sanches da Silva, Dr. Itajubá 2006

3 iii Para Antônio Carlos, Ágata e Íris.

4 iv AGRADECIMENTOS Tenho muito a agradecer aos professores Luiz Gonzaga Mariano de Souza e Alaor José Borges de Campos, principalmente pelo apoio para meu ingresso nas ciências em engenharia. Ao prof. Carlos Eduardo Sanches da Silva, agradeço a todas as orientações e oportunidades de estágio docência tão importantes para minha formação como professora universitária. Agradeço ao prof. Carlos Henrique Pereira Mello pelas contribuições ao longo dos seminários apresentados. Agradecimento especial à Dra. Siomara Gonçalves Borges pela acolhida, confiança e apoio. Agradeço também à Marina, enquanto auxiliar extra bucal, pelo esforço em buscar soluções para facilitar o trabalho odontológico no caso estudado. Aos pacientes que a mim permitiram observar seus tratamentos odontológicos, meu muito obrigado. Aos representantes da Associação Brasileira de Odontologia (ABO), da Dabi Atlante, da Revista da Faculdade de Odontologia de Passo Fundo e aos professores Francisco Fialho e Gilsée Ivan Régis Filho pelo apoio bibliográfico. Aos meus pais, sempre na arquibancada. A minha irmã Isabel, engenheira e educadora, que me fortaleceu nos momentos de cansaço, mostrando me através de seu exemplo que apenas a dedicação pode levar a concretização dos trabalhos. Não posso deixar de agradecer a Angélica, que criou condições para que eu pudesse me ausentar de minha casa com tranqüilidade para realizar esta pesquisa. Meu muito obrigado aos amigos Bernadette, Felipe, Marco Aurélio, Mari, Guido, Tarcisa, Ivone, Thaís pelo apoio que sem a menor dúvida me deram condições para cumprir as várias etapas deste trabalho.

5 v Tudo começa com uma escolha.

6 vi RESUMO Esta dissertação se propôs a realizar a análise da atividade do cirurgião dentista a fim de construir um ponto de vista desta profissão. Para tanto foi aplicada a metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho AET, por se tratar de um método de abordagem ascendente, que permite compreender como o trabalhador age e reage nas situações de trabalho. Foi escolhido um caso para estudo, onde o profissional se encontra bem próximo do perfil do cirurgião dentista brasileiro traçado pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Sócio econômicas (Inbrape). Também foram identificadas as estratégias adotadas para fazer face aos constrangimentos da atividade. O estudo demonstrou haver uma inter relação entre as ações intra bucais e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho DORT, mas também evidenciou um forte componente relacionado à organização do trabalho que compromete a produtividade e a qualidade de vida do cirurgião dentista. Por fim, foram feitas as recomendações ergonômicas para o caso e identificados os referenciais que nortearão o aperfeiçoamento e/ou desenvolvimento do assento odontológico. Palavras chave: ergonomia; AET; cirurgião dentista; odontologia.

7 vii ABSTRACT The purpose of this study is to analyze the activity of the surgeon dentist in order to construct a point of view of this profession. For in such way the methodology of the Analysis Work s Ergonomics AWE was applied, considering a method of ascending treatment that allows understanding as the worker acts and reacts in the work situations. A case for study was chosen for a professional that is close to the profile of the Brazilian surgeon dentist did by the Inbrape (Brazilian Institute of Social Economics Research). Also had been identified the strategies adopted to make face to the constraints of the activity. This study demonstrated having interrelations between the intra mouthed actions and the Work related Musculoskeletal Disorders WRMD s, but also evidenced a strong component related to the organization of the work that compromises the productivity and the quality of life of the surgeon dentist. Finally, the ergonomic recommendations for the case had been made and references was identified that will guide the improvement and/or development of the surgeondentist seat. Key words: ergonomics; AWE; surgeon dentist; dentistry.

8 viii LISTA DE FIGURAS Figura 1: Chaves de Garengeot, pelicano e fórceps. 8 Figura 2: Primeira cadeira odontológica. 9 Figura 3: Chaves de Garengeot. 10 Figura 4: Base multifatorial do DORT. 25 Figura 5: esquema gráfico ISO/FDI. 36 Figura 6: Zonas de alcance. 38 Figura 7: A tarefa. 41 Figura 8: Tarefa, atividade e trabalho. 41 Figura 9: Trena CASTO. 49 Figura 10: Goniômetro CARCI. 50 Figura 11: Metodologia AET. 50 Figura 12: Marcação de consulta. 54 Figura 13: Planta baixa do consultório. 55 Figura 14: Medidas do mocho. 56 Figura 15: Equipo com três pontas. 56 Figura 16: Pedal de acionamento do motor. 56 Figura 17: Armários. 57 Figura 18: Gaveteiro móvel. 57 Figura 19: Refletor. 57 Figura 20: Cadeira do paciente. 58 Figura 21: Cuspideira e sugador. 58 Figura 22: Fluxograma das 9 etapas prescritas para a execução da prótese fase moldagem definitiva. 59 Figura 23: Fluxograma das 19 etapas prescritas para a execução da restauração fotopolimerizadora. 60 Figura 24: Primeiro recorte na atividade. 62 Figura 25: Planta baixa do consultório. 63 Figura 26: Vista frontal dos armários alto e baixo sob o balcão. 64 Figura 27: Ação extra bucal. 66 Figura 28: Ação intra bucal. 66 Figura 29: Organização do trabalho. 67 Figura 30: Postura fixa na ação intra bucal. 68 Figura 31: Postura incorreta dos ombros. 69 Figura 32: Postura incorreta da cervical vertebral. 69 Figura 33: Postura incorreta da coluna cervical. 70 Figura 34: Apoio insuficiente dos pés. 70 Figura 35: Deslocamento da CD até o sugador. 75 Figura 36: Pegando material na geladeira 76 Figura 37: Pegando material no armário 76 Figura 38: Aplicação do esquema gráfico. 77 Figura 39: Plano horizontal 79 Figura 40: Compressão da parte inferior da coxa e angulação do joelho. 79 Figura 41: Mocho vista lateral. 80 Figura 42: Angulações da cadeira odontológica em estudo. 81 Figura 43: Ângulos necessários para relaxamento máximo segundo Lehmann. 81 Figura 44: Posição de acionamento do sugador. 82 Figura 45: Zonas de inclinação lateral e flexão do tronco. 83

9 ix LISTA DE QUADROS Quadro 1: A evolução da ergonomia 19 Quadro 2: Base multifatorial do DORT. 25 Quadro 3: Relação entre trabalho e as entidades nosológicas. 26 Quadro 4: Estudos pertinentes às condições biomecânicas em profissionais da área odontológica. 29 Quadro 5: Classificação dos movimentos do cirurgião dentista. 38 Quadro 6: Etapas da intervenção ergonômica. 43 Quadro 7: Observações sobre etapas restauração fotopolimerizada. 61 Quadro 8: Pré diagnóstico 65 Quadro 9: Posturas e patologias associadas. 84

10 x LISTA DE ABREVIATURAS ABO Associação Brasileira de Odontologia ABENO Associação Brasileira de Ensino Odontológico ACBO Academia Brasileira de Odontologia AET Análise Ergonômica do Trabalho ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária CD Cirurgião dentista CFO Conselho Federal de Odontologia DORT Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho FIO Federação Interestadual de Odontologia FNO Federação Nacional de Odontologia IEA International Ergonomic Association Inbrape Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Sócio econômicas PT Posto de Trabalho PTO Posto de Trabalho Odontológico SELF Société d Ergonomie de Langue Française UDT Unidade Dental Tripartida

11 xi SUMÁRIO 1. Introdução Considerações iniciais Justificativa Objetivos Gerais e Específicos Objetivo Geral Objetivos Específicos Limitações Estrutura do Trabalho 3 2. Odontologia e Ergonomia Considerações iniciais Histórico da Odontologia Ergonomia A Ergonomia no Brasil Os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho do Cirurgião dentista Ergonomia e Odontologia O posto de trabalho odontológico Análise Ergonômica do Trabalho Considerações iniciais Objeto de estudo da AET Tarefa e atividade A construção da ação ergonômica Análise Ergonômica do Trabalho aplicada no estudo de caso Bases para uma abordagem metodológica Pressupostos Instrumentos de estudo O trajeto metodológico Apresentação do caso estudado A escolha do caso Análise da demanda Abordagem global Pré diagnóstico Observação sistemática Considerações finais Análise e diagnóstico Análise das observações A organização do trabalho O consultório odontológico As posturas Diagnóstico Recomendações e conclusões Recomendações Horários Agendamento Documentos 88

12 xii Materiais Trabalho a duas mãos Equipamentos e mobiliário Quanto à formação de novos profissionais Conclusões 91 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 94 ANEXO A 98 ANEXO B 99 ANEXO C 100

13 1 1. Introdução 1.1 Considerações iniciais O homem sofre os efeitos positivos e negativos do trabalho. No que toca aos efeitos negativos, estes devem ser analisados para que se possa adequar o trabalho ao homem. Esta dissertação se propõe a estudar o posto de trabalho do cirurgião dentista, CD, pois o odontólogo é sem dúvida uma das profissões liberais que se submete aos constrangimentos 1 posturais para a execução de seu trabalho (VILAGRA, 2002). Este profissional trabalha com um campo visual bastante restrito, a boca, e desenvolve seu trabalho em uma superfície pequena e de difícil acesso, a faceta de um dente. Para que seu trabalho se cumpra ele adota posturas fixas que o irão predispor a adquirir doenças osteomusculares (RASIA, 2004). Segundo Rasia (2004), as pesquisas realizadas até então com estes profissionais são reducionistas, pois se restringem ao envio de questionários aos CDs. Os estudos encontrados com o foco voltado para a análise da atividade ainda são incipientes. Deste modo este estudo visa construir um ponto de vista da atividade deste profissional fundamentado na análise do trabalho e, sobretudo na relação estabelecida entre as observações, verbalizações, entrevistas, análise de documentos e dados. Para tanto será utilizada a metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho AET (GUÉRIN et al., 2001) por se tratar de método de investigação que possibilita ao pesquisador compreender o trabalho a partir da análise das atividades e das situações de trabalho, ou seja, confrontando o idealizado com o real e buscando estabelecer uma relação de fatos em situação de trabalho que esteja contribuindo para a ocorrência de efeitos negativos sobre a saúde. Neste estudo a AET tem um papel primordial de evidenciar as causas de desconforto sofridas pelo CD por analisar a estrutura do trabalho, as relações do indivíduo consigo mesmo, com outros sujeitos, os instrumentos e os objetos (JAMIL, 2004). Para este estudo foi selecionado um caso cujo profissional é do sexo feminino, com 22 anos de formada, sem auxiliar e que atua na clínica geral como liberal. Este perfil está bastante próximo do perfil traçado pela pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Sócio econômicos (Inbrape) com 614 CDs, no ano de 2002, onde a maioria dos profissionais é do sexo feminino (57,5%), trabalha sem auxiliar (56,7%) e atua na clínica geral (76,7%). 1 A palavra constrangimento origina do latim constringere e significa apertado, aperto, compressão, coação, obrigatoriedade, restrição, cerceamento, injunções, etc. em ergonomia ela pode ter o mesmo significado mas aplicado ao trabalho humano.

14 2 Pretende se após este estudo ter as referências necessárias que evidenciarão a necessidade de se desenvolver e/ou aperfeiçoar instrumentos, equipamentos bem como uma nova proposta de organização do trabalho deste profissional de modo a melhorar sua qualidade de vida. 1.2 J ustificativa A busca por este tipo de pesquisa foi motivada pela necessidade sentida pela pesquisadora de aprofundar nos estudos dos fatores causadores dos problemas músculoesqueléticos enquanto trabalhava como fisioterapeuta em uma clínica de reabilitação e realizava inúmeros tratamentos de dentistas. Os poucos estudos na área fez com que este tema fosse de interesse acadêmico e adequado para uma dissertação. Segundo Michalak Turcotte (2000) os cirurgiões dentistas CDs apresentam dores músculo esqueléticas mais do que outros, enquanto que a prevalência de desconforto e dores músculo esqueléticas atinge um índice de 62% da população em geral, em CDs seu percentual atinge 93%. Esses profissionais estão sentindo a diminuição na produção de serviços e a necessidade de adquirir estratégias para se adaptarem ao trabalho devido aos sintomas que desenvolvem por causa dos Distúrbios Osteomusculares Relativos ao Trabalho DORTs. Também Kelsey (1982) e Letho (1990) encontraram em seus trabalhos uma maior freqüência de sintomas entre os CDs com relação à população em geral. Apesar de estudos sistemáticos que são feitos desde a década de 50 e são responsáveis pelas primeiras propostas de modificações no processo de trabalho dos dentistas, inclusive a mudança do trabalho da posição ortostática para a posição sentada, o conhecimento sobre esses problemas ainda é incipiente (BARRETO & FILHO, 2001). Desta forma, percebe se a necessidade de se fazer um estudo deste profissional para compreender como o trabalho é executado e porque o percentual é tão grande nesta população. Acredita se que um maior entendimento das estratégias adotadas pelo CDs dará orientações importantes para se atingir os objetivos deste trabalho.

15 3 1.3 Objetivos Gerais e Específicos Objetivo Geral Estudar o posto de trabalho do cirurgião dentista através da metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho (AET), visando construir um ponto de vista da atividade desta profissão para a construção das recomendações ergonômicas Objetivos Específicos a) Obter as referências necessárias que evidenciarão a necessidade de se desenvolver e/ou aperfeiçoar instrumentos e/ou equipamentos que melhorem a qualidade de vida dos cirurgiões dentistas. b) Identificar as estratégias adotadas para reduzir os constrangimentos no trabalho; c) Fazer as recomendações ergonômicas necessárias para o caso estudado. 1.4 Limitações Por se tratar de um estudo de caso isolado não é possível generalizar os resultados, porém espera se encontrar os pontos chave comuns a todos os CDs. Neste trabalho o uso de recursos áudio visuais como meio de apoio à coleta de dados, ficou limitado devido à preocupação em se proteger a privacidade do paciente. 1.5 Estrutura do Trabalho O Capítulo 1 situa a dissertação através da relevância, justificativa, objetivos geral e específicos, limitações e apresenta a estrutura do trabalho. O Capítulo 2 destina se a revisão da literatura sendo dividido em quatro partes: a primeira discorre sobre o histórico da odontologia, como surgiu e se desenvolveu. Fica evidente que a profissão evoluiu muito tecnicamente, mas não da mesma forma em relação à posição de trabalho; a segunda parte destina se ao histórico da Ergonomia e da sua aplicação nas diversas áreas; a terceira parte se refere aos Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho DORT no CD; a quarta parte trata da Odontologia e Ergonomia que visa descrever as contribuições ergonômicas no trabalho do CD; a quinta e última parte descreve o método Análise Ergonômica do Trabalho (AET), suas aplicações e adequações para este estudo.

16 4 O Capítulo 3 trata especificamente da aplicação da metodologia AET no estudo de caso selecionado. A discussão dos dados e informações encontrados durante a análise ergonômica e a elaboração do diagnóstico são abordados no capítulo 4. O Capítulo 5 traz as recomendações para o caso estudado, as conclusões, bem como as sugestões para trabalhos futuros baseados no conteúdo desta dissertação.

17 5 2. Odontologia e Ergonomia 2.1 Considerações iniciais Este capítulo descreve brevemente a evolução histórica da odontologia. Trata da evolução do instrumental e dos tratamentos utilizados, do trabalho empírico, da formação da profissão bem como das leis que foram estabelecidas para controle do exercício profissional. Traz também a contribuição da ergonomia na odontologia bem como relaciona os principais distúrbios osteomusculares a que o CD está predisposto. Refere se também à história da ergonomia bem como as contribuições desta última para a odontologia. Por fim, apresenta a metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho AET. Acredita se que os conhecimentos atuais só adquirem seu exato valor quando vistos dentro de uma dimensão histórica. A história deve ser a explicação dos feitos para estabelecer as relações entre causa e efeito. Ela é ponto de partida para novas criações. 2.2 Histórico da Odontologia O texto a seguir apresenta de forma cronológica um histórico da odontologia desde a época dos Sumérios. Não se pretende explorar o assunto em profundidade e sim evidenciar os principais eventos que marcaram a odontologia ao longo do tempo (ADA, 2006) a.c. Um texto sumério descreve vermes do dente como a causa das cáries a.c. Primeira referência a uma pessoa identificada como praticante da arte dentária. Era o egípcio Hesy Re, frequentemente chamado de 1º. dentista a.c. Hipócrates e Aristóteles escreveram acerca da arte dentária incluindo a erupção padrão dos dentes, tratamentos de dentes cariados, extração dentária com fórceps e a utilização de arames para firmar dentes perdidos e maxilares fraturados. Para Souza (1917), poucos vestígios são encontrados da arte dentária antes de Hipócrates. Ele relata alguns estudos arqueológicos como de Boucher de Perthes que descobriu em Abbeville, na França, um maxilar humano, cujo terceiro molar apresentava extensa cárie. Também cita a reconstituição de ossos fósseis encontrados em uma gruta La Chapelle aux Saints França que revelou ser uma mandíbula de um idoso com unicamente dois caninos. Conclui se, portanto que antes da idade da pedra, dos metais os homens já conheciam os efeitos das cáries e que ou os dentes caíam ou eram extraídos. O mesmo autor

18 6 cita o papiro de Ebers, da civilização egípcia, como sendo um dos primeiros documentos da história da medicina e dá destaque onde se lêem algumas passagens referentes às dores de dentes, abscessos e gengivites. Provas fiéis de arte dentária são encontradas nas múmias do Egito: dentes ourificados e peças protéticas. Investigações realizadas sobre maxilares no período neolítico demonstram já atos cirúrgicos e extrações dentárias. O primeiro implante data do século VII a.c. ao ser identificado na Argélia um crânio feminino com uma falange implantada na região dos pré molares superiores (GÁRCIA & MÉNDEZ, 2002). 100 a.c. O romano Celsus escreveu, no seu importante compêndio de medicina, sobre a higiene oral, colocação de dentes perdidos, tratamentos para dores de dentes e fraturas dos maxilares d.c. Durante a Idade Média, na Europa, a medicina, a cirurgia e a odontologia eram praticadas pelos monges. 700 d.c. Um texto chinês sobre medicina menciona a utilização de pasta de prata como um tipo de amálgama Os Éditos Papais proibiram os monges de executar qualquer tipo de cirurgia, sangria ou extração dentária. Após os Éditos, os barbeiros tomaram o lugar dos monges visto que já costumavam ajudá los nas suas atividades cirúrgicas Surge, na França, uma corporação de barbeiros. Havia dois grupos de barbeiros: os que foram treinados e educados para fazer cirurgias complexas e os que executavam serviços rotineiros de barbear, sangria e extração dentária. Estes eram os cirurgiões barbeiros A Escola de Montpellier França começou a conferir títulos de doutores da faculdade de Medicina, os cirurgiões de Saint Côme e os cirurgiões barbeiros. Curiosamente existia uma superioridade dos médicos que não se abaixavam para operar. Os cirurgiões desprezavam as pequenas cirurgias, entre elas as dentárias que eram deferidas aos cirurgiõesbarbeiros (SOUZA, 1917) O termo dentista foi criado pelo cirurgião francês Guy Chauliac e apareceu em seu livro Chirugia Magna Uma série de decretos, na França, proíbe os cirurgiões barbeiros de praticarem todos os atos cirúrgicos excetuando sangria e extração dentária.

19 No Brasil, a odontologia passa a ser conhecida a partir da carta de Pero Vaz de Caminha que descreve os habitantes com bons rostos, o que pode indicar dentes sadios e bonitos. Crânios encontrados em Lagoa Santa (MG), em regiões litorâneas de São Paulo e do Paraná e observações dos primeiros colonizadores indicam que os índios tinham dentes bem implantados e com pouquíssimas cáries, mas acentuada abrasão, causada pela mastigação de alimentos duros. A tribo kuikuro, do norte do Mato Grosso, preenchia cavidades dentárias com resina de jatobá aquecida, que cauterizava a polpa e funcionava como uma obturação, depois de endurecida Foi publicado, na Alemanha, o primeiro livro dedicado unicamente à arte dentária. Escrito para barbeiros e cirurgiões que tratam a boca, o livro fala de higiene oral, extração dentária, brocagem de dentes e colocação de obturações em ouro Na época da criação das capitanias hereditárias, com a chegada das expedições colonizadoras e a formação dos primeiros núcleos de povoação, chegam ao Brasil mestres de ofício de diversas profissões. Eram artesãos entre os quais se incluíam os barbeiros que além de cortar e pentear os cabelos e barbear faziam curativos em muitos tipos de machucados e operações cirúrgicas pouco importantes. Por possuírem grande habilidade manual, passaram a cuidar da boca, fazendo extrações dentárias. O Regimento do Físico mor de Portugal, datado de 25 de fevereiro de 1521 regulou o ofício desses profissionais (ABO, 1998). Neste período existiam as extrações dentárias, com técnicas primitivas, instrumental impróprio, nenhuma forma de higiene e nenhum tipo de anestesia. A odontologia era praticada pelo barbeiro ou sangrador e suas técnicas eram passadas sem qualquer teoria a partir da oralidade e da vivência Em Paris é publicada por Ambroise Paré ( ) Cinq Livres de Chirurgie, que tratava das variadas cirurgias bucais e da odontologia em geral. Este enriqueceu o instrumental com a invenção das chaves de Garengot e do pelicano (tipo de fórceps primitivo com a extremidade semelhante ao bico de pelicano) (Figura 1). Suprimiu os métodos inumanos anteriores de tratar as feridas por meio de azeite quente e popularizou o uso das ligaduras vasculares para conter as hemorragias. Trabalhou na reimplantação dentária e foi o primeiro que utilizou a prótese na fissura palatina. Contribuiu em muito para melhoria das técnicas e para elevar o prestígio da profissão (GÁRCIA & MÉNDEZ, 2002).

20 8 Figura 1: Chaves de Garengeot, pelicano e fórceps. Fonte: Museu e biblioteca de Odontologia de São Paulo Séc. XVIII Surgem os primeiros vestígios de legislação brasileira, regularizando o exercício da arte de curar em todos os seus ramos. Com o paulatino enriquecimento do estado de Minas Gerais, incrementado com o início do ciclo do ouro, a Casa Real Portuguesa nomeia o primeiro cirurgião mor desse estado, regulamentando os práticos de toda metodologia dentária. A prática passava a contar agora com certo grau de organização, tanto que, nesse mesmo período, a Lei 17 de junho de 1782 cria a Real Junta de Proto Medicato, formada por sete deputados, médicos ou cirurgiões, para um período de três anos, para uma melhor fiscalização das colônias portuguesas. A essa junta caberia o exame e a expedição de cartas e licenciamento de todos aqueles que tirassem dentes. Durante a fase Pré cientificista historiadores destacam a Europa como o berço da prática odontológica, surgindo ali os primeiros escritos sobre essa ciência. Em 1728, na França, o médico Pierre Fauchard ( ), com seu livro: "Le Chirurgien Dentiste au Traité des Dents", revoluciona a odontologia, trazendo novos conhecimentos, criando técnicas e aparelhos, sendo justamente chamado de "Pai da Odontologia Moderna". Nas últimas décadas deste século, surgiu agitando o cenário político brasileiro, Joaquim José da Silva Xavier ( ), conhecido como Tiradentes, por exercer entre os seus múltiplos ofícios, o de dentista. Tiradentes possuía grande habilidade como operador e que não se limitava a isso, também esculpia, provavelmente em marfim ou osso de canela de boi, coroas artificiais para repor no lugar dos dentes ausentes. Entre os objetos encontrados em sua casa, em Vila Rica, havia cinco pratos de pó de pedra branca, dois frascos de vidro grandes, duas garrafas finas pequenas, uma peneira de seda e instrumental de dentista. Os

21 9 instrumentos fazem parte da reserva técnica do Museu Histórico Nacional (RJ): são dois fórceps, duas chaves de extração e uma espátula. É considerado o Patrono da Odontologia". Nessa época não existia o tratamento de canal, os dentes eram extraídos com alavancas rudimentares, as obturações eram de chumbo sobre os tecidos cariados e polpas afetadas. As próteses eram simples e amarradas com fios aos dentes que haviam sobrado. Dentaduras eram esculpidas em marfim ou osso. Dentes humanos ou de animais eram utilizados e retidos na boca por molas O inglês John Baker é o primeiro dentista, treinado sob o ponto de vista médico, a praticar a odontologia na América O francês Nicolas Dubois de Chemant recebe a patente para dentes de porcelana Foi construída a primeira cadeira (Figura 2) feita especificamente para o paciente, pelo dentista americano Josiah Flagg. Era portátil, de fácil montagem e acoplada a uma caixa com a qual era transportada ao lugar onde o paciente estava. Foi utilizada entre 1885 a Figura 2: Primeira cadeira odontológica. Fonte: Reprodução Catálogo Geral S. S. White de maio de 1800 Foi criado o Plano de Exames, que consistia em um aperfeiçoamento das formalidades e dos exames. É encontrado nesse ano em documentos do Reino o vocábulo dentista. Esse é o início da arte dentária como profissão autônoma no Brasil. Início de 1808 Fugindo das forças francesas, o príncipe regente D. João VI, sua corte e a elite portuguesa (15 mil pessoas) chegavam a Salvador, tornando se o Brasil, sede do reino. Houve um grande surto de progresso. No hospital de São José, na Bahia criou se a Escola de Cirurgia, graças à interferência do Dr. José Correa Picanço, físico e cirurgião mor, em nome da Real Junta do Proto Medicato, mas que em nada beneficiou os dentistas, pois não

22 10 só licenciou os profissionais da corte como expediu cartas legalizando 11 barbeiros de Salvador, todos negros, de baixa classe social, forros e até alguns escravos de poderosos senhores. Março de 1808 A família real chega ao Rio de Janeiro e o cirurgião mor iniciou o licenciamento dos profissionais da Corte, estendendo a fiscalização por todo reino. As autorizações eram semelhantes às expedidas aos barbeiros baianos. Igualmente a Bahia os barbeiros e sangradores eram normalmente escravos ou forros. Utilizavam "chaves de Garengeot" (Figura 3) enferrujadas e infectadas na extração de dentes dos escravos e dos brancos sem recursos financeiros com o auxílio de técnicas desorientadas, provocando traumatismos nos dentes, lábios, queixo, língua, tecidos da boca e com manobras intempestivas, tirando também dentes próximos aos que estavam sendo tratados. Figura 3: Chaves de Garengeot. Fonte: Museu de Petrópolis É criada no Rio de Janeiro a Escola Anatômica e Médica no Hospital Militar e da Marinha, no Rio de Janeiro, com um caráter eminentemente pragmático. Em 07 de outubro de 1809 é abolida a Real Junta do Proto Medicato, ficando todas as responsabilidades ao encargo do físico mór e do cirurgião mór, com a colaboração de seus delegados e subdelegados No Brasil, a primeira carta de dentista foi expedida em nome do português Pedro Martins de Moura, que dava o direito apenas de "tirar dentes" e não fazia referência a demais operações cirúrgicas ou protéticas. Neste mesmo ano, Sebastião Fernandes de Oliveira, natural da Vila de Vitória, Espírito Santo, foi o primeiro brasileiro a receber sua carta de autorização. As leis que regulamentavam o ensino da cirurgia (plano de estudos de cirurgia), aprovado pelo decreto de 1 de abril de 1813, não ajudavam a arte dentária. Os dentistas possuíam conhecimentos rudimentares, sem escolas, sem cursos. Nenhum pré requisito era exigido para obter a carta da profissão de tirar dentes, nem mesmo saber ler. A profissão se bipartia: as operações cirúrgicas tinham sua licença dependendo do cirurgião mor e, os

23 11 curativos nos dentes com licença dependendo do físico mor, ou seja, a parte médica da profissão José Correa Picanço, cirurgião mor, concedeu ao francês Doutor Eugênio Frederico Guertin, a primeira carta a um dentista mais evoluído, por ser diplomado pela Faculdade de Odontologia de Paris, para exercer sua profissão no Rio de Janeiro. Este recebeu permissão para extrair dentes, praticar todas as operações necessárias ao ramo, fazer curativos, etc. Este profissional atingiu elevado conceito, atendendo a maior parte da nobreza, inclusive D. Pedro II e familiares. Este verdadeiro dentista trouxe um progresso imensurável, principalmente referente à prótese. Colocava coroas metálicas, obturava dente com ouro ou chumbo, fazia limpeza nos dentes ou os extraia. Publicou em 1819 "Avisos tendentes à conservação dos dentes e sua substituição", sendo, ao que tudo indica a primeira obra de odontologia feita no Brasil. Em seguida outros dentistas franceses vieram trazendo o que havia de melhor na odontologia mundial. 30 de agosto de 1828 D Pedro I ( ) suprime o cargo de cirurgião mór, cujas funções passaram a serem exercidas pelas Câmaras Municipais e Justiças Ordinárias. O objetivo dessa mudança era descentralizar a concessão de licenças, mas esbarrava na falta de profissionais capacitados a examinar os candidatos em todos os lugares James Snell inventou a primeira cadeira dentária reclinável Foi publicado o American Journal of Dental Science, o primeiro jornal sobre dentária no mundo Horace Hayden e Chapin Harris fundaram a primeira escola de odontologia de todo o mundo: o Baltimore College of Dental Surgery. A partir de 1840 Os dentistas franceses foram aos poucos suplantados com a chegada de profissionais dos Estados Unidos, como Clintin Van Tuyl, o primeiro a utilizar clorofórmio, em casos excepcionais, para anestesia. Em 1849 publica seu livro: "Guia dos dentes são. Este guia era destinado ao grande público, porém foi aproveitado pelos dentistas da época, porque abrangia todos os assuntos odontológicos Foi fundada a American Society of Dental Surgeons.

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