Mudanças recentes no mercado farmacêutico. Recent changes in the pharmaceutical market. Revista da FAE. Resumo. Abstract

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1 Revista da FAE Mudanças recentes no mercado farmacêutico Recent changes in the pharmaceutical market Lucídio Cristóvão Fardelone* Bruna Angela Branchi** Resumo A indústria farmacêutica brasileira está afrontando uma fase de mudança e, para entender os desafios, é necessário conhecer a sua posição relativa no mercado mundial e as suas peculiaridades. Este artigo aborda, de uma maneira sintética, o setor farmacêutico mundial e, mais detalhadamente, examina o caso brasileiro. Os dados para análise do setor provêm das associações do setor, com os quais é possível conhecer a evolução da dimensão deste segmento; verificar os efeitos de algumas políticas setoriais, quais sejam a redução de alíquotas de importação, lei das patentes e, com maior ênfase, a introdução dos medicamentos genéricos; identificar gargalos e evidenciar a importância de uma política pública para o setor. Palavras-chave: indústria farmacêutica; medicamentos genéricos. Abstract The Brazilian pharmaceutical industry is facing a path of changes and to understand the challenges ahead it is necessary to know the industry s relative position in the global market and its characteristics. In this article, after a quick analysis of the world pharmaceutical market, the Brazilian sector is examined in detail. Using published data it was possible to evaluate the evolution of its dimension; to comment on the effects of some policies, like the reduction of import duties, patent law, and, with more attention, the introduction of generic drugs; to identify bottlenecks and to highlight the importance of public policy for the sector. Key words: pharmaceutical industry; generic drug. * Doutor em Ciências pelo Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp e mestre em Ciências pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo - USP, de Ribeirão Preto. Pesquisador Químico na Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos Ltda. ** Doutora em Economia pela Universitá degli Studi di Pavia (Itália) e mestre em Economia pela University of Wisconsin Madison (Estados Unidos). Professora de graduação em Ciências Econômicas e coordenadora do curso de pósgraduação lato sensu em Relações Econômicas Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC-Campinas. Rev. FAE, Curitiba, v.9, n.1, p , jan./jun _Lucidio.p65 139

2 1 Características e mudanças recentes no mercado farmacêutico mundial A estrutura do mercado farmacêutico mundial pode ser definida como oligopólio, dada a presença de multinacionais de grande porte que influenciam o comportamento do setor. Em nível nacional, a presença de empresas menores não muda as características estruturais do setor. Elas, como será visto no caso do Brasil, reagem às decisões das empresas maiores. Os dados constantes no gráfico 1 confirmam essa estrutura, pois as dez principais empresas do setor possuíam, em 1990, 28,4% do mercado. Na década de 1990, essa concentração aumentou e, em 2000, 45,2% do mercado estava dividido entre as 10 maiores empresas (gráfico 2), ressaltando que 14% das vendas concentravam-se em duas empresas (CLASS, 2002). Em 2004, as maiores empresas farmacêuticas detinham 41,7% do mercado total, e a Pfizer possuía a maior cota de mercado, sendo também aquela cujas vendas tiveram o maior aumento em 2004, conforme os gráficos 3 e 4 (MAX, 2004). A concentração deste mercado é o resultado de um processo de aquisições e fusões que interessou, na última década, aos principais grupos do setor (FERREIRA, 2004). 1 Esse processo é justificado pelos elevados custos de pesquisa e desenvolvimento, que exigem tecnologias cada vez mais avançadas, além de todos os testes clínicos necessários com vistas a aumentar a segurança e eficácia dos medicamentos (CHUDNOVSKY e LÓPEZ, 1997; LOFF, 2002; LEXCHIN, 2002). As empresas que lideram este setor são de grande porte e atuam de forma globalizada. Normalmente são empresas sediadas nos Estados Unidos da América e na União Européia (basicamente na Alemanha, França e Suíça), onde os processos de fusão e incorporação já vêm sendo realizados desde os anos de 1980, quando da necessidade de incorporarem-se pró-ativamente na economia globalizada e buscando a hegemonia em seu segmento. Essa liderança de mercado é exercida em segmentos particulares como classes terapêuticas, farmoquímicos, biofármacos, intermediários etc. (COUZIN e BAGLA, 2002). Por exemplo, os fármacos obtidos através de síntese, sendo protegidos por meio de patentes, representam atualmente 85% do mercado mundial, algo em torno de US$ 425 bilhões. A importância dos fármacos sintéticos é indiscutível tanto na composição deste mercado quanto na perspectiva da inovação terapêutica, principal característica da indústria farmacêutica, que se dedica à pesquisa de novos fármacos (LICKS e RIETZ, 2004). O sucesso neste setor industrial depende da capacidade inovadora do laboratório. A maioria das empresas incentiva, em sua matriz, a atividade de pesquisa básica e aplicada, promovendo a formação de funcionários altamente qualificados. As exigências de qualificação devem-se ao elevado estágio tecnológico atingido pelos modernos processos de descoberta de novos fármacos, graças às contínuas conquistas científicas recentes no campo da química medicinal, genoma, bioinformática, biotecnologia, robótica etc. (HENRY, 2004; WATKINS, 2002). Nesse sentido, a riqueza proveniente da biodiversidade de natureza tropical, como a da Amazônia, constitui-se importante fonte de novas pesquisas para que essas empresas possam apropriar-se deste conhecimento e transformá-lo em produtos comercialmente viáveis. 1 Exemplos dessa tendência de aquisições são a compra da Wellcome (UK) por parte da Glaxo (UK) por US$ 14,9 bilhões, em 1994; da Boehringer Manheim (Alemanha) por parte da Hoffman-la Roche (Suíça) por US$ 11 bilhões, em 1997; da Warner-Lambert por parte da Pfizer (EUA) por US$ 90 bilhões, em Entre as fusões, vale lembrar aquelas entre a Pharmacia Aktiebolag (Suíça) e a Pharmacia & Upjohn (EUA), em 1996; da Sandoz (Suíça) e a Ciba (Suíça) formando a Novartis, em 1996; da Astra AB (Suíça) e a Zeneca (UK) formando a AstraZeneca (UK), em 1999; da Hoechst Marion Roussel (Alemã) e a Rhône-Poulenc (França) formando a Aventis (Alemanha), em 1999; da Monsanto com a Pharmacia & Upjohn, em 1999; da Glaxo Wellcome com a Smith Kline Beecham, em 2001; e as aquisições da Hexal A G (Alemanha) e da Eon Labs (EUA) pela Novartis (Suíça), em 2005, criando a maior empresa de genéricos do mundo _Lucidio.p65 140

3 Revista da FAE % % Bayer (Alemanha) 2,2 Wyeth (EUA) 2,5 Eli Lilly (EUA) 2,2 Bristol-Myers Squibb (EUA) 2,8 Johnson & Johnson (EUA) Hoechst (Alemanha) America Home Products (EUA) 2,5 2,6 2,6 Roche (França) Novartis (Suíça) AstraZeneca (Reino Unido) Merck & Co (EUA) 3,1 3,4 3,9 3,9 Ciba-Geigy (Suíça) 2,8 Johnson & Johnson (EUA) 4,0 Smith Kline Beckham (Reino Unido) 2,9 GlaxoSmithKline (Reino Unido) 5,7 Glaxo (Reino Unido) 3,3 Sanofi-Aventis (França) 5,8 Bristol-Meyers Squibb (EUA) 3,5 Pfizer (EUA) 8,4 Merck & Co (EUA) GRÁFICO 1 - MARKET-SHARE DAS DEZ MAIORES EMPRESAS DO MERCADO FARMACÊUTICO MUNDIAL FONTE: Class (2002), IMS-Health (1991; 2001) NOTA: O total das dez maiores empresas farmacêuticas era de 28,4% do mercado mundial. 3,8 GRÁFICO 3 - MARKET-SHARE DAS DEZ MAIORES EMPRESAS DO MERCADO FARMACÊUTICO MUNDIAL FONTE: Max (2004), IMS-Health (2004) NOTA: O total das dez maiores empresas farmacêuticas era de 41,7% do mercado mundial. % America Home Products (EUA) Pharmacia (EUA) Aventis (França) Johnson & Johnson (EUA) Novartis (Suíça) Bristol-Meyers Squibb (EUA) AstraZeneca (Reino Unido) Merck & Co (EUA) GlaxoSmithKline (Reino Unido) Pfizer (EUA) 3,0 3,2 3,6 3,9 3,9 4,1 4,4 5,1 6,9 7,1 % Abbot (EUA) Baxter (EUA) Bristol-Myers Squibb (EUA) Eli Lilly (EUA) Johnson & Johnson (EUA) Merck & Co (EUA) Pfizer (EUA) Wyeth (EUA) AstraZeneca (Suíça) GlaxoSmithKline (Inglaterra) Novartis (Suíça) Schering AG (Alemanha) 10,0 11,6 10,0 8,0 18,0 18,2 16,7 17,2 22,1 22,7 21,1 20,5 21,1 21,3 16,4 17,3 22,2 24,0 21,2 20,2 27,4 27,7 32,2 31,3 GRÁFICO 2 - MARKET-SHARE DAS DEZ MAIORES EMPRESAS DO MERCADO FARMACÊUTICO MUNDIAL FONTE: Class (2002), IMS-Health (1991; 2001) NOTA: O total das dez maiores empresas farmacêuticas era de 45,2% do mercado mundial GRÁFICO 4 - EVOLUÇÃO DAS VENDAS DAS PRINCIPAIS INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS DO MERCADO MUNDIAL FONTE: Max (2004) Estima-se que aproximadamente 150 mil cientistas (Ph.Ds) desenvolvam pesquisas em laboratórios industriais, em busca de estratégias inovadoras para o tratamento da diabetes, dor, câncer, doenças cardiovasculares, neurodegenerativas (Alzheimer, Parkinson etc.), artrite, osteoporose, fibrose cística, AIDS, entre outras. No ano de 2000, essa intensa atividade de pesquisa mobilizou na Europa, por exemplo, 17 bilhões, aproximadamente 560 milhões/dia. Somente na Inglaterra, estima-se que, em 2000, os gastos em pesquisa e desenvolvimento na indústria farmacêutica inglesa foram de 8 milhões ao dia (IMS-HEALTH, 2001). De um ponto de vista geográfico, as vendas deste setor se concentram no mercado norte-americano. Dos US$ 386 bilhões de 2001, quase 50% foram faturados na América do Norte (gráfico 5). Em 2004, mais da metade dos aproximados US$ 500 bilhões representava vendas no mercado norte-americano. A taxa de crescimento médio anual (entre 2001 e 2004) foi de 13%, bem acima daquela da Europa (segundo mercado em ordem de importância) e do Japão. A área que inclui a China é a que registrou a maior taxa de crescimento médio nos últimos quatro anos: 17%. Mesmo com uma participação no mercado global Rev. FAE, Curitiba, v.9, n.1, p , jan./jun pag_141_texto.p /7/2006, 00:39

4 de 1,3%, esse país é visto como um mercado de enorme potencial pelas multinacionais, as quais já possuem empreendimentos tipo joint ventures. Alguns laboratórios estão começando a ampliar a sua presença na China, embora enfrentem problemas quanto ao reconhecimento de patentes, como é o caso do Viagra (Sidenafil) da Pfizer, que teve a sua patente revogada. Caso a China possa aumentar a proteção de propriedade intelectual, o potencial de vendas será considerável. US$ Bi 260 A América Latina, mesmo com uma pequena elevação nas vendas em 2003 e 2004, continua apresentando a menor taxa de crescimento (2% ao ano), em decorrência de dificuldades econômicas enfrentadas por países dessa região. O mercado farmacêutico do Brasil representa 1,4% de todo o mercado mundial. 2 O mercado farmacêutico brasileiro América do Norte GAGR 13% a. a Europa GAGR 9% a. a. 48 GRÁFICO 5 - EVOLUÇÃO DO MERCADO FARMACÊUTICO MUNDIAL FONTE: IMS-Health (2004), Fortschritt Consulting (2003) NOTA: Compounded Annual Growth Rate - GAGR ou Taxa de crescimento anual composta Japão GAGR 4% a. a África, Ásia e Oceania GAGR 17% a. a América Latina GAGR 2% a. a. 2.1 Dimensão e mudanças recentes Nos últimos oito anos, o mercado farmacêutico brasileiro cresceu 116% (em termos nominais). Observando as quantidades vendidas, nota-se um declínio, nesse mesmo período, que continuou até 2003, quando elas representavam somente 81% da produção de Em 2004, a tendência mudou com um incremento real nas vendas de 10,3% (tabela 1 e gráfico 6). TABELA 1 - MERCADO FARMACÊUTICO BRASILEIRO EM VENDAS NOMINAIS EM R$ 1000 E US$ 1000 (SEM IMPOSTOS) E EM 1000 UNIDADES ANO VENDAS NOMINAIS (R$ 1000) VARIAÇÃO (%) ÍNDICE BASE (1997 = 100) VENDAS (US$ 1000) VARIAÇÃO (%) ÍNDICE BASE (1997 = 100) VENDAS (1000 UNIDADES) VARIAÇÃO (%) ÍNDICE BASE (1997 = 100) , , , ,28 109, ,44 101, ,14 97, ,71 128, ,51 76, ,96 95, ,67 133, ,57 78, ,55 91, ,33 145, ,21 66, ,39 88, ,29 162, ,53 60, ,55 87, ,13 183, ,02 65, ,24 80, ,67 216, ,78 79, ,30 89,1 FONTE: Grupemef/Febrafarma (2005) Vendas nominais em R$ 1000 e US$ Vendas Nominais em R$ 1000 Vendas em US$ 1000 Vendas em 1000 Unidades Vendas em 1000 unidades GRÁFICO 6 - VENDAS NOMINAIS BRASILEIRAS EM R$ 1000 E US$ 1000 E EM 1000 UNIDADES DE PRODUTOS FARMACÊUTICOS FONTE: Grupemef/Febrafarma (2005) NOTA: Os dados de 2001, 2002, 2003 e 2004 foram retificados _Lucidio.p65 142

5 Revista da FAE Uma peculiaridade do mercado farmacêutico brasileiro é o preço médio baixo (gráfico 7). Comparando com o preço dos 15 fármacos mais vendidos 2 em 2003 em 12 países, o Brasil apresenta o menor preço de fabricação. A diferença com os Estados Unidos, país que tem o maior preço de fabricação, é de 4,8 vezes. Mas comparando com o preço ao consumidor, o Brasil ocupa a oitava posição, como Portugal. A diferença com o maior preço ao consumidor, aquele dos Estados Unidos, é de 2,8 vezes (gráfico 8). Essa simples comparação permite inferir a eficiência do setor brasileiro em sua produção. Considerando, porém, o lado do consumidor, essa eficiência de preço se reduz. Uma possível explicação pode ser encontrada na concentração do consumo de medicamentos por grupo de população. No Brasil, o grupo com maior poder aquisitivo, que representa 15% da população, é responsável por 48% do consumo de fármacos (figura 1). US$ Brasil Argentina Grécia Espanha Nova Zelândia França Austrália Portugal Itália Canadá México EUA US$ Brasil Argentina Grécia Espanha Nova Zelândia França Austrália Portugal Itália Diferença ente EUA e Brasil = 4,8 vezes Preço do fabricante dos 15 fármacos mais vendidos em 2003 Canadá US$/SU Coréia do Sul Colombia 0,09 0,11 México EUA Chile Uruguai Nova Zelândia 0,14 0,15 0,16 Diferença ente EUA e Brasil = 2,8 vezes Preço do varejo dos 15 fármacos mais vendidos em 2003 Brasil Equador Argentina Austrália Turquia 0,16 0,17 0,20 0,24 0,26 GRÁFICO 8 - COMPARAÇÃO GRÁFICA DA RAZÃO DOS PREÇOS PRATICADOS PELO FABRICANTE E DOS PREÇOS NO VAREJO DOS 15 FÁRMACOS MAIS VENDIDOS FONTE: IMS-Health (2003) NOTA: Preços de junho de Peru 0,27 Venezuela 0,27 México África do Sul 0,30 0,30 POPULAÇÃO CONSUMO DE MEDICAMENTOS CONSUMO PER CAPITA Grécia França 0,31 0,32 Grupo A 15% 48% US$ 195 Espanha Portugal 0,33 0,35 Grupo B 34% Reino Unido Irlanda Suécia 0,35 0,40 0,43 Grupo C 44% 36% US$ 65 Finlândia 0,43 Holanda Bélgica 0,45 0,46 Grupo D 7% 16% US$ 20 Itália Luxemburgo Alemanha 0,47 0,48 0,53 Grupo A - mais de US$ 750/mês Grupo C - de US$ 20 a US$ 300/mês Grupo B - de US$ 300 a US$ 750/mês Grupo D - menos de US$ 20/mês Suíça Áustria EUA 0,54 0,71 0,74 FIGURA 1 - RELAÇÃO DO CONSUMO DE MEDICAMENTOS DAS CLASSES A, B, C, D - BRASIL FONTE: Febrafarma (2004) GRÁFICO 7 - COMPARAÇÃO ENTRE OS PREÇOS MÉDIOS AO CONSUMIDOR DOS FÁRMACOS MAIS VENDIDOS FONTE: IMS-Health (2003) NOTA: Standart Units - SU ou preço convertido para a menor unidade. 2 Os 15 fármacos são: Effexor, Prozac, Zoloft, Fluoxetina, Lexotan, Rivotril, Celebra, Vioxx, Voltaren, Amoxicilina, Viagra, Cialis, Lipitor, Adalate e Norvasc. Rev. FAE, Curitiba, v.9, n.1, p , jan./jun _Lucidio.p65 143

6 As variações nas vendas e nos preços médios são reflexos da conjuntura nacional e internacional e, sobretudo, da política comercial adotada no Brasil a partir de 1989 (REBOUÇAS, 1997; QUEIROZ e GONZÁLES, 2001). Nesse ano começou uma redução generalizada de alíquotas nas diferentes fases produtivas, em 1994 houve a liberação do controle de preços e em 1997 ocorreu a implantação de uma nova legislação sobre as patentes (DE OLIVEIRA, 2004). Todas essas medidas tiveram como conseqüência uma redução do preço dos remédios, via maior oferta por causa das importações, aumento da concorrência nas etapas produtivas com objetivo de baixar os custos de produção, além da diminuição da alíquota de impostos dos produtos acabados, aumento da competição entre as empresas e eliminação do controle de preços (LIMA, 2004). No mercado nacional dos fármacos, os efeitos dessas medidas, em particular da redução generalizada de alíquotas de importação, foram: aumento das importações, diminuição da demanda pela produção interna e das margens de lucros das empresas nacionais, e elevação dos preços das matérias-primas químicas básicas. As altas constantes fizeram com que diminuíssem as quantidades de medicamentos comercializados e, no decorrer da década passada, o total de unidades vendidas no mercado interno caiu 17%. É bem provável que muitas das empresas locais tenham investido menos em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, dada a facilidade encontrada na importação do remédio pronto, conforme será indicado na tabela 2, que trata da evolução da exportação e da importação de medicamentos por parte do Brasil. Em 1999, o Brasil adotou a política de medicamentos genéricos como forma de reprimir a intensidade da elevação dos preços e estimular a demanda (VALENTIM, 2003). Um dos objetivos dessa política era facilitar o acesso de uma maior fatia da população brasileira aos medicamentos via redução de preço. Isso aconteceria como resultado do menor preço médio do medicamento genérico em relação ao medicamento de referência e da eventual maior concorrência entre os produtores, conseqüência do menor grau de concentração das vendas (HASENCLEVER, 2004). Indiretamente, essa mesma política poderia reduzir a importância das empresas transnacionais na indústria farmacêutica brasileira, com conseqüente menor dependência externa deste setor (BERMUDEZ, 1994). Um estudo recente, usando dados de 2000 e 2001, demonstra que a introdução de medicamentos genéricos teve um forte impacto sobre a estrutura deste mercado, reduzindo o índice de Herfindal- Hirschman de 0,673 para 0,565. O mesmo estudo, porém, sugere que a redução do preço médio dos medicamentos não pode ser imputada à introdução dos genéricos em si, mas à desconcentração do mercado. Mesmo assim, existe evidência estatística significativa de correlação positiva entre a introdução dos genéricos e a taxa de crescimento das quantidades vendidas (HASENCLEVER, 2004). A evolução do segmento de genéricos mostra um crescimento acelerado da produção nacional (gráficos 9 e 10). Os genéricos, de maneira geral, têm demonstrado um crescimento de 20% nos países ocidentais, que no Brasil já é de 22,5% (MCCOY, 2002; CAMARGO, 2002). Um fato interessante é que, pela primeira vez, empresas nacionais estão dominando significativamente este mercado. No gráfico 11 estão representadas as dez principais empresas farmacêuticas do mercado mundial de genéricos, entre as quais três são brasileiras. O elevado crescimento das vendas de medicamentos genéricos e o fato de, diversamente do setor farma-cêutico geral, a produção ser concentrada em empresas nacionais poderiam favorecer o desenvolvimento do setor farmacêutico nacional via maior investimento em pesquisa e maior escala de produção, melhorando a competitividade internacional das empresas brasileiras, com efeitos positivos sobre a balança comercial. Por enquanto, porém, as empresas nacionais continuam importando matéria-prima e/ou medicamento acabado com piora do déficit comercial setorial. Há espaço para inverter isso via mudanças na política industrial, tecnológica e de comércio exterior (FÉRÉZOU e NICOLSKY, 2004) _Lucidio.p65 144

7 Revista da FAE 1000 unidades /00 04/00 05/00 06/00 07/00 08/00 09/00 10/00 11/00 12/00 01/01 02/01 03/01 04/01 05/01 06/01 07/01 08/01 09/01 10/01 11/01 12/01 01/02 02/02 03/02 04/02 05/02 06/02 07/02 08/02 09/02 10/02 11/02 12/02 01/03 02/03 03/03 04/03 05/03 06/03 07/03 08/03 09/03 10/03 11/03 12/03 01/04 02/04 03/04 04/04 05/04 06/04 07/04 08/04 09/04 10/04 11/04 12/04 0 GRÁFICO 9 - EVOLUÇÃO MENSAL DO MERCADO DE GENÉRICOS NO BRASIL - MAR/2000-DEZ/2004 FONTE: IMS-Health (2004) NOTA: Em dezembro de 2004 representava 9,86% do mercado unitário. US$ Mi US$ Mi Schering (Alemanha) ,7 Schering-Plough (Alemanha) Boehringer Ingelheim (Alemanha) Medley (Brasil) ,8 Roche (Suíça) ,6 EMS (Brasil) 220 Novartis (Suíça) ,7 Aventis (França) Aché (Brasil) Pfizer (EUA) 323 GRÁFICO 10 - EVOLUÇÃO ANUAL DO MERCADO DE GENÉRICOS NO BRASIL AGO/2004 FONTE: Revista Isto É (2004) GRÁFICO 11 - MERCADO DAS PRINCIPAIS INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS DE GENÉRICOS - AGO/2004 FONTE: Revista Isto É (2004) 2.2 Os reflexos do setor no comércio internacional % 0,38 0,48 0,40 0,42 0,42 0,38 0,36 O setor farmacêutico tem uma pequena participação no comércio exterior brasileiro. As suas exportações não chegam a meio ponto percentual das exportações totais e as suas importações representam, em média, 3% das importações totais brasileiras no período (gráficos 12 e 13). 0, GRÁFICO 12 - PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL DAS EXPORTAÇÕES DE PRODUTOS FARMA- CÊUTICOS NAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS FONTE: MDIC/Febrafarma (2005) Rev. FAE, Curitiba, v.9, n.1, p , jan./jun PAGINA_145.p /7/2006, 01:19

8 % 1,70 2,10 3,07 2,55 GRÁFICO 13 - PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL DAS IMPORTAÇÕES DE PRODUTOS FARMA- CÊUTICOS NAS IMPORTAÇÕES BRASILEIRAS FONTE: MDIC/Febrafarma (2005) 2,74 3,23 3,13 2, Com a estabilidade monetária na metade da década de 1990, o mercado farmacêutico aumentou as importações, favorecidas pela taxa cambial sobrevalorizada. A conseqüente substituição do produto nacional pelo importado desestimulou os investimentos nacionais, agravou as condições do mercado de trabalho e acentuou a dependência externa do setor. O saldo deficitário da balança comercial deste setor começou a mostrar uma melhora a partir do ano 2001, quando as exportações aumentaram a taxas maiores do que as registradas pelas importações. Em 2004, a tendência mudou e o déficit do setor foi de mais de US$ 1,433 bilhão (16,3% maior do que o do ano anterior), representando 2,28% do déficit da balança comercial brasileira, como mostram a tabela 2 e o gráfico 14 (MDIC/FEBRAFARMA, 2004). Várias podem ser as explicações desse resultado. Uma delas é o crescimento da atividade produtiva. TABELA 2 - EVOLUÇÃO DAS EXPORTAÇÕES E IMPORTAÇÕES DE PRODUTOS FARMACÊUTICOS - BRASIL ANO EXPORTAÇÕES (US$ FOB) VARIAÇÃO (%) ÍNDICE BASE (1997 = 100) IMPORTAÇÕES (US$ FOB) VARIAÇÃO (%) ÍNDICE BASE (1997 = 100) , , ,45 126, ,68 119, ,67 150, ,63 149, ,56 141, ,01 140, ,52 156, ,10 150, ,89 164, ,38 150, ,41 181, ,02 149, ,48 227, ,02 176,1 FONTE: Febrafarma (2005) US$ FOB Exportações Importações GRÁFICO 14 - EVOLUÇÃO DAS EXPORTAÇÕES E IMPORTAÇÕES DO SETOR FARMACÊUTICO - BRASIL FONTE: MDIC/Febrafarma (2005) _Lucidio.p65 146

9 Revista da FAE A maioria das especialidades farmacêuticas comercializadas no Brasil é de produtos com patentes extintas. Portanto, em princípio, todos os fármacos referentes a esses medicamentos poderiam ser fabricados no País, evitando-se, assim, as suas importações. A complexidade, porém, dos processos de produção, que demandam equipamentos específicos, os gastos com marketing e os padrões técnicos rígidos de fabricação de fármacos dificultam o desenvolvimento da indústria farmacêutica no País e aumentam sua dependência do exterior. O Brasil já conta com um parque industrial significativo para a produção de matérias-primas farmacêuticas: fármacos e complementos. As exportações de fármacos são as que dispõem de melhores condições de desenvolvimento, já que o número de países produtores é bem mais restrito. Nos últimos dez anos, o Brasil perdeu espaço como exportador para a Índia e a China, países que adotaram fortes políticas de incentivos às suas indústrias. O resultado desse incentivo pode ser visto no exemplo da Ranbaxy, fundada em 1961 na Índia, que investiu fortemente em qualidade e Boas Práticas de Fabricação em suas plantas para atender às requisições de agências reguladoras internacionais e locais (MCA do Reino Unido e FDA dos Estados Unidos) e obteve uma taxa de crescimento anual da ordem de 40%, atingindo em 2002 um faturamento da ordem de US$ 789 milhões (IMS-HEALTH, 2002). Atualmente, os fortes investimentos em pesquisa e desenvolvimento, assim como em qualidade para exportação conseqüentes da nova legislação sobre patentes e da introdução dos genéricos, que visam aprimorar os produtos farmacêuticos nacionais para atender a padrões internacionais de qualidade, são tendências também entre os laboratórios nacionais, que poderão ter efeitos relevantes no comércio exterior do setor nos próximos anos. No Brasil, um exemplo é a Cristália, laboratório nacional que investe em pesquisa e desenvolvimento de novas substâncias, possui certificação de Boas Práticas de Fabricação (BPF) em todas as etapas de processos de suas unidades, apresentou nos últimos anos um crescimento da ordem de 20% e, em 2004, elevou este crescimento para 25%, com vendas da ordem de R$ 430 milhões. A Cristália também possui produtos que são exportados para os Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e América Latina. Um outro exemplo é a Boehringer Ingelheim, que investiu US$ 54 mil para transformar sua fábrica no Brasil em uma das mais modernas do grupo, atendendo a requisitos internacionais de qualidade. Em 2001, a produção brasileira representou 10% da produção mundial deste grupo (BOEHRINGER INGELHEIM, 2004). 3 Política industrial de incentivo à empresa farmacêutica Os principais gargalos que limitam o setor são: a dificuldade de acesso aos incentivos à inovação, o elevado custo de financiamento e a ausência de uma política industrial de Estado que sinalize projetos estruturantes em um cenário dominado por grandes empresas estrangeiras. No Brasil há carência de uma política industrial que amenize problemas como a dificuldade de acesso a incentivos direcionados ao investimento em inovação tecnológica de empresas brasileiras. Isso desestimula a produção local, bem como novos empreendimentos de capital nacional. Somente em 2001 o governo instituiu mecanismos para financiamentos à pesquisa e desenvolvimento, os fundos setoriais, e para a equalização das taxas de juros de financiamentos da inovação tecnológica e definiu o conceito de despesas correntes para o custeio de pesquisa e desenvolvimento, os incentivos fiscais (ABIFINA, 2003). Atualmente, a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior - PICTE do atual governo federal tem como proposta apoiar fármacos e assemelhados, ante a Rev. FAE, Curitiba, v.9, n.1, p , jan./jun _Lucidio.p65 147

10 dependência tecnológica brasileira no setor, bem como o déficit corrente nas importações deste setor. No entanto, aparentemente, não há ações concretas visando atingir esses objetivos, pelo menos a curto prazo. No Brasil há carência de uma política industrial que amenize problemas como a dificuldade de acesso a incentivos direcionados ao investimento em inovação tecnológica de empresas brasileiras A elevada carga tributária e as altas taxas de juros para o financiamento de investimentos e para o capital de giro, muito superiores às taxas praticadas nos mercados externos, inviabilizam os negócios em virtude do reduzido porte da maioria das empresas nacionais, constituindo restrições aos planos de crescimento desta indústria, que ainda sente as conseqüências da abertura do mercado nacional e da política monetária, ocorridas na década de A abertura do mercado nacional, iniciada na década passada, resultante de acordos internacionais que não consideraram os problemas estruturais do País, causou graves problemas ao setor farmacêutico nacional, cujas condições de produção desfavoráveis na época o prejudicaram na concorrência com o setor farmacêutico internacional. Segundo levantamento feito pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (2000), no período de 1989 a 1999 foram paralisadas 407 linhas de fabricação de produtos farmoquímicos, produtores de princípios ativos, e 110 projetos de investimento nesta área não foram implementados, levando à desestruturação deste setor (ABIFINA, 2003). A política monetária resultou, na segunda metade daquela década, na apreciação do real em relação ao dólar, refletindo na elevação dos custos de produção e, conseqüentemente, nos preços de venda dos produtos nacionais. Como exemplo da ausência de planejamento estratégico nacional, pode-se mencionar que das sete unidades produtivas de antibióticos (medicamento este de valor estratégico para a soberania de uma nação) existentes no Brasil há dez anos, hoje resta em operação apenas uma e, assim mesmo, em situação financeira extremamente difícil (ABIFINA, 2003). Assim, cerca de um bilhão de dólares ao ano deixa de ser faturado pelo setor farmoquímico, e o valor de importação atual é cinco vezes superior ao de exportação, agravando ainda mais o déficit na balança comercial do segmento, além da redução de número de empregos altamente qualificados (ABIFINA, 2003). Ressalte-se que as reduções tarifárias para medicamentos, ocorridas na primeira metade da década passada, não tiveram um efeito imediato nos preços. O incremento das importações de medicamentos somente adquiriu expressão a partir de 1993, com a aprovação da nova lei de patentes. A lei de patentes, do ponto de vista do Congresso, seria capaz de trazer grandes investimentos para o desenvolvimento tecnológico e industrial do País, porém isso não ocorreu, somente aumentou a distância de desenvolvimento tecnológico nacional em relação ao estrangeiro, pois a proteção patentária de produtos e formulações de medicamentos aumentou a concentração econômica. Nos Estados Unidos, assim como em outros países desenvolvidos, o governo intervém no mercado mediante políticas protecionistas, fortes incentivos ao desenvolvimento tecnológico e à acumulação de capital privado, além de dar preferências aos produtores locais ( Buy American Act ), mesmo com preço 6% acima do importado (chegando a 12%, tratando-se de pequena empresa), bem como concedendo subsídios ao desenvolvimento tecnológico de pequenos e microempresários, exemplo: programa Small Business Innovative Research - SBIR (ABIFINA, 2003) _Lucidio.p65 148

11 Revista da FAE No Japão, o Estado incentiva as atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. As metas atuais, na área tecnológica, concentram-se na busca de novos produtos e de materiais com alto valor agregado, que utilizem tecnologias sofisticadas e se traduzam em processos produtivos não-poluentes. A política industrial adotada no Japão teve como objetivo proteger a indústria local. Com a finalidade de desenvolver indústrias estratégicas, foram utilizados recursos subsidiados para pesquisa e desenvolvimento, isenções fiscais, tratamento especial para o financiamento de capital de risco para novos investimentos, incentivos especiais para a solução de problemas sociais nas áreas de alimentos, saúde, meio ambiente e energia. Na França, a política industrial é integrada. O Estado, além de sinalizar claramente para o setor privado quais são as áreas que prioriza, intervém de forma direta na sua implantação. Existe uma grande interação entre a empresa pública e a privada com participações acionárias cruzadas, assim como alternâncias de executivos entre as áreas. O governo francês subsidia a exportação de produtos e também protege a indústria doméstica, concedendo subsídios em financiamentos e até fazendo renúncia fiscal para grandes empreendimentos, além de oferecer linhas de crédito subsidiado para pequenas e médias empresas. O governo ainda possui uma política de avaliação técnica que é efetuada unicamente por instituições locais, o que eleva os custos para o registro de produtos estrangeiros, constituindo-se em barreira contra produtos estrangeiros. Na Alemanha, o intervencionismo do Estado é menor. Com relação à antiga Alemanha Oriental, sua indústria recebe todos os incentivos: subsídios, isenções fiscais, empréstimos a fundo perdido etc. As pequenas empresas da Alemanha possuem sistemas de financiamentos subsidiados por meio de juros baixos e de longo prazo. O governo ainda incentiva a implantação de indústrias que possuam novas tecnologias, formando conglomerados industriais, via sistema financeiro, que se diz privado, e as atividades de pesquisa e desenvolvimento industrial para empresas atuantes em setores de tecnologia de ponta, como os setores de biotecnologia, informática, energia, entre outros (ABIFINA, 2003). No caso da Coréia, um país emergente, as práticas são de primeiro mundo. A sua legislação dedicada à promoção do desenvolvimento tecnológico e industrial é de 1972 e se caracteriza por incentivos financeiros e fiscais a empresas privadas, estabelecendo a inovação tecnológica como fundamental para o crescimento sustentado da economia. Assim, o Estado oferece às empresas privadas os subsídios financeiros e os incentivos fiscais para a pesquisa e o desenvolvimento em áreas estratégicas, que são realizados em centros privados de P&D. Para projetos estratégicos, o governo coreano cobre até 50% do total de investimentos, além de dar suporte financeiro dos custos incorridos por pequenas empresas na comercialização de novas tecnologias (ABIFINA, 2003). No Brasil, há necessidade de uma política industrial mais ativa, menos sujeita às pressões setoriais, que ajude na contenção dos custos de produção. Além disso, seriam necessárias medidas que facilitassem a reestruturação produtiva do complexo industrial da química fina, que foi fortemente abalado com a abertura comercial abrupta, implantada no Brasil a partir do início da década de 1990 (FRENKEL e SILVA, 1995; SILVA, 1999). O uso do poder de compra do Estado também é necessário, por meio de licitações públicas internacionais com a requerida adequação às leis vigentes, de maneira que produtos similares nacionais substituam os estrangeiros, observados os requisitos quanto a prazo de entrega, qualidade e preço não superior ao custo equivalente do produto importado 3 (AVILA, 2003). 3 Preço calculado com base no preço CIF acrescido dos tributos que incidem sobre a importação e de outros encargos de efeito equivalente. Rev. FAE, Curitiba, v.9, n.1, p , jan./jun _Lucidio.p65 149

12 Há a necessidade de se disponibilizarem recursos para financiar a inovação tecnológica da própria empresa nacional, com o propósito declarado de tornála mais competitiva em nível internacional. Na área da propriedade intelectual, é preciso apoiar a reestruturação e a reorientação do Instituto Nacional da Propriedade Industrial - INPI, com o objetivo de obter melhores resultados na análise de processos e no apoio à transferência e absorção de tecnologias por empresas nacionais. É preciso também apoiar o INPI para tornar mais eficaz a sua ação na área judiciária, visando impedir a prorrogação de patentes vencidas no período , como vem sendo alcançada pelo Poder Judiciário. Trazer para o âmbito do Poder Legislativo os debates de alto nível sobre o significado da propriedade intelectual na sociedade brasileira, em especial para definir o grau de concessões da soberania do País que os interesses nacionais permitem que sejam feitas em ocasião de acordos internacionais. Conclusão No Brasil, o mercado farmacêutico é dominado por empresas multinacionais, com plantas de produção e formulação aqui instaladas. As empresas com capital nacional, responsáveis por cerca de 20% do faturamento do setor, têm suas atividades centradas principalmente na produção e desenvolvimento de processos produtivos, com produtos obtidos por meio de patentes expiradas, com tecnologia transferida por parcerias internacionais mediante participação financeira ou pagamento de royalties ou na forma de genéricos (CAPANEMA e PALMEIRA FILHO, 2004). O setor farmacêutico brasileiro ainda está voltado para a farmacotécnica, ou seja, as empresas, principalmente estrangeiras, importam a matéria-prima pronta, produzindo no Brasil apenas o medicamento. No entanto, com a nova legislação de patentes e a introdução de genéricos, os laboratórios nacionais estão aumentando os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, com a contratação de mão-de-obra altamente qualificada e associação com instituições de pesquisa científica do País, criando assim as oportunidades para conseguir novos produtos com potencial de exportação. A política governamental deveria estimular a competição na indústria farmacêutica. A conseqüente redução dos preços deveria favorecer o acesso da população, levando em consideração algumas das características específicas da demanda dos medicamentos. Os medicamentos são produtos cuja demanda é altamente específica, vinculada às patologias que atingem os pacientes, e inelástica aos preços, em virtude de sua importância para o restabelecimento do estado de saúde dos pacientes, de maneira que em vários casos a premência de seu uso está associada diretamente às chances de sobrevida dos pacientes. Recebido em: 29/03/2005 Aprovado em: 30/11/2005 Referências ABIFINA - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE QUÍMICA FINA. A indústria farmoquímica no Brasil Texto apresentado à Subcomissão Especial de Assistência Farmacêutica e outros Insumos, da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, jun AVILA, J. P. C. Políticas ativas para o desenvolvimento do setor farmacêutico brasileiro Tese (Doutorado)- Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UFRJ, Rio de Janeiro, BERMUDEZ, J. A. Z. Medicamentos genéricos: uma alternativa para o mercado brasileiro. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.10, n.3, p , jul./set _Lucidio.p65 150

13 Revista da FAE BOEHRINGER INGELHEIM. Atividades no Brasil, Disponível em: <http://www.boehringer-ingelheim.com.br/ conteudo.asp?conteudo=55>. Acesso em: 10 dez CAMARGO, A. C. M. O negócio dos remédios - Novos produtos devem vir da união de recursos públicos e privados. Revista Pesquisa Fapesp, São Paulo, n.80, p.7-7, out CAPANEMA, L. X. L.; PALMEIRA FILHO, P. L. A cadeia farmacêutica e a política industrial: uma proposta de inserção do BNDS. BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n.19, p.23-48, mar CHUDNOVSKY, D.; LÓPEZ, A. F. Las estratégias de las empresas transnacionales en Argentina y Brasil. Revista Brasileira de Comércio Exterior, n.53, p.38-53, out./dez CLASS, S. Pharma Overview. Chemical Engineering News, p.39-49, 2 Dec COUZIN, J.; BAGLA, P. Report urges leeway for developing. World Science, v.13, n.297, p , DE OLIVEIRA, S. N. Cenário brasileiro de patentes. Fármacos e Medicamentos, São Paulo, v.30, n.5, p.11-19, set./out FEBRAFARMA - FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS. Disponível em: <http:// Acesso em: 10 dez FEBRAFARMA - FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS. Disponível em: <http:// Acesso em: 28 mar FÉRÉZOU, J. P.; NICOLSKY, R. Medicamentos genéricos e a indústria nacional. Abifina, 27 nov FERREIRA, A. M. Fusões e incorporações - mudanças, sempre mudança. Fármacos e Medicamentos, São Paulo, v.30, n.5, p.56-58, set./out FRENKEL, J.; SILVA, J. C. Política econômica, forças de mercado e preços dos medicamentos. Boletim de Conjuntura, Rio de Janeiro: UFRJ - Instituto de Economia, v.15, n.3, p.71-74, out FORTSCHRITT CONSULTING. Disponível em: <http://www.fortschritt-consulting.com>. Acesso em: 8 mar GRUPEMEF/FEBRAFARMA - GRUPO DOS PROFISSIONAIS EXECUTIVOS DO MERCADO FARMACÊUTICO/FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS. Disponível em: <http://www.febrafarma.com.br/divisões.php?area =ec&secao= apresentacao&modulo=textos >. Acesso em: 10 mar HASENCLEVER, L. O mercado de medicamentos genéricos no Brasil. Trabalho apresentado no Simpósio Franco- Brasileiro O Novo Direito de Propriedade Intelectual no Domínio da Saúde e dos Seres Vivos (implicações para o acesso aos tratamentos anti-retrovirais). Brasília, jun Disponível em: <http://www.aids.gov.br/final/novidades/ brasil_franca_2004/lia%20seminarioliabrasiliafinal.doc>. Acesso em: 8 mar HENRY, C. M. Drug development. Chemical Engineering News, p , 27 May IMS-HEALTH. IMS World Review, Disponível em: <http://www.imshealth.com>. Acesso em: 8 mar IMS-HEALTH. IMS World Review, Disponível em: <http://www.imshealth.com>. Acesso em: 8 mar IMS-HEALTH. IMS World Review, Disponível em: <http://www.imshealth.com>. Acesso em: 8 mar IMS-HEALTH. IMS World Review, Disponível em: <http://www.imshealth.com>. Acesso em: 8 mar IMS-HEALTH. IMS World Review, Disponível em: <http://www.imshealth.com>. Acesso em: 8 mar LEXCHIN, H. D. The pharmaceutical industry as a medicines provider. Lancet, v.23, n.360, p , LICKS, O.; RIETZ, U. Patente farmacêutica: inovação e estratégia. Fármacos e Medicamentos, São Paulo, v.30, n.5, p.20-26, set./out LIMA, L. C. W. A Anvisa, as patentes e o acesso a medicamentos. Fármacos e Medicamentos, São Paulo, v.30, n.5, p.28-32, set./out LOFF, B. World Trade Organization wrestles with access to cheap drugs solution. Lancet, v.23, n.360, p , MAX, V. Wide range for pharma earnings. Chemical Engineering News, p.19-20, 15 Nov MCCOY, M. Generic drugs. Chemical Engineering News, p.23-35, 1 Apr Rev. FAE, Curitiba, v.9, n.1, p , jan./jun _Lucidio.p65 151

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