VINTE ANOS SEM QUINTANA EM HOMENAGEM AO DIA DAS MÃES, UM POEMA DO MESTRE QUINTANA. Florianópolis(SC) - Mar/ N Edições A ILHA - Ano XXXIII

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1 Florianópolis(SC) - Mar/ N Edições A ILHA - Ano XXXIII EM HOMENAGEM AO DIA DAS MÃES, UM POEMA DO MESTRE QUINTANA VINTE ANOS SEM QUINTANA Ainda nesta edição: - DULCE RODRIGUES: LITERATURA PORTUGUESA PARA O MUNDO - «GERAÇÃO DO DESERTO» - 50 ANOS - BBB E A EDUCAÇÃO BRASILEIRA

2 CIDADE HUMANIZADA Por Norma Bruno - Florianópolis, SC Há exatamente um ano, ao lançar um novo livro, decidi decorar o salão do Museu Histórico, no Palácio Cruz e Sousa, com árvores, em vez de flores. João Antônio, meu primeiro neto, chegaria em alguns meses e, como bem sabemos, criança combina com árvore. Comprei, então, duas belas arvorezinhas de cerca de setenta centímetros, uma ameixeira e uma jabuticabeira que, após o evento, seriam plantadas num terreno baldio que existe ao lado do meu prédio para acompanhar o crescimento do João Antônio. A ameixeira foi replantada, mas a jabuticabeira instalou-se num cantinho especial da minha varanda e não quis mais sair de lá. Assim seja! Quando o menino nasceu, enterrei o seu umbigo no vaso, junto à jabuticabeira, repetindo o gesto da minha bisavó. Com cuidado, carinho e boa adubação, as duas arvorezinhas estão crescendo faceiras e viçosas! Hoje, amanheci o dia com um vozerio no terreno ao lado e um entra e sai de caminhão. Eram operários descarregando maquinários e ferramentas para instalar uma "academia ao ar livre" como tantas que vêm sendo implantadas nas praças e terrenos baldios da nossa cidade, como parte do esforço da atual gestão para torná-la mais humana e amigável. A instalação atende uma reivindicação da vizinhança e já estava programada. Pedi que tivessem cuidado, pois um carro de apoio estava estacionado a meio metro de distância da arvorezinha. Passei o dia em alerta, preocupada com o entra e sai do caminhão que despejava areia e brita. Num dado momento, fui ao quarto me arrumar, precisava sair e, ao retornar à varanda, o susto: a ameixeira havia simplesmente desaparecido. Em seu lugar havia uma montanha de areia. Foi de propósito! Desci, indignada, apontando tamanha insensatez! Os caras se espalhando, tipo "não é 2 comigo!", então vi um sujeito com jeitão de chefe e parti pra cima. Perguntei se era o responsável - imagina se era! Ele nem me olhou, minimizou o erro dizendo que aquilo não ia estragar a árvore. Como não? Com o peso, a arvorezinha pendeu para o lado, totalmente coberta de poeira. Prometeu que tirariam a areia imediatamente. Realmente, enquanto conversávamos, um deles começou a escavar. Eram quinze horas e eu segui para o meu compromisso, pois estava atrasada. Voltei às dezenove e trinta. A pequena árvore continua soterrada. Humanizar a cidade não depende apenas do prefeito, nem de seus assessores. Ou se torna tarefa de cada um de nós ou nada feito!

3 A ILHA SUPLEMENTO LITERÁRIO Esta edição do Suplemento Literário A ILHA, de número 128, antecede a comemoração de mais um aniversário tanto da revista quanto do Grupo Literário A ILHA, que acontece em junho deste ano. Para junho, além da edição especial do Suplemento, pretendemos lançar um livro que talvez pudéssemos chamar de antologia, mas que trará biobibliografia, fortuna crítica e amostra da obra de autores catarinenses contemporâneos que passaram pelo Grupo A ILHA ou ainda estão nele. São trinta e quatro anos de divulgação da literatura catarinense e brasileira pelos quatro cantos do mundo, pois além de circular na versão impressa, esta revista está no nosso portal PROSA, POESIA & CIA., com a versão impressa em pdf, em Começamos bem o ano, com uma edição repleta de prosa e de poesia.poetas e prosadores brasileiros e portugueses e até de outros países estão aqui. Matérias sobre o aniversário da morte de Quintana, sobre o Salão Internacional do Livro de Genebra, Feira do Livro de Gotemburgo, na Suécia, Feira do Livro de Joinville e Feira do Livro de São José. O Suplemento Literário A ILHA continua a mudar a sua aparência, sua apresentação e esta edição traz mais alguns detalhes novos, como os textos em prosa em três colunas, para facilitar a leitura. Esperamos que o leitor esteja gostando da s novidades. Aguardamos a opinião de todos,pois devemos inaugurar uma seção de cartas. Boa leitura. O editor Visite o Portal PROSA, POESIA & CIA. do Grupo Literário A ILHA, na Internet, em 3

4 BÚDICA Júlio de Queiroz Florianópolis, SC Por pequeno, muros não lhe cerceiam a grandeza multiverde. No riachinho cimentado a água escorrega entre seixos. No pontilhão faz-de-conta, admiro a tenacidade do capim Se pavoneia a bananeira com seus cachos carmesins. Olho para o longo atrás cujas dores teceram esta solidão aquietada. Nem temo nem me apresso para os poucos passos que ainda tenho que caminhar. Talvez um pouco de curiosidade Quanto à bagagem que irá comigo. Calado, canto. Pronta Firme Atenta Como sentinela SENTINELA Apolônia Gastaldi - Ibirama, SC Pronto para entrar Está o ser estranho Funesto Fantasma definido como solidão A esperança monta guarda Na porta do meu coração Ele pulsa compassado Sem sobressalto Confiante Em tão boa ação Lá fora À espreita de um cochilo Guardo meu coração com sentinela E tudo Mas meu sangue jorra Como um furacão Não confie A passagem é curta E o amor não se guarda Na mão 4

5 PORQUE ESCREVO A MÃO Por Celestino Sachet - Florianópolis, SC Não sei porque escrevo. Ou, talvez, saiba e não consigo deixar por escrito. Vamos por partes. É pegar o pião lá, longe, bem longe, ainda no tempo da calça curta, na roça de Nova Veneza, local onde nasci, no quase extremo Sul de Santa Catarina, aos pés da Serra Geral, cujo trânsito para cima e para baixo só no lombo de mulas. Como eu tinha uma cabeça avantajada, quase desproporcional em relação ao corpo - testa grossa -, dizia o dialeto vêneto lá de casa, meus pais concluíram que eu deveria ser inteligente. E tinha que estudar fora do ninho quando terminasse o curso primário. Lembro-me que nessa escola de primeiras letras eu era bamba e tirava boas notas (quase sempre um dez, cá entre nós). Um coleguinha, também em dialeto, me dizia que eu tirava "dez" como se fosse água. Corria um riozinho ao lado da escola e a gente não entrava nele. Era proibido. Além do dez, eu caprichava na letra. Numa exposição de fim de ano onde os alunos expunham trabalhos e desenhos, a professora colocou minha prova final. Fiquei muito prosa. Afinal, minha letra estava bem bonitinha. Eu também caprichava em falar alto e bem pronunciado. Em consequência, deitava falação em qualquer solenidade, como na chegada do inspetor escolar, aniversário da escola, da professora, de um feriado solene como o Sete de Setembro e o Dez de Novembro, dia do Estado Novo de Getúlio Vargas. Um episódio interessante. Íamos descalços para a escola e nem sempre pés e pernas estavam lá muito asseados. Ainda me lembro da professora passando álcool no joelho, para não escandalizar a autoridade que estivesse me ouvindo. Quando vim estudar no Colégio Catarinense, aqui em Florianópolis, em 1945, comecei a escrever artigos para "O Colegial". Como não havia máquina de escrever, tinha que utilizar escrita manual para a redação editar o texto. O fato adoçava meu ego e meus escritos. E me desafiavam a escrever, a escrever. Lá pelos vinte anos, ainda interno no Catarinense, e sem máquina de escrever, comecei a publicar em jornais da Capital, entre eles O Estado e o Diário da Manhã. Este, aos domingos, colocava no alto da primeira página o 5 meu "A semana internacional". Só que tinha que assinar Itamaraty Leão. Todos os artigos, escritos a mão e bem legíveis: exigência do editor. Ah! Um detalhe que me escapou, ali em cima, quando falei dos meus anos de ensino fundamental: nos discursos de calça-curta, o texto era produzido pela professora. Mas eu o copiava, tudo bem redondinho para não me atrapalhar na hora da leitura. Hoje, ainda, passados tantos anos, a primeira redação de meus escritos e de meus livros é feita à mão. É que a palavra, para mim, é barro, que preciso dar corpo e alma ou, melhor, forma e conteúdo. Escrevo e risco; risco e escrevo, até que a palavra, olhando com carinho, me diga: - Chega de mexer comigo! Não vê que estou bonita? E estou dizendo aquilo que tu querias dizer!

6 LUA MULHER Karine Alves Ribeiro Gaspar, SC Nua, ela paira no negror celeste. Olha-nos com olhar lascivo. Tremor dos sensuais sentidos. Esparge em nós, homens o que há de mais bonito. Adentra-nos como um anjo prateado. Brinca com os nossos sonhos blindados. Transforma o frio da zero hora, em fervores de rouxinol. É ela, a mulher, Lua absoluta de nossos universos. Brancura de mãos hábeis de harpista. Dedilha as cordas destes equilibristas que desabam do bambo viver, direto ao chão, sem rede. Caso neguem-nos esse verde 6 que ilumina o nosso ser. Lua, brilhante, grande e cheia Traz-nos a mágica poção dos deuses, vem nos cobrir de amores lampejar nossos dissabores. Nuvens em gotas de flores cairão da noite mais fresca. Molharão os "terrões" mais brutos, para receber seus encantos absolutos de mulher. Lua dos poetas Amante, mãe e irmã, Mulher, insigne da natureza. Nossa fonte de vida e beleza, nosso píncaro de amor. (Dia Internacional da Mulher)

7 GERAÇÃO DO DESERTO - 50 ANOS Por Enéas Athanázio - Baln. Camboriú, SC Publicado em primeira edição no ano de 1964, pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, "Geração do Deserto", de autoria de Guido WilmarSassi, está completando 50 anos. Segundo a crítica, o livro não despertou na época o interesse que mereceria, talvez pela circunstância negativa de ter surgido num ano turbulento em que se implantava o regime autoritário no país e a tensão social reinante era grave. Aos poucos, porém, a obra se impôs, mereceu diversas edições, tem sido objeto de inúmeros estudos e foi adaptada para o cinema pelo cineasta Sylvio Back, em 1971, com o título de "A Guerra dos Pelados." O tempo fez justiça e compensou a frieza com que o livro foi recebido. "Geração do Deserto" é um romance histórico, o primeiro que surgiu sobre o Contestado, e que abriu os caminhos para as produções posteriores. Ainda que seja obra de ficção, os eventos e personagens mais significativos são reais, contracenando no mesmo plano com outros que foram criados pela fértil imaginação do ficcionista. Escrito em linguagem clara e direta, o romance descreve em linhas gerais tudo que aconteceu de importante durante o conflito que teve início em 1912 e perdurou até 1916, com passagens épicas mescladas com outras românticas, a pura violência e o amor verdadeiro. Transparece uma evidente simpatia do autor pelos seres anônimos, personagens sem história e sem importância, envolvidos pela guerra brutal que os cerca e orienta suas vidas por caminhos nem sempre desejados. Sabe pintá-los com ternura e emoção. O romance foi dividido com habilidade em quatro partes, cada uma delas focalizando os momentos decisivos da guerra. Assim, a primeira diz respeito a Irani, onde se feriu o encontro das tropas oficiais com os revoltosos co- 7 mandados pelo monge José Maria, ocasião em que tanto este como o coronel João Gualberto, comandante da força repressora, pereceram, fato surpreendente e que imprimiu ao conflito rumos totalmente inesperados. O combate fatídico aconteceu a 22 de outubro de 1912, embora os relatos registrem que o monge tudo fez para evitá-lo, iniciando-se aí a guerra até então esboçada. José Maria, o monge guerreiro, seria na verdade Miguel Lucena de Boaventura, desertor da Força Pública do Paraná, e que residia no distrito de Espinilho, no município de Campos Novos, onde se notabilizara como "remedieiro" de múltiplos recursos. Era um homem baixote e corpulento, retaco, de pernas e braços curtos, mas infundia respeito e admiração, sendo seguido sem pestanejar pelos fanáticos. As partes seguintes dizem respeito a Taquaruçu, Caraguatá e Santa Maria. Entre esses redutos e outros menores decorriam as incessantes hostilidades, cobrin-

8 do enorme extensão territorial. Os jagunços, conhecedores do terreno, praticavam uma guerra móvel, espécie de guerrilha, em que a surpresa das tocaias desnorteava o inimigo. Atiravam de cima das árvores, nos desfiladeiros estreitos, nos carreiros fundos, escondidos pelo mato e as baixas eram numerosas. Estimulados pela crença no retorno de José Maria, continuador do monge João Maria, os fanáticos lutavam como feras. Em suas almas toscas se misturavam o misticismo, as crenças e as superstições, o ódio aos paranaenses invasores, aos "americanos" (aí entendidos os funcionários da Lumber e das empresas colonizadoras) e aos "peludos" em geral e crepitava a esperança de um mundo melhor em que pudessem viver em paz nas suas terras sem que fossem incomodados pela Companhia Lumber e pela estrada de ferro. Mas a Guerra Santa, como todas as demais guerras, acabou em imensa tragédia. Corre então a notícia da rendição dos revoltosos. "Confirmada a notícia - escreveu o romancista, - a rendição aceita, começam a chegar as primeiras levas de jagunços. Gente aleijada, semimortos de fome, disenteria, tifo e varíola; a maioria velhos, mulheres e crianças. Pelo acampamento desfilou aquele ror de trôpegos, macilentos e esfomeados - o saldo de quatro anos de guerra" (p. 152). Mortos ou aprisionados os líderes, o movimento se extinguiu mas os acontecimentos marcaram para sempre a alma do sofrido povo da região. E Guido WilmarSassi, neste romance seminal, registrou como ninguém os percalços do maior movimento de insurgência civil da história nacional. MÃE Mário Quintana Mãe... São três letras apenas As desse nome bendito: Também o Céu tem três letras... E nelas cabe o infinito. Para louvar nossa mãe, Todo o bem que se disse Nunca há de ser tão grande Como o bem que ela nos quer... Palavra tão pequenina, Bem sabem os lábios meus Que és do tamanho do Céu E apenas menor que Deus! 8 RENASCIMENTO Luiz Carlos Amorim Florianópolis, SC Há um raio de luz nascendo no horizonte. Há um fio de esperança apontando o futuro. Há um resto de fé se multiplicando. É a vida ressurgindo, É a Páscoa do renascimento, do encontro da paz, da busca do amor, a comunhão com Deus

9 O BBB E A EDUCAÇÃO BRASILEIRA Por Luiz Carlos Amorim - Florianópolis, SC A pior coisa do início de ano é o tal de Big Brother Brasil. Só o fato de haver uma nova edição dessa coisa sofrível que chamam de reality show, já é um retrocesso. São mais de dez edições, atestando que, realmente, uma boa parte dos brasileiros faz questão de se revelar um povo subdesenvolvido, praticamente sem cultura nenhuma, ao absorver um programa de tão baixa qualidade. Felizmente há quem saiba escolher e opte por um programa não tão ruim da televisão, ou pela leitura de um livro, um bom filme, boa música, uma boa peça de teatro. Em outros países, a moda até passou, mas no Brasil, não. Há até quem assine um canal de TV paga que mostra a "atividade" na casa vinte e quatro por dia. E são milhares de assinantes. O tal Big Brother não tem nenhum ponto positivo e a cada edição fica pior. As piores qualidades dos participantes do "show" são valorizadas, para dar mais "ibope". Vale tudo: baixaria, mau caráter de uns e outros, até sexo. Numa das últimas edições, no entanto, não foi apenas sexo: um dos moradores da casa teria estuprado uma moradora, embaixo do edredom. Virou escândalo nacional e acabou exacerbando a curiosidade e até aqueles que não viam o malfadado programa, acabaram dando uma "espiada". O brasileiro precisa analisar melhor o que anda consumindo, precisa escolher melhor o seu tipo de lazer. Há que saber escolher o que ver na TV, há que se ler um bom livro, de vez em quando, estudar mais, fazer cursos para se encaixar melhor no mercado de trabalho e melhorar a renda. Precisamos gerenciar melhor o nosso tempo. Precisamos elevar o nosso nível de cultura. E não venham, por favor, me dizer que "não podemos fazer tudo isso porque somos pobres". Sempre podemos aprender mais. Precisamos, mais que tudo, que a qualidade da educação brasileira seja resgatada, para que coisas como esse BBB não seja mais sucesso em nosso país. Ainda bem que há quem abomine o tal BBB e sempre há a esperança de que esta seja a última edição. Que a cultura vença! EXPEDIENTE Suplemento Literário A ILHA - Edição Março/ Ano 33 Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA - Contato: lc.amorim.ig.com.br A ILHA na Internet: portal PROSA, POESIA & CIA. 9

10 O NÓ Marcos Antonio Meira São José, SC Desfeito o nó O contrato se perde Algo se altera Em mim Em nós Saio (quase) inteiro Saio outro Pronto Para... Um retrato em P & B Retardo: Um momento Um movimento Um dilema Um sim - talvez - através Atravesso A vidraça Oco - leitoso - janela - pro além O corpo Sangra E o sangue já não é mais teu Uma lágrima arranha o corpo E turva a visão Cego vagueio O tato Era eu Eras tu Não nos reinventamos? De cada lado (uma dor) E o vento leve E o vento leva O vento... Nuvens - brancas - nuvens Os passos no azul Pra longe - pra bem longe O que era Eu - Tu O que fica Eu - Só O que fica Só - Tu E uma saudade renasce Em cada primavera (tanto tempo!) EU Aracely Braz S.Francisco do Sul, SC Está escuro, muito escuro! Meus pés flutuam, minhas mãos acenam. Sigo num doce embalo sem dimensão nem lei. Só flutuo. Meu compasso é de acalento e paz. Não vejo passado, sou presente, viajante para um futuro que se aproxima e oferta um raio de luz. A luz fica mais forte, muito forte, muita luz, o raiar de um mundo novo, o mundo em que cheguei. Nasci. O AMOR ErnaPidner Ipatinga, MG À procura do amor Andei por terras distantes Em minha imaginação. Num deserto causticante Pés descalços, no caminho Um oásis de ternura. Prendi a respiração! Não era alí o lugar Em que o haveria de encontrar... O amor é muito mais Que uma simples ternura Levando a criatura A sublime bem querer, Nem somenos é paixão Pairando avassaladora Em alcovas sensuais... Amor é aurora de luz Lastro de ouro mais puro Das jazidas da emoção, Diamante lapidado Nos reveses da existência, Rocha de cristal sem falhas Visão cósmica centrada No canto alegre da cigarra Botão de rosa entreaberto noite estrelada, Sol ardente. O amor é simplesmente Sonata em dó maior; Canção de muito valor Na orquestra do Criador! Visite o Blog CRÔNCIA DO DIA, em Arte, cultura, litertura. Sempre um novo texto 10

11 DE VOLTA PARA CASA Por Wilson Gelbcke - Joinville, SC Na casa do grande fazendeiro, a fumaça branca saindo da chaminé anunciava um novo dia de trabalho. No entanto, aquele seria um dia diferente. Havia angústia em cada coração daquela gente agrupada no lado de fora. Lavradores e peões, mulheres e crianças, após uma noite de vigília pelo que pudesse acontecer ao neto do grande fazendeiro, esperavam por notícias. A porta da frente foi finalmente aberta e a avó de Pedro apareceu. Entre lágrimas e sorrisos, sem esconder a emoção, anunciou: - Pedro acordou! Pedro acordou! Meu neto está bem, graças ao bom Deus. Foi um só grito de alegria, entre vivas e urras. Os sinos do rancho passaram a repicar em todo o vale, como acontecia nos dias de festas. - Estás escutando, Pedro? - disse o avô, ao lado da cama. - Os sinos repicam por ti. Cabeça enfaixada e apoiada no travesseiro de paina, Pedro olhava em sua volta. Além do avô, ali estava também o lenhador Anacleto. - Foi Anacleto quem me trouxe, não foi, vovô? O avô balançou a cabeça e sorriu, maliciosamente. - Anacleto e suas histórias. Disse ter enfrentado mil duendes para te salvar. - Não eram tantos - retrucou o lenhador, devolvendo o sorriso. - Tens levado a sério histórias que venho te contando sobre Mitologia - continuou o avô. - Enquanto deliravas, repetias nomes mitológicos como Pênia e Poros... - Pênia e Poros! - exclamou Pedro. - Conte-me sobre eles, vovô. - Agora não, que precisas descansar. - Por favor, vovô. É muito importante. O avô levantou-se, foi até a estante e pegou um dos livros sobre mitologia. Folheou algumas páginas, voltou a sentar-se ao lado da cama e começou a ler em voz calma e macia: 11 - No Olimpo, os imortais banqueteavam-se em regozijo ao nascimento de Afrodite, a Vênus deusa do amor. Tudo era festa e alegria, onde o néctar abundante corria pelas taças douradas. Já no final do festim, surge à porta a figura andrajosa da esquálida Pênia, a Pobreza a mendigar as sobras do banquete. Ela se dirigia à mesa quando deslumbrou a figura de Poros, o Recurso. Embriagado pelo excesso de néctar, Poros caminha para o jardim de Zeus, onde se deita e cai em sono profundo. A Pobreza, que vivia à cata de recursos, cautelosamente, deita-se junto a Poros e abraça-o. Despertao e concebe o filho desejado: Eros! - Eros? - indagou Pedro, esforçando-se por levantar a cabeça. - Não é ele o Amor? O avô sorriu e tomos as mãos de Pedro entre as suas. - Pobreza e Recurso geram o Amor. - Bom Deus - exclamou Pedro, não contendo a alegria. - O País da Miopia está salvo! - Do que estás falando, Pedro? - Oh, não se preocupe, vovô. Apenas um sonho. Um sonho maravilhoso sobre um país tão... Tão diferente do

12 nosso. - Bem pesado era o galho da sapucaia que te atingiu a cabeça. - Bordões são feitos do mais duro ipê - retrucou Anacleto. - Histórias - disse o avô, sorrindo. - Tuas férias chegaram ao fim. Logo voltarás à cidade, aos teus pais e aos estudos. Espero tê-lo de volta no próximo ano. Terás então, treze anos. Já não haverá nessa cabecinha tantas fantasias, tantos sonhos e tantos duendes na floresta. Deixarás de pensar como criança e, certamente, começarás a te interessar pelos problemas dos adultos. Só então verás como eles são confusos, atrapalhados e tão míopes quando desnudos. - Nada que bons óculos não resolvam, vovô. O avô olhou para Pedro, levantou-se e recolocou o livro na estante. Sorriu, cheio de indagações. - Lá se vão oitenta nos, querido neto. A cada dia que passa, uma nova surpresa ou um novo desafio se me apresenta - disse o avô, mostrando a Pedro uma moeda de ouro. - Há milênios, os homens estão sempre a questionar: O que é a Verdade? Onde está a Justiça? Poucos estão preparados para jogar seus juramentos na Fonte da Sinceridade. A propósito, Pedro, como podes me explicar essa moeda tão antiga em teu bolso? (Capítulo final de Esses Duendes tão Míopes ) UM VENTO PERDIDO Rosângela Borges - México Era um vento encantado. Desses que caminham por ruas, por mares e telhados. Um vento sem asas, sem pés, sem nada. Desses quelevam poeira, destinos e risadas. Era um vento apaixonado. Dessesque trazem qualquer cantoria, uma chuva, uma agonia! Um vento armado, louco, gelado. Desses que lembram beijos, cabelose abraços. Era um vento perdido. Desses que assobiam salsa, rock, valsa! Um vento qualquer, Um vento mal-me-quer Um vento inimigo. Desses sem par, sem perdão, 12 sem razão. Era um vento desafinado. Um vento feliz. Sem casa, sem praça, sem raiz. Um vento jovem, corajoso, Sem sonhos, sem ilusão, Um vento de imitação! Era um vento vagabundo, Um vento cantor, Solto no mundo! Um vento descabelado, estacionado. Um vento bendito, perdido, desbotado. Um vento sem boca,desbocado! Um vento devagar, a divagar, Um vento poeta, de alma inquieta Um vento coitado, sem sorte, sem azar, Que tudo o que queria Dessa soprada vida, Era fazer outras coisas Além de respirar!

13 RELEITURAS Por Célia Biscaia Veiga - Joinville, SC Tenho o hábito de reler livros. Às vezes sou criticada por isso: "podia estar lendo um outro livro", "qual a graça de ler algo que você já sabe como vai terminar", "não faz nem um ano que você leu, nem dá pra dizer que é pra ter uma opinião diferente como se fosse um livro lido na adolescência", e por aí vai... Mas eu não me importo. Tem livro que reli umas dez vezes e que sempre me emocionam ou me fazem rir tanto quanto o fizeram na primeira vez que li, ou às vezes até mais, justamente por saber comovai terminar. Não é qualquer livro, naturalmente, são aqueles que, de alguma forma tocam o meu íntimo e sempre "me dizem" algo que estou precisando no momento. Sendo uma leitora compulsiva, geralmente leio dois ou três livros ao mesmo tempo: um livro de estudo, que requer reflexão, um de literatura que esteja lendo pela primeira vez, e outro que estou relendo. A escolha pelo livro que vou reler geralmente tem relação com o meu estado de espírito: se estou triste, com vontade de chorar mas não estou conseguindo, vou pegar um livro que vai me fazer debulhar lágrimas antecipadas já antes de chegar ao final dramático. Se estou ansiosa e sei que a ansiedade vai durar um bom tempo, quando estou esperando um fato ocorrer, começo a ler alguma coleção para ter vários livros em sequencia para aplacar a ansiedade. Se quero rir, já sei também quais os livros que me farão gargalhar à simples chegada do personagem que será o mais engraçado, antes mesmo de começar a graça. Nem por isso deixo de ler novos livros, pois anovidade também é maravilhosa, e alguns desses novos livros irão também ficar na minha lista para releitura posterior. Costumo classificar os livros em quatro grupos: aqueles que chamam você, que você só para de ler se tem outra coisa inadiável, mas enquanto não está lendo está pensando em como vai continuar, e são esses que passam para a minha lista de futuras releituras; aqueles que prendem sua atenção enquanto você está lendo, mas se parar você esquece dele até poder pegá-lo novamente, esses geralmente leio uma vez só; aqueles que se arrastam e você só continua lendo para ver se vai melhorar, 13 também lidos só uma vez; e finalmente aqueles que você começa a ler e descobre que tem muitas outras coisas mais interessantes para fazer do que perder seu tempo lendo-o, esses nem são lidos até o final. Essa classificação atende ao meu gosto pessoal e não a modismos, best-sellers, autores consagrados. Não descarto nenhum tipo de livro desde que se enquadre nos meus três primeiros grupos. Muitas vezes um autor desconhecido passa para a minha lista de releitura enquanto um autor consagrado se enquadra no último grupo. E à medida que vou lendo novos livros, mais livros vão fazendo parte dos livros que eu vou reler, mesmo recebendo críticas das pessoas mais chegadas. Cada louca com a sua mania...

14 ECO 2 Harry Wiese Ibirama - SC Ouço o murmúrio dos matagais, Sopro da ventania comportada. O enlevo exposto aos ventos Traz dos pássaros escondidos os cantos. O que tem a dizer a música da selva? Decifro suas insígnias insculpidas nas ondas do além E não entendo a mensagem codificada. Então, curvo-me diante da magnificência natural E torno-me ébrio de amor e sábio de esperança. Ainda hei de entender a grã-essência da selva Com seus desígnios e tendências fugais. O que está além Que venha sempre com o murmúrio do vento! REVISÃO DE TEXTOS Não deixe seu texto ser publicado com erros. Faço revisão e copy desk. Livros, revistas, jornais, TCCs, etc. FEIRA DO LIVRO DE GOTEMBURGO NA SUÉCIA Depois de Frankfurt em 2013 e Bolonha em 2014, o Brasil será destaque em mais uma feira de livros na Europa: a literatura brasileira será o tema da Feira Internacional do Livro de Gotemburgo, na Suécia, em O Brasil será homenageado neste grande evento, este ano, na Suécia. Nosso país será o foco das atenções. O país estará presentes na Feira do Livro de Gotemburgo, na Suécia, de 25 a 28 de setembro de 2014 tendo como prioridade divulgar o autor brasileiro, sua obra e nossa cultura. As coordenadoras do STAND BRASIL MÁGICO, Caroline Axelsson e Jô Ramos, convidam os autores brasileiros para participarem desta grande festa. O stand levará autores de língua portuguesa com livros em português e/ou traduzidos para outras línguas. Revisões conforme a reforma ortográfica recente Consulte nossos preços. Contato: 14

15 Dulce Rodrigues é autora premiada na Europa e nos Estados Unidos. Dulce Rodrigues escreveu seis livros infanto-juvenis e dois livros de viagem. Fala seis línguas vivas e é tradutora dos seus próprios livros. Natural de Lisboa, cidade que a viu crescer e onde fez um curso universitário em Letras e Literaturas, viu-se atribuir mais tarde uma bolsa de estudos pelo Goethe-Institut na Alemanha e uma outra para um curso cientifico com a Open University no Reino Unido, o que a levou a viver em vários países da Europa. Depois de uma carreira profissional como tradutora de inglês e alemão junto das Forças Militares Norte-Americanas na Alemanha, e como funcionária internacional da OTAN, organização de que se encontra aposentada, divide agora o seu tempo entre as viagens de afecto e de recreio e os livros - como leitora e como autora, sobretudo para crianças, para as quais criou também o projecto (em quatro línguas). É apaixonada por História, em especial a riquíssima História de Portugal, de que tem feito tema das suas conferências e de artigos publicados em jornais e revistas. Gosta também de jardinagem, fotografia, arte, música e animais. Visite-a em DULCE RODRIGUES: SUCESSO LITERÁRIO PELO MUNDO Há sempre umprimeiro momento para tudo o que fazemos na vida, e gostaria de partilhar convosco como tudo se conjugou para que eu escrevesse o meu primeiro livro infanto-juvenil. Estávamos em Janeiro de 1999, eu tinha ido buscar o meu cão Barry que ficara no canil durante as nossas férias de Natal a Portugal e, nessa altura, veio-me à ideia escrever um livro infantil contando estórias de alguns dos meus animais de companhia ao longo dos anos. Surgiu assim "L'Aventure de Barry", e tudo começou em 2000, pouco tempo depois da publicação desse meu primeiro livro para crianças, quando tomei conhecimento com o Service du Livre Luxembourgeois. Esta entidade cultural belga encarrega-se, desde essa altura, da distribuição e venda de todos os meus livros infanto-juvenis, em francês e português na Bélgica, recentemente também em inglês. Ao longo destes anos, tantas coisas aconteceram, tantos outros li- 15

16 vros publicados! E através desse percurso, quantas belas amizades se foram forjando! Seria longa a lista de todos esses belos acontecimentos da minha carreira de escritora, por isso, começarei por mencionar os salões ou feiras do livro ou mesas-redondas e fóruns onde tenho estado presente, em alguns casos por mais do que uma ocasião: Alemanha (Saarbruecken, Frankfurt/ Main), Bélgica (Bruxelas, Musson, Bastogne, Athus, Namur, Paliseul, Ligny, Arlon, Aubange, Libramont, Virton), França (Paris, Thionville, Longwy, Oloron), Luxemburgo (Luxembourg-ville, Kirchberg, Walferdange), Portugal (Lisboa). Suíça (Genebra) E, como não podia deixar de ser, nas actividades que mais alegria me proporcionam estão as visitas a bibliotecas e, sobretudo, às escolas: Longwy e Oloron, em França; Bruxelas, Arlon, Weyler e St. Hubert, na Bélgica; Luxembourgville, Esch-sur-Alzette, Wiltz e escola europeia, no Luxemburgo; Saarbruecken, na Alemanha; Tismana, na Roménia; Bombaim, na Índia; Carcavelos e Santarém, em Portugal. Quanto a prêmios literários, embora não sejam dos mais prestigiosos do mundo, têm sido um reconhecimento gratificando e carinhoso do meu trabalho: Troféu euopeu, primeiros e segundos prémios e menções honrosas atribuídos pelo Centre Européen pour la Promotion des Arts et des Lettres, em França (2003 e 2013). Terceiro prémio atribuído pelo Cercle International d'expression Littéraire et Artistique (2004). Menção honrosa atribuída no Hollywood Book Festival (2013). Menção honrosa atribuída no London Book Festival (2014). E porque a História é também uma das minhas paixões, em especial a riquíssima História de Portugal, tive o prazer de ser convidada para dar conferências no Luxemburgo, na Bélgica, na França e em Portugal, tendo os temas sido até agora: "Les Découvertes Maritimes Portugaises", "Camões, Prince des Poètes", "Le Cheval lusitanien, fils du Vent", "A União Europeia", "Éthiopie - Sur les traces de l'héritage portugais au pays du Prêtre Jean". Dulce é representante do Grupo Literário A ILHA na Bélgica. 16 BOLINHAS DE SABÃO Maria de Fátima B. Michels Laguna, SC Quão leves são! E bem coloridas faço trezentas já num minuto! Mas pelo espaço, elas se vão... E se houver brisa da bem suave, até viajam um bocadinho mas tais bolhinhas são como eu: Deixam de ser... bem ligeirinho Tudo é igual aqui no mundo a uma bolhinha bem delicada Não se demore Não se distraia apenas olhe e se permita Seja bem leve e compreenda: Ser bolhinha? é nossa lida! E estar humano, é tão ligeiro Nosso destino? Ser meteoro! É tão depressa que a gente brilha É num repente, que a gente finda. E por ser tão breve esta nossa vida, use seu tempo só pra me olhar dizendo sempre que me assoprar Linda! linda! Ela é tão liiiinnnnda!

17 ANTES DE TUDO Jacqueline Aisenman Genebra, Suiça Antes tarde bem tarde, ou mesmo nunca, por favor... Porque hoje estou ocupada em refazer tudo o que em mim se desfez tentando ser o que jamais seria... Se não tivesse perdido tanto tempo, tanto sangue e água, sentada numa estrada que não tinha retorno. Jacqueline é editora e coordenador do Varal do Brasil, que divulga escritores da língua portuguesa desde Genebra. ARTES DO SACI Clarice Villalc Campinas, SP Sacisperto quis chamar uma chuva criadeira - ficou dando cambalhotas e plantando bananeira pra acordar o deus Tupã, chover hoje e amanhã, reviver a cachoeira! 17

18 CARTA A UM MENINO DO IRAQUE Teresinka Pereira Estados Unidos Os doces de Páscoa que te oferecem os soldados estrangeiros contém um perigoso veneno de propaganda de guerra. São como as contas brilhantes que os cristãos ofereciam aos indígenas, enquanto lhes roubavam o ouro e as terras. Não comas dessa oferenda de Páscoa, nem chores por essa ferida que te fizeram ao estalar milhares de bombas sobre a tua casa, sobre a tua mãe. Não comas esse caramelo porque por ele talvez estejas tomando em comunhão a carne de teu pai, torturado e morto em prisão, acusado de terrorista pela culpa de ser homem e porque se determinou a proteger-te. VARAL ANTOLÓGICO Basilina Pereira A finalidade de um varal é encontrar seu espaço sob o sol, onde ele possa colher a luz dourada da vida, para reparti-la com aqueles, que por qualquer motivo, estejam envoltos em sombras. Assim tem sido o Varal do Brasil nesses quatro anos de existência: capta a luz que emana do íntimo dos poetas e escritores, plantados em qualquer lugar onde reine a paz e a alegria, e estende na cordilheira dos sonhos, para que a poesia possa voar cada vez mais alto e chegar o mais longe possível. Como um rio que nasce pequeno e segue amealhando acréscimos, assim tem sido o Varal: tem Jackeline Aisenman na direção, com seu carisma, simpatia e competência vem agregando muitos talentos e suas conquistas têm sido motivo de orgulho e alegria para todos os que dele participam, uma prova incontestável de que a cultura atravessa fronteiras e aproxima aqueles que comungam do mesmo sentimento. Não comas as mentiras do invasor que diz estar matando teu povo no Iraque para defender a sua família nos Estados Unidos. Abre os teus olhos e levanta a cabeça: não te enganes com os falsos coelhinhos da Páscoa. 18

19 Hoje, de novo, saí em busca do passado. Subi a pequena encosta que leva à Igreja Luterana segurando na mão o coração tremeluzente de densa saudade. Estivera lá em cima diversas vezes nas últimas décadas - afinal, sempre alguém se casa, ou morre, ou se batiza, e há os túmulos dos antepassados - mas sempre subi com os olhos e o coração fechados para a emoção, sempre passei de raspão, sem querer olhar, sem querer lembrar - mas hoje fui lá especialmente para ver. Fiz os cálculos: mais ou menos aqui se estacionava o carro. Ali embaixo era pasto, e quando chovia muito, ficava tudo inundado, e depois vinha o sol e naquela água parada se refletia o azul do céu e as nuvens vogando livres... E veio a lembrança da liberdade ali, lugar onde ninguém passava em dia de trabalho, abrigo certo e perfeito para quem estava tão, mas tão, mas tão apaixonado quanto nós. Era como se a ternura e o carinho não tivessem ido embora e pairassem por ali, em girândolas coloridas, e até agora, tarde da noite, ainda estou em dúvida se as girândolas estavam ou se foi só produto da minha imaginação. REVIVENDO - II Por Urda Alice Klueger - Blumenau, SC Desviando um pouquinho o olhar, tinha sido o campo de futebol, Palmeiras Esporte Clube, e entre uma coisa e outra, a rua estreita e tortuosa, a única que havia então. Tudo mudou; a rua se multiplicou em diversas pistas lotadas de carros em movimento, e já não há campo de futebol nem nada é mais como foi: a paisagem está suja de uma imensidade de prédios e prediozinhos, um deles de vidros tão espelhados que parece que nem existe, e a gente só o descobre porque espelha aquela paisagem borrada que parece ter nascido do sonho de um pintor louco. Tudo mudou mesmo: coisas como grandes supermer- 19 cados enchem a base do morro, e a encosta, que tivera elegante fileira de azaleias que juntos vimos florir por toda uma primavera, agora está coalhada por aqueles arbustos e outras coisas, como moitas de taquaras. Mais uma vez olhei para as árvores: qual delas estivera ali naquela época, qual nascera depois, haveria testemunhas dos tempos que amor tão grande ali vinha se abrigar à sombra da igreja? Uma placa indicou-me duas palmeiras que ali estavam desde o século XIX - portanto, havia testemunhos

20 vivos daqueles tempos tão maravilhosos que até parece que foram só de sonho... Indagava-me que outras plantas de então estariam ainda vivas, e então apareceu o zelador do local e conversei com ele, que sabia com exatidão que aquela árvore tinha 27 anos e coisas assim - pude tirar uma medida de quem ali estivera naquele tempo do nosso tempo e, enquanto conversava com o zelador, cumprimentava silenciosamente as velhas testemunhas Não lembro mais quando ela o trouxe para casa. Foi numa das suas tantas crises existenciais, com direito a choro convulsivo, mania de perseguição, enxurradas de cerveja e quilos de cigarros nos cinzeiros. - Preciso dele - pediu, num sussurro, olhos inchados e mãos trêmulas. Mamãe deixou. Aliás, mamãe sempre entrava bonito na dela. E começou uma nova e quase pacífica coabitação na família. Saíam para passear na maior felicidade e ela mesma preparava a comida dele, para não dar trabalho a ninguém. De manhã, ele ia para a cama dela e ficavam de costas um para o outro, brincando de se empurrar para ver daqueles momentos que pensava que estavam perdidos lá no passado. Foi então... Como então, o sino das seis da tarde começou a tocar, o mesmo sino lá das lonjuras do tempo, aquele sino que anunciava seu carro subindo outro morro para me buscar no serviço, aquele sino que ouvíamos ali... Eu mal podia crer que aquele sino ainda existia e continuava tocando, e cada badalada dele batia na minha alma como uma flecha, e de novo era primavera, as azaleias estavam floridas e você usava aquela camisa de tergal branco e eu podia me abrigar, de novo, junto ao seu peito, e sentir seu aroma bom de limpeza e de Pinho Campos do Jordão, do qual guardo um frasco faz mais de quarenta anos... Então, chorei, mesmo que o zelador achasse estranho. O amor é assim... Não há como explicar... TAL E QUAL Por Mary Bastian - Joinville, SC quem conquistava mais espaço. Ela o beijava e ele olhava de olho comprido. - Não sei o que seria de mim sem você - ela costumava dizer e ele apoiava a cabeça no colo dela. - Estão ficando cada vez mais parecidos - zombava a empregada, e minha irmã olhava para ela com desprezo: - O que te falta é alguém para amar - retrucava e saía da cozinha. Mas era verdade e a empregada foi a única com coragem de dizer. Ela estava obcecada pelo bem-estar dele. Não admitia que ninguém fosse indiferente, muito menos desagradável com a criatura que estava cada vez mais abusada, mas minha irmã achava que todo mun- 20 do deveria amá-lo como ela o amava e não permitia interferências na relação. Nós já nem ligávamos para tanta esquisitice e dávamos graças por ela andar tão sossegada. Até que um dia chegou uma visita com um menino terrível, mal educado, mexendo em tudo que via. Minha irmã e sua paixão estavam bem juntinhos, sentados no sofá, seu lugar cativo, quando o guri resolveu que ali era o melhor lugar da casa e deu um empurrão na criatura, no melhor estilo "dá o fora". Não deu tempo para nada: corremos todos para segurar o cachorro para que não avançasse na criança, quando ouvimos minha irmã rosnar, latir e dar uma dentada na perna do guri.

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