AGRICULTURA URBANA E PERI-URBANA EM CAMPINAS: subsídios para políticas públicas

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1 AGRICULTURA URBANA E PERI-URBANA EM CAMPINAS: subsídios para políticas públicas Juliana Arruda CPF Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Engenharia Agrícola R: Mac Hardy, 178, B. Jd Nª Srª Auxiliadora. Campinas-SP CEP Nilson Antonio Modesto Arraes CPF Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Engenharia Agrícola R: Proença, 557, aptº 24, B. Bosque. Campinas-SP CEP Instituições e Organizações na Agricultura Apresentação oral com debatedor Trabalho baseado em dissertação de mestrado em andamento 1

2 AGRICULTURA URBANA E PERI-URBANA EM CAMPINAS: subsídios para políticas públicas 1 Resumo A presente pesquisa está em andamento e trata da obtenção e análise de informações para subsidiar ações de políticas públicas, mais precisamente em relação à temática da agricultura urbana e peri-urbana (AUP). O objetivo desta dissertação é identificar as características dos produtores e dos sistemas de agricultura urbana e peri-urbana, as quais acontecem formalmente (ONG s, instituições ou órgãos governamentais). Ou não (sem a intervenção ou estímulo de um agente externo), para subsidiar programas de promoção da AUP. O projeto está focado nas hortas comunitárias, as quais, são uma entre várias modalidades de cultivo relacionadas à AUP. Serão estudadas 4 hortas comunitárias do município de Campinas, com aproximadamente 70 famílias envolvidas. Destas, 2 fazem parte do Programa de Hortas Comunitárias da prefeitura e localizam-se nos bairros Parque Itajaí e Santa Liliza, 1 é subsidiada pela ONG Plantando Paz na Terra no bairro Vila Brandina e 1 é mantida em funcionamento por uma associação de moradores no bairro Real Parque. Espera-se com esta dissertação gerar informações referentes às características e à qualidade dos solos e da água utilizados nas hortas; e levantar a natureza das demandas dos horticultores urbanos. PALAVRAS-CHAVE: Agricultura urbana, Políticas públicas, Desenvolvimento Social. 1 Este trabalho está sendo realizado com o apoio financeiro da CAPES e do FAEPEX/Unicamp 2

3 AGRICULTURA URBANA E PERI-URBANA EM CAMPINAS: subsídios para políticas públicas 1. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA A agricultura urbana contemporânea reafirma-se como um fator permanente nos processos de desenvolvimento sustentável das pessoas e da sociedade. As cidades recebem grandes migrações de famílias e pessoas oriundas do meio rural sem ter as condições apropriadas para satisfazer as suas necessidades básicas. Assim, pode-se afirmar que os centros urbanos não respondem a suas necessidades sócio-culturais e de qualidade de vida. Inconvenientemente as cidades e os seus sistemas econômicos não conseguem absorver esta mão-de-obra que, quase sempre, só conhece o trabalho agrícola. A qualidade de vida urbana inclui níveis de subsistência biológica, busca de oportunidades sociais de desenvolvimento e de realização cultural. Uma vez estabelecidas de maneira traumática nas cidades, as famílias antes rurais sofrem um processo de erosão de seus saberes e de transformação de costumes alimentares (BELTRAN,1994). As sucessivas revoluções industriais e o crescente e intenso processo de urbanização do Planeta geraram a separação funcional do campo e da cidade e provocaram a exclusão social rural. Neste processo histórico, a maioria das famílias que migraram das zonas rurais perdeu a relação com a natureza. No entanto, nos países em desenvolvimento, os vegetais e os animais continuaram a ser produzidos ou criados nas áreas urbanas (UNDP, 1996). A Agricultura Urbana e Peri-urbana (AUP) vêm ganhando destaque no cenário nacional e mundial e já começa a ser introduzida na agenda política de diversas cidades. De acordo com MADALENO (2001), este não é um fenômeno novo nas cidades e atualmente está sendo considerado cada vez mais como parte integral da gestão urbana, sendo uma estratégia para a diminuição da pobreza, geração de renda e empregos e o manejo ambiental. No entanto, dados sobre este tipo de agricultura ainda são escassos; o que dificulta sua implementação. Atualmente existem alguns grupos e instituições produzindo informações sobre o assunto, entre eles o Union Nation Development Program 2 -UNDP (1996) e The Urban Agriculture Network 3 -TUAN (1999), documentando práticas de AUP em mais de 20 países da Ásia, África e América Latina. Tabela 1. Estimativa global do nível de atividade da agrícola urbana contemporânea, baseada em dados de 1993 (SMIT, 1996). População mundial engajada na atividade 800 milhões Fazendeiros produzindo e comercializando no mundo 200 milhões Empregos* mundiais gerados na produção e processamento 150 milhões Dados Significância global Participantes: 15% a 70% de famílias (famílias urbanas) Cerca de um terço de famílias urbanas Produção: 10% a 90% do consumo (vegetais, ovos, Cerca de um terço do consumo peixe) Terra usada: 20% a 60% de área urbana (terra com uso Acima de um terço das regiões agrícola) urbanas * Atual emprego ou atividades não equivalentes 2 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. 3 Rede de Agricultura Urbana. 3

4 Em relação à tabela acima, os dados referentes ao número de participantes, à produção e à terra usada possuem uma grande variação por levarem em consideração experiências de regiões diferentes, assim, em alguns locais a agricultura urbana tem significância maior do que em outros. Apesar dos dados apresentados acima, em muitos locais este tipo de agricultura não é incorporado aos processos de gestão urbana e até é proibido. Isso se deve à falta de informações sobre o que é a AUP e como ela pode ser inserida no planejamento urbano, levando em conta as características locais e dados que possam subsidiar a formulação de políticas públicas específicas a esta atividade. A agricultura urbana é realizada em pequenas áreas dentro de uma cidade, ou nas suas imediações (peri-urbana), destinada à produção de cultivos para utilização e consumo próprio ou para a venda em pequena e média escala em mercados locais. Difere em alguns aspectos da agricultura tradicional rural, em relação à restrita área disponível; à escassez de conhecimentos técnicos por parte dos envolvidos e, freqüentemente, não há dedicação exclusiva dos produtores urbanos (ROESE, 2004). As atividades da AUP podem ocupar as áreas dos vazios urbanos, mas são marginais frente à construção de moradias. Por este motivo é preciso deixar claro quais objetivos se quer alcançar quando iniciada esta atividade. Segundo BAKKER et al. (2000), as intervenções municipais devem estar vinculadas a objetivos de desenvolvimento específicos. Como por exemplo, assegurar a alimentação de populações carentes, gerar emprego e renda, promover a reciclagem de materiais, entre outros. A AU é uma resposta às crises econômicas e tem impactos positivos para a manutenção familiar, renda complementar, emprego, desenvolvimento da economia local, estímulo a micro-empresas relacionadas com insumos, transformação e comercialização de produtos (DRESCHER, 2001). A agricultura urbana assume diversos formatos e dentre eles destacam-se as hortas comunitárias. As hortas comunitárias inserem-se na modalidade de cultivo horticultura, as hortas podem ser cultivadas individualmente (hortas domésticas), nas escolas (hortas escolares), coletivamente (hortas comunitárias) e comercialmente. Cada uma destas formas de cultivar relaciona-se a objetivos específicos, no entanto, neste trabalho, iremos abordar apenas as hortas comunitárias. As hortas comunitárias normalmente são mantidas por um grupo de pessoas da mesma comunidade. Este modelo de cultivo de verduras e legumes também é conhecido como horta coletiva. Em geral, as hortas comunitárias são instaladas em áreas urbanas ociosas (públicas e particulares), usadas para o cultivo de hortaliças, plantas medicinais, produção de mudas, leguminosas, frutas e outros alimentos e sua produção abastece famílias que moram perto destes terrenos. As hortas comunitárias surgem de um processo comunitário, que define as atividades que serão desenvolvidas na horta. A gestão das hortas comunitárias incorpora a participação ativa da comunidade, responsável pela administração e manejo das mesmas, e, eventualmente, com o acompanhamento técnico e fiscalização do poder público. No Brasil existem vários projetos de hortas comunitárias para complementar a alimentação e auxiliar na educação ambiental de famílias carentes. Um deles, que anualmente beneficia cerca de 30 mil pessoas, é o programa: "Hortas Comunitárias" de São Paulo, que tem contribuído para a diminuição da exclusão social por meio da organização comunitária e do cooperativismo (PROGRAMA FOME ZERO, 2003). Em Campinas/SP, em 2004, a administração municipal iniciou a implementação de um Programa de Hortas Comunitárias. Este programa buscou estimular e dar apoio à criação de novas hortas comunitárias no município. No entanto, o programa não foi precedido de 4

5 um diagnóstico da agricultura urbana já praticada e de suas necessidades. Buscando subsidiar a inversão na direção da formulação da política de origem governamental para uma origem a partir das demandas sociais, este trabalho busca diagnosticar as hortas comunitárias presentes no município e suas demandas ao poder público. Diante deste desafio surgiram questionamentos específicos na medida que era preciso estudar o sistema de horticultura urbana e ao mesmo tempo, buscar uma ferramenta de que considerasse as diversas naturezas dos dados levantados (qualitativos, quantitativos, primários e secundários). O primeiro questionamento diz respeito à procura de uma metodologia adequada para estudar um conjunto de dados muito variados com enfoque nas seguintes dimensões de sustentabilidade: sócio-cultural, econômica, técnico-agronômica, ecológico-ambiental e político-institucional, que foram escolhidas a luz do referencial teórico. O segundo é referente à dificuldade de conceituar as áreas em urbanas e peri-urbanas. O terceiro está relacionado à forma como os horticultores urbanos de Campinas têm implementado a AUP, quais estratégias têm sido utilizadas, quais limitações possuem, qual é o perfil destes produtores e de que forma o poder público poderia auxiliá-los. 2. OBJETIVOS OBJETIVO GERAL Gerar informações sobre a agricultura urbana e peri-urbana com enfoque nas hortas comunitárias do município de Campinas, com vistas a subsidiar a formulação de políticas públicas. OBJETIVOS ESPECÍFICOS Identificar as características sócio-culturais, econômicas e o envolvimento políticoinstitucional dos produtores urbanos das hortas comunitárias; Identificar as demandas dos horticultores urbanos. Identificar as características ecológico-ambientais e técnico-agronômicas desses sistemas de produção; 3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA AGRICULTURA URBANA, AGRICULTURA RURAL E PERI-URBANA A diferenciação entre a agricultura urbana e agricultura rural basicamente relacionam-se ao espaço em que elas ocorrem, ou seja, a agricultura urbana ocorre dentro do perímetro urbano, definido em lei municipal, e a agricultura rural ocorre externamente ao perímetro urbano. Em relação ao conceito de agricultura peri-urbana ainda há uma indefinição, uma vez que tanto esta agricultura pode ser relacionada ao espaço urbano não consolidado, como ao espaço rural próximo a áreas urbanas. Os autores ADAM (1999) e MOUGEOT (2000) além de relacionarem as agriculturas urbana e peri-urbana com a sua localização utilizam ainda, para a sua diferenciação, os tipos de atividade econômica; tipos de áreas onde ela é praticada; sua escala e sistema de produção; as categorias e subcategorias de produtos (alimentícios e não alimentícios); e a destinação dos produtos, inclusive sua comercialização. Na Tabela 2 abaixo, estão descritas algumas características principais que diferenciam a agricultura rural das agriculturas urbana e peri-urbana. 5

6 Tabela 2. Comparação entre a agricultura rural e urbana/peri-urbana, baseada em CAMPILAN et al. (2002) e TERRILE et al. (2000). Características Agricultura rural Agricultura urbana/peri-urbana Tipo de exploração agrícola A agricultura como forma de vida Convencional, normalmente extensiva Agricultura é o principal modo de vida, participam de tempo integral Diferente da convencional, móvel e transitória; parcialmente sobre a terra ou sem a posse da terra, normalmente intensiva A agricultura é freqüentemente uma atividade secundária, envolvidos parcialmente Identidade do agricultor Perfil da comunidade Ponto de vista dos participantes a respeito da importância da agricultura Contexto político, social, econômico e cultural Uso da terra Usualmente já nascem agricultores A maioria dos membros da comunidade participa na agricultura Geralmente a apóiam Mais homogêneo Geralmente estável para agricultura Principiantes, agricultores de tempo parcial, em parte migrantes de zonas rurais, gente dedicada por passa-tempo A porcentagem de membros da comunidade que participa na agricultura é muito variável Pontos de vistas diversos Mais heterogêneo Competem no uso da terra (agrícola e nãoagrícola) Calendário de cultivos Segundo a estação Cultivos todo o ano Segurança da disponibilidade de terra para cultivar Terrenos onde se produz Relativamente alta Próprios, de extensão média a grandes Relativamente baixa Custo de mão de obra Relativamente baixo Relativamente alto Baldios, cedidos ou domicílio próprio Acesso mercados/insumos a Geralmente longe dos mercados Perto dos mercados, favorável para cultivos/produtos perecíveis Destino dos produtos Para exportação Autoconsumo ou regional Disponibilidade de serviços de investigação e extensão Apoio político Bastante prováveis Alta prioridade na agenda política Intervenção municipal Baixa ou nula Alta Pouco prováveis Misto, com freqüência políticas vagas ou inexistentes Apesar da existência de várias diferenças e limitações a cada tipo de agricultura, alguns pontos são necessariamente importantes para ambas, como o incentivo de pesquisas para o seu melhor desenvolvimento, o investimento governamental em qualificação dos produtores, profissionais da área e os cuidados sanitários na produção e processamento. Tanto para a prática da AUP, como na agricultura rural, são necessários muitos cuidados, principalmente em relação à água utilizada, à fonte de adubação, os resíduos gerados (no 6

7 caso de serem feitas aplicações de herbicidas e pesticidas) e a qualidade do alimento produzido. Em relação a estes cuidados, já existe muito material bibliográfico disponível (EDWARDS, 2001; FUREDY, 2001; GAYNOR, 2002; LOCK e ZEEUW, 2002; PEDERSON e ROBERTSON, 2002), apontando riscos que a AUP pode oferecer à saúde e ao meio ambiente se realizada de maneira inadequada. Os principais riscos da prática inadequada da AUP podem estar relacionados: aos resíduos orgânicos, às águas servidas, aos vetores e propagadores de doenças, à contaminação por agroquímicos, à contaminação por metais pesados, as zoonoses e aos inerentes à atividade. Apesar dos riscos citados acima, existem muitas finalidades que podem ser dinamizadas com a prática da agricultura urbana e diversas vantagens podem ser obtidas através dela. Segundo ROESE (2004, p.1-2) são elas: reciclagem de lixo; utilização racional de espaços; formação de microclimas e manutenção da biodiversidade; escoamento de águas das chuvas e diminuição da temperatura; valor estético; e atividade ocupacional. Em relação especificamente às vantagens da prática da agricultura urbana nos sistemas de hortas comunitárias podem ser citadas: Desenvolvimento social - aliada à educação ambiental e à recreação, ocorre melhoria da qualidade de vida e prevenção ao estresse, além da formação de lideranças e trocas de experiências; valoriza a produção local de alimentos e outras plantas úteis, como medicinais e ornamentais, fortalecendo a cultura popular e criando oportunidades para o associativismo; Educação ambiental - todas as pessoas envolvidas com a produção e com o consumo das plantas oriundas da atividade de agricultura urbana passam a deter maior conhecimento sobre o meio ambiente, aumentando a consciência da conservação ambiental; Segurança alimentar - favorece o controle total de todas as fases de produção, eliminando o risco de se consumir ou manter contato com plantas que possuam resíduos de defensivos agrícolas; Recreação e Lazer - a agricultura urbana pode ser usada como atividade recreativa/lúdica sendo recomendada para desenvolver o espírito de equipes; Farmácia caseira - prevenção e combate a doenças através da utilização e aproveitamento de princípios medicinais; Diminuição da pobreza - através da produção de alimentos para consumo próprio ou comunitário (em associações, escolas, etc.), e eventual receita da venda dos excedentes; Renda - possibilidade de produção para o autoconsumo e venda do excedente em escala comercial, especializada ou diversificada, tornando-se uma opção para a geração de renda. AUP E DESENVOLVIMENTO SOCIAL As políticas de AUP devem ter claros seus objetivos específicos. Sendo assim, as ações devem especificar em que áreas normativas serão integradas e com qual finalidade. Neste sentido, BAKKER et al. (2000) relaciona cinco áreas: política de uso do solo urbano; segurança alimentar urbana; política de saúde; política ambiental e política de desenvolvimento social. Dentro de cada uma destas áreas são apontados elementos que podem promover a sustentabilidade da AU e que devem ser redefinidos de acordo com a realidade local. Como exemplo o acesso aos recursos de terra e água através de eliminação de restrições legais. Outro exemplo é o acesso dos agricultores urbanos a estudos sobre agricultura, à 7

8 assistência técnica e aos serviços de crédito. Mais um exemplo é a adequação das atividades de AUP ao zoneamento urbano. As políticas de desenvolvimento social estão diretamente relacionadas à organização na agricultura urbana, pois com a implementação deste tipo de política há um aumento da coesão social e união entre as pessoas nos bairros. As terras abandonadas e degradadas podem ser transformadas em hortas comunitárias ou divididas em pequenas hortas familiares, e contribuir para aumentar a auto-estima e a segurança nos bairros mais carentes. No Brasil, a agricultura urbana é promovida pelas autoridades locais para facilitar a integração social dos migrantes recém chegados na trama socioeconômica da cidade, dando-lhes acesso a terrenos municipais, a linhas de crédito e a assessoria técnica (BAKKER et al., 2000). Medidas de política pública podem estimular ainda mais esse desenvolvimento social dentro das comunidades através da agricultura urbana, por exemplo, estimulando a inclusão da agricultura urbana nos projetos de regeneração de bairros que vinculem a produção de alimentos com atividades educativas e de desenvolvimento comunitário, permitindo a posse comunitária da terra e facilitando sistemas locais de intercâmbio que ponham os produtores em contato direto com os consumidores locais. No entanto, o que fica mais evidente em relação a AUP é a importância atribuída aos processos de gestão local mais democráticos ao facilitar e fortalecer o diálogo entre a administração municipal e os setores da sociedade civil para a definição e implementação de projetos, programas e políticas municipais deste tipo de agricultura (DUBBELING e SANTANDREU, 2003). BASES METODOLÓGICAS PARA ANÁLISE DE AUP A análise da AUP normalmente serve como ponto de partida para programas e projetos de apoio à agricultura urbana como forma de intervenção para melhorar a renda, a nutrição familiar, as condições sociais e ambientais e o bem estar das pessoas. Os métodos para a realização desta análise dependem de diversos fatores, e o primordial é saber o que se deseja fazer com esta análise. Para gerar informação para o desenho de um projeto de desenvolvimento é importante ter em vista alguns pontos que ajudam a direcionar a escolha do método e conseqüentemente ajudam a especificar a metodologia da forma mais clara possível. Para tanto serão esclarecidos alguns pontos a seguir. Abordagem conceitual A abordagem utilizada nesta dissertação é a de Meio de Vida Sustentável, a qual ajuda a contextualizar as interações entre diferentes dimensões da vida das pessoas e ajuda a revelar a complexidade da pobreza e dos modos de sustento urbano. Serve para a análise dos meios multifacetados de vida urbana e também para situações de pobreza e vulnerabilidade. Pone a las personas incluyendo a mujeres y niños en el centro del análisis, y explora el acceso y el control sobre otros diferentes tipos de capitales, incluyendo los capitales humanos y sociales, así como los capitales naturales, financieros y físicos (MARTIN et al., 2004, p.2). A análise da sustentabilidade do sistema segundo MÜLLER (1996) envolve o produtor e suas relações com o ambiente e a sociedade em que está inserido. Para traçar esta análise são utilizadas cinco dimensões, baseadas na união do referencial teórico de DAROLT (2000), DUQUE (2003), MARTIN et al. (2004) e SACHS (1993). São elas: 1) Dimensão sócio-cultural; 2) Dimensão econômica; 3) Dimensão ecológica-ambiental; 4) Dimensão política-institucional; e 5) Dimensão técnica-agronômica. 8

9 1) Dimensão sócio-cultural: caracterização sócio-econômica da família, indicadores de qualidade de vida, organização social, migração, trajetória familiar na agricultura e qualificação da atividade (CURAÇA, 2002; DAROLT, 2000; GENOVEZ et al., 2001; PROJETO PANTANAL, 2003). No caso da AUP há ainda um outro ponto que deve ser incorporado ao levantamento da dimensão sócio-cultural que é a questão de gênero. Muitos pesquisadores que trabalham com a AUP afirmam que grande parte das experiências coletivas nas cidades da América Latina e Caribe têm sido iniciadas ou têm contado com uma ampla participação de mulheres. Porém é inegável que mulheres e homens possuem diferenças na maneira de ser, agir e pensar, em relação à família, ao trabalho, à comunidade e à expressão social (HOVORKA, 2001; PALACIOS, 2005). 2) Dimensão econômica: despesas gerais, receita bruta, mão-de-obra familiar e contratada, bens patrimoniais e tempo na atividade agrícola ((BOURQUE, 2001; CURAÇA, 2002; DAROLT, 2000; DUQUE, 2003; MOUSTIER, 2001; VÁSQUEZ e VILLALBA, 2003). 3) Dimensão ecológica-ambiental: área de preservação, práticas de manejo conservacionistas, reciclagem de resíduos, integração das atividades, diversificação do sistema e nível de degradação da unidade de produção urbana (ALBÁN et al., 2001; BRAGA e FREITAS, 2002; DAROLT, 2000). Segundo BRAGA e FREITAS (2002) um dos maiores problemas que afetam aqueles que precisam compor indicadores ambientais é a carência de informações sistemáticas em relação ao meio ambiente e outro é compatibilizar dados de diferentes fontes, produzidos a partir de escalas distintas, com cobertura e distribuição espacial e temporal diversas. Estes autores discutem a necessidade de se buscar formas alternativas e aproximadas para atribuir dados faltantes e construir indicadores e variáveis adequados e representativos de informações inexistentes. 4) Dimensão política-institucional: políticas públicas para o setor, assistência técnica, formas de difusão de tecnologia e associativismo (CURAÇA, 2002; DAROLT, 2000; DUQUE, 2003). A dimensão política-institucional deve ser levada em consideração, assim como os impactos gerados pela AUP na planificação urbana e nos projetos que envolvam grupos vulneráveis, pois estes podem ser promovidos por governos locais e/ou nacionais (ZEEUW et al., 2001). 5) Dimensão técnica-agronômica: uso do solo, principais culturas, técnicas de preparo do solo, adubação, controle de pragas, doenças e invasoras, manejo e produtividade do sistema, e finalidade da produção (ALBÁN et al., 2001; CURAÇA, 2002; DAROLT, 2000; DUQUE, 2003). Sobre a produção agrícola, são descritas características e locais de produção, o tipo de cultivos, as criações, a mão-de-obra, o tipo de tecnologia e insumos, as dificuldades para a atividade agrícola e também as projeções (ALBÁN et al., 2001). Enfoque participativo Por meio da leitura da bibliografia a cerca do tema, observa-se que em relação ao diagnóstico de AUP é muito freqüente o uso do enfoque participativo. Este tipo de enfoque já é bastante conhecido, sendo reconhecida a sua vantagem de promover a participação e empoderamento das comunidades locais, o que facilita a implantação de programas e projetos, a relação entre vizinhos, as atividades culturais e ambientais, diminuindo os problemas de integração entre a intervenção externa e a necessidade local. Nesta dissertação será adotado o enfoque participativo com as técnicas do Diagnóstico Visual Rápido (DVR) por permitir a realização de diagnósticos em AUP de forma rápida e 9

10 barata, incorporando os grupos ou comunidades locais tanto no processo de diagnóstico como no trabalho de intervenção posterior a este. A aplicação do DVR supõe criar um processo participativo de construção de conhecimento "de abaixo para cima", que aposta no desenvolvimento de processos instituídos de base local (SANTANDREU, 2002). O método usa uma variedade de técnicas como parte de seu processo participativo de desenvolvimento e análise de conhecimento. Suas etapas (formulação, execução e avaliação) combinam trabalho de campo e pesquisa acadêmica. A incorporação dos grupos e comunidades locais ao processo de formulação, execução, avaliação e gestão, permitem valorizar os saberes populares e gerar novos conhecimentos. Por outro lado, com o desenvolvimento de uma prática participativa, é possível avançar na construção de uma governabilidade inclusiva, que incorpore a perspectiva de gênero e de idade, e a dimensão ambiental aos processos de gestão urbana (SANTANDREU, 2002). 4. CARACTERIZAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO O objeto de estudo desta dissertação são as hortas comunitárias do município de Campinas. O mapa abaixo foi extraído de SEPLAMA EPC (2005), acrescentando-se a localização das hortas comunitárias e respectivos bairros em que estão inseridas. A numeração apresentada no mapa representa as macrozonas definidas no PLANO DIRETOR DE CAMPINAS (2003). Figura 1. Localização das hortas comunitárias em Campinas. LEGENDA Real Parque Vila Brandina Jardim Liliza Parque Itajaí As macrozonas diretamente relacionadas com as hortas comunitárias a serem estudadas são: 10

11 MACROZONA 3 - Área de Urbanização Controlada Norte - AUC-N, que segundo o PLANO DIRETOR DE CAMPINAS (2003) é uma área que apresenta dinâmicas distintas de urbanização, as quais necessitam ser orientadas e controladas para evitar processo de ocupação desordenado; MACROZONA 4 - Área de Urbanização Consolidada ACON, que segundo o PLANO DIRETOR DE CAMPINAS (2003) é a área urbana mais intensamente ocupada, onde se fazem necessárias: a otimização e racionalização da infra-estrutura existente, através do controle do adensamento, notadamente nas áreas que já apresentam problemas de saturação; o incentivo à mescla de atividades e à consolidação de subcentros; e atividades geradoras de empregos fora da área central. MACROZONA 5 - Área de Recuperação Urbana AREC, que segundo o PLANO DIRETOR DE CAMPINAS (2003), compreende a zona oeste do município a apresenta-se intensamente degradada do ponto de vista ambiental, concentrando população de baixa renda, com carência de infra-estrutura, equipamentos urbanos e atividades terciárias. Necessita de definição de políticas que priorizem investimentos públicos visando sua requalificação urbana. O Programa de Hortas Comunitárias do município de Campinas O Programa de Hortas Comunitárias criado em 1997 CAMPINAS (2003a) tinha como objetivos principais: aproveitar mão-de-obra desempregada; proporcionar terapia ocupacional para portadores de deficiência e homens e mulheres da terceira idade; aproveitar áreas devolutas; e manter terrenos limpos e utilizados. A implantação das hortas comunitárias poderia se dar: em áreas públicas municipais; em áreas declaradas de utilidade pública e ainda não utilizadas; em terrenos ou glebas particulares; ou em faixas de servidão de passagem aérea da CPFL. Este programa foi regulamentado em 2003, CAMPINAS (2003b) havendo a definição das políticas públicas de gestão, assessoramento, orientação e aprovação da necessária distribuição de água, sementes e outros implementos agrícolas com recursos oriundos de convênios firmados pela municipalidade, pré-ordenados à implantação de políticas de abastecimento e segurança alimentar. Para tanto foram considerados os seguintes aspectos: A necessidade de aproveitar a mão-de-obra desempregada da cidade, com especial atenção para idosos (art. 230, CF) e deficientes (art. 23, II, CF); para que se mantenham limpas e utilizadas áreas ociosas ou não-aproveitadas, como logradouros e praças não afetadas ao uso comum do povo e demais bens dominicais; A prioridade do programa Fome Zero, imposto como meta nacional pelo governo federal e já implementado em Campinas, com projetos locais de atendimento às necessidades nutricionais da população de baixa renda em quantidade e qualidade adequadas; A criação do GDR - Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Segurança Alimentar, vinculado ao gabinete da prefeita e sediado na CEASA/Campinas, com a finalidade de desenvolver programas municipais ligados ao planejamento da agricultura sustentável e à segurança alimentar, de modo a integrar as atividades agro-alimentares na vida da Cidade; A criação da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho - SMDET, legalmente constituída para a implementação de programas de geração de emprego e renda, e tendo especialmente atribuição para desenvolver parcerias entre o Poder Público Municipal e as entidades da sociedade civil, tendo em vista ações comuns de valorização da região e a busca de melhorias do quadro econômico e social do Município. 11

12 Desde o início da sua implementação em 2004, o programa abrangeu 40 famílias, agrupadas em duas hortas. Campinas conta ainda com outras duas hortas organizadas e implementadas pela sociedade civil que também serão objeto de estudo. 5. METODOLOGIA FASE EXPLORATÓRIA A fase exploratória aconteceu entre os meses de dezembro de 2004 e março de 2005, através do contato com as instituições que atuam na cidade de Campinas (IAC, GDR, CATI, ONG s), com os responsáveis pelas 14 administrações regionais da cidade, com as subprefeituras, com as instituições religiosas e outras associações e pessoas que desenvolvessem algum tipo de AUP. Estes contatos foram realizados na forma de conversas informais para obter informações de locais e pessoas que pudessem estar participando de atividades relacionadas a AUP. Todos os envolvidos nesta fase foram chamados informantes chaves, haja vista que são eles os atores que participam efetivamente do contexto da AUP na cidade e através deles é que se pôde delimitar mais substancialmente a área estudada. Por meio destes contatos pôde-se identificar as 4 hortas comunitárias, objeto deste estudo. PESQUISA DE CAMPO Apresentação da proposta de pesquisa à coordenação das hortas comunitárias; Realização de entrevista apoiada por formulário (Apêndice A) aos produtores urbanos das hortas comunitárias, buscando identificar as características sócio-culturais, econômicas e o envolvimento político-institucional, como também identificar suas demandas; Realização de entrevista apoiada por formulário (Apêndice A) aos produtores urbanos das hortas comunitárias, buscando identificar as características ecológicoambientais e técnico-agronômicas dos sistemas de produção. Apresentação dos resultados das entrevistas à coordenação das hortas e identificação e priorização de demandas ao poder público. 6. RESULTADOS ESPERADOS Em relação à identificação das características sócio-culturais, econômicas e o envolvimento político-institucional dos produtores urbanos das hortas comunitárias pretende-se gerar tipologias ou grupos com características semelhantes, assim subsidiar programas e políticas públicas direcionadas à necessidade de cada um dos grupos. Em relação à identificação das características ecológico-ambientais e técnico-agronômicas desses sistemas de produção pretende-se gerar informações referentes à diversidade de fauna e flora, às características e a qualidade dos solos e da água utilizados na horta, assim elaborar material didático específico sobre cada um destes tópicos e promover oficinas educativas. Em relação à identificação das demandas dos horticultores urbanos pretende-se levantar a natureza destas demandas; 12

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