A Contribuição das Redes Sociais para a Disseminação do Conhecimento e Apoio à Inovação

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1 A Contribuição das Redes Sociais para a Disseminação do Conhecimento e Apoio à Inovação Daniela M. Cartoni Nanci Gardim Sergio O. Caballero Felipe O. Martinelli - Marco A. Silveira Resumo Com o avanço e consolidação da Web 2.0, a utilização de ferramentas colaborativas firma-se como uma tendência que tem influenciado tanto a difusão de inovações quanto a propagação do conhecimento, com destaque para as redes sociais. Estas ganham importância devido ao seu caráter dinâmico e de interdependência dos relacionamentos, que propiciam o compartilhamento de informações e a construção de conhecimentos essenciais para o desenvolvimento da inovação, reconhecimento entre os pares e estabelecimento de contato entre seus usuários. Partindo da hipótese de que as redes sociais atuam complementarmente às ações formais para transferência de tecnologia tanto as desenvolvidas por ICTs (Institutos de Ciência e Tecnologia) quanto as desenvolvidas por empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento, este estudo tem como objetivo identificar e descrever as potencialidades de algumas das principais redes sociais utilizadas no Brasil (Orkut, Linked In e Twitter) como estruturas informais que ajudam a geração de conhecimento e a difusão da inovação. 1. Introdução Com o avanço e consolidação da Web 2.0 1, a utilização de ferramentas colaborativas com destaque, para as redes sociais virtuais firmou-se como uma tendência, que imprime novas características à maneira como as pessoas compreendem e vivenciam temas distintos. Nos últimos anos, diferentes países protagonizaram acontecimentos 2 que revelam a permeabilidade e o potencial de articulação das variadas redes sociais virtuais. Além de mostrarem o quanto podem ser abrangentes através de mobilizações homéricas em prol de causas únicas as redes sociais virtuais põem em evidência novas interações entre indivíduos e grupos, e novas perspectivas para a propagação do conhecimento e da inovação. O capital humano técnico e científico inclui não apenas as doações educacionais formais geralmente englobadas em conceitos de capital humano tradicionais, mas também as habilidades, know-how, conhecimento tácito e conhecimento experimental incorporados em cientistas individuais (Bozeman, 2000). Nessa perspectiva, diferentes autores (Vasconcelos e Campos, 2010; Tomaél, Alcará e Di Chiara, 2005) afirmam que as redes sociais informais são fontes importantes para a promoção da atividade inovativa. Tais redes mantêm canais e fluxos de informação no qual a confiabilidade e respeito entre os agentes os aproximam e os levam ao compartilhamento do conhecimento detido por eles. Conforme ressaltam Nonaka e Takeuchi (1997), as redes sociais informais são importantes por permitir a circulação do conhecimento que por sua vez precisa ser transformado, desenvolvido e trabalhado pelas organizações; caso contrário, ele será apenas um aglomerado de informações sem relevância. 1 Diante dos princípios que norteiam a Web 2.0 apontados por O'Reilly (2005) destacam-se: utilizar a web como plataforma; mudança do usuário com o meio (o usuário deixa de ser meramente um leitor para interagir com o conteúdo e com outros usuários); geração de conteúdo, com base no conceito de conhecimento colaborativo; constante melhoria dos serviços disponíveis com atualizações e complementos, sem existir uma versão final do produto. Dentro deste contexto de web 2.0, é que estão situadas as redes sociais. 2 Dentre os casos de maior impacto podemos destacar: a campanha presidencial entre Barack Obama, que apoiado por um intenso movimento na internet, com informações minuto a minuto via Twitter, conseguiu reunir em 2008, uma das maiores marcas de comparecimento da história nas eleições americanas; a rápida mobilização da sociedade brasileira diante da catástrofe causada pelas grandes chuvas no Estado de Santa Catarina/Brasil em novembro de 2008, que evidenciou a velocidade e eficácia das mensagens postadas nas redes sociais, especialmente Orkut e Twitter (Recuero, 2009).

2 Partindo da hipótese de que as redes sociais atuam complementarmente às ações formais para transferência de tecnologia como as desenvolvidas tanto por ICTs (Institutos de Ciência e Tecnologia) quanto por empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento, este estudo tem como objetivo identificar e descrever as potencialidades de algumas das principais redes sociais virtuais utilizadas no Brasil (Orkut, Facebook, LinkedIn e Twitter) como estruturas informais que contribuem para a geração de conhecimento e difusão da inovação. A motivação para esse estudo é parte de um projeto de maior abrangência, voltado para o desenvolvimento e implantação de um portal corporativo diferenciado 3 de um grupo de pesquisa, chamado GAIA (Grupo de Apoio à Inovação e Aprendizagem em Sistemas Organizacionais) 4. O portal apoiado pelo CNPq e em andamento no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), em Campinas/SP/Brasil é focado na gestão do capital intelectual para sustentabilidade de sistemas organizacionais, e visa integrar não apenas dados, mas também os diferentes atores responsáveis pela inovação no país; a saber, instituições de ensino/pesquisa (públicas e privadas), empresas, Governo e agentes multiplicadores diversos (como professores universitários e gestores empreendedores). Entender melhor como funcionam as redes sociais virtuais na promoção da inovação, ajudará na construção de um plano de comunicação adequado para viabilizar a interação do referido portal junto a essas redes. Além disso, a prospecção de pontos-chaves (temas e/ou processos) que podem ser mais explorados no interior dessas redes sociais colaboram com o planejamento de novas ações, demandas e oportunidades para a disseminação do conhecimento científico, tanto acumulado pelo nosso grupo, o GAIA-CTI, quanto por nossas instituições parceiras. Como ressalta Araújo (1979), através de canais informais a informação sobre determinado projeto pode ser disseminada antes mesmo que ele haja iniciado. Essa disseminação, segundo a autora, em geral é realizada por meio da rede de comunicação informal na qual o pesquisador está inserido. Diante desse contexto, trazemos no segundo item desse artigo algumas asserções sobre a relação entre inovação tecnológica e as redes sociais informais de comunicação para, na seqüência, alinharmos algumas percepções sobre o conceito de redes sociais virtuais (informais) e as principais teorias que permeiam as análises sobre o tema. Embora o estudo não seja conclusivo, apresentaremos como as principais redes sociais brasileiras Orkut, LinkedIn, Facebook e Twitter tratam a promoção da inovação. Diante disso será verificado a proposição levantada de que as redes sociais, baseadas na relação de interdependência entre os atores, se configuram como um instrumento relevante para o compartilhamento de conhecimentos específicos e para a geração de inovação tecnológica. 3 Os portais corporativos vêm ampliando ao longo do tempo suas funções no âmbito institucional, englobando e apresentando os setores, produtos e serviços de uma organização, tanto para seus clientes quanto para seu público interno. Contudo, esta visão tem se mostrado muito limitada quando pensamos em portais corporativos voltados para a efetiva geração de conhecimento e promoção da inovação. O termo corporativo sugere, em sua essência, ações predominantemente direcionadas aos interesses de uma única instituição em si, a dona do portal. Contudo, o uso da visão tradicional para a implementação de um ambiente que visa potencializar ações inovadoras corrobora para a segmentação da informação e escassez de atividades cooperativas dentro do sistema de C&T&I nacional, onde a palavra-chave deve ser integração. A proposta do portal que está em desenvolvimento visa ultrapassar esses entraves, adotando um posicionamento mais democrático e interativo entre atores diversos 4 O GAIA (Grupo de Apoio à Inovação e Aprendizagem em Sistemas Organizacionais) é um grupo multidisciplinar de pesquisas aplicadas, que integra geração de conhecimento com resultados práticos. Tem como foco a aprendizagem organizacional que dá sustentabilidade à inovação e ao desenvolvimento socioeconômico de empresas. Com base no CTI (Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer) órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, localizado em Campinas-SP, o GAIA é aberto à participação de instituições e profissionais de diferentes áreas.

3 2. Inovação Tecnológica e Redes Informais de Comunicação O papel do capital humano na transferência de tecnologia está se tornando mais amplamente reconhecido 5, permitindo um olhar diferenciado sobre as várias formas e meios pelos quais a transferência de conhecimento se desenvolve (Bozeman, 2000). Em geral, as redes sociais informais 6 como as que se formam espontaneamente nas relações cotidianas, mediadas ou não por Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) são mais flexíveis e menos deterministas do que as redes organizacionais e interorganizacionais, que são sempre sujeitas a diferentes graus de formalização. Nesse contexto, para a transferência de informações técnicas relevantes, os contatos pessoais se destacam como sendo aqueles pelos quais a tecnologia é mais eficazmente transferida (Araújo, 1979). As redes sociais informais afetam, mais incisivamente, a extensão com que o indivíduo aprende e internaliza as regras que envolvem o contexto social e organizacional. O que é de fato novo é a maneira como as redes e/ou relações informais estão sendo estabelecidas, ou seja, quais padrões de comunicação são vigentes. Os trabalhos que privilegiam a análise das redes informais intraorganizacionais tais como os de Cross e Prusak (2002) e Silva (2003) têm em comum a visão de que as redes informais são ferramentas invisíveis e poderosas para os gestores da inovação. Nessa perspectiva, entende-se que o conhecimento é inerente às pessoas, mas sua transmissão decorre da aplicação de mecanismos para compartilhamento aqui é possível destacar as redes sociais quando aplicadas à Gestão do Conhecimento. Os canais e/ou redes sociais informais mostram-se muito eficientes na perspectiva da interação direta entre a fonte e os usuários da informação. Possibilitam os pesquisadores descobrirem mais rapidamente se estão tratando dos mesmos problemas e se os assuntos abordados são de interesse mútuo permitem aos pesquisadores também, uma especulação mais livre sobre a pesquisa que estão realizando, os caminhos mais produtivos e seus respectivos sucessos e fracassos (Garvey e Griffth, 1967) A diferença em orientação, e as subseqüentes diferenças da natureza dos produtos entre os perfis de profissionais, em geral, têm implicações para os interessados no fornecimento de informação para qualquer das atividades. No entanto, o fator mais relevante quando se observa a comunicação tecno-científica veiculada pelos canais e/ou redes sociais informais é o tempo de disseminação da informação, que na maioria das vezes se inicia antes mesmo do início do projeto (Araújo, 1979). Com a disseminação das TICs, a velocidade para a troca de informações (formais e informais) aumentou vertiginosamente, mas não alterou o cenário já estabelecido. As relações informais ainda disseminam o conhecimento mais rapidamente que as redes formais 7. A internet, sendo uma rede de redes com serviços de correio eletrônico, comunidades de práticas (como fóruns, wikis, blogs e redes sociais), facilita a interação entre pesquisadores e profissionais de 5 Araújo e Freire (1996) destacam que as redes e canais de comunicação formais, em especial periódicos, monografias e bases de dados foram sempre privilegiados para a construção do conhecimento científico. Para a atividade científica, os poucos canais informais considerados eram aqueles representados por congressos, seminários e eventos similares, a partir dos quais são publicados anais. 6 A rede social formal é uma série de ligações ou laços prescritos entre posições sociais formais ou padronizadas, em geral, para a comunidade científica elas se estabelecem por meio da publicação de monografias e periódicos. Em contraposição, as estruturas sociais informais não são explicitadas ou prescritas pelas organizações e baseiam-se em interações que dependem dos atributos pessoais dos participantes, que fazem escolhas voluntárias. 7 A internet assume tanto características de fonte informal quanto formal, pois também traz conteúdos organizados e estruturados como são as bases de dados e documentos publicados, que estão disponíveis através de serviços de compartilhamento ou transferência de arquivos (Araújo e Freire, 1996; e Vital, 2006)

4 diversas áreas da Ciência e Tecnologia. Os canais informais possuem grande relevância para o desenvolvimento de trabalhos com maior valor agregado à informação, pois se revelam úteis tanto para a tomada de decisão, quanto para criação de estratégias decorrentes de informações ainda não publicadas. Martins (et al, 2009) enfatizam que as redes sociais constituem o elemento-chave para transformar os recursos individuais em recursos organizacionais. Embora os canais e fontes informais se encontrem desestruturados e desorganizados no ambiente online, diferentes autores entre eles: Rizova (2006), Vital (2006) entendem que eles são fontes primárias de informação, em especial, para empresas dinâmicas e intensivas em tecnologia; que tem como um de seus maiores ativos o conhecimento de suas equipes de pesquisadores (e seu consecutivo aprimoramento). 3. Conceituando Redes Sociais Uma das características mais marcantes da sociedade da informação é a busca por indivíduos com espectro de competências amplo e variado, que constrói tanto a reputação de forma individualizada como a partir de suas habilidades em interagir nas redes (CASTELLS, 1999). É neste sentido que as competências associam-se à atuação em ambientes dinâmicos, a partir da construção de relacionamentos com base em processos abstratos, assim como tomar decisões, trabalhar em grupo e adaptar-se a horizontes ampliados de espaço e tempo, rompendo com elementos tradicionais como distância e sincronicidade (LÉVY, 1998). Neste contexto, a configuração em rede - já peculiar ao ser humano como forma de promover o agrupamento com seus semelhantes e agregar pessoas ou grupos com interesses e valores compartilhados - assume novas características e relevância social. As redes extrapolam os limites dos relacionamentos pessoais e se estendem no aspecto organizacional ou institucional, podendo também ser apropriadas pelas organizações como canal de apoio à busca e geração de inovação. Como explica Marteleto (2001, p. 81) que, (...) mesmo nascendo em uma esfera informal de relações sociais, os efeitos das redes podem ser percebidos fora de seu espaço, as interações com o Estado, a sociedade ou outras instituições representativas. O conceito de redes pressupõe agrupamentos e, conseqüentemente, representa fenômenos coletivos. Não se vinculam necessariamente a uma comunidade geográfica ou hierárquica, mas em geral apresentam estrutura não-linear, descentralização, auto-organização e base em relações cooperativas horizontais (BARNES, 1987; TOMAEL, 2005). De acordo com Hanneman (2004), a idéia básica de uma rede é simples: um conjunto de atores (ou nós, pontos ou agentes) entre os quais existem vínculos (ou relações). A compreensão sobre seu funcionamento tem como eixo central as interações entre os atores, não privilegiando análises isoladas a partir do perfil do indivíduo, mas sim suas relações com o contexto. [...] A posição de cada indivíduo na rede depende do capital social e informacional que consiga agregar para si próprio e para o conjunto. (MARTELETO e SILVA, 2004, pg 42). As redes podem variar em seu alcance, tamanho e heterogeneidade. Quanto maior for a rede social, mais heterogêneas são as características sociais dos membros da rede e maior a complexidade de sua estrutura (TOMAEL, 2005). Segundo Aguiar (2006), uma rede social é formada por dois elementos principais: a estrutura e a dinâmica. A estrutura refere-se aos componentes da rede, que é constituída por atores e grupos de atores, através do compartilhamento de informações e construção do conhecimento.

5 Estes são representados por nós que fazem parte de um sistema maior de interação e laços sociais. Atuam de forma direta na criação de comunidades, que compõem os chamados clusters ou cliques, a partir da construção de papéis que estabelecerão as ligações entre os atores. Outro elemento é a dinâmica, ou seja, a forma como ocorrem as relações através da rede, caracterizada pelo padrão e ritmo do fluxo de informação das conexões entre os atores, grau de participação dos integrantes da rede (freqüência e qualidade com que se comunicam) e os efeitos dessa participação nos demais membros e no desenvolvimento da rede. A partir da análise destes elementos é possível mapear como a rede social está configurada e compreender seu impacto para os processos e instituições em que atua. Segundo Barabási (2003), o entendimento das redes é vital não só para atividades rotineiras, mas também nos negócios e na ciência. Identificar como a disseminação do conhecimento permeia nosso ambiente acadêmico é uma forma de contribuir para que as relações já existentes sejam expandidas, que novas sejam criadas e que se pense na formação de uma rede estruturada, para o desenvolvimento do conhecimento comum. 3.1 Principais Teorias Sobre Redes Sociais A pesquisa e teorias sobre redes sociais possuem escopo bastante amplo. As teorizações desenvolveram-se em estágios distintos, a partir de conceito originados das Ciências Sociais e posteriormente integrados aos trabalhos oriundos da Teoria dos Grafos (VIANA, 2004). Nos últimos anos, o conceito de rede tem sido observado com maior atenção, especialmente no que tange à sua aplicação aos sistemas complexos e no espaço virtual, embora sua abordagem não seja novidade 8. Segundo Aguiar (2006), a trajetória dos estudos sobre redes sociais no cenário acadêmico internacional pode ser dividida em quatro fases fundamentais: a) período entre os anos 1930 e 1970 no âmbito da Psicologia Social 9 e da Antropologia e Sociologia 10, marcadamente com influência dos pensadores estruturalistas e funcionalistas. Há predomínio das análises sociométricas das organizações sociais, a busca por identificação de padrões de vínculos interpessoais em contextos sociais específicos e a investigação das estruturas de relações em grupo; 8 Um dos antecedentes mais citados está nos trabalhos do matemático e geômetra Leonhard Eüler que deram origem à chamada Teoria dos Grafos, no século XVIII (BARABÁSI, 2003). No entanto, o estudo sistemático das redes sociais aparece apenas na década de 30, quando Jacob Moreno iniciou os trabalhos que deram origem à abordagem sociométrica e, conjuntamente, à abordagem estrutural (RECUERO, 2009) 9 Destacaram-se os trabalhos de Jacob Moreno (Sociometria), Kurt Lewin (Teoria de Campo), Fritz Heider (Teoria da Atribuição) e Cartwright e Harary (Teoria dos Grafos), com pesquisas sobre estrutura grupal e troca de informações. A idéia predominante era que os objetos não são percebidos independentemente dos modelos mentais, mas constituídos por eles. 10 Os antropólogos e sociólogos da Universidade de Harvard estudaram o antropólogo social inglês Radcliffe-Brown. Estes estudos enfatizam a importância de relações interpessoais informais em sistemas e estruturas sociais, que são decompostos em redes nos subgrupos que as constituem. Nos anos 20, destacam-se Elton Mayo e W. Lloyd Warner; nos anos 40, George Homans e sua estrutura teórica para explicar o comportamento grupal com base na sociometria e, posteriormente durante os anos 50 e 60, análises estruturais matematicamente orientadas, com destaque para os trabalhos de Harrison White e Granovetter nos anos 70. Na universidade inglesa de Manchester, uma linha de pesquisa desenvolvia os estudos associando matemática à teoria social. São notórios os trabalhos de Max Gluckman, John Barnes, Elizabeth Bott, Siegfried Nadel e Clyde Mitchell (VIANA, 2004).

6 b) período entre os anos 1970 e 1990, com o desenvolvimento da Análise de Redes Sociais (Social Network Analysis) 11 não apenas como uma especialidade de pesquisa nas Ciências Sociais, mas com apoio de programas de computador e aplicação da linguagem matemática no desenvolvimento de metodologias altamente técnicas e quantitativas; c) a emergência de pesquisas multidisciplinares motivadas pelo aumento da complexidade das relações sociais e pelas comunicações mediadas por computador, a partir de meados dos anos 1980, em que as metáforas de rede são retomadas como base para análise de fluxos de informação através das interações entre pessoas, grupos humanos e organizações, sob forte influência da teoria dos sistemas; d) e a fase atual, em que a análise de redes sociais se sofistica com o apoio de variadas técnicas e ferramentas computacionais mais acessíveis. As análises sobre o ciberespaço tratam das diferenças entre variados grupos e seus impactos nos indivíduos, no contexto de uma macroestrutura globalizada de redes interpessoais, comunitárias e organizacionais conectadas à Internet. Atualmente, é inegável que as redes sociais cresceram vertiginosamente na criação de redes de relacionamento, impulsionadas pela utilização de softwares com interface amigáveis e integração de recursos da tecnologia da informação que permitem convidar amigos, conhecidos, clientes, fornecedores e outras pessoas da rede de contatos pessoal e profissional. Podem ser utilizadas tanto para agregar pessoas com interesses específicos, seja para ou relacionamento social ou atuação no âmbito acadêmico e científico. São, enfim, são ambientes que possibilitam a formação de grupos de interesses que interagem por meio de relacionamentos comuns. Para este artigo, em particular, serão analisadas as redes sociais virtuais e seus impactos para o compartilhamento de informações e como apoio na construção de conhecimentos essenciais para o processo de inovação. 3.2 Confiança e Reputação em Redes Sociais Virtuais Ao tratarmos de redes sociais na internet, devem ser considerados para análise a estrutura das conexões e os tipos de vínculos entre os atores 12. No aspecto relacionado ao compartilhamento de informação, considera-se que, além do possível altruísmo dos indivíduos por gostarem de dividir o que sabem, há o interesse primordial na reciprocidade (obtenção de informação gerada pelo grupo) e confiança. Da mesma forma, a construção do conhecimento só terá resultados se implicar um processo de aprendizagem, pois o simples acesso à informação não modifica a realidade (TOMAÉL, ALCARÁ e DI CHIARA, 2005). 11 A Análise das Redes Sociais (em inglês, Social Networking Analysis) pressupõe uma análise de tendência para o papel social do indivíduo ou grupo em um determinado contexto, onde os movimentos e contatos não são aleatórios, mas parte de um processo dinâmico. Na análise de redes sociais são observados os atores, seus papéis e ligações. Fundamenta-se na observação que os atores sociais são interdependentes e que as conexões entre eles possuem importantes conseqüências para cada indivíduo (FREEMAN, 1996). Esta metodologia integra elementos da Teoria dos Grafos, que permitem analisar a rede por meio de matrizes, diagramas ou imagens gráficas. Dentre as medidas disponíveis, encontra-se a densidade da rede, o coeficiente médio de aglomeração e a distância média. Neste caso, a centralidade ou proximidade permitem determinar o quanto o nó que representa o ator está próximo de todos os demais nós ou atores da rede mapeada, tendo a sua base como a distância geodésica - que é o menor caminho entre dois nós, aplicada a grafos orientados (Wasserman e Faust, 2004). 12 Há diferentes formas de participação em redes sociais virtuais. Na Internet, por exemplo, é possível assinar uma lista de discussão, ou seja, participar de um grupo social sem interagir diretamente com seus membros, mas unicamente usufruindo das informações que circulam. Também é possível interagir com um grupo de blogueiros através dos comentários e, com eles, formar uma rede social (RECUERO, 2003).

7 Um conceito relacionado às redes sociais que tem obtido espaço na literatura organizacional é o de capital social 13, sendo positivamente relacionado à disseminação do conhecimento e geração de inovações. O termo refere-se a um tipo de capital que pode gerar vantagem competitiva para os indivíduos ou grupos conectados a determinadas redes, ou seja, estejam melhor relacionados devido à participação e acesso às informações (MARTINS et al, 2009). Segundo Recuero (2009), o tipo de conexão na rede social influencia o processo de difusão de informação, que pode estar baseado tanto na interação social mútua, com um pertencimento relacional, ou na interação social reativa, com um pertencimento associativo baseado unicamente na posição de membro da rede. Em outras palavras, a autora explicita que as interações sociais constituídas na internet podem basear-se tanto na apropriação da tecnologia pelos atores como nos laços interativos 14. A interação social mútua em redes virtuais baseia-se nas trocas entre o grupo e ao pertencimento relacional caracterizado pelo sentir-se parte, através das trocas comunicacionais. Como exemplo, temos as comunidades que surgem através de blogs, onde é preciso trocar comentários e criar laços para que se receba apoio e capital social. Este tipo de interação tem custo alto de manutenção, já que os atores sociais precisam investir em trocas de mensagens, assim como o tempo gasto em conversas no MSN, discussões em fóruns temáticos ou publicação de tweets. Por tais características, as conexões são mais fechadas, com atuação baseada na confiança e suporte social. Já na interação social reativa, o pertencimento é baseado na identificação do ator com o assunto tratado no grupo, mais do que na interação social que se estabelece naquele espaço. Este tipo de laço implica em um baixo custo de manutenção para o ator, onde basta se associar e todos os valores da rede estão imediatamente acessíveis. Essa associação, no entanto, é motivada por um processo de identificação entre usuário e grupo, ou seja, a construção da identidade e autodefinição no espaço virtual 15 vincula-se a esta adesão como mecanismo de criação de empatia na conquista de novos amigos. É o que acontece, por exemplo, com as comunidades do Orkut, onde mais do que interagir, os atores filiam-se ao grupo para mostrar determinado interesse ou idéia comum em seu perfil, resultando em um pertencimento associativo, cujos laços não se desgastam, como é o caso, por exemplo, de muitas comunidades que possuem centenas de usuários e pouquíssima interação (RECUERO, 2005). Essas redes baseadas na interação reativa apresentam laços mais fracos entre os atores. Pelo baixo custo de pertencer a esses grupos, percebe-se, também, que é possível que um mesmo ator faça parte de diversas redes. Como não necessitam de investimento na sua manutenção, podem ser sustentadas até que uma das partes decida pelo fim da conexão (SOUZA, 2010). 13 O capital social não deve ser confundido com o capital humano, nem com infra-estrutura. O capital humano engloba as habilidades e conhecimentos dos indivíduos que, em conjunto com outras características pessoais e o esforço despendido, aumentam as possibilidades de produção e de bem-estar pessoal, social e econômico (MARTELETO e SILVA, 2004, p. 43) 14 Segundo Granovetter (1973), os laços sociais podem ser fracos ou fortes, uma classificação que também pode ser aplicada àqueles mediada por computador. Os laços fortes seriam aqueles caracterizados pelo grande investimento de tempo, pela criação de intimidade, de confiança e de reciprocidade. Os laços fracos, ao contrário, possuem menor quantidade desses elementos, caracterizando, relações menos profundas, não traduzindo proximidade ou intimidade, e apenas relações esparsas, com muitas trocas sociais. 15 Como destaca Donath (1999), a compreensão das interações sociais mediadas por computador relaciona-se com o fato de as redes e sistemas de comunicação permitirem a criação de perfis individualizados no ciberespaço. Essa personalização é um elemento essencial para a construção da identidade, pois os perfis permitem aos atores reconhecerem-se como indivíduos e interagirem, já que a internet passa a funcionar como um espaço de sociabilidade.

8 No aspecto da circulação do capital social nas redes, há diferenças evidentes. No caso da prevalência de interação mútua, por serem constituídas por laços são mais fortes, são menores e possuem um núcleo bem definido, onde a reciprocidade é mais evidente. Essas redes são mantidas pelo interesse dos atores em fazer amigos e fomentar laços, o que leva à maior qualidade de capital social relacional em circulação (RECUERO, 2009). Por outro lado, no caso das redes centradas na interação reativa, o pertencimento baseia-se na identificação, seja quanto ao assunto, construção de identidade, demonstração de gostos e preferências (BERTOLINI e BRAVO, 2004). A inserção permite usufruir da informação divulgada aos membros, o que traz maior ênfase ao capital social informacional, pois a informação tem valor para a formação da reputação ou para a primazia na divulgação junto a uma determinada comunidade interativa. Essa diferenciação é essencial na medida em que permite compreender que as redes sociais não são todas iguais e que suas diferenças estruturais interferem diretamente na difusão de informação através de suas conexões. 4. Redes Sociais Virtuais Brasileiras e a Promoção da Inovação Método e análise dos dados Partindo da questão de pesquisa que é analisar a contribuição das redes sociais para a disseminação do conhecimento e apoio à inovação, consideramos em nosso estudo as seguintes redes: Facebook, LinkedIn, Orkut e Twitter. A escolha destas justifica-se pelo fato de serem as redes sociais mais populares no país, tanto em termos de número de participantes, como em quantidade de acessos. De acordo com o site Alexa, que mede o tráfego de acesso a páginas da internet, este é o ranking geral de acessos a sites no Brasil: 1º Google Brasil, 2º Google, 3º Facebook, 7º Orkut Brasil, 14º Twitter, 26º LinkedIn. No Brasil o Orkut, que costumava ser a rede social líder 16, perdeu o posto para o Facebook no início deste ano de 2011 (ALEXA, 2011). Considerando o relatório 2009 Business Social Media Benchmarking Study (HANNA,2009) baseado em pesquisa realizada nos Estados Unidos com profissionais da área de negócios, em média as empresas possuem perfis em três redes sociais as redes sociais em que o maior número de empresas possui perfis (entre respondentes) são: Facebook: 80%, Twitter: 56%, Grupos no LinkedIn: 39%, Orkut: não listado (possuí pouca relevância nos Estados Unidos). A partir deste cenário, considerou-se inicialmente que isso poderia se repetir no cenário brasileiro. No entanto, como a intenção era entender como as redes sociais estavam contribuindo com o intercâmbio de informações técnico-científicas especificamente, e não simplesmente com a promoção do marketing institucional, optamos por iniciar a pesquisa buscando palavras e/ou expressões-chaves para a temática da inovação dentro das redes 17. Com o recorte voltado especificamente aos grupos brasileiros existentes nas redes sociais Facebook, Twitter, Linked In e Orkut, as palavras e termos chaves selecionados para a busca 16 Utilizando o Google Trends (2011), é possível notar que o Orkut apresenta uma tendência de declínio no número de acessos a partir de 2007 ao contrário do LinkedIn e Facebook que apresentam ascensão quanto ao número de acessos desde 2010 e do Twitter, com o número de acessos crescendo desde A hipótese inicial foi de que, se as empresas têm o trabalho de criar e manter um perfil institucional ativo, também pudessem participar e/ou promover, de alguma forma, a troca de conhecimentos técnico-científicos em comunidades ou grupos específicos; cujos temas de interesse seriam identificados em nosso processo de busca.

9 foram: Inovação; Tecnologia; Inovação Tecnológica; Transferência de Tecnologia; Patentes; Propriedade Intelectual; Instituto de Pesquisa; Centro de Pesquisa; Pesquisa; P&D; R&D e Pesquisa e Desenvolvimento. Entendendo que estes são temas/expressões bastante recorrentes entre pesquisadores e gestores da inovação, o objetivo foi o levantamento inicial sobre o número de comunidades e/ou grupos de discussão que abordavam assuntos relacionados às atividades inovativas (ver Quadro 1). Quadro 1: Redes Sociais e Freqüência de Palavras Chave Relacionadas a Inovação Twitter Facebook LinkedIn Orkut Tweets18 Grupos em Grupos em Comunidade em 29/5/ /5/2011 em 14/5/ /5/2011 Inovação >=1000 Tecnologia >=1000 >=1000 Inovação Tecnológica Transferência de Tecnologia Patentes >=1000 Propriedade Intelectual Institutos e Centros de Pesquisa Instituto de pesquisa Centro de pesquisa Pesquisa >=1000 >=1000 P&D >=1000 R&D >=1000 Pesquisa e Desenvolvimento Fonte: Elaborado pelos próprios autores, Algumas dificuldades de ordem prática foram encontradas durante a pesquisa. Uma delas foi o surgimento de termos inviáveis ou pouco precisos para serem aplicados a uma pesquisa quantitativa pelos seguintes motivos: a) Quantidade de resultados A rede social que possibilitou acesso a um sistema de busca adequado aos objetivos desta pesquisa foi o LinkedIn. Ao se utilizar um termo para pesquisa, é mostrado o total de grupos relacionados ao termo, independente da quantidade de grupos existente. O Orkut também mostra o número total de grupos em sua interface, porém com a limitação de 1000 resultados, indicando que existe um número de resultados superior a este. Já o sistema de busca do Facebook, mostra apenas 10 resultados, sem indicar qual seria o total. Para se visualizar mais resultados, é necessário que se pressione um botão e mais 10 resultados são mostrados. O Twitter também não mostra o total, sendo necessário navegar até o rodapé da página para que 18 Mensagens de texto do Twitter.

10 sejam exibidos mais resultados 19. Além disso, dentro do Twitter, por ser uma rede em que as mensagens são publicadas pelos usuários de modo muito dinâmico, termos mais populares, como tecnologia, mostravam 10 novos resultados por minuto. b) Filtragem de resultados Existe uma necessidade de filtrar os resultados mostrados, devido à polissemia que alguns termos têm, ou outros contextos em que podem ser empregados. Pode-se citar tecnologia e pesquisa, os quais mostraram muitos resultados dentro do Twitter, Orkut e Facebook que não possuem relação com os temas do presente estudo. Citamos como exemplos: no Orkut são encontradas comunidades como Sou viciado em Tecnologia e Só faço pesquisa na Wikipédia. Outros termos como P&D e R&D mostraram diversas comunidades e Tweets que possuem a sigla P&D com outros significados variados. Por exemplo, no Orkut, P&D, dentre os 46 resultados obtidos, apenas 7 se referem de fato à expressão pesquisa e desenvolvimento. Após a verificação das restrições impostas pelos problemas acima descritos e, considerando que o LinkedIn possui um foco declarado no âmbito profissional 20, apresentando melhores ferramentas de busca e organização, foi definido que a pesquisa mais aprofundada sobre os usuários se restringiria apenas aos grupos existentes nesta rede social. Por ser o termo que se identifica melhor com o propósito da pesquisa, a palavra Inovação foi escolhida para a realização de buscas nos grupos. A partir destas definições, os 3 grupos com maior número de associados e resultados de busca (para a palavra Inovação) foram selecionados para análise. Foram denominados grupos A, B e C e, optamos por comparar a um grupo de controle D 21 (ver Quadro 2). Quadro 2: Tema, quantidade de membros e foco dos grupos pesquisados Grupo Tema Membros Foco A Rede de Design e Gestão de Inovação - Brasil 943 Design e Inovação B Inovação para a Sustentabilidade 375 Design e Inovação C Comunidade da Inovação 356 Inovação D PMI São Paulo 5737 Gerenciamento de Projetos Fonte: Elaborado pelos próprios autores, As mensagens trocadas publicamente dentro dos 4 grupos pelo período de um mês (25/04/2011 a 25/05/2011) foram analisadas e divididas em 4 categorias: *Categoria 1: Propostas de Soluções Tecnológicas; *Categoria 2: Divulgação de Congressos e Eventos; *Categoria 3: Pedidos de Orientação ou Questionamentos Técnicos; *Categoria 4: Outros (anúncios de empresas, questões não diretamente relacionadas a Inovação ou Projetos). O resultado da classificação das mensagens é apresentado no Quadro 3: 19 Em particular para o caso do Twitter, foi utilizada, simultaneamente com a ferramenta de busca do próprio site, a ferramenta de busca Socialmention (Socialmention.com), que possui um contador de resultados. No entanto, o contador do Socialmention se mostrou não confiável, pois se limitou a exibir 100 resultados para algumas buscas que no sistema de buscas próprio Twitter, indicavam mais de 100 resultados. 20 Também Vasconcelos e Campos (2010) observaram a mesma situação, pois em sua pesquisa sobre marketing em redes sociais, em especial em Portugal, que incluía Orkut, Twitter, LinkedIn e Facebook entre outras redes sociais, o LinkedIn era a única rede social profissional existente e que possibilitava um mapeamento mais consistente. 21 Decidiu-se pela criação de um grupo de controle para efeitos comparativos. A opção pelo grupo de gerenciamento de projetos foi baseada na maturidade do grupo formado por profissionais experientes que fazem parte de uma organização que é reconhecida como referencia mundial em gerenciamento de projetos, o Project Management Institute (PMI).

11 Quadro 3: Classificação de mensagens das redes sociais pesquisadas Propostas de Soluções Tecnológicas Divulgação de Congressos e Eventos Pedidos de Orientação ou Questionamentos Técnicos Outros A 12,0% 48,0% 12,0% 28,0% B 28,1% 22,0% 3,7% 46,3% C 8,3% 8,3% 5,6% 77,8% D 6,3% 6,3% 81,3% 6,3% Fonte: Elaborado pelos próprios autores, Nota-se que nos grupos A, B e C existe maior ênfase para a Divulgação de Congressos/Eventos ou Outros (anúncios de empresas, questões não diretamente relacionadas a Inovação ou Projetos). No grupo de controle D, a ênfase está nos pedidos de orientação, relacionados à carreira, motivação de equipes, estimativa de custo de projeto, dentre outros. Para filtragem dos resultados, foi criado um indicador de eficiência entre Pedidos de Orientação ou Questionamentos Técnicos e os Pedidos de Orientação ou Questionamentos Técnicos Respondidos, desta forma geramos um medidor: Eficiência da Resposta (ER) = (questionamentos respondidos / questionamentos feitos) 22. Na comparação com o grupo de Projeto D, constata-se uma diferença significativa tanto na quantidade de questionamentos realizados quanto na Eficiência da Resposta (ER) dos pedidos de orientação ou questionamentos técnicos feitos entre os grupos de Inovação A, B e C, conforme a Quadro 4. Os membros do grupo de Projeto D parecem dar maior ênfase à necessidade de criação da reputação perante o grupo profissional, interagindo tanto com perguntas quanto com respostas. Já os membros dos grupos A, B e C o fazem em menor escala, notando-se mais a participação de empresas buscando estabelecer um posicionamento de destaque dentro destes grupos. No decorrer da pesquisa surgiu outra dificuldade de ordem prática: um questionário não estruturado seria utilizado para traçar um perfil dos usuários destes grupos em uma análise qualitativa. Porém, devido ao baixo índice de resposta aos questionários, foram descartados pela falta de representatividade estatística. Grupos Quadro 4: Eficiência da Resposta aos Questionamentos feitos nos Grupos Questionamentos Realizados Questionamentos Respondidos Eficiência da Resposta (ER) A ,7% B ,3% 22 O critério utilizado para a contagem dos questionamentos respondidos foi unicamente a existência de uma resposta não tendo sido realizada uma qualificação das mesmas.

12 C ,0% D ,6% Fonte: Elaborado pelos próprios autores, Uma possível explicação para este comportamento pode ser encontrada na literatura, conforme destacado por Recuero (2004) na análise dos vínculos estabelecidos nas redes e a reciprocidade quanto ao capital social (Marteleto e Silva, 2004). Os grupos A, B e C enquadram-se como redes de interação social reativa, caracterizando-se pela baixa circulação de capital social e baixa reciprocidade nos processos comunicacionais, o que pode ser ilustrado com o baixo volume de perguntas e respostas. Os membros parecem participar apenas ter acesso às informações ou para definir sua identidade no grupo, seja pelos assuntos da comunidade ou criação de um perfil associado à determinada atuação ou preferências. Como forma de se estabelecer um perfil mínimo dos participantes dos grupos, foram utilizados os dados disponibilizados pelos próprios participantes no campo perfil de usuário do LinkedIn, referente ao setor de atuação profissional. Observou-se, então, que em todos os grupos existe um grande percentual de participantes que não informaram o setor de atuação profissional do qual fazem parte: Grupo A: 45,49%, Grupo B: 51,47%, Grupo C: 49,72% e Grupo D 35,05%. O Quadro 5 apresenta os três setores que mais participam em cada um dos grupos: Quadro 5: Participação nos Grupos Estudados por Setor de Atuação Profissional SETOR Grupo A Grupo B Grupo C Grupo D Design 14,7% 3,7% 0 0 Consultoria de gerenciamento 9,8% 11,7% 8,7% 4,6% Tecnologia da informação e serviços 8,1% 2,7% 11,5% 32,0% Serviços ambientais 0,0% 13,1% 0 0 Marketing e publicidade 5,9% 4,3% 8,2% 0 Gestão de organização sem fins 0 4,3% 0,0% 0 lucrativos Telecomunicações 2,7% 0 2,0% 6,5% Softwares 0 0 3,1% 5,7% Fonte: Elaborado pelos próprios autores, Pode-se observar que os grupos são formados por profissionais diretamente ligados com a área de interesse de cada grupo. Como exemplo pode-se citar o grupo A (Rede de Design e Gestão de Inovação), onde a maior parte de associados pertence ao setor e estão em atividade na área de Design, assim como o Grupo B (Inovação para a Sustentabilidade), onde a maior parte de associados pertence ao setor de Serviços Ambientais. O setor de Consultoria em Gerenciamento apareceu com um dos três mais importantes em todos os grupos relacionados à Inovação, os profissionais que trabalham neste setor parecem ser os que mais investem na criação de capital social, de forma a que possam criar vantagens competitivas por participarem destes grupos (MARTINS ET AL, 2009). No grupo de Projeto (D) o setor com maior participação é o de Tecnologia da Informação e serviços.

13 É possível afirmar que existem oportunidades de mudança na qualidade de aspectos relacionais dentro dos grupos de Inovação A, B e C analisados neste estudo quando comparados com o grupo de controle Projetos D. Poderíamos citar o aumento da interação social mútua pelo aumento das discussões nos grupos com o conseqüente aumento de circulação do capital social nestes grupos. Conforme observado anteriormente uma grande parte dos associados aos grupos A, B, C e D não informam seu setor industrial, porém pode-se perceber que mesmo neste quesito o grupo de Projeto D apresenta um desempenho superior em relação aos grupos A, B e C desta pesquisa. Esta postura parece também refletir um investimento no capital social e informacional (MARTELETO e SILVA, 2004, pg 42) maior no grupo de Projeto D do que nos grupos de Inovação A, B e C. Observa-se que há espaço para avanços no uso das redes sociais para a disseminação de conhecimento e inovação, pois os grupos de Inovação considerados ainda são, em geral, utilizados para divulgação de eventos e notícias. Há pouca utilização para questionamentos e baixo retorno dos questionamentos em oposição ao grupo de Projeto, onde os membros se concentram mais nos questionamentos e possui um maior índice de eficiência nas respostas. Deste modo, os grupos de Inovação A, B e C possuem uma interação reativa onde o maior capital social é a informação (BERTOLINI e BRAVO, 2004) ao contrário do grupo de Projeto D onde o capital social parece ser tanto a informação quanto a interação mútua (RECUERO, 2009). 6. Considerações Finais A literatura nos mostra que canais informais de comunicação são utilizados amplamente por pesquisadores tanto acadêmicos quanto de institutos de pesquisa e de organizações privadas para o intercâmbio e compartilhamento de informações técnico-científicas. Com o advento da internet e as possibilidades interativas decorrentes dos aplicativos da WEB 2.0, relações que antes dependiam da concentração de pessoas num mesmo espaço, puderam romper as fronteiras geográficas. Dentre as diferentes formas de comunicação mediadas por computador, as redes sociais tem se mostrado eficiente para a mobilização de indivíduos ligados a assuntos diversos. Contudo, no que diz respeito especificamente à promoção da inovação algumas considerações sobre as redes sociais brasileiras se fazem necessárias. Embora os resultados da pesquisa apresentada neste trabalho ainda sejam parciais e não conclusivos, observamos que o apoio à difusão da inovação dentro das redes sociais Twitter, Facebook e Orkut está pautado basicamente sobre a divulgação dos eventos institucionais na área. Para o compartilhamento de informações técnico-científicas, no entanto, estas redes sociais não mostraram maturidade ou aprofundamento nas conexões entre os atores para troca profícua de conhecimento. No caso do LinkedIn, observa-se um potencial a ser desenvolvido no intercâmbio de informações técnicas, muito maior que nas outras redes pesquisadas. A propensão para o apoio à inovação de maneira mais intensiva deve-se ao fato ser fundamentada nos perfis profissionais de seus integrantes. A busca por interesses específicos nas redes de relacionamento privilegiam a desenvolvimento (e/ou reforço) de uma reputação em determinada área do conhecimento e/ou entre seus pares.

14 Outro fator que corrobora para o potencial do LinkedIn no fomento à inovação é o fato de circular nesta rede maior capital social informacional, enquanto o Twitter é meramente informativo e as redes como Orkut e Facebook contemplam basicamente o capital social relacional (vínculos pessoais e amizade, sem grande interatividade para discussão de inovação ou temas profissionais a ela relacionados). Foi observado em um grupo que congrega profissionais de gerenciamento de projeto a troca intensiva de conhecimentos técnicos específicos, o que demonstra a capacidade da rede para ser utilizado como ferramenta também para a difusão da inovação. Diante disso, a hipótese de que as redes sociais atuam complementarmente às ações formais para transferência de tecnologia deve ser vista como um potencial a ser explorado, de modo a propiciarem uma difusão efetiva do conhecimento em temas relacionados à inovação. 7. Referências AGUIAR, S. Redes sociais e tecnologias digitais de informação e comunicação no Brasil ( ). Relatório final de pesquisa. NUPEF Rits - Núcleo de Pesquisas, Estudos e Formação da Rede de Informações para o Terceiro Setor, ALEXA. Disponível em: < Acesso em: 21 de junho de ARAÚJO, V. M. R. H. Estudo dos canais informais de comunicação técnica: seu papel na transferência de tecnologia e na inovação tecnológica. Ci. Inf. Rio de janeiro, v. 8, n. 2, p , ARAÚJO, V. M. R. H.; FREIRE, I. M. A rede internet como canal de comunicação, na perspectiva da ciência da informação. TransInformação. v. 8, nº 2, pag , maio/agosto, Disponível em: < >. BARABÁSI, A.L. Linked: How Everything Is Connected to Everything Else and What It Means. Plume Publishing, BERTOLINI, S.; BRAVO, G. Social Capital, a Multidimensional Concept. Disponível em: <http://www.ex.ac.uk/shipss/politics/research/socialcapital/other/bertolini.pdf>. BOZEMAN. B. Technology transfer and public policy: a review of research and theory. School of Public Policy, Georgia Tech, Atlanta, GA USA. Elsevier Science B.V HANNA, B Business Social Media Benchmarking Study. Media, CASTELLS, M. A. Sociedade em rede. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, CROSS, R.; PRUSAK, L.; PARKER, A. Where work happens: the care and feeding of informal networks in organizations. Cambridge: IKO, Disponível em: <www- 304.ibm.com/jct03001c/services/learning/solutions/pdfs/iko_wwh.pdf>. DONATH, J. S. Identity and Deception in the Virtual Community. In: KOLLOCK Peter. e Marc Smith. (org.). Communities in Cyberspace. Routledge. New York, FREEMAN, L. C. Some antecedents of social network analysis. Connections, v. 19, n. 1, p , 1996.

15 GARVEY, W. D.; GRIFFITH, B. C. Scientific communication in social system. Science, 157, p , setembro, Disponível em: <http://www.sciencemag.org/content/157/3792/1011.full.pdf >. Google Trends Disponível em: <http://www.google.com/trends> Acesso em: 21 de junho de GRANOVETTER, M. The strength of weak ties. American Journal of Sociology, Chicago, v. 78, n. 6, p , maio, Disponível em: <http://ejournals.ebsco.com/direct.asp?articleid=4c8eb6fb89418ff97088>. HANNEMAN, R. A. Introducción a los métodos del análisis de redes sociales. Revista Redes, Disponível em: < LÉVY, P. A inteligência coletiva. São Paulo: Loyola, MARTELETO, R. M. Análise de redes sociais: aplicação nos estudos de transferências da informação. Ciência da Informação. Brasília, v. 30, n. 1, p , jan./abr., Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=s &lng=pt&nrm=iso&tlng=pt >. Acesso em: 15 de maio de MARTELETO, R. M.; SILVA, Antonio Braz de Oliveira e. Redes e Capital Social: o enfoque da informação para o desenvolvimento local. Ciência da Informação, v. 33, n. 3, Disponível em: <http://revista.ibict.br/index.php/ciinf/article/view/518>. MARTINS, G. J. T.; QUINCOZES, E. R. F.; PEREIRA, M. F.; FIALHO, F. A. P. A contribuição das redes sociais para o desenvolvimento de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (P, D&I): o caso da Embrapa Clima Temperado. Trabalho apresentado no SEGeT Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia, Disponível em: <www.aedb.br/seget/artigos09/290_artigo.pdf>. NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, O REILLY, T. What Is Web 2.0: design patterns and business models for the next generation of software. O Reilly Media, Disponível em: <http://oreilly.com/web2/archive/what-isweb-20.html>. Acesso em: 21 de junho de RECUERO, R. Redes sociais na internet. Coleção Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, RECUERO, R.C. Considerações sobre a Difusão de Informações em Redes Sociais na Internet Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2007/resumos/r pdf>. ROSA, C. Aplicação da análise de rede social no processo de difusão do conhecimento de tecnologia da informação nas organizações. Dissertação (Mestrado Interdisciplinar em Modelagem Computacional) CEPPEV, Salvador: SILVA, M. C. M. Redes sociais intra-organizacionais informais e gestão. Dissertação (Mestrado em Administração). NPGA, UFBA, Salvador: SOUZA, L. Redes sociais como proposta para amplificar a criação do conhecimento em organizações inovadoras. Dissertação (Mestrado) PPCGI. UFPR, Curitiba: TOMAÉL, M. I.; ALCARÁ, A. R.; DI CHARA, I. G. Das redes sociais à inovação. Revista Ciência da informação. Brasília, vol. 34, nº.2. mai/ago p

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