A SEGURANÇA DO TRABALHO E QUALIDADE DE VIDA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

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1 ISSN A SEGURANÇA DO TRABALHO E QUALIDADE DE VIDA NA CONSTRUÇÃO CIVIL Marisa Fasura de Amorim (UFF- Univ. Federal Fluminense) Ana Lúcia Torres Seroa da Motta (UFF- Univ. Federal Fluminense) Resumo A indústria da construção civil é um dos setores que mais cresce no país. Paralelamente a isso, é um dos setores que apresenta maior índice de acidentes de trabalho. Dentre as causas mais comuns, estão à falta de qualificação dos trabalhadoores, a alta rotatividade da mãose-obra e a falta de segurança no ambiente de trabalho. Perante este quadro, algumas empresas estão investindo na qualificação de seus profissionais. Este processo está ocorrendo principalmente devido à escassez de mão-de-obra no mercado e ao grande volume de obras que estão ocorrendo no país devido principalmente aos eventos que ocorrerão nos próximos anos como a Copa Mundial de Futebol que ocorrerá em 2014 e os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos que ocorrerão na cidade do Rio de Janeiro em Para que haja segurança nos ambientes de trabalho é necessário que haja treinamento e conscientização. Só com a união destas forças ocorrerá a mudança nos ambientes produtivos. Palavras-chaves: segurança, educação profissional, construção civil

2 Introdução A construção civil no Brasil está passando por uma fase de crescimento e valorização, principalmente devido ao advento da Copa Mundial de Futebol que ocorrerá em 2014 e os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos que ocorrerão na cidade do Rio de Janeiro em Novas tecnologias construtivas estão sendo empregadas e as preocupações com a sustentabilidade e a segurança do trabalho passaram a ser questões fundamentais dentro do processo produtivo. A Indústria da Construção Civil é um dos setores que mais geram emprego. Entretanto, devido à falta de qualificação de seus profissionais e o descaso de algumas empresas é também, um dos setores com o maior número de acidentes e doenças profissionais. Ao se trabalhar com prevenção orientando gestores e trabalhadores em questões relacionadas aos procedimentos corretos no processo produtivo, cria-se uma cultura de segurança. A qualidade de vida no ambiente de trabalho reduz drasticamente acidentes e doenças ocupacionais. 1. A Construção Civil no Brasil A construção civil no Brasil passou por um período onde a falta de investimentos no setor foi marcante. Devido aos baixos investimentos na área imobiliária, até o ano de 2003, o setor passou por um período de instabilidade. Com investimentos em obras de infraestrutura e em unidades habitacionais a partir de 2004 a construção civil começou a se recuperar lentamente. Entre os anos de 2004 e 2008 a taxa média de crescimento do Produto Interno Bruto PIB no Brasil foi de 4,8%. Entretanto, neste mesmo período, a taxa de crescimento da indústria da construção civil foi de 5,1%. Mudanças institucionais e a evolução do cenário macroeconômico ajudaram neste processo deixando para trás, um longo período de estagnação da área. Apesar da instabilidade mundial devido à crise financeira ocorrida em 2009, o Brasil cresceu economicamente com elevação do PIB setorial em 7,5%, representando o maior crescimento dos últimos 25 anos. Em termos gerais, no ano de 2010 a indústria extrativa mineral teve um crescimento de 15,7%, a construção civil 11,6% e a indústria de 2

3 transformação 9,7% proporcionando um crescimento total de 10,1% se comparado ao ano de Nos últimos cinco anos, a indústria de materiais para construção tem apresentado crescimento sustentável com taxa anual aproximada de 10 %. Com a desoneração de tributos, a partir de 2006, houve o aumento de crédito e ampliação dos prazos de financiamentos alavancando assim os investimentos. Não só investimentos relacionados à Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016 estão impulsionando o crescimento da construção civil. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Programa de Sustentação do Investimento (PSI) estão impulsionando este processo que terá recursos do BNDES- Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social no valor de R$ 75 bilhões a serem implementados no setor de infraestrutura. 1.1 O desempenho da construção civil nos últimos anos Nos primeiros três trimestres de 2010 o Valor Adicionado Bruto (VAB) no setor da construção civil que representa o resultado da diferença entre o valor da produção e o valor do consumo, teve um crescimento de 13,6% em relação a igual período do ano anterior. Fatores como o aumento do crédito, queda nas taxas de juros e impostos, obras públicas de infraestrutura dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a habitação com o Programa Minha Casa, Minha Vida auxiliaram neste processo. Lançado em março de 2010, o PAC 2 que compreende os anos de 2011 a 2014, tem como previsão de investimento, R$ 1,59 trilhão em obras de infraestrutura. Gráfico 1 - Taxa de Crescimento do PIB, VAB construção civil 3

4 Fonte: Banco de Dados da CBIC. Câmara Brasileira da Indústria da Construção. São Paulo, Disponível em:<http//www.cbcdados.com.br/home/> As regiões Norte e Nordeste impulsionaram o setor da construção civil principalmente devido as obras das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia e da Refinaria Abreu e Lima em Pernambuco. Como reflexo destes investimentos, houve a expansão do consumo de cimento nestas regiões que registraram um aumento de 28,4% e 22,23%, respectivamente, em relação ao ano de Num contexto geral, houve um aumento na produção de cimento de mais de 2 mil toneladas/mês em 2010 em relação ao ano anterior. No Brasil, este insumo básico do setor de construção civil, demonstrou um crescimento de 15,87% em 2010, totalizando toneladas. Tabela 1 - Consumo Nacional de Cimento por Região em toneladas Brasil- 2009/2010 Fonte: SNIC - Sindicato Nacional da Indústria de Cimento. Elaboração: DIEESE Disponível em: <http://dieese.org.br/esp/estpesq56construcaocivil.pdf> Os investimentos voltados à indústria da construção pesada, como obras de infraestrutura de transportes e logística, exploração do pré-sal, Copa do Mundo de Futebol de 2014 e Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, esbarram em algumas situações ainda a serem resolvidas. Infraestrutura básica na área de energia, aeroportos, mobilidade urbana, readequação viária e saneamento necessitam ser ampliados. Governo e empresários do setor trabalham em conjunto para superarem dificuldades do segmento como a má gestão dos investimentos, a deficiente gestão dos canteiros de obras, a falta de qualificação profissional dos trabalhadores e a regulamentação ambiental. 1.2 A realidade da construção civil Em 2009, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio PNAD- IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o setor da construção possuía cerca de 4

5 6,9 milhões de trabalhadores. Deste total, 39,94% trabalhavam por conta própria e 23,11% não possuíam carteira de trabalho assinada, não tendo benefícios como auxílio-doença, pensão por morte, auxílio-acidente ou aposentadoria por invalidez. Esta informação reflete o alto índice de informalidade no setor. Postos de trabalho foram fechados em decorrência da crise. Entretanto, o estímulo ao setor resultou na recuperação e consequente evolução do emprego formal na área da construção civil. O setor gerou quase 12% de todos os postos de trabalho no Brasil, representando novos empregos no ano de 2010, índice de crescimento de 43,5% em relação a Tabela 2 - Saldo do emprego formal, por setor de atividade econômica - Brasil Fonte: MTE. Elaboração: DIEESE. Disponível em:<http://dieese.org.br/esp/estpesq56construcaocivil.pdf> A construção civil apesar de gerar um volume muito grande de empregos, apresenta alto índice de rotatividade da mão de obra devido à particularidade de seu processo produtivo. Segundo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), no ano de 2010, 2,4 milhões de trabalhadores foram contratados e em contrapartida, 2,2 milhões de trabalhadores perderam seus empregos. Para minimizarem custos, os contratos de mão-de-obra são elaborados por períodos prédeterminados ou por empreitada, de acordo com a fase da obra. A busca das empresas por trabalhadores na faixa etária dos vinte e quatro anos, com qualificação gerou contratações com remunerações superiores a 1,32% na comparação entre os anos de 2009 e A construção civil vem superando as dificuldades dos últimos anos. Isto pode ser observado devido ao alto índice de desempenho apresentado no ano de Segundo o Sinduscon RJ (Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro), o 5

6 ano de 2011 não apresentou índices como esperados, entretanto atingiu patamares de maior equilíbrio e sustentabilidade, refletindo resultados positivos e crescimento das atividades. O Sinduscon-RJ identificou como razões para o crescimento do setor no ano de 2010: - maior oferta de crédito imobiliário favorecendo á redução da taxa de juros dos financiamentos e aumentando os prazos de pagamento - aumento do emprego formal - crescimento da renda familiar - estabilidade macroeconômica - mudanças no marco regulatório do mercado imobiliário (Lei /2004), resultando em maior segurança, transparência e agilidade - melhor previsibilidade da economia, tornando mais factíveis os negócios imobiliários. - obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV) Fonte: Construção civil: Desempenho e Perspectivas. Câmara Brasileira da Indústria da Construção CBIC. Brasília, Disponível em:<http://www.cbic.org.br/sala-deimprensa/noticia/construcao-civil>. Entre os anos de 2004 e 2010 a construção civil cresceu 42,41%%, conforme dados apontados pelo Sinduscon-RJ, representando um acúmulo do PIB da construção de 5,18%. Nos primeiros nove meses de 2011 este mesmo índice teve um percentual de crescimento de 3,8% conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em sua Pesquisa Mensal de Emprego (PME), executada entre os meses de janeiro a outubro de 2011, nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Salvador, o IBGE constatou que a da taxa de desemprego foi de 3,9%. Setores de insumos da construção civil também cresceram neste período. Dados do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) mostraram que o consumo cresceu 8,43% no período compreendido entre janeiro a agosto de 2011 se comparado ao mesmo período de Já o consumo de vergalhão, teve um crescimento de 8,66% no período compreendido entre janeiro a setembro de 2011, segundo dados do Instituto Aço Brasil (IABr). A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) registrou no período de janeiro a outubro de 2011 alta de 2,4%. O crédito imobiliário contribuiu sistematicamente para movimentar a cadeia produtiva do setor gerando renda, emprego e tributos. Os financiamentos imobiliários para aquisição e construção de imóveis com recursos da caderneta de poupança geraram entre janeiro e outubro de 2011, R$64,9 bilhões. Isto representa uma alta de 44,7% em relação a iguais meses 6

7 de Ou seja, enquanto que em 2010 foram financiados unidades, no mesmo período de 2011 foram financiados imóveis. O setor sabe que ter perspectivas positivas não é garantia de resultados. A infraestrutura inadequada contribui para que o crescimento sustentado ainda não seja efetivo. É necessário aumentar a produtividade e o processo de qualificação da mão de obra. A construção civil deve ajustar o processo de crescimento de acordo com as necessidades do País. Dificuldades relacionadas com a qualificação e a contratação de mão de obra, locação de máquinas e equipamentos e prazos para entrega dos materiais por parte dos fornecedores são algumas das situações a serem solucionadas. Para que a construção civil permaneça neste processo de crescimento a estabilidade macroeconômica deverá continuar a impulsionar as atividades do setor. 2. A Segurança do Trabalho na realidade da construção civil A construção civil é um dos setores da economia brasileira que direta ou indiretamente proporciona emprego a uma grande massa de trabalhadores. Entretanto é também, uma das áreas com maior número de acidentes. A retomada das obras de infraestrutura e a crescente evolução na construção imobiliária elevou no Brasil o número de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, originados pelas más condições ambientais. Segundo o Ministério da Previdência Social em seu Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho (AEPS 2010), no ano de 2010 houve uma redução das notificações referente ao número de acidentes. Foram notificados acidentes de trabalho, enquanto que no ano de 2009 foram notificados acidentes. Os acidentes de trajeto tiveram um aumento de 5,11%. Já as mortes decorrentes de acidentes no ambiente de trabalho cresceram 11,4% em 2010 se comparado ao ano de A preocupação com a prevenção de acidentes deve ser um trabalho continuo. Dentro deste processo, a participação ativa de gestores e trabalhadores com procedimentos corretos no ambiente de trabalho são fundamentais. Este processo gera redução dos riscos ocupacionais. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) aprovou através da Portaria 3214 de 08 de junho de 1978 as Normas Regulamentadoras-NR que consolidam as Leis do Trabalho, conforme Capítulo V, Título II, relativo à Segurança e Medicina do Trabalho da Constituição Brasileira. 7

8 A NR 18 refere-se especificamente as Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção. Foi elaborada para atender as atividades da construção civil que estão relacionadas no quadro da Classificação Nacional de Atividade Específica - CNAE. Em seu item 18.1, a norma estabelece como objetivo a implementação de medidas de controle e sistemas preventivos de segurança dentro dos processos e condições do meio ambiente de trabalho. Apesar de que em estabelecimentos com 20 ou mais trabalhadores ser obrigatório à implementação do Programa de Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção PCMAT, observa-se que a efetiva atuação da segurança no ambiente de trabalho ainda deixa a desejar. Entre os problemas encontrados estão à mão-de-obra desqualificada, a falta de treinamento, a despreocupação com o ambiente de trabalho e a falta de compromisso por parte das empresas e empregados. Em agosto de 2012, um operário sofreu um grave acidente em seu ambiente de trabalho. Uma barra de ferro de 300 quilos atingiu sua cabeça penetrando pela parte alta do crânio e saindo entre os olhos, a um centímetro do olho direito. Foto 1 - Operário que teve cabeça perfurada por vergalhão em obra na Zona Sul do Rio Fonte: O trabalhador foi atingido por um pedaço de ferro que despencou do quinto andar do prédio em que trabalhava. Segundo os bombeiros, com a queda de uma altura de 15 metros, o vergalhão ganhou peso equivalente a 300 quilos ao atingi-lo. Após cortaram a barra, os bombeiros levaram a vítima ao hospital que para espanto de todos, chegou falando 8

9 normalmente. O trabalhador foi submetido a uma cirurgia de cinco horas e aparentemente não apresenta nenhum tipo de sequela. 2.1 A educação profissional A educação profissional nos dias de hoje, além de agregar valor na carreira do trabalhador, passou a ser uma exigência do mercado de trabalho. Devido à falta de tempo por parte de alguns trabalhadores e por muitas vezes as distâncias a serem percorridas entre trabalho, escola e residência, algumas empresas passaram a ministrar cursos profissionalizantes em seu ambiente de trabalho. A metodologia de ensino-aprendizado direcionada à educação profissional deve ter como ponto base o trabalho a ser desenvolvido, pois os educandos são de mundos distintos e possuem compreensões diversas. Nesta concepção, existe a necessidade de uma definição quanto à metodologia dos projetos a serem utilizados e trabalhados. O modelo de construção da aprendizagem baseado na abordagem orientada para a eficácia do processo, tem como objetivo principal o treino e o desenvolvimento de competências que, quando aplicado ao trabalho, melhora o desempenho nas questões funcionais e organizacionais. Em uma reportagem apresentada pelo Jornal Nacional (Rede Globo de Televisão) em 23/01/2012, o professor Jonah Rockoff da Universidade de Columbia, e outros dois colegas da Universidade de Harvard elaboraram uma pesquisa sobre a importância da capacitação. Eles acompanharam o desenvolvimento de 2,5 milhões de alunos durante 20 anos. Do total de educandos envolvidos na pesquisa, 85% utilizaram seu aprendizado em benefício próprio o que gerou benefícios diretos e renda à nação. Os 15% de estudantes que não se desenvolveram, geraram perdas financeiras irreparáveis principalmente ao educando e à sociedade. O pesquisador faz uma análise importante. Ele afirma que um sistema educacional profissional de qualidade, reverte-se em taxas menores de criminalidade, avanço econômico para o país e consequentes benefícios para toda a sociedade. Segundo o SESI, Serviço Social da Indústria, em seu relatório do Projeto SESI na Indústria da Construção Civil , a mão-de-obra deste setor apresenta um baixo nível de instrução e qualificação profissional. A maioria dos trabalhadores possui apenas o ensino fundamental completo com uma taxa de analfabetismo de 20%. Do total de trabalhadores, 72,0% nunca realizaram cursos e treinamentos específicos voltados à área da construção civil e muito menos da área de segurança do trabalho. Outro fator preocupante é o alto índice de 9

10 rotatividade no setor. A maioria dos trabalhadores permanece menos de um ano na empresa. Por não terem qualificação, 50,0% dos trabalhadores ganhavam menos de dois salários mínimos. Devido a esta situação e ao atraso tecnológico e cultural do setor, o Governo em 2000 lançou o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) na Construção Civil, destinado a profissionalizar a mão-de-obra, aumentar a produtividade e a competitividade. 2.2 Os riscos do ambiente de trabalho Mundialmente a atividade da indústria da construção civil é considerada perigosa, pois expõe os trabalhadores a variados riscos ocupacionais, com especificidades e intensidades que dependem diretamente do tipo da construção, da etapa da obra e da forma que a empresa conduz os programas e ações de segurança e saúde no trabalho. Os trabalhadores da indústria da construção civil normalmente são expostos a condições e atividades físicas intensas. Estas condições com o tempo acabam por ocasionar doenças ocupacionais que por muitas vezes levam o trabalhador a uma aposentadoria precoce. A fim de minimizar os riscos e cumprindo exigências legais, as empresas fornecem aos trabalhadores os EPI s (Equipamentos de Proteção Individual) necessários ao processo produtivo. Entretanto, existe a necessidade de uma gestão direta quanto ao uso, treinamento e manutenção destes equipamentos junto aos trabalhadores. Na indústria da construção, os acidentes mais simples assim como as exposições menos intensas não são priorizados. As maiores preocupações estão diretamente relacionadas aos acidentes com trabalho em altura, soterramento e trabalho com eletricidade. A análise das características do trabalho e a atuação preventiva através da antecipação, reconhecimento dos riscos, avaliação e controle minimizam acidentes e doenças ocupacionais no canteiro de obra. A adoção e manutenção de regras, métodos e procedimentos voltados a garantir a segurança e saúde dos trabalhadores, ajudam a proteger não só as pessoas envolvidas, mas também o patrimônio da empresa e o entorno canteiro de obras. A Norma Regulamentadora NR 9 do Ministério do Trabalho e Emprego que trata do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais, em seu item 9.1.5, define que: Para efeito desta NR, consideram-se riscos ambientais os agentes físicos, químicos e biológicos existentes nos ambientes de trabalho que, em função de sua natureza, concentração ou intensidade e tempo de exposição, são capazes de causar danos à saúde do trabalhador. 10

11 Fonte: NR-9 (item 9.1.5) do MTE. Disponível em:< Segundo a Portaria nº 25 do MTE de 29 de dezembro de 1994, a classificação dos principais riscos ocupacionais, de acordo com sua natureza são os riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes Riscos físicos São considerados riscos físicos as diversas formas de energia a que possam estar expostos os trabalhadores, tais como: ruído, vibrações, pressões anormais, temperaturas extremas, radiações ionizantes, radiações não ionizantes, bem como o infrassom e o ultrassom. Destes o que atinge mais diretamente os trabalhadores da construção civil é o ruído que tem como consequência direta distúrbios relacionados ao sono, equilíbrio, alteração no sistema circulatório, digestório e reprodutor e problemas psicológicos e sociais. Na construção civil, a utilização de máquinas e equipamentos que possuem um nível de ruído acima do limite de tolerância pode ocasionar a Perda Auditiva Induzida por Ruído PAIR. Entre os equipamentos mais críticos podem ser citados a escavadeira, o bate-estaca, a serra circular, a furadeira, a lixadeira, a esmerilhadeira, a pistola finca-pino, o vibrador de imersão, a perfuratriz e a betoneira Agentes químicos São classificados como agentes químicos, as substâncias, compostos ou produtos que possam penetrar no organismo pela via respiratória, nas formas de poeiras, fumos, névoas, neblinas, gases ou vapores, ou que, pela natureza da atividade de exposição, possam ter contato ou ser absorvidos pelo organismo através da pele ou por ingestão. Na construção civil as poeiras resultantes de trabalhos com cal, cimento, gesso, varrição e corte de madeiras são intensas. As tintas e solventes depreendem vapores orgânicos assim como produtos corrosivos utilizados em limpeza da obra. Muitos destes agentes ocasionam lesões respiratórias nos trabalhadores ao longo de sua vida laboral. Outros como o cimento podem causar queimaduras na pele dos trabalhadores Risco biológico 11

12 Os riscos biológicos estão mais ligados à área da construção civil quando o trabalhador está mais ligado a serviços em tubulações de esgoto ou inexistem condições sanitárias adequadas. Atualmente, situações que envolvam água empoçada, recipientes sem tampa, entulhos e materiais mal organizados favorecem o desenvolvimento de vetores com o mosquito transmissor da dengue Agente ergonômico Apesar de não estarem contidas na relação de agentes de NR 9, as condições de trabalho influenciam diretamente o agente ergonômico. A organização do trabalho e fatores organizacionais relacionados ao ritmo de produção, e a distribuição de tarefas podem trazer sérios riscos ao trabalhador. Posturas inadequadas, exigência de força física intensa, transporte manual de carga e ritmo intenso de trabalho são fatores que levam ao adoecimento do trabalhador Agente acidente Os acidentes são ocasionados principalmente por processos inadequados. Um acidente ocorre devido a um somatório de erros e falhas dentro de um processo produtivo. Análises preliminares de risco- APR, executadas por profissionais qualificados deverão ocorrer. Levantamento das situações por meio da antecipação e reconhecimento dos riscos, avaliandoos e monitorando-os minimizaram acidentes dentro do ambiente de trabalho. Dentro deste contexto, máquinas, equipamentos e ferramentas devem ter manutenção preventiva, pois assegurarão a correta condição para uso. Arranjos físicos inadequados, instalações elétricas improvisadas, trabalhadores sem EPI s são condições que propiciam os acidentes. A falta de treinamento e conscientização quanto aos riscos existentes nos locais de trabalho ou mesmo treinamentos ineficazes são fatores a serem avaliados dentro do canteiro de obras. 3. A legislação O marco inicial nas relações de trabalho se deu em 1943, com o Presidente Getúlio Vargas que a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que visava à regulamentação do trabalho. Dentre as benfeitorias geradas na ocasião, estão a carteira profissional, a regulamentação dos horários de trabalho, as férias remuneradas, a instituição 12

13 das Comissões Mistas nas Juntas de Conciliação e o estabelecimento das condições de trabalho para menores de dezoito anos. A legislação brasileira voltada à área da segurança do trabalho possui mais de trinta anos. Foi instituída por meio da Portaria de 8 de junho de 1978 que, aprovava as Normas Regulamentadoras tendo como base o Capítulo V, Título II da Consolidações das Leis do Trabalho, relativas a Segurança e Medicina do Trabalho. Na ocasião, existiam vinte e oito normas regulamentadores. Hoje, já são trinta e cinco normas abrangendo diversas áreas de trabalho. Entretanto, seu ponto base foi em 22 de dezembro de 1977 onde a Lei nº alterava a Consolidação das Leis do Trabalho. Seu objetivo base não era apenas evitar acidentes, mas também garantir melhores condições de trabalho, incluindo obrigatoriedades para as empresas e empregados. Devido à modernização dos processos produtivos e atendendo a necessidade de maior controle e cuidados com o ambiente laboral, algumas normas foram atualizadas. Outras encontram-se em processo de atualização. Esta demanda se faz necessária tendo em vista a dinâmica da realidade produtiva brasileira A segurança do trabalho A segurança no ambiente de trabalho depende diretamente das medidas e metodologia aplicadas no processo produtivo. Técnicas apropriadas devem ser adotadas para minimizar os acidentes, pois o objetivo maior é a prevenção de acidentes e a ocorrência de doenças ocupacionais. A integridade física do trabalhador e sua capacidade de trabalho devem ser preservadas. Os processos de produção nem sempre possuem mecanismos ou dispositivos que garantam total segurança ao trabalhador. A cultura de segurança também deverá estar voltada a vida pessoal do trabalhador. Fatores como qualidade e valorização do seu ambiente de trabalho ser considerados. As empresas devem oferecer ao trabalhador uma estrutura necessária para que seja possível desenvolver suas atividades laborais. Refeitórios, área de lazer, vestiários e uma educação seja ela profissionalizante ou básica trazem ao trabalhador perspectivas que revertem em um maior compromisso deste com a empresa em que trabalha. A cultura da segurança do trabalho deve ser fomentada em todos os níveis da empresa englobando desde o trabalhador braçal até a alta gerência, pois sem ela, não há ambiente livre de acidente de trabalho. O reconhecimento processo saúde-doença dos trabalhadores tem implicações éticas, técnicas e legais, que se reflete sobre a organização e as ações relativas à 13

14 saúde. Doenças comuns, aparentemente sem qualquer relação com o trabalho ou agravos específicos tem levado as autoridades a fazerem um estudo mais aprofundado sobre o assunto. Segundo o Ministério da Saúde em seu Manual Técnico sobre Doenças Relacionadas ao Trabalho, 2001, os agravos específicos estão incluídos na relação de doenças profissionais, para as quais se considera que o trabalho ou as condições em que ele é realizado constituem causa direta. Tabela 3 Classificação de doenças segundo sua relação com o trabalho Fonte: Ministério da Saúde do Brasil. Série A. Normas e Manuais Técnicos; n Brasília/DF, A partir de entrevista realizada com o paciente/trabalhador, poderá ser feita uma exploração das condições de exposição e fatores de risco a que se encontra nos ambientes de trabalho. Estas informações deverão ser complementadas com a ajuda de literatura técnica especializada, a observação do posto de trabalho e informações sobre a atividade exercidas. Segundo o Ministério da Saúde, Entre as principais dificuldades para o estabelecimento do nexo ou da relação trabalho-doença estão: - ausência ou imprecisão na identificação de fatores de risco e/ou situações a que o trabalhador está ou esteve exposto, potencialmente lesivas para sua saúde; - ausência ou imprecisão na caracterização do potencial de risco da exposição; - conhecimento insuficiente quanto aos efeitos para a saúde associados com a exposição em questão; - desconhecimento ou não-valorização de aspectos da história de exposição e da clínica, já descritos como associados ou sugestivos de doença ocupacional ou relacionada ao trabalho; - necessidade de métodos propedêuticos e abordagens por equipes multiprofissionais, nem sempre disponíveis nos serviços de saúde. Fonte: Ministério da Saúde do Brasil. Série A. Normas e Manuais Técnicos; n Brasília/DF,

15 Não se pode esquecer que a abordagem multiprofissional com relação ao estudo da saúde do trabalhador deve ser levada em consideração a responsabilidade do médico do trabalho que deverá estabelecer a relação causal ou nexo técnico entre a doença e o trabalho. Em novembro de 2009 o Ministério Público do Trabalho (MPT), lançou um programa de fiscalização da segurança no trabalho e da regularidade do funcionamento de empresas da construção civil. Segundo o coordenador do programa o procurador Alessandro Miranda, a fiscalização constatou irregularidades na maioria das empresas que trabalham com precariedade na proteção coletiva e individual dos trabalhadores. A falta de treinamento para as atividades na construção civil motivam a maioria das notificações. 4. A sustentabilidade na construção civil A reciclagem dos produtos gerados dentro do universo da construção civil tem levado empresas e trabalhadores valorizarem esta prática. Estudos mostram que empresas que possuem esta prática são valorizadas no mercado e em contrapartida observam que custos podem ser minimizados com a utilização de técnicas de reciclagem de produtos gerados nas construções. Entretanto, o processo pode ocasionar situações mais impactantes do que o próprio resíduo, como a quantidade de energia empregada ou os resíduos que esta possa gerar. Em seu artigo sobre o desenvolvimento sustentável e a reciclagem de resíduos na construção civil, Ângulo (2001), cita que dependendo de sua periculosidade e complexidade, estes rejeitos podem causar novos problemas, como a impossibilidade de serem reciclados, a falta de tecnologia para o seu tratamento, a falta de locais para dispô-lo e todo o custo que isto possa ocasionar. Um parâmetro que muitas vezes não é levado em conta é o risco que este resíduo pode gerar com relação à saúde dos trabalhadores ou usuários. Muitas vezes estes resíduos podem conter compostos orgânicos voláteis ou metais pesados que no processo de reciclagem apresentam riscos com relação aos seus componentes. Com isso, poderá ocorre que o público consumidor associe o produto reciclado a produto de baixa qualidade e de alto risco contaminante. 4.1 A reciclagem de resíduos da construção civil no Brasil No Brasil, a prática de reciclagem dos resíduos da construção civil ainda é pequena. Atualmente com advento da Copa das Confederações, Copa do Mundo de Futebol em 2016, a 15

16 exigência deste tipo de prática passou a ser exigida nos processos produtivos para a construção e reforma das arenas esportivas. No Estado de São Paulo, a mais de dez anos foi implementada uma Política Estadual de Resíduos Sólidos, aprovado pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente. Ficou estabelecido que deverá haver uma política sistemática de resíduos, incluindo ferramentas para minimização e reciclagem de resíduos. Em maio de 1999, o Estado de São Paulo promulgou a Lei nº10.311, que criou o Selo Verde. Este Selo é um certificado de qualidade ambiental, conferido pela CETESB. Ele executa programas de proteção e preservação do meio ambiente. Após a segunda guerra mundial, a Europa começou a fazer uso de resíduos de construção e demolição (RCD) como material de construção civil. Dependendo de fatores como da disponibilidade de recursos naturais, situação econômica e tecnológica do país e densidade populacional, hoje a reciclagem destes produtos pode chegar a 90%. Em Minas Gerais, o município de Belo Horizonte utiliza basicamente os resíduos de construção e demolição como base para pavimentação. Este processo teve início na década de noventa quando o município de São Paulo passou a utilizar o sistema de reciclagem do asfalto e dos agregados do concreto asfáltico. Entretanto, um dos maiores problemas é a variabilidade da composição o que ocasiona propriedades diferenciadas desses agregados reciclados. Outro fator importante a ser observado dentro deste processo, é a necessidade de qualificação de mão-de-obra para transformação deste resíduo, visto que alguns podem gerar resíduos tóxicos para os trabalhadores. Dentro desta qualificação, a informação com relação à segurança no ambiente de trabalho é de suma importância. 5. Conclusão Independentemente do processo produtivo e da matéria prima a ser utilizada, seja ela reciclada ou não, questões relacionadas à segurança do trabalho e a qualidade deste ambiente devem ser estudadas e verificadas constantemente. Existe a necessidade da qualificação constante da mão-de-obra deste setor, visto a alta rotatividade do setor e o baixo nível de instrução que a maioria destes profissionais possui. Qualidade no ambiente de trabalho significa maior índice de produção e menor índice de acidentes. A conscientização tem que ser de todos, trabalhadores e empregadores. Com a valorização da vida, as doenças ocupacionais e os acidentes de trabalho tenderão a se reduzir. Referências Bibliográficas 16

17 Aluno com bons professores ganha mais no mercado de trabalho no futuro. Portal G1. Globo. Rio de Janeiro, Disponível em: < Acesso em jun.2012 ÂNGULO, Sérgio Cibelli; ZORDAN, Sérgio Eduardo; JOHN, Wanderley Moacyr. Desenvolvimento sustentável e a reciclagem de resíduos na construção civil. Departamento de Engenharia de Construção Civil Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. São Paulo, Disponível em:< Acesso em: 21 fev AMORIM, Marisa Rasura de. Os caminhos da educação profissional voltados para ao Técnico em Segurança do Trabalho. Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado como requisito parcial, para obtenção do título de Especialista em Docência para a Educação Profissional, ao Departamento de Pós-EaD. SENAC, Rio de Janeiro, jun Anuário Estatístico da Previdência Social. Ministério da Previdência Social, Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social DATAPREV. Brasília, 2010 Banco de Dados da CBIC. Câmara Brasileira da Indústria da Construção. São Paulo, Disponível em:< Acesso em 25 set Doenças Relacionadas ao Trabalho. Ministério da Saúde do Brasil. Série A. Normas e Manuais Técnicos; n Brasília/DF, Disponível em:< Acesso em: 25 mar Construção civil: Desempenho e Perspectivas. Câmara Brasileira da Indústria da Construção CBIC. Brasília, Disponível em:<http://www.cbic.org.br/sala-deimprensa/noticia/construcao-civil>. Acesso em: 29 set DIEESE Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Estudo e Pesquisas. Estudo Setorial da Construção nº 56. abr Disponível em:<http://dieese.org.br/esp/estpesq56construcaocivil.pdf>. Acesso: 25 set LITTO, Fredric Michael. Contribuição da Associação Brasileira de Educação a Distância em continuidade à Carta aos Candidatos à Presidência, a ser apresentada à Equipe de Transição da Presidência da República Federativa do Brasil. Brasília,

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19 19

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