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1 FACULDADE DE DIREITO UNIVERSIDADE DE COIMBRA Direito Constitucional II (1.ª Turma) 2.º Teste (Avaliação Repartida) 25 de Maio de 2010 Duração: 1 hora + 30 m I (8 valores) Atente nas seguintes afirmações, escolhendo, em cada grupo, apenas a afirmação verdadeira, transcrevendo-a para a sua folha de teste com a indicação da respectiva alínea. Relativamente aos grupos 1 e 3, a sua escolha tem que ser devidamente fundamentada. 1. (1 + 2,5 valores) a) No caso de revisão extraordinária, exige-se uma maioria de 4/5 dos deputados presentes para a sua aprovação. b) O Governo pode iniciar um processo de revisão constitucional. c) A Constituição portuguesa de 1976 admite expressamente a sua revisão total. d) Os limites do poder constituinte originário são também limites do poder de revisão. Com efeito, o poder de revisão, para além dos limites expressamente consagrados na Constituição, também tem que respeitar os limites próprios do poder constituinte originário, sob pena de se subverter a própria constituição. Quantos aos limites de revisão previstos na Constituição, eles estão nos artigos 284.º ao 289.º e são: a) Formais: apenas os deputados podem iniciar um processo de revisão constitucional, é necessária uma maioria de 4/5 dos deputados para se dar início a uma revisão extraordinária (enquanto que para a ordinária não se requer qualquer maioria) e as leis de revisão são aprovadas por maioria de 2/3 dos deputados. b) Temporais: só se pode rever a Constituição de 5 em 5 anos, sendo este um limite mínimo e apenas se contabilizando neste cálculo as revisões ordinárias. O legislador pode, porém, assumir poderes de revisão antes de decorridos 5 anos, desde que se consiga reunir o consenso de uma maioria de 4/5 dos deputados para se dar início à revisão que se considerará extraordinária. c) Circunstanciais: não se pode realizar uma revisão constitucional em casos de excepcionalidade ou anormalidade constitucional como, por exemplo, durante o estado de sítio ou estado de emergência. 1

2 d) Limites materiais: relativos àquele leque de matérias, consideradas como o cerne material da ordem constitucional, que se furtam ( ) à disponibilidade do poder de revisão (Canotilho, 1064). 2. (1 valor) a) Os conceitos de poder constituinte originário e de poder de revisão são sinónimos. b) Em 2005 foi criada uma nova Constituição. c) As revisões extraordinárias são aquelas que ocorrem em momentos de excepcionalidade constitucional. d) Em Portugal utiliza-se a técnica da revisão expressa. 3. (1 + 2,5 valores) a) Em Portugal só o Tribunal Constitucional é um órgão de justiça constitucional. b) Os efeitos temporais regra de uma declaração de inconstitucionalidade são retroactivos ou ex tunc. Com efeito, de acordo com o n.º 1 do art. 282.º da CRP, a declaração de inconstitucionalidade produz efeitos desde a entrada em vigor da norma inconstitucional, ou seja, produz efeitos para o passado. No entanto, por motivos de segurança jurídica, o n.º 3 do mesmo preceito estabelece que ficam ressalvados os casos julgados (princípio da intangibilidade do caso julgado), os quais não irão beneficiar da decisão do TC. Gomes Canotilho entende que se deve interpretar de forma lata esta ressalva, nela abrangendo todas as situações extintas, ainda que não pela via judicial. Ainda no mesmo n.º 3 estabelece-se uma excepção à ressalva, podendo os casos julgados vir a ser reabertos. Para isso, é preciso que se verifiquem cumulativamente três condições: 1) Que haja uma decisão do TC nesse sentido; 2) Que a norma objecto de fiscalização seja em matéria penal, disciplinar ou de mera ordenação social e 3) Que seja menos favorável para o arguido. c) Em Portugal, os tribunais ordinários, quando confrontados com uma questão de inconstitucionalidade, têm que suspender o processo e solicitar um parecer ao TC. d) Qualquer norma pode ser objecto de fiscalização preventiva. II (12 valores) A Assembleia da República (AR) aprovou um projecto de lei que cria o CITIUS, o sistema de informatização e simplificação da justiça. Entre outras coisas, nele se prevê que alguns dos actos processuais praticados pelos juízes apenas existirão em suporte digital, só 2

3 devendo existir nas duas versões (suporte digital e suporte escrito) aqueles actos relativos às peças processuais mais relevantes. Após a entrada em vigor desta lei, o Governo aprovou uma portaria estabelecendo quais as peças processuais mais relevantes e, para além disso, estipulando que os magistrados do Ministério Público e os advogados também ficariam obrigados a utilizar a via electrónica para a realização de uma série de actos processuais, ficando os últimos sujeitos a uma multa de 500 em caso de não cumprimento do disposto na portaria. A Ordem dos Advogados (OA) reagiu prontamente a estas medidas, alegando que a dita portaria é inconstitucional, uma vez que restringe o direito de acesso à justiça e aos tribunais (art. 20.º da CRP), pois vai tornar o recurso à justiça mais caro, para além de que as referidas medidas nunca poderiam ser adoptadas através de uma portaria. 1. Pretendendo que a referida portaria seja considerada inconstitucional, o Bastonário da O.A. solicita ao Procurador-Geral da República que promova o processo de fiscalização preventiva, com o objectivo de impedir a sua entrada em vigor. Aprecie, do ponto de vista jurídicoconstitucional esta pretensão. (2 val.) Antes de mais, trata-se de uma portaria, logo não pode ser objecto de fiscalização preventiva (arts 278.º e 279.º, da CRP), a qual tem um objecto restrito: leis, decretos-leis, tratados, acordos e decretos legislativos regionais. Para além disso, ainda que a portaria fosse susceptível de fiscalização preventiva, a OA fez mal em dirigir-se ao Procurador-Geral da República (certamente através do seu direito de petição: art. 52.º CRP), uma vez que este não tem legitimidade processual activa. 2. Tendo a portaria entrado em vigor, a O.A. pretende impugnar junto do tribunal de comarca as normas que obrigam os advogados a utilizarem a via electrónica para a prática da generalidade dos actos processuais, alegando a sua inconstitucionalidade Poderá fazê-lo? Justifique. (1 val.) Não, uma vez que a questão de inconstitucionalidade não pode ser colocada directamente junto de um tribunal ordinário. Apesar de em Portugal os tribunais ordinários terem competência para fiscalizar a inconstitucionalidade das normas (controlo difuso art. 204.º da CRP), a questão de inconstitucionalidade é sempre uma questão incidental e não a questão principal (que é a questão de fundo ou de mérito). A OA só poderia suscitar o incidente de inconstitucionalidade no âmbito de um processo a decorrer num tribunal ordinário e se fosse parte num processo Tendo em consideração os argumentos utilizados pela OA, que tipos de vícios de inconstitucionalidade estariam em causa? (2 val.) 3

4 Vício formal pois o Governo legislou através de uma portaria e, nesta matéria da restrição de direitos, liberdades e garantias, apenas poderia legislar através de um acto normativo com a forma de decreto-lei autorizado. Vício material por alegada violação do direito de acesso à justiça e aos tribunais (art. 20.º da CRP) 3. A. Marinho, advogado, foi condenado ao pagamento de uma multa por ter entregue peças processuais não consideradas relevantes em suporte escrito. Pretendendo impugnar judicialmente a decisão que aplicou a multa, dirige-se ao tribunal competente Considerando que as normas da portaria são inconstitucionais, disporá ele de algum meio de protecção que conduza ao controlo de constitucionalidade? (1 val.) Sim, ele dispõe do direito de suscitar o incidente de inconstitucionalidade, que é um meio de protecção jurisdicional dos direitos fundamentais Alertado pelo referido advogado para a eventual inconstitucionalidade das normas em apreço, o tribunal entende, porém, proferir uma decisão negativa de inconstitucionalidade. Quem e em que termos pode recorrer dessa decisão? (3 val.) Sendo a decisão negativa, isto significa que o juiz a quo não julgou a norma inconstitucional e aplicou-a ao processo. Apenas pode recorrer desta decisão para o TC a parte que tiver suscitado o incidente de inconstitucionalidade durante o processo (art. 280.º, n.º 4, da CRP). Quanto ao MP, tem o TC vindo a entender que este poderá recorrer se for parte no processo, se tiver sido ele a suscitar o incidente de inconstitucionalidade e, em regra, quando tenha uma intervenção principal no processo. Não se pode recorrer directamente para o TC, devendo sempre esgotar-se previamente os recursos ordinários (exaustão de recursos ordinários) Suponha que, na sequência de um recurso, o TC julga inconstitucionais as referidas normas. Quais efeitos (directos e reflexos) que produz essa decisão? (3 val.) Efeitos directos (art. 80.º, n.º 1, da LTC): 4

5 1) Caso julgado: a decisão do TC é definitiva no âmbito daquele processo; 2) Eficácia inter partes: a norma julgada inconstitucional não é invalidada, apenas sendo desaplicada no caso concreto; 3) Efeitos restritos à questão de inconstitucionalidade ou de ilegalidade: o TC limita-se a apreciar se uma determinada norma é inconstitucional ou ilegal, não apreciando a questão de mérito ou questão de fundo (art. 80.º, n.º 1, da LTC). Efeitos indirectos ou reflexos: 1) Obrigatoriedade de o MP recorrer para o TC sempre que seja aplicada uma norma anteriormente julgada inconstitucional ou ilegal pelo próprio TC (art. 280.º, n.º 5, da CRP); 2) A decisão de inconstitucionalidade pode servir de pressuposto ao processo de declaração de inconstitucionalidade com base no controlo concreto ou processo misto (arts 281.º, n.º 3, da CRP, e 82.º da LTC). 5

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