GT. Nº 8 A CIDADE: POLÍTICAS PÚBLICAS E OS TERRITÓRIOS DA POLÍTICA

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1 GT. Nº 8 A CIDADE: POLÍTICAS PÚBLICAS E OS TERRITÓRIOS DA POLÍTICA A IMPORTÂNCIA DO CEMITÉRIO ENQUANTO OBJETO ARQUITETÔNICO E EQUIPAMENTO URBANO PARA A CIDADE XAVIER DE OLIVEIRA, José Maria 1 RESUMO Este artigo tem como principal objetivo abordar a questão dos cemitérios nos centros urbanos e sua importância arquitetônica e urbana no momento da concepção e implantação do mesmo. Em cidades cada vez mais aglomeradas pelo grande crescimento urbano, estes espaços devem ser planejados levando em consideração muito mais do que todos os mitos e subjetividades que o cercam, é preciso ir mais além, sem deixar de lado seu simbolismo e atentar para os impactos que este possa causar não só no seu entorno imediato, mas, de toda a cidade. O desenvolvimento do trabalho se deu através da compilação de material bibliográfico, que ainda é bem escasso sobre a temática abordada, e as legislações municipais, estaduais e federais que ditam parâmetros referentes a este tipo de equipamento. É sabido que existe muita resistência do ser humano quando o assunto é a morte, por isso, acaba existindo certa negligência, quando é preciso pensar nos espaços destinados a este fim e sua inserção na malha urbana. Percebe-se, que em centros urbanos cada vez mais adensados, áreas livres se tornam raras, e com a morfologia urbana sempre em processo de transformação, é preciso buscar alternativas arquitetônicas e morfológicas, pois, mesmo com novos pensamentos típicos de uma sociedade capitalista, os espaços cemiteriais e os sepultamentos continuam presentes na vida cotidiana, fazendo parte da paisagem urbana, e dificilmente se consegue mudar o uso e necessidade destes. Considera-se, a necessidade de planejar e projetar o cemitério, para que este seja usado não só na hora da morte, mas, também, durante o dia a dia dos vivos, buscando se pensar em novos usos para este equipamento. Os cemitérios podem ser considerados importantes elementos para constituir novas centralidades urbanas, e a partir de seus diferentes aspectos despertar, para o enfrentamento da questão das necrópoles dentro das cidades e o conjunto de recursos necessários ao encaminhamento sustentável das requisições sócio-ambientais, indo além do seu caráter simbólico, e tratá-lo como uma questão política e técnica da gestão urbana nas cidades. Palavras-chave: Espaços cemiteriais. Morte. Cemitérios. Inumação. Morfologia urbana. ABSTRACT This article aims to address the issue of cemeteries in urban areas and its architectural and urban importance when designing and implementing the same. In cities increasingly crowded by the great urban growth, these spaces should be planned taking into account much more than all the myths that surround and subjectivities, we must go further, without neglecting its symbolism and pay attention to the impacts that this can cause not only in their immediate surroundings, but the entire city. The development work was through the compilation of bibliographic material, which is still scarce on the 1 Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Ciências Tecnológicas Santo Agostinho FACET. 1

2 subject addressed, and local, state and federal laws that dictate parameters for this type of equipment. It is known that there is a lot of resistance from the human when it comes to death, so there just certain negligence, when you need to think about the spaces for this purpose and its insertion into the urban fabric. It is noticed that in increasingly dense urban centers, open spaces become rare, and always with the urban morphology in the transformation process, it is necessary to seek architectural and morphological alternatives, because even with new thoughts typical of a capitalist society, the cemeterial spaces and burials are still present in everyday life, part of the urban landscape, and can hardly change the use and need of these. Considered, the need to plan and design the cemetery, so that it is used not only in death, but also during the day to day of living, seeking to think of new uses for this equipment. Cemeteries can be considered important elements for establishing new urban centralities, and from its different aspects awakening, to address the issue of cemeteries within the town and the set of resources needed for sustainable socio-environmental forwarding requests, going beyond the symbolic character, and treat it as a political and technical issue of urban management in cities. Keywords: Spaces cemeteries. Death. Cemeteries. Burial. Urban morphology. 1. INTRODUÇÃO Desde o surgimento dos tempos e passando por todos os períodos da história, é fato que houve um enorme progresso e desenvolvimento em todos os campos da vida humana, sejam eles sociais, econômicos, ambientais, tecnológicos, políticos e filosóficos. E analisando vários momentos nas diferentes civilizações, sejam ocidentais ou orientais, das mais antigas até nossos dias, fica claro que cada cultura, de maneira particular, criou seus rituais e símbolos para recordar e respeitar seus mortos. A escolha do tema surgiu da necessidade de reconhecer o cemitério como importante objeto arquitetônico e equipamento urbano para a cidade, que de certa forma, vem sendo negligenciado em questões de espaço físico e exigências legais de funcionamento, mas, como qualquer outro, necessita de um planejamento e legislação específicos, e ainda instiga o imaginário humano, despertando o intuito de aprofundar-se no estudo e desenvolvimento da questão a respeito do tema. A principal dificuldade encontrada foi o levantamento de literatura sobre o tema, contribuindo ainda mais na escolha. Os cemitérios hoje existentes são, muitas vezes, construções de meados do século XIX, já não desempenham mais a sua finalidade básica que são as inumações 2 e, na sua maioria, já estão saturados, passando por diversos problemas, sendo preciso se atentar para todos os 2 Inumações (sepultamentos) 2

3 impactos que este tipo de equipamento urbano vem gerar não apenas no entorno imediato, mas em toda a cidade. Por isso, torna-se necessário analisar espacialmente os cemitérios existentes e sua funcionalidade, buscando novas concepções para a atualidade. O objetivo deste artigo é abordar a questão dos cemitérios nos centros urbanos e sua importância arquitetônica e urbana no momento da concepção e implantação do mesmo, na intenção de minimizar agravantes dos espaços com função cemiterial, e oferecer aos usuários uma estrutura física adequada aos conceitos da arquitetura funerária atual, atendendo às leis e regulamentações ambientais. Espera-se, do lugar um traçado contemporâneo, deixando para trás o cenário de dramaticidade dos cemitérios existentes, buscando manter parte da simbologia presente na morte e o caráter de monumento à memória dos mortos que os vivos, até os dias de hoje, procuram cultuar. E, também, despertar no meio acadêmico algum interesse sobre o assunto, pois é natural ao ser humano uma resistência sobre a temática da morte. É certo que a temática aqui abordada envolve muito mais que mitos e subjetividades, mas questões de extrema importância para o desenvolvimento e implantação de um equipamento urbano como o cemitério. Esses espaços devem ser pensados e planejados de forma a se integrarem à paisagem urbana, pois, dificilmente se consegue mudar o uso e necessidade destes. Assim é preciso buscar alternativas arquitetônicas e morfológicas, para que o cemitério seja usado não só na hora da morte, mas, também, durante a vida e, porque não, também cotidiana?! 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 A Origem da palavra cemitério e dos espaços cemiteriais A palavra cemitério origina-se do grego Koumetèrion: Que se referia ao local onde se dormia. Essa apropriação do termo ocorreu pela Igreja Católica (descanse em paz) onde o descanso do senhor morto foi feito na mansão dos mortos, até a ressurreição ao terceiro dia, usando a palavra do latim coemiterium. (REZENDE, 2007, p.12) Sobre as primeiras configurações dos espaços cemiteriais, sabe-se que estes surgiram a partir de dez mil anos antes de Cristo entre o período paleolítico e o neolítico, e sua morfologia 3

4 era composta por sepulturas agrupadas, túmulos individuais e coletivos como define Campos (2007). E assim: Em meio às andanças inquietas do homem paleolítico, os mortos foram os primeiros a ter uma morada permanente: uma caverna, uma cova assinalada por um monte de pedras, um túmulo coletivo. Constituíam marcos aos quais provavelmente retornavam os vivos, a intervalos, a fim de comungar com os espíritos ancestrais ou de aplacá-los. (MUMFORD,1998, p.13) Rezende (2007) afirma ainda que enquanto o homem pré-histórico circulava em busca de alimentos, os mortos ficavam alojados nas cavernas fazendo com que as cidades dos mortos precedessem à cidade dos vivos, e confirmando: A cidade dos mortos antecede a cidade dos vivos. Num sentido, aliás, a cidade dos mortos é a precursora, quase o núcleo, de todas as cidades vivas. A vida urbana cobre o espaço histórico entre o mais remoto campo sepulcral da aurora do homem e o cemitério final, a Necrópolis em que uma após outra civilização tem encontrado o seu fim. (MUMFORD, 1998, p. 13) 2.2 A morte para os diferentes povos De acordo com Rezende (2007, p ), na antiguidade, o destino dos mortos era muito diversificado. De acordo com cada povo, era dado um encaminhamento diferente aos mortos; além da terra, o fogo, a água e o ar eram elementos reservados aos cadáveres. E, para fundamentar a necessidade e importância do cemitério como equipamento urbano, verificou-se que, desde os tempos mais remotos, este já se fazia presente no cotidiano da vida humana das diversas civilizações. Dentre elas, destacam-se algumas como objeto de análise e estudo, e apresentadas a seguir O povo pré-histórico Na Europa, cerca de cinco mil anos antes de Cristo, o povo pré-histórico fazia uso de túmulos coletivos, também conhecidos como megálitos, que eram grandes blocos de pedras, possuíam uma arquitetura monumental e eram utilizados por determinada comunidade para sepultamentos contínuos e várias práticas mortuárias: inumação, incineração, mumificação e colocação de cadáveres comprimidos em potes, como, disse Campos (2007). 4

5 2.2.2 A civilização egípcia De acordo com Rezende (2007), os egípcios foram o que tiveram mais preocupação com a morte e o morto. O primeiro livro da humanidade atribuído à civilização egípcia tem, como temática a morte, falando de todo o processo que o morto passaria até a ressurreição. A grande maioria da população era enterrada nas areias do Saara em locais chamados de mastabas e os faraós nas grandes pirâmides em câmaras mortuárias sempre bem escondidas, entre inúmeras passagens e labirintos a fim de preservar bem o cadáver. Estes eram sempre enterrados junto a suas riquezas, despertando a atenção de ladrões e profanadores de túmulos. Mais tarde, essas edificações passaram a ser feitas de forma mais simples freando a ostentação e a ação de ladrões e deixando um alerta: os criadores da ostentação e da desigualdade social acabam se tornando prisioneiros e não há local onde eles possam se esconder. E a concepção da necrópole egípcia era formada por uma grande pirâmide real e pirâmides menores alinhadas em ruas ou dispersas, estas sempre destinadas aos nobres. Com o tempo, os túmulos tornaram-se subterrâneos, alguns sob a terra e outros em granito nas montanhas, como descreve Campos (2007), e esta ainda relata sobre as seguintes civilizações (2007): A civilização persa Os persas tinham nos mortos um espírito do mal, que trazia doenças e contaminava os elementos da natureza, por isso não queimavam, enterravam ou atiravam às águas o cadáver. Estes eram colocados sobre um lugar elevado e descoberto, preso por pedras e com a face voltada para o sol, onde os animais e aves devoravam o cadáver ali deixado e acreditavam que essa prática era uma forma de purificar o corpo do morto. Esses rituais foram praticados por muito tempo e, só nos primeiros séculos desta era, que adotaram o uso de túmulos para as inumações Os fenícios Esta civilização tinha na inumação seu principal ritual, apreciavam os belos túmulos com grandes câmaras cortadas em rochas, construíam urnas em pedras, tijolo, madeira ou barro, dotadas de tampas lisas e baixas, ou altas com a base mais larga. Para os rituais vulgares e sacrifícios faziam uso da cremação. 5

6 2.2.5 O povo judeu Os judeus tinham a inumação como ritual universal de sepultamento desde a época dos semitas. Os corpos eram enterrados em grutas naturais ou hipogeus (escavações) artificiais em forma de poços, recobertos por abóbadas. Já os que não tinham meios para construir esses tipos de túmulos eram sepultados em campo aberto, em valas comuns. Com o passar do tempo, o costume simplificou-se e os mortos passaram a ser enterrados envoltos em sudários ou mortalhas, dentro de caixões ou urnas, em covas abertas diretamente no solo. Uma vez ali enterrado, não era permitida a exumação do corpo, que permanece perpetuamente no local, identificado apenas por uma lápide Os chineses Devido à escassez de terrenos e seus altos preços, os chineses não recorriam às inumações e adotaram como costume a cremação entre as pessoas do povo e classe média, esta prática era contrária às tradicionais, mas propagou-se por toda a China, apesar da oposição dos poderes públicos. A adoção desse hábito teve motivação econômica e de concepção budista, assim os fornos crematórios eram situados dentro dos mosteiros budistas. Após a cremação, as cinzas eram espalhadas por frades nos pântanos ou recolhidas em potes de barros, que eram depositados em túmulos fora das muralhas das cidades, o que deu origem aos cemitérios públicos chineses Os árabes Os árabes, após os diversos rituais fúnebres, levavam o corpo para uma cova aberta diretamente no solo, com um tijolo sob a cabeça e outros dispostos à sua volta, formando uma espécie de abóbada sobre o cadáver. Um monumento de tijolos ou pedras indicava o lugar do corpo e por cima se gravava o nome do falecido, com idade, suas principais qualidades e data da morte, além do credo islâmico ou oração. Pessoas ricas e importantes construíam mausoléus. Os pensadores do século X criticavam a prática de depositarem os corpos diretamente na terra, acreditavam que os cadáveres infectavam o solo em vez de o adubarem e defendiam a cremação, como processo mais higiênico e inteligente. 6

7 2.2.7 Raças indo-européias Acreditavam na alma e achavam que ela permanecia perto dos homens, vivendo debaixo da terra, associada ao corpo na sepultura. Assim, os túmulos passaram a ser templos de divindades para culto aos antepassados. Ninguém tinha o direito de tirar o morto da terra que ocupava e o túmulo só podia ser mudado de lugar ou destruído com autorização de pontífices. Quem garantia o direito de propriedade não era as leis e sim a religião, por meio das sepulturas. Com o passar do tempo, os sepultamentos passaram a ser feitos fora dos muros das cidades em sepulcros familiares ou comuns, sem perder o hábito do culto aos mortos que agora se iniciava com os ritos funerários e terminavam nas sepulturas, para ser reverenciado e nunca esquecido. Ainda construíam câmaras sepulcrais, compostas de nichos nas paredes, destinados a receber as urnas com as cinzas, denominadas columbários Cristãos Repugnavam a cremação do corpo, por isso adotaram como costume inumar os cadáveres envoltos em sudários dentro de sarcófagos, como os judeus. Com a necessidade de espaços para esse fim, criaram locais denominados catacumbas que eram galerias e câmaras subterrâneas, com nichos abertos ao longo das paredes onde passaram a depositar os caixões. Os túmulos eram simples, sem adorno e recebiam apenas pinturas de fiéis em prece e símbolos que lembravam o Cristo. E foi no século IV que se adotou o costume de enterrar os mortos no interior das igrejas ou no seu entorno, surgindo os cemitérios. 2.3 A atual configuração dos espaços cemiteriais Os espaços cemiteriais, com suas atuais formas e composições, tiveram sua origem no século XVIII conforme se descreve: Cemitérios com a feição atualmente conhecida, surgiram no século XVIII, época em os romanos iniciaram a construção dos túmulos fora das cidades pela observância e conscientização de princípios de higiene. Na época da proibição dos sepultamentos no interior das igrejas, iniciou-se o hábito de se construir túmulos que são consideradas obras de arte assinadas por renomados escultores. (CAMPOS, 2007, p. 40) 7

8 De acordo com Vovelle (apud Carrasco & Nappi, 2009, p.48) o lugar dos mortos se modificou significativamente no decorrer dos tempos. No século XIX, os cemitérios assumem grande importância no imaginário visionário dos arquitetos. É neste período que surgiram os grandes projetos dos cemitérios urbanos. E como vemos no relato: Nas sociedades ocidentais buscou-se sempre preservar ou guardar os vestígios dos mortos, seja por meio das construções de túmulos monumentais, como em algumas civilizações do passado e também nos primeiros cemitérios secularizados, seja em suas versões contemporâneas, nos cemitérios-jardins ou nos cemitérios verticais. (MOTTA, 2009, p.73) Na visão do Motta (2010, p.57), uma das maneiras de se entender como o processo de secularização interferiu na maneira sobre o cuidar dos mortos pode ser visualizada não apenas através das transformações no campo ritual, mas por meio da arquitetura cemiterial. A inserção de projetos arquitetônicos nos cemitérios, de acordo com Borges (2005, p. 5), caracteriza-se por ser mais uma atitude particularizada dos arquitetos, escultores e proprietários de jazigos diante da morte do que uma tendência ou movimento preocupado em impor ao local um toque de modernidade. Assim: Uma das tendências foi tornar os túmulos mais versáteis, funcionais e menos decorativos, com capacidade de renovação nos locais de enterramento, já que suas morfologias também deveriam se nortear por princípios racionais, adequados então às pequenas dimensões dos lotes ainda disponíveis. (MOTTA, 2009, p.86) Massad & Yeste (2010) exemplificam que Aldo Amoretti e Marco Calvi construíram uma necrópole contemporânea cujas estruturas foram concebidas para acolher o processo natural de transformação do corpo morto. Ou seja, a solução funcional que rege o programa deste cemitério cujo objetivo primordial é evitar a saturação se baseia no respeito tributado à memória dos que ali descansam e no inevitável esquecimento progressivo sobre eles, trazido pelo tempo. Portanto, são válidas as indagações dos autores que: Espaços e estruturas pensadas não só como memorial, morada final ou ante-sala desta, mas como lugares de encontro para os vivos e a Morte, nos quais se pode reconhecer que o essencialmente sagrado é a matéria e a consciência de uma vida humana no espaço e no tempo terrestre. Arquitetura 8

9 que faça sentir, na carne e no espírito, a vida ante a morte. (MASSAD & YESTE, 2010) 2.4 Os cemitérios no espaço urbano Pires & Garcias (2008) fazem uma análise crítica de como têm sido tratadas as necrópoles dentro das cidades, a partir de seus diferentes aspectos, em busca de despertar para o enfrentamento da questão, onde este equipamento cemitério compõe o conjunto de recursos necessários ao encaminhamento sustentável das requisições socioambientais, devendo ser tratado para além de mitos e subjetividades, mas como uma questão política e técnica da gestão urbana nas cidades. Os cemitérios podem ser considerados importantes elementos para constituir novas centralidades urbanas. Assim, o Espaço Público Urbano pode organizar um território capaz de suportar diversos usos e funções, ser um espaço da continuidade e da diferenciação, ordenador do bairro, articulador da cidade, estruturador da região urbana, referência urbanística, manifestações da história e da vontade do poder, símbolo de identidade coletiva. (BRANDÃO, REMESSAR, apud FRANCISCO 2005, p. 6). Pode-se ver, em algumas cidades que abrigam antigos cemitérios, que as áreas que os circundam se valorizaram e desenvolveram de maneira satisfatória. Isso se deve ao fato de o equipamento urbano cemitério conseguir manter seu uso espacial mesmo com o passar do tempo, e também pela crescente dessacralização da morte, que vem ocorrendo desde o século XX. Dessa forma, referimo-nos a um espaço, compreendido em um período histórico definido, analisado e entendido sempre como reflexo de um processo contínuo engendrado a partir do conjunto das relações ou dinâmicas sócio-espaciais. Então completa Rezende (2006 p. 134) esse contato cada vez mais reduzido com o morto e a morte, que provoca uma menor consciência da morte também ameniza a vizinhança de áreas próximas aos cemitérios. Mesmo com esses novos pensamentos típicos de uma sociedade capitalista, os espaços cemiteriais e os sepultamentos continuam presentes na paisagem urbana, que procura se utilizar de meios para mascarar a presença da morte no cotidiano dos vivos como descreve o autor: O reflexo desse pensamento pode ser notado na representação dos túmulos nos atuais cemitérios, todos padronizados, repetitivos, sem uma presença cultural e com a ausência de símbolos. Esse imaginário (ou ausência dele) da 9

10 morte permite amenizar a vizinhança a um cemitério. (REZENDE, 2006 p. 133) A partir deste pensamento até mesmo o mercado imobiliário vem tirando proveito para vender imóveis nos arredores dos cemitérios, usando argumentos de propagandas de condomínios fechados que falam muito sobre a qualidade de vida que se tem, morando nessas áreas. Assim Rezende (2006, p ) comenta: principal mote dos vendedores é a qualidade de vida, que aumenta, segundo eles, se o cidadão morar próximo às áreas verdes, lugares sem barulho, sem poluição, isolados e com segurança, espaço para o lazer e outros e portanto, tratar-se-á, a seguir, da conservação da valorização das áreas envoltórias do cemitério, e das transformações espaço-temporais que possibilitam essa conservação. É isso que vem ocorrendo nos envoltórios dos cemitérios. O mercado se utiliza das atuais configurações desses equipamentos, que possuem as características já citadas, para criar empreendimentos que acabam tendo seu valor aumentado em função de ter como vizinho um espaço a princípio pensado para os mortos, mas que pode vir a aumentar a expectativa e melhorar a qualidade de vida dos vivos, fazendo com que a área se torne nobre, acontecendo o inverso do esperado. E, ainda, é uma característica das grandes cidades a apropriação do espaço privado, fazendo com que as pessoas sejam obrigadas a usar espaços cada vez menores, seja para morar ou para lazer e ainda precisam pagar para ter acesso a esses lugares. Portanto: No que tange ao lazer e à atividade física em geral, o espaço para essas atividades é cada vez mais reduzido; em virtude disso, um bairro que tenha disponível um equipamento público para esse fim será mais valorizado, ou seja, a restrição ao uso do espaço tem uma outra face, que é a valorização das áreas onde existem espaços de acesso livres.[...] portanto [...] muitos freqüentadores vão aos cemitérios não porque são adoradores da morte, mas principalmente porque a metrópole traz, às vezes, como única saída, a utilização desse espaço; não se trata de uma eleição, e sim de uma conseqüência de a cidade capitalista ser extremamente construída, e aí ocorre essa inversão, o que deveria estar na metrópole, está na necrópole.( REZENDE, 2006, p ) Pode-se notar que, diante do entorno cemiterial, dificilmente um imóvel é desvalorizado, normalmente acontece uma valorização, mas não se pode dizer que essas áreas serão sempre valorizadas, como o autor aponta: 10

11 Isso não significa que essas áreas envoltórias nunca serão degradadas, mas em comparação a outras áreas, a desvalorização do capital fixo é muito mais lenta, ou seja, a conservação da renda capitalizada é maior do que nas antigas centralidades, que acabam se degradando. (REZENDE, 2006 p. 166) 2.5 As novas morfologias cemiteriais De acordo com Rezende (2006), como vivemos numa sociedade e espaço mutantes, pode acontecer uma quebra na forma e no uso dos espaços cemiteriais, determinando assim novos caminhos a serem dados aos mortos. Um destes caminhos é a diminuição do sepultamento tradicional (enterro no solo) que ocorre desde a pré-história, pois já é comum muitas pessoas questionarem para que tanto espaço para os mortos, hábito que ainda pode ser visto nos atuais cemitérios-jardins, mesmo com a padronização dos túmulos, sem aquela ostentação dos mausoléus da época burguesa. Para essa questão espacial e fazendo uso de novas morfologias, aparece a opção dos cemitérios verticais que acaba metamorfoseando o local, mas consegue elevar à enésima potência o número de jazigos disponíveis. E como meio mais radical, para solucionar a falta de espaço destinado à construção de novos cemitérios, temos a opção da cremação, meio já muito difundido em locais, como o Japão, onde 99% da população já usam a cremação como destino a ser dado ao morto, pois os poucos cemitérios japoneses são minúsculos e acabam não suportando mais inumações. E para os cemitérios tradicionais já implantados e que fazem parte da história das cidades, estes acabam tendo o seu uso mudado, passam a ser cemitério-museu, não se muda a sua forma e o seu caráter de memorial, como afirma Rezende (2006): o cemitério-museu é uma maneira de não alterar a forma dos cemitérios, mas para isso muda-se o uso. O cemitério passa a ser usado como museu, galeria de arte e lugar para shows e eventos além, da exploração turística. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho teve por objetivo fazer um estudo sobre os cemitérios e sua importância arquitetônica e urbana no momento da implantação e concepção do mesmo. Através do deste, ficou claro que muitos dos espaços existentes, tem ressalvas relativas às normas vigentes, e 11

12 quanto ao atendimento plenamente satisfatório dos usuários em momentos de visitas e cerimônias. É preciso deixar a negligência e até mesmo o medo de lado e começar a pensar espaços, que contemplem as regulamentações atuais e ainda sigam os novos conceitos da arquitetura funerária, buscando, na sua morfologia urbana, que estes sejam mais que um lugar de encontro da vida com a morte, e sim um equipamento urbano que vá além das suas funções principais, a inumação e a de memorial aos mortos. Com o adensamento das áreas urbanas, espaços verdes e abertos, como parques públicos, ficam, cada dia mais escassos, e os cemitérios poderiam ser uma opção nos momentos de lazer da população local, que passariam a usar esses espaços para caminhadas, pedalar e, até mesmo, contemplar a natureza. Pois, é fato que pode passar o tempo que for, os espaços cemiteriais sempre vão estar presentes na paisagem urbana, mesmo que camuflados; então, por que não dar vida ao espaço destinado aos mortos com novos usos? 4. REFERÊNCIAS BORGES, Maria Elizia. Manifestações Artísticas Contemporâneas em espaços públicos convencionais (cemitérios secularizados). In: XXIV Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte CAMPOS, Ana Paula Silva. Avaliação do potencial de poluição no solo e nas águas subterrâneas decorrente da atividade cemiterial Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública, USP, São Paulo. 124 p. CARRASCO, Gessonia Leite de Andrade & NAPPI, Sérgio Castello Branco. Cemitérios Como Fonte de Pesquisa, de Educação Patrimonial e de Turismo. Revista Museologia e Patrimônio, vol. 2, nº. 2, Jul./Dez. de FRANCISCO, Marlene Duarte. Espaço Público Urbano: oportunidade de identidade urbana participada. In: X Colóquio Ibérico de Geografia, A Geografia Ibérica no Contexto Europeu, Évora, Universidade de Évora, 22 a 24 de Setembro de MASSAD, Fredy & YESTE, Alicia Guerrero. Cemitérios Contemporâneos. Entre a vida e a morte. Disponível Em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.060> acessado em 26 de Nov. de

13 MOTTA, Antônio. Estilos Mortuários e Modos de Sociabilidade em Cemitérios Brasileiros Oitocentistas. Revista Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 16, n. 33, p , Jan./Jun Formas Tumulares e Processos Sociais nos Cemitérios Brasileiros. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 24, nº. 71, p , Out. de MUNFORD, Lewis. A Cidade na História: suas origens, transformações e perspectivas. Trad. Neil R. da Silva. São Paulo: Martins Fontes, PIRES, Anna Sylvia & GARCIAS, Carlos Mello. São os Cemitérios a melhor solução para a Destinação dos Mortos? In: IV Encontro Nacional da Anppas. Brasília- DF- Brasil, 4, 5 e 6 de Jun. de REZENDE, Eduardo Coelho Morgado. Cemitérios. São Paulo: Necrópolis, O Céu Aberto na Terra Uma leitura dos cemitérios na geografia urbana de São Paulo. São Paulo: Necrópolis,

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