22º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental VI-034 ÁGUA PARA SACIAR CORPO E ESPIRITO: BALNEABILIDADE E OUTROS USOS NOBRES

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1 22º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 14 a 19 de Setembro Joinville - Santa Catarina VI-034 ÁGUA PARA SACIAR CORPO E ESPIRITO: BALNEABILIDADE E OUTROS USOS NOBRES Eduardo von Sperling(1) Engenheiro Civil e Sanitarista, Doutor em Ecologia Aquática, Professor Titular do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais Endereço(1): Av. Contorno Centro - Belo Horizonte - MG - CEP: Brasil - Tel: (31) RESUMO O presente trabalho técnico procura destacar a conveniência de uma maior atenção ao uso recreativo da água, notadamente em um país como o Brasil, de farta disponibilidade de recursos hídricos. Busca-se assim, dentro de um contexto técnico, resgatar as possibilidades existentes de aproveitamento de rios, lagos e represas para o lazer individual e coletivo. É feita uma apreciação histórica do uso recreativo da água, tão difundido na época do império romano por exemplo, abordando-se o seu significado nas culturas oriental e ocidental. Talvez esteja nesta análise histórica uma possível explicação para o fato deste uso ser quase negligenciado em nosso país, que é, em linhas gerais, absolutamente carente de uma adequada infra-estrutura para a utilização recreativa de ambientes de água doce. As considerações emitidas neste trabalho vão ao encontro da estratégia de estabelecimento de usos múltiplos para os recursos hídricos, especialmente por ocasião da construção de novas represas. PALAVRAS-CHAVE: Balneabilidade, Usos da Água, Recreação. INTRODUÇÃO A literatura técnica na área de Saneamento e Meio Ambiente apresenta com frequência os diversos usos dos recursos hídricos, com um claro destaque para as funções de abastecimento doméstico e industrial e geração de energia. Na verdade é compreensível a importância dedicada a estes usos, considerando-se a limitada disponibilidade de água doce

2 em nosso planeta e a óbvia necessidade de fornecer à população água em quantidade e qualidade suficientes para atender às demandas de bebida (curiosamente a menor delas em termos percentuais de consumo), banho, descarga de vaso sanitário, lavagem de roupa e de louça e outras atividades ligadas à higiene e ao bem-estar. No aspecto industrial o consumo de água pode ser ainda muito mais intenso, notadamente para tipologias que utilizam grandes quantidades de água para refrigeração de máquinas, como é o caso de usinas siderúrgicas, tão frequentes em nosso país, ou para aquelas indústrias em que a á gua é parte integrante do produto final, com destaque para a fabricação de bebidas alcoólicas e não alcoólicas. Quanto à geração de energia, que constitui-se em um uso não consutivo da água, sabe-se que, no Brasil, a quase totalidade da produção energética é obtida mediante a utilização de usinas hidrelétricas. Outro uso da água de bastante relevância, sobretudo em zonas rurais, é a dessedentação de animais, particularmente para o caso do gado. A própria legislação brasileira (Lei da Política Nacional de Recursos Hídricos, Lei 9433/97) estabelece que, em situações emergenciais e de escassez de água, os usos prioritários são o abastecimento doméstico e a dessedentação de animais. Dentre o leque de possíveis usos da água está também a navegação, cuja relevância deveria ser ainda maior em um país como o Brasil. À exceção das hidrovias no Rio Paraguai e no trecho RioTietê-Rio Paraná, este uso é praticamente desconsiderado em grande parte do continente sul-americano, em nítido contraste com o continente europeu, onde o transporte de carga e de passageiros é feito em larga escala por via fluvial. Ainda com relação aos diversos usos da água, não pode ser esquecida a atividade de irrigação, que, na realidade, é aquela que mais consome água em uma escala global. Neste aspecto existem preocupações com relação à salinização dos solos em decorrência do intenso uso de água para irrigação de terrenos em zonas áridas e semiáridas. Outro uso, infelizmente ainda pouco difundido em nosso país, é o aproveitamento de recursos hídricos para fins de aquicultura, com destaque para a produção comercial de peixes. Obviamente as exigências de qualidade para tal uso são fortemente distintas daquelas que se aplicam aos outros usos aqui citados, tendo em vista a necessidade do estabelecimento de características eutróficas para o desenvolvimento das espécies aquáticas. Ainda com relação aos usos aos quais os recursos hídricos podem ser destinados, cabe menção a atuação de lagos e represas para contenção de cheias. Tal uso vem adquirindo crescente importância nos paises mais desenvolvidos, onde constata-se um forte aumento na construção das chamadas bacias de retenção, as quais podem atuar eficientemente na contenção das primeiras águas de chuva. Finalmente deve ser destacado um dos usos mais nobres do ambiente aquático e, ao mesmo tempo, um dos menos lembrados em nosso país : recreação ou lazer, juntamente com harmonia paisagística. No âmbito da Engenharia Sanitária e Ambiental observa-se uma forte lacuna na adequada apreciação deste milenar uso. A questão da balneabilidade das águas está praticamente restrita ao monitoramento de praias em regiões litorâneas com maior afluxo de banhistas, sendo muito limitadas as pesquisas sobre condições de balneabilidade em águas doces. No entanto, junto com abastecimento, este é o uso mais antigo da água, estando associado não só ao prazer corporal, mas também a rituais religiosos nas mais diversas culturas e à possibilidade de universalização do direito natural de cada habitante do planeta a usufruir do saudável e relaxante contato com a água. METODOLOGIA

3 Por tratar-se de uma abordagem de cunho teórico, a metodologia deste trabalho técnico assume um caráter fundamentalmente descritivo. Inicialmente é feita uma apreciação sobre a balneabilidade das águas doces, incluindo um registro histórico do seu uso em culturas antigas. Neste aspecto existe uma forte vinculação com a religiosidade destas culturas, nas quais o meio hídrico cumpria, e muitas vezes cumpre até hoje, uma função claramente espiritual. É dada ênfase à questão da balneabilidade na época do império romano, onde atingiu-se o apogeu na utilização coletiva da água nos famosos banhos e termas disseminados por quase toda a Europa Ocidental. Além do aspecto recreativo, representado pelas atividades que envolvem um contato direto com a água (recreação de contato primário), são também feitas considerações sobre o lazer contemplativo, no qual o ambiente aquático exerce uma função de relaxamento, designada na literatura internacional pela expressão calming function. Uma abordagem complementar refere-se à desejável inserção de corpos d água artificiais na paisagem urbana, acarretando um claro benefício estético e contribuindo fortemente para a melhoria da qualidade de vida da população que habita o seu entorno. Neste aspecto merece destaque a construção de bacias de retenção de águas de chuva dentro de um contexto urbano. Tais bacias constituem-se na verdade em agradáveis lagos de pequenas dimensões, os quais cumprem eficientemente, ao mesmo tempo, um papel de cunho hidrológico e paisagístico. Pretende-se assim com este trabalho induzir a comunidade profissional e científica brasileira a desenvolver reflexões sobre a conveniência de uma maior dedicação à criação de estruturas favoráveis às atividades recreativas em ambientes de água doce. PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES SOBRE O USO RECREATIVO DA ÁGUA Os primeiros registros sobre o uso da água para fins de balneabilidade são oriundos da época do império egípcio. Naquela ocasião, que remonta a 3000 anos antes de Cristo, o uso da água com esta finalidade era privilégio apenas de uma casta nobre, ao contrário do que sucedeu três milênios depois no império romano. Neste contexto histórico merece destaque a clássica obra de Hipócrates ( AC), Tratado das Aguas, do Ar e dos Lugares, onde é feita uma apologia aos benefícios provenientes do contato com a água. Outros filósofos na mesma época (Platão, Aristóteles) apontam para o poder relaxante dos banhos. O USO RECREATIVO NA ÉPOCA DO IMPÉRIO ROMANO É durante o império romano que o conceito de balneabilidade atinge sua mais alta expressão. No início da era moderna a cidade de Roma possuia 1 milhão de habitantes, chegando a 1,5 milhão no século II (Paquier, 2000), ali ocorrendo uma ampla e disseminada utilização dos banhos e termas. Estas últimas cumpriam simultaneamente as finalidades de banho e de banheiro, sendo inicialmente conhecidas como lavatrina, de onde se originou o termo latrina. Seu uso principal ocorria no período noturno, quando as termas

4 funcionavam também como centro de convívio social. Algumas termas romanas apresentavam grande capacidade de recebimento de banhistas, comportando até 3000 pessoas. Na época do imperador Caracalla muitas termas funcionavam 24 h por dia, elevando o consumo per capita médio de água em Roma até o surpreendente valor de 1000 l/d (Malissard, 1994). Contribuia também para tanto o intenso uso da água no combate a incêndios, bastante frequentes nas épocas mais secas do ano. Merece destaque ainda o uso decorativo da água, cumprindo assim a função de lazer contemplativo. A existência de água corrente em casa, representada por fontes domésticas e relógios de água (clepsidras), era considerada como sinal de prosperidade. No aspecto de qualidade de água, é interessante observar a conexão existente entre alguns conceitos da época e o conhecimento atual da questão. Tanto para banhos quanto para consumo considerava-se que a água deveria apresentar poucos depósitos após fervura (conceito de sólidos em suspensão), não deixar traços fluindo sobre bronze (conceito de corrosividade) e permitir que os legumes pudessem ser cozinhados rapidamente (conceito de águas brandas). A CULTURA ORIENTAL COM RELAÇÃO À BALNEABILIDADE No contexto da cultura oriental é inevitável a vinculação dos banhos com os aspectos religiosos, notadamente no budismo, taoísmo e hinduísmo. Nestas religiões, recomenda-se ainda que as orações sejam feitas junto à água, reforçando o caráter contemplativo/religioso dos ambientes aquáticos. Merecem destaque os problemas sanitários decorrentes da forte concentração de banhistas em rios sagrados, como ocorre durante a festa decenal em Alahabad, India, em que, durante duas semanas, 100 milhões de pessoas nadam em um trecho de 200 m do Rio Ganges. Outro aspecto relevante de cunho sanitário refere-se à cremação de corpos, a qual provoca um forte aumento da carga orgânica em alguns rios sagrados da India. O LAZER CONTEMPLATIVO A par da questão da balneabilidade, comentada nos tópicos anteriores, este trabalho pretende destacar a relevante função de harmonia paisagística exercida pelos ambientes aquáticos. O entorno de rios, lagos e represas permite a realização de atividades diversas, tais como caminhar, correr e receber a função relaxante das águas (efeito de espelho, movimentação ao vento, quietude, presença de pássaros, linhas curvas, em contraste com a arquitetura urbana de características lineares). A função urbanistica dos corpos d água favorece, além do enriquecimento da paisagem, um maior vinculo entre vizinhos, provocado pela maior probabilidade de encontros no entorno do ambiente aquático, o que confere ainda uma sensação de segurança ao cidadão. Pesquisas desenvovidas nos EUA, notadamente no condado de Los Angeles, concluem que a existência de um corpo d água urbano diminui a criminalidade, reduz a agressividade em pessoas portadoras do mal de

5 Alzheimer e melhora consideravelmente o problema de dificuldades escolares (ADD- Attention Deficit Disorder) em crianças. Além disso os ambientes aquáticos urbanos contribuem significativamente para a educação ambiental de crianças e adultos, constituindo-se em habitat para a vida selvagem e em um excelente espaço para apresentação e discussão de iniciativas pedagógicas. CONCLUSÕES As conclusões deste trabalho reforçam a conveniência de se dedicar uma maior atenção à balneabilidade em águas doces brasileiras. Neste contexto a Engenharia Sanitária e Ambiental assume um papel de extrema relevância, representado tanto pela abordagem técnica da questão, quanto pelo poder formador de opinião dos profissionais que atuam nessa área. Tais considerações revestem-se de um caráter prioritário em nosso país, já tão carente na oferta de opções de lazer para a população de baixa renda que habita as regiões interioranas. Acredita-se que uma contribuição como esta, que objetiva a melhoria da qualidade de vida, deva ser emanada do seio de uma associação técnica e discutida com as comunidades interessadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MALISSARD, A Les Romains et l Eau. Ed. Les Belles Lettres, 342 p., PAQUIER, M. Histoire illustré de 5000 ans d hygiène publique. Ed. Johannet, 193 p., 2000

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