A DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR NUMA PERSPECTIVA CONSTRUTIVISTA. Blasius Silvano Debald *

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1 A DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR NUMA PERSPECTIVA CONSTRUTIVISTA. Blasius Silvano Debald * Quando o professor quer mudar, tem que se fortalecer. (Celso Vasconcellos) RESUMO: A docência no Ensino Superior ainda é um desafio, pois nem sempre o professor está disposto a partilhar com os acadêmicos o processo educativo. Democratizar o espaço da sala de aula, parte do pressuposto de que a prática pedagógica deve ser permeada pela pesquisa, contribuindo para a descoberta e para o desenvolvimento de uma atitude de autonomia intelectual. É fundamental que o professor participe do processo de repensar a construção do conhecimento, numa perspectiva construtivista, na qual a mediação e a interação são os pressupostos essencias para que ocorra aprendizagem. Contudo, a mudança na prática pedagógica não deve acontecer de forma violenta para o professor, nem para o acadêmico, evitando-se assim a queima de etapas. A opção construtivista deve ser feita de forma consciente, pensada e, sobretudo, preparada para não tirar do professor a alegria de ensinar. Está mais do que na hora de rever a prática pedagógica universitária para que os futuros profissionais não sejam rotulados como geração xerox, que cursou a faculdade reproduzindo o saber existente, sem acrescentar nada de novo. Uma proposta construtivista para o ensino superior consiste em educar para a autonomia, para a descoberta, utilizandose da pesquisa como um meio de aprofundar e resignificar os conhecimentos. * Professor do Curso de História da Faculdade União das Américas e Mestre na Área Sócio-Cultural Universidade de Santa Cruz do Sul UNISC/RS. Avenida Garibaldi, n. 2525, Bl. IV, apt. 23, Jardim Bárbara, Residencial Costa Oeste Foz do Iguaçu PR. Fone: (residencial) (comercial).

2 PALAVRAS-CHAVE: Docência Ensino Superior construtivista autonomia mediação. INTRODUÇÃO: O presente trabalho é fruto das discussões realizadas com os colegas do Curso de Metodologia do Ensino Superior, promovido pela PUC/RS. Tem como finalidade discutir a docência no Ensino Superior numa perspectiva construtivista, com enfoque na questão metodológica. O maior desafio do docente no Ensino Superior é fazer com que o acadêmico tenha uma participação efetiva nas discussões de sala de aula. Em muitos casos, percebe-se que a dificuldade não está no conteúdo, mas no aspecto metodológico, ou seja, o professor tem domínio sobre a temática, mas não consegue encontrar uma forma adequada de abordala, possibilitando a aprendizagem. Contudo, ressalta-se que a mudança no processo de ensinar, passando de um modelo que transmite conhecimentos para um que constrói conhecimentos significa estar disposto a enfrentar novos desafios, rever a prática pedagógica, além de participar de reuniões de estudos. O novo assusta, mas ao mesmo tempo desacomoda, desestabiliza e faz do ato de ensinar um constante aprendizado. A prática pedagógica no Ensino Superior deve ser encarada com muita seriedade. Requer posturas e comprometimentos com um processo que eduque para a autonomia do acadêmico, mediado pelo professor. Somente uma educação que tenha como princípio a liberdade, poderá auxiliar na construção de uma sociedade mais humanizada.

3 A DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA E SUAS IMPLICAÇÕES. A universidade tem definido como campos de atuação, o ensino, a pesquisa e a extensão, embora nem sempre ofereça condições para alcançar seus propósitos, principalmente quando não destina horas aos professores para que se dediquem a atividades de pesquisa. O professor universitário é um ser ativo e participativo do processo de ensino, quando se compromete com a construção do conhecimento, obtida via pesquisa. Segundo Vasconcellos (1994) 1, para se constituir docente, um conjunto de outros saberes devem ser mencionados, a saber, saberes pedagógicos, que normalmente não fazem parte dos processos formativos e que são, muitas vezes, desconhecidos dos docentes universitários. Quer dizer que não basta ter apenas domínio sobre o conteúdo, mas também conhecer metodologias que favoreçam a aprendizagem. Desta forma o Ensino Superior é desafiador, pois precisa ser inventado ou reinventado diariamente. E educação é considerar que o mundo social faz parte do cotidiano e, portanto, está presente na vida do acadêmico. Nenhum conteúdo é tão completo que pode ignorar as transformações que ocorrem diariamente na humanidade. E Becker (2001) reforça esse pensamento ao afirmar que a educação deve ser um processo de construção de conhecimento ao qual acorrem, em condição de complementaridade, por um lado, os alunos e professores e, por outro, os problemas sociais atuais e o conhecimento já construído ( acervo cultural da humanidade ) 2. Se o conhecimento é dinâmico e sofre influência do meio social, então acreditar num ensino que coloca o professor como centro do processo para que os acadêmicos 1 VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Construção do conhecimento em sala de aula. Cadernos Pedagógicos do Libertad. São Paulo: Libertad, p BECKER, Fernando. Educação e construção do conhecimento. Porto Alegre: Artmed Editora, p. 73.

4 aprendam passivamente não pode ser considerado como construtivista. Conforme Vigotsky 3 (1988), o professor universitário deve ser um agente mediador deste processo, propondo desafios aos seus acadêmicos e ajudando-os a resolvê-los, ou proporcionando atividades em grupo, em que aqueles que estiverem mais adiantados possam cooperar com os que tiverem mais dificuldades. Neste sentido, derruba-se a idéia errônea de que a aprendizagem é o resultado de uma atividade individual. Por outro lado, fortalece-se a idéia de que a interação entre os colegas, mediados pelo professor, pode contribuir para uma situação de aprendizagem mais segura e duradoura, além de contribuir para uma construção autônoma. É um novo jeito de ministrar as aulas. Segundo Vasconcellos (1994), em vez de dar aulas ou assistir aulas, o fazer aulas passará a ser compromisso de todos, alunos e professores 4. O fazer aula pode ser entendido como uma busca constante para transformar velhos conteúdos em temáticas interessantes e atualizadas. Para tanto, requer do docente um pouco de criatividade e motivação para transformar o velho em novo. Para Castanho (2000), a questão da criatividade requer sensibilidade diante do mundo, fluência e mobilidade do pensamento, originalidade pessoal, atitude para transformar as coisas, espírito de análise e síntese e capacidade de organização coerente são as qualidades da pessoa criadora 5. Para a autora, estas qualidades devem ser desenvolvidas no processo educativo se a finalidade é formar pessoas criativas. Contudo, nem sempre há disposição de inovar ou 3 VIGOTSKY, L. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, p VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Jornal da Educação, n. 158, jan/fev., Disponível em: Acesso em: 05 de mai CASTANHO, M. E. L. M. A criatividade na sala de aula universitária. In: VEIGA, I. P. A. et. al.. Pedagogia universitária: a aula em foco. 2. ed. Campinas SP: Papirus, p. 85.

5 transformar, pois o reinventar exige comprometimento com a mudança e requer assumir o risco e a incerteza. A relação professor-acadêmico é de suma importância para o processo de aprendizagem em nível universitário, pois estabelece um elo de ligação e de comprometimento com a construção do conhecimento. O professor é co-participe do processo e, portanto, deve mediar e orientar seu acadêmico. Para Masetto (2001), é importante que o professor desenvolva uma atitude de parceria e co-responsabilidade com os alunos, que planejam o curso junto, usando técnicas em sala de aula que facilitem a participação e considerando os alunos como adultos que podem se co-responsabilizar por seu período de formação profissional 6. A participação do acadêmico no processo de planejamento também o comprometerá com a avaliação. Assim, o professor deve assumir uma posição de orientador das atividades que permitirão ao acadêmico aprender, além de ser um motivador e incentivador do desenvolvimento acadêmico de sua turma. Precisa ter presente que mostrar os avanços que o acadêmico obteve, mas também corrigi-lo quando necessário, são parte constante de uma prática construtivista. E, sobretudo, formar grupos de trabalho e de pesquisa, com objetivos comuns, estabelecidos em parceria. É o professor com sua capacidade de incentivador que irá estimular o trabalho em equipe, buscará soluções para os problemas de forma conjunta Masetto (2001) reforça esta linha de pensamento ao afirmar que o professor que é um motivador, faz com que seus acadêmicos realizem suas pesquisas e seus relatórios, criando condições contínuas de feedback entre aluno e professor. Outro aspecto que merece ser analisado quando se está discutindo a docência em nível superior é a questão da fragmentação do conhecimento. Na universidade existem 6 MASETTO, Marcos (Org.) T. Docência na universidade. 3. ed. Campinas SP: Papirus, p.22.

6 disciplinas, mas o Curso e a relação com outros Departamentos ficam comprometidos, pois há uma disputa pelo domínio sobre as horas locadas em cada área de conhecimento. Saviani (1999) 7 acredita que a proposição pedagógica brasileira aponta na direção de uma sociedade em que esteja superado o problema da divisão do saber. Contudo deve haver um comprometimento do professor com uma prática social voltada para a interdisciplinaridade. Após ter analisado alguns pressupostos da docência universitária, imprescindível, pode-se afirmar que boa parte das mudanças deve partir do professor e, aos poucos, compartilhando uma nova prática pedagógica com seus acadêmicos. E desta forma estarão abertas as possibilidades de inovações e avanços na prática docente universitária. METODOLOGIA E DOCÊNCIA UNIVERSTITÁRIA Já foi destacado que o professor universitário precisa ter consciência de que sua prática pedagógica precisa ser revista, caso queira formar uma pareceria com sua turma. Para tanto, um dos requisitos é aproximar o conteúdo da vivência dos acadêmicos, envolvendo-os e comprometendo-os com a disciplina. Participando desta discussão, Castanho (2000) faz referência quanto ao momento socioeconômico e político vivido atualmente no país e no mundo que exige profundas mudanças e rupturas em todos os níveis da atividade humana. E dentro de uma perspectiva de prática pedagógica, Castanho (2000) afirma que a educação, em todos os níveis, precisa de uma nova postura. O ensino tradicional paulatinamente vem dando lugar a práticas alternativas que devem levar ao desenvolvimento global dos educandos e acender o 7 SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 32. ed. Campinas SP: Autores Associados, p.89.

7 entusiasmo para lutar por uma sociedade diferente, reestruturada 7. O professor universitário que quer mudar sua prática na sala de aula encontra-se numa zona de transição de paradigmas, pois fica em dúvida quanto ao mudar sua ação metodológica ou continuar no seu modelo tradicional. Segundo Castanho (2000), o principal ator na situação universitária é o professor, por ser um sujeito histórico e viver num contexto social e político que deve ser considerado para entender sua ações. Para Cunha (1998), professores universitários envolvidos com a inovação na universidade têm uma concepção de conhecimento que envolve flexibilidade e movimento, entendem o conhecimento como construção, incentivam a dúvida, valorizam o erro e trabalham com base nele. A provisoriedade, a multiplicidade e o momento permeiam o cotidiano 8. Se por várias décadas a dúvida em sala de aula era visto como erro, fracasso ou desconhecimento, atualmente faz parte do contexto de construção do conhecimento. A dúvida é um dos passos para avançar na busca do conhecimento, desde que haja subsídios para a elucidação. Na medida em que se coloca o acadêmico como referência durante a aula, valorizando seu cotidiano e incentivando-o a fazer análises em vez de resumos, o princípio pedagógico não mais será centrado no professor, mas na mediação entre o docente e o acadêmico. Cunha (1998) reforça esta concepção de ensino, ao afirmar que na vida universitária muitos estão apostando na mudança das velhas práticas, buscando um ensino que privilegie a produção do conhecimento por parte dos alunos, o que implica pensar num 7 CASTANHO, M. E. L. M. A criatividade na sala de aula universitária. In: VEIGA, I. P. A. et. al.. Pedagogia universitária: a aula em foco. 2. ed. Campinas SP: Papirus, p CUNHA, M. Isabel da. O professor universitário na transição de paradigmas. Araraquara-SP: JM Editora, p. 107.

8 ensino criativo. Desta forma, trabalhar na perspectiva da produção do conhecimento parece ser uma forma de mobilizar os elementos da criatividade, contribuindo para mudanças significativas na docência universitária. A mudança na docência universitária ocorrerá quando o professor se der conta de que não basta apenas ter domínio sobre o conteúdo, mas, sobretudo deverá contribuir para uma situação de aprendizagem. Neste sentido, a afirmação de Pimentel (1993) é pertinente quando afirma que todos os professores têm domínio do conhecimento amplo, profundo e atualizado, não só do conhecimento programático como da ciência que ensinam. Têm também o conhecimento de ciências correlatas. Nem todos, porém, têm o conhecimento da produção do conhecimento e poucos têm o conhecimento claro e consciente do que é ensinar 9. Masetto (2001) participa da mesma discussão ao afirmar que o desconhecimento do que é ensinar dá uma percepção que o ato de ensinar e o ato de produzir conhecimento são momentos distintos. Há neste sentido uma certa desvalorização do ensino como produção de conhecimento, ficando este e suas formas de produção, apropriação e circulação restritas à pesquisa. Até aqui se discutiu as mudanças na prática pedagógica, mas em contra partida, o que deve mudar na atitude do acadêmico. Para dar uma resposta a postura do acadêmico, inicialmente faz-se necessário pensar no profissional que atuará na sociedade, como resultado da vivência universitária. Segundo Behrens (1996) o profissional do futuro precisa ter competência para ser autônomo na produção de conhecimentos e acessível para coletiviza-los em grupos PIMENTEL, M. da Glória. O professor em construção. Campinas SP: Papirus, p BEHRENS, M. A. A formação continuada dos professores e a prática pedagógica. Curitiba PR: Champagnat, p. 67.

9 E a autora continua sua análise quanto a postura do acadêmico, afirmando que o aluno precisa ser pesquisador por excelência, curioso, criativo e reflexivo. Ao buscar a inovação, questionar suas ações, ser crítico e criar o hábito da leitura das informações seja pelos livros, seja por acesso aos meios informatizados. Que ao encontrar a informação, seja capaz de analisa-la, criticá-la, refletir sobre ela e ter competências de elaboração própria com os referenciais pesquisados. Precisa saber elaborar projetos criativos e ter habilidades para defendelos 11. A partir do exposto, pode-se afirmar que a docência universitária está num período de transição e este processo de mudança não será homogêneo, pois continuarão existindo professores que não querem mudar, pois sua situação é cômoda, atribuindo o fracasso do ensino como uma decorrência do despreparo do acadêmico. Por outro lado, a grande maioria dos docentes universitários deu-se conta que os tempos são outros e inovar, tornou-se a palavra de ordem. CONCLUSÃO A prática docente no Ensino Superior está numa fase de transição, demonstrando que não é mais possível continuar culpando outras pessoas pelos fracassos decorrentes de uma prática não construtivista. É difícil aceitar argumentos que centram os insucessos da tarefa de ensinar na universidade no acadêmico, quando, no mínimo é fruto de um trabalho unilateral alguém ensinou para alguém aprender. 11 BEHRENS, M. A. A formação pedagógica e os desafios do mundo moderno. In:

10 Apresentou-se neste trabalho as condições para uma prática docente construtivista, caracterizada pela ênfase na autonomia, na liberdade e na criatividade, como pressupostos para a construção do conhecimento universitário. E a função do professor é o de mediador, quando há uma situação de aprendizagem, contribuindo para que ocorra um ensino centrado na descoberta, na pesquisa, na análise, no interesse dos acadêmicos, tendo presente seu cotidiano. Finalmente, reflexões sobre a docência no Ensino Superior, nos aspectos metodológicos e didáticos são recentes e muitos professores não se deram conta do momento de transitoriedade pela qual a universidade está passando. A ruptura de um modelo tradicional de ensinar desestrutura o professor, além do novo ser desafiador e gerar insegurança. E por fim, as mudanças que se espera em nível universitário, quanto as questões didático-metodológicas, acontecerão quando acadêmicos e professores planejarem juntos a disciplina, escolherem as metodologias a serem empregadas e definirem os critérios avaliativos. O comprometimento dos acadêmicos e do professor na construção do conhecimento afastará atitudes que não fazem parte de um processo de ensino construtivista transmissão de conhecimentos, passividade, omissão, desinteresse e reprodução. Em contrapartida, valorizar-se-á a pesquisa, a análise, a produção, a criação, a leitura e o aprofundamento nas discussões propostas.

11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BECKER, Fernando. Educação e construção do conhecimento. Porto Alegre: Artmed Editora, BEHRENS, M. A. A formação continuada dos professores e a prática pedagógica. Curitiba PR: Champagnat, BEHRENS, M. A. A formação pedagógica e os desafios do mundo moderno. In: MASETTO, Marcos (Org.) T. Docência na universidade. 3. ed. Campinas SP: Papirus, CASTANHO, M. E. L. M. A criatividade na sala de aula universitária. In: VEIGA, I. P. A. et. al.. Pedagogia universitária: a aula em foco. 2. ed. Campinas SP: Papirus, CUNHA, M. Isabel da. O professor universitário na transição de paradigmas. Araraquara-SP: JM Editora, MASETTO, Marcos (Org.) T. Docência na universidade. 3. ed. Campinas SP: Papirus, SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 32. ed. Campinas SP: Autores Associados, PIMENTEL, M. da Glória. O professor em construção. Campinas SP: Papirus, VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Jornal da Educação, n. 158, jan/fev., Disponível em: Acesso em: 05 de mai

12 VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Construção do conhecimento em sala de aula. Cadernos Pedagógicos do Libertad. São Paulo: Libertad, VIGOTSKY, L. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 1988.

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