Título: GRUPOS DE REMINISCÊNCIA: A VALORIZAÇÃO DOS IDOSOS DE UM RESIDENCIAL EM SÃO PAULO, BRASIL.

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1 Congresso de Psicogerontologia Tema: Instituição de Longa Permanência (ILPI) Modalidade: Temas Livres Título: GRUPOS DE REMINISCÊNCIA: A VALORIZAÇÃO DOS IDOSOS DE UM RESIDENCIAL EM SÃO PAULO, BRASIL. Autor: Eliana Novaes Procópio de Araújo e Ruth Gelehrter da Costa Lopes Instituição: PUC-SP, São Paulo - Brasil Abstract Introdução: A longevidade, traz questões novas e específicas, que implicam em cuidados especializados no momento das internações. Desde 1997, o residencial iniciou uma avaliação e orientação admissional ao idoso e sua família. Em 2005, introduziu-se a terapia da reminiscência, visando promover a identidade e qualidade de vida através da recordação de eventos do passado que podem ser resignificados no momento presente. Objetivos: Valorizar a identidade e subjetividade do idoso institucionalizado, através de intervenções psicogerontológicas que priorizem essa singularidade no residente e uma reestruturação na atitude da equipe multidisciplinar em relação ao processo de envelhecimento. Materiais e Métodos: Estudo descritivo e analítico, com abordagem qualitativa dos dados. Analisamos a permanência dos residentes, após o acompanhamento admissional, com levantamento estatístico e o grau de satisfação, através da análise dos conteúdos verbalizados nos grupos de reminiscência. O grupo é fechado com nove encontros de uma hora e meia, uma vez por semana. Os temas seguem as etapas etárias, na construção individual da estória de vida. Resultados: A intervenção terapêutica favoreceu o processo de adaptação ao ciclo da vida, assim como a aceitação da finitude. Promoveu um aproveitamento melhor do tempo, do sentido da existência estimulando a flexibilidade, na adaptação dos projetos pessoais. A vivencia grupal melhora a convivência social e o sentimento de singularidade na coletividade do novo lar. Conclusão: O processo de recordação demonstrou ser um excelente recurso no fortalecimento da identidade e auto-estima ao

2 estimular a dignidade e valorizar a família. Melhora o auto-conhecimento, estimula novos projetos de vida,numa perspectiva de crescimento no envelhecer. Palavras chaves: Subjetividade, Envelhecimento, Instituição de Longa Permanência, Grupo de Reminiscência. Ao falarmos de idoso que reside numa instituição de longa permanência, fazemos comumente referência a imagens negativas, frequentemente associadas à denominação de senso comum asilo. A nova realidade brasileira nos remete à discussão dos serviços especializados oferecidos nas ILPIs, uma questão polêmica e complexa, que envolve considerações de diferentes âmbitos. A perspectiva que Goffman (1961) atribui às instituições é um importante alerta : um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, leva uma vida fechada e formalmente administrada (p.11). No entanto, Born (2001), não nega a importância das ILPIs, denunciando a rejeição da sociedade brasileira a essas instituições.afirma ainda, que para modificar essa visão, seria necessário que as instituições passassem por um processo de reestruturação, para poderem cumprir de maneira satisfatória, as responsabilidades implícitas a que se propõem, ou seja, um lar aconchegante, preservando a identidade dos sujeitos, ao mesmo tempo que promovem cuidados especializados. Segundo Mercadante (2002), pensar sobre lugares, comunidade, novos arranjos sociais em relação aos idosos da sociedade brasileira, deve fazer parte do rol de soluções planejadas e adequadas para a inclusão do envelhecimento populacional com questão fundamental. Ainda continuando o raciocínio, Mercadante (2002), aponta que pensar em comunidade, especialmente para o segmento idoso, implica em ampliar a sociabilidade, transformando espaços privados( restritos à esfera familiar) em públicos, certamente democráticos.viver em comunidade, sentir-se pertencente ( ou pertencendo) a um grupo é para o idoso a possibilidade de viver uma solidão positiva.

3 Esse trabalho tem como objetivo mostrar a importância do cuidado psicogerontológico como uma nova forma de reorganizar a estrutura e a atitude dos serviços prestados em instituição de longa permanência, respeitando sua individualidade no coletivo e proporcionando novos desafios para que ele se sinta vivo e com um sentido de vida, desmistificando as instituições como depósitos de velhos, estigma que nos tempos modernos necessita urgentemente de mudanças. Assim as intervenções objetivam uma reestruturação nas formas do cuidado e também na atitude em relação ao processo de envelhecimento que deve ser encarado como uma fase de vida que também está em crescimento, valorizando os ganhos, miminizando as perdas.a heterogeneidade do idoso deve ser respeitada e a anulação de formas de cuidar padronizadas e homogêneas de encarar o idoso em instituição, com horários rígidos e situações rotineiras e rígidas merecem ser avaliadas e uma nova concepção que privilegie a subjetividade e a criatividade no coletivo é um desafio da sociedade moderna. Buscar um cuidado singular e único a cada idoso, respeitar a velhice como processo de subjetivação, onde cada um faz sua construção individual dentro da instituição que representa seu novo lar, com aconchego e com respeito a autonomia, independência e dignidade.desenvolver o sentimento de pertencer ao grupo em que vive, promovendo uma relação social nesse espaço comunitário, estabelecer relações de proximidade, de intimidade e que o individuo se sinta pertencendo, pois é primordial sentir-se gente entre os pares.(sawaia,1995). Iniciou-se em 1997, uma avaliação admissional a todos os familiares e seus idosos antes de ser integrados no residencial com capacidade de 120 idosos e com perfil de moradores independentes ou semi-dependentes ou seja, com déficit cognitivo leve a moderado e com apenas três atividades de vida diária comprometidas.a avaliação consiste em uma anamnese e aplicação de testes funcionais, cognitivos e psicológicos, e também analisar o grau de aceitação e interesse do idoso em mudar-se assim como a dinâmica e atitude familiar. A partir dessa conduta terapêutica, consegue-se delinear alguns aspectos importantes do perfil do futuro residente, suas singularidades, preferências, necessidades e assim poder melhor acompanhar o período de adaptação, de familiarização com as oficinas

4 oferecidas e de tratamento. Complementando a adaptação faz-se uma vez por mês grupo de orientação aos novos residentes onde trabalha-se as razões da mudança de domicílio, as dúvidas, os mêdos e outros sentimentos importantes que surgem durante o processo de construção subjetiva no novo lar. A família também recebe orientação individual e grupal durante esse processo de adaptação que pode durar em media de quatro a seis meses conforme a necessidade e orienta-se a importância da presença da família durante a permanência do idoso na instituição e também as dúvidas, ansiedades, culpas e novas formas de relacionamento numa construção da integração entre a família, o idoso e o residencial. Com essas intervenções psicogerontológicas durante o processo de adaptação que varia em cada caso, estatisticamente conseguimos diminuir o número de saídas e de queixas dos novos residentes e também melhorou o nível de integração e satisfação entre os recém-chegados e os antigos moradores. Respeitar a subjetividade de cada novo morador, aceitar que a identidade e preferências são singulares e podem ser respeitadas mesmo num contexto coletivo e principalmente a atitude e os serviços prestados devem respeitar as várias velhices. A partir de 2005, introduziu-se a terapia da reminiscência, que é o ato ou processo de relembrar o passado. Reminiscencia é lembrança, aquilo que se conserva na memória.essa intervenção é muito usada em países da Europa e nos Estados Unidos, mas pouco difundida no Brasil.Em algumas instituições para idosos na Inglaterra, o processo de reminiscência faz parte do procedimento da instituição e além de promover a identidade e subjetividade serve como facilitador de conhecimento de preferências e necessidades em função do referencial autobiográfico de cada residente. O psiquiatra e geriatra Dr. Robert Butler, pioneiro nesse tipo de tratamento, autor do livro The nature of memory, life review, afirma que a reminiscência é:...um processo mental que ocorre de maneira natural, em que se trazem a consciência, experiências passadas e os conflitos sem estarem resolvidos. No artigo The life review: na interpretation of reminiscencein the aged (1963),Dr.Butler afima que a terapia da reminiscência é um processo universal,

5 onde a reintegração das experiências passadas e os conflitos não resolvidos, podem ser de novo revisados oferecendo uma resolução dos mesmos, assim como um sentimento de serenidade e sabedoria.(butler,1963,p.65) A intervenção terapeutica da reminiscência é realizada com um grupo fechado de idosos com o mínimo de cinco a doze residentes, uma vez por semana, com duração de uma hora e meia e no total de nove encontros. Essas atividades apresentam-se como algo confortável e familiar ao idoso, pois o recontar acontecimentos de sua estória de vida, representam uma síntese dinamicamente significativa de recordações, numa criação singular do individuo e prioriza a conservação da identidade pessoal. As bases da terapia é trabalhar a estrutura de personalidade a evolução, fortalecer ou restituir o senso de identidade e a auto-estima. Reviver fatos do passado, descobrir significados novos, que não era capaz de reconhecer no momento presente, resignificar os conteúdos conseguir uma reintegração entre passado e presente. O processo de relembrar tem um significado especial tanto para o idoso que se coloca como para os demais integrantes do grupo e ao psicoterapeuta pois oferece a oportunidade de expressão, reflexão e aprendizagem. Esse trabalho terapêutico é um processo de adaptação ao ciclo da vida, a questão da temporalidade e finitude que se coloca como eixo estruturante para a imersão de potencialidades da vida e das sucessivas gerações. Através da vinculação do material inconsciente com o consciente buscar melhorar o auto-conhecimento, a flexibilidade, novos sentidos de vida através da serenidade e sabedoria. A temática da terapia de reminiscência basea-se nas oito idades do homem descritas no livro Infância e sociedade, de Erik H.Erikson, que são: fase oral: confiança básica x desconfiança, fase muscular-anal: autonomia x vergonha e dúvida, fase locomotor-genital: iniciativa x culpa, fase de latência: industria x inferioridade, fase puberdade e adolescência: identidade x confusão de papel, idade adulta jovem: intimidade x isolamento, idade adulta: generatividade x estagnação, maturidade: integridade x desespero.através da resolução adequada desses conflitos inerentes das fases da vida conseguimos ter um bom desempenho existencial e na velhice conseguimos uma integração pessoal entre os fatos do passado com os do aqui agora e

6 desenvolver o sentimento de pertencer a um lugar e a um determinado tempo com a construção de uma imagem significativa e um nível de utilidade e satisfação com a vida. As sessões promovem a recordação de eventos que marcaram as fases da vida, a solidariedade e empatia entre os integrantes do grupo promovem emoções fortes e singulares que reforçam a identidade e sentido de vida e colaboram para um novo entendimento das dificuldades e perdas existenciais, através do sentimento universal das gerações. A organização dos temas objetiva a recordação dos fatos e vivencias mais significativas na estória de cada participante do grupo e são basicamente divididos em cada encontro no total de nove com os temas: infância ( nome e origem), infância ( fato que marcou), relacionamento social (amizade), adolescência ( fato marcante), jovem adulto ( acontecimento), adulto ( trabalho significativo), maturidade ( mudanças), velhice ( projetos), fechamento ( integração). O processo de recordação demonstrou ser um excelente recurso em instituições de longa permanência pois, além de valorizar a identidade e subjetividade de cada residente promove sua auto-estima e criatividade para desenvolver novos sentidos e desafios de vida num ambiente coletivo.estimula a socialização e o sentimento de pertencer a uma comunidade da qual participa e integra. As reminiscências ajudam o idoso a integrar sua vida num retrato existencial e a elaborar conflitos e valorizar a família numa nova perspectiva, desenvolvendo sentimentos de dignidade, auto-eficácia e autonomia. A velhice é vista como uma fase em crescimento onde as experiências e conhecimentos podem ser melhor utilizados em novos projetos de vida.

7 Bibliografia AQUINO, F.T.M.; CABRAL, B.E.S. (2002) O idoso e a família. In:FREITAS,E.V.; PY, L.; CALÇADO, F.A.X., et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Ed. Guanabara Koogan, 1ª ed. Rio de Janeiro. Butler, R.N. (1963). The Live Review: na interpretation of reminiscence in old age. Psychiatry, Journal for the Study of Inter-personal Processes, 26, BORN, T. (1996) Cuidado ao idoso em instituição. In: Papleo Netto, N. (Org). Gerontologia. Ed. Atheneu, p , São Paulo. CASTORIADIS, C. (1995) A instituição imaginária da sociedade. Paz e Terra, Rio de Janeiro. CORTE, B., XIMENES, M.A. (2006) O fazer institucionalizado: o cotidiano do asilamento. Revista Kairós, 9 (2), pp , dez., São Paulo. ERIKSON, H.E. (1971) Infância e sociedade, Zahar Editores, Rio de Janeiro. HAIGHT,K.B., HAIGHT, S.B. (2007) The handbook of mérica ed life review. Health Professions Press Baltimore, Maryland, United States of mérica. MERCADANTE,E.F. (1998) A identidade e a subjetividade do idoso. Revista Kairós, Ano 1 n 1, São Paulo. Mini Currículo

8 Eliana Novaes Procópio de Araújo: Formada em Psicologia pela PUC-SP, mestranda em Gerontologia pela PUC-SP, consultora em Psicogerontologia em I.L.P.I.s e atuações em atendimentos clínicos. Ruth Gelehrter da Costa Lopes: Doutora em saúde publica em São Paulo. Coordenadora do programa de estudos de pós-graduação em gerontologia da PUC de São Paulo.

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