COMUNIDADES VIRTUAIS DE CONHECIMENTO: informação e inteligência coletiva no ciberespaço RESUMO

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1 COMUNIDADES VIRTUAIS DE CONHECIMENTO: informação e inteligência coletiva no ciberespaço Inácio Szabó Rubens Ribeiro Gonçalves da Silva RESUMO Este trabalho é resultante da dissertação de Mestrado apresentada em Agosto de 2008 ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Instituto de Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia (PPGCI/UFBA). O objetivo da pesquisa foi a investigação sobre como se desenvolvem e se disseminam as comunidades virtuais do ciberespaço. Vinte comunidades virtuais (CV) foram investigadas, por meio da submissão de questionários para seus criadores e participantes, visando a identificar aspectos gerais das CV e estratégias utilizadas para estimular a interação e divulgar as comunidades. Buscamos também refletir, a partir de uma abordagem dialética materialista, sobre os processos informacionais que ocorrem nestas comunidades, a formação da inteligência coletiva, e a possível contribuição das CV para a evolução à Sociedade do Conhecimento. Adotando um viés sócio-humanista e abordagem dialética materialista, analisamos as contradições do uso da internet e propomos o conceito de Comunidades Virtuais de Conhecimento (CVC) para as comunidades cuja intenção de formação está relacionada ao compromisso de transformação da sociedade, e cujo envolvimento entre os participantes se caracteriza pelo forte senso de cidadania. Revisamos o modelo de classificação de comunidades virtuais proposto por Henri e Pudelko alterando os critérios de classificação e acrescentando as CVC aos possíveis tipos de comunidades virtuais do modelo. A pesquisa nos permitiu testemunhar o uso do ciberespaço por movimentos sociais que constituem Comunidades de Conhecimento em prol de uma sociedade mais justa, consciente e equilibrada. Entendemos que aí reside o potencial de contribuição do ciberespaço para a evolução à Sociedade do Conhecimento. Palavras-chave: Comunidades virtuais, Comunidades virtuais do conhecimento, Ciberespaço, Inteligência coletiva 1 INTRODUÇÃO Este trabalho é resultante da dissertação de Mestrado apresentada em Agosto de 2008 ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia (PPGCI/UFBA), cujo objetivo foi a investigação de como se desenvolvem e se disseminam as comunidades virtuais (CV) do ciberespaço. Vinte CV foram investigadas, após a submissão de Coordenador de projetos do Instituto Recôncavo de Tecnologia. Mestre em Ciência da Informação. (PPGCI/UFBA), Bacharel em Engenharia da Computação (UNICAMP). Professor adjunto do Departamento de Fundamentos e Processos Informacionais (DFPI/ICI/UFBA) e do PPGCI/UFBA. Doutor em Ciência da Informação (UFRJ-ECO/IBICT-DEP, 2002).

2 questionários para seus criadores e participantes. Adotando um viés sócio-humanista e abordagem dialética materialista, buscamos refletir também sobre os processos informacionais que ocorrem nestas comunidades, a formação da inteligência coletiva e a possível contribuição das CV para a evolução à Sociedade do Conhecimento. 1 A fundamentação teórica da pesquisa envolveu uma caracterização da Sociedade em Rede e da Sociedade do Conhecimento, além da apresentação de conceitos referenciados ao longo da dissertação, como conhecimento, informação, ciberespaço e comunidades virtuais. Para a seleção das CV investigadas, nos baseamos na classificação tipológica de Henri e Pudelko (2003), e propomos uma revisão desta classificação acrescentando o conceito de Comunidades Virtuais de Conhecimento (CVC) para denominar as comunidades relacionadas a questões sociais ou ambientais, cuja intenção de formação está relacionada ao compromisso de transformação da sociedade, e cujo envolvimento entre os participantes se caracteriza pelo forte senso de cidadania. A pesquisa de campo permitiu verificar a classificação de CV adotada, analisar aspectos gerais sobre as CV investigadas, compreender como os participantes chegaram às CV e quais suas ferramentas favoritas, além das dificuldades enfrentadas pelos criadores de comunidades e as formas de estímulo à interatividade e à participação. Neste artigo apresentamos os principais conceitos da fundamentação teórica adotada, uma síntese da reflexão sobre o ciberespaço e a inteligência coletiva, o modelo de classificação de CV adotado e um resumo dos resultados obtidos na pesquisa de campo. 2 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Ao iniciarmos a pesquisa percebemos a necessidade de analisar os principais aspectos que definem a Sociedade em Rede, por entendermos que o advento das CV está inserido no contexto social que caracteriza as redes como nova forma de organização da sociedade contemporânea. A partir do estudo de Castells (1999), Capra (2002) e outros autores, identificamos aspectos como a importância das TIC e do conhecimento técnico-científico, o surgimento de uma economia informacional em escala planetária (que se torna mais poderosa que o próprio fluxo material), e a influência das redes de informação nas relações sociais, culturais e políticas. Corroboramos, 1 Cf. Szabó, A dissertação resultou também na publicação de três artigos em periódicos da área (SZABÓ; SILVA; 2006a; 2007a; 2007c), e apresentações de trabalhos no VI ICOM (2006, em Havana, Cuba), no VII ENANCIB (2007, em Salvador, Brasil) e no ISKO France (2009, em Lyon), dentre outras. Um pôster sobre a pesquisa recebeu menção honrosa em 2008, no Seminário Interativo Ensino, Pesquisa e Extensão, da UFBA.

3 entretanto, com a opinião de autores como Schiller (1999) e Webster (2002), que afirmam que a Sociedade em Rede não se trata de um rompimento em relação à Sociedade Industrial, visto que continua baseada nas mesmas relações de lucro e de estratificação social daquela fase do capitalismo. Em nossa fundamentação teórica apresentamos as definições adotadas para os conceitos de informação e conhecimento, que consideramos de grande relevância para estudos na área da Ciência da Informação. O modelo ativista do conhecimento de Schaff (1986) propõe que a construção do conhecimento se dá por meio da prática social do sujeito que apreende o objeto pela sua atividade. Este modelo nos foi útil por conceber o conhecimento como um processo interativo e infinito de acúmulo de verdades parciais, que aplicamos à construção do conhecimento no ciberespaço. A adoção do conceito de informação proposto por Silva (2006), como processo associado à possibilidade de ampliação da consciência acerca da possibilidade de conhecer e agir, significou um passo importante no direcionamento da pesquisa para a investigação da possível contribuição das interações humanas nas CV para a transformação humanista da sociedade. Isto se deve ao fato de tal proposta conceitual enfatizar a ação social transformadora como resultado da ampliação da consciência possibilitada pelos processos informacionais. Apoiamo-nos no conceito proposto pela UNESCO (2005), para investigar a possível contribuição das CV para a evolução à Sociedade do Conhecimento. O Informe Mundial da Unesco afirma que: A Sociedade do Conhecimento pode ser considerada uma evolução da Sociedade em Rede, que propicia uma melhor tomada de consciência dos problemas mundiais. Os prejuízos causados ao meio ambiente, os riscos tecnológicos, as crises econômicas e a pobreza são elementos que se podem tratar melhor mediante a cooperação internacional e a colaboração científica. (UNESCO, 2005, p. 20). Optamos inicialmente por um conceito de CV construído com base nas idéias de Rheingold (1996) e Lévy (1999), como os agregados sociais que surgem na rede a partir das interações de indivíduos que, independente de suas localizações geográficas, trocam impressões e saberes sobre determinado tema de interesse de forma constante, possibilitando o conhecimento e a ação em decorrência destas interações. A leitura de Lévy (1999) nos fez perceber o ciberespaço como um movimento social sobre a tecnologia, uma prática de comunicação interativa e comunitária, a única que permite a

4 comunicação de muitos para muitos em escala global. Por reunir essas características, o ciberespaço se diferencia de outros meios de comunicação de massa, oferecendo uma alternativa à dominação da indústria cultural (FREITAG, 1986) e permitindo a pluralidade do discurso. Aí está a semente da inteligência coletiva. A partir do estudo da dialética materialista, compreendemos que, de acordo com esta abordagem, a contradição consiste na fonte do movimento e do processo de transformação da natureza, da sociedade humana e do pensamento, como afirma Engels (1963). A opção pela abordagem dialética materialista representou a busca pela interpretação do uso da internet a partir de suas contradições e das forças de transformação da sociedade que delas surgem. Dyer- Witheford (1999) destacou que, ao impulsionar o modelo transnacional do capitalismo, o uso das TIC, e em especial da internet, cria também um ambiente apropriado para o surgimento de movimentos sociais que contestam e propõem alternativas a este modelo sócio-econômico. Com base na abordagem dialética materialista e na fundamentação teórica constituída, enfatizamos na pesquisa a investigação de exemplos de CV que contradizem a lógica do capitalismo global em seus processos informacionais. Consideramos que, quando a agregação de indivíduos em CV é motivada por questões sociais, de saúde pública, distribuição de renda ou preservação ambiental, caracteriza-se o uso do ciberespaço por um movimento social transformador. Neste caso os processos informacionais que ocorrem nas CV favorecem a ampliação da consciência humana acerca da possibilidade de conhecer e de agir, em um movimento contrário à lógica capitalista, voltado para a superação dos problemas de nossa sociedade. E compreendemos a inteligência coletiva como uma formação associada a esse movimento, que conecta os saberes e a criatividade humana em uma escala planetária. 3 O MODELO DE CLASSIFICAÇÃO DE COMUNIDADES VIRTUAIS ADOTADO Embora tenhamos optado por enfatizar a investigação de CV ligadas a questões sociais e ambientais, julgamos necessário definir um conjunto mais abrangente para investigação, com o intuito de observar possíveis contradições e semelhanças nos diferentes tipos de CV. Desta forma, se evidenciou a necessidade de adotar um modelo de classificação que nos respaldasse quanto aos critérios de seleção das CV a serem investigadas. A escolha do modelo de Henri e Pudelko (2003) como referência para a classificação se deu pelo fato dos autores associarem tipos de CV a diferentes formas de aprendizado, baseandose na teoria social do aprendizado de Wenger (1998) e por ele aplicada às comunidades de

5 prática. Henri e Pudelko utilizaram como critérios para sua classificação a intenção de formação da CV e o nível de envolvimento entre os participantes. O modelo proposto pelos dois autores é composto de quatro tipos de CV, como pode ser visto na Figura 1. Cada um desses tipos de CV estaria respectivamente num nível mais evoluído em relação ao anterior quanto ao envolvimento entre os participantes e à intenção de formação da CV: - Comunidades de Interesse (CI): é um agregado de pessoas reunidas em torno de um tema de interesse comum. Seus membros participam da comunidade para ampliar o conhecimento por meio da troca de saberes. O objetivo da comunidade de interesse não é dirigido para a produção coletiva, o aprendizado obtido neste tipo de comunidade é mais individual do que coletivo. - Comunidades de Interesse Orientadas a Objetivos (CIO): comunidades que surgem com o intuito de realizar um projeto, visando ao atendimento de uma necessidade específica, e cujos participantes não são agregados de forma aleatória. Uma comunidade deste tipo reúne especialistas recrutados em função de suas competências, e geralmente tem o seu ciclo de vida associado à duração do projeto. - Comunidades Educacionais (CE): é constituída por alunos de uma mesma classe, de uma mesma instituição ou geograficamente dispersos (HENRI; PUDELKO, 2003, p. 481). O objetivo deste tipo de comunidade é o aprendizado através do relacionamento social. Diferente dos outros tipos de comunidades apresentados nesta classificação, a construção do conhecimento em uma comunidade educacional se dá através da orientação de um professor, e está relacionada aos objetivos de um programa educacional. - Comunidades de Prática (CP): são constituídas por pessoas que, no mundo real, já realizam as mesmas atividades profissionais ou compartilham as mesmas condições de trabalho, e que tem na comunidade uma oportunidade de aperfeiçoar suas práticas, reafirmar sua identidade profissional e contribuir para a própria comunidade.

6 Figura 1: Tipos de CV de acordo com os critérios de classificação de Henri e Pudelko Fonte: Henri; Pudelko, 2003, p. 476 (Tradução nossa). Assim como Wenger criou o termo comunidades de prática e analisou sua influência nas organizações, Henri e Pudelko destacaram em sua classificação o envolvimento corporativo e a intenção de formação de CV como aperfeiçoamento da prática profissional dos participantes. Nesse ponto discordamos do modelo de classificação proposto pelos dois autores. O enfoque sócio-humanista da pesquisa fez com que propuséssemos uma revisão do modelo de Henri e Pudelko, incluindo as Comunidades Virtuais de Conhecimento (CVC) na classificação. Estas seriam CV cujo envolvimento entre os participantes está associado ao senso de cidadania, e cuja intenção de formação está relacionada ao compromisso de transformação da sociedade. A proposta de revisão do modelo de Henri e Pudelko, que resultou no modelo de classificação de CV adotado na pesquisa, pode ser visto na Figura 2.

7 Figura 2: Diferentes tipos de CV de acordo com seus vínculos sócio-humanistas (desenvolvida com base em Henri e Pudelko, 2003) Comparando ao modelo de Henri e Pudelko apresentado na Figura 1, este modelo proposto apresenta uma nova configuração axial, no qual a intenção de formação estaria associada ao compromisso de transformação da sociedade (daí denominarmos o eixo horizontal do gráfico, que adaptamos, de intenção de transformação ), e o nível de envolvimento entre os participantes caracterizando-se como senso de pertencimento à sociedade (cidadania), anterior ao pertencimento a um grupo que compartilha uma mesma corporação ou atividade profissional. Além disso incluímos as Comunidades Virtuais de Conhecimento (CVC) no ponto mais alto da escala, e realizamos um reposicionamento das Comunidades Educacionais (CE), à frente das Comunidades de Prática, com base nos resultados obtidos na própria pesquisa de campo realizada. Note-se que o enfoque proposto é de cunho sócio-humanista, em detrimento da abordagem associada ao universo corporativo da proposta de Henri e Pudelko (2003). 4 A PESQUISA DE CAMPO Durante a pesquisa de campo foram investigadas 20 CV que se enquadravam na classificação tipológica adotada, e que atendiam também aos seguintes requisitos: serem brasileiras, ou apresentadas no idioma português, oferecer fórum de discussão, possuir no mínimo

8 100 participantes e estar abertas a novas inscrições. A seguir um resumo dos temas das 20 CV selecionadas, agrupadas entre os tipos previstos pela classificação adotada: Quatro Comunidades de Interesse (CI), relativas às áreas de cinema, medicina alternativa, fotografia e plantas medicinais; Uma Comunidade de Interesse Orientada a Objetivos (CIO), relativa ao estudo e análise do estatuto da pessoa com deficiência; Quatro Comunidades Educacionais (CE), relativas aos estudos escolares da cultura regional brasileira, gestão ambiental, preservação de rios (ecologia), e matemática; Cinco Comunidades de Prática (CP), nas áreas de gestão do conhecimento, meteorologia, formação de professores de Artes, ensino à distância, e intranets e portais; Seis Comunidades Virtuais de Conhecimento (CVC), nas áreas de mídia independente, movimento feminino negro, debates sobre o 3º setor, segurança, cidadania, campanhas de trabalho voluntário, e defesa do meio-ambiente. A Figura 3 apresenta a relação das 20 CV selecionadas para a pesquisa de campo. Em negrito as Comunidades Virtuais de Conhecimento (CVC) investigadas na pesquisa. Figura 3: Comunidades virtuais investigadas durante a pesquisa de campo Foram elaborados dois questionários distintos para a pesquisa de campo, um para criadores e outro para participantes de CV. Os questionários foram respondidos através de

9 ferramenta web, localizada em um sítio gratuito dedicado à hospedagem de questionários de pesquisa (www.my3q.com). A aplicação dos questionários ocorreu entre agosto e outubro de 2007, tendo sido obtidas 17 respostas ao questionário para criadores de CV num percentual de retorno de 68% em relação ao número de questionários submetidos, e 111 respostas de participantes pertencentes a 18 comunidades. Em geral, consideramos que foi obtido êxito no índice de respostas aos questionários. Este êxito demonstra que, apesar de não recomendada por alguns pesquisadores, a coleta de dados por meio de submissão de questionários pela internet é um instrumento de pesquisa que pode trazer bons resultados. Vale destacar que houve a preocupação em utilizar questionários curtos, em HTML, de preenchimento on-line, explorando ao máximo as questões objetivas. E, de modo geral, percebemos que o público que participa de CV está aberto à interação virtual e a colaborar em pesquisas que contribuam para um maior entendimento sobre esta prática de comunicação e sobre o que está sendo construído através da interação entre os participantes das CV. Denominam-se moderadores de uma CV às pessoas que assumem um papel específico na organização da comunidade. Na pesquisa de campo observamos que mais de 90% das CV investigadas possuem moderadores. A Figura 4 apresenta as principais responsabilidades atribuídas aos moderadores das CV, de acordo com 15 criadores de comunidades Administrar a Comunidade (incluir e excluir participantes) Filtrar mensagens e decidir quais devem ser excluídas Responder a perguntas dos participantes Editar textos ou resumos de notícias Lançar questões para gerar discussão Divulgar a comunidade 1 Outras 0 Figura 4: Responsabilidades dos moderadores das CV

10 Verifica-se que há um equilíbrio entre as responsabilidades atribuídas aos moderadores das comunidades, com algum predomínio de atividades diretamente relacionadas à gestão dos participantes da CV. Na pesquisa observamos que, em relação às ferramentas disponibilizadas, os fóruns de discussão e links para documentos diversos são as ferramentas mais frequentemente encontradas nas CV. E são também as ferramentas preferidas pelos participantes, conforme pode ser visto na Figura 5. Figura 5: Ferramentas preferidas por participantes de CV Sobre as dificuldades enfrentadas pelos criadores de CV, as respostas indicaram principalmente a pouca disponibilidade de tempo para o trabalho de moderação, a dificuldade em evitar conflitos entre os participantes, e o desconhecimento de formas para estimular a interação e a adesão de novos participantes, este último justamente um dos assuntos investigados na pesquisa. A partir de nossa observação foi possível constatar que, embora os sítios e ferramentas gratuitos para a hospedagem de CV disponham de diversas ferramentas que estimulam a interação entre os participantes, a criação de ferramentas orientadas aos objetivos específicos de uma CV demanda investimentos. Da mesma forma, as tarefas associadas à moderação podem requerer um nível de dedicação que vai além do trabalho voluntário, exigindo a contratação de pessoal remunerado. Verificamos que, quando ocorrem, esses investimentos são feitos por

11 instituições acadêmicas, ONG ou em alguns casos empresas privadas através de ações de responsabilidade social. Em relação ao estímulo à interação entre os participantes, as técnicas descritas pelos criadores variam desde o envio de boletins on-line com chamadas de tópicos de discussão, até campanhas específicas de acordo com os perfis de participantes. Há casos como o da CV Fórum Digital, sobre fotografia, na qual são realizados concursos fotográficos para estimular a participação. Ou ainda o caso do Grupo de Estudos do Estatuto da Pessoa com Deficiência, em que, ao se inscrever no grupo, o participante automaticamente recebe uma minuta do estatuto, para que possa se integrar às discussões. Em relação às estratégias utilizadas para atrair novos participantes às CV, cerca de 40% dos criadores entrevistados afirmaram que não adotam nenhuma estratégia específica para essa finalidade. Dentre as respostas positivas recebidas, a maioria dos participantes comentou que a CV está associada a um sítio ou portal da internet, que ajuda a divulgar a comunidade. Alguns criadores comentaram também que as comunidades são divulgadas através de cadastro em mecanismos de busca, e por seus próprios membros ( boca-a-boca ). Dentre os criadores de CV que afirmaram utilizar estratégias para a divulgação no mundo real, foram comentadas a divulgação em veículos de comunicação, a distribuição de material impresso em eventos e a realização de encontros presenciais. De acordo com as respostas obtidas no questionário para participantes, os criadores precisam priorizar a divulgação das CV em sítios de busca como o Google, pois 45% dos participantes tomaram conhecimento por meio de buscas. Já a indicação de amigos é a segunda forma que mais atrai novos participantes a uma comunidade, com 24,3% das respostas obtidas. A Figura 6 indica as formas pelas quais os participantes tomaram conhecimento sobre a existência da CV.

12 50,00% 45,00% 40,00% 35,00% 30,00% 45,00% Pesquisa em Sítios de Busca Indicação de amigos Outras 25,00% 20,00% 15,00% 24,30% 15,30% Mensagem encaminhada através de outra comunidade ou grupo de discussão Mensagem de divulgação recebida através da internet 10,00% 5,00% 8,10% 4,50% 2,70% Sugestão ou recomendação da escola/comunidade/ong 0,00% Figura 6: Como os participantes tomaram conhecimento sobre a existência da CV Dedicamos também perguntas dos questionários para a verificação do nível de envolvimento do grupo e a intenção de participação nas CV, como forma de avaliar o modelo de classificação de CV adotado. Apresentamos aqui uma comparação entre as respostas dos criadores e participantes de cada tipo de CV investigado para uma destas perguntas, que questionava os objetivos da CV à qual estavam vinculados. Em geral, nas Comunidades de Interesse (CI) e Comunidades de Prática (CP) investigadas, os objetivos dessas comunidades, segundo seus criadores, consistem na disseminação do tema da CV. Já para os membros, a participação é normalmente motivada pelo aprendizado e pela troca de saberes. No caso das Comunidades Educacionais (CE), percebemos por parte dos criadores uma maior objetividade em relação à concretização dos projetos de aprendizagem, e para os participantes, o objetivo de socialização e compartilhamento do conhecimento. Já para a Comunidade de Interesse Orientada a Objetivos (CIO) e para as Comunidades de Conhecimento (CVC) investigadas, os objetivos das CV para seus criadores envolvem, além do aprendizado, uma preocupação mais efetiva com a possibilidade de ação em prol da sociedade. Isso se verificou nas respostas que descrevem os objetivos das CV pela presença de expressões como organização, busca de soluções e articulação. Nas respostas dos participantes, destaca-se o objetivo de contribuir e encontrar oportunidades de ação.

13 Nota-se, portanto, a partir da análise das respostas, uma tendência entre as CI e CP, tanto por parte dos criadores como por seus participantes, de promover o aprendizado e a troca de saberes. Já entre as CE, CIO e CVC, além do aprendizado, seus objetivos estão mais voltados para a ação social e a cidadania, demonstrando assim coerência com a classificação de CV adotada na pesquisa. Um aspecto importante desta classificação é a idéia das CV poderem evoluir de um tipo para outro, na medida em que se amplia o senso de pertencimento à sociedade e a intenção de transformação social. Na pesquisa nos deparamos com casos de CV como a Brasil Abaixo de Zero, que embora inicialmente pudesse ser considerada uma Comunidade de Prática (CP) de profissionais de meteorologia, podemos dizer que evolui para uma Comunidade de Conhecimento (CVC), ao tratar de temas de interesse da sociedade em geral, como as mudanças climáticas. Apesar de mais da metade dos participantes terem indicado nomes de outras CV que conhecem e/ou participam, a pesquisa não permitiu extrair muitas conclusões a respeito de possíveis associações entre CV formando comunidades mais complexas. Alguns criadores indicaram que a comunidade está associada a CV estrangeiras sobre o mesmo tema, mas não conseguimos observar de forma mais aprofundada estas associações, pois percebemos que isto exigiria um nível de participação que ultrapassaria os objetivos da pesquisa, podendo vir a ser objeto de um estudo específico. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho reuniu aspectos teóricos e resultados da pesquisa realizada sobre comunidades virtuais, que resultou na dissertação apresentada ao PPGCI/UFBA em Na seção de fundamentação teórica apresentamos brevemente o quadro conceitual e a abordagem dialética materialista que adotamos, e que nos permitiram refletir sobre os processos informacionais e a inteligência coletiva no ciberespaço. Em seguida explicamos o modelo de classificação de CV que tomamos como referência, no qual incluímos as Comunidades Virtuais de Conhecimento, e nos baseamos para definir os tipos de CV investigados na pesquisa de campo. Na quarta seção apresentamos uma síntese dos resultados obtidos por meio da investigação das vinte CV selecionadas e da submissão de questionários a seus criadores e participantes. Estamos de acordo com a Unesco quando afirma que em um estágio mais evoluído da sociedade, a humanidade tomará maior consciência sobre os problemas mundiais, e então a

14 cooperação internacional e a colaboração científica para a resolução desses problemas serão muito mais efetivas. Entendemos que os processos informacionais no ciberespaço serão de grande importância para alcançarmos este estágio, pois podem contribuir para a ampliação da consciência humana a partir da inteligência coletiva constituída, resultante de um processo de conexão de saberes e de criatividade em escala global, que possibilita a ação social humanista transformadora. A pesquisa da qual resulta este trabalho nos permitiu testemunhar o uso do ciberespaço por alguns movimentos sociais em prol da articulação de idéias e ações para a construção de uma sociedade mais justa, consciente e equilibrada. Embora o uso da internet para este propósito ainda seja emergente, acreditamos que aí reside o potencial de contribuição do ciberespaço e da inteligência coletiva para a Sociedade do Conhecimento. Uma possível continuação da pesquisa poderá ser o estudo da aplicação de técnicas de estímulo à interação e de estratégias de divulgação observadas na pesquisa de campo a outras Comunidades Virtuais de Conhecimento ligadas a movimentos sociais brasileiros, visando a um maior aproveitamento da possibilidade de interação coletiva através do ciberespaço. THE VIRTUAL KNOWLEDGE: information and collective intelligence in cyberspace ABSTRACT This work is the result of the Master's dissertation submitted in August 2008 to the Post- Graduation in Information Science at the Institute of Information Science, Federal University of Bahia (PPGCI / UFBA). The objective of the research was to study how they develop and spread the virtual communities of cyberspace. Twenty virtual communities (VC) were investigated through the submission of questionnaires to its creators and participants, to identify general aspects of the CV and strategies used to stimulate interaction and promote communities. They also seek to reflect, from a dialectical materialist approach, on the informational processes that occur in these communities, the formation of collective intelligence, and the possible contribution of CV for the evolution of the knowledge society. Adopting a bias socio-humanist and dialectical materialist approach, we analyze the contradictions of using the Internet and propose the concept of Virtual Knowledge Communities (CVC) for the communities where the intention of training is linked to the commitment to transforming society, and whose involvement between participants characterized by a strong sense of citizenship. We reviewed the classification model of virtual communities proposed by Henri Pudelko changing the criteria for classification and adding the CVC to the possible types of virtual communities of the model. The research allowed us to witness the use of cyberspace by social movements that constitute the Knowledge towards a more just society, aware and balanced. We believe that there is the potential contribution of cyberspace for the evolution of the knowledge society.

15 Keywords: Virtual Communities, Virtual Communities of knowledge, Cyberspace, Collective intelligence REFERÊNCIAS CAPRA, Fritjof. As Conexões Ocultas: Ciência para uma Vida Sustentável. São Paulo: Editora Cultrix, CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. v. 1. São Paulo: Paz e Terra, DYER-WITHEFORD, Nick. Cyber Marx: Cycles and Circuits of Struggle in High Technology Capitalism. Chicago: Illinois Press,1999. ENGELS, Friedrich. Anti-Duhring. Paris: Editions Sociales, Apud Schaff, FREITAG, Barbara. A Teoria Crítica: Ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, HENRI, France; PUDELKO, Béatrice. Understanding and analyzing activity and learning in virtual communities. Journal of Computer Assisted Learning, p , LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, RHEINGOLD, Howard. La Comunidad Virtual: Uma Sociedad sin Fronteras. Barcelona: Gedisa Editorial,1996. SCHAFF, Adam. História e Verdade. São Paulo. Martins Fontes, SCHILLER, Dan. Digital capitalism: networking the global market system. Cambridge: MIT Press, SILVA, Rubens R.G. Informação, Ciberespaço e Consciência. Transinformação. Campinas. v. 18, n. 3, p , set./dez., Disponível em: <http://revistas.puccampinas.edu.br/transinfo/include/getdoc.php?id=386&article=181&mode=pdf>. Acesso em: 03 Ago SZABÓ, Inácio. Comunidades virtuais de conhecimento: informação e inteligência coletiva no ciberespaço. Dissertação de Mestrado. Orientador: Rubens Ribeiro Gonçalves da Silva. Salvador: PPGCI/UFBA, 135 p, Disponível em: <http://www.reconcavotecnologia.org.br/sitenovo/portal/portal.do?method=open&session=public acoes&id=33>. Acesso em: 03 Ago SZABÓ, Inácio; SILVA, Rubens R. G. A construção de conhecimento nas comunidades virtuais do ciberespaço. E-Compós, Brasília, v. 7, p. 1-19, 2006a. Disponível em: <http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewfile/116/115>. Acesso em: 08 Ago

16 SZABÓ, Inácio; SILVA, Rubens R. G. Comunidades Virtuais de Conhecimento: Informação e inteligência coletiva no ciberespaço (Pôster). In: Seminário Interativo Ensino, Pesquisa e Extensão, 2008, Salvador. SZABÓ, Inácio; SILVA, Rubens R. G. Informação e inteligência coletiva no ciberespaço: uma abordagem dialética. Ciências & Cognição; Ano 04, v. 11, p , 2007a. Disponível em: <http://www.cienciasecognicao.org/artigos/v11/ html>. Acesso em: 8 Ago SZABÓ, Inácio; SILVA, Rubens R. G. Intelligence collective et Communautés virtuelles de connaissance dans le cyberespace : une étude critique d après Henri et Pudelko. In: 7e Colloque International du Chapitre Français de l ISKO - International Society for Knowledge Organization, Lyon, juin Anais Lyon, França: SZABÓ, Inácio; SILVA, Rubens R. G. La Construcción del Conocimiento en las Comunidades Virtuales del Ciberespacio. In: VI Encuentro Internacional de Investigadores y Estudiosos de la Información y la Comunicación, Anais Havana, Cuba: Universidad de la Havana, 2006b. SZABÓ, Inácio; SILVA, Rubens R. G. Uma abordagem dialética da inteligência coletiva e da informação no ciberespaço. In: VIII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB), 2007b, Salvador. Anais...Salvador: SZABÓ, Inácio; SILVA, Rubens R. G. Uma revisão da classificação de comunidades virtuais proposta por Henry e Pudelko. Informação & Sociedade. Estudos, v. 17, p , 2007c. Disponível em: <http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/835/1586>. Acesso em: 03 Ago UNESCO, Hacia la Sociedad del Conocimiento. Ediciones Unesco, Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0014/001419/141908s.pdf>. Acesso em: 03 Ago WEBSTER, Frank. The Information Society Revisited. In: Lievrouw, L. and Livingstone, S., The Handbook of New Media. Londres: Sage Publications, WENGER, Etienne. Communities of Practice: Learning, Meaning and Identity. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

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