TURISMO CULTURAL D I R E T R I Z E S PA R A O D E S E N V O LV I M E N T O B R A S I L

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1 TURISMO CULTURAL D I R E T R I Z E S PA R A O D E S E N V O LV I M E N T O B R A S I L

2 Distribuição Gratuita Impresso no Brasil Printed in Brazil

3 APRESENTAÇÃO A cultura engloba todas as formas de sentir, agir, fazer, manifestar-se, as relações entre os seres humanos e o meio ambiente e os produtos dessa relação. A definição de cultura vista nesta perspectiva abrangente permite afirmar que a cultura brasileira é plural e diversa. Nos últimos anos, novos produtos turísticos característicos dessa atividade vêm despontando, ampliando o leque de opções antes bastante restrito a alguns produtos com base no patrimônio cultural edificado e a algumas festas tradicionais brasileiras. A relação entre a cultura e a atividade turística não pode ocorrer sem a necessária caracterização e estruturação do segmento pertinente. O desenvolvimento desse tipo de turismo deve ocorrer pela valorização e promoção das culturas locais/regionais, preservação do patrimônio histórico e cultural e geração de oportunidades de negócios no setor, respeitados os valores, símbolos e significados dos bens materiais e imateriais da cultura para as comunidades. Diante disso e tendo como pressuposto o entendimento de que o Turismo Cultural é uma das principais estratégias para aumentar o fluxo turístico, em conformidade com o Plano Nacional de Turismo , o Ministério do Turismo, atendendo às demandas dos agentes da cultura e do turismo, apresenta as Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Cultural. Espera-se, dessa forma, contribuir para o desenvolvimento e consolidação do segmento no País, promovendo a diversidade cultural brasileira, a geração de riqueza e a inclusão social.

4 Foto: Riotur

5 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 7 2. PANORAMA DO Turismo Cultural 9 3. CONCEITUAÇÃO OBJETIVOS PRINCÍPIOS DIRETRIZES E ESTRATÉGIAS REFERENCIAIS BIBLIOGRÁFICOS Colaboradores 36

6 Foto: Christian Knepper/Embratur

7 INTRODUÇÃO A busca por experiências inovadoras e autênticas por meio das viagens revela o papel das culturas nos destinos turísticos. É por meio da cultura, suas expressões, bens e serviços que o turista pode vivenciar cenários diferenciados que lhe proporcionem aprendizado, contemplação e lazer. Assim, o Turismo Cultural apresenta-se como um dos segmentos mais representativos no mundo e no Brasil. A diversidade cultural brasileira, a existência de um patrimônio histórico e cultural de grande destaque, incluindo vários considerados Patrimônio da Humanidade, a reconhecida e criativa produção cultural, refletida na música, nas artes, na gastronomia e incontáveis outros bens evidenciam a vocação Turismo Cultural no País. A estruturação e o ordenamento desse tipo de turismo necessários para transformar esse potencial em produtos turísticos de forma sustentável não poderiam ocorrer sem a imprescindível articulação das áreas da cultura e do turismo. Inicialmente era necessário estabelecer um marco conceito de Turismo Cultural, face às inúmeras propostas defendidas por especialistas, pesquisadores e organismos de turismo no mundo todo e caracterizar objetivamente o segmento para poder formular políticas públicas específicas. Após um rico processo de discussão e pesquisa, o marco conceitual foi finalmente consolidado e validado pelo Grupo Técnico Temático (GTT) de Turismo Cultural, no âmbito da Câmara de Segmentação do Conselho Nacional de Turismo, em fevereiro de A partir dessa base conceitual, o GTT debateu e produziu este documento Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Cultural, constituído em processo semelhante, ambos com efetiva participação do Ministério da Cultura e IPHAN. Este trabalho orienta políticas e ações em prol do segmento com vistas à promoção da diversidade cultural brasileira, à preservação e salvaguarda do patrimônio cultural, de modo a contribuir para a consecução de experiências turísticas e culturais enriquecedoras e significativas. 7

8 Foto: Christian Knepper/Embratur

9 2 PANORAMA DO Turismo Cultural Turismo e cultura 1 são termos que, ao se tratar no universo das viagens, aparecem indissociáveis. O conceito antropológico de cultura, tomado como referencial teórico, permite afi rmar que toda viagem é em si uma atividade cultural. A cultura, no entanto, assume um signifi cado de acordo com o contexto 2. Nesse sentido, sob o prisma da segmentação do turismo, cultura para esse turista tem um signifi cado específi co e visível em atrativos turísticos culturais. Ou, ao menos, reside na intenção pontual de conhecer e, de algum modo, apropriar-se, ainda que momentaneamente, de uma experiência inusitada vinculada à cultura, manifesta nas práticas culturais e artefatos que, em suma, retratam um modo de ser, fazer e viver dentro de um determinado processo civilizatório. Pauta-se, portanto, na vivência local dos modos de viver, fazer, ser e pensar e no intercâmbio que pode gerar em função do contato entre turista e residente. Nesse caso, fazer Turismo Cultural signifi ca, para além do ócio e do entretenimento, conhecimento, aprendizado e educação. A relação turismo e cultura historicamente sempre existiu. Nos idos de 1700, nas viagens dos aristocratas do norte europeu aos países do Mediterrâneo, principalmente para a Itália, denominadas grand tour, a cultura já aparecia como uma das principais motivações para os deslocamentos. O viajante dessa época interessava-se pelos monumentos, ruínas e obras de artes dos antigos. No século XIX a literatura romântica estimulava o desejo de conhecimento por meio da viagem, baseada no relato dos escritores. A partir dessa época, os meios de transporte e os hotéis aprimoraram-se, otimizando a atividade, cujas características foram modifi candose, desde a estagnação das Guerras Mundiais até a intensifi cação do fl uxo turístico, no pós-guerra, e a predominância do modelo de turismo de massa que, mais tarde, também seria questionado face a um novo contexto da atividade. Alguns fatores modifi caram o perfi l da atividade turística e conseqüentemente, dos produtos turísticos, redesenhando a relação entre turismo e cultura, especialmente após os anos 80, tais como: a decadência do modelo de turismo de massa, a nova realidade competitiva do mercado turístico e as novas preferências da demanda. Como alternativa ao modelo de turismo de massa, as novas formas de turismo que são conscientes em relação aos valores naturais, culturais, sociais e comunitários, o denominado turismo alternativo, abarcaram praticantes de ecoturismo, turismo rural e Turismo Cultural, entre outros. 1 O conceito de cultura envolve discussões extensas e abarca desde a defi nição clássica de Tylor (1871), até as abordagens atuais defendidas por autores pós-modernos, a exemplo de Geertz (1995). 2 BURNS, Peter M. Turismo e Antropologia: uma introdução. [Tradução: Dayse Batista]. São Paulo: Chronos, p ASCANIO, Alfredo. Turismo: la reestructuración cultural. PASOS Revista de Turismo y Patrimônio Cultural, vol. 1, n. 1, p , Disponível em: Acesso em: 15. fev p HUGUES, Howard. Artes, Entretenimento e Turismo. [Tradução: Mariana Aldrigui Carvalho]. São Paulo: Roca, p

10 As preferências e os gostos dos turistas alteraram-se incorporando novas formas de ocupar o seu tempo livre, que incluem visitas a locais com autenticidade cultural frente a uma comercialização cultural abusiva, desprovida de contexto e estereotipada, que estava relacionada muitas vezes ao modelo de turismo de massa. O Turismo Cultural surge, nesse contexto, como uma atividade turística diferenciada, apontado por estudiosos da área como um dos segmentos em crescimento na preferência dos turistas em todo o mundo. Alguns dados contribuem para evidenciar esse cenário. Segundo dados da ATLAS The Association for Tourism and Leisure Education, 28% das viagens de férias dos europeus têm finalidade cultural número equivalente a 38 milhões de viagens por ano. Nos Estados Unidos, segundo pesquisa da TIA Travel Association of América, 81% dos turistas consideram-se culturais, incluindo em suas viagens alguma atividade relacionada com a cultura, a arte, a história e com os monumentos do passado. Esses dados indicam que o Turismo Cultural é uma estratégia de especialização adequada e que responde às novas tendências da demanda. 7 No entanto, a grande relevância do Turismo Cultural não corresponde ao estado atual de sua oferta. Apesar da ampla oferta de recursos 8 culturais, há ainda número reduzido de recursos que se podem considerar produtos para um consumo turístico 9. Apesar da relevância do segmento e de alguns indicativos, o número de pesquisas a esse respeito ainda é escasso, especialmente no que diz respeito às pesquisas estatísticas, que possam delimitar claramente o perfil do turista cultural no mundo e no Brasil. No País, o desenvolvimento do Turismo Cultural está relacionado às questões patrimoniais. Pode-se afirmar que durante o século XIX não há, em geral, qualquer noção de patrimônio no País. Essas questões emergirão efetivamente nos anos 30 do século XX. No ano de 1924, artistas modernistas, entre eles Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, dirigem-se à Ouro Preto, na denominada Viagem da Redescoberta do Brasil, considerada a primeira viagem na qual o patrimônio é atrativo para o turismo ROSA, Beatriz Martin de la. Turismo y gestión cultural en las Islas Canarias: apuntes para una reflexión. PASOS Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. Vol. 1 Nº 1 págs Disponível em: Acesso em: 15. fev ( p. 107) 6 LEÓN, Juan Fco. Castro. La Calidad como herramienta de gestión del Turismo Cultural. In: PASOS Revista de Turismo y Patrimônio Cultural. Vol. 3 nº 1 págs Disponível em: Acesso em: 15. fev (p. 144) 7 LEÓN, Juan Fco. Castro. La Calidad como herramienta de gestión del Turismo Cultural. In: PASOS Revista de Turismo y Patrimônio Cultural. Vol. 3 nº 1 págs (p. 147) Disponível em: Acesso em: 15. fev Entendido como o conjunto potencial de bens materiais e imateriais da cultura passíveis de utilização turística. (Leon, p. 148). 9 LEÓN, Juan Fco. Castro. La Calidad como herramienta de gestión del Turismo Cultural. In: PASOS Revista de Turismo y Patrimônio Cultural. Vol. 3 nº 1 págs Disponível em: Acesso em: 15. fev (p ) 10 CAMARGO, Haroldo Leitão. Patrimônio Histórico e Cultural. São Paulo: Aleph, pg

11 Nessa época, Mário de Andrade altera e amplia o conceito de cultura, anteriormente relacionado à idéia de civilização, de cultura clássica; aumentando assim o número de atrativos culturais brasileiros. Em 1933, concretiza-se a primeira medida oficial de reconhecimento do patrimônio cultural e da necessidade de sua preservação, sendo Ouro Preto erigida como Monumento Nacional. Em 1938, o IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional é constituído, tendo sido suas ações iniciais dirigidas sobretudo aos bens culturais materiais. Somente a partir dos anos 80 os olhares voltaram-se para o patrimônio imaterial. Desde essa época, movimentos internacionais, hoje conduzidos pela UNESCO 11, influenciaram as questões de conservação e restauro dos bens patrimoniais, assim como as relações entre cultura e turismo 12. Articulações entre o Instituto Brasileiro de Turismo Embratur e atualmente pelo Ministério do Turismo e o IPHAN para o desenvolvimento do Turismo Cultural têm sido promovidas, desde os anos 90 do século passado. No entanto, o Turismo Cultural ainda é uma atividade incipiente se comparada à potencialidade existente no País. A diversidade cultural brasileira, o rico patrimônio histórico e cultural, as manifestações culturais criativas e diversas de norte a sul do País, aliadas à hospitalidade característica do povo brasileiro, podem tornar o Brasil, de fato, um destino cultural diferenciado. Atualmente, o desenvolvimento do turismo pode proporcionar alguns benefícios às comunidades nas quais se desenvolve, tais como: - Intercâmbio cultural: turistas e comunidade, ao se relacionarem, transmitem conhecimentos, idéias, crenças que podem ser benéficas para o conhecimento e crescimento pessoal e profissional de ambos; - Valorização da identidade cultural das comunidades: o turismo (re)valoriza a cultura local, exaltando a identidade e a memória das comunidades, nas suas formas de pensar, agir, fazer e em suas produções culturais; - Resgate e dinamização cultural: o olhar do outro, do turista, pode despertar na comunidade o orgulho e interesse pela sua própria cultura e por bens e manifestações por ora esquecidos, incentivando o resgate e dinamização de técnicas artesanais e culinárias, de danças, folguedos etc.; - Preservação do patrimônio histórico e cultural: o turismo pode auferir os recursos técnicos e financeiros para a preservação do patrimônio, além de despertar tanto na comunidade quanto nos turistas sentimentos de identificação e exaltação dos bens; 11 Órgão das Nações Unidas responsável pelo Patrimônio Mundial desde CAMARGO, Haroldo Leitão. Patrimônio Histórico e Cultural. São Paulo: Aleph, pag

12 - Geração de oportunidades de negócios e empregos: a cadeia produtiva cultural é estimulada pelos fluxos turísticos que consomem e demandam produtos e serviços relacionados à produção cultural, tais como: artesanato; gastronomia na forma de refeições e alimentos e bebidas locais que podem ser transportados; objetos de decoração e fruição, de autoria de artistas locais, tais como pinturas, esculturas, fotografias; cds, livros e outros objetos que reúnem as produções locais relacionadas à literatura, música, dança etc.; além da produção de eventos culturais e da incorporação e disseminação de inúmeros bens culturais na oferta de atrativos culturais locais e, por conseqüência, na demanda de serviços de hospedagem, recreação e entretenimento, entre outros. 12

13 13 Foto: Christian Knepper/Embratur

14 3 CONCEITUAÇÃO Não há na comunidade acadêmica, tampouco nos órgãos ofi ciais de turismo, um consenso sobre o signifi cado e a amplitude que envolvem o Turismo Cultural. O conceito de Turismo Cultural oscila entre abordagens relacionadas ao usufruto do patrimônio cultural, que acabam por incorporar outros segmentos de turismo (ecoturismo, turismo rural), e abordagens reduzidas ao interesse em alguns bens culturais, excluindo os eventos culturais, que restringem substancialmente o potencial de mercado. Em 1976, O ICOMOS Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, na Carta de Turismo Cultural, defi niu Turismo Cultural como [...] aquela forma de turismo que tem por objetivo, entre outros fi ns, o conhecimento de monumentos e sítios histórico-culturais. No Brasil, a Embratur defi niu o segmento, em 1992, denominando-o de turismo históricocultural, como [...] aquele que se pratica para satisfazer o desejo de emoções artísticas e informação cultural, visando à visitação à monumentos históricos, obras de arte, relíquias, antiguidades, concertos, musicais, museus, pinacotecas. Já a Organização Mundial de Turismo OMT 13 defi ne o Turismo Cultural como [...] o movimento de pessoas, devido essencialmente a motivos culturais como viagens de estudo, viagens a festivais ou outros eventos artísticos, visitas a sítios e monumentos, viagens para estudar a natureza, a arte, o folclore as peregrinações. Uma análise das diversas conceituações e abordagens propostas no Brasil e no exterior e de pesquisas sobre a atividade permite a seleção de alguns pontos comuns que caracterizam o Turismo Cultural: 1) quanto à originalidade e diversifi cação dos serviços: os elementos da cultural local, objetos e expressões, tais como alimentos e bebidas, música, elementos decorativos, entre outros, são agregados de forma criativa aos serviços 2) quanto ao signifi cado dos bens materiais e imateriais para a comunidade: não se submete as práticas culturais à atividade turística, tampouco se desrespeita as tradições para atender ao gosto do turista. O turismo preserva e dinamiza a cultura, não a distorce 3) quanto à qualidade visual da paisagem: os edifi cações históricas integramse funcionalmente e esteticamente à paisagem urbana ou rural, respeitam as características arquitetônicas originais e as novas práticas nela realizadas 13 Organización Mundial del Turismo. Concepts, definitions and classifications for tourism statistics. Madrid: OMT,

15 4) quanto à interpretação patrimonial ou da cultura local: a cultura local é apresentada por meio da contextualização histórica, da implantação de estruturas de interpretação do patrimônio e de informações relevantes, proporcionadas pelos profissionais e pela comunidade, de forma atrativa e educativa 5) quanto ao perfil do turista cultural: valoriza o contato com a comunidade e a compreensão do significado da história, dos bens e expressões culturais, de seus objetos e protagonistas, de fatos e personagens relacionados; demanda também entretenimento, especialmente por meio de atividades e eventos culturais 6) quanto à sustentabilidade: a econômica, social, cultural e ambiental são vieses do desenvolvimento local proporcionado pela atividade turística em parceria com o setor cultural Definir o conceito de Turismo Cultural no País é importante para direcionar as políticas públicas do setor, delimitar a amplitude do segmento entre as possibilidades de interação do turismo com o setor cultural e esclarecer o potencial turista a respeito dos atributos e experiências proporcionadas pelos produtos turísticos dessa natureza. Uma releitura da atividade no Brasil e de sua realidade cultural, apoiada em pesquisas bibliográfica e documental, bem como de contribuições dos atores e parceiros envolvidos no setor, reunidos no âmbito do Grupo Técnico Temático de Turismo Cultural, da Câmara de Segmentação, em fevereiro de 2005, permitiu a delimitação e definição de um conceito de Turismo Cultural para o Brasil. Dessa forma, o segmento turístico denominado Turismo Cultural compreende atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura 14 Para fins desse segmento, tornam-se necessárias algumas definições e explicações: Atividades turísticas Entende-se por atividades turísticas aquelas realizadas em função da viagem de Turismo Cultural: transporte agenciamento hospedagem alimentação recepção eventos recreação e entretenimento outras atividades complementares 14 BRASIL. Segmentação do Turismo: Marcos Conceituais. Brasília: Ministério do Turismo,

16 Vivência A definição de Turismo Cultural está relacionada à motivação do turista, especificamente de vivenciar o patrimônio histórico e cultural e determinados eventos culturais, de modo a preservar a integridade desses bens. Vivenciar implica, essencialmente, duas formas de relação do turista com a cultura ou algum aspecto cultural: a primeira refere-se ao conhecimento, aqui entendido como a busca em aprender e entender o objeto da visitação; a segunda corresponde a experiências participativas, contemplativas e de entretenimento, que ocorrem em função do objeto de visitação. Patrimônio histórico e cultural e eventos culturais 15 Consideram-se patrimônio histórico e cultural os bens de natureza material e imaterial que expressam ou revelam a memória e a identidade das populações e comunidades. São bens culturais, de valor histórico, artístico, científico, simbólico, passíveis de atração turística: arquivos, edificações, conjuntos urbanísticos, sítios arqueológicos, ruínas; museus e outros espaços destinados à apresentação ou contemplação de bens materiais e imateriais; manifestações, como música, gastronomia, artes visuais e cênicas, festas e outras. Os eventos culturais englobam as manifestações temporárias, enquadradas ou não na definição de patrimônio. Incluem-se nessa categoria os eventos religiosos, musicais, de dança, de teatro, de cinema, gastronômicos, exposições de arte, de artesanato e outros. Valorização e promoção dos bens materiais e imateriais da cultura A utilização turística dos bens culturais pressupõe sua valorização e promoção, bem como a manutenção de sua dinâmica e a permanência no tempo. O valorizar e o promover significam difundir o conhecimento sobre esses bens e facilitar-lhes o acesso e o usufruto, respeitando sua memória e identidade. É também reconhecer a importância da cultura na relação turista e comunidade local, aportando os meios para que tal inter-relação ocorra de forma harmônica e em benefício de ambos. Ressalta-se que os deslocamentos para fins religiosos, místicos e esotéricos e de visitação a determinados grupos étnicos (nos quais o atrativo principal é a identidade e modo de vida de cada um) e atrativos cívicos são aqui entendidos como recortes no âmbito do Turismo Cultural e podem constituir outros segmentos para fins específicos: turismo cívico, turismo religioso, turismo místico e esotérico, turismo étnico. O turismo gastronômico, entre outros, pode também estar incluído no âmbito do Turismo Cultural, desde que preservados os princípios da tipicidade e identidade. Essas conceituações, que podem ser entendidas como especificações do Turismo Cultural, podem ser aceitas para fins das Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Cultural. 15 Op. cit. 16

17 17 Foto: Christian Knepper/Embratur

18 4 OBJETIVOS O posicionamento do País como um destino cultural diferenciado, detentor de uma diversidade cultural singular, depende da implementação de ações articuladas entre o setor público, a iniciativa privada e as organizações do terceiro setor para o desenvolvimento de novos produtos, fortalecimento e promoção da atividade. Partindo desse cenário, a proposição das diretrizes e estratégias para o desenvolvimento do Turismo Cultural tem como objetivo colaborar para: Valorizar e promover a cultura brasileira, por meio do turismo Desenvolver produtos turísticos diferenciados; Diversifi car a oferta turística relacionada ao Turismo Cultural; Ordenar o desenvolvimento da atividade; Aumentar a qualidade e a competitividade do segmento; Estimular a comunicação e articulação entre todos os agentes e o envolvimento das comunidades no Turismo Cultural; Promover condições adequadas de infra-estrutura e qualificação voltada ao segmento; Fortalecer, promover e comercializar o segmento de forma estratégica. 18

19 19 Foto: Christian Knepper/Embratur

20 5 PRINCÍPIOS Essas diretrizes estão fundamentadas em princípios considerados preceitos básicos para ações direcionadas ao desenvolvimento e promoção do Turismo Cultural: Reconhecimento e promoção da relação entre turismo, cultura, educação e lazer Incentivo ao descobrimento do sentido, símbolos e signifi cados da cultura como forma de valorização e potencialização do atrativo cultural Reconhecimento da dinâmica própria da cultura, resguardando, porém, a identidade e a memória dos grupos que a formaram Valorização da autenticidade dos bens culturais materiais e imateriais, desenvolvendo experiências turísticas enriquecedoras Proteção do patrimônio histórico-cultural, preservando a integridade de seus aspectos históricos, arquitetônicos, artísticos, paisagísticos e simbólicos Promoção do encontro de culturas, compatibilizando o cotidiano atual da comunidade, seus saberes e modos de vida com a contemplação visual do patrimônio material, promovendo a interpretação histórica e presente Respeito às diversas possibilidades de interpretação de cada bem cultural Valorização da história oral e dos saberes locais Viabilização econômica da manutenção de bens culturais Humanização do patrimônio, agregando-lhe fatos e personagens Desenvolvimento de atrativos culturais de forma atrativa, facilitando sua leitura e interpretação Promoção da sustentabilidade sociocultural, ambiental e econômica do Turismo Cultural Viabilização da inclusão social no planejamento e gestão da atividade Desenvolvimento de produtos turístico-culturais que ofereçam experiências culturais com apelo educativo e emocional Admissão das fronteiras tênues entre o tradicional e o contemporâneo, entre as culturas populares, erudita e de massa; valorizando todas as culturas Fomento às culturas populares por meio do turismo Valorização da criatividade e da diversidade cultural brasileira, buscando ressaltar o diferencial de cada local Promoção da gestão participativa da atividade Projeção de imagens de destinos turísticos pautada nas realidades culturais e nas próprias visões das comunidades, evitando a exotização das culturas 20

21 Conscientização da comunidade para que reconheça a importância de preservar suas expressões culturais Articulação com a indústria cultural para a democratização do acesso à cultura e ao turismo, reconhecendo seu papel na formação e informação do indivíduo Esses princípios respondem ao entendimento de que a educação e a formação cultural, certamente, influem nas escolhas do turista, o que significa dizer que o seu modo de consumo turístico é orientado pelo grau de consciência ambiental e sociocultural que possui. Tanto os monumentos, sítios urbanos e arqueológicos e paisagens naturais quanto as tradições e a memória de uma comunidade são fatores determinantes que condicionam as experiências turísticas. Assim, instrumentalizar a cultura para o turismo implica incentivar e desenvolver o gosto e o interesse para a ampliação de conhecimentos e experiências, onde a cultura em si constitui-se em atrativo. Por outro lado, para além dos aspectos relacionados ao lazer, entretenimento e descanso, no Turismo Cultural, enfatiza-se a vivência dos aspectos culturais do destino, onde o patrimônio cultural da localidade ganha destaque. Para tanto, a busca do equilíbrio no relacionamento, muitas vezes assimétrico, entre os turistas e as comunidades que os recebem se torna uma exigência. No processo de segmentação da atividade turística, em atenção aos diversos mercados existentes e que podem ser constituídos, considera-se importante contemplar a diversidade social a partir do fomento a um modelo de turismo inclusivo que atenda grupos representativos da sociedade, em suas diversas ramificações. Por fim, o Turismo Cultural precisa ser considerado também como uma atividade educacional enriquecedora e prazerosa. Sua participação no total das viagens domésticas da população brasileira corresponde hoje a 12,5% 16, percentual expressivo se considerada a inexistência de uma política definida que atenda de modo estratégico a esse segmento. Deve, portanto, ser incentivado dentro de premissas que busquem estimular e promover, por excelência, o conhecimento do patrimônio cultural do País e sua relação com o território onde se manifesta. 16 EMBRATUR, FIPE. Caracterização e Dimensionamento do Turismo Doméstico no Brasil. Brasília: EMBRATUR, FIPE,

22 Foto: xxxxxxxxxxxxxxxxx 22

23 6 DIRETRIZES E ESTRATÉGIAS Para atingir os objetivos propostos, foram defi nidas oito diretrizes detalhadas em estratégias específi cas para o segmento. As diretrizes e estratégias não estão dispostas por ordem de prioridade ou elencam, necessariamente, os passos para a sua consecução. Cada destino turístico deverá orientar-se por elas e proceder à sua operacionalização de acordo com as características locais/regionais e o estágio de desenvolvimento da atividade. DIRETRIZ 1 ORDENAMENTO A organização, estruturação e desenvolvimento do Turismo Cultural ocorrem pela identifi cação, adequação, elaboração e divulgação de marcos legais e técnicos específi cos. Estratégias: E1 Identifi cação e divulgação dos aspectos legais específi cos E2 Elaboração de estudos e adequação de marcos técnicos e legais E3 Apoio e incentivo aos estudos, à determinação e aplicação da capacidade de suporte do patrimônio histórico e cultural ORDENAMENTO E1 Identificação e divulgação dos aspectos legais específicos O Turismo Cultural está sujeito ao cumprimento de legislação turística, cultural e ambiental, entre outras. A identifi cação e a divulgação da legislação pertinente devem condicionar o seu cumprimento e o desenvolvimento ordenado da atividade. ORDENAMENTO E2 Elaboração de estudos e adequação de marcos técnicos e legais O levantamento e a discussão dos principais entraves e a proposição de adequações técnicas e legais são ações primordiais para orientar o desenvolvimento do segmento. ORDENAMENTO E3 Apoio e incentivo aos estudos, à determinação e aplicação da capacidade de suporte do patrimônio histórico e cultural A utilização do patrimônio para fins de visitação turística deve ser ordenada de forma que não comprometa sua preservação e salvaguarda. A determinação do número máximo de visitantes e sua aplicação prática também são importantes para assegurar a qualidade da visita, priorizar o atendimento voltado à compreensão dos significados e sentidos do patrimônio e manter as condições de segurança e de integridade e autenticidade do bem cultural. DIRETRIZ 2 INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO Pesquisar, produzir e divulgar informações e dados que orientem o planejamento, as ações educativas, a gestão, a promoção e comercialização do Turismo Cultural no Brasil e no exterior. 23

24 Estratégias: E1 Mapeamento do Turismo Cultural no País E2 Realização de pesquisa de mercado e perfil da demanda do segmento E3 Apoio a iniciativas de valorização e fortalecimento do segmento E4 Criação de mecanismos de disponibilização de pesquisas e experiências em Turismo Cultural E5 Produção, promoção e distribuição de instrumentos de orientação para atuação em Turismo Cultural INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E1 Mapeamento do Turismo Cultural no País A identificação e a categorização de destinos, produtos e serviços efetivos são necessárias para se diagnosticar o segmento em termos quantitativos e qualitativos, levantar as diversas especialidades de produtos e serviços em Turismo Cultural, subsidiar o desenvolvimento de políticas de estruturação, ordenamento, qualificação, promoção e comercialização do segmento. INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E2 Realização de pesquisa de mercado e perfil da demanda do segmento As decisões e o direcionamento de políticas de planejamento e marketing e a alocação de recursos para o Turismo Cultural devem basear-se em informações de mercado, que identifiquem e caracterizem, sobretudo, a demanda do segmento, o potencial de geração de negócios e novas oportunidades de atuação na área, as possibilidades de incremento do setor e as preferências e motivações do turista em relação ao usufruto da cultura. INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E3 Apoio a iniciativas de valorização e fortalecimento do segmento Para que o Turismo Cultural se consolide, é necessária a sua valorização na sociedade, estimulada por processos de sensibilização e comunicação interna que busquem o apoio e envolvimento da população nas ações de desenvolvimento do segmento e sua motivação para a prática da atividade. A realização de pesquisas e estudos sobre o segmento, incluindo as acadêmicas e sua divulgação também devem ser estimuladas como forma de tornar o conhecimento acessível aos agentes da atividade, contribuindo para o fortalecimento das iniciativas em prol do Turismo Cultural. INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E4 Criação de mecanismos de disponibilização de pesquisas e experiências em Turismo Cultural O levantamento, organização e divulgação de experiências em Turismo Cultural de estudos e pesquisas são medidas que visam a promover o conhecimento e alavancar o desenvolvimento de novos produtos e novas posturas institucionais e empresariais no segmento, voltadas à inovação e ao oferecimento de experiências únicas aos turistas interessados em cultura. 24

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