UMA NOVA METODOLOGIA DE ENSINO DO DIREITO

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1 Desde sua implementação em 1827, os cursos jurídicos no Brasil tiveram a função de operacionalizar o projeto de fortalecimento da estrutura política do Estado, na medida em que, nas faculdades de direito recém instaladas, estar-se-ia promovendo a integração ideológica do liberalismo então em voga e formando-se os quadros da burocracia incumbida de operacionalizá-la. 1 Os cursos de direito tiveram papéis relevantes na política e na burocracia brasileira, UMA NOVA METODOLOGIA DE ENSINO DO DIREITO Marcos Alves de Andrade 1. INTRODUÇÃO O presente trabalho tem a pretensão de fazer uma breve análise da metodologia de ensino predominante nos cursos jurídicos no Brasil, enfocando, a princípio, uma visão histórica a respeito, e analisando, a seguir, os elementos estruturais que condicionam a aludida prática docente, os processos e os ritos que permeiam o respectivo espaço didático-pedagógico. Após ilustrar a atual ambiência do ensino do direito e apresentar alguns dados estatísticos, concluiu-se sobre a necessidade de colocar em prática uma nova metodologia de ensino aliada a uma reestruturação dos cursos jurídicos, principalmente através da flexibilidade curricular. 2. VISÃO HISTÓRICA E ATUAL AMBIÊNCIA DO ENSINO DO DIREITO todavia, após 1930, o bacharel em Direito passou a perder os espaços antes cativos da burocracia estatal para outros profissionais (tecnocratas), acentuando-se o fenômeno durante o regime militar pós-64. Os cursos contentaram-se com uma pobre versão do positivismo legalista. O exegetismo, nos cursos jurídicos, é o símbolo maior do estado de desqualificação e distanciamento científico a que chegaram. Deixa-se de ensinar o Direito para ensinar (e mal) a lei, através de comentários que tocam às raias da evidência ou de uso freqüente de argumento 1 CARVALHO JÚNIOR, Pedro Lino. Ritos e Práticas nas Faculdades de Direito: Uma Abordagem Inicial. Disponível em <http://www.neofito.com.br/artigos/art01/jurid259.htm> Acesso em 03 de jul

2 2 de autoridade. 2 As transformações sócio-econômicas verificadas nas últimas décadas, em razão da globalização e do aumento da competitividade, ocasionaram o surgimento de novas demandas, relacionadas aos setores de telecomunicações, saneamento básico, energia, petróleo, gás, mercado financeiro e comércio internacional, entretanto, embora havendo uma nova ordem sócio-econômica, os cursos jurídicos no Brasil continuaram a aplicar a metodologia de ensino consubstanciada no positivismo legalista. A professora Serciane Bousada Peçanha, em seu artigo O Ensino Jurídico no Brasil, ensina: O aluno ao ingressar no curso de Direito conclui a graduação como um mero espectador dos professores que transmitem a matéria com o rigor do formalismo, alienando-os em relação às causas políticas, sociais e econômicas (principais funções deste curso). Diante do exposto, o aluno não consegue pensar criticamente e argumentar diante dos fatos que não estão pré-moldados nos livros, os quais não aprenderam. Portanto, surge paradoxalmente um problema: a grande oferta de vagas para os cursos de graduação em Direito e o grande número de formados nesta graduação sem inclusão no mercado de trabalho. 3 O ensino jurídico encontra-se totalmente divorciado da realidade do nosso tempo, no qual o professor continua a insistir em ensinar por meio de aulas expositivas ou discursivas do método tradicional, se limitando, nas aulas, praticamente, ao comentário dos códigos. Conforme assevera José Eduardo Faria (1993:51-59), citando conferência pronunciada por Roberto Vernengo (1977), na Universidad Nacional Autónoma de México, os professores de direito, nos países de sistema romano-germânico adotam métodos pedagógicos que se resumem a: 1. Reprodução do que está contido nos livros didáticos que existem a disposição no mercado ou nas bibliotecas e que consta na bibliografia indicada aos alunos (método Kelsiano); ou, 2. A improvisação retórica e informal, que encanta aos alunos, mas em nada contribui ao aprendizado (método Orteguiano). Os dois métodos se consubstanciam em uma classe magistral, apenas com diferença na formalidade de apresentação do conteúdo. 4 No modelo tradicional é dada ênfase ao ensino das matérias tradicionais sem se aprofundar em outras áreas, como economia, administração e comércio internacional, onde existem muitos conflitos e o Brasil está se inserindo cada dia com maior intensidade. 2 ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL. Ensino Jurídico: Diagnóstico, Perspectivas e Propostas. Brasília: Conselho Federal da OAB/Comissão de Ciência e Ensino Jurídico, 1992, p.12 e Disponível em <http://www.campusvirtual.br/palavra_serciane.php> Acesso em 08 de jul. de Ensino Jurídico: Mudar Cenários e Substituir Paradigmas Teóricos. In Ensino Jurídico: Parâmetros para Elevação de Qualidade e Avaliação. Conselho Federal da OAB, Comissão de Ensino Jurídico. Brasília - DF, 1993, pp

3 (2003). 7 Pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas constatou que se formam no Brasil, 3 Os professores de direito aparecem somente para ministrar suas aulas, com rápida parada na sala dos professores, às vezes somente para um café. Dificilmente publicam. São conservadores ao extremo, transpassando aos alunos uma visão legalista, formalista, embasada seja num feroz positivismo kelseniano, ou dentro dos marcos de uma cultura jurídica moldada no liberalismo e nos mitos que o fundam historicamente. 5 Discorrendo a respeito, assinala Pedro Lino De Carvalho Júnior: Nos dias atuais, por conta das enormes transformações sócio-econômicas ocorridas ao longo deste século, deparamo-nos com a triste constatação de um ensino jurídico totalmente divorciado das demandas da nossa aventura tardia de modernidade, no qual o professor de direito parece estar "ilhado" entre os colegas de docência das á- reas afins, quando a polifonia que marca nossa existência nos impulsiona, cada vez mais, para a interdisciplinariedade e para a busca de novos paradigmas epistemológicos. (...) Observa-se no ritual das monologadas aulas de direito (à falta de preparo pedagógico, se alia uma total indiferença às modernas técnicas didáticas), uma exagerada tendência ao verbalismo - inserindo-se, neste caso, as famosas citações latinas - com esquemas mentais e lingüísticos totalmente divorciados da realidade moderna A NECESSIDADE DE UMA NOVA METODOLOGIA DE ENSINO DO DIREITO O direito é uma ciência dialética e não pode ser ensinada apenas de forma expositiva, porque inibe a capacidade de diálogo do aluno, que se limita a anotar o que o professor fala em aula para responder na prova, ensina o professor Ary Oswaldo Matos Filho, à frente da nova Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, citado por Otto Figueiras anualmente, 46 mil bacharéis em direito, não havendo necessidade, do ponto de vista quantitativo, necessidade de mais advogados ou de faculdades, entretanto, há carência de profissionais que, além do saber do ofício, entendem também de negócios e empreendimentos. Para se profissionalizar desta forma, geralmente, o estudante cursa cinco anos de faculdade no Brasil, depois faz mestrados no exterior, principalmente nos Estados Unidos, onde também presta 5 ARRUDA JÚNIOR, Eduardo Lima de. Ensino Jurídico e Sociedade. 1.ed. São Paulo: Editora Acadêmica, Op. cit. 7 Uma Revolução na Advocacia. Gazeta Mercantil. São Paulo, 06 de maio de pp.a-01 e A-14.

4 4 serviços num escritório de advocacia e só então retorna ao país. 8 Atualmente, exige-se que o escritório de advocacia esteja voltado não apenas para área específica do direito, mas também para a economia, contabilidade, comércio internacional, administração, etc. A metodologia de ensino do direito deve passar a incorporar métodos atuais, adicionando novidades que permitam maior participação do estudante na sala de aula, através de discussões de casos concretos, envolvendo as matérias curriculares, podendo ter a presença de empresários, economistas ou profissionais de diversas outras áreas, como convidados, pesquisas individuais e em equipe, estágios e outros exercícios práticos. Necessariamente, há que ser incluído o estágio profissional supervisionado, realizado em instituições, como por exemplo, órgãos judiciários, procuradorias de justiça, delegacias de polícia, e em empresas, mormente as que têm como atividades o comércio internacional, a economia ou a administração. O relacionamento deve ser constante entre a teoria e a prática no ensino de cada disciplina do programa curricular de tal forma que os estudantes tenham uma grande porcentagem de aulas práticas, em oficinas ou em estágios supervisionados. Conforme declarou Ana Maria Rodrigues dos Santos, num mundo em permanente evolução, onde a transitoriedade, o incerto, o imprevisto e a mudança estão cada vez mais evidentes é necessário preparar indivíduos que possam ser agentes dessa transformação 9. Com esta nova metodologia de ensino, a absorção do aprendizado pelo estudante, que ficará interessado e motivado em aprender, estimulado em sua consciência crítica, será bastante superior à conseguida pelo método tradicional de aulas expositivas, que é de apenas 10% (dez por cento) segundo estudos realizados nos Estados Unidos. Por outro lado, refutando-se o método tradicional, as escolas de direito poderão oferecer ao estudante, ainda na própria graduação, a opção, nos últimos dois anos, por uma área de especialização, aliás, esta forma já está sendo adotada por algumas instituições de ensino. A nova metodologia que se pretende no ensino do direito vai para além da sala de aula. As atividades extra-classe contemplarão todas aquelas que podem ser enquadradas como atividades docentes, para efeito das recomendações da Portaria ministerial 1886/94 e em plena consonância com a Lei Federal 9.394/1996, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB. 8 FIGUEIRAS, Otto. Op. cit., p.a O Desenvolvimento da Aprendizagem Cooperativa e da Autonomia na Construção de Projetos Hipertextuais. Disponível em <http://www.campusvirtual.br/palavra_anamaria.php> Acesso em 08 de jul

5 5 4. INTERDISCIPLINARIEDADE E FLEXIBILIZAÇÃO O ensino jurídico deve se adaptar às novas mudanças, através da interdisciplinariedade e da busca de novos paradigmas epistemológicos, pois não basta mais que o bacharel em Direito tenha domínio apenas de seu ofício. É necessário que se especialize também nas novas áreas de atuação. Ao longo do curso devem ser desenvolvidas atividades tais como estudos de casos concretos, conhecimento de mercado e de empresas, pesquisas, projetos e estágios, entre outras. Não basta ao bacharel em Direito apenas saber Direito Comercial, por exemplo. É preciso aprender a usar tal disciplina, de forma prática e eficiente, articulando, mobilizando, u- sando de conhecimentos, habilidades, emoções e valores mais adequados às demandas de um mercado de trabalho exigente, competitivo, globalizado e em constante mutação. Evidentemente, esta nova proposta exige uma reestruturação dos cursos jurídicos e a adoção da flexibilização dos currículos, que é a linha mestra da nova educação profissional, para que possam se adaptar à nova realidade sócio-econômica. O professor Hugo Lovisolo, discorrendo sobre a matéria em comento, pronunciou: O tema do desenvolvimento das habilidades dos alunos em todos os níveis de ensino ocupa e ocupará de forma crescente o centro do cenário. A acumulação do conhecimento e sua diversificação, a diferenciação do mercado de trabalho e sua suposta i- novação acelerada, levam na direção de reforçar as competências e habilidades na formação muito mais do que aumentar o domínio de um estoque de conteúdos. Passou a ser muito mais significativa a potencialidade de aprendizagem que a atualidade do estoque de conhecimentos. Importa mais o que pode ser desenvolvido que aquilo o acúmulo do que já foi. Partilho a opinião dos que afirmam que, a nível nacional e internacional, estamos enfrentando o problema de criar condições e estímulos para o desenvolvimento de habilidades CONCLUSÃO A mudança dos atuais paradigmas verificados na maioria dos cursos jurídicos, através da aplicação da metodologia de ensino do direito, ora proposta, conjugada com a sua reestruturação, principalmente através do fenômeno da flexibilização curricular, certamente refletirá em profundas alterações na prática docente que muito contribuirá para a formação dos futuros bacharéis e para a própria sociedade brasileira. 10 Habilidades Gerais no Ensino Superior em Processo de Democratização. Disponível em <http://www.campusvirtual.br/palavra_hugo_lovisolo.php> Acesso em 08 de jul

6 6 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARRUDA JÚNIOR, Eduardo Lima de. Ensino Jurídico e Sociedade. 1.ed. São Paulo: Editora Acadêmica, CARVALHO JÚNIOR, Pedro Lino. Ritos e Práticas nas Faculdades de Direito: Uma Abordagem Inicial. Disponível em <http://www.neofito.com.br/artigos/art01/jurid259.htm> Acesso em 03 de jul FARIA, José Eduardo. Ensino Jurídico: Mudar Cenários e Substituir Paradigmas Teóricos. In Ensino Jurídico: Parâmetros para Elevação de Qualidade e Avaliação. Conselho Federal da OAB, Comissão de Ensino Jurídico. Brasília - DF, FIGUEIRAS, Otto. Uma Revolução na Advocacia. Gazeta Mercantil. São Paulo, 06 de maio de LOVISOLO, Hugo. Habilidades Gerais no Ensino Superior em Processo de Democratização. Disponível em < Acesso em 08 de jul ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL. Ensino Jurídico: Diagnóstico, Perspectivas e Propostas. Brasília: Conselho Federal da OAB/Comissão de Ciência e Ensino Jurídico, PEÇANHA, Serciane Bousada. O Ensino Jurídico no Brasil. Disponível em <http://www.campusvirtual.br/palavra_serciane.php> Acesso em 08 de jul. de SANTOS, Ana Maria Rodrigues dos. O Desenvolvimento da Aprendizagem Cooperativa e da Autonomia na Construção de Projetos Hipertextuais. Disponível em <http://www.campusvirtual.br/palavra_anamaria.php> Acesso em 08 de jul BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR FARIA, José Eduardo. A Reforma do Ensino Jurídico. 1.ed. Porto Alegre: Ed. Sérgio Antônio Fabris. GALDINO, Flávio. A Ordem dos Advogados do Brasil na Reforma do Ensino Jurídico. Disponível em <http://www2.uerj.br/~direito/publicacoes/mais_artigos/ a_ordem_dos_advogados.htm> Acesso em 04 de jul LYRA FILHO, Roberto. O Direito Que Se Ensina Errado. Brasília: Centro Acadêmico de Direito da UNB, RAMOS, Miguel Antonio Silveira. Ensino Jurídico. Revista Âmbito Jurídico, set/1998. Disponível em Acesso em 08 de jul ROCHA, Leonel Severo da. A Problemática Jurídica: Uma Introdução Transdisciplinar. Porto Alegre: Ed. Sérgio Antônio Fabris, 1985.

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