RODRIGO ERNANI MESA CASA OS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DO ENSINO JURÍDICO

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1 UNIVERSIDADE DO OESTE DE SANTA CATARINA UNOESC CAMPUS DE JOAÇABA SANTA CATARINA VICE-REITORIA DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO E EXTENSÃO MESTRADO ACADÊMICO EM EDUCAÇÃO RODRIGO ERNANI MESA CASA OS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DO ENSINO JURÍDICO Joaçaba 2014

2 RODRIGO ERNANI MESA CASA OS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DO ENSINO JURÍDICO Dissertação apresentada ao Curso de Pós- Graduação em Educação, Mestrado em Educação da Universidade do Oeste de Santa Catarina Orientador: Profº Dr. Clenio Lago Joaçaba 2014

3 RODRIGO ERNANI MESA CASA OS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DO ENSINO JURÍDICO Dissertação apresentada ao Curso de Pós- Graduação em Educação, Mestrado em Educação da Universidade do Oeste de Santa Catarina. Aprovada em 11 de março de BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Clenio Lago Universidade do Oeste de Santa Catarina Unoesc Prof. Dr. Ireno Antônio Berticelli Universidade Comunitária da Região de Chapecó - UNOCHAPECÓ Profa. Dra. Ortenila Sopelsa Universidade do Oeste de Santa Catarina - Unoesc

4 Dedico este trabalho à justiça, conceito fundamental do ser humano, seu objeto de anseio e exigência. Em razão de que as suas teorias possuem caráter totalmente subjetivo, não cabendo à ciência definir o que é justo ou injusto, é no processo histórico do Direito que as várias justiças se referem a realidades diversas, na qualidade de conduta humana.

5 AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus, por tudo que representa e abençoa a mim e aos meus... À minha amada esposa Patrícia, por me ensinar a sorrir, fazendo meus dias mais amenos e completos... À minha filha e eterna companheira Maria Tereza, nascida no transcurso deste mestrado, que me aviva com sua vivacidade e que a cada sorriso me lembra de que a vida vale a pena e é bela... À minha mãe Velci, que em sua humilde sabedoria soube me conduzir para os caminhos da educação e foi a força nos momentos mais delicados que passei, lhe dedico esse trabalho... Ao meu pai Helio, meu amigo, exemplo de retidão e honestidade, meu espelho... Agradeço ao meu orientador Clenio, pela disposição em orientar-me na elaboração deste trabalho, de modo a obter os resultados que ora apresento, que nossa amizade nunca esmoreça e seja sempre o ponto de incentivo a novos trabalhos... Agradeço aos professores e ao coordenador entrevistados, por colaborarem no estudo de caso, contribuindo para melhor conhecimento sobre os aspectos que a Unoesc, unidade de Chapecó, apresenta em seu curso de Direito. A todos que diretamente ou indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho, meu muito obrigado. Que um dia Deus possa retribuí-los, afinal eu jamais conseguirei.

6 5 Nenhum ramo da Ciência vive sem respirar Filosofia, mas esta necessidade é sentida no Direito mais do que em qualquer outra. À medida que se avança pela estrada da Jurisprudência, mais e mais o problema do metajurídico desvela a sua decisiva importância; o jurista convence-se cada vez mais de que, se não sabe senão Direito, na realidade não conhece nem mesmo o Direito (Francesco Carnelutti, 1952, p. 8).

7 RESUMO A temática e objetivo principal de investigação é o ensino jurídico quanto aos desafios contemporâneos no processo de ensino e da aprendizagem e, se a forma destes, como vem sendo efetivados, possibilitam a formação de operadores do Direito capazes de fazer frente a tais desafios. Ao tema são associados: a crise de valores, a crise epistemológica e a crise das tradições evidenciadas e radicalizadas pelas análises pós-modernas. Foi identificada a necessidade de revisão no processo de ensino e na aprendizagem do Direito, pelas características que o próprio ensino jurídico tem apresentado, e que, por vezes, relutante em entender o próprio Direito como uma ciência. A pesquisa foi realizada com base bibliográfica e empírica junto a 10 (dez) professores e 01 (um) coordenador do curso de uma instituição selecionada, além de pesquisa sobre o seu Projeto Político Pedagógico no tocante às suas orientações e desafios contemporâneos. Os resultados indicam a presença da crise no ensino do Direito, sendo que na investigação sobre o processo de ensino da aprendizagem, comprovou-se um ensino tradicionalista, com metodologias esgotadas, decorrentes da uma formação tradicionalista de seus atuais operadores. Por outro viés, confirmam-se as aspirações de formar um operador do Direito que estabeleça, em sua ação, o equilíbrio desejado para os desafios da contemporaneidade resignificando o próprio Direito, sob pena, de transformar-se em apenas mais uma profissão mecanicista. Palavras chave: Educação. Direito. Desafio.

8 ABSTRACT The main theme and goal of the research is to contemporary legal education as challenges in the teaching and learning process and the form of these, as has been effected, enable training of legal practitioners able to deal with these challenges. At issue are associated: the crisis of values, the epistemological crisis and the crisis highlighted the traditions and radicalized by postmodern analysis. The need for revision in the teaching and learning of law, the characteristics that legal education has presented itself, and that sometimes reluctant to understand the law itself as a science has been identified. The survey was conducted with literature and empirical basis with a ten (10) teachers and 01 (one) course coordinator of a selected institution, and research on your Political Pedagogical Project in regard to its guidelines and contemporary challenges. The results indicate the presence of the crisis in legal education, and research into the process of teaching learning has proven to be a traditionalist education with depleted, resulting methodologies of a traditionalist training from their current operators. For another perspective, confirmed that the aspirations of forming an operator 's Law establishes, in its action, the desired balance to the challenges of contemporary redefining the law itself, under penalty of becoming just another mechanistic profession. Keywords: Education. Right. Challenge.

9 8 LISTA DE SIGLAS CDMA CES CJUS CNE CPDE CTS DOU FGV IES MEC PPP Unoesc Meio Ambiente Câmara de Educação Superior Judiciário Conselho Nacional de Educação Direito e Economia Tecnologia e Sociedade Diário Oficial da União Fundação Getúlio Vargas Instituições de Ensino Superior Ministério da Educação Projeto Político Pedagógico Universidade do Oeste de Santa Catarina

10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ENSINO JURÍDICO A CONSCIÊNCIA DA CRISE RUMOS DO ENSINO JURÍDICO EM MEIO A CRISE Perspectivas do ensino jurídico PROCESSOS DO ENSINO E DA APRENDIZAGEM COMPREENSÕES DA RELAÇÃO ENSINO/APRENDIZAGEM Escola Tradicional Escola Nova Escola Construtivista O ENSINO E A APRENDIZAGEM NO CONTEXTO DO CONTEMPORÂNEO O que é o contemporâneo? PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DELINEAMENTO DA PESQUISA ÁREA DE ABRANGÊNCIA Amostra INSTRUMENTO DE PESQUISA PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE ESTUDO DE CASO DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DO ENSINO JURÍDICO PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO CURSO DE DIREITO DA UNOESC CHAPECÓ, SANTA CATARINA? O CONTEXTO Projeto Político Pedagógico do curso de Direito e desafios contemporâneos do Direito QUADRO DE DOCENTES DO CURSO DE DIREITO DA UNOESC CHAPECÓ, SANTA CATARINA Compreensão do ensino e da aprendizagem do Direito na percepção

11 10 dos professores e coordenador Desafios ao ensino jurídico na ótica dos sujeitos de pesquisa Indicativos aos desafios do ensino jurídico O desafio da formação de professores CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS APÊNDICES... 99

12 11 INTRODUÇÃO Tratar sobre o Direito implica em conhecê-lo; mais do que isso, implica em compreendê-lo, em sua gênese e aplicação originárias, como complexidade. Mas nem sempre tal processo acompanha o movimento humanitário, posto que traz implícito em sua ação as razões pelas quais a humanidade o fundou. Quanto à compreensão do ser humano, do Direito e da justiça são destacadas diferentes correntes filosóficas que atribuem status igualmente diverso às interpretações da lei, além de teorias jurídicas que se contemporanizam conforme evoluem os eventos inerentes à sociedade e ao homem. Em tais correntes filosóficas se encontra intrínseco o profissional que opera este Direito, o Bacharel em Direito, o qual é formado nas academias nacionais, faculdades e universidades, através de um ensino jurídico que vem sendo questionado em sua efetividade e eficácia. Hoje, diferentes percepções acerca do Direito, acabam por desenhar um rumo comum: a existência de uma crise na formação acadêmica de operadores do Direito, assunto que dá azo à temática que passa a ser proposta para esta investigação, qual seja: o ensino jurídico quanto aos desafios contemporâneos no processo de ensino e da aprendizagem. A este tema se associam os debates em torno da natureza do Direito, indagações vinculadas a uma questão mais ampla pela sua extensão existencial, como a crise de valores, a crise epistemológica e a crise das tradições evidenciadas e radicalizadas pelas análises pós-modernas. Entende-se que o ensino universitário do Direito deve primar pela formação pedagógica de professores visando mantê-los atualizados ao novo contexto pedagógico-social. A proposta é de que atuem como agentes de transformação social, dissociados de uma reprodução de conhecimento na forma legalista hoje apresentada, caracterizada pela restrição de recursos pedagógicos nas universidades e ausência de professores profissionais com qualificação docente para o ensino jurídico. A escolha do curso justifica-se, por ser um curso de graduação cuja proposta é formar alunos para o exercício das atividades concernentes à carreira jurídica, além de ser um ramo de conhecimento, onde a formação humanística, consciência crítica baseada na ética, se faz necessária favorecendo a cidadania.

13 12 A formação do bacharel em Direito na perspectiva de sua atuação profissional é descrita no Projeto Político Pedagógico (PPP) das instituições de ensino superior, embora a maioria dos professores de cursos de Direito não tenha a formação pedagógica específica requerida para o que propõe este documento. A preocupação que norteia este estudo, portanto, recai sobre a forma pela qual ocorre do ensino e da aprendizagem do Direito nos dias atuais, constituindo-se no problema da pesquisa: Em meio aos desafios contemporâneos no processo do ensino e da aprendizagem do Direito a forma como vem sendo realizado o ensino jurídico constitui-se em uma alternativa a tais desafios? E que elementos deveriam orientar este processo? Ao apresentar este questionamento, cumpre justificar a seleção e escolha do tema de investigação, lembrando que alguns registros da literatura também questionam e promovem afirmações acerca, justamente, da formação docente e da qualificação daqueles que ensinam o Direito na academia. Entende-se que há poucas transformações no ensino jurídico em face de uma nova realidade como, por exemplo, uma nova ordem jurídica que estabeleceu um Estado Democrático de Direito no país, permitindo pensar que o Direito continua sendo objeto de manipulação da elite e os desafios da contemporaneidade, estes que vem exigindo um profundo repensar em todos os campos do saber humano, visto a crise de referencias vivenciadas nos últimos anos. A realidade mostra também a deterioração dos cursos mais antigos de Direito pelo desenvolvimento modernidade, seja pela mercantilização do saber, ou pela acomodação em paradigmas ultrapassados, motivo que justifica a realização deste estudo, acreditando que um maior conhecimento e compreensivo sobre a formação acadêmica em Direito será significativo ao exercício profissional como docente. Ainda outro aspecto significativo decorrente do acima exposto, diz respeito ao fato de que a realidade exige transformações paradigmáticas e não apenas mudanças nas proposições pedagógicas. Ou seja, o que está em crise não é apenas o modelo do ensino e da aprendizagem, mas o próprio Direito em si, considerando a crise de seus referenciais modernos. Delimitando o estudo empírico ao curso de Direito da Unoesc, unidade de Chapecó, compreende-se que a aquisição de informações atinentes à formação de operadores do Direito poderá contribuir para que uma nova estratégia pedagógica

14 13 possa melhor possibilitar o aluno em sua capacidade de fazer frente aos desafios contemporâneos do Direito, que ora são identificados. A proposta inclui o objetivo principal que consiste em identificar os desafios contemporâneos presentes no processo do ensino e da aprendizagem do curso de Direito e o indicativo de elementos à formação de operadores do Direito capazes de fazer frente a tais desafios contemporâneos do Direito e do ensino jurídico. Para melhor entendimento a este objetivo proposto são abordados os seguintes pontos: Como objetivos específicos temos: (objetivo 1) dissertar acerca da análise dos processos do ensino e da aprendizagem do Direito em meio aos desafios contemporâneos; (objetivo 2) discorrer sobre o significado do contemporâneo e os desafios para a educação, bem como os desafios para o ensino jurídico; (objetivo 3) identificar e relacionar os desafios contemporâneos do processo do ensino e da aprendizagem do Direito; (objetivo 4) investigar como vêm se efetivando os processos do ensino e da aprendizagem no curso de Direito da Unoesc, unidade de Chapecó, Santa Catarina; (objetivo 5) apontar elementos para o processo do ensino e da aprendizagem do Direito em meio aos desafios contemporâneos do Direito e da educação. Os procedimentos metodológicos incluem pesquisa exploratória e descritiva, com meios bibliográficos de investigação documental. A pesquisa bibliográfica visa o estabelecimento de reflexões sobe o tema; a documental analisa o Projeto Político Pedagógico do curso de Direito da Unoesc, unidade de Chapecó, Santa Catarina, acerca do seu teor; a empírica junto aos docentes e coordenador do curso busca caracterizar a formação em docência no ensino superior e/ou a área de formação; da compreensão do Direito e da compreensão dos processos do ensino e da aprendizagem em meio aos desafios contemporâneos do ensino jurídico. Foram entrevistados 01 (um) coordenador e 10 (dez) professores buscando saber, em sua percepção, como ocorre o processo do ensino e da aprendizagem no curso de Direito na instituição referida. Para o cumprimento do proposto, neste trabalho é delimitada uma estruturação, conforme segue: no Capítulo I pretende-se apresentar aspectos sobre o surgimento do Direito no Brasil, em sua evolução para a contemporaneidade e sobre a forma como ocorre o ensino e a aprendizagem do ensino jurídico em meio às crises contemporâneas do ensino jurídico.

15 14 O Capítulo II enfoca aspectos do processo do ensino e da aprendizagem e a compreensão do contemporâneo, tomando como foco a formação do ser humano, descrevendo tendências pedagógicas que possam oferecer caminhos que evoluam das práticas tradicionais, para um proceder ajustado à contemporaneidade. No Capítulo III o assunto são os procedimentos metodológicos, trazendo detalhes sobre o delineamento da pesquisa, sujeito de investigação, delimitação da área de abrangência, instrumento de coleta de dados e interpretação dos resultados. O Capítulo IV apresenta o Projeto Político Pedagógico (PPP) do curso de Direto na Unoesc Chapecó, bem como o detalhamento e resultados da pesquisa, além das compreensões do processo do ensino e da aprendizagem jurídicos e seus indicativos de desafios. Ao final, elaboram-se as considerações finais.

16 15 1 ENSINO JURÍDICO Neste Capítulo I pretende-se apresentar aspectos sobre o surgimento do Direito no Brasil, em sua evolução para a contemporaneidade e sobre a forma como ocorre o ensino e a aprendizagem do ensino jurídico em meio às crises contemporâneas do ensino jurídico. 1.1 DIREITO: ASPECTOS E CARACTERÍSTICAS HISTÓRICAS O curso de Direito no Brasil tem seu surgimento registrado a partir da Faculdade de Direito de Coimbra, frequentado por estudantes brasileiros, no século XIX, até a sanção da Carta de Lei de 11 de agosto de 1827, a qual instituiu os cursos de Direito em São Paulo e Olinda. Na sequência à Constituinte de 1823 surgiram ideias para a criação dos Cursos Jurídicos no Brasil, mas que fracassaram em seu intento. Mantiveram-se, no entanto, movimentos voltados para a independência do Brasil com relação à Coimbra, buscando a construção de uma elite de bacharéis (ALMEIDA FILHO, 2005). Com início na Reforma Pombalina no ensino jurídico, em 1772, as transformações liberais da Faculdade de Direito de Coimbra foram acompanhadas pelos estudantes brasileiros e trazida essa bagagem cultural ao Brasil, influenciando o Direito, a exemplo da ratificação dos ideais liberais pela Europa peninsular com o evento da Revolução Francesa e chegando à Universidade de Salamanca, na Espanha, que também aderiu à assimilação acadêmica dos ideais do Liberalismo (MARTINEZ, 2012). Criados aos moldes da Reforma Pombalina de 1772, os Cursos Jurídicos nacionais tiveram a influência do Marquês de Pombal, maçom, que trouxe consigo para o Brasil, ideias de razão e ciência e o liberalismo que impregnavam a maçonaria da época. Foram ideias que estavam associadas ao positivismo filosófico 1, tendo ênfase na comprovação do fato e independente do juízo valorativo, 1 O Positivismo corresponde a uma doutrina filosófica, concebida por Augusto Comte, de que resultou a constituição do pensamento humano em estado de positividade, a criação da sociologia, o

17 16 o que não é concebível e possível ao Direito, já que para este Não há como se dissociar o juízo valorativo e se apegar a formas científicas e apenas com comprovação de fatos (ALMEIDA FILHO, 2005, p. 23-4). Afinal, o Direito é decorrente da valorização da ocorrência do fato e do juízo. Colabora Streck (1999, p. 76) quando salienta que Todo e qualquer aplicador do Direito (magistrado, autoridade pública, particular etc.) deve, sempre, descobrir o real sentido da regra jurídica, apreender o seu significado e extensão. Cabe, portanto, devido o Direito natural como o verdadeiro cerne do Direito e dele deriva todas as regras permanentes dos valores inseridas nas normas positivas, o processo de resignificação do próprio Direito, sob pena de esvaziar-se em um processo mecanicista de efetivação de uma técnica. A Carta de Lei de 11 de agosto de 1827, assinada por Dom Pedro Primeiro, em seu Artigo 1º, dispõe sobre o Curso de Direito, inteiro teor: Art. 1.º - Crear-se-ão dous Cursos de sciencias jurídicas e sociais, um na cidade de S. Paulo, e outro na de Olinda, e nelles no espaço de cinco annos, e em nove cadeiras, se ensinarão as matérias seguintes: 1.º ANNO 1ª Cadeira. Direito natural, publico, Analyse de Constituição do Império, Direito das gentes, e diplomacia. 2.º ANNO 1ª Cadeira. Continuação das materias do anno antecedente. 2ª Cadeira. Direito publico ecclesiastico. 3.º ANNO 1ª Cadeira. Direito patrio civil. 2ª Cadeira. Direito patrio criminal com a theoria do processo criminal. 4.º ANNO 1ª Cadeira. Continuação do Direito patrio civil. 2ª Cadeira. Direito mercantil e marítimo. 5.º ANNO 1ª Cadeira. Economia politica. 2ª Cadeira. Theoria e pratica do processo adoptado pelas leis do Imperio (RIO DE JANEIRO, 1878, p. 1). Com esta Lei ficou evidente a modificação do poder sobre o Estado, bem como do ingresso de um modelo científico inédito em conflito com a ala eclesiástica estudo das condições de existência das sociedades, a descrição da evolução histórica da Humanidade, a instituição de uma religião humanista e um projeto de organização social. Positivismo Filosófico é conhecido como a Lei dos Três Estados. Surgiu no século XIV, sendo criado por Augusto Comte. Este nome foi dado devido ao entendimento que Augusto Comte tinha, no qual a humanidade passa por três estágios: 1- Estado teológico: tudo o que acontecia era devido à vontade de um deus, portanto, todos os acontecimentos não precisavam de uma explicação bastava que dissessem que foi um deus que quis assim. 2 Estado Filosófico: é o estado meio termo entre o anterior e o seguinte, onde atribui-se a coisas abstratas tudo o que acontece, o mais comum é atribuir ao destino. 3 Estado positivista: é necessário que haja provas científicas para que se acredite em algo, tendo que saber como e qual a finalidade para terem valor.

18 17 da academia. Foram razões que suscitaram como mecanismo de suporte aos estudos jurídicos, o denominado Normativismo Positivista que deu ênfase à elaboração de um Código Civil para o Brasil, com base no estatuto privado editado por Napoleão, segundo Martinez (2012). Para Drummond (2011), os registros da história do Direito no Brasil concernente às duas primeiras instituições de ensino jurídico mostram uma relação significativa entre o processo de independência do Brasil colônia atinente à metrópole portuguesa, aliado ao estabelecimento de cursos superiores, especialmente o de Direito, no Império brasileiro vigente. Com isto, é possível que o estabelecimento de tais cursos tenha sido elemento de composição no processo de consolidação da independência brasileira. Duas situações são identificadas na ligação entre o estabelecimento de cursos superiores no Brasil e a sua independência de Portugal: em uma delas, a percepção de que após a independência foi iminente a necessidade de construir uma universidade nacional, dissociada da herança portuguesa; neste caso, a criação dos cursos jurídicos propiciou um centro de cultura que se pretendia desligado da tradição lusitana. A outra, vincula-se à necessidade de uma autonomização cultural e política diante dos rumos que a nação deveria tomar: Desta forma, a instalação de cursos jurídicos no Brasil além de representar o estabelecimento de um centro de cultura vai também viabilizar a formação em terras brasileiras de uma necessária elite intelectual, bem como dos homens que viriam a integrar os quadros burocráticos deste Estado em formação (DRUMOOND, 2011, p. 30). São os bachareis de Direito vistos na história como protagonistas na política e na vida intelectual que assumiram os principais cargos do Estado, revelando que este profissional já veio desempenhando um papel relevante no âmbito político e institucional nacional. Acerca deste papel, o bacharel foi visto como um dos principais protagonistas da vida política nacional e, especialmente, [...] o tipo humano concreto de um modelo intelectual que marcou o país ao longo do século XIX: trata-se do comumente chamado homem de letras (DRUMOOND, 2011, p. 31). Almeida Filho (2005, p. 27) confirma que na criação dos Cursos Jurídicos no Brasil, segundo disposição da Universidade de Coimbra, de natureza racional, dedutivista e sistemática, foi implantado [...] um sistema liberal e racional, para,

19 18 futuramente, sob a influência de Benjamin Constant, transformar-se em positivistafilosófico. É certo, por isto, que o Brasil buscou características para o seu próprio curso, porém mantinha-se vinculado ao modelo de Coimbra. De acordo com Almeida (2009, p. 6379), a história sobre os cursos de Graduação em Direito no Brasil confirma que desde a sua criação, no ano de 1827, [...]tiveram um currículo único, somente após este período é que de forma gradual foram sendo efetuadas modificações curriculares, o que denota a grande tendência tradicionalista e resistência a mudanças. Comprovando, portanto, que o processo era fático e não apropriado a realidade vivenciada outrora. Em sua evolução, o ensino jurídico no Brasil situa a criação de novas faculdades de Direito, como a da Bahia, em 1891, resultado de pressões da sociedade civil sobre o Estado acerca de reforma educacional e da própria educação, que passava a ser compreendida como [...] a força inovadora da sociedade a ser expandida (MARTINEZ, [2012], p. 4). Como resposta de tais iniciativas, o ano de 1927 registrou 14 cursos de Direito e alunos matriculados. Durante o centenário entre a Lei de 11 de agosto de 1827, assim ficou definido o Direito: A função social do ensino jurídico no período centenário demonstrou, desse modo, ratificar o modelo liberal, interpretá-lo, dar vida e continuidade aos currículos ideologicamente preparados. Na área metodológica, como foi insubsistente qualquer tentativa de avanço pedagógico, o resultado natural foi sua inclinação para a pedagogia tradicional (MARTINEZ, [2012], p. 5). Esta pedagogia tradicional 2 foi relevante no contexto liberal, permitindo manter-se uma estrutura social paralela à estrutural operacional do Direito para a 2 A pedagogia tradicional é uma proposta de educação centrada no professor cuja função define-se por vigiar os alunos, aconselhá-los, ensinar a matéria e corrigi-la. A metodologia decorrente de tal concepção tem como princípio a transmissão dos conhecimentos através da aula do professor, frequentemente expositiva, numa sequência predeterminada e fixa, enfatiza a repetição de exercícios com exigências de memorização. Valoriza o conteúdo livresco e a quantidade. O professor fala, o aluno ouve e aprende. Não propicia ao sujeito que aprende um papel ativo na construção dessa aprendizagem, que é aceita como vinda de fora para dentro. Muitas vezes não leva em consideração o que a criança aprende fora da escola, seus esforços espontâneos, a construção coletiva. A figura do professor como detentor do saber é uma força motriz nessas escolas. A função primordial da escola, nesse modelo, é transmitir conhecimentos disciplinares para a formação geral do aluno, formação esta que o levará, ao inserir-se futuramente na sociedade, a optar por uma profissão valorizada. Caracteriza-se pela sobrecarga de informações que são veiculadas aos alunos, o que torna o processo de aquisição de conhecimento, muitas vezes burocratizado e destituído de significação. A postura da escola se caracteriza como conservadora. No processo de alfabetização, apoia-se principalmente nas técnicas para codificar/decodificar a escrita. A escrita espontânea da

20 19 formação direcionada dos bacharéis. Concomitantemente, o período marcou-se pelo ensino livre, com expansão significativa dos cursos de Direito, sendo o ensino jurídico realizado por professores aos quais não se faziam exigências qualitativas para a profissão, mas simplesmente verificado o sucesso profissional como operador jurídico, de modo que se caracterizou um nivelamento pedagógico que levou para as salas de aula os melhores práticos (MARTINEZ, 2012). Para o ano de 1931, a história registra [...] a mais profunda e significativa reforma do ensino jurídico no Brasil, inclusive em termos pedagógicos, por parte das Faculdades de Direito nacionais (BEZERRA, 2006, p. 69). Dentre as Faculdades de Direito encontram duas faculdades criadas em Olinda, em 1927, originando a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco; em São Paulo, a Academia de Direito em Ouro Preto, inaugurada em 10 de dezembro de 1892; a Faculdade de Direito de Porto Alegre, fundada em 17 de fevereiro de A partir da criação destas instituições no início do século XX, [...] o ensino jurídico no Brasil começava a perder o exclusivismo de concentrar-se em apenas duas escolas, com o processo de descentralização que até 1900 fizera surgir mais quatro escolas e que, até 1930, faria aparecer outras seis, das existentes neste período (BEZERRA, 2006, p.69). Com o Estado Novo, no ano de 1937, sob o governo provisório de Getúlio Vargas, a implantação de uma nova Constituição promove abertura de uma fase de renovação legislativa. Dentre os novos diplomas legais lançados pela iniciativa do Ministro da Justiça constam: Código de Processo Civil; Lei de Registros Públicos; Lei de Sociedades por Ações; Código Penal; Código de Processo Penal; Introdução ao Código Civil; Lei de Falências; projeto de Código de Obrigações (BEZERRA, 2006). 1.2 A CONSCIÊNCIA DA CRISE O Brasil considera na modernidade a Constituição Federal de 1988, a Cidadã, que dentre várias mudanças trouxe uma nova ordem jurídica em seguida à sua promulgação e esta estabelece um Estado Democrático de Direito, ainda que como um pressuposto. Acerca dessas mudanças, Vitagliano (2001) chama a atenção para uma realidade na qual muitos preceitos legais não passaram de criança em fase de alfabetização não é levada em conta, sendo a cartilha sequencialmente seguida, a base do processo de alfabetização.

21 20 registros, e que não serão aplicados jamais, a exemplo dos limites de juros a 12% ao ano. Nestes termos, o ensino jurídico, [...] pouco vem mudando, permanecendo um objeto de manipulação da elite dominante para permanecer no poder (VITAGLIANO, 2001, p. 16). Já Rodrigues (2005, p. 39) comenta sobre o auxílio dado pelos cursos de Direito às crenças e pré-conceitos jurídicos políticos vinculados a certo liberalismo coadunado com o conservadorismo que mantém o status quo político-econômico-social. Dele se espera a transmutação para um instrumento que construa uma sociedade justa, democrática e solidária. Mas, Na área pedagógica, o ensino do Direito apresenta-se como um dos principais focos ainda existentes, na universidade brasileira, de educação tradicional. Esse modelo tem como características gerais o primado do objeto e o privilegiamento dos modelos e do professor. Vê o aluno como um receptor passivo, sendo a realidade algo que será a ele transmitido pela escola, através da educação formal. [...] A educação é vista como um processo de transmissão de informações, como instrução; e a escola, como o lugar onde ela se realiza. [...] Na área didática, o ensino do Direito continua adotando basicamente a mesma metodologia da época de sua criação: a aula-conferência (RODRIGUES, 2005, p. 52-3). Além destas considerações de, há o que Rodrigues (2005) chama de crise curricular, pautada na defasagem dos conteúdos, na falta de dialética e na ausência de percepção quanto a uma formação no âmbito do Direito que favoreça a visão integrada do fenômeno jurídico e uma formação profissional que atenda às demandas do mercado de trabalho e as necessidades locais e regionais. Atualmente o ensino jurídico nacional tem como base da educação as Diretrizes Curriculares presentes na Resolução CNE/CES n 9, de 29 de setembro de E, inerente a este ensino jurídico, Mesquita (2009) expõe o que compreende como saberes docentes, considerando-os como pré-condição para o exercício do ensino na escola. Tais saberes têm como enfoque os conhecimentos, aptidões, habilidades e atitudes, que em harmonia compõem um conjunto de saberes, estes, vinculados ao trabalho do professor. Os saberes docentes se originam em fontes de conhecimento que se caracterizam nas experiências particulares e profissionais do professor, incluindo as suas histórias de vida; nos conhecimentos escolares, naqueles que advêm de programas e manuais escolares, e naqueles obtidos na execução de seu trabalho, seja com os alunos e/ou colegas de profissão (MESQUITA, 2009). Nesta explanação de Mesquita (2009), podem encontrar apoio as ponderações de Tardif (2010)

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