SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO JURÍDICO

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1 LUCIANA CRISTINA DE SOUZA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO JURÍDICO Projeto de Pesquisa apresentado ao Núcleo de Pesquisa e Extensão da Faculdade de Direito Milton Campos, para desenvolvimento de pesquisa institucional. Linha de Pesquisa: Análise dos impactos sociais e jurídicos da relação entre o Estado e os seus Cidadãos na sociedade brasileira contemporânea Projeto de Pesquisa individual ou coletivo Nova Lima 2012

2 1 TEMA-PROBLEMA O grande desafio, hoje, na formação do bacharel em Direito é encontrar o justo equilíbrio matérias humanísticas e técnicas, harmonização de fundamental importância para preparar o profissional com a qualidade que dele será exigida no mercado ou na carreira pública, assim para nele desenvolver as habilidades e competências necessárias para que tenha perfil crítico e humanístico. Isso ocorre porque o direito positivo é uno; a sociedade brasileira, no entanto, é plural. Impor-lhe uma conformação passiva à norma jurídica, sem que o sistema legal incorpore valores oriundos do meio social, implica o comprometimento da eficácia que este mesmo terá. Além de ampliar a metodologia de aprendizagem nas escolas de direito, é necessário, portanto, inserir outros sujeitos nesse processo educacional. Resta-nos, então, responder às seguintes questões: Como estabelecer uma relação equilibrada entre teoria e prática de modo humanizado e socialmente comprometido? Qual o perfil mais adequado para os currículos dos cursos jurídicos atualmente? Que tipo de metodologia e didática poderiam ser incorporadas às práticas de ensino jurídico?

3 2 JUSTIFICATIVA A formação jurídica é um processo educativo que, além do aspecto técnico para aprendizagem, a práxis forense, visa também moldar o caráter ético dos futuros bacharéis. O contato com os fatos sociais para o aluno dos cursos jurídicos torna mais profunda sua aprendizagem. É preciso, então, criar oportunidades para que o discente interaja com a realidade forense e social para que perceba a aplicabilidade clara do conhecimento científico apreendido na academia. A inserção de valores sociais, humanísticos e étnico-raciais nas discussões de sala de aula produz como resultado positivo um profissional melhor capacitado para, no contato diário com a lei, perceber suas distorções e ofertar soluções que, ao mesmo tempo em que protegem o ordenamento jurídico visando a segurança da coletividade não olvidem as necessidades concretas do ser humano ali presente naquela relação tutelada pelas normas jurídicas. Quando se discute a formação dos bacharéis em Direito muito ainda se tem para acrescentar a esse difícil diálogo entre a técnica, fruto da abstração, e a práxis, resultante do contato com a realidade, além da habilidade para inseri-las no contexto social em que o egresso efetivamente atuará ao se formar. O equilíbrio entre esses três aspectos é um anseio já conhecido da academia, bem como dos tribunais que, hodiernamente, têm refletido essa expectativa de mudança que a sociedade demonstra em relação à aplicação da norma por seus profissionais promotores, defensores públicos, advogados, etc.. Este é um importante marco paradigmático. Logo, a formação da área jurídica, no âmbito da sociedade em rede multifacetada e interdependente, exige desses profissionais a sua preparação quanto ao uso de novos instrumentos metodológicos favoráveis à compreensão da realidade em que são aplicadas as normas jurídicas para destarte prepará-los para não serem meros decodificadores da lei escrita; tal processo de formação profissional deve ser feito amparado-se as novas reflexões sociais que o bacharel em Direito, pois o futuro jurista deve ser capaz refletir sobre a realidade sobre a qual irá atuar e de posicionar-se adequadamente no mundo contemporâneo.

4 3 OBJETIVOS GERAL: Descrever a construção do conhecimento jurídico no Brasil a partir da análise do processo de formação do bacharel em Direito, contextualizado no Brasil atual, e também da compreensão da diversidade, e ao mesmo tempo uma especificidade, cultural brasileira comparada com outras sociedades. ESPECÍFICOS: 1. Observar e analisar como a racionalidade contemporânea transformou a percepção dos institutos jurídicos tanto por profissionais da área docentes, advogados, magistrados, defensores públicos, assessores técnicos, etc. quanto por parte da população usuária do sistema de justiça brasileiro. 2. Debater sobre a questão étnico-racial no processo de formação do jurista e na construção do próprio Direito como campo do saber e profissional. 3. Avaliar o perfil atual dos currículos jurídicos no Brasil.

5 4 MARCO TEÓRICO Parte da complexidade do ensino das matérias não técnicas no direito pode ser claramente atribuído à contínua tentativa dos professores, seja destas áreas, bem como os ditos juristas, em explicarem esses fenômenos exclusivamente sob a ótica de cada área, dicotomicamente. Assim, o que provavelmente incomoda os alunos é a forma de aprendizagem. Deve-se, então, investir na atuação direta do discente, sem restringir-se à memorização de "fórmulas" e "modelos" préconcebidos, evitando-se o que Pierre Bourdieu denomina "um discurso em forma, quer dizer, defensivo e fechado em si mesmo [...]" (BOURDIEU, 1999, p. 17). Assim, os alunos de direito podem e devem receber uma formação cidadã com respeito à sua diversidade, igualmente apta a conciliar elementos formais como saberes técnicos apreendidos na academia e informais trocas de experiências, internet, música, voluntariado, etc., que lhes impulsione a interação com outros sujeitos sociais presentes no Estado Democrático de Direito. Veja-se o exemplo a seguir: O processo de produção do conhecimento passa pela capacidade de julgamento do esforço pessoal, das dificuldades encontradas particularmente e da seleção de novos meios de aquisição do saber. Vejase um exemplo. Em uma das turmas do Curso de Direito, relativamente a uma disciplina técnica, foi determinada uma visita técnica a órgão do Poder Judiciário, cuja pauta de audiências fosse de assuntos vinculados aos temas estudados em sala de aula. Inicialmente, tratar-se-ia de mera visita de conhecimento, mas ao longo do desenvolvimento da tarefa, partiu do corpo discente ampliar as possibilidades do trabalho. (...) A proposta [em outra sala] foi a utilização de recursos audiovisuais para amparar o aluno. A princípio, pode-se inferir que isto transformaria a apresentação em uma leitura de transparências. Ao contrário disso, porém, os trabalhos foram surpreendentes, pois vários grupos produziram minidocumentários sobre o tema. Cada qual visitou um movimento social organizado de Belo Horizonte e entrevistou seus participantes, trazendo para o dia da avaliação em sala, além de material escrito, uma fita de 15 a 40 min, conforme o grupo, na qual haviam relatos, imagens das atividades e depoimentos de pessoas de fora dos movimentos. (...) [outra turma] realizou atividade de avaliação por meio da técnica Grupo de Discussão - Grupo de Ouvintes, a partir da análise de um caso concreto. O trabalho foi dividido em três etapas, cada uma representada por um terço da sala. A tarefa consistia em ser capaz de ouvir, primeiramente; depois, ocupar o círculo central e dar continuidade ao trabalho iniciado pelo grupo anterior. Por fim, fazer uma auto-avaliação, que comporia a nota final, a partir do conhecimento adquirido como ouvinte e como debatedor. (SOUZA, 2006, p. 3-4)

6 O ensino nas escolas de direito não se destina a formar seguidores deste ou daquele mestre. Tem por escopo, isto sim, capacitar os acadêmicos para tratarem da realidade que ao direito cumpre regular dentro da sociedade. Portanto, ao avaliar o conhecimento jurídico, o método escolhido para fazê-lo orientar-se-á para precisar o quantum de saber técnico o discente já domina, essencial para sua carreira, e sua habilidade em aplicá-lo em uma gama bastante variável de situações não préconstituídas existentes no meio social em que ao formar atuará como profissional, muitas vezes completamente imprevistas, de modo a que o faça sem perder o parâmetro instituído pelo ordenamento jurídico. Em razão disso, também serão aqui autores de referência Pedro Demo, com seus estudos sobre Sociologia da Educação, e Paulo Freire, para que se possa debater sobre a relação entre Pedagogia e ensino jurídico, recorrendo-se para tanto a várias de suas obras, elencadas estas nas Referências. Loussia P. Musse Felix, Horácio Wanderley Rodrigues e Eliane Botelho Junqueira, que participaram da reforma dos currículos jurídicos brasileiros nas quais o estudo humanístico crítico passou a ser uma exigência também serão estudadas, assim como a importante atuação da Associação Brasileira de Ensino do Direito (ABEDi) para a elaboração e publicação da Resolução CNE/CES n. 09/2004, que regulamente atualmente os cursos de Direito no Brasil.

7 5 METODOLOGIA Será feita uma pesquisa documental sobre a legislação vigente sobre educação jurídica no Brasil. Em seguida, se fará uma análise da reforma curricular de , atualmente em vigor nos cursos de Graduação em Direito. Serão realizados seminários entre docentes e discentes, além de convidados da área profissional e docente jurídica com o intuito de estabelecer um diálogo sobre a qualidade da formação do profissional jurídico e também seu papel social. Como produto final, redigir-se-á um artigo para divulgação das análises feitas e se promoverá um evento em 2013 na Faculdade de Direito Milton Campos para partilhar experiências e conhecimentos sobre o tema com docentes, discentes e profissionais da área.

8 6 SUGESTÕES DE TEMAS PARA TRABALHOS DE CONCLUSÃO DE CURSO TCC 1. Conhecimento interativo e acesso público à informação 2. Metodologia empírica no Curso de Direito como método de análise da eficácia da relação democrática entre Estado e cidadãos 3. Racionalidade contemporânea e novos modos de organização social 4. Estudos de caso no curso jurídico e aprendizagem teórico-prática 5. Aplicabilidade da pesquisa sociojurídica à análise contemporânea das questões sociais tuteladas pelo direito 6. Análise histórico-social da produção do conhecimento jurídico no Brasil considerando a contribuição das diferentes etnias para nossa formação

9 REFERÊNCIAS BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Lisboa: Difel, DEMO, Pedro. Complexidade e aprendizagem: a dinâmica não linear do conhecimento. São Paulo: Atlas, Pesquisa e construção do conhecimento. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, CARVALHO, Evandro de Menezes; VERONESE, Alexandre; VESTENA, Carolina Alves et al. (Org.). Representações do Professor de Direito. Curitiba: CRV: Associação Brasileira de Ensino do Direito (ABEDi), FRANCISCHETTO, Gilsilene Passon Picoretti (Coord.). Um diálogo entre ensino jurídico e pedagogia. Curitiba: CRV, FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, A educação na cidade. São Paulo: Cortez, FELIX, Loussia P. Musse. Novas dimensões da atuação jurídica: o papel de advogados, burocratas e acadêmicos na redefinição da formação e das funções dos operadores jurídicos. CONFERÊNCIA DA ASSOCIAÇÃO DE ESTUDOS LATINO- AMERICANOS, 20, 1998, Chicago. Anais eletrônicos... Chicago, Palmer Hilton Hotel, JUNQUEIRA, Eliane Botelho. Diretrizes curriculares para os cursos de Direito: flexibilidade e criatividade. Revista Estudos, n. 22, 10 de março de Disponível

10 em: est22-06.htm. Acessado em 31 de outubro de RODRIGUES, Horácio Wanderley (Org.) Ensino jurídico para que(m)? Florianópolis: Fundação Boiteaux, SANTOS, Boaventura de Sousa. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática. São Paulo: Cortez Editora, 3ed., SOUZA, Luciana Cristina de. Avaliação participativa e sua metodologia. SIMPÓSIO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E TRABALHO DOCENTE (SIMPOED), 4, Ouro Preto, 5 a 6 de outubro de Anais eletrônicos... Ouro Preto: UFOP, 2006.

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