UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ SANTIAGO CARVALHO LUIZ

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1 UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ SANTIAGO CARVALHO LUIZ SEGURO DPVAT: CONCEITO, REGRAS VIGENTES, DEPRECIAÇÃO LEGISLATIVA E TRANSNACIONALIDADE DAS COBERTURAS CURITIBA 2012

2 SANTIAGO CARVALHO LUIZ SEGURO DPVAT: CONCEITO, REGRAS VIGENTES, DEPRECIAÇÃO LEGISLATIVA E TRANSNACIONALIDADE DAS COBERTURAS Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade Tuiuti do Paraná, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito. Orientador: Prof. Martim Palma. CURITIBA 2012

3 TERMO DE APROVAÇÃO SANTIAGO CARVALHO LUIZ SEGURO DPVAT: CONCEITO, REGRAS VIGENTES, DEPRECIAÇÃO LEGISLATIVA E TRANSNACIONALIDADE DAS COBERTURAS Esta monografia foi julgada e aprovada para a obtenção do título de Bacharel em Direito, e aprovada em sua forma final pela Coordenação do Curso de Direito da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade Tuiuti do Paraná. Curitiba, outubro de Curso de Direito Universidade Tuiuti do Paraná Orientador: Prof. Martim Palma Universidade Tuiuti do Paraná Departamento de Direito Prof. Universidade Tuiuti do Paraná Departamento de Direito Prof. Universidade Tuiuti do Paraná Departamento de Direito

4 Agradeço a todos que, de forma direta ou indireta, auxiliaram na realização desta monografia.

5 Dedico a todos aqueles que foram vítimas do trânsito. Em especial, aos que sofreram novamente, nos trâmites do Seguro DPVAT.

6 RESUMO Este trabalho apresenta o conceito e regras atuais do Seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não (Seguro DPVAT, também chamado de Seguro Obrigatório). Este estudo surgiu da necessidade de expor de forma objetiva as principais regras do Seguro DPVAT, por ser um seguro que a todos protege e cujo prêmio é pago por todas as pessoas brasileiras que possuem veículo automotor que trafegue em via terrestre. Pretende-se expor quem tem direito à indenização do Seguro DPVAT, baseado na legislação vigente e na jurisprudência. Foram feitas pesquisas na doutrina, em sites oficiais do Seguro DPVAT, da SUSEP e de Tribunais de Justiça Estaduais. A análise dos resultados permitiu concluir que se trata de um assunto bastante controverso, em que diversos pedidos de indenização que foram negados pelas seguradoras que operam o sistema (forma administrativa) foram pagos por força de decisões judiciais de segunda instância (forma judicial). Palavras-chave: Seguro DPVAT; Direito Civil; Direito a Indenização de Seguro DPVAT.

7 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 BILHETE DE SEGURO DPVAT FIGURA 2 PLACA DE AUTOMÓVEL DE UM CÔNSUL DE CARREIRA NO BRASIL.. 43 FIGURA 3 PLACA DE AUTOMÓVEL DE UM CÔNSUL HONORÁRIO NO BRASIL... 43

8 LISTA DE TABELAS TABELA 1 TABELA DE INVALIDEZ PERMANENTE TOTAL OU PARCIAL TABELA 2 TABELA DE PERCENTUAL DE INDENIZAÇÃO VIGENTE PARA INVALIDEZ TOTAL TABELA 3 CONTAGEM PRESCRICIONAL NA REGRA DE TRANSIÇÃO ENTRE OS CÓDIGOS CIVIS... 57

9 LISTA DE SIGLAS AC Apelação Cível AgRg Agravo Regimental AREsp Agravo no Recurso Especial BAM Boletim de Atendimento Médico BO Boletim de Ocorrência CC Código Civil CNH Carteira Nacional de Habilitação CNSP Conselho Nacional de Seguros Privados CPC Código de Processo Civil CPF Cadastro de Pessoa Física CPMF Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira CRLV Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo CSLL Contribuição Social sobre Lucro Líquido CTB Código de Trânsito Brasileiro DAMS Despesas de Assistência Médica e Suplementares DENATRAN Departamento Nacional de Trânsito DJ Diário de Justiça DJe Diário de Justiça Eletrônico DP Delegacia de Polícia DPEM Seguro obrigatório de danos pessoais causados por embarcações ou sua carga DUT Documento Único de Transferência EUA Estados Unidos da América IML Instituto Médico Legal ITCMD Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação MERCOSUL Mercado Comum do Sul MG Estado de Minas Gerais MS Estado do Mato Grosso do Sul MT Estado do Mato Grosso OAB Ordem dos Advogados do Brasil PR Estado do Paraná REsp Recurso Especial RN Estado do Rio Grande do Norte RS Estado do Rio Grande do Sul RSTJ Revista do Supremo Tribunal de Justiça Seguro DPVAT Seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não SINCOR-GO Sindicato dos Corretores e das Empresas Corretoras de Seguros, de Capitalização, de Previdência Privada e de Resseguros no Estado de Goiás STJ Supremo Tribunal de Justiça

10 SUS SUSEP TA TAPR TJDFT TJMS TJPR TJRS TJSC TJSP Sistema Único de Saúde Superintendência dos Seguros Privados Tribunal de Alçada Tribunal de Alçada do Paraná Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul Tribunal de Justiça do Paraná Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul Tribunal de Justiça de Santa Catarina Tribunal de Justiça de São Paulo

11 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO DESENVOLVIMENTO O Seguro DPVAT Do equivocado termo acidente de trânsito Dos elementos diferenciadores da denominação proposta Do termo incidente de trânsito Do termo sinistro de trânsito Da utilização do termo sinistro de trânsito O QUE É O SEGURO DPVAT DPVAT seguro sui generis DPVAT seguro de cunho social QUEM DEVE PAGAR O PRÊMIO DO SEGURO DPVAT PREVISÃO LEGAL DO SEGURO DPVAT Normas que regem o seguro DPVAT Vigência temporal da cobertura do Seguro DPVAT COBERTURAS DO SEGURO DPVAT Valores de indenização do Seguro DPVAT DAMS Despesas de Assistência Médica e Suplementares Invalidez permanente total ou parcial Tabela do percentual de invalidez Quanto vale uma sequela? Morte A questão da morte do nascituro em sinistro de trânsito ABRANGÊNCIA TERRITORIAL E TRANSNACIONALIDADE Brasileiros no exterior com veículos brasileiros Brasileiros no exterior com veículos estrangeiros Sinistros de trânsito transnacionais dentro do Brasil Brasileiros com veículos estrangeiros Brasileiros com veículos estrangeiro e brasileiro Estrangeiros com veículo estrangeiro Estrangeiros com veículo brasileiro Estrangeiros com veículos estrangeiro e brasileiro... 51

12 2.7 A DEFINIÇÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL DO SEGURO DPVAT A Prescrição do Seguro DPVAT à luz do Código Civil de A INADIMPLÊNCIA DO PRÊMIO DO SEGURO DPVAT DOCUMENTOS PARA A INDENIZAÇÃO DO SEGURO DPVAT Documentos relacionados à vítima Documentos relacionados ao sinistro de trânsito Documentos relacionados ao tipo de cobertura Documentos relacionados ao DAMS Documentos relacionados à invalidez permanente Documentos relacionados ao óbito Documentos dos beneficiários Documentos exigidos pelas seguradoras consorciadas Documentos exigidos pela Justiça Brasileira A SÚMULA 14 DO TJRS CONCLUSÃO REFERÊNCIAS ANEXOS ANEXO 1 SEGURADORAS CONSORCIADAS ANEXO 2 E-SIC CONSULTA PROTOCOLO ANEXO 3 E-SIC CONSULTA PROTOCOLO ANEXO 4 TABELA PRESCRIÇÃO SEGURO DPVAT ANEXO 5 DECLARAÇÃO DE RESIDÊNCIA ANEXO 6 AUTORIZAÇÃO DE PAGAMENTO ANEXO 7 CIRCULAR SUSEP ANEXO 8 DOCUMENTOS DAMS ANEXO 9 DOCUMENTOS INVALIDEZ ANEXO 10 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS ANEXO 11 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS ANEXO 12 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS ANEXO 13 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS ANEXO 14 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS ANEXO 15 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS ANEXO 16 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS

13 ANEXO 17 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS ANEXO 18 DOCUMENTOS MORTE BENEFICIÁRIOS ANEXO 19 MEGADATA

14 14 1 INTRODUÇÃO Após a Segunda Guerra Mundial a Europa Ocidental estava arrasada pelas lutas em seu próprio solo, e precisava retomar o crescimento. Os Estados Unidos da América (EUA) também precisavam de uma economia forte para fazer frente à União Soviética, pois esses dois países tornaram-se as superpotências mundiais pósguerra, fortemente militarizados e com ideologias político-econômicas antagônicas (JUNIOR, 2006). Uma economia aquecida implicaria num país rico, militarmente poderoso, capaz de garantir a própria soberania e de fazer valer seus interesses. Contudo, havia uma crise de desigualdade socioeconômica nos países capitalistas, com uma massa trabalhadora empobrecida. Os Direitos Sociais, objeto de lutas de classe desde a Revolução Industrial (SARLET, 2007, p. 56), tiveram grande impulso no período pós-guerra, juntamente com os Direitos Humanos. Foi criada em 1945 a Organização das Nações Unidas (ONU), sendo que esta adotou em 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos e em 1966 o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (GONÇALVES, 2009). Implantados sob a justificativa de serem fundados no princípio da solidariedade humana e com a finalidade de melhorar as condições de vida dos hipossuficientes, esses reconhecimentos dos direitos sociais também tiveram o intuito de impulsionar a economia dos países capitalistas ocidentais. Para tanto, foram implantados através de ações estatais notadamente derivadas da Doutrina Truman e do Plano Marshal 1, pois a recuperação da economia era essencial para a contenção do socialismo (JUNIOR, 2006). São o núcleo dessas medidas os Direitos Trabalhistas e os Direitos de Seguridade Social (Previdência Social e Assistência Social). Também fazem parte as políticas de saúde e de educação. Ou seja, os direitos de cunho social foram criados e adotados pelos países capitalistas industrializados para alavancar as próprias economias, deter o avanço do comunismo e acalmar os marxistas, assim como a população das classes 1 A expressão Doutrina Truman designa um conjunto de práticas do governo dos EUA, criadas em 1947 e adotadas mundialmente, com objetivo de conter o avanço do socialismo soviético. Buscava, principalmente, fazer alianças com outros países para isolar a União Soviética. O Plano Marshal foi um aprofundamento da Doutrina Truman, recebeu o nome oficial de Programa de Recuperação Europeia e consistiu em auxiliar economicamente os países europeus afetados pelas duas Guerras Mundiais, visando recuperar mercados para os produtos e capitais norte-americanos.

15 15 sociais mais pobres, que lutavam por igualdade social e melhor distribuição de renda. Quanto ao Brasil, a trajetória político-econômica de nosso país foi completamente diferente. Quando foi descoberto, no início do século XVI, nosso país teve sua política dominada por Portugal, que ostentava a condição de colonizador. O Brasil não tinha política própria, sujeitando-se às regras da Coroa Portuguesa. Assim permaneceu até meados do início do século XIX, quando já se podia observar enorme influência da política britânica em nosso país. O Reino Unido 2, em plena revolução industrial, necessitava de um mercado para escoar sua produção fabril, pois estava isolada economicamente do restante da Europa por Napoleão. Portugal, já em claro declínio quanto ao seu status de potência mundial, era então aliada dos britânicos. A transferência da corte portuguesa ao Brasil em 1808 (fugindo da ocupação napoleônica) foi feita sob a escolta da marinha inglesa. Uma das consequências dessa relação entre Portugal e Reino Unido foi a abertura dos portos brasileiros às nações amigas em Em 1810, houve a concessão de tarifas especiais de comércio entre o Brasil e o Reino Unido (HISTÓRIAMAIS, 2008). Nas lutas da guerra da independência do Brasil, travadas de 1822 a 1824, o Reino Unido não participou oficialmente, mas enviou quantidade significativa de militares mercenários (BATISTA, 2010). Também reconheceu a independência do Brasil muito antes de Portugal, o que somente foi aceito pela Coroa Lusitana após uma diplomática intermediação britânica, que resultou numa indenização de dois milhões de libras esterlinas em favor de Portugal. Em contrapartida, foram concedidas inúmeras vantagens comerciais no Brasil para a Inglaterra, com a abertura de país a investimentos ingleses (entenda-se exploração das riquezas naturais) e a importação de produtos industrializados britânicos (como lã, tecidos, calçados, ferragens, ferramentas, peixe salgado, vidros, tintas, caixões funerários e até mesmo patins para gelo, entre outros) a taxas abaixo das praticadas para as outras nações. Isso acarretou o predomínio de produtos industrializados de origem inglesa no Brasil do século XIX. Também inviabilizou a instalação, à época, de indústrias nacionais, que não conseguiam competir com o baixo preço dos produtos ingleses (LIMA, 1945, p. 38). Posteriormente outras nações influenciaram a política brasileira, notadamente os EUA após o início do século XX, com a exploração os 2 O Reino Unido é um país insular soberano, localizado na Europa e formado desde 1707 pela união política de quatro nações: Escócia, Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales.

16 16 recursos naturais brasileiros e a instalação de fábricas (denominadas multinacionais ) que visavam aproveitar a mão de obra barata e o mercado consumidor nacional (VIZENTINI, 1999, p. 134). Desta forma, desde sua invasão pelos povos europeus, o Brasil sempre foi fortemente influenciado pela política estrangeira. Um país pobre não possui mercado consumidor, logo, não atende aos interesses dos países mais ricos. Então, sob a máscara de direitos de cunho social, os países ricos obrigaram e continuam obrigando os governos dos países em desenvolvimento a adotarem políticas de cunho social, visando criar condições propícias à expansão do mercado. Nesse ínterim, em meados da década de 60 foi implantado no Brasil o seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não Seguro DPVAT (AMORÍN, 2011, p. 12), objeto de estudo desta monografia. Contudo, algumas questões ainda precisam ser abordadas nesta introdução, como a falta de acesso ao Poder Judiciário por uma enorme parcela da população brasileira. A metodologia a ser empregada nesta monografia envolverá a realização de pesquisas relativas aos procedimentos administrativos e judiciais de pedidos de indenização do Seguro DPVAT, com consultas à doutrina, legislação e jurisprudências. Serão analisadas as modificações que a Lei do DPVAT sofreu, assim como as modificações introduzidas pela vigência do novo Código Civil (CC). Os assuntos a serem abordados serão: o que é o Seguro DPVAT, a legislação vigente e a depreciação histórica dos valores pagos aos beneficiários, as hipóteses de aplicabilidade do seguro (coberturas), vigência territorial, como funciona a prescrição para o Seguro DPVAT, questões relativas à inadimplência dos proprietários de veículos quanto o pagamento o Seguro DPVAT e qual a documentação necessária para solicitar a indenização.

17 17 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 O Seguro 3 DPVAT O Seguro DPVAT tem cunho eminentemente social, é pago por todos os brasileiros proprietários de veículos automotores terrestres e dá direito a indenização e a ressarcimento das despesas médico-hospitalares em casos de danos físicos pessoais causados por veículos ou sua carga Do equivocado termo acidente de trânsito Preliminarmente, há que se considerar que a expressão acidente de trânsito faz parte da linguagem corrente no Brasil, consagrada pelo povo e utilizada até mesmo em textos legais. Trata-se uma expressão genérica, que tem por significado a ocorrência de um evento desastroso, casual ou não, envolvendo veículos, ou veículos e pessoas, com danos pessoais e/ou materiais, que vão desde os pequeníssimos (como um leve choque entre veículos, sem consequência alguma para os ocupantes) até os desastres de grandes proporções, com a destruição dos veículos e a morte de uma ou mais pessoas. Mas trata-se de uma expressão falaciosa, cuja utilização induz as pessoas a erro. A falha da expressão reside na palavra acidente. Segundo o Dicionário Aurélio, por acidente entende-se: 1. Acontecimento casual, fortuito, imprevisto: Cristo e Rousseau são os dous acidentes mais extraordinários na história do espírito humano. (Graça Aranha, A Estética da Vida, p. 193.) 2. Acontecimento infeliz, casual ou não, e de que resulta ferimento, dano, estrago, prejuízo, avaria, ruína, etc.; desastre: Acidentes de trânsito ocorrem frequentemente. Logo, pela primeira descrição, entende-se que acidente é um evento danoso que ocorre casualmente, sendo totalmente imprevisível e inevitável. Não há interferência humana, não havendo, portanto, culpados. A segunda descrição do Dicionário Aurélio já prevê a possibilidade de ser algo não casual, em que existe culpa humana. Contudo, pela força da primeira descrição, a palavra acidente remete subliminarmente a algo fortuito e inevitável, ou seja, obra do acaso, o que gera 3 Seguro é um serviço que uma pessoa contrata com uma seguradora, com o objetivo de proteger algum bem, mediante o recebimento de uma indenização caso ocorra algum dano ao bem segurado.

18 18 presunção de ninguém deu causa ao evento danoso. Desta forma, por acidente entende-se um fato lamentável, mas sem qualquer culpa humana. Tanto que é comum pessoas utilizarem a expressão foi um acidente quando querem se eximir da culpa por algo. Quando há veículos envolvidos num evento danoso não há que se falar em casualidade. Sempre haverá um culpado, ainda que de difícil identificação. Isso se deve a alguns fatores: a) todo veículo tem um proprietário, que tem a responsabilidade de zelar por este, mantendo-o em boas condições mecânicas para que não seja um risco para o condutor e demais pessoas; b) veículos automotores terrestres somente se movimentam por condução humana; c) as condições das vias de tráfego são de responsabilidade de alguém. Logo, sempre que houver um evento danoso envolvendo veículos ou veículos e pessoas, haverá obrigatoriamente alguma falha humana, o que afasta a casualidade e a ideia de acidente. A responsabilidade pelo cuidado geral com todos existe mesmo que ninguém esteja presente no momento do evento danoso causado pelo veículo. Podemos tomar como exemplo um caminhão que, estacionado numa descida, perde os freios, sem a presença de ninguém em seu interior, e causa vários prejuízos. É clara a falha mecânica, e, independente de ter sido motivada por falha de projeto ou por omissão de manutenção, trata-se de uma falha humana. Desta forma, é incorreto utilizar a expressão acidente de trânsito, porque ela transmite a ideia de tratar-se de um acontecimento em que não houve culpa humana, induzindo, assim, a isenção de responsabilidade. Sempre que ocorrer um evento danoso envolvendo veículos ou veículos e pessoas, uma ou mais pessoas deram causa a este evento, seja de forma intencional, por ação ou omissão, ou por não atentarem para o dever geral de cautela. Nos eventos danosos causados por influência da natureza, como os devidos pela formação de gelo na pista, acúmulo de neve ou presença de lama, desbarrancamento de encostas, queda de árvores ou animais selvagens atravessando a via de tráfego, a culpa sempre deve recair sobre o responsável pela manutenção das condições de trafegabilidade e segurança da via. Tanto é que, no Brasil, há a inversão do ônus da prova nesses casos, onde cabe à pessoa jurídica responsável pela administração e manutenção da via terrestre provar que tomou todas as medidas possíveis para minimizar os riscos e prevenir a ocorrência de eventos danosos aos usuários. Por outro lado, independente dessa previsão legal de

19 19 responsabilidade objetiva, o condutor do veículo também tem sua parcela de culpa quando ocorre um evento danoso. Cabe ao motorista considerar a observar as condições ambientais e da via. Ao antever situações adversas, deve conduzir o veículo com atenção redobrada e em menor a velocidade. Mesmo que inevitável, uma colisão causada por fenômenos naturais é menos danosa se o veículo estiver em velocidade mais baixa. De qualquer forma, ocorrências causadas por fenômenos naturais podem chegar ao limiar da previsibilidade, como no caso de uma árvore que, atingida por um raio que anteceda uma tempestade comum, caia sobre um veículo em movimento. Esse poderia ser considerado um evento danoso de trânsito sem nenhuma culpa humana, ou seja, um acidente. Logo, o termo acidente seria mais adequado aos eventos envolvendo veículos que sofram ou provoquem danos em virtude de alguma força irresistível e não prevista da natureza, como um desabamento de encosta, uma árvore que tombe fulminada por um raio ou pela força dos ventos, a onda de um tsunami, um terremoto, um ciclone que surja abruptamente, ou coisas do gênero que tenham ocorrido de forma totalmente imprevista. Contudo, cabe a questão: seria um acidente de trânsito? Parece mais lógico que não, uma vez que o causador não foi o condutor ou um terceiro, mas sim fenômenos naturais. Portanto, a expressão acidente de trânsito deve ser revista, por ser um eufemismo, mascarando a realidade de que uma ou mais pessoas tem culpa quando ocorre um evento danoso envolvendo veículos. Essa expressão induz, subjetiva e subliminarmente, à ideia de que essas ocorrências seriam fatalidades, que teriam ocorrido por um desatino do destino, um infortúnio alheio aos comportamentos humanos. Na prática, a realidade revela-se bem mais dura que esse abrandamento pretendido pela expressão, mas não pode ser ignorada: se veículos, ou veículos e pessoas, sofrem prejuízos no trânsito, alguém foi o causador do evento. Mas, então, como denominar esses eventos? Dos elementos diferenciadores da denominação proposta Considero que a denominação para esses eventos deveria ser específica para ocorrências danosas envolvendo veículos terrestres automotores, e que deveria trazer em seu bojo uma informação essencial: se houve ou não danos físicos aos envolvidos.

20 Do termo incidente de trânsito Para os eventos que implicassem somente em danos materiais, sem absolutamente nenhum tipo de prejuízo à integridade física de pessoas, proponho o termo incidente de trânsito. Observe-se que o termo incidente não traz em seu âmago os aspectos de fatalidade e casualidade que viciam a expressão acidente de trânsito. Também não importa a monta do prejuízo, basta que ninguém seja ferido para que a ocorrência danosa envolvendo veículos seja assim denominada Do termo sinistro de trânsito Para eventos que envolvessem danos físicos a uma ou mais pessoas, desde os mais tênues ou de difícil classificação como os danos psíquicos ou pequenas escoriações até eventos que resultassem em óbito, independente de haver ou não prejuízos materiais, proponho o termo sinistro de trânsito. Desta forma, haveria uma distinção de nomenclatura entre os tipos de eventos danosos no trânsito, definindo a integridade física das pessoas como o critério mais importante e como fator diferenciador Da utilização do termo sinistro de trânsito Nesta monografia será utilizado o termo sinistro de trânsito para denominar as ocorrências envolvendo veículos terrestres, ou sua carga, que causem danos à integridade física de uma ou mais pessoas. Pelo verbete sinistro, segundo o Dicionário Aurélio, entende-se: Adjetivo. 1. Esquerdo (1). 2. Que é de mau agouro; fúnebre, funesto: Eis a estrada poeirenta e sinistra da morte! (Marcelo Gama, Via-Sacra, p. 136.) 3.De má índole; mau. 4.Que infunde receio; ameaçador, temível. Substantivo masculino. 5.Desastre, ruína. 6.Grande prejuízo material; dano. 7.Ocorrência de prejuízo ou dano (incêndio, acidente, naufrágio, etc.) em algum bem sobre o qual se fez seguro. Desta forma, por significar algo prejudicial, mas sem insinuar fatalidade, imprevisibilidade ou ausência de culpa, o termo proposto faz-se mais adequado. Ademais, o termo sinistro já é utilizado pelas seguradoras brasileiras, de forma

21 21 genérica, para denominar uma ocorrência danosa sobre algum bem sobre o qual exista seguro. Também o é pelas seguradoras do Consórcio DPVAT para denominar os procedimentos administrativos passíveis de indenização pelo Seguro DPVAT, gerando assim um número de sinistro para o procedimento administrativo. 2.2 O QUE É O SEGURO DPVAT Seguro DPVAT é o seguro que indeniza pessoas que tenham sofrido um sinistro de trânsito. Também é chamado de Seguro Obrigatório. Sua nomenclatura completa Seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não está na denominação da Lei que o regula, Lei 6.194, de 19 de dezembro de 1974, conforme se pode observar no site oficial do governo brasileiro, na parte de legislação 4. O Seguro DPVAT foi criado com o intuito de amparar as vítimas e familiares dos envolvidos em sinistros de trânsito. Possui abrangência nacional, e não leva em consideração quem causou o sinistro de trânsito. Cobre exclusivamente danos pessoais físicos. Logo, não dá direito a indenização a nenhum tipo de dano material, tais como incêndios, colisões, furtos, roubos ou outros prejuízos materiais que envolvam veículos terrestres automotores (DENATRAN, 2007). Para ter direito a receber a indenização, faz-se necessário que os danos físicos tenham sido causados por um veículo que tenha motor próprio, e que circule pelas vias terrestres, ou seja, por terra ou por asfalto. Logo, não são indenizáveis pelo Seguro DPVAT pessoas vitimadas por barcos, aviões, bicicletas ou trens, inclusive os de transporte de pessoas, como o metrô (DENATRAN, 2007). Os usuários de trens de transporte que sofram prejuízos físicos quando da utilização destes não têm cobertura do Seguro DPVAT. Para os trens, há a previsão legal que estes devem ter um seguro de responsabilidade civil, cabendo assim uma forma de indenização a estas vítimas. Sinistros de trânsito causados pelas cargas dos veículos terrestres são cobertos pelo Seguro DPVAT. Incluindo-se os passageiros do veículo, pois num sinistro de trânsito um passageiro pode arremessado para fora, atingindo um 4 Endereço eletrônico: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6194.htm>.

22 22 terceiro, cabendo a ambos a indenização. Os reboques são considerados como carga, dando direito à indenização. A culpa de quem causou o sinistro de trânsito não é relevante para o Seguro DPVAT. Mesmo a vítima que tenha dado causa ao acidente tem direito a indenização. Para este seguro, o que importa é a existência de lesões físicas decorrentes de sinistro de trânsito, independente de quem o causou. Mesmo um suicida que se atire na frente de um caminhão, com o claro intuito de provocar a própria morte, gera direito à indenização. Não é obrigatória a identificação do veículo envolvido. Infelizmente, não são raras as situações em que o motorista evade-se do local sem que seja identificado. Nesses casos, a indenização é paga da mesma forma, ou seja, independe da identificação do veículo envolvido (DENATRAN, 2007). A contratação do seguro é obrigatória a todos os proprietários de veículos licenciados no Brasil. Apesar de existirem outros seguros obrigatórios no ordenamento jurídico brasileiro, previstos no art. 20 do Decreto-Lei 73/66, esta obrigatoriedade é uma exceção à regra dos seguros, pois de uma forma geral as pessoas tem a liberdade em contratar ou não algum serviço de seguro. No caso do Seguro DPVAT, tanto a contratação do serviço (com o respectivo pagamento do prêmio 5 ) quanto o pagamento são obrigatórios por lei, e quem não o faz fica impossibilitado de licenciar o veículo 6. A indenização do Seguro DPVAT é paga às vítimas por um consórcio de seguradoras, que, para efeitos desta monografia, serão denominadas de seguradoras consorciadas, seguradoras operadoras do sistema ou apenas de seguradoras. Dentre elas, destaca-se a Seguradora Líder dos Consórcios do Seguro DPVAT S/A, ou simplesmente Seguradora Líder. Trata-se de uma companhia de capital nacional, que representa administrativa e judicialmente as seguradoras consorciadas nas operações de Seguro DPVAT. Foi criada através da Portaria nº 2.797/07 da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), especificamente para tratar dos assuntos do Seguro DPVAT. Atualmente as seguradoras consorciadas são sessenta e nove, conforme informação disponível no 5 No jargão das atividades seguradoras, prêmio é o valor pago para contratar um seguro. 6 Licenciamento de veículos é o procedimento administrativo que regulariza a situação jurídica dos veículos registrados no território brasileiro. É feito pelos órgãos de trânsito dos Poderes Executivos Estaduais Brasileiros, mediante pagamento de taxa anual. Veículos que não estejam licenciados podem ser apreendidos e o proprietário fica sujeito a pagar multa, além de perder pontos na carteira de habilitação por infração gravíssima (ig POUPACLIC).

23 23 site oficial do Seguro DPVAT, mantido pela Seguradora Líder 7, e no Anexo 1 desta monografia (SEGURADORA LÍDER, 2012). O pagamento da indenização do Seguro DPVAT pode ser obtido de duas formas: Administrativamente, solicitado pelas próprias vítimas, beneficiários ou terceiros interessados, através do site oficial do Seguro DPVAT, no endereço eletrônico <http://www.dpvatseguro.com.br/> ou em escritório credenciados e mantidos para esse fim, pela própria Seguradora Líder, sem qualquer custo para o solicitante; ou Judicialmente, cobrado pela vítima, beneficiários ou terceiro interessado, através da Justiça Brasileira, sendo obrigatória a contratação de um advogado. Quando o pagamento administrativo é negado pelas seguradoras consorciadas, ou quando é feito com valores menores que os considerados cabíveis, cabem recursos administrativos. Mas há casos em que as seguradoras consorciadas mantêm a postura inicialmente adotada. Resta, portanto, a via judicial para pleitear o pagamento da indenização ou do valor controverso DPVAT Seguro sui generis O que torna o DPVAT um seguro sui generis é o fato de que todos os brasileiros são segurados, mas quem paga os valores de seguro são somente os proprietários de veículos terrestres automotores, operando como que uma estipulação em favor de terceiro 8 (SANTOS, 2006, p. 561). Mesmo as pessoas físicas que nunca foram proprietárias de um veículo (e que logicamente jamais pagaram o DPVAT) estão seguradas. Os segurados são, portanto, pessoas físicas indeterminadas, que somente são conhecidas após o sinistro de trânsito que gere o direito à indenização (CAVALIERI FILHO, 2003, p. 153). Isso difere totalmente da regra geral dos seguros, onde a premissa básica é que somente quem contrata o seguro, e obviamente paga o prêmio, está por este protegido, na qualidade de segurado. Outro seguro brasileiro em que o segurado não contratou o serviço, mas 7 Endereço eletrônico <http://www.seguradoralider.com.br/seguradoras_consorciadas.asp>. 8 Estipulação em favor de terceiro é um instituto de Direito Civil, caracterizado por ser um acordo de vontades pelo qual uma das partes se compromete a cumprir uma obrigação em favor de alguém que não participa do ato negocial (NADER, Paulo, 2005, p. 94).

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