Luís Melo Assim na Terra como no Céu 1

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1 Luís Melo Assim na Terra como no Céu 1

2 I just can't believe all the things people say Am I black or white? am I straight or gay? Do I believe in god? do I believe in me? Controversy, controversy I can't understand human curiosity Was it good for you? was I what you wanted me to be? Do you get high? does your daddy cry? Controversy, controversy Do I believe in god? do I believe in me? Some people wanna die so they can be free (I said) life is just a game, we're all just the same...do you wanna play? Controversy, controversy ( ) Prince Rogers Nelson Controversy Luís Melo Assim na Terra como no Céu 2

3 ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU A disputa escalara rapidamente durante o último ano, e era impossível prever as proporções que a coisa ainda poderia tomar. Para já, estava alcançado o patamar de escândalo do ano da indústria musical. A 2/3 da cerimónia de entrega dos Grammys, todas as câmaras se focaram em Fabius. Com uma expressão colérica, segurando os enormes óculos escuros que comprara num leilão do espólio de Miles Davis, limpava dos olhos o Champanhe que lhe escorria pela cara e lhe manchava o fato. A rajada de Moët & Chandon Brut Imperial fora disparada da flute do rapper Marteen-E com a sua mão direita (a esquerda segurava o prémio que acabara de receber), em resposta a um empurrão e um sussurro de Fabius enquanto subia a coxia. -Toma lá a Fanta de cereja, seu falhado! acrescentou Marteen-E ao disparo do líquido. Os dois ficaram quietos frente a frente durante sete ou oito segundos tensos, dando tempo às câmaras de girar à sua volta, e a um plano de Rihanna cobrindo a boca com as duas mãos, em choque. Em vão, o actor Gary Frost, namorado de Marteen-E tentava afastá-lo do epicentro da confusão que este tinha criado, mas Fabius irrompeu numa investida feroz derrubando os dois, e só foi detido depois da remessa de dois socos certeiros ao maxilar de Marteen. A multidão estremeceu. Foi precisa a força conjunta de Chris Brown e do velho Dr Dre para separar o trio. A emissão alternava freneticamente entre as inúmeras câmaras, em grandes planos próximos demais, num quase-strobe de ângulos dramáticos da situação. Milhões de ecrãs por todo o mundo lampejavam simultaneamente imagens do confronto. As veias dilatadas no pescoço de Fabius retido com esforço pelos seus colegas alternavam com a boca de Marteen, onde a câmara parecia procurar o seu característico canino de ouro por entre o sangue viscoso que cuspia. Isto tudo intercalado com os semblantes chocados das mais diversas caras célebres. Impossível de acalmar, Fabius foi finalmente arrastado para fora do salão pelos seguranças, e Marteen-E foi receber assistência médica, saindo por outra porta e... corta! Fabuloso, estão todos de parabéns! Archie, vamos buscar um café? No céu, a 4000 quilómetros dali, dois deuses vigilantes e cansados, Herbie Mitchell e Archie Bohannon suspiravam de alívio e davam um high-five sem total convicção. STU Luís Melo Assim na Terra como no Céu 3

4 Fabius é a última super-estrela com espinha que o mundo tem, e a indústria está a tentar esmagá-lo. Vai ser impossível encontrar um artista com o mesmo feeling nos próximos 100 anos. E isso é um problema cultural. O século XXI não tem capacidade de lidar com um astro como Fabius, quanto mais fabricar um artificial com um grama que seja da qualidade que ele tem. Estão a insuflá-lo tanto que ele está a começar a rachar, e era melhor que ele tentasse livrar-se disso o quanto antes, porque consigo ver nele todos os sinais de um burnout. Lauryn Hill, num VH1 Behind the Music sobre Fabius STU Fabius, a.k.a. Fab-u-lizz, a.k.a. DJ Phabb, e até aos 16 anos Brian Hamilton Jr, era uma lenda do pop, soul e hip-hop. Nascido ainda bem dentro do Século XX, tinha um talento cru que assustava. O vídeo que correu mundo da sua interpretação de The way you make me feel de Michael Jackson, com 15 anos e uma guitarra acústica, na pré-selecção para um espectáculo de talentos, fazia encarquilhar o ego de qualquer aspirante a American Idol. Tinha uma maneira de estar mais própria de um contemporâneo de um Stevie Wonder do que dum Lil Wayne, apesar de ter a mesma idade do segundo. Fabius era daquelas estrelas que irradiavam para fora da sua própria carreira, e para além de uma prolífica discografia pessoal dentro do soul, era o homem que todos os artistas de hip-hop procuravam para gravar refrões cantados, mesmo aos quarenta e poucos anos. Uma colaboração com ele, por mais pequena que fosse, era uma injecção de prestígio. E o que lhe dava um estatuto tão elevado, que sempre conseguiu manter mesmo entre várias gerações de rappers, eram uma voz de veludo e o seu carisma (ainda que este tenha muito que se lhe diga), e não afirmações de ter sido chulo duas décadas antes ou ter estado preso por homicídio qualificado. Mas para além de brilhante, se havia outra expressão que definia a pessoa e a carreira musical de Fabius seria difícil de gerir. Uma autêntica montanha-russa de homem, imprevisível e de curto pavio. Coisas que não o privaram da fama, mas que deram dores de cabeça a muita gente. Sentia a vida com cada célula do corpo, e essa intensidade toda trouxe-lhe tantos sarilhos quanto felicidade. As mulheres na sua vida contavam-se às centenas. E dessa amostra, lembrava-se dos nomes de uma percentagem impressionante. -...mas vou-te dizer uma coisa, Conan... juro que me apaixonei-me todas as vezes, por cada uma delas!... nem que fosse só por meia-hora! (risos) -Bem... não está mal! Mas olha que eu cheguei a apaixonar-me por dois minutos e meio... (mais risos) Conversa com Fabius no Nighty Night com Conan O'Brien Luís Melo Assim na Terra como no Céu 4

5 Contava cinco casamentos, dois deles paralelos, pois durante uma estadia prolongada no Rio de Janeiro decidiu casar ilegalmente com uma brasileira, sem ter posto um fim ao enlace desastroso que tinha então nos Estados Unidos. Lançava-se de aventura em aventura com uma ingenuidade quase infantil. À distância, era difícil levar-lhe a mal esta impulsividade romântica, mas muitas mulheres tendiam a reagir mal às rédeas soltas do seu coração e tentavam segurá-las à força. Escusado será dizer que tal era impossível e acabava sempre mal, e Fabius tinha cicatrizes que o demonstravam. Apesar de todas as queixas delas, que aliás eram geralmente verdade, o facto é que quando as coisas assumiam contornos violentos tratava-se de violência passional dirigida a ele. Talvez ele fosse demasiado adolescente de mentalidade para impor força física para com elas, ou talvez tivesse antes a completa noção de quão culpado era e não se surpreendesse que lhe quisessem quebrar ossos em troca dos corações partidos. Da relação mais duradoura que tivera, com Heidi Lee Phillips, uma agente de seguros das digressões de estrada, nascera o único filho que assumira Bobby Hamilton, do qual não conseguiu a custódia, num processo de divórcio atribulado. Heidi fez questão de ir o mais longe possível em afastar o filho do pai, tanto por meios legais como mudando de estado, e Fabius, de atenção curta e pouca vontade de lidar com Heidi, depressa arranjou outros sarilhos com que se preocupar, e acabou por não ver o filho durante quase uma década. Fabius vivia num mundo ingénuo, ultrapassado, em que as paixões ditavam os caprichos, os caprichos ditavam as canções, e as canções encontravam um mercado, numa espécie de lei do velho oeste totalmente inversa à lógica actual. E o mais incrível é que, ainda que sempre aos tropeções, tinhase safado. Ninguém se atreveria a questionar Fading out, Can't help but hussle ou Manic Lover como êxitos sensacionais, porém os falhanços eram também desastrosos, e ultimamente parecia ter perdido o rumo. Recusava que compusessem para ele. A casmurrice que demonstrava e a falta de boa vontade a trabalhar com consultores só agravavam o cepticismo dentro da Sky Records para com a sua carreira. Não era de admirar que Fabius tivesse desde cedo entrado em conflito com Marteen-E, que gravava para a mesma companhia. Com a mesma idade do seu filho (tinham até certas parecenças físicas), vendia nessa altura o dobro de Fabius e era o menino bonito dos produtores. Foi Fabius quem atirara a primeira acha para a fogueira. -As pessoas quando compram música destes putos já não é música que compram. Sinceramente, a designação de Soul Music devia mudar dentro de poucos anos, porque esta geração já não tem nada de espírito. Aliás, se estivéssemos a falar de bebidas espirituosas, este Martini podia muito bem ser preso por fraude, porque é mas é mais parecido com Fanta de cereja barata e a saber a pastilha elástica. Fabius, em declarações à revista Vibe Luís Melo Assim na Terra como no Céu 5

6 A piada ecoou pelos tablóides, que não hesitaram em espicaçar Marteen-E para que respondesse. Para além disso, a menção da bebida frutosa cor-de-rosa, naquele contexto e com entoação trocista, caiu mal no estômago de uma comunidade gay hipersensível e politicamente correcta, que insistiu em ver naquele ataque uma dimensão machista e preconceituosa. Marteen-E não ajudou a conter a confusão. Ele não devia falar como um perito em vinhos, se nem sabe distinguir gasosa de champanhe... mas olhe querida, esse troglodita também nunca poderia saber ao certo, porque deste copo nunca beberá! Marteen-E, numa entrevista à cadeia de entretenimento E! Fabius chegara a agredir fisicamente Herbie Mitchell, o seu principal consultor, quando este decidiu dar-lhe conselhos psiquiátricos não-requisitados após divergências sobre a direcção que uma gravação estava a tomar. Herbie tinha um PhD de Stanford em psicologia, e sugerira que ele era bipolar e estava fora de controle. Tinha razão. Um par de anos mais tarde Fabius viria a pedir-lhe desculpas publicamente pelo nariz partido, depois de uma namorada psiquiatra, preocupada e desenvergonhadamente sincera lhe ter traçado o perfil de um distúrbio bipolar tipo I. Herbie guardava uma profunda admiração por Fabius, era seu fã desde os primeiros sucessos e estava preparado para uma ou outra mazela que pudesse advir da sua relação profissional. Sabia que Fabius era de explosões mas não de guardar rancores, e a amizade dos dois funcionava numa base de total frontalidade. Já depois dos quarenta anos, o diagnóstico de distúrbio bipolar veio lançar alguma luz sobre muitos episódios passados, sobretudo os relacionados com a tendência de Fabius de se atirar aos narizes de quem se tentasse colocar entre si e a sua música ou as suas amantes. Resignado, começou a tratar-se, mas essa altura foi terrível para a sua carreira a todos os níveis. O trabalho mais maduro que passou a produzir, aliado às notícias de que se estava a tratar clinicamente causaram uma impressão péssima nos fãs. -Uma história de recuperação não comove ninguém se não envolver crack ou heroína, e um doido só é interessante se for suficientemente doido e de preferência a piorar. Só querem verte a queimar. Se um gajo se passa mesmo da cabeça e entra no escritório com um taco de golfe e parte tudo, acham um piadão. Agora se um tipo de 40 anos com um parafusozito a menos decide endireitar-se e gravar um álbum do fundo do coração para quem mais ama no mundo, ninguém quer saber. Cagam-lhe em cima. É uma indústria f****a. Fabius, em entrevista para o seu VH1: Behind the Music Luís Melo Assim na Terra como no Céu 6

7 Assim, em desespero, afirmando que os anti-psicóticos o deixavam como um zombie criativo, deixou a medicação várias vezes, o que só fazia com que tivesse novas crises sob todo o stress em que se encontrava, e que cancelasse digressões e acabasse por deitar fora o trabalho de diversas gravações. Tentava também nessa altura reaproximar-se desesperadamente do filho num acesso de culpa, pois chegou-lhe aos ouvidos que Bobby, com dezanove anos, desenvolvera uma séria dependência de heroína. Mas a reconciliação era um processo difícil por ser tão tardio. Fabius demorara tempo demais até se preocupar com o seu único herdeiro. Num primeiro contacto, vários anos antes, Bobby começara por rejeitar o pai, mas a relação com a mãe também não era fácil, e quando desistiu do liceu, depois de uma discussão mais violenta, decidiu fugir e ir tocar à porta de Fabius a pedir dinheiro. Houve um período de grande empatia, em que o pai não lhe poupou mimos materiais, coisas a que Bobby não estava habituado. Contudo, seguiu-se uma enorme turbulência, pois quando os maus hábitos de Bobby começaram a vir ao de cima, Fabius, impaciente e inexperiente como pai, assumiu um papel ainda mais opressivo do que Heidi, fazendo com que Bobby voltasse para junto da mãe com tiques ainda mais rebeldes, que culminaram num problema de abuso de substâncias. Entre as contas de psiquiatra, as tentativas falhadas de reabilitação de Bobby, e ataques maníacos de esbanjamento de dinheiro em motorizadas vintage personalizadas, a situação financeira de Fabius deteriorava-se, coisa que as fracas vendas recentes não ajudavam. Nem a sua morte algo súbita, de cancro do pâncreas, lhe veio dar alento à carreira. Optou-se por não divulgar publicamente a doença nem o funeral, pois era importante para Fabius manter a continuidade. Ele decidira fazer um testamento em nome da editora, para que o seu rendimento a partir daí fosse empregue na recuperação do filho. Passou o pouco tempo restante que a doença lhe deu em upload intensivo de dados e sessões de registo. Fora necessária uma tragédia para que ele finalmente colaborasse de forma harmoniosa com os produtores, embora já não estivesse propriamente a fazer música, mas sim a ser estudado e digitalizado. Nesses meses medicou-se à risca e empenhou-se a fundo, comovendo com o seu último esforço todos aqueles que tantas vezes tinham perdido a paciência com ele na editora. O corpo de Brian Hamilton Jr foi a enterrar numa terça-feira debaixo de chuva, perante umas dezenas de pessoas próximas, no cemitério de Riverside em Albany, Georgia, a terra onde nascera, enquanto que a alma do músico, Fabius, foi para o céu. Luís Melo Assim na Terra como no Céu 7

8 STU O céu era neste caso a secção de relações públicas da Sky Records, que ocupava a totalidade de quatro andares da torre da companhia, em Manhattan. Era aqui que vivia a figura de Fabius, estimada por toda a equipa, e talvez até num estado mais saudável que nunca. A sua alma subsistia como uma fórmula comercial, destilada de um arquivo imenso através da dedicação de mais de setenta pessoas. Não a tempo inteiro, claro, a equipa dividia-se pela gestão de cerca de duas dezenas de músicos falecidos, número que ia aumentando. Mas ele era dos mais valiosos e em quem despendiam mais recursos. O servidor continha intermináveis dados físicos sobre ele. Um modelo digital detalhado do seu corpo já perto da morte e outros feitos por artistas 3D da aparência que tivera em diversas idades, um emulador de alta-fidelidade da sua voz, uma ficha médica completa com todos os seus registos psiquiátricos, enfim, era uma base de dados que crescia a cada dia, à medida que se analisava, digitalizava e cruzava as referências de todo o seu arquivo. Para além disso, às terças e quintas o escritório recebia a visita de Wally, diminutivo carinhoso de Oluwale, que era o sósia nigeriano de Fabius, encontrado pelo mais brilhante agente de sósias do mundo e contratado para situações em que a simulação digital era impraticável. Nesses dois dias os sósias dos artistas da editora recebiam formação directamente com Herbie Mitchell e Archie Bohannon, e no resto da semana aprendiam inglês e tinham aulas de música e dança. Wally, com 42 anos era um pouco mais novo do que Fabius quando este morreu. Foi para essa idade que a alma do artista reverteu ainda cheio de vigor e sem ser uma mudança demasiado brusca para o público. Porém, não era a quantidade de recursos para emular Fabius que interessava, mas o que se fazia com eles. E quem comandava esse espectáculo eram Herbie e Archie. Desde a altura que a minha mãe morreu, há quinze anos, que sonho frequentemente com ela, como se ela nunca tivesse partido. Em nenhum destes sonhos há qualquer tipo de trauma, sofrimento, medo da separação ou tristeza. Ela está simplesmente lá, tão querida, bonita e às vezes chata como era antes, e sinto que é como um milagre poder continuar a vêla assim. Haverá alguma maneira melhor de uma mente lidar com a morte? E será que são só sonhos? Pessoalmente, acredito na existência da alma, e a certa altura pensei: 'porque é que o mundo da música não pode ser também assim? Porque não pode a vida dos nossos artistas preferidos estender-se indefinidamente nos sonhos pois o que são a música, a arte, o entretenimento, senão do reflexo dos nossos sonhos, a nossa alma? Para quê deixar os sonhos morrer? (...) Introdução de um texto de Herbie Mitchell para uma rubrica da revista Rolling Stone, intitulada de Crafting Starlight Luís Melo Assim na Terra como no Céu 8

9 Os dois executivos de marketing e relações públicas iam construindo a pouco e pouco um pequeno panteão. Já lá iam os tempos em que era tabu lidar com a memória de músicos mortos. E na verdade isso nunca tinha gerado grande alarido, pois eles tinham voltado à vida subtilmente. Tudo começara com experiências simples, nas redes sociais, com posts oficiais escritos em primeira pessoa por estrelas supostamente falecidas, que causaram alguma celeuma. Mas a situação ficou resolvida após os primeiros litígios, e assim que surgiram modelos para testamentos e contratos com as famílias. As almas que as discográficas conseguiram reclamar foram acolhidas pelo público com o mesmo entusiasmo que outras personagens virais do Twitter ou no Reddit, na enorme telenovela da vida pública. Só que estas lançavam álbuns, alguns surpreendentemente bons. Mais tarde, o artista independente Thom Yorke tentou reatar a controvérsia, a propósito das primeiras aparições holográficas destes fantasmas musicais em eventos reais, acusando a indústria discográfica de ter expandido as suas perversões à necrofilia, depois das passadas incursões pela escravatura e pela pedofilia. Porém, toda a campanha caiu por terra quando se descobriu que Bono Vox, que subscrevia activamente a sua posição, tinha falecido silenciosamente já fazia alguns anos, período no qual tinha dado vários concertos representado pelo seu sósia ou holograma. Para confundir tudo ainda mais, foi precisamente nessa altura que 2pac regressou de um purgatório que durava desde Segundo os rumores, desde o seu assassinato que vivia nas Maldivas, chegando a liderar mais recentemente uma insurreição budista. Decidira regressar aos Estados Unidos quando as ilhas já estavam quase inteiramente submersas com a subida dos oceanos, e assumir a identidade de Tupac Amaru Shakur Gotama, dando uma lição a Snoop Dolphin sobre como fazer uma reentrada, liderando os tops durante um tempo recorde. Era portanto demasiado confuso saber-se o que se passava na realidade, quem estava vivo ou morto, com tantas figuras públicas a ir, vir e fazer testamentos a empresas. A questão pura e simplesmente deixou de se colocar. Anunciar ou não a morte ao mundo era apenas uma decisão de estratégia de vendas. Havia muitos modelos de testamentos e contratos, com diversos graus de legado. Fabius tinha assinado o que ia mais longe naquilo que era entregue à Sky Records. Eles detinham direitos totais sobre a sua personalidade, em troca de uma percentagem maior de lucros destinados a Bobby. Esperava-se que a situação fosse vantajosa para ambas as partes pois, em princípio, quanto mais controle a discográfica tivesse, mais bem gerida seria a carreira. Porém, não só a carreira continuou estagnada, como Bobby se tornou um fardo para a companhia. Eu nunca pedi nada disto. E acho que se o meu pai soubesse na altura como as coisas iam ser nunca tinha... nunca tinha vendido a alma ao diabo! Aqueles vampiros de m***a acham que são donos de mim também. Se vocês soubessem as maneiras como eles me tentam humilhar de cada vez que têm que pagar o que me devem...(...) Bobby Hamilton, numa entrevista para a estação de rádio HOT 97, que quase lhe custou um processo judicial. Luís Melo Assim na Terra como no Céu 9

10 STU Desde a morte de Fabius que Bobby se comportava como uma criança mimada - era pobre e mal agradecido. Por um lado odiava a maneira como a memória do pai era explorada, e que a sua alma não pudesse descansar em paz. Por outro, exigia tudo e mais alguma coisa e ameaçava pôr processos à Sky Records pelos cheques que a companhia lhe recusava ao longo do ano. Na verdade, fazia parte do testamento do pai uma cláusula que estabelecia que o dinheiro não fosse entregue a Bobby indiscriminadamente. Era preciso que o rapaz desse provas de sobriedade, e durante algum tempo Herbie acompanhou o percurso dele num centro de reabilitação. No entanto, mesmo quando Bobby estava limpo, pôr-lhe cheques com tantos zeros nas mãos era a receita perfeita para uma recaída. Quando tentaram colocar Heidi no meio disto como adulto responsável, apesar de parecer a coisa mais lógica a fazer, só pioraram as coisas. Já maior de idade, Bobby reagiu mal a que passassem os cheques em nome da mãe e acusou-a de gastar o dinheiro a seu bel-prazer, azedando ainda mais a relação entre os dois. Legalmente, tinha razão, segundo o contrato deviam compensá-lo a ele directamente. Iniciou-se um ciclo vicioso de pagamentos relutantes e reabilitações falhadas. E começouse a evidenciar também um outro ciclo simultâneo, o de uma bipolaridade que Bobby herdara de Fabius, mas que ao contrário da do pai, era mais depressiva que maníaca. Herbie tinha mais que fazer do que acarretar com mais uma responsabilidade parental. Bastavalhe ter que cuidar da filha de 10 anos, para quem tinha muito menos tempo do que desejava. Para além disso, a sua psicologia caía completamente em saco roto com Bobby, que estava fora do alcance de qualquer diálogo racional. Era como falar para um robot. Falar com autómatos não era coisa a que não estivesse habituado enquanto produtor musical, só que Bobby sofria do automatismo mais difíciil de reprogramar o da toxicodependência. E Herbie, psicólogo de alta roda tinha muito pouca experiência no campo dos flagelos sociais. A frustração entre os dois começava a exibir traços de ódio. Exasperado, delegou a função à equipa de recursos humanos, mais precisamente a Rebecca Zellinger, uma jovem cheia de entusiasmo, contratada recentemente, que tinha algum trabalho social voluntário no currículo. A solução funcionou às mil maravilhas, porém Herbie não fazia ideia daquilo que estava a comprometer por um pouco de paz de espírito. Aceitou o apaziguamento e recuperação de Bobby sem mais questões, atribuindo-os a um triunfo profissional de Rebecca, esperando finalmente ter ganho controle sobre todas as variáveis do jogo. Não lhe passou pela cabeça que Rebecca e Bobby se fossem envolver numa intensa relação. Rebecca apanhara Bobby à beira do suicídio. De facto, o primeiro contacto que tiveram foi na esquadra, quando ela lá foi chamada para pagar a caução de Bobby, depois de um episódio em que este subiu a vedação da ponte de Washington e ameaçou lançar-se à água. Não fora difícil para a policia dissuadi-lo, a ameaça de suicídio era acima de tudo uma chamada de atenção desesperada e um desafio àqueles que deviam estar a tomar conta dele. Bobby desejava acima de tudo ver com que cara Herbie o esperaria à porta da esquadra. Deitado no beliche do calabouço, com os primeiros calafrios da ressaca, ensaiou em sussurro delirante a discussão que antevia quando Herbie o tentasse conduzir de volta à clínica. Não esperava que em vez dele aparecesse uma rapariga baixinha, bonita e pestanuda. Nem que ela lhe dedicasse, desde o primeiro relance dos seus olhos grandes e verdes, uma atenção e preocupação que já nem a própria mãe lhe conseguia demonstrar. Um jantar com Rebecca nesse mesmo dia pô-lo imediatamente na disposição de retomar a reabilitação e experimentar ir a umas sessões de psicoterapia. Luís Melo Assim na Terra como no Céu 10

11 A necessidade absoluta de uma ligação emocional, de um escape à vida auto-destrutiva que ele levava há anos sobrepôs-se naquele momento a qualquer desconfiança ligada ao facto de Rebecca estar às ordens directas de Herbie. Quanto a ela, idealista e ainda a ter o primeiro contacto com a realidade dura da indústria, enterneceu-se com a fragilidade de Bobby na sua posição ingrata de filho de uma lenda e assumiu com prazer o papel de amante e mãe substituta de que ele tanto precisava. Bobby estava longe de ser o incorrigível falhado ou a criança egoísta que Herbie lhe descrevera. Para ela, o seu temperamento inflamável e defensivo eram resultado de toda a confusão que o rodeara desde o divórcio dos pais, e do sentimento de culpa por ter passado a última parte da vida do pai alienado em drogas. Por debaixo do seu feitio difícil estava uma criança assustada, e por detrás da criança assustada estava um homem inteligente e carinhoso que raramente tinha condições para existir, e que Rebecca achava ser a única pessoa no mundo a conhecer. Talvez estivesse certa. Desde a primeira noite que passaram juntos que Rebecca se familiarizou com os terrores nocturnos de Bobby e os seus episódios de paralisia do sono, dos quais acordava rouco por berrar do fundo da garganta e encharcado em suor. Dizia que naqueles momentos antes de acordar, em que não se conseguia mexer, quase sempre sentia que o fantasma do pai entrava no quarto e se aproximava, e que enquanto ia chegando perto se deformava e transfigurava num estranho. Este estranho apático, que por alguma razão lhe provocava um pavor de morte, debruçava-se sobre a cama, punha-lhe as mãos geladas no pescoço e tentava estrangulá-lo. A intensidade e frequência destes sonhos foi diminuindo à medida que a influência positiva de Rebecca se aprofundava e que Bobby se libertava das garras da droga. Em cerca de 4 meses estava sóbrio e a viver autónomo no seu estúdio em Brooklyn, agora limpo e acolhedor. Tinha até mandado trazer o piano que herdara do pai e que estava guardado na garagem da mãe em Pittsburgh, com o qual começou a praticar e a experimentar compor. As boas notícias chegaram de forma discreta a Herbie. Rebecca relatou-as moderando a sua emoção, e omitiu como sempre em que medida estava realmente envolvida nas reviravoltas da vida de Bobby. Descansado e sem fazer mais perguntas, pois quanto menos soubesse menos dores de cabeça teria, Herbie pôde deixar as preocupações terrenas e voltar para o topo do seu Monte Olimpo privado, dedicando-se a tempo inteiro à sua obsessão a ficção psico-dramática com elenco de luxo. STU Lidar com a personalidade de Fabius tinha-se tornado mais fácil a partir da sua morte, mas não deixava de dar dores de cabeça à Sky Records. Ele já não fazia surpresas como desaparecer no dia de um concerto para atravessar cinco estados de motorizada com intenções de se reconciliar com uma mulher que o expulsara à mão armada. Ou barricar-se em casa depois de, durante a noite, roubar todos os originais e backups de três faixas suas acabadas de gravar, queimando-os dentro da piscina vazia. Mas a questão é que as pessoas continuavam a esperar que fizesse esse tipo de coisas, e era preciso preencher as expectativas. Conferir a imprevisibilidade da vida de Fabius à sua carreira pós-morte era um desafio diário, pois um álbum seu que não viesse acompanhado de um historial de atentados maníacos tinha bastante menos saída. Herbie adorava o desafio, principalmente agora que a integridade da sua cana do nariz já não estava comprometida, ao lidar com um defunto. Mas para o resto da equipa, inventar o Luís Melo Assim na Terra como no Céu 11

12 dia-a-dia de um bipolar excêntrico era um pesadelo. A última peripécia de Fabius tinha sido o ataque de fúria nos Grammys, que funcionara pela velha máxima de que toda a publicidade é bem-vinda, mesmo a negativa. Uma máxima exponenciada desde o advento da Internet como media de massas. Online, não havia diabo que não tivesse direito a um advogado ou legião deles, assim como a um exército de comentadores-linchadores, tão bons como quaisquer outros a fornecer hits de youtube. Porém, para Herbie era mais do que isso. Sem mais ninguém saber, ele pretendia usar o seu conhecimento em profundidade sobre Fabius para para explorar uma narrativa épica de frustração e inveja, e se possível trazê-la a um final redentor. A história que ele queria vender, interrompida tragicamente por um cancro, mas que podia ter seguimento graças ao milagre da ressurreição tecnológica, era a de um homem genial esmagado entre duas eras. Marteen-E personificava a nova era musical que Fabius tanto odiava. Essa personagem, da geração do seu filho e de parecenças subtis mas desconcertantes com ele, era não só a maior ameaça ao seu modo de viver a música, como um lembrete do seu falhanço enquanto pai. Por isso, o conflito entre os dois não podia ficar-se por ali. -Ainda estou à espera de um pedido de desculpas. Tive que adiar um jantar de caridade e um concerto por causa disto (apontando para a cicatriz no lábio). Marteen-E, de passagem para um jornalista, à porta da ante-estreia do remake de 007-Live and Let Die, starring Gary Frost, o seu namorado. STU Um pe-di-do de desculpas? (risos) Oiça, isso do queixo do miúdo é muito infeliz, mas ele devia era aprender a mostrar mais respeitinho. Tenho idade para ser pai dele, e digo-lhe já que se fosse, ele não andava por aí a atirar vinho à cara das pessoas. Fabius, numa reportagem do Huffington Post sobre os incidentes desde os Grammys. STU Ah, sim. Logo ele para me ensinar respeitinho. Como ensinou ao filho? Tem piada ele falar de me espancar e de ter idade para ser meu pai na mesma frase. Deve dizer alguma coisa sobre a vida familiar dele. Até parece que o Bobby é um bom exemplo... Marteen-E, numa entrevista a seguir a um concerto em Sindney, na digressão Shaken, not stirred Luís Melo Assim na Terra como no Céu 12

13 STU (...) ao menos eu tenho um herdeiro genético, que é mais do que a 'Martinica' alguma vez poderá dizer (risos)... Fabius, uns meses mais tarde, no programa de Oprah. Archie Bohannon estava pelos cabelos com toda esta situação. Por ele, tinha-se feito um funeral monumental para Fabius, um tributo num estádio ao estilo do de Freddie Mercury, com os bilhetes a preço de ouro, e deixava-e a coisa por aí. Depois disso, era lançar uma retrospectiva discográfica e um ou dois álbuns póstumos, quando muito. Certamente os lucros seriam bem maiores do que os que tinham amealhado até ali. Formado em marketing, Archie preferia imaginar um futuro em que todas as estrelas fossem como Marteen-E. Orgulhava-se de gerir um dos ícones mais bem polidos da indústria. Tal como Fabius, o nome de Marteen era sinónimo de excelência, mas competiam em frentes diferentes. Marteen era rapper, a sua música era dirigida a camadas mais jovens, e tinha uma imagem minuciosamente talhada segundo as últimas tendências da moda, quando não era ele a defini-las. Apesar da urbanidade agressiva da sua música e estilo, que Fabius tanto desprezava e achava completamente plásticos, era um cidadão exemplar. Sem vícios e altruísta, tinha desde os primeiros super-êxitos concedido parte da sua fortuna a diversos projectos de caridade e apoio à comunidade, falando-se até de uma fundação com o seu nome a surgir para breve. Sem filhos rebeldes nem distúrbios de personalidade a trazer gastos extra, Marteen rendia muito mais o investimento em termos líquidos, enquanto Fabius, que muitas vezes ameaçara dar prejuízo, acabava por ter para a companhia uma importância quase de património histórico. Marteen-E era uma personalidade 100% artificial, um Starbot, como era designado pejorativamente, criado a partir de um algoritmo de ponta de análise de mercados (uma máquina voraz alimentada a focus groups, análises SWOT e relatórios BLOOP). Com os pozinhos mágicos da psicologia de Herbie Mitchell e do conhecimento infinito em música pop de Archie Bohannon, o sucesso estava garantido. Não havia sequer uma pessoa específica em que o seu modelo tivesse sido originalmente inspirado; era desde o início uma criação digital optimizada para o público-alvo. Mesmo o seu sósia fora procurado a posteriori. Daí que a herança genética que Fabius o acusara de não ter era uma muito literal referência à não-existência física de Marteen e não uma piada de mau gosto com a sua homossexualidade. Por contrato, Fabius estava proibido de comentar o carácter etéreo das outras estrelas da editora, mas era impulsivo demais para conseguir conter o que o incomodava, e frequentemente saíamlhe tiradas dessas, que ao serem vagas, eram quase sempre mal interpretadas. Mais uma vez tinha sido politicamente incorrecto e choviam-lhe acusações de homofobia e brutalidade, mas isso pareceu só elevar o interesse do público, como de costume. Archie achava que toda aquela dinâmica era complicada demais, e que Herbie, com as suas manias de psicólogo, a permitir a Fabius estas insolências, estava a ir demasiado longe, encostando-o a ele e a Marteen-E à parede. O seu objectivo sempre fora simplificar o negócio e levar o espectáculo a novos píncaros, e isso era muito mais fácil quando não havia vidas reais como a de Bobby Hamilton pelo meio. Luís Melo Assim na Terra como no Céu 13

14 Desde sempre me esforcei por 'eliminar o intermediário'. Quando se põe uma pessoa real entre o público e os seus desejos, arriscamos acabar numa exploração de parte a parte, com prejuízo para todos. Quando se tenta escrever histórias na carne de outras pessoas, vai-se sempre derramar sangue, por mais que queiramos que sejam histórias felizes e de sucesso. Por isso sou pela ficção pura, em todos os meios de entretenimento, e só agora, como editoras, começamos a assumir que os bastidores do espectáculo são também eles próprios um meio de entretenimento. Sempre o foram. Assumi-lo é um passo na direcção certa (...) Archie Bohannon, num texto também para a rubrica Crafting Starlight, na Rolling Stone. Do ponto de vista de Archie, Bobby poderia vir a ser uma pedra na engrenagem da editora, mas não esperava ser ele próprio a atirá-la. De facto, as coisas com Bobby estavam prestes a descarrilar, num momento menos prudente de Rebecca. O que a traiu foi o seu excesso de confiança a gerir uma situação delicada, ocultando verdades grandes demais, tanto a Bobby como a Herbie e Archie. Com medo que o choque de interesses entre os dois lados pudesse explodir e custar-lhe o emprego ou a relação com Bobby, manteve o silêncio sobre o envolvimento com este, e escondeu dele as pressões e caprichos dos directores, o que no fim acabou por resultar mal. Ao saber das boas notícias, ou seja, que Bobby estivera sóbrio pelo período mais longo nos últimos 4 anos e se encontrava psicologicamente estável, Archie teve a ideia de celebrar a ocasião. Achou que seria interessante, agora que estava para sair um novo álbum de Fabius, uma reunião pósreabilitação entre pai e filho no programa de Oprah, para quebrar um pouco com a negatividade da imprensa e com a abordagem escandalosa de Herbie, mostrando o lado paternal do artista, há muito esquecido. Ou então, se se provasse impossível convencer Bobby a aparecer no programa, enveredar por um plano B, que consistia em fazê-lo assinar um contrato de cedência de imagem de modo a fazer-se representar por um actor ou holograma. Herbie não gostou da ideia, achou que uma reconciliação delico-doce não assentava nas personagens nem de Fabius nem de Bobby. Não era de todo o caminho que pretendia seguir, mas acabou por ceder, por não se lembrar de nenhuma manobra de publicidade mais audaz, naquele momento. Rebecca era a única com a verdadeira noção de como a proposta era descabida. Tinha a perfeita consciência de que Bobby, mesmo no seu melhor de saúde física e mental e com mais um cheque chorudo a bailar-lhe à frente do nariz nunca concordaria em fazer parte tão activa da exploração da imagem do pai naquilo que considerava um circo grotesco. No entanto, disse a Archie que ia tentar, quando na prática se limitou a realizar o plano B pela calada. Não foi difícil fazer Bobby assinar mais um papel para além dos que já assinava de cada vez que recebia um cheque. Rebecca falou-lhe de modo vago e casual numa cedência da sua imagem à imprensa, associada à promoção álbum que aí vinha, e que lhe traria bastante mais dinheiro esse ano. Pensava assim ganhar tempo, e mais tarde explicar-lhe do que se tratava realmente e prepará-lo para confrontar a sua imagem virtual. Bobby, confiando nela, sem ler as entrelinhas e imaginando que se tratava apenas de sessões fotográficas e entrevistas como as que tinha dado recentemente e às quais começava a estar mais aberto, achou que conseguiria aguentar mais alguns incómodos como esses por um bom preço. Com o rendimento extra poderia mudar-se com Rebecca para o apartamento em que andava de olho há uns meses. Luís Melo Assim na Terra como no Céu 14

15 Rebecca foi adiando a conversa com Bobby. O programa foi gravado, ia para o ar daí a duas semanas e ela começou a dormir mal. No fim, não quis arriscar que Bobby desse de caras por si mesmo com o programa na televisão e decidiu falar com ele, já em cima da hora. Falou no assunto tão levemente como conseguiu, como se não fosse nada de importante, no entanto não conseguiu esconder algum nervosismo enquanto lhe explicava onde e como iria aparecer a imagem dele. Bobby reagiu muito pior do que ela esperava à ideia de ser representado por um fantasma digital. Na verdade, ainda que tal fosse quase impossível, ele aceitaria mais facilmente a ideia de aparecer no programa em carne e osso e contracenar com Wally e com a sósia de Oprah do que deixar que a editora o clonasse. O pior de tudo foi que aquilo lhe caiu como um acto abominável de traição por parte de Rebecca. Bobby sentiu-se vendido ao diabo, e o seu mundo, que tinha erguido sobre a confiança que tinha em Rebecca, desmoronou-se ali naquele preciso momento. Depois de uma discussão demasiado emocional que só podia terminar pior do que começou, saiu de casa disparado e vagueou pelas ruas durante horas, deslocando-se a pé até à torre da Sky Records, que estava encerrada por ser domingo à noite. Esmurrou e pontapeou a porta de vidro blindado, tão grande e pesada que se magoou nas mãos e ninguém deu pelo barulho. Só conhecia uma maneira de travar aquele pesadelo, que se alastrava dentro dele. Quando deu por si, estava a despertar com o habitual grito, do estrangulamento fantasmagórico. Não recordou logo tudo o que tinha acontecido até ali. Ao recuperar o controle do corpo e virar-se para o lado, onde esperava encontrar Rebecca, deu de caras com as costas dum familiar sofá malcheiroso, com a espuma amarela a querer sair pelos grandes buracos no estofo. Ao perceber onde estava, uma onda de depressão rebentou contra o seu estômago. -Hey! Então, está tudo bem aí? - perguntou com pouca convicção alguém que tinha ouvido o berro, do outro lado da sala. Quanto tempo teria passado? Um dia? Dois? Três? Ao erguer-se, dorido, derrubou com o pé um pequeno banco enferrujado, fazendo rolar pelo chão uma seringa, uma colher queimada, um cachimbo de vidro e algum lixo de fast food. Conhecia aquele apartamento bem demais. Atravessou-o cambaleando em direcção à porta da rua, passando por trás do seu dealer Twinkie, que jogava numa consola antiga com mais três indivíduos que Bobby não conhecia. Riam às gargalhadas enquanto na TV gigante um tipo espancava com um taco de golfe o que parecia ser o corpo inerte duma prostituta estendido no passeio de uma paisagem urbana degradada. A faixa Miles in my Shoes de Fabius passava na banda sonora do jogo. Contorcendo-se em calafrios, Bobby desceu as escadas sujas do prédio de Twinkie, com a sensação de que desta vez o fantasma do seu sonho não se tinha dissipado ao despertar, e que vinha atrás de si. Andou cerca de meia-hora à deriva num passo acelerado até que numa esquina, rompendo no seu campo de visão o borrão de ruas escuras todas iguais, surgiu subitamente uma uma luz. Focou-se nela, aproximando-se com um mau pressentimento, vendo que vinha afinal de três objectos distintos, numa montra. Por detrás das grades de uma loja de penhores brilhavam três velhíssimos ecrãs de televisão sintonizados... na sua cara. Bobby viu-se em triplicado sobre um cenário de estúdio cor-de-rosa, com um sorriso de orelha a orelha. O público na plateia ria consigo, de uma qualquer piada que o pai, Fabius, sentado ao lado dele, acabara de contar. Oprah, depois de se balançar na poltrona a bater palmas e às gargalhadas, apanhava cuidadosamente com o dedo mindinho uma lágrima de riso ao canto do olho, para não borrar a maquilhagem. Luís Melo Assim na Terra como no Céu 15

16 Bobby nem pensou no que aquelas personagens poderiam estar a dizer. Ficou fixado nos grandes planos da sua cara e da do pai. Quanto mais olhava para aqueles rostos menos os reconhecia, especialmente o seu. Era um monstro, deformado numa perfeição irreal de pele lisa e dentadura branca demasiado alinhada, vestido e penteado a rigor, envergando peças de joalharia semelhantes àquelas que há muito penhorara. Posava relaxado, com braços e pernas nos ângulos certos para a composição na tela, sem tiques nervosos nem tremores, e ao contrário do Bobby espectador de pé ali na rua, tinha todo o aspecto de cheirar bem. Por momentos pareceu-lhe ver Marteen-E sobreposto na sua figura, se se imaginasse de cabelo rapado e barbeado. Percebeu então, numa revelação psicótica, que aquele tríptico de raios catódicos era uma porta aberta para o mundo dos seus fantasmas, e que eles estavam naquele momento a transpo-la em direcção a ele, na tal alternância entre familiaridade e estranheza que lhe gelava o sangue e o fazia despertar todos os dias em pânico. O chão faltou-lhe debaixo dos pés. Vomitou, e a partir daí não guardou mais memória do que aconteceu. -Somos os dois pessoas muito teimosas. Durante muito tempo teimámos em embirrar um com o outro, mas ainda bem que ele (Fabius) foi até ao fim com a teimosia de me ajudar. Devo-lhe a toda a minha gratidão, o meu amor, a minha recuperação, a minha vida... (sorrindo, de lágrimas nos olhos) Bobby Hamilton, no programa de Oprah STU Herbie e Archie estavam ocupados com a altercação entre Fabius e Marteen-E. Ao longo da recente troca de cortesias entre as estrelas foram-se polarizando cada um em torno do seu favorito. Os truques baixos com que se atacavam mutuamente estavam a provocar-lhes algum desgaste, mas não sabiam como parar a bola de neve. -Herb, isto está a tornar-se um bocado ridículo, não achas? A má imprensa toda anda a estragar o ambiente aqui... -A má imprensa é a única que existe, Arch, não sei se já reparaste... e as pessoas ainda gostam de maus rapazes... -Bem, então se calhar o Fabius podia-se dedicar ao street racing? Ou arranjar porrada em bares de motards hooligans como há dez anos atrás? Não sei, eu só acho é que isto está a descer de nível depressa demais. Quer dizer, o que é que vem a seguir à pancadaria nos Grammys? Assassínio nos MTV Awards? Para além disso, o hate mail anti-homofóbico anda a desmotivar o nosso pessoal, já vieram ter comigo a queixar-se... -Arch, a anti-homofobia é uma coisa bela. Somos todos anti-homofóbicos aqui, não somos? Porra, os meus melhores amigos são anti-homofóbicos! Mas não há mercado anti, se não houver fobia, e nós fornecemo-la sem magoar nenhum homo. -Meu Deus... -Não blasfemes Arch, tu és ateu. O quê, achas que o Marteen ficou ofendido? -Herbert, eu vou para Bermuda amanhã. Já estou farto de saber as novidades a meio das férias. Luís Melo Assim na Terra como no Céu 16

17 Vinha deixar-te uma ideia para digerires enquanto não estou cá e pedir-te para pensares bem nela, em vez de continuares a enrolar esta confusão. -Diz lá... Archie hesitou por um momento, e disse: -Muito resumido: eles faziam tréguas e mandávamos os dois numa digressão. -Tréguas? Uma digressão juntos?! Ouve lá, já sabes que cenas cor-de-rosa nunca dão resultado. Fizémos o Oprah como tu querias, ninguém ligou. Veio 30 anos depois do prazo! Quanto mais isso de...- Archie interrompeu-o: -Pois é, mas mesmo assim conseguiste usar o programa para atirar mais merda para cima do Marteen! -De nada, Arch! Não precisas de me agradecer a pouca atenção que aquilo ainda teve... e mesmo assim, falhou. Archie calou de novo Herbie, atirando com ruído uma pasta de plástico para a secretária, que continha um relatório de quarenta páginas, ainda quente da impressora. -Lê isso. Está aí tudo explicado, continhas todas feitas. Vai funcionar. Andas demasiado obcecado com a tua telenovela e esqueces-te que a música e as tours também fazem parte do negócio. Ok, não me meto mais nas tuas histórias, mas de música percebo eu. E tem lá paciência, mas disso temos feito muito pouco! - Disse com autoridade perante a cara de indigestão de Herbie - Ah, e uma faixa de colaboração entre os dois também não calhava mal acrescentou. Ficaram calados por um momento. Archie continuou: -Está aí até uma ideia para um videoclip. Digere isso tudo muito bem esta semana e depois dizme se não era um alívio. Dito isto, meteu as mãos nos bolsos e virou as costas para sair. Herbie estava a avaliar a situação, com os pensamentos a correr a uma velocidade vertiginosa. Voltou à terra com o barulho do trinco, quando Archie chegou à porta. -Então, onde é que vais? -De férias. -Não, não, espera aí! Se queres levar isso para a frente, vais ter que me ajudar a arranjar uma boa ideia para eles fazerem as pazes. Isto precisa de uma catarse. -Vais-me obrigar a ficar aqui até tarde? -Não vou esperar uma semana, Arch, e duas cabeças pensam melhor do que uma... isto precisa mesmo de um twist, e vais ter que me ouvir. -Pff... OK. disse Archie puxando de uma cadeira - mas obrigado por me incluíres. -Sabes, ando preocupado com o puto... a Rebecca veio-me dar más notícias... -Qual puto? STU O público assiste ao incidente pela primeira vez, através de uma gravação que se tornou viral e chegou às notícias, um vídeo mudo do sistema de vigilância, alegadamente surgido de uma fuga de informação. Só mais tarde aparecerão versões oficiais do que aconteceu, vídeos tirados com telemóvel, e uma faixa de som a acompanhar. É quinta-feira de manhã e Bobby Hamilton, envergando os óculos escuros do pai (os tais que Luís Melo Assim na Terra como no Céu 17

18 pertenceram a Miles Davis) e uma gabardina, irrompe pelo edifício da Sky Records com uma passada estranha. Pede para falar com Herbie e mandam-no subir. A cena é sempre vista da altura do tecto, da óptica das câmaras de segurança. O vídeo muda de ângulo cada vez que Bobby dobra uma esquina. Ao sair do elevador, retira da gabardina um taco de golfe. O seu andar robótico devia-se a ter segurado a larga cabeça do taco madeira-3 debaixo do braço. Ninguém o interpela até chegar ao centro do escritório, onde se cruza com Rebecca. Ela tenta abraçá-lo, num gesto nervoso e com um ar perturbado. Bobby empurra-a contra uma secretária. Ela insiste, aproximando-se de novo, mas depressa se imobiliza quando ele dá a tacada no primeiro monitor. Viram-se todas as cabeças das pessoas visíveis, e algumas escondem-se logo a seguir. Bobby vai destruindo todos os computadores no caminho até à porta do gabinete de Herbie. Ninguém tenta impedi-lo. Rebecca segue-o à distância. Archie e Herbie, que conversam lá dentro com Marteen-E, não se apercebem logo da confusão, do outro lado da porta insonorizada. Bobby abre a porta, o ângulo volta a mudar. Dentro do escritório Archie levanta-se. Dirige-se a Bobby e leva uma tacada no joelho, de lado, caindo ao chão agarrado à perna. Herbie desliza na cadeira com rodas, mãos esticadas num gesto a pedir calma. O taco faz um arco diagonal no ar, que fica desenhado numa forma perfeita mas borrada, quando o vídeo pausa para que se veja bem. Na edição das notícias, a acção rebobina uns segundos e repete, desta vez com zoom. Herbie desliza na cadeira, levanta os braços, Bobby ergue o taco e atinge-o em arco no ombro com toda a força. Herbie cai para trás inconsciente. Marteen-E encontra-se imóvel, de pé, encostado à janela. Entre Bobby e ele há uma secretária de madeira maçiça. Bobby fica parado por um momento, enquanto Archie se arrasta pelo chão em agonia, gesticulando para ele. Bobby guarda os óculos escuros, deixa cair o taco de golfe, mete a mão ao bolso interior e retira um revólver, que aponta a Marteen. Archie continua a gesticular no chão e Bobby vai alternando a direcção da arma entre ele e Marteen, mexendo os lábios. Três seguranças chegam à ombreira da porta e Bobby dá um tiro de ameaça na janela. Marteen e Archie escondem a cabeça entre os braços e assim ficam. Ninguém se mexe. Bobby aproxima-se de Marteen e leva a arma perto da sua cabeça. Num zoom extremo, consegue-se ver que o rosto de Marteen, grotesco naquele grau de ampliação, se contorce involuntariamente em choro. O plano muda para um ângulo igualmente próximo de Bobby, cujo branco dos olhos é de um amarelo quase laranja, com uma expressão tresloucada de dor. É como que uma versão monstruosa de Marteen, as suas leves parecenças físicas dando um toque bizarro à cena. Os seguranças mexem-se para alguém entrar na sala. Bobby estremece e aponta a arma de novo em direcção à porta, disparando e atingindo a parede centímetros ao lado da ombreira, ficando congelado quando reconhece a figura que entra. Essa pessoa não se trata de mais um segurança, mas sim do seu pai. Fabius aproxima-se lentamente e Bobby começa a chorar, empunhando a arma de maneira ainda mais ameaçadora, mesmo virada à sua cara. Fabius consegue aproximar-se mais um pouco. Vai falando, e ao fim de uns segundos dá mais um passo. As notícias interrompem para um anúncio de desodorizante. De volta ao gabinete, vemos a acção repetir desde o plano de Marteen chorando, desta vez com zooms a outros detalhes da cena, tais como Herbie, que despertara, a tentar erguer-se, por detrás da cadeira. Finalmente a cena chega onde tinha ficado. Há duas câmaras no gabinete, em ângulos opostos, e a edição alterna entre elas. Amplia na arma, alterna, amplia na cara de Fabius, alterna, amplia na cara de Bobby. E de repente, plano afastado, Bobby põe o cano da arma na boca. Fabius corre para ele e agarralhe o braço. Os dois debatem-se, a arma dispara para o tecto fazendo toda a gente estremecer. Bobby, Luís Melo Assim na Terra como no Céu 18

19 fraco e doente, desiste do esforço e finalmente cai de joelhos, agarrado a Fabius. Os seguranças precipitam-se para eles, mas Fabius faz um gesto para que se afastem e atira-lhes apenas a arma, para que a apanhem. Fabius e Bobby ficam abraçados no soalho de madeira, encostados à secretária. Bobby soluça com a cabeça enterrada no peito do pai. Os outros, que observavam a cena paralisados, finalmente dãose ao luxo de se mexer de onde estão. Marteen-E contorna-os, pausa por um momento observando o par, e sai da sala. A câmara afasta-se lentamente e faz fade out. Luís Melo Assim na Terra como no Céu 19

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