AÍ, ASSIM E ENTÃO: UMA DESCRIÇÃO SINTÁTICO-SEMÂNTICA. Advérbios. Sintaxe. Semântica. Gramaticalização.

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1 AÍ, ASSIM E ENTÃO: UMA DESCRIÇÃO SINTÁTICO-SEMÂNTICA Renata Moreira MARQUES 1 Gessilene Silveira KANTHACK 2 RESUMO: PALAVRAS- -CHAVE: O objetivo principal deste trabalho é apresentar uma descrição do comportamento sintático e semântico dos itens aí, assim e então no gênero entrevista. O interesse por essa descrição surgiu por se observar que a maioria das gramáticas tradicionais, habitualmente, classifica esses itens apenas como advérbios, pressupondo um comportamento sintático-semântico bastante restrito. Baseando-nos em pressupostos da Gramática Funcional, bem como em pesquisas já realizadas sobre os itens em questão, investigamos, a partir de um corpus constituído de entrevistas disponibilizadas no banco de dados do Projeto Norma Linguística Urbana Culta (UFRJ), as funções assumidas por aí, assim e então no intuito de confirmar que esses itens estão em processo de gramaticalização. Os resultados mostram que a função de advérbio é a mais recorrente, mas esses itens assumem também as funções de conector e de marcador discursivo, evidenciando, portanto, mudanças a caminho. Advérbios. Sintaxe. Semântica. Gramaticalização. Introdução Nas gramáticas tradicionais (CEGALLA, 1968; CUNHA 1972; CUNHA & CINTRA 2008) os itens aí, assim e então são, comumente, classificados como advérbios, não havendo, normalmente, previsão de que tais palavras possam desempenhar outras funções sintático- -semânticas. Essa possibilidade, no entanto, é fato comprovado, por exemplo, por pesquisas como as de Tavares & Duarte (1997), Lopes (2007), Santos (2007) e Pereira (2009). Nessas pesquisas, assume-se que a língua desempenha funções exteriores ao sistema linguístico e são elas que influenciam a organização do mesmo; que a língua não constitui 1 Mestranda em Linguística pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) / Ilhéus-BA. 2 Professora Doutora Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) / Ilhéus-BA. Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

2 Aí, assim e então: uma descrição sintático-semântica um conhecimento autônomo, independente do comportamento social, ao contrário, reflete uma adaptação, pelo falante, às diferentes situações comunicativas (CUNHA, 2008, p. 158). Ao categorizar palavras como aí, assim e então como advérbios, a descrição tradicional assume o pressuposto de que essas palavras desempenham, na língua, uma função única. Todavia, a gramática de qualquer língua ostenta mecanismos que permitem às palavras assumir e desenvolver novas funções gramaticais, tendo em vista as necessidades comunicativas dos falantes. Isso põe em evidência o fato de que uma língua não é estática; ao contrário, é um organismo maleável, que está em constante renovação/transformação. Quer dizer, então, que novas formas linguísticas surgem, assim como novas funções, coexistindo com as antigas ou substituindo-as, caracterizando, assim, o processo dinâmico pelo qual passa uma língua. Adotando essa perspectiva, o trabalho investigou o comportamento sintático e semântico dos itens aí, assim e então com o intuito de verificar como os falantes se utilizam desses elementos, particularmente, no gênero entrevista. A Linguística Funcional Moderna: algumas considerações A Linguística Funcional Moderna, conforme Hopper (1998 apud CONFESSOR, 2008), concebe a gramática como um conjunto de regularidades convencionadas via repetição. Por isso, a gramática de uma língua nunca está completa; está sempre mudando em busca de sua constituição, mas nunca chegando a se constituir de fato. Desse modo, a gramática de uma língua é sempre modificada, pois formas/ palavras já existentes assumem novas funções frente aos usos que os falantes fazem delas. Como o próprio nome sugere, a corrente funcionalista concebe que as funcionalidades das expressões linguísticas se dão a partir dos diversos usos da língua. O que importa, então, é o uso das expressões linguísticas na interação verbal. Quanto a isso, cabe acrescentarmos que [...] um dos objetivos principais da abordagem funcionalista é verificar o modo como determinada língua é usada por seus falantes para os fins de comunicação, ou seja, as funções por ela exercidas a fim de atingir os seus próprios propósitos e intenções no momento da enunciação. (FRAGOSO, 2003, p. 01). Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

3 Renata Moreira Marques Gessilene Silveira Kanthack Para essa corrente, a língua deve ser vista pelo seu caráter dinâmico e a gramática como um influenciador do discurso, e vice-versa. Assim, os estudos linguísticos que se apoiam nesse pressuposto não devem analisar somente os aspectos linguísticos, mas também fatores sociais e interpessoais. Um dos principais autores que contribuiu para a expansão do funcionalismo moderno, segundo Pezatti (2009), foi Simon Dik. Para a autora, a teoria desenvolvida por ele, e consequentemente por seus seguidores, parte do pressuposto de que a língua constitui, em última instância, um instrumento de interação social e que a descrição das expressões linguísticas numa gramática deve considerar as circunstâncias efetivas de interação verbal e suas propriedades, que são codeterminadas pela informação contextual e situacional disponível aos interlocutores [...] A interação verbal é vista como uma forma de atividade cooperativa, estruturada em torno de regras sociais, normas e convenções [...] Dik entende que as regras propriamente linguísticas devem ser consideradas instrumentais a respeito dos objetivos comunicativos da interação verbal. (PEZATTI, 2009, p. 7-8). Assim, ao descrevermos uma língua, o que interessa é analisá-la não como um fim em si mesmo, mas em termos funcionais-pragmáticos. Isso implica dizer que o falante exerce um papel fundamental sobre a língua, pois é ele quem a usa, quem a transforma, enfim, quem a modifica. No que se refere às mudanças, destacamos, nos estudos funcionalistas, o fenômeno denominado de gramaticalização, como veremos a seguir. Gramaticalização Para explicar as mudanças linguísticas, os funcionalistas recorrem ao processo denominado de gramaticalização, termo introduzido por Meillet (apud HOPPER & TRAUGOTT, 2003) para designar o que ele caracterizava como a atribuição de um caráter gramatical a uma palavra originalmente lexical. Trata-se de um princípio inerente às línguas, o qual permite que um item lexical assuma status de item gramatical ou que itens gramaticais tornem-se ainda mais gramaticais. Essa transformação não ocorre rapidamente, podendo haver, durante o processo, estágios de ambiguidade em que uma palavra, por exemplo, faça parte de duas categorias simultaneamente. 40 Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

4 Aí, assim e então: uma descrição sintático-semântica Assim, gramaticalização é o trajeto empreendido por um item lexical ao longo do qual ele muda de categoria sintática e adquire novas propriedades funcionais na sentença, podendo sofrer alterações morfológicas, fonológicas e semânticas. (CASTILHO, 1997). De acordo com Heine (apud BARBOSA, 2006), a gramaticalização de uma expressão linguística envolve quatro processos inter-relacionados: dessemantização (bleaching, redução semântica) perda de conteúdo semântico; extensão (ou generalização de contextos) uso em novos contextos; descategorização perda de propriedades características das formas fonte, incluindo perda de status de forma independente (cliticização, afixação); e erosão (ou redução fonética) perda de substância fonética. O processo de gramaticalização implica mudança semântica. Para tentar explicar tal fenômeno, Willet (apud FRAGOSO, 2003) defende três hipóteses: a extensão metafórica (o significado mais concreto de uma expressão é usado para descrever uma expressão mais abstrata), a inclusão (os significados gramaticais são parte da estrutura semântica interna presente na origem lexical) e a implicatura (o meio para criarmos significados secundários, que passam gradualmente a significados primários, é a convencionalização das implicaturas). A gramaticalização é, portanto, um fenômeno relacionado à necessidade de a gramática de uma língua se refazer constantemente, dada a sua natureza maleável, obrigando- -a a se adaptar aos anseios comunicativos e cognitivos dos falantes (CUNHA, 2008). Advérbios na língua portuguesa em processo de gramaticalização A propósito de alguns advérbios da língua portuguesa, pesquisas têm revelado que seus usos podem ser interpretados como resultantes de um processo de gramaticalização. Tavares & Duarte, no ano de 1997, por exemplo, constataram isso numa pesquisa realizada com dados de fala de Florianópolis e Chapecó. Eles analisaram os itens aí, assim e então e constataram que essas formas apresentam superposição de funções, podendo ocorrer ora como advérbio, ora como marcador discursivo, sendo esta última não prevista nas gramáticas tradicionais. Lopes, no estudo de 2007, focalizou sua pesquisa nos processos de subjetivação e intersubjetivação que acompanham ou resultam da mudança via gramaticalização experimentada pelo item assim. Verificou-se que, após uma fase considerada mais textual, assim, a partir do movimento de anáfora, desenvolve a função textual-interativa de conjunção Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

5 Renata Moreira Marques Gessilene Silveira Kanthack coordenativa conclusiva, e, a partir do movimento de catáfora, desenvolve a função também textual-interativa de marcador discursivo. Santos, também em 2007, investigou, em dois textos medievais em prosa do século 15, o comportamento sintático-semântico do item então, a fim de detectar se já havia indícios da trajetória de gramaticalização do advérbio então como conjunção conclusiva. Constatou que apenas 1,8% das ocorrências apresentaram um pequeno indício de mudança funcional, e que seria precipitado afirmar que a gramaticalização de entom em conjunção teria iniciado no século 15. Pereira, dois anos depois, em 2009, estudou as estruturas dícticas construídas com aqui, aí e ali, destacando que, além da função de advérbio de lugar, outros valores semânticos estão associados a eles, como o da modalidade, podendo indicar o cumprimento de um ato ilocutório, não se apagando, contudo, inteiramente a noção de localização espacial. Em suma, essas pesquisas comprovam que, de fato, palavras comumente classificadas como advérbios assumem outras funções que não são previstas nas descrições tradicionais, apontando, assim, indícios de mudanças funcionais no comportamento desses itens. Material e Métodos (ou Procedimentos Metodológicos) A pesquisa, em sua etapa inicial, foi essencialmente bibliográfica, pois tivemos o objetivo de caracterizar a corrente funcionalista, bem como o fenômeno denominado de gramaticalização. Em sua segunda etapa, a pesquisa seguiu um curso prático, com a investigação e análise do corpus, constituído de 08 entrevistas (sendo metade dos entrevistados do sexo masculino e a outra, do feminino) disponibilizadas no banco de dados do Projeto Norma Linguística Urbana Culta (NURC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vale ressaltarmos que o motivo da escolha metodológica de analisar os itens em ambos os sexos é perceber se há alguma diferença entre os usos linguísticos nas falas dos homens e das mulheres. Para empreendermos a análise, primeiramente localizamos todas as ocorrências dos itens em estudo. Depois, identificamos as suas respectivas funções, categorizadas conforme o fator social sexo. Por fim, os dados foram quantificados e disponibilizados em tabelas, o 42 Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

6 Aí, assim e então: uma descrição sintático-semântica que permitiu a análise descritiva dos resultados. Aí, assim e então no gênero entrevista : descrição e análise dos dados Algumas considerações iniciais Em nossa pesquisa, aí, assim e então foram analisados a partir de três categorias, quais sejam: advérbio, operador discursivo e marcador discursivo, contemplando, assim, o estudo morfossintático e semântico de tal item. Para tanto, explicaremos brevemente cada uma dessas funções. Na maioria das gramáticas tradicionais, os itens são classificados como advérbio de lugar (aí), de modo (assim) ou de tempo (aí e então). Nesse caso, eles podem caracterizar algum espaço físico da ação (1a), a maneira como a ação é realizada ou identificar momentos (1b) ou intervalos de tempo calculados em função do momento da enunciação (1c): (1) a. Ele está aí sentado. b. Maria falava com uma voz assim. c. Então (naquela altura) tinha tido muito sucesso. Como operador discursivo, o item pode estabelecer uma relação de causa e consequência entre as orações, assumindo o papel de conjunção, conforme podemos notar no exemplo 2, com o item aí:... cerca de uns vinte dias atrás... houve problema de água lá em casa... a água estava muito... com muito cloro... aí... eu passei mal... eu... minha sogra... meu filho (Projeto VARPORT apud SANTOS, 2007). Nesse caso, o aí poderia ser substituído facilmente pela conjunção logo, pois o fato de a água estar com muito cloro (causa) ocasionou o mal estar do indivíduo (consequência). Como marcador discursivo, o item conecta as orações que se encaixam em uma lógica de decorrência, adquirindo um significado mais abstrato, passando a indicar uma sucessão discursiva. Nesse tipo de situação, ele pode ser retirado sem prejuízo de sentido, como ocorre com o aí, no exemplo: a professora me deu uma partitura de uma música... aí... é:: eu demorei o que... uns... umas cinco... cinco aula... ou seja... um mês... e uma aula... são quatro... são quatro aulas por mês... uma na semana... aí deixe eu ver... eu demorei cinco Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

7 Renata Moreira Marques Gessilene Silveira Kanthack aulas... pra poder aprender a partitura todinha (Corpus D&G Natal, apud CONFESSOR, 2008). Como se pode perceber, o aí não apresenta uma função definida, funcionando, basicamente, como uma espécie de tapa buraco, preenchendo as lacunas da fala do indivíduo. Assim, podemos definir o processo de gramaticalização do aí, assim e então da seguinte forma: advérbio > operador discursivo > marcador discursivo. No seu estágio mais gramaticalizado, eles adquirem o status de marcador discursivo. Finalmente, os resultados Com as entrevistas selecionadas e com os dados coletados, passamos à análise dos mesmos considerando as funções sintático-semânticas exercidas pelos itens: advérbio, operador e marcador discursivo. Identificadas as funções, realizamos uma análise quantitativa cujos resultados serão apresentados a seguir. O primeiro deles corresponde ao cômputo geral das ocorrências dos itens, no intuito de observar qual deles era mais recorrente no corpus: Aí Assim Então Oc. % Oc. % Oc. % 41 14, , ,4 Tabela 1: Cômputo geral das ocorrências dos itens. Fonte: As autoras. Como podemos notar, o item então foi o mais recorrente (48,4%). Em seguida, o assim com 36,8% e, por fim, o item aí (14,80%). Ao analisar as funções apresentadas por cada item separadamente, observamos o aí desempenhando o papel de advérbio, de operador discursivo e de marcador discursivo, como ilustram os exemplos a seguir, respectivamente: (2) a. esse corredor tem sofá... tem vitrola... tem uma televisão... normalmente a televisão ficava aí... sabe... que é o lugar da bagunça mesmo.... (advérbio). 44 Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

8 Aí, assim e então: uma descrição sintático-semântica b. juntou tudo numa nota fiscal... aí eu falei... não... não há condições de pagar.... (operador discursivo). c. infelizmente há... aí... uns dez anos atrás ou quinze... aí... foram juncados de políticos... aí... e a coisa andou degenerando...aí.... (marcador discursivo). Na tabela 2, temos os resultados correspondentes a essas funções: Aí ADV OP MARC Oc. % Oc. % Oc. % 15 36, , ,3 Tabela 2: Aí e suas funções. Fonte: As autoras. Percebemos que o item aí apresenta as três funções de maneira quase que equilibrada. No entanto, sua função prototípica, a de advérbio, ainda permanece em maior número, 36,6% dos casos. Mesmo assim, somando os dois outros resultados, temos 63,4%, indiciando que o aí está sendo usado como um elemento que aponta mais em direção ao discurso, confirmando a hipótese de que ele se encontra em processo de gramaticalização. Vejamos, agora, o comportamento do item assim, e os resultados correspondentes na tabela 3: (3) a. pra começar que ela é: digamos uma cidade retangular se a gente pode chamar assim... sem acidentes geográficos.... (advérbio). b. Havia oportunidade, assim, pra, pra jogar voleibol, pra jogar futebol.... (operador discursivo). c.... eu não sei se tinha assim uma faxineira que ia [...] uma vez por semana eu não sei direito ou se era uma copeira sabe.... (marcador discursivo). Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

9 Renata Moreira Marques Gessilene Silveira Kanthack Assim ADV OP MARC Oc. % Oc. % Oc. % 74 72,5 10 9, ,7 Tabela 3: Assim e suas funções. Fonte: As autoras. O item assim apresentou, preferencialmente, a função de advérbio, 72,5%. Diferentemente do item aí, o assim ocorreu menos em funções discursivas. No entanto, vale observar que ele foi usado mais como marcador (17,7%) do que como operador (9,8%), revelando, novamente, comportamento diferenciado do aí. Passamos a analisar, agora, o comportamento do item então. Vejamos os exemplos e os resultados na tabela 4: (4) a. Mas é porque eu também não usava cabelo grande, compreende, mas ultimamente eu tenho deixado meu cabelo crescer, então eu, eu resolvi dar um tratamento melhor.... (operador discursivo). b.... agora o que a gente chama de guilhotina é quando ela corre na... na vertical... sabe... então é... como era no tempo da Colônia... né... então fica aquela vidraça geralmente bem quadriculada -- o vidrinho no meio... né... e a janela então né... o que você pode abrir... né.... (marcador discursivo). Então ADV OP MARC Oc. % Oc. % Oc. % , ,9 Tabela 4: Então e suas funções. Fonte: As autoras. O então apresentou o comportamento mais diferenciado. A começar pelo fato de não ter apresentado nenhum caso com a função de advérbio, que é sua função prototípica. Os outros itens, por sua vez, tiveram essa função representada em sua maioria. Assim, podemos 46 Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

10 Aí, assim e então: uma descrição sintático-semântica dizer que o então apresentou o estágio mais avançado de gramaticalização. Como observamos na tabela, como operador discursivo verificamos 76,1% de ocorrências e como marcador discursivo, 23,7%. Por último, analisamos os usos desses itens considerando o sexo (masculino e feminino) dos entrevistados, no intuito de perceber se há divergências na escolha dos usos linguísticos: Sexo Masculino Aí Assim Então ADV OP MARC ADV OP MARC ADV OP MARC % % % % % % % % % 36,4 33,3 30,3 61,1 22,2 16, Tabela 5: Aí, assim e então em função do sexo masculino. Fonte: As autoras. Sexo Feminino Aí Assim Então ADV OP MARC ADV OP MARC ADV OP MARC % % % % % % % % % 37,5 37, ,8 3,0 18, ,8 17,2 Tabela 6: Aí, assim e então em função do sexo feminino. Fonte: As autoras. Os números mais significativos dessas tabelas indicam que o aí ocorre como marcador discursivo mais na fala do homem (30,3%) do que na da mulher (25%); com o assim, o resultado é invertido: mais como marcador na fala da mulher (18,2%) do que na fala do homem (16,7%). O então, por sua vez, também foi mais recorrente como marcador na fala do homem: 30%, em oposição aos 17,2% correspondentes ao da mulher. Percebemos também que o assim como operador discursivo apresentou uma variação grande de uso, pois foi utilizado quase 08 vezes mais nos entrevistados homens (22,2%) do que nas mulheres (3,0%). Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

11 Renata Moreira Marques Gessilene Silveira Kanthack Da análise empreendida, podemos afirmar, portanto, que os itens aí, assim e então não podem ser ensinados apenas como elementos que desempenham funções de advérbios, mas que são constituintes que estão passando por processos de mudanças, visto que eles têm assumido outras funções na língua portuguesa. Considerações Finais Os resultados da pesquisa nos permitem afirmar que os itens aí, assim e então são usados com funções sintático-semânticas variáveis, indiciando, portanto, que eles estão em processo de gramaticalização. Também demonstram que há diferenças dos usos linguísticos conforme o sexo do falante. Essa constatação, entendemos, sugere que, futuramente, esses itens poderão desempenhar funções mais discursivas, visando a atender à necessidade comunicativa e pragmática dos indivíduos. Esperamos, portanto, que esse tipo de pesquisa contribua com os estudos de descrição do português brasileiro, como também para o ensino de sintaxe e semântica, particularmente. Entendemos que promover novas discussões sobre os usos que os falantes fazem das formas linguísticas significa renovar pressupostos clássicos, inovar o ensino tradicional; enfim, significa compreender a natureza viva de uma língua. ABSTRACT: KEYWORDS: The main objective of this paper is to present a description of the syntactic and semantic behavior of the items aí (there), assim (so) and então (then), in Portuguese language, in the interview genre. Interest in this description arose when we observed that most traditional grammar books, usually, classify such items only as adverbs, assuming they have a very restricted syntactic-semantic behavior. Building on assumptions of Functional grammar, from a corpus of interviews available in the database of the NURC, we investigate these items aí (there), assim (so) and então (then), in order to confirm if they are in the process of grammaticalization. The results confirm that, besides adverb, their most recurrent function, these items also can assume the functions of connector and discourse marker, suggesting, therefore, possible future changes. Adverbs. Syntax. Semantics. Grammaticalization. 48 Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

12 Aí, assim e então: uma descrição sintático-semântica Referências BARBOSA, M. G. Gramaticalização de advérbios a partir de adjetivos: um estudo sobre os adjetivos adverbalizados. Rio de Janeiro: UFRJ, CASTILHO, A. A gramaticalização. In: Revista de estudos linguísticos e literários. Salvador: UFBA, p CEGALLA, D. P. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, CONFESSOR, F. W. Por um paradigma emergente no domínio funcional da especificação nominal. Natal: UFRN, CUNHA, C. Língua Portuguesa e Realidade Brasileira. 3. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, CUNHA, C.; CINTRA, L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, CUNHA, A. F. da. Funcionalismo. In: MARTELOTTA, M. E. (Org.). Manual de linguistica. São Paulo: Contexto, p FRAGOSO, L. C. A gramática funcional e o processo de gramaticalização. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades, Rio de Janeiro, v. II, HOPPER, P. J; TRAUGOTT, E. C. Grammaticalization. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, LOPES, L. R. A mudança de assim : um caso de gramaticalização, modalização e (inter)subjetivização. São Paulo: UNESP, PEREIRA, M. C. Breve abordagem semântica e pragmática de aqui, aí e ali. Portugal: Universidade do Porto, PEZATTI, E. G. Pesquisas em Gramática Funcional. São Paulo: Unesp, SANTOS, E. C. M. Proposições relacionais emergentes da combinação de cláusulas: e, aí e então como conectores de causa e consequência. In: III Enletrarte Encontro Nacional de Professores de Letras e Artes. Rio de Janeiro, p TAVARES, M. A.; DUARTE, S. L. Um estudo dos advérbios como marcadores discursivos na fala de Florianópolis e Chapecó. In: Anais do I Encontro do CELSUL, v. 2,. p , Florianópolis: Editora da UFSC, Nome Revista de Letras, Goiânia, v. 2, n. 2, p , jan.-jun

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