UCB UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO INPG INSTITUTO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO ALQUIMY ART

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1 0 UCB UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO INPG INSTITUTO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO ALQUIMY ART Curso de Especialização em Arteterapia Pós-Graduação lato sensu DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA: O RESGATE DA CURIOSIDADE COMO UM ELEMENTO FACILITADOR NUM PROJETO DE ARTETERAPIA Nadia Maria Gonçalves Krüger Joinville - SC 2007

2 1 NÁDIA MARIA GONÇALVES KRÜGER DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA: O RESGATE DA CURIOSIDADE COMO UM ELEMENTO FACILITADOR NUM PROJETO DE ARTETERAPIA Monografia apresentada à UCB Universidade Castelo Branco, Convênio / INPG Instituto Nacional de Pós- Graduação e Parceria / Alquimy Art, SP, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Especialista em Arteterapia. Orientadora: Profa. Dra. Cristina Dias Allessandrini Joinville, SC 2007

3 2 KRÜGER, Nádia Maria Gonçalves Depressão na adolescência: o resgate da curiosidade como um elemento facilitador num projeto de Arteterapia / Nádia Maria Gonçalves Krüger Joinville; [s.n.], p. 66 Monografia (Especialização em Arteterapia) UCB Universidade Castelo Branco, Convênio / INPG Instituto Nacional de Pós-Graduação e Parceria / Alquimy Art, SP. 1. Arteterapia 2. Adolescência 3. Depressão

4 3 UCB UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO INPG INSTITUTO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO ALQUIMY ART DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA: O RESGATE DA CURIOSIDADE COMO UM ELEMENTO FACILITADOR NUM PROJETO DE ARTETERAPIA Monografia apresentada pela aluna Nádia Maria Gonçalves Krüger ao curso de Especialização em Arteterapia em 16/ 06/ 2007 e recebendo a avaliação da Banca Examinadora constituída pelos professores: Profa. Dra. Cristina Dias Allessandrini, Orientadora Profa. Dra. Cristina Dias Allessandrini, Coordenadora da Especialização Profa. Daniele Bittencourt de Souza, Convidada

5 4 Ao meu filho, Yasoo. Aos meus pais, Osny e Leni, pelo incentivo carinhoso de sempre.

6 5 Só um sentido de invenção e uma necessidade intensa de criar levam o homem a revoltar-se, a descobrir e a descobrir-se com lucidez. Picasso, Pablo

7 6 AGRADECIMENTOS Agradeço à Profª. Cristina Dias Allessandrini pelo entusiasmo e acolhida carinhosa e pelas orientações cuidadosas.

8 7 RESUMO Neste trabalho apresenta-se a contribuição da Arteterapia e o resgate da curiosidade como elementos importantes no tratamento da depressão na adolescência. É feita uma explanação a respeito dessa fase evolutiva, tomando-se por base o pensamento psicanalítico. Conceitos de saúde e doença são discutidos à luz do pensamento Winnicottiano, do enfoque da Gestalt-terapia e da leitura fenomenológica. Conceitos de criatividade e curiosidade são analisados e correlacionados com a Arteterapia Gestáltica e embasados em estudos e teorias de Zinker (1979), Miller (2000), Ciornai (2004), Ostrower (1986) e Assmann (2004). Analisam-se os aspectos ligados aos processos de mudança no âmbito psicológico cujos autores citados significativamente serão Ribeiro (1994) e Goswami (1998). A teoria do método dialógico de Buber (2006) embasa a metodologia do trabalho, fornecendo um referencial para o manejo da relação terapêutica e suas vicissitudes. Objetiva-se apresentar uma possibilidade de trabalho em ateliê terapêutico com adolescentes, oferecendo-lhes um espaço de expressão e compartilhamento diferenciado, por meio do fazer artístico, tendo-se o resgate da curiosidade como um elemento importante para a melhora do paciente em quadros depressivos na adolescência. Oferece a oportunidade de se conhecer e entender mais detalhadamente o fenômeno da depressão na adolescência, sob o ponto de vista da perda do interesse pela vida. Traz uma possibilidade de o adolescente reconectar-se positivamente com um aspecto tão presente nessa fase evolutiva: a curiosidade, ou seja, o apetite para o mundo. Palavras-chave: 1. Arteterapia. 2. Adolescência. 3. Depressão.

9 8 ABSTRACT In this paper the contribution of art therapy and the rescue of curiosity are presented as important elements in the treatment of depression in adolescence. Explanations based in the psychoanalytic approach are given, regarding this phase of human development. Concepts of health and illness are discussed taking into account Winnicott s theory, the Gestalt Therapy approach and the Phenomenology. Concepts of creativity and curiosity are analysed and correlated with the Gestalt Art therapy and based on studies and theories of Zinker (1979), Miller (2000), Ciornai (2004), Ostrower (1986) and Assmann (2004). Aspects linked to changing processes in the psychological scope are analysed based on Ribeiro (1994) and Goswami (1998) as main authors. Work methodology was drawn from Buber s dialogic method (2006), providing reference when handling the therapeutic relation and its ups and downs. The main aim of this paper is also to present a possibility of work in a therapeutic studio with adolescents, offering them a space of expression and differentiated sharing, by means of artistic making, having the rescue of the curiosity as an important element for the improvement of the patient in depressive cases in adolescence. It offers the chance of getting to know and understand better the phenomenon of depression in adolescence focusing on the loss of interest in life. It brings a possibility to the adolescent to reconnect himself/herself positively with such a present aspect in this phase of development: the curiosity, that is, the 'appetite for the world.' Key words: 1. Art therapy. 2. Adolescence. 3. Depression.

10 9 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 F.F. - Escultura à esquerda representando expressão de desânimo FIGURA 2 F.F. Poemas haicai, referindo-se ao sentimento de solidão FIGURA 3 F.F. Colagem, avaliação do processo de Arteterapia FIGURA 4 F.F. Holografia, desânimo FIGURA 5 F.F. Pintura a dedo, sentimento de expansão FIGURA 6 F.F. Textura com massa acrílica, sentindo-se alegre FIGURA 7 F.F. - Holografia, triste e encolhida FIGURA 8 F.F. Colagem avaliação do processo de Arteterapia FIGURA 9 F.F. Textura com massa acrílica, barco sozinho FIGURA 10 F.F. Pintura com os pés, sentimento de liberdade... 58

11 10 SUMÁRIO RESUMO...07 ABSTRACT APRESENTAÇÃO INTRODUÇÃO DESENVOLVIMENTO HUMANO E ADOLESCÊNCIA DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA SAÚDE E DOENÇA CRIATIVIDADE E CURIOSIDADE PROCESSOS DE MUDANÇA ARTETERAPIA GESTÁLTICA ATELIÊ TERAPÊUTICO DESCRIÇÃO DA PESQUISA RELATO DE CASO F.F Análise do processo RELATO DE CASO S.T Análise do processo RESULTADOS CONSIDERAÇÕES FINAIS...62 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...64

12 APRESENTAÇÃO A arte esteve presente em minha vida desde muito cedo. Meu primeiro contato com a arte foi por meio da música erudita quando criança, que parece ter permitido a abertura de várias janelas até então desconhecidas para mim. Intrigava-me circular naquele ambiente da escola de artes, tão rico em estímulos, às vezes belos, outras vezes tão curiosos: esculturas, pinturas, sons de vários instrumentos, atraindo a minha atenção enquanto aguardava ansiosamente a oportunidade de sentar-me ao piano (que na época era um gigante para mim) e experimentar as possibilidades que aquele teclado me proporcionava. Guardo muitas lembranças dessa época que se estendeu ao longo de minha adolescência e trouxe sem dúvida, o gosto pela arte em geral e o desenvolvimento da sensibilidade que hoje reconheço como sendo a marca dos trabalhos que desenvolvo. Sempre me reconheci como uma pessoa inquieta e disposta a construir os meus caminhos. O interesse em trabalhar com pessoas esteve presente em minha vida, talvez por me sentir tão recheada de sentimentos às vezes contraditórios e incompreensíveis, e querer encontrar algum eco puramente humano naquilo que iria desenvolver. Ao concluir a graduação vivi um momento de crise. Sentia algum interesse pela Psicologia Social de Pichon Rivière por apresentar uma visão mais contemporânea da Psicanálise, agregada a uma crítica social que me impulsionava para o trabalho institucional, ou seja, para desenvolver algo, onde quer que fosse ligado às transformações sociais. Esse foi o início de um caminho um tanto árduo, pois eu ainda sentia uma inquietação, uma espécie de vazio no que se referia a um

13 12 trabalho mais profundo em Psicoterapia. Buscava uma abordagem que me oferecesse condições de trabalhar de forma consistente com as pessoas e seus processos de desenvolvimento. Embora constituísse uma forte influência, eu ainda tinha algumas reservas para com a teoria psicanalítica por sentir o foco do trabalho na interpretação do terapeuta, mais do que na relação terapêutica. Identifiquei-me com a abordagem Gestáltica justamente por sua centragem na relação terapêutica, ou seja, naquilo que ocorre de fato entre terapeuta e cliente e acima de tudo na crença do potencial transformador dessa relação. Foi então que iniciei verdadeiramente o meu treinamento do papel de terapeuta, sentindo que nessa abordagem teria permissão para utilizar a criatividade e a sensibilidade afinadas com um embasamento filosófico-teóricometodológico coerente com o que eu buscava. A Gestalt-terapia sendo uma abordagem existencial-fenomenológica considera o homem como um todo, com uma forma particular de estar no mundo, um ser-em-relação, sujeito de sua existência, agente de suas transformações, e como tal, interessada no resgate de suas potencialidades, daquilo que lhe é mais genuíno. Abriu-se então uma nova caminhada em minha vida e uma profunda transformação, pois à medida que ia tomando contato com essa abordagem, reconhecia mais e mais uma condição de trabalhar com pessoas de forma criativa, apostando nas trilhas que elas pudessem me oferecer a cada momento. Ferguson (1980 p. 84) fundamenta esse processo de transformação afirmando que num estágio preliminar há um abalo no velho entendimento do mundo, as antigas prioridades. Assim, pude dar uma revirada em minhas convicções e experienciar uma nova forma de atuar que me possibilitou uma entrega deliberada, ou seja, uma crença num caminho que trazia e o movimento que eu buscava.

14 13 Após alguns anos, tive a oportunidade de conhecer a Arteterapia dentro da abordagem Gestáltica pelo contato com Selma Ciornai no V Encontro Nacional de Gestalt-terapia realizado em Florianópolis SC (1997). Recordo-me de ter ficado impactada com a possibilidade do uso dos recursos da arte em Psicoterapia, aliada a uma leitura fenomenológica. Tratava-se de uma ponte, um caminho para a descoberta por meio da expressão artística. Foi então que comecei a buscar subsídios e me familiarizar com essa linguagem, que a meu ver encontrava-se em uma espécie de stand by dentro de mim. Assim sendo, a expressividade teve um espaço mais assegurado em meu percurso como terapeuta. Mas ainda era pouco. Faltava-me uma formação, um aprofundamento que me oferecesse condições de desenvolver algum trabalho com esse enfoque. Mais tarde, participei do Curso Intensivo para Gestaltterapêutas (1998) coordenado por Selma Ciornai e Regina Santos, que veio a constituir-se numa experiência com intensidade e profundidade extremas no meu processo pessoal. Naquele momento pude vivenciar a qualidade transformadora da Arteterapia e reconhecê-la como um potente meio de conscientização e apropriação de aspectos tão freqüentemente alienados de mim mesma. Continuei minha caminhada garimpando publicações em Arteterapia aqui e ali e mantendo contato com a equipe, principalmente com Selma, a quem devo a picada inicial. Embora soubesse que ainda havia um caminho pela frente, creio que se iniciou ali uma nova etapa de minha atuação profissional. Logo depois, desenvolvi trabalhos nos quais fazia uso de recursos artísticos no Serviço Público com pacientes portadores de doenças mentais, trabalho que desenvolvo até hoje, com muito carinho e dedicação. A elaboração da pesquisa que descrevo neste texto é fruto dessa caminhada.

15 INTRODUÇÃO Neste trabalho discute-se relativamente à contribuição da curiosidade como um elemento importante no tratamento da depressão em psicoterapia com adolescentes. É feita uma explanação a respeito dessa fase evolutiva, tomando-se por base o pensamento psicanalítico. Os conceitos de saúde e doença são apresentados à luz do pensamento de Winnicott (1993), do enfoque da Gestalt-terapia embasada por Ciornai (2004) e da leitura fenomenológica proposta por Augras (1986). Conceitos de criatividade e curiosidade são analisados e correlacionados com a Arteterapia Gestáltica e embasados em estudos e teorias de Zinker (1979), Miller (2000), Ciornai (2004), Ostrower (1986) e Assmann (2004). Analisam-se os aspectos ligados aos processos de mudança no âmbito psicológico cujos autores citados significativamente serão Ribeiro (1994) e Goswami (1998). A teoria do método dialógico de Buber (2006) embasa a metodologia de trabalho, fornecendo um referencial para o manejo da relação terapêutica e suas vicissitudes. Este trabalho pretende contribuir para uma melhor compreensão da problemática da depressão na adolescência. Objetiva também apresentar uma possibilidade de trabalho em ateliê terapêutico com adolescentes, oferecendo-lhes um espaço de compartilhamento diferenciado.

16 15 Pretende discutir o resgate da curiosidade como um elemento importante para a melhora do paciente, em quadros depressivos na adolescência correlacionando-o ao conceito de criatividade. O resgate da curiosidade como um elemento facilitador em grupos de Arteterapia com adolescentes constitui-se num tema relevante para a pesquisa, pois oferece a oportunidade de se conhecer e entender mais detalhadamente o fenômeno da depressão na adolescência, sob o ponto de vista da perda do interesse pela vida. Traz uma possibilidade de o adolescente reconectar-se positivamente com um aspecto tão presente nessa fase evolutiva: a curiosidade, ou seja, o apetite para o mundo. (PERLS, 2002; MILLER, 2000; ASSMANN, 2004). Esse tema justifica-se também pelo que se tem observado no contexto atual, no sentido de o jovem encontrar-se cada vez mais distanciado de si mesmo, já que estamos na era do imediatismo e da competitividade. Tais fatores forçam o jovem a confluir sobremaneira com um ambiente no qual vai tendo poucas oportunidades de expressar genuinamente a si mesmo e a construir naturalmente os seus caminhos.

17 DESENVOLVIMENTO HUMANO E ADOLESCÊNCIA A adolescência como fase de desenvolvimento, em nossa sociedade, precisa ser encarada dentro de um ponto de vista mais amplo, considerando-se o enfoque social, ou seja, enquanto fase evolutiva. Trata-se de um período de muitas incertezas, frente ao mundo e às exigências de uma sociedade que estabelece limites demarcatórios importantes, os quais parecem colocar o adolescente à prova de uma série de aspectos. A conclusão dos estudos e a entrada num curso de graduação, ou ainda a obtenção do primeiro emprego, para alguns, podem ser exemplos que demarcam e expressam as tentativas dos jovens para a entrada na vida adulta e nem sempre são compreendidos pelo meio que os cerca. Nesse sentido, Winnicott (1993, p. 116) comenta [...] o fato de que cada adolescente está na verdade vivendo um processo ao cabo do qual se tornará um adulto consciente e integrado na sociedade é deixado de fora da questão. Coloca também, o papel fundamental que o ambiente desempenha para desenvolver o senso de integração, reconhecendo as necessidades que irão surgir. Quando chega a adolescência, meninos e meninas emergem de modo irregular e desajeitado da infância e da dependência, em direção ao estado de adultos. Crescer não depende apenas de tendências herdadas; também é uma questão de entrelaçamento complexo com o ambiente facilitador. Se a família ainda puder ser utilizada, será utilizada em larga medida. Se a família não estiver mais à disposição, nem que seja para ser posta de lado (uso negativo), então é necessário prover pequenas unidades sociais para conter o processo de crescimento do adolescente. (WINNICOTT, 1989, p. 123).

18 17 E comenta que, por ser um período marcado por turbulências, um sentido de descontinuidade está presente. Os adolescentes encontram-se num momento de transitoriedade, de revisão de alguns elementos adquiridos nas experiências da infância, e necessitam dar um novo significado a esses elementos, integrando-os a novos padrões vividos num presente tão fugaz. Estou afirmando [...] que o adolescente é imaturo. A imaturidade é um elemento essencial da saúde durante a adolescência. Só existe uma cura para a imaturidade a passagem do tempo e o crescimento para a maturidade que o tempo pode trazer. No fim, essas duas coisas resultam na emergência de uma pessoa adulta. Não se pode apressar nem retardar esse processo, ainda que ele possa ser interrompido ou destruído, ou degenerar em doença psiquiátrica. (Winnicott, 1989, p. 125). O conjunto de características presentes nessa fase também é descrito pelo psicanalista argentino Knobel in Aberastury & Knobel (1981, p. 24), denominado Síndrome da Adolescência Normal. O autor refere-se às perdas como um processo que envolve alguns lutos que vão sendo elaborados paulatinamente aos acontecimentos relativos a esse período. E afirma que o adolescente: Realiza um verdadeiro processo de luto pelo qual, no início, nega a perda de suas condições infantis e tem dificuldades em aceitar as realidades mais adultas que se lhe vão impondo, entre as quais, logicamente se encontram fundamentalmente as modificações biológicas e morfológicas do seu próprio corpo. (KNOBEL, 1981, p. 34). Descreve o luto pelo corpo infantil referindo-se à vivência concreta das mudanças decorrentes da puberdade, e à impotência frente a essas modificações. Afirma que o adolescente reage a essa realidade lidando onipotentemente com os fatos de sua vida, transparecendo uma atitude de aparente invulnerabilidade, como se nada o atingisse, refugiando-se freqüentemente no mundo das idéias. No adolescente normal, este manejo das idéias serve também para substituir a perda de seu corpo infantil e a não aquisição da personalidade adulta, por símbolos intelectualizados de onipotência, reformas sociais e políticas, religiosidade, onde ele não está diretamente comprometido como pessoa física (já que neste estado se sente totalmente impotente e incômodo), mas como entidade pensante (KNOBEL, 1981, p. 81).

19 18 Já o luto pela identidade e pelo papel infantil perdidos envolve outro conflito. Ao mesmo tempo em que o jovem não pode mais manter as posturas infantis diante dos fatos, ele ainda não tem condições, em termos de maturidade para assumir uma postura mais adulta ao que lhe é apresentado. Isso transparece na atitude de aparente irresponsabilidade tão freqüentemente descrita. Costuma então, dirigir aos pais e ao grupo social, obrigações que seriam de sua responsabilidade, apresentando-se por vezes indiferente à realidade que o rodeia. O adolescente vive também um sentimento de contradição entre os pais internalizados na infância de forma bastante idealizada e os pais reais, que agora começam a ser percebidos de modo mais crítico. Em função disso, parece haver uma incongruência de sentimentos, pendendo ora para a independência reativa, ora para a dependência infantil. De qualquer modo, o adolescente faz um processo de afastamento dos pais, refugiando-se em seu mundo, seu quarto, buscando em outras figuras (amigos, professores, ídolos de rock, etc.) elementos que lhe tragam um ponto de apoio. Este é, segundo o autor, o luto pela perda dos pais internalizados. A noção de tempo também sofre alterações nessa etapa evolutiva. O ritmo acelerado das mudanças corpóreas traz ao adolescente uma sensação de caos que desemboca numa crise de temporalidade e como conseqüência ele espacializa o tempo para poder manejá-lo e vai, aos poucos construindo a noção de tempo, discriminando entre passado, presente e futuro, tendo agora novas referências para essa compreensão. (ABERASTURY,1986). O desenvolvimento da afetividade e da sexualidade na adolescência é marcado pela aprendizagem, e constitui-se também numa forma de exploração na

20 19 qual é possível o jovem desenvolver-se em termos dos vínculos afetivos partindo em busca de um parceiro, de maneira tímida e intensa, e é freqüentemente, repleta de idealizações. O amor apaixonado é também um fenômeno que adquire características singulares na adolescência e que apresenta todo o aspecto dos vínculos intensos, porém frágeis, da relação interpessoal adolescente. O primeiro episódio de amor ocorre na adolescência e costuma ser de grande intensidade. (ABERASTURY & KNOBEL, 1981, p. 45). Nesse sentido, os autores descrevem evolutivamente a fase que vai do autoerotismo ao estabelecimento da heterossexualidade, marcada pelas atividades lúdicas entre os jovens (tocar, beijar, dançar), que não necessariamente envolvem o contato sexual em si. Por outro lado, Erikson descreve o desenvolvimento humano de acordo com uma sucessão de crises. O autor utiliza a palavra crise com o sentido de desenvolvimento, referindo-se a passos decisivos a serem dados na direção do amadurecimento. Refere-se à adolescência como crise de identidade, na qual o jovem vai construindo um modo de vida entre a infância e a vida adulta [...] estabelecendo uma subcultura adolescente (ERIKSON, 1987, p. 128). Para que o jovem possa ir além dos conflitos imputados nessa fase e desenvolver um sentido de identidade, faz-se necessária também uma moratória social, ou seja, um tempo de espera cuidadosa por parte do meio que o cerca. (ERIKSON,1987). Várias são as ansiedades características dessa etapa, principalmente no que diz respeito à busca das representações do próprio corpo. As modificações decorrentes da puberdade, marcadas pelo aparecimento dos caracteres sexuais secundários, tornam-se um imperativo nesse momento e exigem do adolescente novos modos de se apresentar ao mundo.

21 20 A adolescência, em si é um período no qual o jovem vai naturalmente em busca de signos, ou seja, objetos, estilos, formulações, que lhe permitam expressar de maneira concreta, as transformações vividas internamente. Trata-se de um momento difícil para ele, mas também para os pais, que se deparam com o reviver de seus próprios conflitos dessa fase. É, pois, um momento de renúncia, no qual, como foi descrito anteriormente o adolescente abandona não só o corpo infantil, mas a identidade infantil. Muitas vezes, surgem dificuldades dos pais para compreenderem as particularidades dessa fase. A esse respeito, Aberastury (1986, p. 17) afirma: São as dificuldades do adulto para aceitar a maturação intelectual e sexual da criança o que leva a qualificar a adolescência de idade difícil, esquecendo de apontar que é difícil para ambos, filhos e pais. É demasiado chamativo, ainda, que só se tenham assinalado até agora os aspectos ingratos do crescimento, deixando de lado a felicidade e a criatividade plenas que caracterizam também o adolescente. Nossos adolescentes têm se deparado com a massificação e o consumismo que subentendem o sucesso imediato. Tais fatores podem, aliados a uma estrutura familiar pouco compreensiva, favorecer sentimentos de desesperança e desânimo frente à sua vida. Osório (1989, p. 73) comenta a esse respeito que toda força idealista característica da adolescência muito precocemente vê-se confrontada com os desígnios da cega e obstinada busca de poder pessoal que caracteriza o tempo em que vivemos. Assim, o jovem enfrenta uma série de mudanças em seu ser, estando inserido num ambiente em contínuas modificações, e vê-se impelido a modificar sua forma de relacionar-se frente a esse mundo, procurando estabelecer novas formas de convivência que traduzem em si a multiplicidade de escolhas e jeitos de estar no mundo, peculiar a essa fase.

22 DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA É relativamente difícil falar de patologias durante esse período, visto que as flutuações de humor são constantes, oscilando entre a alegria por vezes eufórica, alternando momentos de depressão e isolamento. Por essa razão, há que se ter um pouco de cautela no que se refere ao diagnóstico de depressão na adolescência. Assim, se em termos qualitativos o que se nos apresenta nessa fase evolutiva é um conjunto de características, em termos de diagnóstico será a quantidade, ou seja, a intensidade e o nível de gravidade que esses aspectos assumem na vida do adolescente que irão demarcar um processo não-saudável. Cabe salientar aqui, que nesta pesquisa os aspectos de saúde e doença são analisados sob o enfoque fenomenológico existencial, indo-se em busca de um significado que seja construído a partir da vivência subjetiva do adolescente. Evitando posturas interpretativas, tem-se o cuidado de não sobrepor ao adolescente um diagnóstico pronto, ou melhor, uma explicação sobre ele que não venha dele. Por outro lado, torna-se necessário assumir alguns critérios para examinar o que se passa com o jovem quando há algum sinal de perigo. Nesse sentido, Osório (1989, p. 53) comenta que Muitas perturbações do adolescente são apenas reações adaptativas normais para as circunstâncias e o momento considerado de sua evolução ontogenética. Porém, o autor afirma que há certos aspectos a serem cuidadosamente observados na psicopatologia do adolescente. Refere-se à intensidade, duração, significado regressivo e polimorfismo dos sintomas, como variáveis importantes que podem estar comunicando sinais de um processo de adoecer.

23 22 Por exemplo, um adolescente que apresenta um comportamento melancólico, triste e por vezes permanece recluso, mas em contrapartida há momentos em que mantém suas atividades corriqueiras e estabelece relações afetivas significativas, pertencendo a algum grupo social; parece que neste caso o jovem situa-se na direção do desenvolvimento e da saúde. Diferentemente desse caso, pode-se examinar a situação de um adolescente cuja motivação principal é estar isolado e livre de quaisquer imposições do meio que o cerca, apresentando-se triste e sem energia, com idéias autodestrutivas e um desinteresse geral pela vida, que vão lhe trazendo conseqüências em termos adaptativos (baixo rendimento escolar, perda de emprego, afastamento social). No último caso, parece que há uma alteração mais significativa de comportamento que exigirá mais atenção por parte dos familiares e do terapeuta. Um exame detalhado acerca do contexto no qual o adolescente vive e suas defesas perante os conflitos dessa fase parece ser necessário para que se possam delimitar processos depressivos na adolescência, já que se pode vir a confundir facilmente as peculiaridades descritas com uma sintomatologia mais estruturada e abrangente. Depressão não é somente um sentimento de tristeza. Esse nome é dado a certos estados de sofrimento psíquico que podem vir a desencadear transtornos no comportamento, na afetividade e nos relacionamentos sociais e familiares. Resmini (1997, p. 01) refere que: O jovem deprimido confia pouco em si mesmo, tem auto-estima baixa, experimenta alterações no apetite e no sono, se auto-acusa e tem lentidão dos pensamentos. Vê a si mesmo como sem valor e, por isso, atribui suas experiências desprazeirosas a alguma falha pessoal. Tem uma visão negativa do futuro e sente que suas dores e frustrações não serão aliviadas. Estes sentimentos levam ao prejuízo na saúde, dos estudos e dos relacionamentos interpessoais.

24 23 Portanto, faz-se necessário avaliar se há um prejuízo geral na sua condição existencial, bem como nas atitudes concretas perante os fatos de sua vida. A adolescência é uma fase da vida por si só repleta de mudanças e de stress, razão pela qual um processo depressivo torna-se, na maioria das vezes, mais assustador quando ocorre nessa fase. Os adolescentes têm poucas condições que lhes possam trazer uma compreensão da avalanche de sentimentos que vivenciam, e freqüentemente não encontram apoio e acolhimento no meio familiar e social. Embora as tensões da vida cotidiana do adolescente sejam importantes fatores para o aparecimento da depressão, muitos jovens passam por acontecimentos desagradáveis sem desenvolver a depressão. A tristeza, comum nos momentos de reflexão da adolescência, é uma experiência dolorosa e freqüentemente surge acompanhada de pensamentos suicidas. A esse respeito Resmini (1997, p. 01) comenta: Os adolescentes que tentam suicídio sentem-se sós e desesperados. Desespero é o sentimento de urgência de que ocorram mudanças na vida somadas à desesperança de que essas mudanças possam realmente ocorrer e à crença de que a vida é impossível se não acontecerem tais mudanças. Como foi descrito anteriormente, simbolicamente o adolescente vive um momento de luto referente às perdas relativas a essa fase e reage a essa realidade de formas variadas. Nesse processo, freqüentemente parece haver um ensimesmamento ou uma reclusão, como que numa pausa para buscar a si mesmo, produtivos num certo sentido, já que o adolescente encontra-se em fase de construção e de redefinição de seu ser. É um vir a ser que assume características inusitadas e, muitas vezes, vem a se contrapor ao modus vivendi familiar, como uma forma de garantir a diferenciação de si mesmo. Porém, esse aspecto parece estar em si, mais ligado a aspectos

25 24 saudáveis do que à patologia em si, pois o adolescente busca elementos para a construção de sua identidade e necessita negar e, até certo ponto, rejeitar os valores familiares, a fim de caminhar na construção de suas próprias verdades, ainda que pautadas em experiências fugazes.

26 SAÚDE E DOENÇA Dentro de uma postura existencial fenomenológica, o indivíduo saudável pode ser visto como alguém em constante processo de redefinição de si mesmo. Ele vai se construindo a partir de sua existência no mundo, fazendo escolhas e assumindo a responsabilidade pelos seus atos. Assim, dentro dessa perspectiva filosófica, é na experiência concreta da relação com o mundo que o homem pode definir a si mesmo. Augras (1986. p. 11), comenta que a visão de saúde está ligada a um processo que envolve atualização do organismo, e transformação mútua, e afirma [...] haverá doença na medida em que o indivíduo responder inadequadamente à determinada situação, colocando em risco a sua própria sobrevivência. Augras (1986, p. 11) destaca ainda que saúde não significa a ausência de doença, mas um jogo dialético entre ordem e desordem. Esse aspecto parece estar ligado intrinsecamente a um movimento de ir e vir, de contato, de troca fluída na relação organismo-meio (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN,1997). Inversamente, o processo patológico está relacionado à rigidez de estrutura, e à impossibilidade de interagir criativamente em relação ao mundo. Assim, o indivíduo vai tendendo a obedecer rigidamente a um mapa pré-estabelecido a partir das experiências vividas e a interromper a si mesmo, em termos de um fluxo livre de escolhas genuínas.

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