Em Algum lugar do Passado: Contribuições da Pesquisa Histórica para os Estudos Organizacionais Brasileiros

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1 Em Algum lugar do Passado: Contribuições da Pesquisa Histórica para os Estudos Organizacionais Brasileiros Autoria: Fabio Vizeu Resumo Nos últimos anos, tem sido aguda a necessidade de se constituir uma prática de pesquisa organizacional voltada para as especificidades locais, no sentido de aproximar os grupos acadêmicos do contexto social onde se encontram. Isto também se verifica no caso brasileiro, onde, sob o ponto de vista cultural, observa-se a distância entre o contexto nacional e o do país de onde se importam as tecnologias gerenciais aqui aplicadas. Uma das formas de se verificar os aspectos peculiares da gestão e formas de organização do Brasil é através do escrutínio da trajetória histórica destes modelos. Assim, este texto trata de aspectos epistemológicos e metodológicos que permitem visualizar os limites e possibilidades da pesquisa histórica no campo de estudos organizacionais, especialmente daqueles endereçados ao contexto brasileiro. Para tanto, construímos nossa análise em três seções: a primeira trata dos pressupostos que circundam os esforços de aproximação entre a perspectiva história e as ciências sociais; a segunda aborda questões historiográficas diretamente relacionadas ao campo de estudos organizacionais; e a terceira trata mais especificamente sobre o objetivo do presente trabalho, ou seja, as contribuições da pesquisa histórica aos estudos organizacionais brasileiros. Em nossas considerações finais, apresentamos alguns temas para uma agenda de pesquisa. Introdução Em nenhum outro momento, a comunidade acadêmica se mobilizou tanto para a organização de fóruns e congressos endereçados ao entendimento de práticas e problemas de gestão regionalmente situados. Sejam em congressos temáticos ou chamadas especiais de revistas acadêmicas, o interesse pela prática de gestão local surge como algo importante para a comunidade internacional, mesmo para os acadêmicos residentes nos Estados Unidos, o país pivô na formação do pensamento administrativo moderno, que eram acostumados a reconhecer sua economia e o conhecimento nela fundamentado como algo universal e transferível ao resto do mundo. Exemplos recentes destes esforços são as divisões latina e européia da Academy of Management. Uma das possíveis explicações para estes esforços é o cada vez maior comprometimento do meio acadêmico com a contextualização cultural no entendimento dos fenômenos organizacionais. De fato, as pesquisas têm demonstrado que as práticas de gestão e teorias organizacionais devem ser situadas cultural e historicamente para serem realmente significativas (Kieser, 1994; Clark e Rowlinson, 2004; Booth e Rowlinson, 2006). No caso do contexto brasileiro, pesquisadores locais têm se deparado com o desafio de entender a singularidade das práticas organizacionais deste país, um contexto significativamente diverso daquele onde se constitui a grande maioria das tecnologias de gestão que são correntemente incorporadas em todo o mundo (Caldas e Wood Jr., 1999). Diante desta necessidade, uma das formas de se verificar os aspectos peculiares da gestão e formas de organização do Brasil é através do escrutínio da trajetória histórica destes modelos e das referências sociais, econômicas e políticas que os condicionam. Assim, pretendemos neste trabalho contribuir para a adoção da perspectiva histórica na construção do conhecimento sobre a gestão e a organização brasileiras. Isto pode ocorrer através da adoção de um quadro teórico-conceitual constituído a partir da análise histórica (Booth e Rowlinson, 2006), ou mesmo pela aplicação da pesquisa histórica enquanto método de análise empírica e analítica. Sustentamos com este propósito que a pesquisa histórica em si mesma 1

2 possibilita a teorização sobre os fenômenos organizacionais contemporâneos, justamente por permitir um melhor entendimento sobre a formação das perspectivas atuais sobre problemas, temas priorizados e aspectos gerais relacionados à prática organizacional (Kieser, 1994). Neste sentido, Jacques (2006) chama a atenção para a freqüente má-interpretação de autores da atualidade sobre acontecimentos e perspectivas do passado como sendo uma distorção perigosa sobre a formação do pensamento administrativo, que pode comprometer o entendimento mais acurado das abordagens atuais. Além disso, a reconstituição histórica dos fatos e perspectivas do campo pode contribuir para o desenvolvimento de análises críticas sobre ideologias administrativas correntes (Booth e Rowlinson, 2006; Costea, Crump e Holm, 2006). O argumento do presente ensaio se constitui a partir de três seções. Na primeira se faz uma breve análise dos aspectos epistemológicos que circundam a aproximação entre a perspectiva histórica e as ciências sociais, onde buscamos verificar os pontos que justificam a transição de uma tradição epistemológica dominante de natureza a-histórica para uma perspectiva analítica centrada na historicidade do fenômeno social. Na segunda seção, tecemos algumas considerações sobre como a perspectiva histórica vem sendo utilizada em estudos organizacionais. Na terceira seção, tratamos mais especificamente sobre o objetivo do presente trabalho, ou seja, as contribuições da pesquisa histórica aos estudos organizacionais brasileiros, onde buscamos verificar que o tratamento da historiografia social nacional sobre a vida econômica e social brasileira é de grande valia para uma melhor compreensão da realidade organizacional e administrativa nacional, especialmente sob a perspectiva dos estudos de cultura nas organizações. Em nossas considerações finais, apresentamos alguns temas para uma agenda de pesquisa histórica organizacional e administrativa no Brasil. 2. Considerações Epistemológicas Nossa proposição de que a pesquisa histórica é algo importante para o avanço do conhecimento no campo de estudos organizacionais se sustenta na reflexão sobre o desenvolvimento epistemológico nesta área, onde se identifica que, a partir da contradição de certos elementos da perspectiva acadêmica dominante, se verifica um movimento em favor de uma mudança de postura no meio que coloca a análise histórica em destaque (Üsdiken e Kieser, 2004). Apresentamos a seguir os principais aspectos deste raciocínio. 2.1 A natureza a-histórica do funcionalismo sociológico Tendo sido a abordagem funcionalista da sociologia o berço acadêmico da área de estudos organizacionais (Burrell e Morgan, 1979), não se pode negar que, apesar do crescente número de perspectivas alternativas dentro do campo, as bases epistemológicas do funcionalismo ainda predominam na pesquisa sobre organizações (Morgan, 1996). E uma das premissas do funcionalismo sociológico é a tendência ao exame estático dos fenômenos sociais. Em razão disto, certos autores consideram esta uma perspectiva a-histórica de pesquisa organizacional (Booth e Rowlinson, 2006; Üsdiken e Kieser, 2004; Kieser, 1994; Zald, 1996; Rowlinson e Procter, 1999). O funcionalismo sociológico nasce sob influência direta das concepções sobre a ciência social apresentadas pelos autores do positivismo clássico, em especial Comte, Saint-Simon e Spencer. Sustenta-se enquanto abordagem científica a partir do modelo de ciência natural, tendo por referência principal a biologia. Desta, herdou termos e premissas, sendo duas das mais importantes a noção darwiniana de evolução e o sistema morfológico de análise das estruturas biológicas (Burrell e Morgan, 1979; Morgan, 1996; Giddens, 1989; 1998). Assim, o interesse pela função dos elementos que compõem o todo social representa uma analogia direta por parte 2

3 dos funcionalistas da ciência social às estruturas biológicas (Radcliffe-Brown, 1973). Para os críticos, este aspecto conceitual-metodológico do funcionalismo representa acima de tudo uma tendência à análise das instituições sociais como estruturas estáticas, o que representa uma contradição a própria concepção evolucionista desta abordagem (Burrell e Morgan, 1979; Giddens, 1989). A premissa positivista de que a ciência deve se ater ao escrutínio das leis universais que regem os fenômenos observáveis se manifesta no funcionalismo sociológico através da preocupação em se revelar os aspectos universais dos fenômenos sociais (Giddens, 1998), menosprezando o conjunto de fatores que se modificam ao longo do tempo e em diferentes sociedades, fato este significativamente mais evidente (Barrett e Srivastva, 1991). Para o campo de pesquisa organizacional, o reflexo desta orientação acadêmica dominante foi um volume enorme de estudos empíricos formatados para a testificação de hipóteses e correlações causais que buscavam revelar a dimensão trans-histórica da organização formal, especialmente no que se refere aos padrões regulares de comportamento organizacional. Como afirmam Barrett e Srivastva (1991), estes esforços geraram uma imagem confusa da natureza progressiva da vida organizacional (p. 234), já que contribuíram para que se estabelecesse a reificação das organizações enquanto estruturas estáticas. Todavia, se for considerada a necessidade da ciência social compreender a vida humana a partir do relativismo imposto pelo contexto histórico-cultural (Habermas, 2004), a perspectiva dominante de pesquisa organizacional se apresenta como uma vertente acadêmica limitada e ingênua. Como asseveram Barrett e Srivastva, quanto mais nos esforçamos em iludir a nós mesmos na idéia de que organizações são feitas de estruturas duradouras que propositadamente atingem uma ampla ordem, mais nós criamos um senso de que homens e mulheres atuam solenemente de acordo com leis e padrões universais (p. 235). Ainda a esse respeito, Zald (2002) lembra que o universalismo a concepção do fenômeno organizacional contemporâneo como sendo característico de qualquer organização ao longo da história e o presentismo o tratamento descontextualizado dos fenômenos organizacionais correspondem a traços marcantes do ensino gerencial empreendido nas escolas de negócio, e esta condição compromete a capacidade analítica dos gestores, um problema que vem sendo observado também por outros autores (Jacques, 1996; Bedeian, 2004). A superação a este viés funcionalista de análise organizacional começou no momento em que abordagens e perspectivas alternativas sobre a realidade social surgem no campo. Representadas analiticamente por Burrell e Morgan (1979) dentro de paradigmas alternativos ao funcionalista, estas diferentes vertentes se fundamentam a partir de pressupostos ontológicos, epistemológicos e metodológicos diversos daqueles associados ao pensamento do positivismo oitocentista. Um destes é a natureza histórica das instituições sociais, aspecto tão relevante para o campo que marcou uma significativa mudança de perspectiva no cenário da pesquisa social, denominado por guinada histórica em ciências sociais (McDonald, 1996; Tuchman, 1994; Barrett e Srivastva, 1991; Burrell e Morgan, 1979; Clark e Rowlinson, 2004). 2.2 A Guinada histórica em ciências sociais A guinada histórica nas ciências sociais pode ser observada a partir de dois aspectos. Primeiro, sob a ótica do relativismo histórico-cultural que se estabeleceu através das correntes subjetivistas que despontaram em meados do século vinte, tais como o interacionismo simbólico, a etnometodologia, e a fenomenologia (Burrell e Morgan, 1979). O pressuposto básico deste relativismo é que diferentes culturas em diferentes momentos históricos representam diferentes significados e visões de mundo, tornando imprescindível ao pesquisador social reconhecer a posição de destaque da história na explicação dos fenômenos sociais (Barrett e Srivastva, 1991). 3

4 O segundo aspecto corresponde a conseqüente aproximação entre historiadores e cientistas sociais dada por esta superação do universalismo positivista, onde, para operacionalizar pesquisas fundamentadas em perspectivas epistemológicas e ontológicas mais refinadas, era necessário por parte dos cientistas sociais o uso de dados históricos na teorização sociológica e por parte dos historiadores o uso de teorias e conceitos sociológicos para uma análise histórica mais acurada (Tuchman, 1994). Apesar desta aproximação entre as disciplinas história e sociologia/antropologia ser algo conturbado (tendo em conta especialmente os interesses referentes à delimitação do campo de atuação do historiador e do cientista social), ela representou uma transformação significativa em ambos campos acadêmicos: para o cientista social, determinou a certeza de que qualquer fenômeno social precisa ser entendido em seu contexto histórico (Tuchman, 1994, p. 306); para o historiador, representou o nascimento de uma história nova, centrada na busca de apreensão do passado em sua totalidade, na abordagem do fenômeno pela análise minuciosa dos fatos e significados e não apenas pela descrição seletiva dos acontecimentos (Lê Goff, 1998). De certo modo, a sociologia deve seu compromisso com a história principalmente a dois de seus autores clássicos, Marx e Weber (Kieser, 1994). Tuchman (1994) lembra que estes autores constituíram suas respectivas teorias da sociedade contemporânea de forma a exigir de seus leitores um adequado entendimento sobre a história das sociedades precedentes, obtido através da historiografia da época. Kieser salienta que Weber foi muito mais um historiador do que sociólogo, considerando a orientação de seus trabalhos: Ele estava convencido que para compreender instituições contemporâneas é preciso saber como elas se desenvolveram na história (Kieser, 1994, p. 609). No caso da sociologia marxista, a aproximação com a disciplina histórica se faz de forma mais evidente, tendo em conta que esta representava, acima de tudo, uma teoria da história de longa duração (Lê Goff, 1998). Interessante notar que entre os acadêmicos da história o marxismo assume um papel importante no delineamento de uma história nova, embasada em novas premissas, cuja uma delas é a perspectiva estrutural do processo histórico, onde as forças profundas da história só atuam e se deixam apreender no tempo longo (Lê Goff, 1998, p. 45). Em relação ao campo específico da sociologia de organizações, a perspectiva histórica marxista se manifesta especialmente através do chamado labor process theory, apesar deste representar um esforço por vezes isolado dos canais centrais de publicação dos estudos organizacionais (Kieser, 1994). Pelo fato da idéia de guinada histórica estar vinculada ao grande processo de renovação epistemológica e metodológica que acometeu as ciências sociais em meados do século vinte, é correto considerar este movimento na mesma medida que as crescentes preocupações com a subjetividade, com o discurso e com a práxis nas ciências sociais. Neste sentido, busca-se neste movimento de transformação uma abordagem diferente para a história que permita uma guinada para debates historiográficos e teorias históricas de interpretação, o reconhecimento da inerente ambigüidade do termo história (Clark e Rowlinson, 2004, p. 331). Neste raciocínio, além de uma preocupação aguda e direta com a pesquisa histórica na atividade do cientista social, a guinada histórica alude a busca por novos olhares sobre a história, que estejam comprometidos com as outras conquistas epistemológicas que desnudaram a fragilidade do ponto de vista positivista de análise e teorização. É assim que autores como Michel Foucault, Hayden White, Paul Ricour, Norbert Elias e outros se destacam como importantes referências teóricometodológicas para os cientistas sociais contemporâneos (Booth e Rowlinson, 2006; Tuchman, 1994). Este último aspecto é particularmente relevante para a compreensão do papel que teve o movimento da guinada histórica nos estudos organizacionais. Mesmo reconhecendo que o 4

5 funcionalismo dedicou certa atenção à história, este o fez sob a concepção evolucionista, que foi metaforicamente incorporada por ocasião da forte influência da biologia (Giddens, 1998; Burrell e Morgan, 1979). Isto fez com que o funcionalismo sociológico observasse a história como um processo progressista, onde as estruturas sociais dos momentos históricos recentes se caracterizam como sendo mais complexas e sofisticadas em relação as estruturas do passado, dando a impressão de superioridade. É por este motivo que as instituições características da modernidade (como por exemplo, as organizações formais) são reificadas como formas historicamente privilegiadas, sendo objetivadas pelo cientista social funcionalista como modelo universal (Giddens, 1989; 1998). Todavia, um importante papel das perspectivas sociológicas hermenêuticas é o de denunciar esta visão ingênua do funcionalismo, salientando que se trata de um perigoso reducionismo que pode mascarar sutis mecanismos de exploração e controle que se legitimam em nome de um discurso dominante atribuído como verdade. A esse respeito, importante contribuição para o campo dos estudos organizacionais foi a análise de Guerreiro Ramos (1989) sobre as implicações para os estudos organizacionais da redução sociológica dos princípios racionais do mercado moderno. Em relação a este problema, a guinada histórica em ciências sociais representa uma importante conquista. A partir de um novo olhar sobre a história, a ciência social reconhece seus limites, admitindo seu papel ativo na formação de uma narrativa histórica específica (Tuchman, 1994). É por isso que as pesquisas devidamente fundamentadas na análise histórica permitem a reconstrução do conhecimento sobre o fenômeno administrativo e organizacional (Jacques, 1996; 2006; Clark e Rowlinson, 2004; Zald, 1993; Kieser, 1994). Neste sentido, é possível vincular a luta por mais história nas pesquisas organizacionais com o movimento de estudos críticos na administração (Booth e Rowlinson, 2006; Jacques, 1996), mesmo que a primeira nem sempre está comprometida com o conteúdo político radical do segundo (Clark e Rowlinson, 2004). 3 A pesquisa histórica nos estudos organizacionais Como mencionado acima, os estudos organizacionais participaram do movimento de guinada histórica em ciências sociais na medida em que este campo incorporou em seu quadro teórico de referência nova epistemologias historicamente orientadas (Clark e Rowlinson, 2004; Burrell e Morgan, 1979). Todavia, algumas considerações sobre os limites deste movimento por mais história nos estudos organizacionais devem ser feitas. Primeiramente, devemos salientar o interesse pela história na pesquisa organizacional se constitui a partir de múltiplas perspectivas epistemológicas, fato este que leva a uma certa fragmentação e heterogeneidade na adoção de análise histórica no campo (Üsdiken e Kieser, 2004; Clark e Rowlinson, 2004). Assim, dentro do grupo de pesquisas organizacionais historicamente informadas tem-se o desenvolvimento de perspectivas de forte traço objetivista, como por exemplo os estudos sobre história corporativa ou de negócios e as abordagens da análise de estratégias (p.e. Chandler [1962]), mas também se encontram abordagens de cunho subjetivistas, como por exemplo os estudos sobre discurso e poder inspirados em Foucault (Carter, McKinlay e Rowlinson, 2002), que tem na história um importante pressuposto teórico-analítico. No sentido de contribuir para o entendimento desta diversidade, Üsdiken e Kieser (2004) propõem três categorias comuns de posicionamento assumido pelo pesquisador organizacional engajado na perspectiva histórica, o suplementarista, o integracionista e o reorientacionista. O suplementarista é o posicionamento do pesquisador organizacional que recorre à perspectiva histórica no intuito de melhor fundamentar seu argumento teórico previamente construído. Nesta perspectiva, a história é apenas mais uma variável de análise empírica a ser considerada no corpus de pesquisa. A maioria dos atuais estudos se enquadram nesta categoria, 5

6 especialmente pela (ainda) forte influência do modelo cientificista de pesquisa sobre o campo (herdado do funcionalismo sociológico). Um importante exemplo de estudos que adotam a perspectiva histórica pela via suplementarista são os estudos sobre estratégia empresarial, que recorrem aos dados históricos sejam da empresa investigada, sejam do setor econômico em que ela se encontra no intuito de comprovação da teoria base de hipotetização, em conformidade com a lógica dedutiva de análise científica. A perspectiva integracionista corresponde ao enriquecimento da teorização organizacional através de links com as humanidades, especialmente com a história, a filosofia e a literatura, sem necessariamente abandonar o interesse pela produção do conhecimento científico. Neste aspecto, Zald (1993) considera que a herança positivista no campo das ciências sociais fez com que o pesquisador desenvolvesse esquemas analíticos que dificultam um adequado tratamento da dimensão subjetiva da realidade social. As disciplinas humanísticas, por outro lado, desenvolveram uma competência mais refinada para se analisar a dimensão subjetiva da realidade. Dois exemplos significativos apresentados pelo autor são a capacidade da análise semiótica em escrutinar as dimensões não ditas dos textos sociais, ou competência da análise retórica da lingüística em prover um guia substantivo para um melhor desnudamento do caráter ideológico da atividade social. A perspectiva integracionista considera a história uma disciplina importante para o avanço dos estudos organizacionais. Autores desta vertente defendem que tanto a metodologia historiográfica quanto o conhecimento gerado pelo historiador são fundamentais para que o pesquisador das organizações possa ser bem sucedido em seu intento, ou seja, a teorização sobre a realidade organizacional. A terceira perspectiva, a reorientacionista, considera de forma mais radical o papel da história no campo da pesquisa organizacional. Corresponde a uma redefinição epistemológica do campo a partir das premissas levantadas pelos historiadores e filósofos historicamente orientados. Corresponde a proposição de uma nova agenda de pesquisa para os estudos organizacionais, dada pela constatação do caráter a-histórico predominante no campo, que condiciona as concepções do pesquisador sobre a realidade organizacional e influencia seus interesses de pesquisa. A partir desta vertente é que emergem estudos organizacionais alternativos ao mainstream, tais como os estudos de gênero e outros estudos críticos. Um aspecto fundamental nas pesquisas organizacionais historicamente orientadas é a aproximação destas com a abordagem cultural. Este esforço se explica especialmente pelo fato de que diferenças entre organizações em diferentes culturas somente podem ser explicadas completamente se a dimensão histórica é incluída na comparação (Kieser, 1994, p. 609). Realmente, a relação imbricada entre a pesquisa histórica e o estudo da cultura se estabelece no momento que a antropologia se constitui como campo acadêmico, elevando a antiga etnologia para o entendimento de culturas de sociedades arcaicas. Neste momento, a antropologia se estabelece como ciência da cultura no sentido de que procura o entendimento da formação histórica de seu objeto, especialmente sob a influência do estruturalismo, a representação analítica que foi decisiva para o surgimento da noção de tempo longo (Lê Goff, 1998). Por outro lado, devemos considerar que o entendimento recente sobre a cultura tem sido uma das mais importantes contribuições para a chamada história social, o que, por outro lado, tem levado a dificuldade de delimitação dos campos de atividade do historiador e o antropólogo (Lê Goff, 1998; Tuchman, 1994). Assim, neste específico ponto a pesquisa histórica se apresenta como uma opção para o campo de estudos organizacionais na medida que a cultura organizacional é observada a partir da forte influência do contexto nacional onde as organizações estão instaladas. Mesmo em estudos de caráter funcionalista tem se verificado este relativismo (p.e. Hofstede, 2001), o que aponta 6

7 para a necessidade do entendimento da construção histórica destas referências culturais nacionais. Por exemplo, para delinear uma modelagem de categorização do estilo brasileiro de administrar, Barros e Prates (1996) recorrem os textos clássicos sobre cultura nacional brasileira para recuperar os traços que condicionam a atividade gerencial no país. Como veremos adiante, esta literatura etnográfica é fortemente condicionada pela área da história social. Todavia, apesar de ser evidente a correlação entre cultura e história, nem sempre as pesquisas organizacionais provêem as condições necessárias para uma proveitosa complementaridade entre estes dois aspectos. Rowlinson e Procter (1999) apontam que os dois subcampos de estudos organizacionais mais profícuos nas temáticas da cultura e da história os estudos de cultura organizacional e a história de negócios apresentam certas convenções conceituais e metodológicas que dificultam ambas as áreas compartilhar as contribuições que uma oferece a outra. Assim, A história de negócios negligência o entendimento mais sofisticado da cultura enquanto rede de significados, inferindo em um reducionismo perigoso onde a cultura é uma variável residual, sujeita aos ditames dos modelos da economia ortodoxa. Por outro lado, mesmo os estudos de cultura mais esclarecidos quanto a dimensão nominalista da realidade social o simbolismo organizacional e o pós-modernismo dificultam a investigação histórica mais profunda ao suspeitar do discurso histórico. Rowlinson e Procter (1999) também remarcam que na abordagem funcionalista da cultura organizacional a perspectiva histórica é limitada, tendo em conta a redução do contexto histórico a trajetória pessoal do fundador da empresa, pressupondo ser este aspecto o único relevante para a análise organizacional. O grande problema deste reducionismo é a distorção da amplitude histórica que condiciona a complexa rede de significações que representam a cultura. Mencionando os críticos do culturalismo organizacional funcionalista, Rowlinson e Procter (1999) chamam a atenção para postura ingênua de se crer que aquilo que executivos e gerentes dizem em palavras ou no papel tido como prova (Thompson e McHugh apud Rowlinson e Procter, 1999, p. 372). Apesar das dificuldades de integração entre os estudos da cultura e a história de negócios, é necessário lembrar que ambos os aspectos são incontestavelmente imbrimcados, e, a despeito dos vieses entre estes campos, somente se pode compreender a cultura pela ampla contextualização histórica. Da mesma forma, a história corporativa e gerencial não se verifica sem a consideração da natureza multifacetada da cultura, que se estabelece enquanto rede se significações a partir de diferentes esferas de análise social (indivíduos, grupos, organizações e nações) e de todo o conjunto de fatores de manifestação social (simbólicos, econômicos, políticos, tecnológicos, etc.). É nesse sentido que a cultura (...) não pode ser focalizada como um poder, ou qualquer coisa que nós possamos atribuir aos comportamentos, mas um contexto. Cultura é um contexto, onde os acontecimentos sociais, as ações, as instituições ou os processos podem ser descritos de forma inteligível e com densidade (Davel e Vasconcelos, 1999, p. 95). Sob o ponto de vista metodológico, é preciso considerar que a pesquisa histórica em estudos organizacionais está potencialmente atrelada a princípios de uma historiografia renovada. Dentro daquilo que se convencionou chamar de história nova, um dos aspectos mais marcantes foi a reconfiguração da atividade historiográfica a partir da aproximação com as ciências sociais. Como afirma Lê Goff (1998), a história nova transforma a atividade historiográfica na medida que buscou enfatizar novos temas de investigação, a fundamentação teórico-conceitual em outros campos de conhecimento e a conseqüente busca por fontes historiográficas alternativas, mais adequadas às novas referências epistemológicas. É assim que a historiografia recente deixa de se preocupar exclusivamente com eventos políticos e militares para problematizar questões do cotidiano, deixa de ater-se apenas à descrição da história e passa a se preocupar mais com a interpretação do passado, expande suas fontes historiográficas do acervo documental oficial 7

8 para textos relacionados ao cotidiano, que configura a dimensão ampliada de uma sociedade passada. Neste sentido, o interesse pela história da vida econômica e social cotidiana tem configurado um campo frutífero para a aproximação entre a atividade historiográfica com outros campos de pesquisa social, tais como a etnografia, a demografia, a análise macroeconômica e a pesquisa organizacional (Lê Goff, 1998). Nesta trajetória, surgem campos interdisciplinares específicos, tais como a sociologia histórica, a antropologia histórica, a história cultural e a história econômica, todos representando disciplinas que, apesar das divergências, procuram conciliar o entendimento do social com a compreensão da história. No campo dos estudos organizacionais, destaca-se a história de negócios, a história de gestão e a história corporativa (Booth e Rowlinson, 2006). Entretanto, é preciso considerar que há nos poucos esforços pela história na pesquisa organizacional problemas no que diz respeito ao rigor metodológico, no sentido do uso do método historiográfico de investigação. Neste sentido, Jacques (2006) chama a atenção para os principais equívocos no campo de estudos organizacionais na aplicação da análise histórica, dentre eles, o diletantismo em relação a prática historiográfica, a fragilidade no uso metafórico da história de guerra em análise organizacional, o anacronismo presente em certas referências à história da humanidade, configurando assim um aforismo anti-histórico, já que reduz a história a um fenômeno putativamente a-temporal e ilustrativo (Jacques, 2006, p. 41), e a confusão entre estudos longitudinais e estudos históricos. Para este autor, o uso da história nos estudos organizacionais se justifica na medida que este tipo de investigação contribui significativamente para reformulação teórica do fenômeno organizacional. De acordo com Jacques (2006), a investigação histórica do fenômeno organizacional e da atividade gerencial deve contribuir significativamente para se reformular o entendimento atual sobre estes objetos de estudo, devem conectar-se com questões atuais no sentido que podem levar a uma perspectiva diferente sobre tais questões (Jacques, 2006, p. 43). Finalmente, a falta de rigor historiográfico nos estudos organizacionais também se verifica indiretamente nos casos de estudos inspirados em teorias sociais fundamentadas na análise histórica, configurando uma postura a-crítica em relação às fontes historiográficas utilizadas (Jacques, 2006). Por exemplo, Rowlinson e Carter (2002) chamam a atenção para a ausência nos estudos organizacionais inspirados em Foucault de uma análise mais acurada sobre os problemas do conteúdo histórico nos trabalhos deste autor, problemas estes que vem sendo apontados por muitos historiadores. Este exemplo é emblemático, pois salienta uma dificuldade latente ao uso da pesquisa histórica pelo pesquisador organizacional, aquilo que Jacques (2006, p. 39) denomina de problema metodológico, onde será necessário um maior escrutínio rigoroso da nossa produção com um olho no método e a metodologia. Assim, a consolidação da pesquisa histórica no campo de estudos organizacionais prescinde necessariamente de uma preocupação com o rigor metodológico na aplicação da técnica historiográfica, bem como em relação a coerência epistemológica. Por exemplo, um problema relativamente simples porém grave que nem sempre é observado pelo pesquisador organizacional no empreendimento historiográfico é a escolha das fontes de dados, que muitas vezes são poucas e aceitas a-criticamente como válidas (Jacques, 2006). 4. Contribuições da pesquisa histórica aos estudos organizacionais brasileiros A partir de nossas considerações prévias, podemos claramente supor que a administração e organizações no Brasil somente serão satisfatoriamente compreendidas no momento que se buscar um entendimento destas a partir de suas referências histórico-culturais específicas. Apesar de óbvio, este pensamento não reflete os esforços da academia brasileira, que, ao se sujeitar aos 8

9 modelos importados e teorizações de largo escopo constituídas em outros contextos especialmente, os Estados Unidos (Caldas e Wood, 1999; Caldas, 1999) omite a história local como elemento fundamental na construção da realidade administrativa e organizacional brasileira. Isto transparece de forma evidente ao se observar a produção acadêmica, onde se verificam muito poucos trabalhos nos congressos da ANPAD e nas revistas nível A (sistema Qualis da Capes) que constituem pesquisas históricas formatadas com o objetivo de (re)construção teórica (perspectivas integracionista e reorientalista ). Além disso, vários estudos revisionais da produção acadêmica brasileira confirmam a dificuldade de se produzir um conhecimento genuinamente local, sustentado por teorias contextualizadas em nossa própria realidade (Caldas, 1999; Caldas e Wood Jr., 1999; Bertero e Keinart, 1994). Diante deste quadro é que vemos na pesquisa histórica uma abordagem de investigação acadêmica proveitosa para o campo dos estudos organizacionais brasileiros. Em complementação ao argumento de que os estudos organizacionais se fortalecem com uma maior fundamentação histórica, observa-se no caso brasileiro uma necessidade aguda por um melhor entendimento das especificidades nacionais de gestão e organização (Caldas e Wood Jr., 1999). A busca pelas referências culturais nacionais na prática de gestão passa necessariamente pela investigação histórica, seja através da história específica do management, dos negócios e organizações aqui instaladas, seja pelo entendimento da própria história da cultura nacional ampla, como já fora observado pelos autores envolvidos com o estudo da cultura em organizações (Caldas e Motta, 1999). A historiografia social nacional caracteriza-se pelo seu compromisso com os ditames do movimento da história nova, especialmente a produção historiográfica do início do século vinte (Miceli, 2001), refletindo um interesse analítico e multidisciplinar na noção da identidade brasileira, buscada especialmente nas fronteiras do Brasil do século dezenove (Stein, 1960). Assim, a história do Brasil torna-se social especialmente a partir da publicação de três importantes textos na década de trinta. Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil de Sergio Buarque de Holanda e Formação do Brasil contemporâneo de Caio Prado Júnior representam a ruptura no Brasil com uma história de conveniências políticas (história oficial) e limitações epistemológicas (Candido, 2001; Miceli, 2001). Destes autores (hoje considerados) clássicos, surge uma tradição historiográfica diversificada, interessada nas questões do homem comum, fundamentada em métodos e fontes alternativas de coleta e análise de dados históricos, nas mentalidades de épocas remotas, mas principalmente, na perspectiva totalizante do passado, onde a cultura popular, o cotidiano dos marginalizados (escravos e mulheres), mas também a vida das elites (corte, senhores de engenho), a política econômica e o cenário mundial se inter-relacionam em um emaranhado complexo que se constitui por contexto histórico brasileiro. Um outro segmento que também se configura como um campo de estudo profícuo rumo ao entendimento da realidade brasileira é a história econômica. Neste campo, além da produção de pesquisadores nativos, existe uma significativa produção estrangeira, especialmente até meados do século vinte, quando o interesse pelo Brasil fervilhava no mundo todo. Autores estrangeiros denominados por brasilianistas se debruçaram sobre a análise histórica do desenvolvimento econômico nacional, especialmente no intuito de melhor compreender os elementos históricosociais importantes na configuração de uma realidade econômica tão dispare de outros países de iguais condições e características. Dentro deste seguimento, destacam-se trabalhos como os de Werner Baer, Stanley Stein e Thomas Skidmore, e mesmo dos brasileiros nativos, como Celso Furtado e Wilson Suzigan. Além de um olhar diferenciado sobre os indicadores que revelassem os matizes da estrutura econômica do passado (como por exemplo dados demográficos), os 9

10 estudos de história economia também se preocupavam com a importância da dimensão sóciocultural na configuração da vida econômica (Stein, 1960). Neste sentido, um estudo interessante fora a análise feita por Luz (1975) sobre o processo de industrialização no Brasil. Além dos aspectos econômicos e políticos que influenciaram o surgimento e desenvolvimento da industrialização no Brasil do século dezenove, a autora salienta o quadro ideológico que sustentou este cenário conturbado, de idas e vindas, de momentos de grande avanço seguidos de retrocessos, naquilo que ela denomina por luta pela industrialização. Um outro subcampo historiográfico interessante para a área de estudos organizacionais é a chamada história de negócios, que tem se desmembramento naquilo que se denomina por história de empresas. Apesar de ainda ser pouco explorado, a história corporativa e de negócios brasileira começa a se delinear através da iniciativa de certos pesquisadores em compreender a vida de figuras marcantes na formação do cenário econômico e industrial nacional. Dois importantes exemplos são as diversas biografias sobre o Barão de Mauá e a família Matarazzo (Curado, 2001). Outra importante contribuição para o desenvolvimento da história corporativa e de negócios são as iniciativas de grandes empresas no Brasil em manter acervos e museus sobre sua própria história. O cuidado que se deve ter em tais referências e fontes historiográficas é o viés na formatação destes dados, um problema comumente associado à área de business history (Coleman, 1987) Implicações dos postulados da historiografia para os estudos organizacionais brasileiros No final da década de noventa, foi publicado no Brasil uma coleção textos sobre cultura que tinha como objetivo integrar a discussão da cultura organizacional os postulados dos autores que tratavam da cultura brasileira, especialmente aqueles vinculados a tradição antropológicohistórica. Os organizadores assim se expressaram na introdução, a respeito da proposta da coleção: Apesar de expressar níveis complementares de um mesmo fenômeno, estudos sobre cultura organizacional, por um lado, e de cultura brasileira, por outro, têm geralmente seguido tradições e caminhos distintos no Brasil dos últimos anos. (...) Realmente, apesar do aumento significativo de estudos focados em cultura organizacional no país desde fins da década de 80, ainda são poucos aqueles que se têm focado na análise da cultura de empresas no Brasil a luz das raízes, da formação e evolução, ou dos traços atuais da cultura brasileira. (...) [Todavia] os pressupostos básicos, os costumes, as crenças e os valores, bem como os artefatos que caracterizam a cultura de uma empresa trazem sempre, de alguma forma, a marca de seus correspondentes na cultura nacional. Não há como, portanto, estudar a cultura das empresas que operam em uma sociedade, sem estudar a cultura ou as culturas dessa sociedade. (Caldas e Motta, 1999, p ). No sentido de atender a este propósito, a maioria dos ensaios da coleção de Caldas e Motta (1999) são esforços diretos de reflexão sobre as organizações no Brasil a partir de referências histórico-culturais tratadas pelos clássicos da historiografia social do início do século vinte, tais como Freyre (2003), Faoro (2001), Holanda (2001) e Prado Jr. (1969). Apesar de todos os textos da coleção construírem argumentos interessantes para o entendimento da realidade organizacional brasileira, destacamos os ensaios de Caldas (1999), Davel e Vasconcelos (1999) e Martins (1999) como significativos exemplares das contribuições que a história social pode prover a análise organizacional brasileira. O texto de Caldas (1999) corresponde a uma reflexão ensaística sobre o fascínio do brasileiro pelo estrangeiro. O autor salienta como este traço nacional se estabelece expressivamente na esfera organizacional e administrativa, seja no meio acadêmico, seja no âmbito da prática. Para demonstrar que o arquétipo do estrangeirismo é marcante na cultura brasileira, o autor recupera 10

11 premissas importantes sobre a época de colônia portuguesa, que, de acordo com a literatura historiográfica, correspondeu a um conjunto de elementos contextuais que foram capitais para se configurar uma mítica de subserviência nacional ao que vem de fora, tais como a falta do orgulho de raça do português e a natureza da economia colonial, que, em essência se caracterizava no extrativismo predatório (Holanda, 2001). Com o fim da fase colonial houve a substituição da referência estrangeira, aquilo que Caldas chama de ciclos de estrangeirismo, onde Inglaterra, França e Estados Unidos se revezaram enquanto culturas ideais para o imaginário brasileiro. Caldas (1999) lembra ainda que a transposição de um ciclo para outro se dá pelo conjunto de questões sociais, políticas e econômicas que compõem as matrizes da formação do Brasil. Interessante notar que este traço da cultura brasileira é considerado pelo autor como um importante elemento explicativo do desenvolvimento da atividade gerencial, ensino e pesquisa organizacional no país. O autor recupera a noção de importação de metodologias gerenciais proposta por Serva (1990), e argumenta como a própria história da gestão brasileira é comprometida com o arquétipo nacional de fascínio pelo estrangeiro. Este ensaio é significativo na medida que demonstra como o entendimento do fenômeno organizacional nacional se condiciona a devida compreensão da ampla teia histórico-cultural em que as organizações estão inseridas. Outro interessante ensaio da coleção de Caldas e Motta (1999) é o trabalho de Davel e Vasconcelos (1999). Os autores tratam de outra importante referência histórico-cultural brasileira, marcante na configuração da prática organizacional deste país. Este traço é metaforicamente representado pela figura paterna, uma ilustração de como a autoridade se manifesta nas relações sociais, mas também uma referência direta a esfera microsocial da qual se originou esta referência. Os autores constituem seu argumento especialmente revisitando o ensaio de Freyre (2003) sobre o impacto que o modelo sócio-econômico do engenho teve na constituição das relações sociais em nosso país. Os autores assim se expressam: Quanto à estrutura econômica e ao mundo do trabalho surgidos de nosso processo colonial, o Senhor do Engenho organizava sua unidade produtiva e sua unidade familiar ao mesmo tempo e da mesma forma, sem fronteiras bem demarcadas. (...) O Senhor do Engenho não era simplesmente um proprietário que explorava suas terras e empregados, comercialmente. O escravo não era somente a mão-de-obra explorada. Para aquele que trabalhava para um senhor, mesmo que fosse maltratado, este mesmo senhor era sobretudo uma referência. Ele contava com o poderoso para todas as suas necessidades. Tudo se passava, do nascimento à morte, e por gerações sucessivas, sob a influência do senhor e de sua dominação. Mundo pequeno e fechado, em função do qual se ria ou chorava, se sofria ou gozava. (Davel e Vasconcelos, 1999, p. 97). Os autores pontuam que este modelo social foi decisivo na configuração das relações entre gestores e os operários fabris, a despeito da direta contraposição ao critério da impessoalidade da burocracia moderna. Neste sentido, os autores lembram que, mesmo as ideologias operárias da industrialização não suplantaram a matriz patriarcal do Brasil colonial, isto devido a forte presença da vida rural nas esferas políticas do país durante o início do processo de industrialização, especialmente a elite associada a monocultura do café (Holanda, 2001; Luz, 1975). Da mesma forma, sugerem que a referência patriarcal também preponderou sobre a ideologia da gestão moderna, que se estabelece no país através das escolas de administração (Serva, 1990). O terceiro grande exemplar da coleção de Caldas e Motta (1999) que ilustra algumas das contribuições que a historiografia nacional pode prover aos estudos organizacionais trata sobre o processo histórico de modernização da administração pública brasileira. Da mesma forma que os ensaios de Caldas (1999) e Davel e Vasconcelos (1999), o texto de Martins (1999) constrói sua 11

12 análise a partir de um importante aspecto da cultura brasileira, revelado pela historiografia nacional: a ética do patrimonialismo, característica marcante da trajetória política e social brasileira (Faoro, 2001). O ethos patrimonialista representa o conjunto de valores em nossa sociedade que sustentam a prática da apropriação do público pelo privado. Sob o ponto de vista histórico, o patrimonialismo brasileiro tem suas raízes na sociedade portuguesa arcaica. Especialmente baseando-se no tratado histórico de Faoro (2001), Martins considera que o germe da ética patrimonialista se estabeleceu no período da expansão ultramarinha portuguesa, onde a degeneração dos valores da sociedade lusitana se fizeram mais agudos com o surgimento da empreitada além mar, pois configuraram a decadência de instituições sociais (como por exemplo o casamento), a aversão ao trabalho e a busca do dinheiro rápido e fácil, naquilo que se atribui como espírito aventureiro (Freitas, 1999). No âmbito da administração colonial, o patrimonialismo se perpetua entre o descaso do governo português com a população de suas colônias e a necessidade de rápido povoamento para garantir a posse da terra, e manifesta-se emblematicamente no sistema das capitanias hereditárias (Faoro, 2001). No século dezenove, a despeito das significativas transformações políticas, a lógica patrimonialista permanece forte, transparecendo especialmente nas relações entre a aristocracia e o governo imperial. A segunda parte do ensaio de Martins (1999) trata da história recente da administração pública, especificamente no momento em que se estabelece o processo de modernização do aparato administrativo estatal. Este processo teve por marco a criação do Departamento de Administração do Serviço Público DASP na era Vargas, um órgão cujo objetivo fundamental era a profissionalização do funcionalismo estatal, sob os auspícios da racionalidade burocrática. Todavia, apesar deste processo envolver princípios que representavam uma significativa ruptura com a tradição política colonial/imperial, Martins (1999) observa que o desenvolvimento da estrutura burocrática apenas salientou o ethos patrimonialista, não medida que contribuiu para a criação de duas separadas esferas de poder, a técnica, representada pela estrutura burocrática (modernização administrativa), e a política, ideologicamente justificada pelo advento da democracia representativa (modernização política). A despeito dos esforços em prol da racionalização da administração pública, permanecia a orientação patrimonialista, gerando aquilo que Martins (1999, p. 181) denominou de modernização dissociativa, onde a construção burocrática é tendencialmente obstaculizada pela política. Este panorama contraditório da administração pública brasileira retrata a sua natureza ímpar, de difícil compreensão por parte dos estrangeiros (Castor, 2000), porém, somente acessível a partir da reconstrução histórica. Considerações finais Olhar para nosso passado é algo necessário para que a academia brasileira avance no entendimento da identidade organizacional nacional. Todavia, não somente devemos olhar o passado recente, julgando que a história da administração no Brasil se fez a partir do estabelecimento da industrialização e do ensino da administração no país, ou na fundação das grandes corporações e grupos empresariais nacionais. Sob a égide dos recentes avanços da atividade historiográfica no mundo todo que, em síntese, pretende constituir um entendimento total do passado devemos buscar no Brasil mais distante as bases de uma possível identidade gerencial e organizacional brasileiras. Isto porque não podemos negar a influência marcante das relações sociais da época colonial na significação das recentes relações de trabalho industrial (como por exemplo, a permanência da mentalidade patrimonialista nas relações entre o empresariado e a esfera política nacional). Assim, entender a gestão brasileira por completo significa entender o Brasil em sua totalidade social, cultural, econômica e política, tarefa esta somente possível através do olhar histórico. 12

13 Isto posto, é possível considerar alguns temas para uma agenda de pesquisa histórica nos estudos organizacionais brasileiros. Estes representam uma transposição para o caso brasileiro dos argumentos levantados por autores estrangeiros que vêm se dedicando a disseminação da abordagem histórica na pesquisa organizacional e de administração, como por exemplo Booth e Rowlinson (2006), Jacques (1996; 2006), Clark e Rowlinson (2004), Üsdiken e Kieser (2004), Kieser (1994) e Zald (1993). Estudos sobre a história do pensamento administrativo brasileiro. No exterior, um tipo de estudo histórico que vem se desenvolvendo com grande força dentro da administração se relaciona com a história do pensamento administrativo moderno. Tendo em conta a peculiar maneira com que se estabelecem as abordagens de gestão em nosso país, este tipo de análise pode ser de grande valia para um entendimento mais acurado do pensamento administrativo brasileiro, além de também ser algo proveitoso para o entendimento de outros contextos nacionais, considerando que os estudos históricos provêem uma interessante possibilidade de análise comparativa (Kieser, 1994; Bendix, 1974). Neste sentido, a partir da perspectiva de importação de metodologias gerenciais, um bom exemplo de como a adoção de uma perspectiva histórica na pesquisa em administração no Brasil pode ser frutífera tem sido a preocupação de certos autores em revelar as condições nas quais se estabeleceu o ensino formal de administração no país. Autores como Serva (1990), Fischer (1984) e Bertero e Keinert (1994) têm se preocupando com a descrição histórica deste processo, remarcando as peculiaridades e implicações para o entendimento da prática gerencial nacional. Este entendimento tem provocado uma reflexão crítica sobre o papel das escolas de gestão, a natureza de seus programas curriculares, e tem instigado movimentos em prol da reorientação acadêmica no âmbito da pós-graduação stricto sensu. Outro estudo interessante sobre o estabelecimento da prática gerencial moderna no Brasil é aquele empreendido por Curado (2001). A autora desenvolve uma investigação histórica sobre o desenvolvimento dos saberes administrativos na cidade de São Paulo, verificando a trajetória história do pensamento gerencial no mais importante centro econômico do país. Estudos históricos sobre ideologias e discursos associados a práticas organizacionais. A ideologia tem sido uma questão significativa nas pesquisas organizacionais historicamente orientadas. Isto porque a análise organizacional é comumente marcada pela conotação ideológica (Kieser, 1994). Assim, estudos sobre as práticas organizacionais brasileiras devem ter em conta o contexto ideológico que suportou a adoção destas, porque um determinado modelo ou ferramenta gerencial teve maior impacto que outros, etc. Da mesma forma, a análise do passado permite melhor observar o caráter ideológico das práticas e concepções prescritas no presente. Um exemplo interessante neste sentido é o estudo de Costea, Crump e Holm (2006) sobre a transmutação do conceito play no âmbito organizacional em diferentes momentos históricos. O estudo destes autores é uma interessante ilustração de como se desenvolver pesquisa histórica conceitual, aquilo que a historia nova chamou de história de mentalidades (Lê Goff, 1998). Nesta linha de pesquisa, estudos organizacionais baseados na perspectiva de Foucault podem prover significativa contribuição. Outra forma de estudo histórico sobre ideologias é apresentado por Bendix (1974), mas com um sentido diverso da conotação crítica do discurso. Este autor procurou entender as diferenças entre as relações de autoridade da gestão industrial em diferentes países, a partir das diferenças dos contextos ideológicos que historicamente suportaram tais sistemas de autoridade. Interessante notar que, neste caso, a análise histórica da ideologia representa um recurso explicativo para o entendimento de um constructo sociológico, indicando uma linha epistemológica diversa da abordagem discursiva mais radical. No Brasil, um interessante estudo com tal conotação foi a já mencionada análise de Luz (1975) sobre as ideologias que se manifestaram no processo de industrialização do país. 13

14 Estudos organizacionais fundamentados na historiografia social brasileira. Tendo em conta o amplo desenvolvimento da história social e econômica no Brasil após os autores clássicos (Freitas, 2001), é importante considerar que estas disciplinas têm muito mais a oferecer aos estudos organizacionais além dos insights discutidos na coleção de Caldas e Motta (1999). A história social no Brasil tem produzido uma análise epistemologicamente interessante para a área de estudos organizacionais (no sentido de ser integrada às linhas epistemológicas alternativas ao funcionalismo), onde empreender estudos sobre temas de comum interesse, tais como a questão das mulheres, das minorias, da dominação, da cultura, entre outros (Freitas, 2001). Dentro desta linha, é possível ter suporte historiográfico para se empreender estudos comparativos sobre a prática organizacional em diferentes contextos culturais, algo semelhante ao que fora efetuado por Bendix (1974) em sua análise sobre a industrialização na Inglaterra, Rússia, Estados unidos e Alemanha Oriental, ou no estudo de Lutz (apud Kieser, 1994) sobre as diferenças entre a amplitude de comando em empresas francesas e alemãs, onde o autor constatou que estas se devem a diferenças na trajetória história dos sistemas educacionais em ambos os países. Estudos sobre história corporativa e de negócios no Brasil. Nesta linha, é importante lembrar mais uma vez que a historiografia deve ser buscada pelo pesquisador organizacional na medida que esta provê subsídios para a teorização ou reorientação conceitual e analítica (Jacques, 2006; Üsdiken e Kieser, 2004). Assim, a história de negócios e corporativa deve ser feita com cautela, para não se incorrer no erro da pesquisa vazia (Coleman, 1987), ou seja, aquela que não agrega nada ao entendimento sobre o fenômeno organizacional (Jacques, 2006). Por outro lado, o fato deste campo de atividade ainda não ser algo bem desenvolvido no Brasil faz com que esta empreitada seja necessária para se produzir um acervo importante para a análise histórica do fenômeno organizacional. No exterior, a história de negócios e corporativa representa uma importante fonte para os estudos organizacional historicamente orientados (Booth e Rowlinson, 2006). No Brasil, as fontes são restritas aos poucos períodos especializados nesta linha e aos eventuais trabalhos publicados em canais acadêmicos mais genéricos (geralmente associados a história geral ou história econômica). Por fim, devemos considerar que a pesquisa histórica deve ser empreendida com o objetivo de tornar mais inteligível a realidade organizacional brasileira contemporânea. Neste sentido, um bom exemplo de integração entre a pesquisa organizacional contemporânea e a análise histórica é o estudo de Davel e Vasconcelos (1999), cuja segunda parte consiste de uma pesquisa empírica fundada nas inferências teóricas construídas pela análise histórica tratada na primeira parte. Além de permitir uma observação mais acurada das peculiaridades das organizações brasileiras contemporâneas, a abordagem histórica pode ser um caminho para que os estudos organizacionais brasileiros vislumbrem sua identidade acadêmica, já que, como vem sendo alertado há certo tempo pelos estudos revisionais sobre a produção acadêmica brasileira (por exemplo, em Bertero e Keinart, 1994), a forte influência da literatura estrangeira reflete a falta de originalidade por parte do pesquisador nacional. Bibliografia BARRETT, Frank J.; SRIVASTVA, Suresh. History as a mode of inquiry in organizational life: a role of human cosmogony. Human Relations, vol. 44, no. 3, p , BARROS, Betânia Tanure; PRATES, Marco Aurélio Spyer. O estilo brasileiro de administrar. São Paulo: Atlas, BEDEIAN, Arthur G. The gift of professional maturity. Academy of Management Learning and Education, vol. 3, no. 1, p , BENDIX, Renhard. Work and authority in Industry. Berkeley: University California Press,

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