XII MODELO INTERCOLEGIAL DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO:

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2 XII MODELO INTERCOLEGIAL DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO: OS GRANDES DESAFIOS GERADOS PELA DISPUTA ENTRE AS LIDERANÇAS EMERGENTES E AS GRANDES POTÊNCIAS NO ÂMBITO DO TRIPS Elaborado por: Ana Carolina Britto Lana Bispo Leonardo Rego Barros dos Santos Ricardo Augusto Zopelari Reis Rio de Janeiro

3 Senhores Delegados, É com imensa satisfação que lhes damos as boas-vindas a Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) que se realizará durante o XII Modelo Intercolegial de Relações Internacionais (XII MIRIN) As discussões se pautarão nos temas de Propriedade Intelectual (PI) a partir dos acordos TRIPs, que geram diversas disputas entre os Estados emergentes e as já consolidadas Grandes Potências do cenário internacional dentro da Organização. Consideramos que as discussões que guiarão o andamento do Comitê sejam de fundamental relevância pois auxiliam na compreensão de como esses embates entre os Estados membros geram desafios que podem impor limites ao próprio funcionamento da OMC, e também auxiliam para o entendimento das implicações que os acordos TRIPS têm para o desenvolvimento econômico e tecnológico dos países signatários, bem como para o incremento do comércio internacional. No que diz respeito as disputas entre os Estados membros da Organização, é extensamente sabido que, enquanto os países emergentes buscam adotar uma postura de quebra de Patentes e de Propriedade Intelectual oferecendo alternativas às produções das Grandes Potências, estas adotam posturas inflexíveis com relação a esse tema demonstrando sua tentativa de manutenção do status quo da produção de medicamentos, tecnologia, assim como de conhecimento e outros âmbitos. Acreditamos que, em um mundo cada vez mais globalizado e interdependente, onde circulam diariamente enormes fluxos comerciais de produtos e serviços, o conhecimento das questões de Propriedade Intelectual e dos acordos TRIPs seja de fundamental relevância para a formação dos Senhores. O Guia de Estudos que segue a esta carta contém as informações que auxiliarão sua preparação para a simulação. No entanto, pedimos encarecidamente que os Senhores realizem pesquisas próprias sobre o tema, bem como tenham conhecimento das Políticas Externas de seus respectivos países, uma vez que o maior conhecimento dos temas a serem discutidos fará com que as Sessões sejam ainda mais proveitosas e enriquecedoras para os Senhores. Gostaríamos, por último, de agradecer a escolha e participação dos Senhores no Comitê da Organização do Comércio do XII MIRIN. Sabemos que este não é um tema fácil de ser discutido e demandará alguns esforços dos Senhores, porém temos certeza 2

4 que com empenho e dedicação a experiência dessa Simulação será extremamente positiva para todos. Aguardamos ansiosamente para conhecê-los! Até breve! Cordialmente, Ana Carolina Britto Leonardo Santos Ricardo Zopelari 3

5 SUMÁRIO 1. Histórico da Criação da Organização Mundial do Comércio A Organização Internacional do Comércio (OIC) O Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) A Rodada do Uruguai e a Criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) A Rodada de Doha Estrutura e Funcionamento da OMC O Acordo TRIPS As Discussões do TRIPS No Âmbito da OMC Acesso à medicina: Uma Perspectiva Política e Histórica Um Viés Econômico e Social O TRIPS-Plus Definição Propósito Indicações Geográficas Política Externa Dos Países Membros Referências Bibliográficas

6 1. Histórico da Criação da Organização Mundial do Comércio 1.1. A Organização Internacional do Comércio (OIC) A Organização Mundial do Comércio (OMC) pode ser definida como o órgão internacional que tem como função a definição de regras para que as trocas comerciais entre os diversos países do mundo possam se realizar. O histórico da formação desta instituição internacional tem início no período imediatamente posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial, onde os Estados, fragilizados socialpolítica e sobretudo, economicamente pelo conflito, perceberam a necessidade da existência de um acordo que os envolvesse na busca de um crescimento comercial a nível mundial. Em busca desse objetivo foram realizadas várias Conferências, e na última delas, que ficou conhecida como Conferência de Havana, foi criada a Carta Constitutiva, a partir da qual foi idealizada e estruturada a chamada Organização Internacional do Comércio (OIC). O objetivo primordial de tal instituição era a organização das relações comerciais e a promoção de desenvolvimento econômico, principalmente para os países que até então não eram industrializados. Para a obtenção de êxito em seu objetivo, funcionaria como uma Instituição Especializada da Organização das Nações Unidas (ONU). A pauta de temas abordados incluía emprego, análise de práticas comerciais restritivas, dentre outros temas. No entanto, apesar de toda estruturação teórica da Organização Internacional do Comércio, a mesma não chegou a ser consolidada na prática. Isso ocorreu devido ao fato de os Estados Unidos, seu principal defensor, não ter ratificado a Carta Constituinte, uma vez que seus interesses não estavam sendo defendidos na mesma. Com isso, o número de países signatários do acordo não foi atingido e a instituição não foi consolidada O Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) Paralelamente aos acontecimentos relacionados a OIC, vinte e três países reuniram-se em Genebra no ano de 1947, após a convocação do Conselho 5

7 Econômico e Social da ONU, para discussão de temas relacionados a diminuição do protecionismo comercial. Os Estados presentes, então, aproveitaram-se de algumas das resoluções presentes na Carta Constitutiva da Organização Internacional do Comércio e criaram o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) que, a princípio, seria um substituto temporário que guiaria as questões relacionadas ao comércio internacional enquanto a OIC não era aprovada. A história, entretanto, nos mostra que o GATT foi muito mais que um simples substituto temporário da OIC, tendo um período de vigência de quarenta e sete anos. No dia 1º de Janeiro do ano de 1948 o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio entrou em vigor, lidando sobretudo com o comércio de bens e buscando prover estabilidade para o comércio internacional. As principais regras do acordo pautavamse nos princípios de Nação Mais Favorecida, que conforme expresso no artigo I do acordo estabelece que: Qualquer vantagem, valor, privilegio ou imunidade concedida por uma parte contratante a um produto originado de outros pais ou a ele destinado será, imediata e incondicionalmente, extensiva a todos os produtos similares originários de territórios de qualquer outra parte contratante ou a eles destinados. (Disponível em: cc2/trabalhos2009_2/adriana_bonato.pdf. Acesso em: 22 mar. 2015) E do Tratamento Nacional, que visa ao tratamento igualitário entre produtos nacionais e produtos importados, buscando evitar que ocorra protecionismo por parte da indústria doméstica, e tentando igualar a concorrência entre os dois tipos de produtos. Há uma importante exceção a este princípio, que estabelece que os países em desenvolvimento devem possuir um tratamento diferenciado e mais favorável. Essa cláusula de exceção foi negociada na Rodada de Tóquio, realizada no ano de Há, ainda, um princípio importante para o comércio internacional que, constantemente, não é abordado, o da transparência, que estabelece a obrigatoriedade da publicação de todas as leis, regras, regulamentos e decisões judiciais de aplicação geral no comércio com o objetivo de que todos os envolvidos nas questões 6

8 comerciais, sejam governos ou reguladores, tenham consciência das atividades praticadas pelas diferentes partes que fazem parte do acordo. Apesar dos esforços inicias do GATT, que se concentraram, sobretudo, na diminuição do protecionismo comercial e na tentativa de promoção de um acesso mais equitativo aos mercados por parte de seus signatários e não na promoção do livre comércio, o mesmo foi alvo de muitas críticas, provenientes principalmente dos países em desenvolvimento, que se colocavam a favor de um tratamento desigual e da criação de vantagens que pudessem ser aproveitadas pelos países que dessas necessitavam para que pudessem crescer e se desenvolver. Com tal objetivo, países localizados na América Latina, Ásia e África reivindicaram frente as Nações Unidas seu interesse de que os países desenvolvidos promovessem uma flexibilização de suas políticas econômicas a favor de um desenvolvimento econômico mundial. A partir dessa união entre os Estados em desenvolvimento e com o objetivo de defender as aspirações dos países do Sul com relação ao desenvolvimento e ao comércio, foi criada a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). O GATT contou com a realização de oito Rodadas: a primeira ocorreu em Genebra no ano de 1947, onde o acordo foi instituído; a segunda foi a Rodada de Annecy em 1949; a terceira foi a Rodada de Torquai em 1951; no ano de 1956 ocorre uma nova rodada em Genebra. A partir da Rodada de Dillon, iniciada em 1960 e findada em 1961, os encontros entre os países começam a durar um período de tempo mais longo, sobretudo devido à complexidade dos temas que passam a ser abordados em um contexto de intensos fluxos comerciais entre as nações, e à dificuldade de se chegar a resoluções consensuais entre as partes. À essa rodada, seguiu-se a Kennedy, que ocorreu entre 1964 e 1967, e foi seguida pela Rodada de Tóquio, realizada entre 1973 e A Rodada do Uruguai e a Criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) A última rodada do período GATT, Rodada do Uruguai, é vista como a mais importante do ponto de vista da institucionalização do comércio internacional, ocorreu no período entre 1986 e 1995, e nela foi instituída a Organização Mundial do 7

9 Comércio. A OMC foi criada através do Acordo de Marrakech no ano de 1994 e entrou em vigência no dia 1º de janeiro do ano de Apesar de ter como base constitutiva e estrutural os princípios determinados pelo GATT, é, diferentemente do mesmo, uma organização permanente, e não um acordo temporário de comércio internacional entre as nações, possuindo personalidade jurídica própria. Ademais, o fato de possuir uma base institucional e ser formada por membros, e não por partes contratantes é um diferencial da OMC em relação ao GATT. As decisões tomadas no âmbito da Organização Mundial do Comércio possuem cunho multilateral e baseiam-se no modelo de single-undertaking, isso significa que para que uma decisão seja tomada todas as partes envolvidas necessariamente precisam estar de acordo com ela e com todas as cláusulas envolvidas. Entre os objetivos da organização, temos os que já se faziam presentes no GATT como a regulação do comércio internacional, evitando a ocorrência de protecionismos, e objetivos que foram incorporados devidos a atual conjuntura do Sistema Internacional, como: a busca pela elevação dos níveis de vida, o uso do pleno emprego, o uso responsável e consciente dos bens naturais, além da proteção do meio-ambiente. Ademais, tem-se a observação da necessidade de se realizar esforços que assegurem a participação mais efetiva dos países em desenvolvimento no comércio internacional. Hoje, a OMC conta com a participação de 160 países membros. (É interessante acessar o mapa interativo presente em: https://www.wto.org/english/thewto_e/countries_e/org6_map_e.htm) 2. A Rodada de Doha A Rodada de Doha é um espaço de negociação internacional criado em 2001 durante a IV Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio, que se realizou na cidade de Doha no Catar. É importante destacar que a Rodada aconteceu em um contexto histórico-político internacional extremamente conturbado, sobretudo devido ao fato de ter procedido os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos, onde havia muitos desafios para os países que precisavam ser contornados para que assim pudessem ocorrer melhorias, e o consequente incremento do comércio internacional. Esta foi a primeira rodada de 8

10 negociações multilaterais a se realizar no âmbito da OMC, e historicamente o nono encontro desde a criação do GATT. Doha apresenta como objetivos principais: i) redução dos picos tarifários, altas tarifas, escalada tarifária e barreiras não-tarifárias em bens não-agrícolas Non-Agricultural Market Access NAMA; ii) discutir temas relacionados à agricultura subsídios, apoio interno, redução de tarifas e crédito à exportação; iii) negociar a liberalização progressiva em serviços, conforme estabelecido nas discussões do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços GATS; iv) ampliar o Acordo TRIMs Trade Related Investment Measures, cujo alcance está relacionado aos investimentos em bens, abrangendo temas como escopo e definição, transparência, não-discriminação, disposições sobre exceções e salvaguardas do balanço de pagamentos, mecanismos de consultas e solução de controvérsias entre os membros; v) discutir a interação entre comércio e política de concorrência princípios gerais de concorrência, de transparência, não-discriminação, formação de cartéis, modalidades de cooperação voluntária e instituições de concorrência para os países em desenvolvimento; vi) negociar maior transparência em compras governamentais; vii) melhorar o arcabouço institucional ao comércio eletrônico; viii) aprimorar os dispositivos do Acordo de Solução de Controvérsias, considerando os interesses e necessidades especiais dos países em desenvolvimento; ix) conduzir negociações que aprimorem as disciplinas dos Acordos sobre antidumping, subsídios e medidas compensatórias, preservando seus conceitos básicos. (Disponível em: < Acesso em: 22 mar. 2015) As negociações feitas durante o lançamento de Doha envolveram 142 países que se dividiram em dois blocos que apresentavam interesses divergentes: o dos países desenvolvidos e o do dos países subdesenvolvidos. Nesse primeiro momento avançaram, por exemplo, as negociações que tratavam da quebra de patentes de medicamentos produzidos exclusivamente por laboratórios nos países desenvolvidos por países subdesenvolvidos, em casos de riscos à saúde pública, onde os laboratórios das nações subdesenvolvidas poderiam realizar essa produção. A Rodada, que estava programada para terminar no ano de 2005, estende-se até os dias de hoje, sobretudo devido aos impasses entre os dois blocos no que diz respeito ao protecionismo alfandegário e as questões de subsídios. Ao mesmo tempo em que as nações subdesenvolvidas reivindicam que as desenvolvidas diminuam seus subsídios agrícolas, os incentivos oferecidos pelos governos desses países aos produtores agrícolas, e também que sejam reduzidas as barreiras alfandegárias impostas à entrada de sua produção agrícola nesses países, as nações desenvolvidas almejam a abertura dos mercados subdesenvolvidos a seus produtos industrializados. Existe, no entanto, a preocupação sobre os efeitos que a adoção de políticas liberalizantes poderia trazer aos países, como o custo social do 9

11 desemprego, associado a essa abertura, uma vez que a exposição de Estados que possuem produções não-aptas a concorrer de forma de igual com os demais seriam extremamente prejudicados tanto econômica, quanto social e politicamente. Esse se apresenta como o principal problema para Doha, e para o próprio funcionamento e incremento do comércio mundial. Esses impasses entre as nações contribuem para que a Rodada de Doha ainda não tenha sido concluída. Ademais, é importante destacar q que as negociações estão sujeitas a fenômenos internacionais, como a Crise Financeira que assolou o mundo no ano de 2008 e provocou uma estagnação das negociações. A recessão mundial que se seguiu a Crise fez com que os Estados adotassem medidas protecionistas, por meio da elevação de impostos sobre a importação, como medida de proteção de sua economia em um contexto extremamente desfavorável ao comércio internacional e no qual a exposição ao mercado mundial sem nenhum tipo de autoproteção econômica poderia levar a cenários econômicos extremamente negativos. A Rodada de Doha realizada no Catar em 2001 foi seguida por negociações feitas em Cancún, Genebra, Paris e Hong Kong. 3. Estrutura e Funcionamento da OMC Para a dinamização de seu trabalho, a OMC instituiu e aprimorou mecanismos e instrumentos ao longo desses dez anos de atuação. Hoje a organização conta com recursos como os Painéis, Órgão de Apelação, Entendimento sobre Solução de Controvérsias (ESC) e o Órgão de Solução de Controvérsias. O Primeiro Nível As Conferências Ministeriais configuram o nível mais alto do processo de tomadade decisão da OMC. Nelas são definidos os temas que serão tratados em cada rodada de negociação que devem ocorrer num prazo de até dois anos. Essa instância é composta por Ministros das Relações Exteriores e/ou os Ministros de Comércio Exterior dos países membros. Como no caso do GATT, o processo de tomada de decisão na OMC é através de consenso. Já ocorreram cinco conferências ministeriais. Em dezembro de 1996, na Conferência de Cingapura, quatro temas foram introduzidos na agenda da OMC: comércio e investimento, comércio e competitividade, transparência 10

12 nas aquisições governamentais e facilitação de comércio. Em maio de 1998, a Conferência de Genebra foi marcada pela celebração dos cinqüenta anos de formação de um sistema multilateral de comércio. Em dezembro de 1999, a Conferência de Seattle foi marcada pelo impasse nas negociações. Na Conferência Ministerial de Doha, 2001 conhecida como agenda para o desenvolvimento dois temas tomaram importância: agricultura e serviços. Essa conferência foi uma tentativa de lançar uma nova rodada para discussões a respeito do desenvolvimento que teria seu prazo na Conferência de Cancun, em setembro de Devido ao impasse gerado nas discussões a respeito do comércio agrícola por parte dos países em desenvolvimento representados pelo Grupo dos 20 com os Estados Unidos e a União Européia, a finalização da rodada foi adiada para a sexta conferência: Hong Kong em dezembro de O Segundo Nível Esse nível é representado por três organismos: o Conselho Geral, o Órgão de Solução de Controvérsias (OSC) e o Órgão de Revisão de Política Comercial (ORPC). O órgão mais expressivo é o Conselho Geral da OMC, um órgão permanente e que é formado por embaixadores ou chefes de delegações de todos os países membros sediados em Genebra ou nas capitais de seus respectivos países. A esse conselho cabe a função de zelar pelos Acordos Multilaterais, administrar as atividades diárias da OMC e executar as decisões das conferências ministeriais. Dessa forma, no intervalo entre as conferências ministeriais, o Conselho Geral assumirá as funções das mesmas. Esse corpo administrativo estabelece o seu próprio regulamento interno e aprova os regulamentos internos dos comitês (ver O Quarto Nível). Ele toma as medidas adequadas para assegurar uma cooperação eficaz com outras organizações intergovernamentais cujas competências estejam relacionadas com as da OMC (Acordo Constitutivo da OMC, artigo V). Também há a possibilidade de se estabelecer medidas com vista à consulta e à cooperação com organizações não-governamentais que tenham afinidades com os temas discutidos na OMC. Ainda nesse segundo nível, há diversos conjuntos de órgãos que são subordinados ao Conselho Geral. O GATT, o GATS (junto aos comitês e grupos de trabalhos de ambos), a TRIPS (ver O Terceiro Nível) mais alguns comitês e grupos de trabalhos (ver O Quarto Nível) respondem diretamente ao Conselho Geral. Também o Comitê de Negociações Comerciais da Agenda do 11

13 Desenvolvimento de Doha possui um vínculo direto com o conselho também. Além do Conselho Geral, há outros dois órgãos que auxiliam os trabalhos deste. O primeiro é o Órgão de Solução de Controvérsias (OSC) que é composto por todos os membros da organização sendo a instituição máxima do sistema de solução de litígios. Entretanto, há que se explicar o Entendimento sobre Soluções de Controvérsias (ESC), uma etapa anterior ao OSC. O ESC ao possuir características como um sistema quase jurídico, com grande grau de independência dos demais órgãos da OMC e por não requerer um acordo para fazer valer a sua jurisdição acaba se tornando um órgão de consulta. Para a economista Vera Thorstensen, os governos nacionais devem utilizar-se dos mecanismos colocados à disposição pelo ESC, para atacar as irregularidades praticadas pelos demais países para defender os interesses próprios e de seus exportadores. Na possibilidade de as partes não alcançarem um acordo, então, resta ao OSC analisar a questão. No conjunto de solução de controvérsias da OMC, o OSC é o instrumento principal do processo. Subordinado a ele está o Órgão de Apelação, que consiste num corpo independente formado por sete pessoas para rever o painel em questão. Isso ocorre quando uma das partes envolvidas no painel não aceita sua decisão. O segundo é o Órgão de Revisão de Política Comercial (ORPC), criado junto com a OMC, que tem o objetivo de estabelecer um cronograma anual de entrega de relatórios periódicos dos membros da OMC. E, com base nos acordos multilaterais de comércio, irá verificar a consistência das políticas econômicas dos países. Assim, a função do ORPC é a de revisar as políticas comerciais de seus membros e com isso contribuir para uma maior adesão dos mesmos às regras da instituição, à sua disciplina e aos compromissos assumidos nos acordos multilaterais de comércio. Essa é uma forma de se aumentar a transparência entre seus participantes. A transparência, uma das três regras do sistema multilateral de comércio, melhora o funcionamento desse sistema porque transmite maior compreensão das políticas e das práticas comerciais. O Terceiro Nível Aqui há três Acordos: o GATT, O GATS e o TRIPS. O primeiro, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade GATT) foi substituído pela OMC em Atualmente esse acordo é colocado dentro da OMC para regular as tarifas e o comércio. O Acordo Geral de comércio de serviços (General 12

14 Agreement on Trade in Service GATS) tem como objetivo estabelecer um quadro de referência multilateral de princípios e regras para tal comércio. O acordo inclui mais de 150 subsetores em que contemplam serviços profissionais e de consultoria (médico, jurídico, engenharia, contábil, pesquisa e desenvolvimento, computação, imobiliário, propaganda e vendas), serviços de comunicação, serviços de construção e de engenharia, serviços de distribuição, serviços de educação, serviços ambientais, serviços financeiros e seguros, serviços de turismo e viagens, serviços de recreação, cultural e de esporte, serviços de transporte e entre outros serviços. O Acordo sobre Aspectos do Direito da Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio (Agreement on Trade- Related Aspects of Intellectual Property Rights TRIPS) tem como objetivo criar uma situação para negociações multilaterais de princípios, de regras e de disciplina relacionados com os direitos de propriedade intelectual. O Quarto Nível Esse nível é formado por uma grande quantidade de comitês e grupos de trabalhos que tratam de diversos temas. Uma parte destes são ramificações dos trabalhos do GATT e do GATS. Outra parte faz parte dos trabalhos de outro conjunto de comitês e grupos de trabalhos que não se encaixam nem ao GATT e nem ao GATS. 13

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16 4. O Acordo TRIPS O Acordo TRIPs (do inglês Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights, Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio) é um tratado Internacional, integrante do conjunto de acordos assinados em 1994 que encerrou a Rodada Uruguai e criou a Organização Mundial do Comércio. Durante a Rodada Uruguai, a negociação do TRIPS provavelmente foi a mais tensa. Os outros dezesseis acordos propunham abertura de mercado, redução de tarifas, redução de barreiras alfandegárias. Todos atuariam no sentido de abertura comercial. O TRIPS, por sua vez, era diferente ao criar barreiras. Barreiras essas que serviam, principalmente, para proteger aqueles países que já possuíam tecnologias, e, portanto, já tinham como garantir patentes. Portanto, o TRIPS acaba deixando o sistema de conhecimento científico e tecnológico, de certa forma, estático, inibindo aqueles que não produzem de começarem a produzir. E, num mundo globalizado e predominantemente neoliberal, o conhecimento científico e tecnológico acaba se tornando um dos bens mais valiosos. O TRIPS foi negociado no final da Rodada Uruguai dentro do Acordo Geral de Tarifas e Troca (GATT) em Sua inclusão foi o resultado de um programa feito pelos Estados Unidos, com o apoio da União Europeia, Japão e outras nações desenvolvidas. Campanhas de apoio econômico unilaterais sob o Sistema Geral de Preferências dentro da seção 301 das Leis de Comércio tiveram um papel importante em derrotar políticas em oposição que eram favorecidas por países em desenvolvimento, principalmente Coreia do Sul e Brasil. A estratégia dos Estados Unidos de ligar políticas de comércio a padrões de propriedade intelectual podem ser observadas, por exemplo, na ação de gerenciamento sênior na farmacêutica Pfizer no inicio dos anos 80, que instigou corporações nos Estados Unidos e fizeram com que a maximização dos privilégios de propriedade intelectual fosse a prioridade número um da política de comércio nos Estados Unidos. Depois da Rodada de Uruguai, o GATT se tornou a base para o estabelecimento da Organização Mundial do Comércio. Devido ao fato de que ratificações do TRIPS sejam um requerimento compulsório para filiação à Organização Mundial do Comércio, 15

17 qualquer país buscando obter acesso fácil aos inúmeros mercados internacionais abertos pela Organização Mundial do Comércio devem decretar as rigorosas leis estipuladas pela TRIPS. Por essa razão, a TRIPS é o mais importante instrumento multilateral para a globalização das leis de propriedade intelectual. Estados como a Rússia e China em que se esperaria improvável a ratificação da Convenção de Berna julgaram a afiliação à Organização Mundial do Comércio um incentivo poderoso. Além disso, diferente de outros acordos em propriedade intelectual, a TRIPS tem um poderoso mecanismo de execução. Países podem ser disciplinados através do mecanismo de acordo de disputas da Organização Mundial do Comércio. É importante, para entender o significado histórico e as consequências do TRIPS conhecer a origem e a trajetória das patentes e do conceito de propriedade intelectual. Desses dois vetores patentes e propriedade intelectual - derivam questões cruciais que, embora aparentemente não relacionadas, estão sendo tratadas por esse acordo, ou surgindo dele, como limites dos direitos intelectuais, quebra de soberanias nacionais, disputas sobre a fabricação de remédios. Tudo isso está associado ao TRIPS e só pode ser adequadamente compreendido dentro da moldura legal estabelecida pelo Acordo. As patentes, como conhecemos, tiveram início na Inglaterra, durante o período da Revolução Industrial. O objetivo original era assegurar o monopólio de qualquer invenção, numa época de intensa criatividade e profundas inovações tecnológicas. Os anos da Revolução Industrial viram a maior quantidade de invenções, de inovações, que já houve em qualquer período da história da humanidade, particularmente nas áreas de tecelagem e indústrias em geral, e numa velocidade até então desconhecida. Embora já existisse a expressão patente, significando alguns benefícios que os duques de Veneza davam para alguém que inventasse qualquer coisa, foi na Inglaterra que as patentes foram utilizadas no sentido que conhecemos hoje: como garantia de um monopólio temporário da produção daquilo que fosse inventado, mediante o atendimento de duas condições. A primeira, que o inventor desvendasse inteiramente sua invenção, para que outros pudessem utilizar-se dela. Com isso, os que estivessem trabalhando na mesma ideia ou na mesma área não precisariam reinventar o produto, podendo dar um salto tecnológico qualitativo a partir do que fora patenteado: como aquilo já havia sido descoberto ou inventado, bastaria usar a inovação, desde que respeitados os direitos de monopólio. A segunda condição era que os inventores fabricassem seus inventos na 16

18 Inglaterra. Essa é a origem da chamada exigência de exploração local. O governo inglês oferecia, a quem inventava, o monopólio da produção na Inglaterra durante determinado período (que poderia ser renovado, em alguns casos), em troca do compromisso de que o produzisse no país e, assim, ajudasse a desenvolver a economia local, usando matérias-primas e recursos humanos ingleses. A partir da Convenção de Paris, ocorre uma evolução no tema das patentes. Inicialmente, a Convenção de Paris reuniu todos os países que davam algum tipo de proteção à propriedade intelectual (ou seja, propriedade industrial e direitos de autor) e propôs uma padronização, um esforço de padronização. Como, naquela época, em 1883, a Inglaterra tinha uma legislação avançada, alguns países tinham algo precário, e muitos não tinham regulamentação alguma sobre o tema, criaram-se princípios que permitissem ao estrangeiro, chegando a outro país, não se atrapalhar com a legislação local sobre propriedade intelectual ou, se ela nem existisse, poder se orientar pelos princípios básicos estabelecidos pela Convenção. Esses princípios são, em suma, dois: o tratamento nacional e o prazo de propriedade. O princípio do tratamento nacional determina que qualquer país pode ter a lei de propriedade industrial que quiser, desde que essa lei garanta aos estrangeiros o mesmo tratamento dado aos nacionais. A partir desse princípio, os países podem até não querer estabelecer patente para produto algum, ou estabelecer apenas para determinados setores. Portanto, desde que observado o tratamento nacional, os países têm total liberdade, cada um podendo fazer suas leis de acordo com sua política industrial. O segundo princípio, de prazo de propriedade, tem mais a ver com procedimentos. Por se referir mais a procedimentos práticos, está em constantes mudanças. Portanto, se alguém pedir e obtiver uma patente nos Estados Unidos, terá o monopólio para os Estados Unidos. Se pedir e obtiver para o Brasil, terá o monopólio para o Brasil. Este princípio pode parecer absurdo, mas não é, pois nenhum inventor ou empresa consegue manter um sistema de patentes no mundo inteiro, porque é muito caro e, às vezes, inócuo. Com o prazo de propriedade, o inventor tem 12 meses de prazo para pedir em qualquer lugar do mundo. E, durante esse prazo, ele continua a ter o monopólio. Nos anos 80 houve grande expansão das empresas americanas. A própria expansão levou os Estados Unidos a repensarem o sistema de patentes, tal como estava na Convenção de Paris. Chegaram à conclusão de que o sistema não dava proteção 17

19 suficiente para os proprietários das patentes. Portanto, percebeu-se, a partir daí, um conflito estrutural entre os países produtores de patentes e os países que as consomem. Os países de origem das grandes empresas, que também são os que detêm mais patentes (países europeus, EUA e Japão) com maciços investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia, querem, evidentemente, que as patentes tenham a maior proteção possível. Argumentando que a questão das patentes tinha forte influência no comércio internacional, os países desenvolvidos passam a objetivar levar a discussão para o âmbito do GATT. Como a tentativa de alavancar a OIC (Organização Internacional do Comércio) não dá certo, no pós Segunda Guerra Mundial o GATT passa a ser o local de discussão sobre o comércio internacional. Durante os 14 anos da rodada Uruguai, de 1980 a 1994, os países do primeiro mundo tentaram levar a propriedade intelectual para o GATT. A pressão sore os países médios acaba fazendo com que eles cedam, fazendo com que o tema da propriedade intelectual passe a ser discutido. A Convenção de Paris não lida diretamente com as durações das patentes, apresenta apenas que o país pode não dar patente ou pode dar por tempos diferentes para diferentes setores, desde que ofereça o mesmo tratamento para nacionais e estrangeiros. Ela permite, portanto, que cada um utilize o sistema de acordo com seu interesse, legislando livremente sobre propriedade industrial e buscando a política industrial que mais lhe interessa. A Convenção de Paris, quando criada, era o mecanismo que lidava com as questões de propriedade intelectual. De certa forma, o Acordo TRIPS se difere do que a Convenção de Paris representava. Primeiramente, o Acordo traz medidas de aplicação obrigatória (enforcement) que precisam ser previamente aceitas por qualquer país que queira se associar à OMC, enquanto a Convenção de Paris era um acordo que não exigia condição para nada, sem a obrigação para que os países se associassem ao mesmo. Portanto, o TRIPS trouxe uma obrigação para que os países cumprissem as determinações e leis. Com o TRIPS, o ônus cai sobre o acusado, trazendo prejuízos aos que copiarem a patente. A segunda característica que pode ser evidenciada no TRIPS é que ele promove uma padronização das leis de propriedade intelectual nos países ao redor do mundo. Nesse caso, o prazo de proteção passa a ser, obrigatoriamente, de 20 anos, a partir do pedido, em todos os setores do comércio. Como todos os setores de produção industrial estão submetidos a patentes, elimina-se, portanto, a liberdade que tinham os países de 18

20 utilizar o sistema de patentes segundo as características de sua política industrial. Qualquer produto novo com aplicação industrial e atividade tem necessariamente, o direito de ser patenteado. O que permanece, com o TRIPS, é a obrigação de se fazer uma patente em cada país. Isso, atualmente, pode ser feito através do Patent Cooperation Treaty, pela Internet. Uma terceira diferença importante é que o TRIPS, além de padronizar leis e criar um sistema de enforcement para cumprimento de exigências, cria um sistema internacional de solução de controvérsias, também no âmbito da Organização Mundial do Comércio. O sistema é sofisticado, mas quase automático. Quer dizer, se uma decisão de um país não agrada um segundo, ou vice-versa, é o órgão próprio da OMC que irá solucionar a questão. Essas mudanças foram possíveis a partir do momento em que as questões de propriedade intelectual passaram da Convenção de Paris para o GATT. O setor farmacêutico é um dos importantes dentro do comércio internacional e desse sistema de patentes e propriedade intelectual. As empresas do setor estão entre o grupo das que mais faturam e das mais poderosas do mundo. Com o TRIPS, países que antes não concediam monopólio produtos farmacêuticos passaram a conceder, por um período de vinte anos, garantindo a necessidade de se ter a patente para se produzir um medicamento, além do forte enriquecimento das empresas do ramo. Essas empresas do setor farmacêutico, portanto, ajudam a sustentar, de certa forma, o acordo TRIPS e suas regulamentações. Outros setores que também possuem grande participação dentro do TRIPS são os de software, tema que era relativamente recente, sem proteção, e o setor de produção de semicondutores. 5. As Discussões do TRIPS No Âmbito da OMC Acesso à medicina: Até recentemente, a proteção de patentes medicinais era pautado pelos governos em concordância com seus níveis de desenvolvimento industrial (SATYANARAYANA, 2007). Desde 1995, contudo, as indústrias farmacêuticas foram essenciais para que os regimes de leis de propriedade intelectual, como o surgimento do TRIPS (que possui metas cujas nações precisam respeitar em suas leis de proteção à 19

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