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1 VIAGENS Descrição de paisagens Ericeira O forte que estampa representa está sobraceiro à calçada que dá para a praia, e hoje acha-se desguarnecido. Segundo se depreende duma inscrição sobre a porta foi edificada por D. Pedro II em No chafariz chamado a Fonte do Cabo existe uma pedra embutida na parede com um emblema e legenda em caracteres góticos em relevo, que parece significar: «Feita na era de mil e quatrocentos e cinquenta e sete anos». Ainda existem restos do palácio do senhorio desta vila, o conde da Ericeira: Pela parte superior de algumas janelas vêem-se pedras com um leão esculpido. Estas paredes, a que o povo chama de Paço, são dignas de veneração por terem servido de residência, e quem sabe se de academia, ao nosso douto escritor D. Francisco de Meneses. Página 1 de 30

2 A meia légua ao nascente desta vila está aberta uma mina de barro branco no sítio chamado a Avesseira, que já tem sido explorada por conta das fábricas de louça das Janelas Verdes e Vista Alegre. Também por este mesmo sítio é situado o chamado Pinhal dos Frades, por ter pertencido ao Convento de Mafra. É uma importante propriedade nacional, assim pelo número como pela bondade e préstimo das árvores, que excedem em diâmetro e altura as de todos os outros pinhais circunvizinhos. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.190. (Colaboração de Dário Nascimento e Diogo Bento, 12º A) VIAGENS Descrição de viagem de barco Viagem a Londres Subi à tolda para respirar a aragem livre. Entretanto o navio levantou ferro, e começou a mergulhar seus fortes e velocíssimos remos. O sonho dourado de toda a minha vida ia finalmente realizar-se! Cortando por grandes dificuldades e endurecendo o coração a impressões tão pungentes, eu empreendia, só e Página 2 de 30

3 desprotegido, uma viagem, cujo móvel principal era o amor puro, franco e desinteressado. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.201. (Colaboração de Noémia Santos, professora de Português) Viagem a Londres Descrição de viagem de barco Evidentemente pelo tempo e pelo tombar compassado e violento do barco, navegámos em pleno oceano. O estrondo das águas quebrando-se no costado do navio, o ranger monótono do cavername, a bulha do vento e da máquina eram o pouco harmonioso acompanhamento que tive durante horas tristes de ansiedade. «Quem me manda a mim ser tolo, disse eu comigo e com os meus botões, para trocar pelos cómodos domésticos os dissabores ou os perigos de uma viagem? Por que não faço eu como tantos outros, que só de si curam, dando ao Diabo tudo que os molesta?» Perdoe o benévolo leitor este desabafo de egoísmo, que tinha suficiente desculpa no meu aflitivo estado. A imaginação representando-me a perspectiva de 5 dias assim Página 3 de 30

4 ou pior passados, tornava-me mais medonho o meu sofrimento. Felizmente, ao cabo de bastantes experiências, pude encontrar posição, se não cómoda, pelo menos suportável. Habituei-me ao seco balouço do meu novo berço, e fiz por aplacar a insurreição do meu estômago, que se ia tornando permanente. Para esse fim apurei a língua, e pedi ao nosso steward um pouco de chá verde. Em boa hora apareceu a chávena de green-tea trazida pelo diligente e caritativo criado. Foi, sendo suponho, recebida com especial agrado, porque sobre ela deixeime ligeiramente adormentar. Ao cair da tarde desse dia interminável consegui tomar um caldo, uma laranja, e um copo de vinho do Porto. Este frugal jantar, variado pelo chá e biscoito, ao almoço e merenda, repetiu-se todos os dias que passei embarcado, isto é, deitado. No leito superior ia um jovem e esgrouviado inglês que, segundo lhe pude tirar do bucho, era empregado na diplomacia. O meu sossegado companheiro era, com efeito, de uma reserva exemplar. Creio que durante a passagem não gastou nem me fez gastar uma dúzia de frases. Somente de horas em que quando dirigia algum monossílabo ao steward, que chamava em tom doce, sonoro, e, se é lícito dizê-lo, distintamente aristocrático Antes do jantar, de que eu não Página 4 de 30

5 partilhava senão o ingrato cheiro, vi suspensas e como caídas do tecto as longas e esguias pernas, coroadas pelo descarado tronco do silêncio attaché que passou a compor o seu vestuário, quase tão esperadamente como se fosse para um baile de corte. Invejei-lhe o sossego com que fazia estes preparativos. À hora do costume veio o criado apagar a frouxa lamparina e fechar a porta do beliche. Cessou o ruído do perpassar da gente. Somente de quando em quando, a campainha estridente do relógio e as vozes confusas do quarto quebravam o silêncio da noite. Enquanto os outros dormiam, velava eu, devorando o tempo com a impaciência do que não está bem. Sobre a madrugada pude também descansar um pouco. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp Dário Nascimento e Diogo Bento, 12º A VIAGENS Descrição de viagem de barco Viagem a Londres No dia seguinte, pela tarde, entrámos a segura e profunda baía de Vigo. Não careci de aviso. A progressiva serenidade com que o barco navegava era claro indício de que pairávamos sobre Página 5 de 30

6 águas mais quietas e bonançosas. Levantei-me logo, e escrevi a minha mãe. Vim depois gozar a vista da cidade, e observar o admirável porto que a Providência concedeu à Península para refúgio dos navegantes em suas tempestuosas costas. A cidade, que se assenta em anfiteatro no fundo do porto, tem um aspecto tristonho e miserável. O forte que a domina apresenta aos olhos do espectador a tosca frontaria de seus casebres e muros amarelados. A povoação é pequena. Não sobressaem nela, como devia esperarse, os estaleiros, nem as docas, nem os outros estabelecimentos de comércio. Avulta o castelo, imagem da guerra, e faltam os navios, imagem da paz! As montanhas que abrigam o porto do lado do norte, são altas, aprumadas e pitorescas. A ria alonga-se para o interior, e perde-se de vista em seu curso sinuoso por entre margens de selvática beleza. A duas léguas de distância banha-se em suas águas a vila de redondela, nomeada pelo número dos seus pescadores, e pela abundância dos seus vinhos. Enquanto permanecemos fundeados, atracava o barco um cardume de botes galegos, cujos marinheiros se distinguiam por camisolas vermelhos-escuras, e por seu peculiares barretes. Um Página 6 de 30

7 compatriota nosso, que se destinava a mais longa digressão, mas que não pôde pactuar com o enjoo, saltou em terra. O mesmo faria eu, se dali aos Pirenéus houvesse um caminho-de-ferro! O vapor largou daí a pouco, e eu gozei de novo sobre a tolda a vista das escuras e verdejantes serras, que encaixam paralelamente, numa grande extensão, a barra mais segura de Espanha. Ao anoitecer passávamos o ilhéu de Baiona. O frio e a agitação recrescente do mar obrigaram-me dentro em pouco a entrar em quartéis de inverno. Deitei-me, e dessa vez por largo espaço, até defronte das costas de Inglaterra. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p Rafaela Bandeiras Santos, 12ºPTG Descrição de Londres A estação do caminho-de-ferro é edifício vasto e construído nesse inimitável gosto da moderna arquitectura inglesa, em que a simplicidade se encontra quase sempre reunida à elegância. Era domingo e, segundo o costume do país, havia, por tal motivo, Página 7 de 30

8 menor número de carreiras. O trem estava a partir. Um guarda tomou a minha bagagem apressadamente e indicou-me, na longa fila de carros e carruagens, o waggon* para o qual devia subir. O trem posava sobre um alto e espaçoso telheiro, e dali a pouco entrou de andar com tal lentidão e suavidade, que me parecia ser puxado por cavalos. Mas não tardou que o silvo agudo da locomotiva e uma para mim extraordinária, mas mui agradável velocidade, me advertissem a que eu era transportado pelo vapor, o gigante do século XIX. O espaço desaparecido diante dos meus olhos maravilhados! Ao perto as pequenas cottages* dos cultivadores, guarnecidas de vidraças, os seus quintalinhos verdejantes, os seus moradores grandes e pequenos, homens e mulheres, as lisas azinhagas das aldeias, orladas de árvores, os serpejantes riachos e canais, cortando o terreno em todas as direcções, os campos tão regular e cuidadosamente amanhados, como se fossem tabuleiros de horta, belos grupos de maciços bosques de árvores frondosas, como principalmente se encontram neste país, onde a sua cultura é esmerada, e o fértil solo e a constante humidade do clima favorecem a sua vegetação, tudo isto Página 8 de 30

9 figurava-se uma bela miniatura de paisagem Suiça. Ao longe, no extenso horizonte, elevavam-se os azulados outeiros, suaves ondulações do solo que lhe quebram a monotonia, sem lhe alterarem sensivelmente a planura. Aqui e ali, a maior ou menor distância do nosso voo rasteiro, avistavam-se as ricas povoações ostentando a massa considerável de seus edifícios e altas torres. Desta sorte passarem diante de nós, como em revolvente panorama, Winchester com a sua soberba catedral e antiga povoação; Basingstoke, Kingston e outros lugares menos importantes, com as suas asseadas e alegres estações. Ao nosso lado ficavam os altos e elegantes colunelos do telégrafo eléctrico sustentando oito ou dez fios condutores de suas notícias. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p Francisco Menezes Leal, nº12 10ºC Inês Fernandes Gomes nº13 10ºC Mariana Matias Zeferino nº19 10ºC Página 9 de 30

10 VIAGENS Descrição de Londres A cidade, aglomeração inextricável, infinita, imponente de soberbos palácios e de elevados coruchéus; o Tamisa revolvendo lá em baixo suas águas negras e túmidas, sulcadas por centenares de navios de todas as dimensões; as pontes monumentais, que a consideráveis distancias comunicam as duas margens; tudo isto constitui um quadrado por tal forma gigantesca, que a imaginação sacia-se, e a vista cansada sucumbe debaixo do peso de tanta grandeza. Ao menos assim me aconteceu a mim, pobre filho de uma pobre terra, ao contemplar a face da moderna babilónia. Tanto fausto, tanto apuro, tanto progresso ao passo que me interessavam como objectos de estudo, vertiam na alma o sentimento indefinível de tristeza e de pesar, porque me lembrava o meu país, hoje tão arrasado e empobrecido, também outrora empunhava o ceptro dos mares, e que posteriormente concorreu não pouco, pelo desmazelo e ignorância dos seus naturais, para a existência destes monumentos, cuja magnificência me humilhava. Pagamos e Página 10 de 30

11 enriquecemos os mestres. Justo era, que agora, ao menos, aproveitasse-mos das lições! Entretanto atravessei Trafalgar Square, majestosa praça ornada de soberbos edifícios e gloriosos monumentos, onde vem confluir as ruas de maior trânsito da imensa movediça capital. Dali a pouco achava-me no Oliveira s hotel, Golden Square, em casa de português, e em campainha de portugueses. Essa circunstancia proporcionou-se, não só simpática hospedagem, mas excelentes companheiros para algumas digressões, e aprazível e em ensejo de pensar e de falar muitas vezes a respeito de Portugal. Ali pude colher também muitas e úteis informações sobre as cousas do país em que acabava de entrar. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp Emanuel Gomes Nº10 10ºC Mário Nunes Nº20 10ºC Descrição de Londres O que é Londres Um passeio pelas ruas, praças e jardins Regent Street à noite As crianças em St. James O chapéu Pobre Irlanda! O gaiato Policia modelo Londres ao domingo. Página 11 de 30

12 Não tentarei a descrição de Londres. Sobre ser quadro vasto, impossível de acomodar-se nas breves notas de uma viagem, não me julgo habilitado para traça-lo; e todavia demorei-me ali cerca de dois meses, e vi muitas das principais cousas, que chamam a atenção do observador. Mas é que Londres resume a grandeza, a ciência, a industria, a riqueza, e o fausto da Inglaterra, e por isso carece de anos para conhecer no admirável desenvolvimento de suas instituições, de suas empresas, e suas obras gigantescas. Direi, pois, pouco e sobre poucas cousas, traduzindo com fidelidade as variadas impressões que elas me suscitaram. Londres divide-se naturalmente em três grandes bairros, a cidade velha, a cidade nova, e a cidade de além-rio. A cidade velha, ainda hoje denominada a city, é a parte quase exclusivamente comercial da povoação. Nela se encontram as docas, a alfândega, o banco, a moeda, o correio, e muitos dos principais armazéns. No seu centro campeia a majestosa Catedral de São Paulo, sobre a pequena eminência de Ludgate reid. À beira do Tamisa numa ligeira encosta está situada a antiga Torre de Londres. Este bairro tem uma fisionomia particular. As ruas são nele geralmente mais Página 12 de 30

13 estreitas, e os edifícios mais antiquados e irregulares. Sobretudo a concorrência de gente em algumas das suas ruas e veículos, e pasmosa e quase processional. Não é raro ter o viandante de esperar cinco ou dez minutos que se interrompa por um pouco a longa fila de ómnibus, carruagens, cabs, waggons e carros de mão, para atravessar de um lado para outro. A cidade nova se estende para o oeste, desde o Strand até Chelsea, Paddington e Regent s Park, é a parte elegante, grandiosa e aristocrática da povoação. Ali se vêem as mais belas ruas, os lindos squares, os soberbos edifícios, os vastíssimos passeios, e os numerosos teatros, museus e bazares. Trafalgar Square é o centro deste magnifico bairro onde vêm confluir as ruas mais frequentadas dele. A formosa Abadia de Westminter, o colossal palácio do Parlamento, o riquíssimo Museu Britânico, a formosa Regent Street, primeira rua do mundo, o vasto Colosseum, distinguem-se ali entre milhares de construções mais ou menos sumptuosas e originais. As classes ricas povoam em boa parte este grande bairro, e Eaton Square, Belgrave Square, Portman Square e Portland Place, são residências dignas de príncipes. Infinitos ómnibus e luzidas equipagens cruzam as ruas, Página 13 de 30

14 em cujo largos passeios a turba peã gira e espairece. As lojas ostentam em seus amplos e rasgados mostradores infinita variedade de valiosas mercadorias. Tudo o que a arte ou a natureza pode oferecer e mais belo ali se encontra; tudo que o luxo pode apetecer de mais caprichoso ali se satisfaz. Money é a varinha mágica que tudo alcança. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp Ana Catarina Gonçalves nº2, 10ªC Ana Rita Gomes nº4, 10ªC VIAGENS Descrição de Londres A cidade de além rio, denominada Southwark, que se estende desde Lambeth até Surrey e Deptford, é a parte, a bem dizer, fabril da povoação. Além de vastos armazéns e estaleiros, predominam ali as fábricas de diversos géneros, principalmente fundições de ferro, saboarias e gasómetros. A grande quantidade de chaminés, altas e esguias, como mineretes de mesquita oriental, espalham na atmosfera nuvens de fundo de carvão, cujos vestígios enegrecem as paredes dos muros e oficinas, este barro possui,todavia, algumas ruas espaçosas, como Borough e Westminster Road, Página 14 de 30

15 principalmente habitadas por mercadores e lojistas. As concorridas estações dos caminhos de ferro do Sul e Leste, que por Folkston e Shouthampton comunicam a Inglaterra com a França e o oceano, acham se ali estabelecidas. Ainda que ligada á margem do Norte por pontes, esta parte da cidade apresenta, em geral, um notável contraste de inferioridade, pelo que respeita ao movimento, ás construções e ao asseio. Tais são as divisões naturais da opulenta capital das dez mil ruas,travessas, becos e pátios, das oitenta praças de todos os tamanhos, e das cento e setenta mil casas! NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.288. Maryline nº21, 10ºC Mafalda nº17, 10º C VIAGENS Descrição de Londres O domingo em Londres é duma sensaboria proverbial. As lojas fechadas, as ruas desertas, os repiques dos sinos, as igrejas cheias de devotos, as tabernas atulhadas de fregueses. O honesto cidadão encaixa-se em casa ou vai espairecer ao campo. A tafula Página 15 de 30

16 criada de servir sai a passeio, e só de noite regressa à casa de seus amos. Os passeios são também concorridos ao domingo. Todavia nunca descobri neles, nem noutra alguma parte, o tipo puro e extremo do peralvilho, como avulta em Lisboa, e como depois o fui observar em Paris. Os ingleses têm o admirável bom gosto de não serem janotas. São muito livres em seus movimentos para se sujeitarem ao empertigado molde de um espartilho, e bastantemente judiciosos para perderem o tempo por cavacos e soalheiros em escandalosa ociosidade. Contentam-se da modesta honra de apresentarem o seu pais cortado de caminhos-de-ferro, coalhado de fábrica, primorosamente cultivado, e abundantemente cheio de tudo quanto há rico ou curioso útil ou agradável a vida. E por isto lhes não quero eu mal. Assim o seu Governo não procurasse engrandecer-se, como o tem feito, a custa e com o suor e o sangue dos povos pequenos, francos e atrasados! NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.292. Bruno Daniel Ferreira Rodrigues, 12º PTG Joana Dias,12ºPTG, nº10 Página 16 de 30

17 VIAGENS Descrição de Londres O Instituto Politécnico oferece algumas horas de instrutiva recreação. O salão central tem um vasto tanque, onde se fazem as experiencias do sino mergulhador. Os curiosos pagam por esse divertimento mais um shilling adicional. Na noite em que ali fui, vi sair dentro dele, como pintos de sob as asas da galinha, três homens e duas senhoras. Não me pareceu que ficassem com vontade de repetir o ensaio. Depois meteu-se debaixo de agua, e nela, esteve, durante alguns minutos, um búzio, vestido com fato impermeável, e coberto superiormente por um forte capacete, do qual saía um tubo condutor do ar. O robusto inglês, quando se viu livre das suas calças pardas, suava como um touro. É inumerável a quantidade de desenhos, de modelos e de pequenas maquinas, que ali se observam. Algumas delas, as de vapor por exemplo, estão em movimento. Advertidos por um ligeiro toque de sineta os concorrentes vão assistir á prelecção de ciência aplicada ás artes e aos usos da vida. Estas prelecções todas práticas, experimentais e expostas num estilo simples e ás vezes jocoso, costumam ser feitas Página 17 de 30

18 por homens de bastante crédito científico, cujo o nome se anuncia previamente. Durante meia hora ouvi discorrer sobre pneumática com aquela abundante facilidade dos oradores ingleses, que é o apanágio dos aproveitadores do tempo por excelência, e o tormento dos que, como eu, lhes não podem seguir o fio. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.295. Cláudia Macedo, 12º PTG VIAGENS Descrição de Londres O Panorama de Londres e o Terremoto de Lisboa atraem há muitos anos visitadores ao Colesseum. Fui lá uma noite. Subindo a aristocrática Portland Place e tomando à direita no Park Crescent, encontra-se a poucos passos a extremidade de Albany Street, solitária e larga rua, por onde se entra para a magnífica exposição de vistas do Colesseum. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p º PTG Página 18 de 30

19 VIAGENS Descrição de Londres - Espectáculos Os esplêndidos Willis Rooms em King Street, onde se dão os célebres bailes de Almaks, oferecem repetidas vezes concertos e jantares públicos. Fui convidado a assistir a um concerto diurno em que tocaram piano, harpa e rabeca alguns artistas distintos, cujos nomes infelizmente me passaram da memória, acrescendo a esta circunstância haver-se-me extraviado nítido programa, que lá se distribuía. A reunião era numerosa e escolhida. A mais religiosa atenção foi prestada aos diversos artistas. O grande salão era guarnecido de belas colunas, de trabalhosos relevos de estuque, e de profusos doirados. Enormes e magníficos espelhos decoravam o salão de imediato. Tudo conduzia, tudo respirava grandeza e elegância nesta noble mansion, que me deu ideia de que são célebres clubs de pall mall, soberbos palácios, construídos pelos primeiros arquitectos, onde os subscritores gozam, a certos respeitos, um serviço de príncipes. A associação, como e onde quer que a apliquem, produz sempre maravilhas. Página 19 de 30

20 NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.304. (Colaboração de Isabel Santos, professora de Inglês) VIAGENS Descrição de Londres Os clubes são uma das instituições mais originais e admiráveis da opuleta e engenhosa Inglaterra. Quem passar por diante do Athenaeum Club House ou do Reform Club e observar simplesmente os vestíbulos destes edifícios, cuidará que eles alojam reis ou imperadores. Pois nada disto assim é. Estes palácios não chegam mesmo a pertencer a qualquer membro poderoso da aristocracia britânica. Pertencem a vários homens, muitos deles medianamente ricos, mas superiormente ilustrados, que se associaram para gozarem em comum as comodidades, os prazeres e o luxo, que individualmente excediam as suas forças. Há clubes para as diferentes classes sociais, mas especialmente para as superiores. Há-os, também, pelo menos em nome, para membros de certas parcialidades políticas. A admissão dos sócios é feita por Página 20 de 30

21 votação de esferas. Paga-se jóia de entrada e uma subscrição anual destinada a suprir as despesas ordinárias do serviço. As comidas e bebidas são pagas simplesmente pelo preço de custo. Mr.Walker descreve assim as vantagens destas associações: «Uma das maiores e mais importantes mudanças modernas é o actual sistema dos clubes. As facilidades da vida foram por eles, a muitos respeitos, maravilhosamente aumentadas, entretanto que a despesa diminuiu consideravelmente. A custo de poucas libras por ano gozam-se vantagens que só grandes fortunas poderiam possuir. Vou explicar isto mais claramente por um exemplo particular. O único clube a que pertenço é o do Athaenum, o qual consta de mil e duzentos membros, entre os quais, em cada classe civil, militar e eclesiástica, pares espirituais e temporais (noventa e cinco nobres e doze bispos), membros da Câmara dos Comuns, homens das profissões científicas, assim os ligados À ciência, às artes e, nos seus principais ramos, como os destinos que não pertencem a uma determinada classe. Muitos deles encontram-se todos os dias, vivendo com a mesma liberdade, que teriam em suas próprias casas. Por seis guinéus anuais cada sócio tem às suas Página 21 de 30

22 ordens uma excelente livraria, mapas, jornais ingleses e estrangeiros, as principais publicações periódicas, e o necessário para escrever, com suprimento de tudo o que precise. A casa é uma espécie de palácio, e é regida com o mesmo cuidado e conforto, como uma habitação particular. Cada sócio +e um dono, mas sem nenhum dos cuidados do dono. Pode vir quando quiser, e estar ausente o tempo que lhe agradar, sem que as cousas corram mal. Tem às suas ordens criados atenciosos, sem ter de lhes pagar ou de os dirigir. Pode ter qualquer comida ou bebida que deseje, a toda a hora, e servir-se delas com o asseio e conforto da sua própria casa. Manda justamente o que lhe convém, sem ter de pensar senão em si. Numa palavra é impossível supor um grau maior de liberdade no viver. Os clubes, tanto quanto a minha experiência o mostra, são favoráveis à economia do tempo. Há um lugar fixo, onde se chegue; tudo é servido com a maior expedição, e não é ordinário ter grande demora à mesa. São, também, favoráveis à temperança. Parece que, quando a gente pode regalar-se à sua vontade, e quando tem oportunidade de viver parcamente raras vezes se cai em excessos. Página 22 de 30

23 NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp Joana Bárbara Severiano, 12º PTG VIAGENS A sociedade inglesa O espírito filantrópico dos Ingleses e o seu génio eminentemente empreendedor suprem, até onde é possível, os monstruosos defeitos da sua organização social. Sem as inúmeras instituições, que a caridade e a associação têm levantado naquele país para amparo das classes pobres e laboriosas, a sorte delas seria cem vezes mais lamentável do que é. As variadas misérias do pobre encontram ali quase sempre o seu lenitivo. Além das utilíssimas Work-houses há hospícios particulares para certas e determinadas doenças; há dispensary, boticas gratuitas em que se dão os remédios; há consultórios também gratuitos; há asilos para órfãos; há-os para mulheres grávidas e para convalescentes. Há, também, sociedades particulares consagradas a prevenir os vícios, os desmazelos e as doenças do povo. A soma que elas despendem anualmente só em dinheiro de donativos voluntários, sem contar os Página 23 de 30

24 serviços pessoais, passa de 50 milhões de libras. Há, igualmente, sociedades destinadas a propagar a instrução popular, a proteger as mulheres, a educar os órfãos e a moralizar as classes viciosas. Há, finalmente, estabelecimentos económicos, em que o pobre encontra, por um preço módico, alojamento, comida, lavadouro, banhos, livros e asilo para si e para os seus filhos durante as horas de trabalho. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.311. Renato Filipe Félix Oliveira VIAGENS Descrição de Londres Londres e o Tamisa, vistos de grande altura sobre o pavimento de Charing Cross Bridge*, são com efeito um quadro arrebatador. Olhando por esse rio abaixo, vêem-se a distâncias descomunais diversas pontes de variada e magnifica arquitectura. A cidade, estendendo-se por um e outro lado, fecha o horizonte com a mole imensa e seus edifícios. Não parece somente um cidade a que o espectador tem diante dos olhos, mas sim o acampamento de Página 24 de 30

25 uma grande nação, em que as barracas são templos e palácios. Na terra em que tudo é majestoso até as águas dos seus rios encobrem maravilhas, que a não estarem patentes pareceriam contos fantásticos. Costeando a margem esquerda do Tamisa, e descendo as estreitas e húmidas ruas de St. Catherine e Wapping, chega-se a um casebre de mesquinha aparência, por onde se desce ao famoso tunnel de Londres. Á porta paga-se penny. A escala é de uma profundidade considerável, mas espaçosa e clara. Os muros interiores são decorados com algumas pinturas a fresco, representado paisagens. *Ponte de Charing Cross NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo II, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, pp Liliana Firmino, 12º PTG Página 25 de 30

26 CIÊNCIA, TECNOLOGIA E PROGRESSO SOCIAL Evidentemente o espírito humanitário do século XIX alarga, de dia para dia, o horizonte de suas aspirações. Auxiliado pela ciência e pela riqueza ele encurta as distâncias, liga os continentes, aproxima os povos, destrói as barreiras e convida os produtores de todos os países a um certame nobilíssimo de aperfeiçoamento e de esforço. Os caminhos de ferro, as carreiras de vapores, os telégrafos eléctricos, as ligas de alfândegas, as exposições de indústria, os congressos da paz são os meios, materiais e morais, que a filosofia do nosso tempo emprega para aproximar a tão desejada, tão necessária e ainda tão distante harmonia universal. De todos esses meios, porém, todos eficazes e convergentes ao mesmo fim, um dos mais engenhosos e interessantes é o das exposições em grande e larga escala. Os governos e os indivíduos dos diversos países têm um igual interesse em que a sua indústria seja aí dignamente representada. Os governos lucram porque a apresentação de um produto natural ou artificial, consideravelmente Página 26 de 30

27 distinto, vai muitas vezes desenvolver uma indústria amortecida e, por consequência, aumentar a matéria tributável. Os indivíduos lucram, porque essa apresentação os acredita como produtores ou exploradores, e os enobrece com os prémios do júri eminentemente respeitável. Os próprios expositores não premiados lucram, porque ficam habilitados, talvez, a concorrer com mais fortuna em outra ocasião. Sobretudo lucram, e muito, os produtores dos países mais atrasados, se podem examinar os bons, os melhores exemplares da sua especialidade para, em seus trabalhos ulteriores, se aproximarem deles, e até para os igualarem ou excederem, se tão alto lhe fosse dado subir. Os indivíduos que por interesse particular ou por mera curiosidade concorrem a estas exposições, lucram também, vendo milhares de coisas, de que pouca ou nenhuma ideia faziam. Voltando aos seus lares eles são naturalmente os promotores dos melhoramentos, que os impressionam. Assim progride a civilização. Os inventores contam-se um a um. Os imitadores podem aparecer aos milhares. NOGUEIRA, José Félix Henriques, Obra Completa, tomo III, organizada por António Carlos Leal da Silva, 1979, p.76. Página 27 de 30 José Rodrigo, 12ªA, Nº17

28 CIÊNCIA, TECNOLOGIA E PROGRESSO SOCIAL Exposição de Paris Estas reflexões foram-nos suscitadas pela próxima exposição de paris. O Governo nomeou uma comissão de homens de ciência, para estudar ali os progressos da indústria com aplicação ao nosso país. Procedendo deste modo, o Governo fez o que cumpria em assunto tão ponderoso. Os nomes dos comissários oferecem ao país sólidas garantias de que o seu exame será tão consciencioso como fecundo em proveitosas indicações. Providenciou também o Governo para que dez artistas de Lisboa e Porto fossem àquela exposição observar o que se pudesse convir ao aperfeiçoamento dos seus respectivos misteres. Foi uma resolução judiciosa. Os homens de ciência encaram ordinariamente as questões em grande, no seu ponto de vista mais geral, nas suas aplicações, nos seus resultados, na sua influência sobre a economia social. Os homens de pratica atendem particularmente aos detalhes, às minuciosidades, a tudo o que pela Página 28 de 30

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