RETRATOS DA EDUCAÇÃO ESCOLAR EM GOIÁS NO SÉCULO XX

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1 RETRATOS DA EDUCAÇÃO ESCOLAR EM GOIÁS NO SÉCULO XX Introdução Diane Valdez 1 A fotografia revela os aspectos fisionômicos, mundos de imagens habitando as coisas mais minúsculas, suficientemente ocultas e significativas para encontrarem um refúgio nos sonhos diurnos, e que agora tornando-se grandes e formuláveis, mostram que a diferença entre a técnica e a magia é uma variável totalmente histórica. (Walter Benjamin) O presente trabalho é resultado de uma pesquisa na qual orientamos três turmas do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Goiás UEG/Campus Jaraguá. Durante o período de 07 meses de setembro de 2001 a março de 2002 as acadêmicas e os acadêmicos que cursam a disciplina de História da Educação III nos terceiros anos do referido curso, recolheram fotografias 2 em situação escolar nos arquivos públicos e particulares de várias cidades do Estado de Goiás. A etapa seguinte foi separá-las por década e particularidades para em seguida registrar o momento histórico do qual as mesmas retratavam. O objetivo desta pesquisa é o de construir elementos para estudos da História da Educação em Goiás no referido período. Percebemos que para podermos incluir no curso de História da Educação algo especifico da História local é de suma importância que tenhamos em mãos pesquisas e publicações que nos orientem nesse estudo. Portanto, pretendemos posteriormente organizar o material para publicar em forma de álbum de retratos acrescentando dados referentes às fotografias, momento histórico e mais pequenos registros sobre a história da educação do momento Defendemos também a pesquisa na universidade, em especial no curso de Pedagogia como principio de desmitifica-la e tomá-la também como processo de formação educativa: Pesquisa não é ato isolado, intermitente (...) Faz parte do processo de informação, como instrumento essencial para emancipação. Não só para ter, sobretudo para ser, é mister saber. (Demo:2000, p.16). Optamos pelas fotografias por acharmos relevante a socialização de fontes que, apesar de dispersas, podem ser recolhidas e organizadas antes que se percam e levem um pouco da história que muitos poderiam ter tido acesso. 1 Professora de História da Educação da Universidade Estadual de Goiás, mestra em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutorando em História e Filosofia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 2 Foram recolhidas cerca de cinqüenta fotografias das décadas de vinte a década de oitenta. Muitas já em estado desgastado pelo tempo e pelo não acondicionamento.

2 2 Essa é uma das formas da Universidade se integrar com a comunidade, e também da comunidade contribuir com a academia, com a pesquisa e com o registro de sua própria história: dispondo de meios que guardam em seus baús e que ultrapassam o limite da memória do ambiente familiar se estendendo e fazendo parte da memória coletiva de um povo em uma determinada época. A fotografia é uma fonte ainda pouco explorada na história regional, em especial na educação, apesar de ser um elemento rico no registro da história. Optamos também pelo registro da memória das pessoas portadoras dos retratos, ouvir sobre aquele momento pode nos ajudar a identificar as permanências e as transformação dos grupos que viveram diferentes momentos na história da educação goiana. A memória também se constitui em elemento essencial para o registro de um tempo pois nossas lembranças permanecem coletivas, elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós tivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, em realidade nunca estamos sós (Halbwachs:1990, p. 26). Portanto a memória da imagem retratada juntamente com os depoimentos orais formam o texto explicativo desse material que está embasado teoricamente com dados da História da educação do Brasil juntamente com as particularidades da história da educação, política e econômica da região. A fotografia como fonte de investigação O retrato não me responde, Ele me fita e se contempla Nos meus olhos empoeirados. E no cristal se multiplicam Retrato de família, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Ainda no século XIX, o historiador francês Fustel de Colanges declarava: Onde o homem passou e deixou marca de sua vida e inteligência, aí está a História. Para a História, a fotografia como fonte, provém da escola dos Analles (1929) na qual seus fundadores M. Bloch e L. Febvre conclamavam os historiadores à uma nova perspectiva documental que permitisse desvendar especificidades de épocas históricas. Todos os vestígios do passado são

3 3 fontes e matérias para o historiador, incluindo assim novos textos para leituras, como por exemplo a fotografia. Uma das primeiras formas de se registrar a imagem fotográfica foi apresentado pelo francês L. J. M. Daguerre, o inventor do daguerreótipo: o primeiro processo fotográfico bem sucedido. O invento foi apresentado à Academia de Ciência em Daguerre fixava a imagem sobre uma superfície de prata pura, colocada sobre uma placa de cobre fixando assim a imagem. O daguerreótipo não permitia reproduções, o exemplar era único, foi somente em 1851 que a fotografia permitiu reproduções com seus clichês de vidros e também a diminuição do tempo da pose que era até então de 20 a 30 minutos. As primeiras pessoas reproduzidas entravam nas fotos sem nada que a identificasse e a fotografia ainda não era instrumentos dos raros jornais. O rosto humano era rodeado por um silêncio em que o olhar repousava (Benjamin, 1985:95). Os assessórios dos retratos incluíam pontos de apoio como mesas, colunas e outros devido a longa exposição que o modelo teria que submeter, é a partir da década de 60 do século XIX que surgem os famosos ateliês com cortinas e paisagens pintadas, Benjamin (1985:98) exemplifica o que ele ironicamente chama de câmara de torturas com uma foto de Kafka: O menino de cerca de seis anos é representado numa espécie de paisagem de jardim de inverno, vestido com uma roupa de criança, muito apertada, quase humilhante, sobrecarregada com rendas. No fundo, erguem-se palmeiras imóveis. E, como para tornar esse acolchoado ambiente tropical ainda mais abafado e sufocante, o modelo segura na mão esquerda um chapéu extraordinariamente grande, com largas abas, do tipo usado pelos espanhóis. (Ibdem, 1985:98) Importante observar que quando chega no Brasil em 1840 o daguerreótipo é visto com bons olhos, a experiência visual possibilitava um novo tipo de auto-representação que era exclusiva da elite que detinha o privilégio de ter seus retratos pintados. O instrumento era considerado como uma jóia. No Brasil Império os daguerreotipistas ou fotógrafos procuravam utilizar da claridade tropical para favorecer uma boa imagem, os jornais da época anunciavam Tiram-se retratos todos os dias, das nove horas da manhã às três horas da tarde se forem crianças de dois a seis anos, só até o meio-dia (Mauad,1997:193). Óbvio que a criança pela sua própria natureza irrequieta teria que ficar menos exposta. Fotografar nessa época não era uma prática comum, as famílias tiravam retratos em ocasiões muito especiais, com exceção da família imperial:

4 4 Nenhuma outra família gastou tanto com fotografia quanto a imperial. D. Pedro II é sempre lembrado nos livros de história da fotografia como um dos grandes incentivadores dessa atividade. Segundo Gilberto Ferrez, o imperador, com catorze anos em 1840, época em que o daguerreótipo chegou ao Brasil, ficou tão entusiasmado coma invenção que adquiriu um aparelho, tornando-se, provavelmente, o primeiro brasileiro a fazer daguerreótipos. (Ibdem, 997: 197) A fotografia, a partir de então, ocupa um espaço determinante nas classes agrárias e urbanas, os fotógrafos eram solicitados pelos barões e outros para registrarem lembranças que iriam compor álbuns das salas de estar. Na monarquia tropical até mesmo a escravidão era retratada nas cartes de visite, (pequenos retratos do tamanho de um cartão de visita) a fotografia permitia maior visibilidade da monarquia ampliando as situações em que o soberano aparecesse em ambientes muitas vezes até imaginário. De toda maneira, diante da realeza, que traz consigo a idéia da imortalidade, o novo recurso permitia a ilusão da perenidade das coisas e se transformava em um ícone de época. De um lado representava a modernidade, de outro facilitava a nosso imperador cientista experimentar-se. Nas viagens que o monarca passará a empreender, a fotografia o acompanha de perto. (Schwarcz, 1998:355) As fotografias desse período são fontes preciosas para a História do Brasil Imperial. A iconografia que antes era representada pelos bicos-de-penas, tintas e outros materiais, inaugura em meados do século XIX a imagem impressa tal qual ela era. As fontes históricas ganham mais um instrumento: os retratos em papéis grossos que poderiam ser reproduzido e percorrer presentear pessoas em diferentes locais e sem muito esforço. Pela fotografia as famílias poderiam construir imagens de suas histórias e álbuns de fotografias com temas diversos de famílias, amigos, paisagens, tipos e outros, que se instalaram definitivamente daquele período histórico se estendendo à contemporaneidade de forma precisa e relevante. No decorrer do século XX a técnica da fotografia amplia, moderniza e democratiza um pouco mais, o que permanece é o costume de se colecionar fotos nos preciosos álbuns ou ainda nos baús e caixas de memórias. Registrar momentos de festas, comemorações, atos religiosos, nascimentos e outros já faz parte do cotidiano de diversos grupos. Nesse aspecto, o ambiente escolar passa a ser um local de registros, pois a escola, ou a educação escolar, se constituí como um espaço privilegiado socialmente.

5 5 Com a necessidade de se construir uma nova ordem no imaginário republicano, a escola se constituía como uma arma para efetuar o tão sonhado progresso da República implementada em Educar e higienizar o povo, em especial as crianças, era tarefa primordial da nova ordem e para tanto Para fazer ver, a escola deveria se dar a ver. Daí os edifícios necessariamente majestosos, amplos e iluminados, em que tudo se dispunha em exposição permanente. Mobiliário, material didático, atividades discentes e docentes tudo deveria ser dado a ver de modo que a conformação da escola aos preceitos da pedagogia moderna evidenciasse o Progresso que a República instaurava. (Carvalho: 1989, p. 25) Atrelado a isso, os republicanos sugeriam que a escola fosse um espaço lúdico, de diversões para criança e para a mocidade, práticas festivas, desfiles militares, comemorações de datas nacionais e festas tradicionais. A fotografia de crianças em situação escolar vai se instalando e torna-se um meio de propaganda no decorrer da República. Essa situação se estenderá pelo Estado Novo e se concretizará definitivamente nos tempos da ditadura. Contar a História da educação por meio de imagens, falar da memória fixada em um papel, da fonte histórica que é a fotografia de um tempo registrado exigem cuidados metodológicos pois entre aquele que olha e a imagem que elabora, há mais do que os olhos podem ver ou uma entrevista reavivar (Mauad:1999,1112). O que não podemos perder de vista é o fato de que a fotografia, enquanto documento histórico, deve ser inserida no panorama cultural da época, nesse sentido a imagem fotográfica seria tomada como índice de uma época, revelando, com riqueza de detalhes, aspectos da arquitetura, indumentária (...) Uma leitura que ultrapasse a avaliação da fotografia como mera ilustração. (Cardoso:1997, 406). Como na documentação escrita, a análise dos retratos deve ser criteriosa buscando revelar o que não foi dito, pois o fato de lidar diretamente com uma imagem elas trazem representações e alguns significados que precisam ser construídos tendo como referência principalmente a contextualização, no momento da averiguação Acrescente-se que as imagens precisam ser traduzidas por palavras, tanto para a sua análise como para sua comunicação, o que acrescenta a polissemia da imagens as ambigüidades provocadas pela alteração de códigos. (Leite: 2000, 16). Tivemos receio de trabalhar com essa fonte, pois o que nos pareceu nas imagens de diferentes décadas eram, a princípio, um emaranhado de situações diversas das quais teríamos

6 6 dificuldades em arriscar análises e interpretações. Depois de recorremos a bibliografia sobre o tema que não é extensa pudemos nos tranqüilizar e procurar utilizar desse recurso de pesquisa, alguns detalhes de descrição e narrativa que nos poderia oferecer alguns dados sem contudo cairmos no risco de análises simplistas, pois Por mais abstrata que pareça, a fotografia é sempre imagem de alguma coisa, além de que, tudo que se vê parece estar ao alcance, pelo menos do olhar de quem vê. Contudo, não só os fotógrafos manipulam as fotografias como, em certa medida, os cientistas sociais estabelecem o que deve ser visto. E apesar disso, esses acentuam a fé na veracidade fotográfica, e é com base nela que a fotografia vem invadindo os trabalhos científicos e históricos, até há bem pouco tempo avessos à documentação que não fosse escrita ou de observação participante. (Ibdem: 2000, 25) Diante dessa expectativa e cuidados é que nos propomos a discorrer sobre as imagens recolhidas, tendo como princípio, logicamente uma visão de história dinâmica, reforçando que analisamos partes da educação do século XX, imagens de um tempo que não é estático, que se transforma, que se contradiz e parafraseando o poeta um tempo que não para e... quantos de nós não rimos e retornamos ao passado alguns saudosistas reclamando o tempo bom de rígida disciplina ao olharmos a famosa cena tirada na escola de meio corpo sentada, tendo como apoio uma mesa, a bandeira nacional, um globo e um mapa do Brasil, as vezes segurando um lápis com uma borracha na ponta. Símbolos do conhecimento e da escola. Alguns fotógrafos até permitiam um leve sorriso, outros não, afinal a escola não é lugar de alegria, é um espaço sisudo e ficar estático com o olhar fixo em um local, sem muitas graças, eram critérios para uma boa lembrança dos tempos primários.

7 7 História e educação escolar em Goiás No semicírculo das cadeiras Nota-se certo movimento, As crianças trocam de lugar, mas sem barulho: é um retrato. Retrato de família, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Para o Goiás do século XIX 3, o descaso em relação à educação não tinha importância, pois não se desejava nem ansiava por escolas. Os pais que traziam seus meninos para com eles se embrenharem nos sertões à procura de ouro, como nômades, nem de longe se interessavam por escolas. Igualmente, mais tarde, quando a sociedade voltou-se para a produção pecuária, não interessava aos fazendeiros saber ler e escrever, nem aos funcionários do governo, e muito menos aos portugueses. O ensino era restrito ao lar, exercido por alguns pais letrados ou pela disposição de alguns fazendeiros que contratavam professores particulares para educar seus filhos. Goiás não contou com a tutela da Companhia de Jesus na educação, porém evidenciamos forte disposição da Igreja em catequizar os curumins, contando para isso, com inteiro empenho do Estado. Já no século XX, o então Estado de Goiás foi marcado nas três primeiras décadas especialmente pela continuidade de um Estado isolado, pouco povoado, quase integralmente rural, com uma economia de subsistência (Palacin:1994,p. 89). A Revolução de 30 (trinta) teve significados importantes para a região principalmente pelo feito da transferência da capital da cidade de Goiás para a moderna e planejada Goiânia em A partir de 1940 o Estado cresce rapidamente em ritmo acelerado culminado pela construção de Brasília em De acordo com alguns historiadores a década de setenta assiste uma impressionante explosão urbana com a criação de várias cidades e desenvolvimento de inúmeros tipos de serviços em especial a educação. No que se refere a educação, Goiás refletindo o que acontecia no país, rompeu com a Igreja na Primeira República, porém predominaram até meados do século XX as escolas privadas religiosas católicas, seja das irmãs Dominicanas, dos padres Redentoristas, Franciscanos e outros que educaram a elite goiana em diferentes locais. Os retratos, em sua 3 Ver mais sobre o tema no artigo Lição, palmatória e tabuada: imagens da educação em Goiás no século XIX de Valdez, D. publicado pela Revista Educativa, v. 4, n. 1, jan/jun/2001, UCG: Goiânia, p. 99/118.

8 8 maioria absoluta, 4 registram particularidades do ensino religioso, é visível a mistura dos terços nos uniformes compridos e as imagens de santos decorando o retrato, como na foto datada de 1938 na cidade de Goiás, da orgulhosa menina Zilda segurando um vaso de flores, homenagem da escola por seu excelente comportamento fato este que merecia, sem dúvida, uma pose para a posteridade aluna exemplar do colégio Sant Anna dirigido pelas irmãs dominicanas. De acordo com os depoimentos o uso do uniforme nos colégios religiosos não se restringiam somente as aulas, na missa nos finais de semana e no catecismo era obrigatório o uso das longas saias, a camisa branca de mangas com gravatas e... boinas... como na Europa. Um outro detalhe que nos chamou atenção nas imagens de escolas religiosas foram os cabelos cortados curtos, típico da década de trinta. Essa característica se estende para outras décadas até 50 é visível o cabelo do modelo francês chanel que igualmente fazia parte do uniforme das meninas, não havia espaços para as diferenças, nem no cabelo. Os prédios dessas escolas também se diferenciam largamente de outros ambientes escolares. A arquitetura já impunha o poder da Igreja católica 5, os prédios extensos e geralmente com mais de dois andares eram sinais de um ambiente sóbrio, escuro e de muita seriedade. A instrução pública em Goiás foi se instalando com muitas dificuldades, o ensino primário a cargo dos municípios era motivo de queixas como a do governador que declarou em 1916: Tudo isso envolve a triste verdade de que o ensino primário em Goiás é um mito, não existe. (Bretas:1991,p.505). É óbvio que um século determina mudanças na história, porém até por volta da década de quarenta era comum as mestras ensinarem seus pupilos nas enormes varandas de suas casas, cenas comuns nas fotos. Um retrato de 1942 aponta a casa da mestra Judite na cidade de Jaraguá, a frente de sua casa a professora se posiciona ao meio dos alunos como uma referência de sua importância. O prédio da escola, reunia meninos e meninas de diferentes idades em uma mesma série, característica do ensino rural que durante muito tempo predominou na região de Goiás. As fotos que traduzem a prática escolar na área rural indicam as condições em que a educação acontecia: são cenas próximas de ranchos de palha, professores do sexo masculino, em sua maioria, e as crianças de várias idades geralmente acima de sete anos reunidas com seus pés descalços e roupas simples. De acordo com os depoimentos, essas escolas 4 Importante lembrar que a elite era a classe preferencial desses colégios, o número de internas pobres era uma minoria, daí provavelmente o elevado número de fotos desses estabelecimentos, a fotografia não era uma prática assessível para todas as classes. 5 O número de fotografias de escolas religiosas que não pertenciam à Igreja católica é quase insignificante.

9 9 reuniam alunos e alunas que pertenciam a mesma família: irmãos, primos e outros que compunham as numerosas famílias rurais. Aparecem nas cenas paisagens típicas de fazendas e chácaras como vegetação do cerrado (pés de pequi, guariroba), serras, cercas de madeira, vacas e bois pastando, cochos de cavalos etc. Um outro detalhe que nos chamou atenção foi o número elevado de professores do sexo masculino. Até a década de sessenta, os professores homens dominavam a profissão em Goiás. As mulheres aparecem nas imagens muito mais a partir da década de sessenta. Isso também serve para o número de alunos em relação ao de alunas. Em uma sociedade tipicamente rural, o ensino para as meninas não tinha importância, de acordo com as imagens, o acesso do público feminino nas escolas em Goiás torna-se considerável a partir da década de sessenta. Já nos retratos que registraram cenas de desfiles escolares, festas comemorativas e outros, datam com bastante intensidade a partir da década de cinqüenta ocupando maiores espaços no período da ditadura militar 1964/1985 as décadas de sessenta e setenta apresentam alunos e alunas em diferentes locais, ruas, pátios etc., desfilando com roupas de militares, com bandeiras, honras e muita disciplina no alinhamento da fila e da marcha. Os pés levantados juntos, a meia abaixo do joelho, o uniforme bem passado e engomado, as roupas de ginástica, as meninas separadas dos meninos, os olhares de orgulho dos pequenos militares com quepes e sapatos brilhantes, a presença de cavalos, além de muitos outros detalhes, estão presentes nesse período da história na qual a escola foi um instrumento primordial na divulgação de idéias militares instigada pelo golpe que aconteceu no país. Quanto às fotos de meio corpo, tiradas como lembrança do tempo primário, elas não são recentes. Na década de quarenta já encontramos fotos de crianças sentadas atrás de uma mesa ou carteira, segurando lápis ou com as mãos apoiadas em cadernos e livros, o globo ou o mapa sempre presente, algumas trazem um vaso de flor e muitas outras fotos, especialmente nas décadas de sessenta e setenta, apresentam um novo elemento: um aparelho de telefone, o símbolo da modernidade contrastando com o velho globo e claro, acima o escrito República dos Estados Unidos do Brasil e Lembrança do ensino primário. E como foi preciosa essa lembrança para os poucos que freqüentavam escolas na região. Os inúmeros cenários que as fotos revelam dão pistas do ensino público dos Liceus e dos Grupos Escolares, das escolas dos meninos sérios com jeito de adultos, das meninas enfileiradas ordenamente e uniformizadas até no corte do cabelo e no laçarote do lado certo, das escolas militares com seus orgulhosos alunos e seus imponentes oradores, das escolas mistas de sexo, cor e idade, dos mestres que dominaram o ensino durante um tempo, das

10 10 freiras mestras com ares de severas, dos desfiles e festas cívicas, da disciplina invocada no alinhamento e na seriedade, do poder dos mestres no centro das fotos e muitas outras imagens que podem nos dar pistas de vários ensinos, de várias escolas, de inúmeras infâncias e adolescências, de diferentes prédios escolares, enfim um pouco da história da cultura escolar em Goiás que deve ser complementada com outras fontes, cruzada com outras indicações que possam nos levar a entender um pouco mais sobre esse espaço tão dinâmico e tão importante que é o espaço escolar. Bibliografia ANDRADE, C.D. Poesia completa e prosa em um volume. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar editora, BENJAMIN, W. Pequena história da fotografia. In: BENJAMIN, W. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Vol. I. São Paulo: Brasiliense, 1985, p BRETAS, G. História da instrução pública em Goiás. Goiânia: CEGRAF/UFG, CARDOSO, C.F. e MAUAD, A.M. História e imagem: os exemplos da fotografia e do cinema. In: CARDOSO, C.F e VAINFAS, R (orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus,1997, p CARVALHO, M.M.C. A escola e a República. São Paulo: Brasiliense/Tudo é História, DEMO, P. Pesquisa: princípios científico e educativo. São Paulo: Cortez, HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, LEITE, M.M. Retratos de família. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, MAUAD, A.M. Imagem e auto-imagem do segundo Reinado. In: ALENCASTRO, L.F. (Coord.) História da vida privada no Brasil: Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p PALACIN, L. e MORAES, M.A.S. História de Goiás. Goiânia: UCG, VALDEZ, D. Lição, palmatória e tabuada: imagens da educação em Goiás no século XIX. In: Revista Educativa, v. 4, n. 1, jan/jun/2001, UCG: Goiânia, p. 99/118.

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